De volta para o futuro: o ensino híbrido sempre existiu, o nosso problema é outro

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Na metade do ano dois da pandemia, agita-se o movimento de volta para o futuro no ensino superior. Às vésperas do fim da maioria das medidas de restrição devidas à COVID-19 no Reino Unido, apesar da volta de um preocupante aumento no número diário de infecções por lá, uma matéria publicada no The Guardian, traz a manchete de que a “COVID-19 tem sido um grande catalisador” de mudanças para as universidades no mundo pós-pandêmico[I]. O mote é o anúncio recente de que a Universidade de Manchester manterá permanente as aulas no formato remoto e que outras instituições tendem a seguir esse caminho. O bom jornalismo do portal inglês aprofunda as opiniões dos concordantes e dos discordantes, muitas das quais, ambos os lados, são vistas por aqui.

Os líderes de muitas universidades na terra da rainha declaram que o mundo digital “aumenta a experiência dos estudantes”. Os investimentos futuros serão em propriedades digitais e não mais em instalações físicas e juram que o custo disso é alto, enquanto os céticos alfinetam dizendo que essa mudança é, ao contrário, justamente para diminuir os custos. Outros se entusiasmam, dizendo que a situação em que vivemos é o tal grande catalisador de boas e grandes mudanças proporcionadas pelas realidades virtual e aumentada oferecidas pela tecnologia. Sorriem também para as vastas possibilidades no mercado internacional de estudantes, já que, “em vez de ter que viajar por meio mundo até uma universidade no Reino Unido, eles [os estudantes] poderão estudar de seus países natais, uma opção mais barata e acessível para a maioria dos jovens.” Por outro lado, muitos consideram isso um engodo. De fato, parece uma burla desse novo e querido anseio das universidades, a internacionalização -, pois o diploma da universidade X pode ser obtido remotamente, mas isso não tem nada a ver com a experiência real da convivência presencial em outro lugar. E levar essa experiência de volta ao país de origem. As autoridades universitárias alardearão o aumento dos indicadores de internacionalização ao mesmo tempo que diminuem o valor e o número das bolsas de estudo, reservando a experiência real para uma elite ainda menor.

Os docentes e administradores discordantes advertem que é preciso pensar um pouco mais: devagar com o andor. A percepção é de que os estudantes estão ansiosos pela volta do “cara-a-cara” na sua formação. Movimentos estudantis pedem reembolso, pois se sentem logrados pagando o mesmo pelo ensino remoto, lembrando que no Reino Unido o ensino superior público também é pago. Na matéria do The Guardian, um dos entrevistados lembra que obviamente seminários e laboratórios são melhores em grupos presenciais pequenos, mas mesmo as grandes aulas presenciais são melhores, pois percebe-se se a aula está sendo boa ou não pela reação corporal dos estudantes, permitindo ajustes. De um modo geral, aulas expositivas em grandes turmas são vistas – lá e cá – como pouco efetivas, que dirá quando são remotas. E uma citação direta de um dos entrevistados:

“Enquanto você disser que as aulas são online, isso perpetua a noção de que toda a experiência do estudante é online. Quando estudantes dizem que querem aulas [presenciais], não que dizer que querem aulas, eles querem ir aos cafés com os colegas após as aulas e conversar sobre elas[II]. Eles querem se engajar. Portanto, o que você realmente deve fazer é se perguntar: como o seu campus deve ser usado para estimular o engajamento?”

O entrevistado acrescenta que baniu a expressão “ensino híbrido”, pois considera-a totalmente inútil para discutir a situação presente. Concordo com o colega além-mar, pois, como anunciado no título acima, ensino híbrido já existia há muito tempo. Vejamos: o “híbrido” se refere a essa mistura entre presencia e virtual. Nos idos dos anos 1980 o ensino híbrido era possibilitado aos estudantes, pelo menos no curso de física na Unicamp. Não era obrigatório assistir as aulas, pelo menos para boa parte dos professores. Você poderia, se quisesse, estudar na biblioteca – equipamento da época para o ensino remoto – e só apresentar-se nas avaliações. E tirar dúvidas com os professores fora da sala de aula, que não se ofendiam pelas faltas. Muitos colegas se formaram com esse “ensino híbrido”. Eu ia na maioria das aulas, mesmo porque não eram muitas, mas ficava imaginando os colegas de alguns outros cursos que ficavam de manhã e de tarde, se segunda a sexta, sentados olhando os professores de olhos abertos ou fechados. E a biblioteca era tão interativa quanto as plataformas digitais de hoje, embora não oferecessem tanta diversidade e variedade de fontes. Aqui dou a mão à palmatoria, hoje podemos dar acesso, via essa “biblioteca aumentada” a muito mais informações e materiais aos estudantes. No entanto, com o passar do tempo e o avanço do gerencialismo nas universidades o controle de frequência passou a ser cada vez mais valorizado, na minha opinião tendo mais a ver exatamente com controle do que ensino. E assim, enquanto debatemos que o número de aulas precisa diminuir em favor de outras práticas de ensino, colocamos novamente as aulas na centralidade da experiência universitária. Com a possibilidade das aulas remotas “catalizadoras” de um “brilhante” futuro corremos o risco de um retrocesso mediado pela tecnologia. O problema não é o “híbrido” que já existia, mas sim o de escamotear a questão do que de fato será considerado a experiência universitária no futuro. Argumentos econômicos já surgem onde não é necessário, como a junção de turmas nas aulas online. Para que dar a mesma aula duas ou três vezes se é possível juntar numa turma só? Porque nenhuma aula é igual, as construções de significado são diferentes em momentos e turmas diferentes e o docente pode melhorar a mesma aula a cada vez que é dada e, se necessário, retomar as mudanças para a primeira turma na semana seguinte.

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Ensino híbrido, portanto, não é coisa recente em seu conceito, e a aprendizagem remota, graças à tecnologia, povoa o imaginário ainda há mais tempo. Vejamos o trabalho do ilustrador Arthur Radebaugh (1906-1974), “engenheiro da imaginação” nos anos 1950 e da década seguinte, que influenciou a visão de progresso e de futuro de mais de uma geração nos EUA[III]. Suas tiras de quadrinhos eram publicadas aos domingos e destaco a que ilustra a coluna: “educação aperta botão”. O quadrinho se refere provavelmente a todos os níveis de ensino, mas a legenda exalta a possibilidade de que as “escolas de amanhã” terão mais alunos e menos professores. O ensino será por meio de aulas e avaliações remotas. Nota-se que essa visão é pré-internet: apenas a professora é remota, os alunos são presenciais socializando com máquinas. A internet de hoje, imprevisível na época, possibilita agora que todos estejam remotos.

Na discussão do que será nosso futuro é importante não se deixar seduzir apenas pelas possibilidades do enxoval tecnológico e sim lembrar o que significa a universidade e que presencial e virtual não são a mesma coisa. Caso contrário, preservaremos os anéis no lugar dos dedos. A coluna é cheia de opiniões, que não refletem necessariamente a opinião da universidade onde estou, mas precisamos é de evidências para discutir o futuro e as que temos são ainda poucas e enviesadas pela emergência que nos aflige.

Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Unicamp.


[I]https://www.theguardian.com/education/2021/jul/13/covid-has-been-a-big-catalyst-universities-plan-for-post-pandemic-life

[II] Importante no ensino superior e nas ciências: https://www.unicamp.br/unicamp/ju/artigos/peter-schulz/comunicacao-da-universidade-e-cantinas

[III] O link traz várias dessas ilustrações: https://designyoutrust.com/2018/12/closer-than-we-think-40-visions-of-the-future-world-according-to-arthur-radebaugh/

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Este texto foi inicialmente publicado pelo Jornal da Unicamp [Aqui! ].

Bolsonaro perdeu a copa para a Argentina, mas ganhou cepa da Colômbia

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Muitos podem ter visto como uma grande derrota política de Jair Bolsonaro a perda da Copa América realizada do Brasil para a seleção argentina comandada por Lionel Messi, mas o presidente do Brasil acabou tendo consolo um reforço na sua aparente campanha de disseminação da COVID-19 em nosso país.  É que  a Copa América, o Instituto Adolfo Lutz confirmou,  de duas pessoas infectadas no Mato Grosso indicam a variante B.1.621, até então inédita no território brasileiro.

Segundo a Rede Brasil Atual, ainda pouco estudada, a variante encontrada em Cuiabá é classificada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como em alerta para mais monitoramento. Ela é originária da Colômbia, mas já chegou no Caribe, nos Estados Unidos e em algumas localidades da Europa.

Assim, ainda que perdendo no futebol, Jair Bolsonaro terá como troféu de consolação a cepa colombiana. Já o resto dos brasileiros, ganharam mesmo apenas uma preocupação a mais.

A minha 2a. dose de Astrazeneca e o direito que foi negado a 527 mil mortos por COVID-19 no Brasil

No início da tarde desta quarta-feira (07/07) tive acesso à segunda dose da vacina Astrazeneca/Oxford, completando o meu ciclo inicial de imunização contra uma possível infecção pelo coronavírus. Essa etapa me propicia continuar enfrentando os riscos da pandemia da COVID-19 com mais chances de sobreviver, visto que as vacinas (seja qual for a “marca”) nos propiciam melhores condições de defesa contra um vírus letal. Nesse sentido, me sinto aliviado porque poderei conviver com mais segurança com todos os que me relaciono no dia a dia.

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Entretanto, não posso me esquecer de que até ontem,  cerca de 527 mil brasileiros já tinham tido suas vidas ceifadas por terem contraído a COVID-19, muito em função da verdadeira sabotagem oficial por parte do governo Bolsonaro na aquisição de vacinas que pudessem ter propiciado um processo de imunização em massa dos brasileiros. Agora, graças à CPI da COVID-19, sabemos que muito dessa demora se deveu não ao negacionismo científico do presidente Jair Bolsonaro, mas a outros problemas de natureza pecuniária, incluindo a existência de um mercado paralelo de vacinas superfaturadas.

Assim, o fato de estar nos meros 13% de brasileiros que se encontram com sua imunização inicial concluída não apaga o fato de que não posso deixar de lembrar que poderíamos ter avançado muito mais se determinados interesses (e friso novamente, de natureza pecuniária) não tivessem sido sobrepostos ao direito de todo brasileiro de ter acesso à vacinas contra COVID-19 em um ritmo muito mais acelerado do que estamos tendo até agora.

Entretanto, lembrar os mortos pela COVID-19 em função do atraso proposital e interessado do processo de vacinação é pouco. Nós que fomos imunizados temos é que cobrar que a mão pesada da justiça seja colocada nos ombros dos que permitiram que a tragédia que presenciamos neste momento no Brasil pudesse ocorrer.  Se tiver que ser no Tribunal Penal Internacional, que seja.

Finalmente meus agradecimentos à Maria José que, curiosamente, foi quem aplicou as duas da vacina em mim. Na figura dela agradeço a todos os trabalhadores do SUS que estão na linha de frente do combate à pandemia da COVID-19 no Brasil. A todos essas pessoas singulares, o meu agradecimento. Viva o SUS!

Jair Bolsonaro está sob pressão

Investigações e protestos em massa contra o chefe de estado de direita no Brasil

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“Um bom Bolsonaro é um Bolsonaro preso”: A solidariedade com os protestos no Brasil também foi mostrada na metrópole catalã de Barcelona. Foto: imagens imago / ZUMA Wire
Por Peter Steiniger para o “Neues Deutschland”

“Fora com o Bolsonaro!” Em mais de uma centena de cidades em todo o Brasil, as pessoas protestaram no sábado contra a desastrosa política de saúde durante a pandemia corona em seu país . O impeachment do líder extremista de direita Jair Bolsonaro foi convocado em manifestações e comícios. O início de tal impeachment, solicitado pela oposição, é bloqueado pelo presidente da Câmara de Deputados e apoiador do Bolsonaro, Arthur Lira. De acordo com os organizadores, cerca de 800 mil pessoas participaram das manifestações. Os protestos foram, portanto, maiores do que nos dias anteriores de ação em 29 de maio e 19 de junho.

Os protestos foram alimentados pela abertura pelo Supremo Tribunal Federal de uma investigação sobre o Bolsonaro na sexta-feira em conexão com a corrupção na compra da vacina indiana Covaxin. Durante semanas, uma comissão investigativa do Senado trouxe novos detalhes à luz sobre como a proteção da população contra o coronavírus foi sabotada pelo governo de Bolsonaro. O vírus ameaça particularmente as camadas mais pobres da população em condições de vida precárias na periferia das grandes cidades e os povos indígenas do vasto país.

Em vários lugares fora do Brasil, incluindo cidades alemãs como Berlim, Colônia, Münster e Friburgo, ações de solidariedade com o movimento de protesto contra Bolsonaro aconteceram neste final de semana.

O presidente Jair Bolsonaro atacou os manifestantes nas redes sociais e as conectou com os manifestantes. Ao mesmo tempo, ele criticou a cobertura da mídia e reiterou sua afirmação de que a oposição queria chegar ao poder no próximo ano por meio da manipulação eleitoral. Nas pesquisas, o político de esquerda Lula Inácio Lula da Silva está claramente à frente de Bolsonaro.

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Este texto foi escrito inicialmente em alemão e publicado pelo jornal “Neues Deutschland” [Aqui!].

A mãe de todas as propinas: governo Bolsonaro pediu US$ 1,00 de propina por 400 milhões de doses da Astrazeneca

POR UM DOLAR

As dificuldades dentro do governo Bolsonaro para gerar explicações plausíveis sobre as condições nebulosas em torno da compra da vacina indiana Covaxin acabam de subir vários degraus com a publicação de uma reportagem assinada pela jornalista Constança Rezende para o jornal Folha de São Paulo. É que segundo a reportagem assinada por Constança Rezende, o diretor de logística do Ministério da Saúde, Roberto Ferreira Dias (indicado para o cargo pelo deputado Ricardo Barros (PP/PR), teria demandado uma propina de US$ 1,00 por dose da vacina Astrazeneca sendo vendida pela empresa Davati Medical Supply (ver matéria completa Aqui!).  

Propna vacinas

Como a reportagem é rica em detalhes fornecidos pelo representante da Davati Medical Supplu no Brasil, Luiz Paulo Dominguetti Pereira, os inevitáveis desmentidos irão ter que dar conta de uma série de elementos facilmente verificáveis em termos da veracidade do que está sendo agora exposto pela Folha de São Paulo.

Apenas para que se tenha uma ideia do tamanho da propina envolvida, a Davati Medical Supply estava tentando vender um total de 400 milhões de doses, o que daria um total de US$ 400 milhões de propina apenas nesta aquisição, o que chega a R$ 1,984 bilhão na cotação desta terça-feira (29/06).

Essa bomba de contornos altamente explosivos é ainda potencializada pelo fato de que o deputado Luiz Miranda (DEM/DF) já havia avisado que o tamanho da corrupção envolvendo a compra de vacinas pelo governo Bolsonaro era muito maior do que o caso da Covaxin.

Agora, vamos esperar para ver os desdobramentos de mais esta denúncia, mas não tenhamos dúvidas de que a situação do presidente Jair Bolsonaro passou a um novo grau de dificuldade. Afinal, para quem dizia não haver corrupção em seu governo, apenas essa denúncia é um desmentido de quase 2 bilhões de reais. Enquanto isso, os brasileiros continuam à mercê da própria sorte em meio a uma pandemia letal e uma crise econômica sem precedentes.

Escolas inglesas reabrem e número de casos de coronavírus entre crianças explode

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Estudantes britânicos: o número de crianças de cinco a nove anos infectadas aumentou 70 por cento em comparação com a semana anterior. Liam Mcburney / PA Wire / picture alliance / dpa

De acordo com uma reportagem do Sunday Times, o coronavírus está se espalhando rapidamente entre crianças inglesas. Na semana de 20 de junho, o número de crianças infectadas de cinco a nove anos aumentou 70% em relação à semana anterior, com 10 a 14 anos foi um aumento de 56%, relatou o jornal, citando números da autoridade de saúde Saúde pública. Um total de 16.100 alunos faltaram à aulas devido à infecção por coronavírus, em comparação com 10.600 na semana anterior. Como dezenas de milhares de crianças também foram enviadas para o isolamento por causa do possível contato com pessoas infectadas, um total de 216.000 alunos deixou de ir às aulas.

A razão para a rápida disseminação do coronavírus entre estudantes ingleses é a variante Delta, altamente contagiosa, informou o Sunday Times. O co-secretário-geral do sindicato dos professores do Sindicato Nacional da Educação, Kevin Courtney, alertou para a multiplicação dos casos. Steve Chalke, da instituição de caridade Oasis Trust, disse que as escolas são “centros de incubação para a nova variante Delta”. “A tendência nas escolas vem apontando no sentido do aumento de contaminações há três semanas. Obviamente, ainda não alcançamos o topo dessa terceira onda ”, disse Chalke.

Os pais estão criticando cada vez mais a estratégia do governo de enviar toda a classe para o auto-isolamento por dez dias se os autotestes por coronavírus forem positivos. Portanto, dezenas de milhares de crianças saudáveis ​​faltariam às aulas. Os defensores da prática, no entanto, apontam que apenas 15% dos pais testam seus filhos regularmente. Os sindicatos estão pedindo que a máscara seja mantida e que haja melhor ventilação nas aulas. Os diretores das escolas esperam que em breve seja tomada uma decisão a favor da vacinação das crianças.

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Este texto foi inicialmente escrito em alemão e publicado pela revista Der Spiegel [Aqui!].

Números discrepantes da pandemia da COVID-19 colocam em xeque a “Fase Verde” adotada em Campos dos Goytacazes

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Já externei neste blog minhas dúvidas sobre a pertinência da adoção da chamada “Fase Verde” em Campos dos Goytacazes, pois informações chegadas de diferente partes do município dão conta de que está ocorrendo um agravamento dos casos de infecção e morte por COVID-19 em áreas onde até recentemente os efeitos da pandemia estavam razoavelmente leves.

A partir dessas dúvidas realizei um levantamento em três fontes de dados (Ministério da Saúde, Secretaria Estadual de Saúde e Prefeitura Municipal ) para verificar inicialmente como anda a totalização de óbitos por COVID-19 em Campos dos Goytacazes.

Na base de dados do Ministério da Saúde, o total de óbitos é de 1.440  e 26.383 casos confirmados (ver figura abaixo).

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Quando verifiquei a base de dados da Secretaria Estadual de Saúde, os dados que apareceram são ligeiramente diferentes, com o total de mortos sendo de 1.449 e os mesmos de 26.383 de infecções (ver figura abaixo).

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Entretanto, ao se acessar a página oficial da Prefeitura Municipal de Campos dos Goytacazes na rede social Facebook, o número de mortes causadas por COVID-19 cai para 1.408, enquanto que o número de infecções sobe para 33.925 casos (ver figura abaixo).

FIGURA 3 COVID-19

Aqui fico realmente curioso, pois como podemos ter nos registros da Prefeitura de Campos dos Goytacazes, 7.542 infecções a mais do que o que consta no Ministério da Saúde e na Secretaria Estadual de Saúde, enquanto que o número de mortes a diferença é de 41 mortes a menos em relação aos dados federais e 32 em relação aos dados estaduais.

Além dessas divergências, há que se notar que os dados da Prefeitura estiverem corretos, temos ainda 8.934 casos ativos da COVID-19 no município de Campos dos Goytacazes.

Uma consequência das discrepâncias observadas me parecem óbvia. É que ao se inflar o número de infecções e se diminuir o de mortes, o que temos é a redução da taxa de letalidade da COVID-19 em Campos dos Goytacazes. Com isso, se viabiliza por exemplo a adoção da chamada “Fase Verde”. 

Entretanto, algo ainda mais importante em minha opinião a partir da análise apenas dos dados de infecções e óbitos nas bases analisadas se refere à forma que está se dando monitoramento, investigação e encerramento dos casos de COVID-19 pela Vigilância Epidemiológica de Campos dos Goytacazes. No mínimo, fica evidente que está havendo uma inexplicável incongruência com os dados disponíveis nos níveis nacional e estadual.  A questão importante é do porquê que isto está ocorrendo e por responsabilidade de quem.

 

Temendo retaliações, deputado que denunciou escândalo da Covaxin vai pedir proteção policial

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O deputado Luís Miranda (DEM/DF) que foi o primeiro a trazer à luz o escândalo envolvendo a compra da vacina indiana Covaxin deu hoje uma entrevista bombástica à rede CNN onde, entre outras coisas, declarou que irá solicitar proteção policial não apenas para si mesmo, mas também para toda a sua família, a começar pelo irmão que chamou a atenção para os problemas cercando o negócio entre o governo Bolsonaro e o laboratório indiano Bharat Biontech (ver vídeo abaixo).

Se o deputado Luís Miranda levar adiante e detalhar as denúncias que apontou nessa entrevista, os próximos dias e semanas serão de forte tensão política no Brasil, dada a potencial explosividade do que ele poderá revelar. A ver!

 

Covaxin: vacina indiana cercada de suspeitas até na Índia

Brasil de Bolsonaro topou pagar US$ 15 por dose, sete vezes mais do que o governo da Índia, onde vacina do laboratório Bharat é alvo de polêmicas

covaxin 1Enfermeira indiana mostra frascos da Covaxin: vacina mais cara comprada pelo governo Bolsonaro é alvo de suspeitas até na Índia (Foto: Debajyoti Chakraborty / NurPhoto / AFP – 13/05/2021)

Por Florência Costa* para o Projeto Colabora

Em agosto do ano passado, o presidente do laboratório indiano Bharat Biotech, Krishna Ella, durante uma entrevista coletiva realizada na cidade de Hyderabad, onde está situada a sede da empresa, apontou para uma garrafa de água mineral que estava na sua frente e disse: “Essa garrafa de água custa cinco vezes mais do que a nossa vacina”. Ele se referia à Covaxin. Realmente, a Bharat Biotech cobrou pela sua vacina menos de US$ 2 do governo indiano. Mas a iniciativa privada e outros clientes, como o governo brasileiro, pagaram sete vezes mais caro, cerca de US$ 15.

A trajetória do desenvolvimento e fabricação da vacina Covaxin por parte da Bharat Biotech, que começou em maio de 2020, foi cercada de polêmicas em seu país de origem. A vacina indiana transformou-se em um dos principais alvos das investigações da CPI da COVID-19 no Senado brasileiro. Na Índia, a Bharat Biotech recebeu muitas críticas devido à disparidade dos preços oferecidos ao governo indiano e à inciativa privada. Mas o governo de Jair Bolsonaro aceitou de bom grado pagar caro pela vacina indiana.

A Covaxin foi desenvolvida pela Bharat Biotech em associação com o Indian Council of Medical Research, um órgão governamental. Na Índia, os imunizantes são administrados gratuitamente na rede pública, mas são cobrados nos hospitais privados. A Covaxin, no entanto, é a mais cara de todas as vacinas à disposição dos indianos e isso provocou muito debate no país.

Se o preço da Covaxin pode chegar até US$ 16 na rede de saúde privada da Índia, a vacina Covishield – da Oxford-AstraZenaca, produzida no Instituto Serum, o maior laboratório da Índia, que chegou a fornecer dois milhões de doses ao Brasil – custa cerca de US$ 10 por dose. Já a russa Sputnik V, algo em torno de US$ 12.

Diante da controvérsia, a Bharat Biotech afirmou que necessita recobrar o que gastou para o desenvolvimento e a fabricação do produto. Mas especialistas rebateram afirmando que o preço salgado na iniciativa privada é injustificável, já que a farmacêutica recebeu fartos investimentos do governo indiano para a produção e desenvolvimento da vacina.

Há uma semana, a Bharat Biotech comunicou que o preço de US$ 2 acertado com o governo indiano não era “sustentável” a longo prazo, devido aos custos com a produção. Em um comunicado à imprensa, o laboratório afirmou que é por isso que há necessidade manter preços altos para o mercado privado.

covaxin 2Profissional de saúde aplica Covaxin em Bangalore, na Índia: imunização no país começou antes mesmo de testes terem sido aprovados (Foto: Manjunath Kiran / AFP – 09/06/2021)

Covaxin suspeita desde a fase de testes

Outra polêmica que ronda a Covaxin refere-se aos testes. Quando a vacina obteve a aprovação para uso estritamente emergencial pelo Controlador Geral de Drogas da Índia (a Anvisa do país), em janeiro deste ano, os testes da fase 3 ainda não haviam finalizado e revelado a sua eficácia: isso provocou uma avalanche de críticas.

Resultados parciais de testes da fase 3, envolvendo 25,800 participantes, foram anunciados em abril, com indicação de eficácia de 78% contra COVID-19 moderada ou leve e 100% em casos severos. Os dados finais dos testes da fase 3 só foram enviados ao órgão controlador da Índia na segunda-feira, 21 de junho, quando a vacina já estava sendo aplicada em todas as regiões do país.

Em meio ao debate, a Bharat Biotech afirmou que os padrões científicos são transparentes. A empresa lembrou ainda que que publicou, no período de um ano, nove estudos de pesquisa sobre sua segurança e eficácia em cinco publicações de reputação científica. Mas, apenas há 10 dias, a Bharat Biotech informou que os dados completes das fases 1 e 2 e dados parciais dos testes da fase 3 haviam sido verificados por órgãos reguladores da Índia.

Um dos grandes revezes sofridos pela empresa indiana veio do Brasil. Em março, a Anvisa negou autorização para importação excepcional da Covaxin, solicitada pelo Ministério da Saúde. Foi uma decisão por unanimidade: os diretores consideraram que o laboratório indiano não conseguiu apresentar documentação que comprovasse a eficácia e a segurança do imunizante.

Somente agora, em junho, a Anvisa concedeu uma autorização, mas apenas para quatro milhões de doses _ e não 20 milhões de doses do contrato assinado com o Ministério da Saúde do Brasil – e sob contrições restritas. Em uma entrevista a uma TV indiana, Krishna Ella, fundador e presidente da Bharat, reagiu alegando que a Anvisa havia agido movida por um “nacionalismo” brasileiro e pelo desejo de evitar a vacina indiana. “Isso é devido ao nacionalismo. Alguns países querem estrategicamente atrasar a indiana e difamar outros países, afirmou Ella, em resposta às dúvidas levantadas pela Anvisa.

A Bharat Biotech – um laboratório de menor porte na grande disputa global do mercado de vacinas contra COVID-19 – tinha a intenção de aumentar o seu cacife internacionalmente e contava com o Brasil para isso. Até agora, o laboratório indiano exportou seu produto apenas para países como República Maurício, Irã, Mianmar, Paraguai e Zimbábue.

Para completar o cenário de controvérsias, a mídia indiana publicou em janeiro matérias sobre pessoas que participaram de testes sem saber, achando que estavam tomando vacinas já aprovadas. Vários casos foram reportados na cidade de Bhopal (estado de Madhya Pradesh), que ficou famosa no mundo todo em 1984 devido a um vazamento de gás em dezembro daquele ano na fábrica de pesticidas Union Carbide India Limited. Entrevistados afirmaram que receberam a vacina em troca de dinheiro (cerca de US$ 10) e outros disseram que não sabiam que se tratava de teste. A Bharat Biotech negou qualquer transgressão à época e afirmou que as pessoas haviam sido informadas de que estavam sendo submetidas a testes da vacina contra Covid 19.

Isso tudo aconteceu ainda no começo de 2021 quando o governo indiano anunciava que iria imunizar, até agosto, 300 milhões de seus 1.3 bilhão de habitantes. A segunda onda de covid-19 devastou a Índia pouco tempo depois, a partir de abril, provocando uma grande mortandade e cenas chocantes corpos incinerados na ruas ou jogados em rios. Até agora cerca de 389 mil pessoas morreram, oficialmente, na Índia por covid-19. Mas estimativas não oficiais apontam que esse número pode ser quatro vezes maior.

covaxin 3Levantamento do TCU mostra que Covaxin custou quatro vezes mais que AstraZeneca: interesse do governo Bolsonaro na vacina indiana investigado pelo MPF e pela CPI (Reprodução: TV Globo)

Na mira da CPI e do MPF

No Brasil, o Ministério Público Federal está investigando o contrato do Ministério da Saúde com a Precisa Medicamentos para compra da vacina Covaxin, produzida na Índia, único contrato do governo Bolsonaro que teve um intermediário sem vínculo com a indústria de vacinas. O próprio presidente intercedeu pessoalmente para agilizar a compra e enviou uma carta ao primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, em janeiro.

Em fevereiro, o governo assinou contrato para compra de 20 milhões de doses da Covaxin, antes mesmo do aval da Anvisa e apesar do alerta da agência sobre a falta de certificado de boas práticas na fabricação da vacina. Pelo contrato, as primeiras doses chegariam ao Brasil em maio, 70 dias após o fechamento da compra, mas até agora nenhuma dose foi entregue.

De acordo com levantamento do Tribunal de Contas da União, a Covaxin foi a vacina mais cara negociada pelo governo Bolsonaro até agora: R$ 80,70 a unidade, valor quatro vezes maior que a AstraZeneca, produzida pela Fiocruz. Em depoimento ao Ministério Público Federal, o funcionário do Ministério da Saúde responsável pela importação, Luís Ricardo Fernandes Miranda, afirmou que houve pressão superior para a compra rápida da Covaxin.

A CPI da covid-19 também está investigando o interesse do governo na compra da vacina indiana, cara e sem aval da Anvisa. Os senadores querem saber o motivo de o contrato para a compra da Covaxin ter sido intermediado pela Precisa Medicamentos, alvo do Ministério Público do Distrito Federal em investigação de fraude na venda de testes rápidos para COVID-19. Sócio da empresa, Francisco Maximiano, que teve seu sigilo bancário e telefônico quebrado pela CPI, tinha depoimento marcado na CPI para esta quarta, 22 de junho. O depoimento foi adiado já que o empresário alegou estar em quarentena, por ter viajado à Índia.

*Florência Costa é Jornalista freelancer, especializada em cobertura internacional e política, foi correspondente na Rússia pelo Jornal do Brasil e serviço brasileiro da rádio BBC. Em 2006 mudou-se para a Índia para ser correspondente do jornal O Globo É autora do livro “Os Indianos”.

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Este texto foi originalmente publicado pelo projeto “Colabora” [Aqui!].

Campos dos Goytacazes registra mais de 100% de aumento nos óbitos por COVID-19 frente à média da pandemia em no mês de maio

Dados dos Portal da Transparência dos Cartórios de Registro Civil revelam que mesmo com queda nos óbitos em comparação com o mês passado, números ainda estão acima da média

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Com o segundo pior número de mortes desde o início da pandemia da Covid-19 em Campos dos Goytacazes, o mês de maio mostrou queda nos números da doença e com isso, um indício de que a vacinação na cidade começa a surtir efeito. Mas se comparados com a média de óbitos causados pelo novo coronavírus desde a chegada da doença na cidade, o mês que se encerrou registrou aumento de 114% no número de falecimentos, registrando 224 mortes, frente a uma média de 87 óbitos.

Os números de maio só são melhores quando comparados com os números de óbitos registrados em abril deste ano. Na comparação com março, maio aponta aumento de 88% no número de óbitos, enquanto na comparação com abril houve queda de 23,3%. Em números absolutos, maio registrou 224 óbitos causados pelo novo coronavírus, março 119, e abril 292.

Os dados constam no Portal da Transparência do Registro Civil (https://transparencia.registrocivil.org.br/inicio), base de dados abastecida em tempo real pelos atos de nascimentos, casamentos e óbitos praticados pelos Cartórios de Registro Civil do País, administrada pela Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais (Arpen-Brasil), e podem ainda sofrer mudanças, uma vez que o prazo legal para envio de óbitos à plataforma nacional pode chegar a até 12 dias do falecimento. 

“É possível acompanhar mês a mês a variação dos dados de óbitos pelo Portal da Transparência dos Cartórios de Registro Civil e o que ela nos mostra é que mesmo com a diminuição de óbitos na faixa etária que já foi vacinada, os números ainda são muito expressivos e estão muito acima da média historicamente registrada do Estado. Portanto, nos mostra o quanto a vacinação tem sido eficaz e por este mesmo motivo, o quanto ela deve ser acelerada para que mais vidas sejam poupadas”, explica Humberto Costa, presidente da Arpen RJ.

Maio/20 x Maio/21

Um ano depois, maio de 2021 registrou aumento de 322% dos óbitos em Campos dos Goytacazes em comparação com o mesmo mês de 2020. Em números absolutos foram 224 mortes no mês passado frente a 53 em maio do ano passado. Na mesma comparação, 18 Estados apresentam números maiores este ano, enquanto nove apresentam redução quando comparados ao mesmo período do ano passado.

Já no Brasil, maio de 2021 registrou um aumento de 71,9% dos óbitos no Brasil em comparação com o mesmo mês de 2020. Em números absolutos foram 49.282 mortes no mês passado frente a 28.667 em maio do ano passado. Na mesma comparação, 18 Estados apresentam números maiores este ano, enquanto nove apresentam redução quando comparados ao mesmo período do ano passado.

Sobre a Arpen/RJ

A Associação dos Registradores de Pessoas Naturais do Estado do Rio de Janeiro (Arpen/RJ) representa os 179 cartórios de registro civil, que atendem a população em todos os 92 municípios do Estado, além de estarem presentes em todos os distritos e subdistritos, realizando os principais atos da vida civil de uma pessoa: o registro de nascimento, casamento e óbito.

FONTE: Assessoria de Imprensa da Arpen Rio de Janeiro