Análise inédita identifica as lacunas entre gêneros nas políticas climáticas

Realizado pelo Imaflora em Piracicaba, estudo aponta barreiras para a participação feminina nas discussões climáticas a nível local

respirar-1Manifestante, em Paris, protesta contra o aquecimento global: “Feminismo e ecologia, um mesmo combate”. Foto Valentin Belleville / Hans Lucas

São Paulo, 17 de dezembro de 2020 – Uma análise inédita no Brasil investigou as formas de abordagem da questão de gênero nos planos climáticos municipais, tendo como estudo de caso uma iniciativa em Piracicaba, cidade do estado de São Paulo. Por meio do desenvolvimento do Plano Participativo de Adaptação e Mitigação do Clima, organizado pelo projeto do Imaflora “Pira no Clima“, o estudo encontrou, como principal resultado, que os diagnósticos e o mapeamento das zonas climáticas convencionais ainda não incorporam as percepções e necessidades diferenciadas das mulheres. Além disso, problemas estruturais afetam a maneira como mulheres e outros grupos marginalizados, como pessoas transexuais e negras, acessam os espaços de discussão.

A partir de uma revisão dos métodos utilizados para estimular a participação de mulheres no conteúdo do Plano e da observação de reuniões e interações específicas desse tema, o estudo apurou que existe uma dificuldade em mapear e inserir ações de planejamento que contemplem as diferentes necessidades de acordo com gênero e sua amplitude. Um dos motivos identificados pelo estudo é que o tempo de palavra dado às mulheres ainda é pequeno e prevalecem as visões do problema climático do ponto de vista dos homens. Além disso, apesar da presença de mulheres em espaços participativos ser de mais de 75%, há um monopólio predominantemente masculino das falas.

Foi observado, ainda, que é comum haver uma falta de homens para a discussão de temas relacionados à população vulnerável à mudança climática, como “gênero” ou “desigualdades sociais”, o que demonstra uma segregação de pautas e dificulta a queda de obstáculos que afetam ambos os gêneros, mas de forma diferenciada nos dois campos.

A Coordenadora de Projetos em Clima e Cadeias Agropecuárias do Imaflora e uma das autoras do estudo, Isabel Garcia-Drigo, explica que o comportamento e expectativas em relação aos diferentes papéis que homens e mulheres exercem na sociedade influenciam na forma como ambos os grupos lidam com as questões ambientais. “Cada gênero é afetado pelas consequências das mudanças climáticas de uma maneira diferente. O grupo feminino seria o mais afetado por já ter de lidar com atribulações decorrentes de padrões preestabelecidos para mulheres. Mesmo sofrendo mais o impacto das mudanças climáticas, as mulheres ainda são vistas como ‘incapazes’ e alcançam menos papéis de liderança em ações de mitigação das mudanças climáticas”, afirma.

Como mudar esse cenário

Uma das principais lições que pode ser tirada da experiência em Piracicaba é a necessidade da ampliação de processos que permitam a disseminação de metodologias e a criação de ambientes seguros que trabalhem com participação e equidade na elaboração de Planos Climáticos nos municípios brasileiros. Segundo o estudo, a escuta da perspectiva feminina e de outros grupos vulneráveis em geral ainda é defasada em relação ao protagonismo que deveriam ter na agenda climática do Brasil.

Além disso, é essencial criar um ambiente onde haja a identificação de vulnerabilidades e ameaças relacionadas a gêneros e, para isso, é preciso valorizar conhecimentos específicos que estejam preparados para captar essas particularidades. Como exemplo, um risco socioclimático importante relacionado às mulheres é o desenvolvimento de doenças na gravidez, geralmente potencializadas em altas temperaturas, como a pré-eclâmpsia. Também existem as casas chefiadas por mulheres em áreas de ameaça climática, como enchentes, que podem indicar múltiplas jornadas de trabalho e, portanto, e impactos amplificados na família. Esses conhecimentos estão atrelados à importância de ter um mapeamento de riscos socioclimáticos por meio de uma coleta de dados in loco para entender riscos, considerando as diferenças de gênero.

Isabel faz uma análise sobre quais deveriam ser os próximos passos. “É preciso aumentar e ampliar a pesquisa sobre os processos de construção dos planos de mitigação e adaptação às mudanças climáticas no nível local e, dessa maneira, formar um corpo de conhecimento empírico que seja útil para informar melhores políticas públicas de clima. O Pira no Clima se propõe a fazer esse processo e reflexão, mas isso precisa ser ainda mais estimulado tanto nos meios acadêmicos quanto no âmbito das organizações não governamentais que lidam com o tema”, finaliza.

Para ler a análise na íntegra, acesse aqui.

Sobre “Pira no Clima”

O projeto “Pira no Clima” é uma iniciativa do Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora). Atua para que Piracicaba construa e implemente um Plano Municipal Participativo de Mitigação e Adaptação às Mudanças Climáticas, através de princípios metodológicos e objetivos finais que buscam ampliar a participação e combater as desigualdades de gênero, ao mesmo tempo em que geram e difundem dados sobre o município. Para mais informações: https://www.imaflora.org/o-que-fazemos/politicas-interesse-publico/pira-no-clima

Sobre o Imaflora
O Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora) é uma associação civil sem fins lucrativos, criada em 1995 sob a premissa de que a melhor forma de conservar as florestas tropicais é dar a elas uma destinação econômica, associada a boas práticas de manejo e à gestão responsável dos recursos naturais. O Imaflora busca influenciar as cadeias produtivas dos produtos de origem florestal e agrícola, colaborar para a elaboração e implementação de políticas de interesse público e, finalmente, fazer a diferença nas regiões em que atua, criando modelos de uso da terra e de desenvolvimento sustentável que possam ser reproduzidos em diferentes municípios, regiões e biomas do país. Mais informações: www.imaflora.org

Informações à Imprensa
Jéssica Tabuti – 11 97270-0813 | jessica.tabuti@profilepr.com.br
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