“Você sabe com quem está falando?” em tempos de pandemia

vacina

Coube ao antropólogo Roberto DaMatta sintetizar a lógica autoritária com que os poderosos e mais abastados exercem suas prioridades sobre o resto da população brasileira sob a frase “Você sabe com quem está falando”?  DaMatta, aliás, acaba de lançar um livro com este título, onde ele promete explicar aspectos complementares do autoritarismo vigente na sociedade brasileira pela editora Rocco.

Apesar de ainda não ter tido a oportunidade de adquirir o livro de DaMatta, eu já me antecipo e indico que uma forma especialmente arrogante de exercício do “Você sabe com quem está falando?” está ocorrendo na furação de filas para ser vacinado contra a COVID-19. Um primeiro exemplo veio justamente de Manaus, onde duas irmãs gêmeas, jovens médicas e milionárias, foram nomeadas para a Secretaria Municipal de Saúde, aparentemente para furarem a fila da vacina. A situação acabou oferecendo ainda mais combustível para a a situação socialmente que foi gerada pela incompetência dos diferentes níveis de governo de impedir dezenas de mortes por asfixia por falta de oxigênio na capital do estado do Amazonas.

Engana-se que a aplicação do “Você sabe com quem está falando?” se resumiu às gêmeas milionárias de Manaus, pois fui informado que um apadrinhado de um político local recebeu tratamento, digamos, especial em pleno Hospital Geral de Guarus, foi vacinado antes dos profissionais daquele unidade de saúde. Lamentavelmente não me foi fornecida nem a identidade do furador de fila ou imagens do momento em que a furação de fila ocorreu.  Entretanto, a fonte que me passou a informação é bastante confiável, e, por isso, não tenho dúvidas de que o fato ocorreu.

O que podemos dizer para indivíduos, a maioria bem educada e capaz de comprar uma passagem para se vacinar em países que estão fazendo isso com os turistas que desafiam o medo da pandemia para viajar, que não se hesitam em passar na frente e deixar aqueles que deveriam ser vacinados primeiro para trás? Provavelmente que eles expressam o que há de mais arcaico e autoritário em uma sociedade que prima por tratar os pobres como bucha de canhão, especialmente em um momento em que um vírus letal ameaça solapar toda o planeta.

Mas esses que exercem o “Você sabe com quem está falando?” em meio a uma pandemia estão pouco se importando com os seus semelhantes, especialmente os mais pobres. Por isso, é que nos cabe publicizar todos os casos comprovados de furadores de fila, pois esse comportamento não pode ser tolerado sob pena da instalação da mais completa forma de barbárie social.

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