O Programa de Meio Ambiente das Nações Unidas divulga obras sobre gestão resiliente em tempos de COVID-19

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O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA),  está circulando duas publicações recentemente traduzidas para o português com potencial uso por formuladores de políticas públicas e tomadores de decisão. O PNUMA é a principal autoridade ambiental global que determina a agenda internacional sobre o meio ambiente, promove a implementação coerente da dimensão ambiental do desenvolvimento sustentável no Sistema das Nações Unidas e serve como autoridade defensora do meio ambiente no mundo.

Diante de nossa missão e da situação de pandemia que a humanidade enfrenta, enxergamos a COVID-19 como um lembrete de que a saúde humana está profundamente ligada à saúde do planeta. Seguindo essa linha, gostaríamos de compartilhar dois materiais que acreditamos ter grande serventia na formulação de políticas públicas, nacionais e locais. 

O primeiro é a cartilha “Trabalhar com o meio ambiente para proteger as pessoas: resposta do PNUMA à COVID-19”, publicado pelo PNUMA  em maio de 2020. Nela, discutimos a origem de doenças zoonóticas, tais como a COVID-19 que nos aflige atualmente. Buscamos também apresentar suas origens e implicações, destacando o papel da natureza e de sua preservação na interrupção do ciclo de doenças zoonóticas. Por fim, apresentamos como o PNUMA se reorganizou para responder à crise atual e evitar crises futuras. As zoonoses representam cerca de 75% de todas as doenças infecciosas emergentes. Para evitar futuros surtos, devemos enfrentar as ameaças aos ecossistemas e à vida selvagem, incluindo perda de habitat, comércio ilegal, poluição e mudanças climáticas.

O segundo é o relatório “Construindo sociedades resilientes após a pandemia do COVID-19: principais mensagens do Painel Internacional de Recursos”, publicado pelo PNUMA e pelo Painel Internacional de Recursos (IRP) em maio de 2020, que fornece recomendações de políticas e exemplos extraídos de avaliações científicas do IRP para apoiar uma recuperação econômica inteligente em termos de recursos, guiada pela proposta de repensar a maneira como geramos riqueza, a maneira como nos movemos, vivemos e comemos.

Em meio à pandemia, ricos rejeitam impostos e querem precarizar ainda mais os serviços públicos

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Os dados mais reveladores do impacto seletivo da pandemia da COVID-19 no Brasil para mim são dois: o primeiro se refere ao aumento do enriquecimento  dos bilionários que adicionaram 34 bilhões de reais às suas fortunas enquanto 100 mil brasileiros morriam, e o segundo é a completa indisposição dos ricos brasileiros de se comprometerem a partilhar parte das grandes fortunas amealhadas em um país em que a maioria do povo vive em condições miseráveis na forma de novos impostos.

A verdade é que, apesar de todo o discurso em contrário, a carga brasileira de impostos para os mais ricos é mínima, lhes permitindo viver vidas nababescas enquanto do lado de fora das mansões muradas a maioria da população vive em condições cada vez mais precarizadas por seguidas reformas (disfarçadas) do Estado que diminuem a qualidade dos serviços públicos, enquanto os ricos brasileiros ficam cada vez mais ricos, mesmo em meio a uma pandemia letal como a que estamos vivendo.

Aliás, a pandemia da COVID-19 será lembrada, entre outras coisas, pela pressão política do setor empresarial para a retomada das atividades econômicas sem que a expansão e tratamento do coronavírus estivessem asseguradas. Mas apesar de saberem que a imposição do movimento precoce dos trabalhadores em sistemas públicos de transporte de péssima qualidade aumentaria o grau de infecção e, consequentemente, o número de mortos, os (necro) empresários brasileiros insistiram em sua pressão a ponto de governadores e prefeitos sucumbirem completamente, permitindo, como no caso de Campos dos Goytacazes, a reabertura de todo tipo de estabelecimento não essencial. E o resultado está aí: 100 mil mortos, podendo chegar a 200 mil. 

Mas em meio a essa grande quantidade de mortos, uma explicação para a indiferença dos ricos em contribuir com mais impostos e a exigência de mais precarização do estado certamente é associada ao fato de que são o maior número de mortos vêm dos segmentos mais pobres da população brasileira.

É certamente por isso que, quando perguntados sobre como fazer a economia retomar um trilho que permita recolocar milhões de trabalhadores no sistema produtivo, invariavelmente os empresários ouvidos oferecem prontamente a recusa em aceitar novos impostos para depois apontar para a necessidade de demitir servidores públicos e diminuir a oferta de serviços públicos. 

Essa receita, além de egoista, reflete uma postura suicida por parte dessas elites empresariais. É que por se recusar a contribuir com o aporte de recursos que permitam ao estado dinamizar a economia, estes empresários estão criando uma forma de capitalismo sem uma grande massa de consumidores. E para si mesmos, os mais ricos continuam a se apegar um capitalismo dependente onde, como já escreveu Celso Furtado em 1974 no seu ” O Mito do Desenvolvimento Econômico“,  prevalece a imitação dos modelos de consumo praticado pelos seus congêneres nas economias centrais, enquanto que para a maioria do povo sobra ainda mais miséria e exclusão.

A verdade é quem quiser governar qualquer prefeitura que seja nos próximos anos com um mínimo de chance de terminar mandato deverá recusar os péssimos conselhos dos mais ricos no sentido de precarizar ainda mais os serviços públicos, enquanto eles continuam amealhando fortunas espetaculares às custas da miséria da maioria.  Ainda que ajustes precisem ser feitos para aumentar o nível de eficiência da máquina pública, a receita a ser adotada deve ser no sentido de cobrar que os mais ricos partilhem porções mais significativas da sua riqueza com a maioria da sociedade na forma, por que não?, de mais impostos. Basta ver o que países como Noruega, Finlândia e Dinamarca fazem para saber que pagar imposto sobre fortunas amealhadas não deve ser nada mais do que a obrigação dos ricos para tornar a vida dos trabalhadores mais digna.

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E antes que alguém diga que estou exagerando na demanda que os ricos paguem mais impostos para colaborar para o funcionamento apropriado dos serviços públicos, sugiro a leitura do artigo publicado pela insuspeita revista Forbes sobre um movimento criado por bilionários norte americanos para pressionar pela imposição de mais impostos para os mais ricos. Entre os ultrarricos que estão neste movimento por mais impostos estão, entre outros, Warren Buffer, Michael Bloomberg, George Soros e Bill Gates. 

Com SUS e experiência com zika, resposta do Brasil à pandemia frustrou expectativa, afirma editorial

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Por bori

Os dados brasileiros de infecção e óbitos decorrentes da Covid-19, que chegam a mais de 100 mil mortes em 8 de agosto, segundo consórcio de veículos da imprensa, frustrou as expectativas de reação do estado brasileiro à crise sanitária. A constatação é de editorial da Revista de Administração Pública (RAP), em edição especial sobre a pandemia. Segundo a análise inédita, que será lançado na segunda (10), esperava-se uma reação melhor do Brasil frente à pandemia de Covid-19, por causa da existência da estrutura do Sistema Único de Saúde (SUS) e da aprendizagem adquirida no combate a epidemias como H1N1, em 2009, e zika, em 2015. Não foi o que aconteceu.

A edição completa da RAP traz 35 artigos de autores de 41 instituições de pesquisa, que tratam das capacidades e estratégias estatais de enfrentamento da crise, as respostas comportamentais à pandemia, explorando fatores de predisposição ao isolamento social, como polarização política, e a capacidade de mobilização das organizações da sociedade civil (OSCs). “Nestas pesquisas são discutidos e mensurados os efeitos da pandemia na política, no mercado de trabalho, na educação básica, em setores de prestação de serviços públicos e nas micro e pequenas empresas”, escreve Alketa Peci, editora da RAP. Os textos estão disponíveis no site da revista.

Além de detectar capacidades existentes, como o SUS, os artigos também identificam fragilidades do sistema estatal, considerado central para a gestão da pandemia, segundo o editorial. A ideia é que “este conjunto de reflexões subsidie, com evidências, os processos de tomada de decisão no contexto da pandemia e demarque, no âmbito da administração pública brasileira, o potencial da contribuição da pesquisa acadêmica na gestão da crise e de suas consequências”, finaliza o editorial.

Metade das mulheres passou a cuidar de alguém na pandemia, revela pesquisa

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Por  bori

As condições de trabalho se transformaram radicalmente durante a pandemia de Covid-19, sobrecarregando, principalmente, as mulheres. Metade das brasileiras passou a cuidar de alguém durante esse período, e 41% das mulheres com emprego afirmam estar trabalhando mais do que antes. Os dados são de pesquisa realizada pela organização de mídia Gênero e Número, em parceria com a SOF Sempreviva Organização Feminista. O estudo indica que a realidade não é a mesma para todas. Nos ambientes rurais, 62% das respondentes afirmaram que passaram a exercer tarefas de cuidado.

Para identificar os efeitos da pandemia sobre o trabalho, a renda das mulheres e a sustentação financeira da casa, os pesquisadores aplicaram um questionário online com mais de 2.600 mulheres brasileiras entre abril e maio. A perspectiva era de que as tarefas de cuidado e trabalho passaram a se sobrepor de forma mais intensa durante os meses de isolamento social. A análise das respostas levou em conta variáveis como raça e área de residência das respondentes, se moram em zonas rurais ou urbanas. A amostra é representativa da população brasileira.

Os dados mostram que as mulheres residentes em áreas rurais e negras assumiram mais responsabilidades com relação ao cuidado do outro. Além disso, as mulheres negras parecem ter menos suporte nestas tarefas.

A maior parcela das mulheres que seguiu trabalhando durante a pandemia com manutenção de salários é de mulheres brancas. Elas relataram estar trabalhando mais no período da quarentena, evidenciando que a ausência de funcionárias no domicílio ou de espaços como a creche/escola pesou mais para esse grupo. As mulheres que estão em casa sem renda ou com prejuízo de renda são 39%.

A pesquisa também coletou depoimentos, que mostram como é complexa a leitura da condição de vida e de trabalho neste momento. Mesmo as que seguem trabalhando, com renda, podem estar sob condições diferentes, mais precarizadas, em relação ao período anterior ao da quarentena. Para Tica Moreno, socióloga da SOF Sempreviva Organização Feminista envolvida no estudo, os dados mostram que as dinâmicas de vida e trabalho das mulheres se contrapõem ao discurso de que o trabalho e a economia pararam durante o período de isolamento social. “Os trabalhos necessários para a sustentabilidade da vida não pararam – não podem parar. Pelo contrário, foram intensificados na pandemia. A economia só funciona porque o trabalho das mulheres, quase sempre invisibilizado e precarizado, não pode parar”, comenta.

Para os pesquisadores, entender a situação do cuidado durante a pandemia é fundamental para o desenho de ações que sejam capazes de transformar essas dinâmicas de desigualdade que imbricam gênero, raça e classe. Os resultados do estudo, segundo Guilliana Bianconi, diretora da Gênero e Número, dão visibilidade para a crise do cuidado. “O cuidado está no centro da sustentabilidade da vida. Não há possibilidade de discutir o mundo pós-pandemia sem levar em consideração o quanto isso se tornou evidente no momento de crise global”.

Livro relata bastidores da pandemia e aponta mudanças nos hábitos alimentares

Produzido em tempo recorde, nova obra do nutrólogo Daniel Magnoni, intitulado “PANDEMIA – Relatos da Frente de Batalha; Dicas e orientações sobre a alimentação na nova era”, revela o impacto causado pelo novo Coronavírus na alimentação, verdades e mitos que podem fazer a diferença na nutrição e a visão de CEOs sobre a transformação no mercado de saúde

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Nos últimos meses a alimentação correta foi uma das constantes em lives, stories, mensagens e feeds nas redes sociais, inúmeras verdades, mas também muitas informações desconexas e sem qualquer valor científico. Diante deste contexto, o nutrólogo Daniel Magnoni, presidente do Instituto de Metabolismo e Nutrição e coordenador da área de Nutrologia e Nutrição Clínica do Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, decidiu produzir uma obra, em tempo recorde, que traz referências baseadas na ciência sobre um novo viés da nutrição no mundo pós-pandemia. Trata-se do livro “PANDEMIA – Relatos da Frente de Batalha; Dicas e orientações sobre a alimentação na nova era”.

“O livro apresenta em quatro segmentos as mais certificadas verdades sobre nutrição na imunidade, alimentação na atividade física, dicas de nutrição e conceitos de gastronomia e culinária. Todo o conteúdo foi elaborado sob a ótica do vivenciamento de líderes da saúde durante a Pandemia, relatados de forma objetiva e clara”, afirma Dr Magnoni.
O livro reúne mais de 60 entrevistas sobre o “viver” durante a pandemia entre os profissionais de saúde, CEOs de grandes instituições de saúde, da indústria farmacêutica e de alimentos.

Discussões sobre vitamina D, zinco, proteínas, minerais e fatores de risco que podem piorar e agravar a evolução dos pacientes acometidos pelo novo Coronavírus podem ser lidas sob a ótica da ciência e do que de mais atual circula nos meios da saúde baseada em evidências.

Segundo Dr. Daniel Magnoni “agora, muito mais do que antes, os pacientes e a população em geral precisam de informações corretas e isentas”. Nesse livro, resultado de questionamentos quase que diários de pacientes e amigos, o autor discute o que deve ser feito para melhorar a imunidade e tornar as pessoas mais saudáveis.

O autor ressalta: “Não existe segredo nem verdades escondidas, o que existe é uma grande necessidade de separar o joio do trigo, apresentar as verdades e discutir as necessidades caso a caso”. O livro, deve ser visto como uma obra atual e complementar a todas as discussões, pode fazer parte do arsenal de pesquisa e resposta às grandes dúvidas do momento, um trabalho editorial consistente com quase 80 autores identificados nominalmente, seja no desenvolvimento dos textos ou nas respostas às entrevistas.

Serviço

Livro – “PANDEMIA – Relatos da Frente de Batalha; Dicas e orientações sobre a alimentação na nova era” (380 pgs – Editora Tag & Line)

Onde comprar – Amazon / Mercado Livre

Contato para a imprensa: (011) 99982 3353 Email – contato@oraculum.com.br

Carta denuncia “farsa das doações” das corporações que controlam plantio de árvores, commodities agrícolas, petróleo e mineração no Brasil

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Uma rede de organizações da sociedade civil e de movimentos sociais lança a carta “A farsa das doações no combate à COVID-19 nos setores de plantações de monoculturas de árvores, agronegócio, petróleo e mineração no Brasil”, em que denuncia a falsa solidariedade das empresas no contexto de crise sanitária em que o país está imerso. 

A carta expõe ações das empresas que aproveitam o momento de crise com a pandemia de Coronavírus para fortalecer a imagem de suas marcas com doações a populações em situação de vulnerabilidade, ao passo que seguem operando em meio a pandemia expondo os próprios trabalhadores ao risco de contaminação, como ocorre em vários municípios ladeados pelas empresas onde se verificou explosão de casos. A análise feita pelo grupo denuncia que o contexto de crise sanitária e, principalmente, as ações do Governo Federal levam a um fortalecimento das grandes empresas sobre os territórios.

As organizações e os movimentos sociais questionam a campanha de marketing empresarial beneficente veiculada pela rede Globo no jornal Nacional, a chamada “Solidariedade S.A.”, em que cita o caso da CMPC, empresa de produção de celulose no estado do Rio Grande do Sul, que doou R$ 70 milhões, o que representa meros 7% do faturamento de 2019. Denuncia, ainda, ação do Governo Federal que permitiu que as empresas de celulose renegociassem suas dívidas e lhes fosse concedido novos empréstimos pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), o que representa um ganho financeiro para as empresas que não aparece para a opinião pública. Verbas que, por outro lado, não foram empregadas para auxílio da população em um momento crucial.

A carta ressalta, ainda, o papel desempenhado pelos movimentos sociais e ONGs que — sem receber o mesmo papel de destaque na imprensa — prestam solidariedade a populações carentes das zonas urbana e rural doando alimentos, produtos de consumo não duráveis e material de limpeza com diversos casos em uma rede de apoio construída de Norte a Sul no país.

Quem desejar ler a carta em Português basta clicar [Aqui!], Espanhol [Aqui!], e Inglês [Aqui!].

Sete em cada dez familiares não têm notícias de parente encarcerado na pandemia

carcereFoto: Milad Fakurian/ UNSPLASH

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No período da pandemia, 69,6% das famílias apontam estar sem qualquer tipo de informação ou contato com parente encarcerado. Entre os familiares que têm conseguido manter algum tipo de contato com o preso, o acesso à informação tem se dado principalmente por meio de cartas ou pelos advogados e assistentes sociais das unidades prisionais. Esses são os resultados de estudo sobre os impactos da Covid-19 em familiares de presos do estado de São Paulo realizado pelo Núcleo de Estudos da Burocracia (NEB), da Fundação Getulio Vargas, em parceria com a Associação de Familiares e Amigos de Presos e Presas (AMPARAR).

Os pesquisadores realizaram um survey online com 1.283 familiares de pessoas que estão presas em unidades prisionais do estado de São Paulo, entre os dias 25 de junho e 4 de julho de 2020. Das 1.283 respondentes, 99% são mulheres. “É um dado que reflete a sobrecarga das mulheres, tanto mães quanto esposas, na atenção e no suporte ao familiar preso”, afirma Mariana Haddad, pesquisadora do NEB e do Núcleo de Pesquisa Escola da Metrópole. Com relação ao perfil da pessoa presa, cujo familiar respondeu à pesquisa, 97% foram apresentados como homens e 3% como mulheres. Deste total, 20,5% são presos provisórios e 89,4% encontram-se estão em regime fechado.

O acesso à informação por meio dos advogados particulares foi um dos principais motivos para os familiares afirmarem que o advogado tem ajudado a proteger o preso no contexto atual. Em resposta à pergunta ‘Você acredita que esse advogado tem ajudado a proteger seu familiar nesse momento de pandemia?’, 41,4% dos que acreditam que sim o justificam pelo fato de o advogado ser o único meio de notícias para ambos os lados (presos e familiares).

Preocupação com a saúde

Para 54,1% dos familiares respondentes, as condições de saúde do preso são a principal preocupação, sendo que 42% das famílias têm medo de contaminação do familiar preso com o coronavírus. Parte das famílias apresenta preocupação com os familiares asmáticos e se teriam acesso a bombinhas. Outros apontam apreensão com questões de saúde mental dos presos, especialmente dada a restrição de visitas. Há ainda depoimentos sobre o receio de que os agentes prisionais possam ser vetor de transmissão e levar o vírus para dentro das unidades.

Familiares entrevistados também apontam preocupação em relação ao familiar preso estar passando fome, visto que os presos não estão recebendo os chamando “jumbos”. Do mesmo modo, a questão da higiene dos presos também apareceu como uma preocupação no momento atual. Sem as visitas e, novamente, sem poder enviar materiais (“jumbos”), os familiares ficam com receio dos presos estarem sem os itens básicos de higiene, os quais seriam imprescindíveis na prevenção da Covid-19.

“Somado ao fornecimento limitado de refeições em algumas unidades prisionais, os dados apontam que as famílias estão com dificuldades de enviar o “jumbo”, tanto por conta da proibição de visitas quanto pelos problemas financeiros agravados pela pandemia do coronavírus. O cenário reforça a necessidade de inclusão de uma refeição noturna no cardápio das unidades prisionais como garantia de direitos básicos da pessoa presa e de condições adequadas de saúde em um contexto de pandemia”, avalia Gabriela Lotta, professora da EAESP FGV, coordenadora do NEB e pesquisadora do Centro de Estudos da Metrópole.

Acesso à Justiça e falta de suporte

A falta de suporte para lidar com a situação da pandemia também tem sido uma reclamação dos familiares de presos. Cerca de 96% das famílias alegaram não ter recebido qualquer suporte da Secretaria da Administração Penitenciária (SAP) neste momento. Ao avaliarem os diretores das unidades prisionais, 41% das famílias avaliam a atuação como ruim ou péssima no enfrentamento da situação, contra apenas 7% avaliando a atuação como boa ou ótima.

Três em cada quatro familiares entrevistados afirmam não acreditar que o defensor público ou o advogado particular possa proteger o familiar preso no contexto atual. E 30,8% apontaram a falta de atenção com a família, que fica muitas vezes sem retorno ou notícias. Quase metade (48%) dos familiares responderam que o preso tem advogado particular, enquanto 39% responderam que a defesa é realizada pela Defensoria Pública e 12% afirmaram não ter qualquer tipo de advogado ou defesa.

Dos respondentes que afirmam não acreditar que o defensor público tem ajudado a proteger o preso, 38% não conhecem o defensor público nem tiveram contato com ele. Com relação aos advogados, 46,3% dos familiares apontam que o fato de o advogado não ajudar neste momento não é culpa ou problema dele, já que há limitações externas neste momento.

“O que observamos é que, no sistema carcerário, a falta de informação, a dificuldade do efetivo acesso à Justiça, o atendimento precário à saúde e até a insegurança alimentar são questões que têm se tornado mais críticas com a pandemia”, afirma Giordano Magri, pesquisador do NEB.

Impacto socioeconômico da pandemia

Oito em cada dez familiares afirmaram que sua renda diminuiu nesse período, sendo que 26,5% ficaram sem rendimento. Além disso, 34% das famílias estão com dificuldades para se alimentar. A renda média das famílias respondentes também caiu e atingiu o valor aproximado de R$1.097,32, enquanto a renda per capita chegou a R$371,13, abaixo da linha da pobreza elaborada pelo Banco Mundial e adotada pelo IBGE. Para 44% das famílias, o Auxílio Emergencial é o principal meio de sobrevivência nesse momento. Todavia, 22,4% delas ainda não receberam o auxílio.

“O impacto socioeconômico causado pela pandemia do coronavírus atingiu diretamente as famílias de pessoas presas e, consequentemente, seus parentes privados de liberdade. Muitas dessas famílias dizem depender do Auxílio Emergencial para sobreviver nesse momento, mas uma parcela considerável delas ainda não teve acesso a esse suporte do governo federal”, afirma Claudio Aliberti, pesquisador do NEB.

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Este artigo foi produzido e inicialmente publicado pela Agência Bori [Aqui! ].

No The New York Times, Felipe Neto mostra porque Bolsonaro é pior que Trump no combate à COVID-19

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O youtuber Felipe Neto declarou no jornal estadunidense  The New York Times, em vídeo publicado nesta quarta-feira (15), que “os presidentes Trump e Bolsonaro há muito admiram os estilos cáusticos de governança. Portanto, não deve ser surpresa que os Estados Unidos e o Brasil sejam os únicos dois países do mundo com mais de um milhão de casos confirmados de COVID-19″ (ver vídeo abaixo).

Dada a amplitude da audiência do “The New York Times” e o fato que Felipe Neto usou bem a língua inglesa para passar sua mensagem, o mais provável que ele tenha conseguido alienar os apoiadores de Donald Trump e Jair Bolsonaro na mesma proporção.

Mas como o próprio Felipe Neto disse no vídeo, “quando o palhaço tem que falar sério, o circo provavelmente está pegando fogo”.  Uma excelente definição para o que está acontecendo lá e cá.

Cada rebanho escolhe sua imunidade: Qual será a nossa?

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Por Marcio Sommer Bittencourt e  Otavio Ranzani para a bori

Depois de meses trancados, estamos exaustos. Quase a desistir, tivemos um possível alento quando disseram que a imunidade de rebanho, também chamada de imunidade coletiva, pode estar mais perto do que imaginávamos. Com o rebanho imune, poderíamos voltar ao normal?

O conceito de imunidade de rebanho é usado em programas de vacinação para definir um valor acima do qual os não vacinados têm proteção indireta levando ao controle da doença, mesmo não sendo possível vacinar a todos. Embora reservado para doenças com vacina efetiva, atingir este limiar foi proposto como possível saída no combate à COVID-19. No início da pandemia alguns autores sugeriram que ao redor de 70% da população seria infectada para termos o rebanho protegido. Com uma estimativa conservadora de letalidade de 0,5%, perderíamos mais de 700 mil vidas no Brasil, algo que poucos considerariam razoável.

Porém estudo recente sugere que a imunidade coletiva ocorreria após 30% a 50% de infectados. Como em algumas cidades temos anticorpos em 20% da população, a luz no fim do túnel estaria mais próxima. Esta redução no limiar é conhecida por quem pesquisa doenças infecciosas, e acontece pois a população é heterogênea. Algumas pessoas têm maior chance de pegar o vírus enquanto outros tem maior capacidade de transmissão. Depois que os mais susceptíveis forem infectados e os que mais transmitem não tiverem tantos contatos próximos susceptíveis, fica mais difícil para o vírus infectar outros indivíduos, atingindo a imunidade coletiva antes que em populações homogêneas.

Infelizmente esta realidade não é tão dourada. Primeiro, poucos lugares do Brasil tem níveis de anticorpos tão altos. A maioria das cidades tem menos de 10% de infectados depois de três meses de pandemia. Mesmo com olhar otimista, nos faltariam 20%. Como já morreram mais de 70 mil brasileiros e brasileiras, perderíamos ainda outros 140 a 280 mil até a imunidade. E vale lembrar que nem certeza temos de que os números são corretos, pois os autores destacam a incerteza dos cálculos por não conhecermos o suficiente a doença. Nem mesmo considerando imunidade celular, que não medimos na população, a ideia de rebanho faria sentido.

Outro argumento de quem vê imunidade de rebanho como saída é a ideia de que ela é um número fixo definido pelo vírus. Sendo imutável, o mesmo número de pessoas irá se infectar e morrer e todo o esforço e custo do distanciamento e mesmo lockdown seriam inúteis. Se perderemos 300 mil brasileiros de qualquer forma, por que ficar em casa? Esta visão determinista da pandemia é tão errada quanto a ideia de que a imunidade de rebanho é definida por um número fixo. Ela é mais complexa, pois depende da taxa de transmissão do vírus, e esta não depende apenas do vírus, mas também de nós. Ela depende de como interagimos entre nós, quantas pessoas encontramos, quanto tempo passamos juntos, a que distancia, se usamos máscaras ou lavamos as mãos com frequência. Mantendo estas medidas de distanciamento físico e bloqueio de transmissão do vírus, a taxa de transmissão se reduz e o efeito de imunidade coletiva chega mais cedo.

Ainda assim, atingir a imunidade de rebanho não significa vencer a guerra. Como ela está ligada à taxa de transmissão, se revertermos as mudanças feitas para conter o vírus, a transmissão volta a subir e os níveis para atingi-la voltam a ficar mais distantes. Por isso, apesar de imaginarmos que lugares com queda importante da transmissão, como Manaus e Rio de Janeiro, já tenham atingido o limiar de rebanho, este pode ser temporário e dependente de um controle estrito das medidas de distanciamento e bloqueio. Uma reabertura descontrolada pode tornar esta imunidade apenas um sonho passageiro e a imunidade coletiva vira mais uma vez um objetivo distante.

A imunidade de rebanho real é uma escolha da sociedade e depende do comportamento de cada um. Se escolhermos a mudança de hábitos persistente, venceremos o vírus com um rebanho com menos vítimas e mais protegido. Se preferirmos deixar tudo à própria sorte, a epidemia não terminará mais cedo, mas custará mais vidas. Cada vez que você escolhe lavar as mãos, usar máscara, ficar mais distante ou sair menos de casa, você escolhe proteger toda a sociedade. No final, com essas ações escolheremos o rebanho em que vivemos, e por consequência escolhemos a nossa imunidade coletiva.

Sobre esse artigo

Marcio Sommer Bittencourt é médico, doutor em Cardiologia pela USP, pesquisador do Centro de Pesquisa Clínica e Epidemiológica do Hospital Universitário da USP e professor da Faculdade Israelita de Ciências da Saúde Albert Einstein.

Otavio Ranzani é médico, doutor em Pneumologia pela USP, e pesquisador na USP e no Instituto de Saúde Global de Barcelona.

fecho

Este artigo foi originalmente publicada pela Agência Bori [Aqui!].

Diário de Pandemia

democracia

Por Douglas da Mata

O mito ocidental da democracia (e sua impossibilidade de convívio com os sistemas capitalistas).

Boa parte de nossa ciência social, destacando a sociologia brasileira, e certamente parte considerável da latino-americana, padece de um erro conceitual que deriva diretamente da mentalidade colonizada.

Na verdade, esta submissão não é deletéria às nossas ciências e cientistas sociais, mas a constatação de um fato histórico, ou seja, assim como o capitalismo subordina as relações sociais dentre as classes sociais de uma nação, ele o faz quando se trata de sociedades localizadas em países de diferentes posições relativas, aquilo que Adam Smith chamou de divisão internacional (do trabalho).

Claro que devemos afastar o risco economicista que ronda tais análises, mas não é errado supor que parte do que a ciência social produz aqui repercute uma anterioridade científica como referência, seja para criar novos olhares sobre as teses produzidas no chamado “mundo anterior” (principalmente a Europa), seja para confirmar outras teses.

O capitalismo subordina seus atores, e com boa chance de acerto, subordina também as narrativas elaboradas por estes.

Neste sentido, a ciência social brasileira nunca questionou a existência da Democracia e sua convivência com o sistema capitalista que se hegemonizou a partir da Era Moderna.

No mínimo, sempre teve um grande receio de abordar com profundidade a possibilidade que a Democracia seja incompatível com o capitalismo.

Democracia aqui mal definida como um sistema de representação (direta e/ou indireta) que proporcione a supremacia de um projeto majoritário, sem aniquilação de minorias, fortalecimento de impessoalidade e isonomia (cada qual na medida de sua capacidade, responsabilidade, necessidade) na aplicação de recursos públicos e tributação, e que via de regra, dê chance para que as classes que se opõem no capitalismo se alternem no poder!

Certamente alguns sociólogos mais precipitados correrão a recitar o chavão: Democracia é um processo em construção!

Pois bem, mas para aceitar este sofisma temos que enxergar algum aspecto de progressividade, ou de avanço do empoderamento das classes subalternas.

A pergunta que se deve fazer, além dos parâmetros econométricos (IDH, PIB, longevidade, mortalidade infantil, etc) ou dos parâmetros institucionais formais (direito a voto, funcionamento das chamadas instituições, com imprensa e judiciário) é se, de fato, os “processos democráticos” permitiram alguma forma real de alternância de PODER.

Há pergunta anterior?

Sim, há:

É possível, dentro dos limites da ordem capitalista, que haja tal alternância?

Pensamos que não, e pensamos ainda que o chamado “processo democrático” nos trouxe a lugares bem distantes desta necessidade democrática de alternância, sem a qual, a etimologia da palavra democracia perde sentido ou utilidade.

Não me refiro aos dias atuais, onde esta distância parece óbvia, seja no chamado berço democrático (Europa, GBR), seja nos “campeões da democracia”, os EUA.

Falo de toda a história do capitalismo, que excetuando a rasa análise das agregações formais e econométricas que já citamos, sempre foi um vai e vem, de um passo a frente e vinte atrás, no quesito dos controles sociais dedicados a conservar as estruturas de subordinação!

Na verdade, toda a gama de “direitos” conquistada ao longo deste processo nunca teve sua permanência garantida, e “coincidentemente” (não é coincidência, mas causa e efeito recíproco), a cada volta da espiral de refluxo e fluxo da acumulação capitalista (agora pós capitalista, no rentismo) foi cassada parte considerável destas conquistas, trazendo as lutas para estágios anteriores aos que foram estabelecidos.

Enquanto isto, as estruturas de dominação nunca foram alteradas e/ou ameaçadas, ao contrário, a cada “direito” conquistado, criaram-se outros tantos freios ao avanço das sociedades, diluindo tais conquistas em uma equação de resultado (-1).

Por isto não nos espanta que os sistemas militares globais tenham estabelecido suas agendas como concorrentes a expansão rentista, monitorando e tutelando, direta ou indiretamente, os governos e entidades.

O medo da nossa ciência social de falar em alto e bom som que não existe e nem existirá democracia alguma em um sistema capitalista, é explicável.

Deriva do truque semiótico imposto pelos detentores do capital, imputando a pecha de autoritários a todos àqueles que desejam romper esta ordem pseudo-democrática.

Aproveitando o que nos diz Robert Kürz, este erro grave leva a outro, que é a construção de uma práxis “revolucionária” que só macaqueia e reproduz os erros de uma sociedade baseada nos mesmos pilares capitalistas, sem romper com esta ordem, sem oferecer a mesma dinâmica do consumo (prazerosa) e deixando apenas a parte autoritária das experiências planificadoras estatais, no chamado capitalismo planejado de estado, que tem seu maior expoente a China!

Só existirá Democracia ou processo democrático na luta anti-capital, e na extinção completa de suas formas de organização da sociedade.

Robert Kürz chama tudo isso de totalitarismo democrático, porque no capitalismo todas as escolhas já estão pré-determinadas, e o capital sempre sabe o resultado.

Algo como o alegado livre-arbítrio religioso, frente a um deus onisciente que sabe o que você escolherá!

É isso que a ciência social precisa dizer, e é isto que devemos ouvir:

Capitalismo e democracia são incompatíveis!