Caçando Jeffrey Beall para calar a incomoda verdade sobre as revistas predatórias

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Até o início de 2017 era um leitor assíduo do blog que o Professor Jeffrey Beall da University of Colorado-Denver possuía na plataforma WordPRess, e lamentei que repentinamente ele tenha interrompido postagens e removido todo o material que havia depositado, principalmente os relacionados às editoras e jornais predatórios (ou como chamo pessoalmente de reprodutores de lixo científico).  Entretanto, graças a um par de artigos publicados pelo “Times of Higher Education” pude finalmente entender as razões que levaram ao professor Beall a tomar uma medida tão drástica e que literalmente deixou a incontáveis membros da comunidade internacional órfãos da valiosa informação sobre os editores predatórios e suas estratégias de venda e publicação de lixo científico [1 e 2]

Agora, já sei que Jeffrey Beall encerrou seu blog por pressões diretas da sua própria instituição e pelo medo de ser demitido do cargo que ali ocupa.  E isso já foi até explicitado num artigo publicado por Beall na revista “Biochemia Medica” em um artigo publicado em Maio deste ano [3]. Mas a leitura do artigo de um dos artigos da “Times of Higher Education” também elucida uma das fontes principais dos ataques feitos contra a lista preparada por Jeffrey Beall. E surpreendentemente, Beall aponta o dedo para seus próprios pares em outras bibliotecas universitárias, os quais estariam focados demais na rejeição às revistas publicadas pelas grandes editoras científicas mundiais para se deter de forma cuidadosa nos riscos que estão sendo criados pela disseminação do lixo científico publicado por jornais predatórios.

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O fato  é que não é preciso ir longe para verificar que muitos dos que se concentraram em atacar o trabalho voluntário de Jeffrey Beall,  de forma até virulenta, não mostram a mínima disposição para sequer falar dos riscos que estão sendo criados pela disseminação de um incontável número de revistas de acesso aberto cujo valor científico é praticamente nenhum.  Um dos resultados disso é o fato de que muitos pesquisadores estão se tornando vítimas de esquemas criminosos que são utilizados para ludibriar incautos em nome da velocidade de publicação.

Neste caso, me interessaria saber quantas novas “editoras” e revistas predatórias foram lançadas após o encerramento do blog do Professor Beall. Como ele mesmo descreve todo tipo de tentativas de coação para que ele interrompesse a publicação de sua lista, imagino que este crescimento esteja sendo exponencial em 2017. 

Uma coisa é certa: o problema causado pela proliferação de revistas (se é possível de chamá-las assim) científicas predatórias representa um grave risco à credibilidade da ciência, o que é particularmente grave num contexto histórico onde as forças mais reacionárias da sociedade vem escolhendo os cientistas como alvos específicos da sua fúria anti tudo o que pareça ser socialmente progressivo. Um exemplo disso é o presidente dos EUA, Donald Trump, que vem desmantelando toda a infraestrutura científica que foi construída na principal economia do planeta, de modo a impedir que sejam formulados alertas sobre o grave cenário ambiental em que estamos envolvidos.

Alguns poderão dizer que os cientistas que escolhem publicar em revistas predatórias são igualmente culpados pelo problema.  O problema é que as pressões feitas sobre os pesquisadores para que publiquem ou desapareçam acabam contribuindo para que a régua da escolha de onde publicar esteja sendo usada de forma muito frouxa.  Além disso, como ainda inexistem mecanismos para substituir a Beall´s List, aumentou-se consideravelmente o fosso da ignorância sobre quais e onde estão as revistas predatórias, o que nos coloca numa situação objetiva de “faroeste caboclo” onde é cada um por si mesmo.

Um aspecto final que precisa ser ressaltado é que parece prevalecer dentro da comunidade científica internacional (e na brasileira isso se dá de forma marcante) um silêncio em relação às revistas predatórias que normalmente se esperaria se encontrar em favelas dominadas por narcotraficantes ou milicias.  E como estamos no meio de uma profunda crise econômica nota-se muito pouca disposição para sequer tocar nesse assunto. E isto é lamentável, já que a consequência imediata disso será um aumento ainda maior na proliferação das revistas predatórias.


[1https://www.timeshighereducation.com/news/journals-blacklist-creator-blames-university-website-closure;

[2https://www.timeshighereducation.com/news/beall-social-justice-warrior-librarians-betraying-academy.

[3] Para baixar o artigo do professor Beall na Biochemia Medica, basta clicar [Aqui!]

Revista da Fapesp mostra os rumos e riscos da difusão das revistas “trash science”: até personagem fictício pode ser membro de corpo editorial

“Dra. Fraude” se candidata para vaga de editora

Quarenta e oito publicações predatórias aceitaram uma personagem fictícia em seu corpo editorial

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© VERIDIANA SCARPELLI

 

Representantes de conselhos editoriais de 360 revistas científicas de acesso aberto receberam em 2015 um e-mail de uma certa Anna Olga Szust, jovem professora do Instituto de Filosofia da Universidade Adam Mickiewicz, na Polônia. Na mensagem, ela se dispunha a atuar como editora das publicações, embora oferecesse escassas credenciais acadêmicas: no currículo, havia apenas alguns trabalhos apresentados em conferências e um capítulo de livro, cujo título sugeria que jovens mulheres nascidas na primavera seriam mais atraentes fisicamente do que as outras. Em pouco tempo, vieram respostas. Anna foi aceita como editora por 48 periódicos e quatro chegaram a convidá-la para assumir o posto de editora-chefe “sem responsabilidades”, como escreveu um dos interlocutores. Houve também uma oferta para ela ajudar a criar uma nova revista.

A facilidade com que a inexperiente e desconhecida professora foi atendida já seria grave. O caso, porém, revela algo muito pior: Anna Olga Szust não existe. A inicial do nome do meio e o sobrenome, juntos, formam a palavra polonesa oszust, que pode ser traduzida como fraudador ou trapaceiro. A personagem foi criada por pesquisadores de universidades da Polônia, da Alemanha e do Reino Unido, que a apelidaram de “Dra. Fraude”, numa investigação sobre o modo de operar das chamadas revistas predatórias, como são conhecidas as publicações que divulgam papers sem submetê-los a uma genuína revisão por pares – basta pagar para ver o artigo publicado.

“Anna foi criada justamente para ser uma péssima opção como editora”, disse à revista The New Yorker Katarzyna Pisanski, professora da Escola de Psicologia da Universidade de Sussex, no Reino Unido, uma das organizadoras do teste, coordenado por Piotr Sorokowski, pesquisador da Universidade de Wroclaw, na Polônia. O grupo publicou um artigo em março na Nature narrando a experiência – sem, contudo, revelar o nome das revistas. A frequência com que pesquisadores recebem convites por e-mail para integrarem o corpo editorial até mesmo de periódicos fora de sua área de especialização motivou o grupo a investigar o que havia de errado na forma de recrutamento. Os e-mails assinados pela “Dra. Fraude” foram enviados a 360 periódicos escolhidos aleatoriamente, parte deles indexados no Journal of Citation Reports (JCR), ligado ao Web of Knowledge, e parte no Diretório de Revistas de Acesso Aberto (Doaj, em inglês). Também serviu como base uma lista de revistas de acesso aberto suspeitas compilada por pesquisadores da Universidade do Colorado, nos Estados Unidos.

Nenhuma revista indexada no JCR respondeu ao e-mail. O estudo mostra que, dos periódicos que responderam à mensagem, poucos questionaram Anna O. Szust sobre sua experiência. E nenhum fez qualquer tentativa de entrar em contato com a instituição com a qual a falsa pesquisadora manteria vínculo. O currículo da“Dra. Fraude” foi cuidadosamente construído pelos autores do estudo. O e-mail continha seus interesses acadêmicos, dentre os quais história da ciência e ciências cognitivas, endereço eletrônico, uma fotografia e link para sua página hospedada no site da Universidade Adam Mickiewicz. Também foram criadas contas em redes sociais, como o Google+, o Twitter e o Academia.edu. Pelo menos uma dúzia de revistas condicionaram a indicação de Anna como editora a alguma forma de pagamento ou doação. Em alguns casos, foi exigido pagamento de uma taxa. Um periódico chegou a cobrar US$ 750, depois reduziu o valor para “apenas US$ 650”.

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© VERIDIANA SCARPELLI

 

Outros periódicos pediram à personagem que organizasse uma conferência e informaram que os trabalhos submetidos ao evento seriam publicados desde que os autores pagassem uma taxa. Um editor chegou a sugerir a partilha dos lucros: 60% para a revista e 40% para Anna. De acordo com a pesquisa, das oito revistas do Doaj que aceitaram Anna como editora, seis permanecem no diretório.

Publicar em uma revista de acesso aberto de prestígio não custa barato. Revistas da Public Library of Science (PLOS), por exemplo, podem cobrar de US$ 1.495 a US$ 2.900 para publicar um artigo. “Já as revistas predatórias cobram muito menos, entre US$ 100 e US$ 400”, disse em entrevista a The New York Times Jeffrey Beall, bibliotecário da Universidade do Colorado, criador de uma lista de publicações predatórias utilizadas no estudo. Na avaliação de Beall, a responsabilidade não deve recair apenas sobre os editores predatórios, pois a maioria dos pesquisadores que paga para publicar em revistas de baixo nível sabe exatamente o que está fazendo. “Acredito que há inúmeros pesquisadores que conseguiram emprego ou promoções valendo-se de artigos que publicam nesse tipo de revista, atribuindo essa produção científica como parte de suas credenciais acadêmicas”, criticou.

David Crotty, diretor da editora Oxford University Press, concorda que as revistas predatórias se tornaram mais presentes porque satisfazem uma necessidade de mercado. “Os editores predatórios de fato agem de maneira desonesta e enganosa, mas, ao mesmo tempo, atendem ao desejo de alguns autores de enganar os responsáveis pela avaliação de seu desempenho”, escreveu Crotty em artigo publicado em fevereiro no portal The Scholarly Kitchen. Enquanto os periódicos considerados legítimos, que se baseiam na revisão por pares, costumam demorar meses ou até mais de um ano para analisar e aceitar ou rejeitar um artigo para publicação, as revistas predatórias reduzem esse tempo a poucas semanas, ao adotarem um sistema de seleção frouxo ou inexistente.

Algumas instituições começam a propor ações para coibir o avanço das revistas predatórias. A Associação Mundial de Editores Médicos (Wame) divulgou no dia 18 de fevereiro um alerta no qual afirma que instituições científicas e centros de pesquisa precisam começar a monitorar pesquisadores que atuem como editores ou membros de conselhos editoriais de publicações suspeitas. Como medida punitiva, sugere às instituições o afastamento deles.

Um estudo recentemente publicado na revista BMC Medicine também destacou a necessidade de organizações científicas e de ensino serem mais rígidas com pesquisadores que corroboram as práticas das publicações predatórias. No estudo, os autores, entre eles Virginia Barbour, presidente do Committee on Publication Ethics (Cope), chama a atenção para os perigos da ação dessas revistas na área médica. “Quando não submetida ao escrutínio rigoroso da revisão por pares, a pesquisa clínica de baixa qualidade pode ter seus resultados incluídos, por exemplo, em um trabalho de revisão, poluindo o registro científico. Em biomedicina, isso pode resultar em danos aos pacientes”, conclui o estudo.

FONTE: http://revistapesquisa.fapesp.br/2017/04/19/dra-fraude-se-candidata-para-vaga-de-editora/

Segunda geração de “revistas trash” amplia risco de vulgarização da ciência

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O professor da University of Colorado-Denver, Jeffrey Beall publicou em seu site há poucos dias a ocorrência de uma segunda onda de editores de revistas de “trash science” (Aqui!). Esses editores nada mais seriam do que indivíduos que tendo trabalhado nas primeiras editoras “trash” decidiram criar seus próprios veículos para angariar recursos com autores incautos ou não. 

Eis que na manhã deste sábado (05/03) as minhas caixas de correio eletrônico amanheceram repletas de convites de revistas científicas obscuras, mas que estranhamente conseguiram me achar.

E, como não sou o único que deve ter sido “premiado”,  isto me leva a pensar que se há oferta, há demanda. Em outras palavras, se o número de revistas está proliferando é porque a competição permite que isto ocorra. Mas ainda há que se considerar que a relação custo/benefício deve estar ao lado dos editores destas revistas predatórias, já que só é preciso enviar um arquivo e depois pagar para que um pseudo-artigo possa ser citado como tendo sido publicado.

No caso brasileiro onde a adaptação a este tipo de oferta vem se dando sem nenhum tipo de amarra mais consistente, é bem provável que quem se serviu da primeira geração de editores “trash”, agora parta para abraçar sem nenhum remorso essa segunda onda de editores predatórios.

O pior é que naqueles poucos casos onde há algum tipo de cobrança de transparência como foi o caso do evento noticiado pelo jornalista Maurício Tuffani no seu blog (Aqui!) envolvendo a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o que se vê é a procrastinação em oferecer as respostas devidas.

O problema é que ao não se ignorar e rechaçar (em vez de abraçar) as revistas que proliferam lixo científico, corremos o risco de que em algum tempo não possamos mais separar o que é ciência real e o que simplesmente lixo científico. No caso de países como o Brasil, os custos desta complacência com os editores “trash” compromete o avanço científico que conseguimos com tanta dificuldade

O difícil trabalho de desvendar os (des) caminhos da produção de “trash science”

Percorrer e desvendar os caminhos do que eu rotulo de “trash science” pode parecer fácil, mas não é.  Um procedimento normal dos editores predatórios é enviar uma mensagem como a que aparece na imagem abaixo para vender a participação numa conferência ou a rápida publicação numa revista que esteja associada aos seus organizadores.

Online conference

Até ai, tudo bem. O primeiro problema é identificar quem é o organizador da conferência e como e a quem estão ligadas as revistas que são indicadas para publicação dos “artigos selecionados” da conferência.  Tive que gastar uns bons minutos para identificar que as três revistas indicadas pelos organizadores da conferência (cujo endereço de correspondência é localizado na cidade de Nova York).  Mas não consegui identificar com a mesma facilidade onde as revistas são “editadas” (ver a figura abaixo para uma delas).

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Uma pista é dada no site da International Journal of New Technologies in Science and Engineering que informa que 80% dos recursos arrecadados na cobrança de taxas de publicação serão doados para uma organização não governamental voltada para o atendimento de idosos na Índia ((Aqui!)   (Aqui!) )

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Mais fácil foi identificar que as revistas estão listadas na “black list” organizada pelo Prof. Jeffrey Beall (Aqui). Além disso, a medida de fator de impacto pelo qual as revistas estaria sendo avaliadas, o “Technical Impact Factor“)  também já foi denunciado pelo Prof. Beall como sendo um dos muitos fatores de impacto piratas que circulam no mercado das revistas predatórias (Aqui!).

Decifrados este percurso sinuoso, volto a me deter no qual denuncia tanto a conferência (que é acima anunciada como ocorrendo apenas via online, ou seja, de forma virtual) como as revistas a ele ligadas como predatórias (ou “trash science” no meu linguajar)  são as datas extremamente próximas entre o prazo limite de envio e a ocorrência da conferência. Outro sintoma são os preços que são oferecidos para os diferentes tipos de participantes. É que apesar das atuais taxas de câmbio, os preços são, digamos, bem camaradas, especialmente para pesquisadores com poucos recursos e desesperados para turbinar seus currículos.

O problema é que, como já foi apontado pelo jornalista Maurício Tuffani em seu blog, este processo acaba criando uma situação em que se fortalece e valida a existência de revistas predatórias. E isso ficou bem demonstrado quando 235 revistas predatórias (ou seja produtoras de “trash science“) foram detectadas no chamado Qualis Capes (Aqui!). E como o próprio Maurício Tuffani notou a recente tentativa dos comitês assessores da Capes de fazerem uma limpeza no Qualis Capes não representou mais do que um arranhão na armadura dos “trash science” que estão ali ranqueados (Aqui!).

E o problema é que enquanto convites como o que foi dissecado nesta postagem continuam chegando de forma volumosa, a reação da maioria da comunidade científica brasileira, e também internacional, é de minimizar os impactos mais amplos da disseminação de revistas e conferências predatórias sobre a forma pela qual se produz e avalia a produção científica. Isto já gerou e continuará gerando sérias distorções na formação das futuras gerações de pesquisadores. No caso brasileiro, a coisa é ainda pior, visto que nem uma valorização real se dá ao desenvolvimento científico, como ficou recentemente demonstrado pela nomeação do Sr. Celso Pansera para dirigir o Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI).

Jeffrey Beall toca na ferida dos impactos das publicações predatórias sobre a cultura científica (e seus sistemas de premiação)

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Ao longo deste ano tive a oportunidade de falar para diferentes audiências sobre o problema das revistas científicas predatórias e de seus impactos não apenas na qualidade das publicações, mas também na distribuição de verbas por agências de fomento, e também no processo de avaliação da qualidade do trabalho dos professores e da progressão funcional dos mesmos. A reação que venho tendo é um misto de inquietação e letargia.  Essa postura é para um reflexo de uma situação de deterioração da cultura que cercava a produção científica, onde publicar alguma coisa tinha normalmente como pré-requisito a existência de algo meritório de ser mostrado ao resto da comunidade de cientistas.

No caso brasileiro, a aceitação do engordamento de currículos via a colocação de trabalhos em revistas predatórias possui um efeito especialmente pernicioso que é de atrasar um processo de desenvolvimento científico no qual o nosso país já embarcou de forma tardia.  É que ao aceitarmos a penetração do “ethos” do “trash science” acabamos por investir recursos escassos e preciosos em publicações que efetivamente apenas objetivam recolher dinheiro, sem medir a qualidade do acaba sendo publicado.

Mas como já observei em várias ocasiões, o problema da expansão exponencial do “trash science” não se resume ao Brasil. Pelo contrário, o crescimento de publicações predatórias só é possível porque existe um amplo mercado a ser ocupado em escala global. O problema é que a expansão deste mercado acabou por criar graves deformações na forma de avaliar e valorar a produção científica.

Felizmente, existem vozes que estão soando o alarme sobre os impactos da expansão do “trash science“, e uma delas é o professor Jeffrey Beall da Universidade do Colorado-Denver que considero ser um dos pioneiros no alerta sobre os impactos prejudiciais das revistas predatórias sobre a qualidade das publicações científicas.  O Prof. Beall é o criador do que é provável a mais ampla listagem de editoras e revistas predatórias, e que se transformou num instrumento bastante útil a todos aqueles que querem evitar cair na armadilha dos “trash publishers(Aqui!).

Agora, o Prof. Beall acaba de publicar uma análise na revista “Information Development” que eu considero ser um ótimo ponto de partida para todos que querem entender melhor as modificações trazidas, bem como os desafios que isto criou, para a cultura científica.  O artigo cujo título é “Predatory journal and the breakdown of research cultures” pode ser baixado de forma gratuita (Aqui!). 

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Aliás, o que gostaria de ver é como reagem aquelas dezenas de editores de revistas científicas brasileiras que recentemente embarcaram numa espécie de “vendetta” coletiva contra o Prof. Beall por causa de uma postagem em que ele questionava a capacidade da plataforma Scielo de tornar conhecida o conteúdo das revistas que são ali hospedadas. É que passada aquela verdadeira tempestade num copo d´água, o Prof. Beall continua tocando na ferida exposta das revistas predatórias, as quais, interessantemente, ocupam principalmente o espaço de publicações de acesso aberto que procuram preencher.

E agora, será que teremos alguma reação aos comentários que estão contidos na peça produzida pelo Prof. Beall ou vamos ter que continuar assistindo a caçada impiedosa ao mensageiro, enquanto o “trash science” se expande a um custo financeiro altíssimo? A ver!

Métricas e lixo científico: porque o fator de impacto não é necessariamente uma boa medida de qualidade

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Estou cada vez mais convencido de que precisamos mudar a forma de avaliar o que são produções científicas efetivamente qualificadas, sem precisarmos cair nas muletas intelectuais rotuladas de “Fator de Impacto”. Antes que me acusem de ser um crítico invejoso dos que conseguem publicar em revistas com alto fator de impacto, as quais supostamente representam o cume da realização acadêmica, deixem-me compartilhar uma pequena experiência pessoal.

Essa experiência começou com um esforço que eu e dois colegas da Universidade Nacional de Brasília (UNB) estamos realizando para produzir um bom artigo científico sobre a expansão da monocultura  da soja na Amazônia ocidental, especificamente em Rondônia.   Estamos envolvidos nessa labuta há mais de um ano, e a primeira vez que submetemos o trabalho a uma revista de boa reputação, levamos um bonito toco. É que nos dito que o artigo carecia de algo que as revistas mais concorridas prezam muito atualmente, qual seja, um certo charme mercadológico.  Em termos práticos, a nossa primeira versão do artigo estaria muito centrada numa análise regional, e os editores das melhores revistas atualmente preferem análises mais generalizáveis.

Pois bem, após refazermos as análises dos dados, eis que nos defrontamos com o aspecto do interesse pelo nosso “produto”, já que no tocante ao avanço da soja na Amazônia brasileira está em voga dizer que não há impacto sobre as áreas ainda coberta por florestas, visto que essa monocultura só seria implantada em áreas já anteriormente desmatadas para o estabelecimento de outras culturas agrícolas ou para o estabelecimento da pecuária. De quebra, há ainda um aparente consenso de que a política chamada “Moratória da soja” produziu efeitos positivos no avanço do desmatamento de áreas cobertas por florestas nativas.

Como de praxe, buscamos realizar uma procura na literatura para melhor contextualizar os nossos resultados, e eis que nesse esforço encontramos um artigo publicado numa revista científica de acesso aberto que fazia considerações positivas sobre a eficácia da moratória da soja.  E importante notar, a mesma revista possui um bom fator de impacto no ranking conhecido como “Journal Citation Report” que é produzido pela megaeditora Thomson Reuters. Como utilizo sempre a “Lista de Beall” para verificar se determinadas revistas são publicadas por editores predatórios (Aqui!), fui lá e não deu outra, o editor da tal revista é apontada como predatório pelo professor Jeffrey Beall.

Este aparente paradoxo me levou a realizar uma pesquisa direta ao prof. Beall que, gentilmente, me respondeu que o editor em questão, o MDPI ( Aqui!), é efetivamente um predatório cujas decisões de publicação residem na capacidade dos autores pagarem para que isto ocorra. Quanto ao alto fator de impacto da revista, o professor Beall atribui isso à diferentes estratégias utilizadas da MDPI para elevar o nível de citação de seus artigos, a começar pelo uso de edições especiais e outros truques editoriais. Em função disso é que o professor Beall apontou que o “fator de impacto” não é uma medida de qualidade científica.

Resolvido em parte o enigma, verifiquei como anda o ritmo de citação do artigo em que os autores tecem loas à moratória da soja, notei que o mesmo foi igualmente bem citado no Web of Science da Thomson Reuters e no Scopus que é impulsionado por outra megaeditora cientifica, a Elsevier.  Diante disso, é que fiquei me perguntando quantos dos autores que utilizaram o trabalho publicado pela MDPI de forma crítica (ou seja, quantos questionaram os resultados ali apresentados) e quantos simplesmente  o assumiram como fonte válida de evidência científica.  

De forma provisória, já que não chequei os artigos que citaram o trabalho em questão, prognostico que a maioria assumiu os resultados como verdade, já que aceitar a tese da “moratória da soja” é um desses modismos que invadiu de sopetão os estudos sobre o avanço do desmatamento na Amazônia Brasileira.  E se isso, se confirmar, já que efetivamente vou verificar cada um desses estudos, estaremos diante de uma brecha inaceitável  para valorização indevida de revistas e editores predatórios em uma área que julgo estratégica não apenas para o Brasil, mas para todos os que perseguem usos social e ambientalmente sustentáveis dos ecossistemas existentes nas regiões tropicais.

De todo modo, se antes desse episódio eu já desconfiava da eficácia do Fator de Impacto para medir qualidade científica, agora não tenho mais dúvidas de sua pouca ou nenhuma utilidade para conduzir uma aferição válida de “qualidade”, mas quando muito da quantidade de citações. E olhe lá.

E a grita contra Jeffrey Beall continua. Os editores predatórios agradecem!

Bem que o jornalista Maurício Tuffani avisou em seu blog (Aqui! ) que a postagem do professor Jeffrey Beall sobre o Scielo (Aqui!iria dar oportunidade para que se jogasse uma nuvem de fumaça na discussão que realmente importa em relação à compilação da “Lista de Beall” onde estão reunidos a maioria das editoras e revistas predatórias que hoje garantem a publicação de uma quantidade imensurável de lixo científico pelo mundo afora.

É que para minha surpresa acabo de me separar com um blog (Aqui!) criado para circular e angariar apoio entre editores de revistas científicas para uma nota de repúdio (publicada em três línguas) à agora notória postagem do professor Jeffrey Beall sobre a capacidade do Scielo de ultrapassar os limites paroquiais da divulgação do conteúdo dos periódicos que são abrigados naquela plataforma.

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A coisa toda poderia ser apenas uma reação exagerada a uma postagem cujo teor agora parece ser o menos dos problemas para quem subscreve a referida nota de repúdio.  Mas como o veículo de circulação da nota de repúdio que promove a coleta de assinaturas e manifestações de editores de revistas hospedadas no Scielo é um blog hospedada na mesma plataforma em que o meu blog se encontra, eu procurei identificar, em vão é preciso frisar, quais atores o estão impulsionando.

Ai para mim começa um problema, pois na falta de nominação dos autores do blog, há que se pensar qual a razão de uma nota de repúdio/abaixo assinado/tribuna livre que, inclusive, usa o logotipo da Scielo. No mínimo, haveria que existir uma autorização formal para a utilização do logo. Para evitar julgamentos indevidos, procurei no blog mantido pela Scielo para ver o que encontrava sobre o assunto, e o máximo que encontrei foram outras três notas que igualmente ensejam o repúdio à postagem do Prof. Beall (Aqui!Aqui! e Aqui!).

A partir destas constatações, me fica a dúvida sobre qual é a posição oficial dos gestores da Plataforma Scielo sobre este imbróglio todo. É que ao postarem em seu blog institucional apenas posições contrárias ao conteúdo da postagem do Prof. Beall, a Scielo parece estar tomando partido em favor dos detratores,. Nesse caso, seria interessante que a Scielo informasse se tentou ouvir o outro lado da moeda, no caso o professor Jeffrey Beall, até para que ele pudesse se retratar de algum eventual malfeito.

A coisa fica ainda mais peculiar se juntarmos todos os ingredientes acima, começando pelo uso do logotipo da Scielo no blog “Pelo Scielo”.  Se o uso não foi autorizado, estamos diante de uma apropriação indevida. Já se o oposto for verdadeiro, teremos um caso em que um organismo (cuja existência é financiada pelos menos parcialmente por dinheiro público) empresta o seu logotipo para algo que pode ser considerado uma forma moderna de caças às bruxas a quem ousou, ainda que com equívocos pontuais, questionar a sua efetividade.

O interessante é que, ao longo dos anos sempre recomendei, a Scielo como um bom ponto inicial para jovens pesquisadores realizarem suas buscas por literatura científica qualificada. No caso do Brasil, onde a maioria dos nossos estudantes de graduação não possui fluência na língua inglesa, ter uma base como a Scielo não é um elemento negligenciável, muito pelo contrário. Agora, a partir dai considerar que o Scielo é a última fronteira na indexação de revistas altamente qualificadas já é um certo exagero, pois este não é efetivamente o caso.

Mas voltando ao que escreveu o jornalista Maurício Tuffani sobre o alívio que esse tsunami representa no necessário combate aos editores e periódicos predatórios, o que eu realmente gostaria de ler dos editores que já assinaram a tal nota de repúdio é sobre quais têm sido os cuidados tomados para que a invasão da “ciência trash” não inunde os periódicos por quem dizem ter tanto zelo. É que em um caso recente numa das revistas cujos editores assinaram o abaixo-assinado “anti-Beall”, e que eu mostrei aqui neste blog, o que se viu foi a necessidade de retratar um artigo publicado por múltiplas violações éticas que teriam sido cometidas pelo autor (Aqui!).

É diante deste quadro que eu considero toda essa gritaria “anti-Beall” um completo desserviço ao avanço da qualidade das revistas científicas brasileiras, estejam elas inclusas ou não no Scielo. É que não vai ser com o uso do “espantalho anti-gringo” que os problemas causados pela disseminação de “trash science” vão ser resolvidas. Aliás, muito pelo contrário.  E digo novamente, Jeffrey Beall não é o nosso problema. Quando muito ele é o mensageiro, ainda que com uma mensagem que possa criticada pontualmente.