A morte por COVID-19 do senador que negava a gravidade da pandemia

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Presidente Jair Bolsonaro e o agora falecido senador Arolde de Oliveira cantaram juntos o hino da infantaria do Exército no dia 19 de novembro de 2019. Foto: Agência Brasil/Fábio Rodrigues

Inicialmente é preciso que se diga que toda e qualquer vida perdida para a infecção causada pelo coronavírus há que ser lamentada. Afinal, todo aquele que morre tem amigos e parentes com laços próximos de convivência que torna a morte um elemento trágico.

Dito isso, há que se mencionar o caso da morte por COVID-19 do senador Arolde de Oliveira (PSD/RJ) que replicou como poucos as teses negacionistas do presidente Jair Bolsonaro (ver abaixo a reprodução de um tweet de Arolde de Oliveira acerca do que ele rotulou de “vírus chinês” e do que seria uma “inutilidade do isolamento” social para evitar a propagação da COVID-19).

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A verdade é que o senador Arolde de Oliveira era uma pessoa educada com um bacharelado em Engenharia Eletrônica pelo Instituto Militar de Engenharia (IME), que esteve presente no meio político por quase 4 décadas, sempre como ocupante de cargos eletivos.  Isso o habilitava a ter uma compreensão mais racional e cientificamente ancorada dos riscos trazidos pela COVID-19.  Mas, claramente por causa dos seus acertos políticos, o senador optou por adotar o mesmo caminho negacionista do presidente Jair Bolsonaro. Isso torna sua morte aos 83 anos uma espécie de opção pessoal pela exposição ao risco extremo.

Assim, por mais lamentável que seja a morte de Arolde de Oliveira, me vem à cabeça a questão sobre todos aqueles que foram por ele influenciados em sua negação da letalidade da COVID-19.  Será que estão todos bem e ilesos ou estão tendo ou já tiveram o mesmo destino do senador? E se não estiverem bem e ilesos, como estarão sendo tratados?

Pandemia ocultada: com quase 5 milhões de infectados e mais de 146 mil mortos, Brasil continua como um dos epicentros da COVID-19

 

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A mídia corporativa brasileira foi gradualmente se adaptando à narrativa ditada pelos grandes grupos econômicos e financeiros que, de fato, controlam o governo Bolsonaro. Com isso, todas as notícias que povoavam as manchetes dos grandes veículos da mídia brasileira em março de 2020 agora estão sendo ocultadas em pontos menos nobres, raramente aparecendo nas manchetes e editoriais.

Essa ocultação da gravidade continuada da pandemia da COVID-19 tem várias consequências, sendo que a primeira é que se perde a noção da situação em que efetivamente nos encontramos. Os dados continuam alarmantes, pois segundo dados do site Worldmeters, o Brasil continua acumulando diariamente algo em torno de estratosféricos 30 mil casos, com cerca de 600 mortos a cada dia. Esses números estão mantendo o Brasil como o segundo país em número de óbitos causados pela COVID-19.

Em meio a essa ocultação midiática, vemos os governos estaduais e municipais seguindo a mesma linha adotada desde sempre pelo governo Bolsonaro e autorizando a volta de todo tipo de atividade, sob a chamada “bandeira verde”, sinalizando o contrário do que aquilo que ocorre de fato, qual seja, a continuidade de altos níveis de contaminação e de mortos.

Em algum momento futuro da História do Brasil, os analistas do período em que vivemos apontarão para os responsáveis pela situação vexaminosa em que a maioria dos brasileiros, especialmente os mais pobres, foram postos em meio a uma pandemia letal, sendo literalmente abandonados à mercê da própria sorte. Um lugar particularmente desonroso caberá aos proprietários de veículos de mídia que preferiram ocultar a pandemia, colaborando diretamente para que números desnecessariamente altos de contaminados e mortos fossem alcançados. A História será especialmente madrasta para aqueles que podendo informar e educar, preferiram se ajustar a um discurso que representa a mais pura forma de cumplicidade.

E depois, quando cobrados por essa postura infame, ainda invocam a tal “liberdade de expressão”. É muito cinismo!

 

O mundo pós COVID-19

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*Por Marcelo Souza

Hoje, bem que gostaria de ter uma bola de cristal ou alguma espécie de poder para conseguir prever o que acontecerá nos próximos 6 seis meses, mas infelizmente, ou talvez felizmente, não vivemos nas telas de Hollywood. Então só nos resta uma análise dos dados disponíveis e a observação de macro tendências, a fim de elaborar uma predição de como será o mundo pós COVID-19. Na última década, em especial, estávamos vivendo um momento de profundas transformações, uma onda de mudanças jamais vistas, batizada pelo professor Klaus Schwab em 2010, como a quarta revolução industrial. Desde a maneira como compramos, nos entretemos, nos relacionamos, negociamos, registramos ou nos movimentamos, para citar somente algumas áreas, presenciamos a desmaterialização de ativos e tudo, ou praticamente tudo que queremos e precisamos, passou a estar na palma de nossas mãos, a um clique.

Surge uma nova era, a das startups, empresas de garagem que geram valor de mercado, antes inimagináveis, com pouquíssimo capital inicial, incomodando sólidas organizações bem posicionadas no mundo dos negócios. A década de 2020 inicia-se com grande expectativa, como sendo a primeira da nova era: a quarta revolução industrial. Havia muita expectativa para esse novo período e quando tudo parecia tecnologicamente em escala exponencial, surgiu uma ameaça biológica, um vírus que, assim como os unicórnios corporativos, possui uma escala de crescimento exponencial. A partir disso, percebemos que toda a nossa tecnologia, alta capacidade de processamento, capital, governos e recursos vastos, não foram capazes de deter a sua impressionante e global evolução.

Nos dias que antecederam o shutdown do Brasil, assim com os primeiros dias posteriores, o sentimento de angústia e vulnerabilidade profunda, foram únicos e nos vimos em meio à um mar revolto com poucos recursos. Contudo em um momento de profunda reflexão, um slogan surge e nos descreve como sendo capazes de continuar avançando, não importa a tormenta. Dos ovos quebrados se faz um omelete, então sempre haverá oportunidade e em meio às crises, onde todos estão no mesmo barco, surgem novos negócios e maneiras de ver e viver a vida. Sem dúvida alguma, a COVID-19 marcará o mundo e atuará com o um catalisador para acelerar ainda mais a quarta revolução industrial.

Novas tendências ficam claras para o pós COVID-19, principalmente voltadas para social mídia, educação, trabalho remoto, liderança, conectividade, solidariedade, família, economia circular, capitalismo social e meio ambiente. Essas são algumas das áreas sobre as quais é possível predizer grandes mudanças.

Mídias sociais

As mídias sociais, ganharam ainda mais relevância e estão presentes na vida de quase todas as pessoas. O encapsulamento levou os mais avessos à tecnologia a mergulharem nelas e com as plataformas na palmas das mãos, se tornaram consumidores e geradores de conteúdo, consumidores e vendedores dos mais diversos tipos de produtos. As hashtags deram força às opiniões populares.

Educação e Trabalho Remoto

Já era realidade para setores como tecnologia e serviços, mas agora ganha uma escala sem precedentes. Percebemos que não é necessário estarmos todos juntos e no mesmo lugar para gerar valor reuniões se resumiram em um e-mail, dias de trabalho e viagens se compactam em uma rápida conversa virtual, sem contar as aulas dentro de seu quarto ou na varanda de casa. Sem dúvida seremos mais eficazes, o que nos gerará mais tempo para outras atividades.

Liderança

A COVID-19 levará as habilidades de liderança a um novo patamar, à liderança sem contato, por direcionamento aos resultados, sem registro de pontos, sem sessões de trabalho, mas com reuniões muito mais produtivas, eficazes, ágeis e inclusive, muitas vezes, via plataformas.

Conectividade

Estará vivendo todo o seu esplendor, mudando a dinâmica de tudo e todos, com previsão de um mundo conectado em sua totalidade até 2022, acelerando radicalmente tudo a nossa volta. A singularidade Homem – Máquina e a inteligência artificial apoiando a inteligência emocional será cada vez mais real por conta da COVID-19. O que ainda para muitos era mero entretenimento, ganhará uma conotação de essencialidade e ferramenta de sucesso para os negócios.

Solidariedade

A pandemia instaurada no mundo e o isolamento estão gerando uma grande consciência social e solidariedade com o próximo. Todos os dias é possível observar novas iniciativas de apoio aos mais vulneráveis. Concorrentes atuando juntos para produzirem itens necessários como máscaras, álcool em gel, equipamentos hospitalares. Cessar fogo em regiões de conflitos armados, crenças distintas agora juntas. O inimigo é comum e perigoso, não há tempo para brigas. A COVID-19 deixará um legado de um mundo com mais consciência e preocupação com o próximo.

Família

O shutdown que nos forçou ao isolamento e nos conectou mais, mesmo que nesse momento via plataformas, com pessoas com que temos maior vínculo e nossas famílias, esse contato aliado à essa sensação de vulnerabilidade e risco de perda, muda a ótica de performance, carreira e resultados. De que adianta excelentes números sem as pessoas que de fato são importantes para minha vida?

Economia Circular e Capitalismo Social

Ponto que desde 2016 durante o Fórum Econômico Mundial, vem ganhando força. O chamado caminho do meio, entre as teorias da economia, ganhou na quarta revolução industrial a energia necessária para escalar e erar valor com outras primícias. A COVID-19 irá catalisar modelos de negócios como compartilhamento, pensamento social, repúdio à obsolescência programada, preservação de recursos naturais e o setor de serviços. O pensamento passará a ser: para que possuir se posso usufruir?

Meio Ambiente

A Itália que vem sofrendo severo impacto com a COVID-19, registra queda de 40% em suas emissões atmosféricas. Em Veneza é possível contemplar a beleza de águas cristalinas em seus famosos canais, ao ponto de ser possível ver peixes nadando serenamente. Segundo a Agência Internacional de Energia (AIE), o consumo de petróleo registra forte redução. Praias no litoral paulista e nordestino do Brasil passaram a ser novamente local de visitação de tartarugas marinhas. A interrupção da rotina como estávamos acostumados, está colaborando para a redução de emissões atmosféricas, que geram o aquecimento global. Somente na China, o resultado já supera as 100 milhões de toneladas de emissões de dióxido de carbono, CO2, economizadas, sendo uma redução mundial de 6%. A queda de dióxido de Nitrogênio, NO2, nas últimas semanas chega a 39% em escala mundial.

Após a COVID-19 é claro que o mundo nunca mais será o mesmo em relação a diversos aspectos como hábitos, valores, consumo, relacionamento e meio ambiente. A percepção do mundo e de vida não será mais a mesma. Infelizmente, foi necessário sermos assolados por uma pandemia, sofrer a perda de vidas humanas para poder mudar nosso mindset e ver que somos mais frágeis do que imaginávamos, mas que existem outras formas de conduzir nossas vidas, que o que se perde no fogo, se acha nas cinzas.

*Marcelo Souza é CEO da Indústria Fox, pioneira na reciclagem de refrigeradores com destruição dos gases do efeito estufa.

Por que praias lotadas chocam mais do que trabalhadores usando transportado lotado?

Tenho visto o que considero uma falsa polêmica nas reds sociais sobre a repercussão das imagens de praias lotadas no Rio de Janeiro e São Paulo neste domingo passado, que não seria a mesma dos transportes públicos lotados (ver imagem abaixo).

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Para mim é muito simples e não há de despudorado em relação ao drama dos trabalhadores que se arriscam diariamente (com ou sem pandemia) em transportes públicos de péssima qualidade. 

É que aos trabalhadores não tem restado outra opção a não ser enfrentar o risco quase certo da contaminação em busca do dinheiro que vai comprar a comida que vai matar a fome da família.

Já quem foi às praias, a maioria das classes médias e altas, foi lá em completa desconsideração ou empatia com os mais de 121 mil mortes que já foram causadas pela COVID-19.   E é seguro dizer que a maioria desses praieiros são eleitores de Jair Bolsonaro ou de algum outro governante de direita. 

Então, me desculpem, não há surpresa ou desconsideração com a situação dos trabalhadores que precisam usar transportes públicos. O que há, pelo menos da minha parte, é completa irritação com a falta de empatia e solidariedade social de parte da população brasileira que está se lixando para os efeitos devastadores da pandemia da COVID-19, pois se sabe que a maioria dos mortos são pobres.

Brasil ultrapassa 120 mil mortos pela COVID-19

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Com mais 858 óbitos nas últimas 24 horas, o Brasil atingiu 120.452 mortos pela COVID-19. No tocante à infecção pelo coronavírus, o valor de infectados nas últimas 24 horas, o Brasil teve mais 32.202 casos, totalizando 3.844.807 infectados.

Em meio a essa catástrofe humanitária, o país continua com um general, Eduardo Pazuello, que não possui nenhum conhecimento na área médica, mas que está ministro da Saúde. 

Está evidente que todas essas mortes não teriam ocorrido se o governo Bolsonaro, a começar pelo presidente, não tivesse optado por desmobilizar todos os esforços em prol do confinamento social e da adoção de regras que impedissem a rápida disseminação do coronavírus.

A verdade é que o que está acontecendo no Brasil neste momento terá fortes repercussões sociais, econômicas e políticas.  O ano de 2021 não será nada fácil, mesmo porque a pandemia da COVID-19 não deverá se encerrar em 2020.

“Bolhas” de proteção local podem ter freado COVID-19 em São Paulo, aponta pesquisa

Existência de locais onde infectados estão rodeados de pessoas imunes e esgotamento de redes de contágio podem explicar recuo da covid-19 na capital paulistaluva máscaraEstudo com participação do Instituto de Medicina Tropical de São Paulo e da Faculdade de Medicina da USP mostra que diminuição do número de casos de COVID-19 na cidade de São Paulo pode estar ligada à formação de bolhas de proteção local, onde infectados estão rodeados de pessoas imunes, ao mesmo tempo em que esgotaram as redes de contágio – Foto: Pixabay

Por Júlio Bernardes para o Jornal da USP

Em julho, depois de quatro meses de epidemia de COVID-19 na cidade de São Paulo, teve início uma fase de relaxamento das medidas de distanciamento social, trazendo o temor de piora da situação. No entanto, o que aconteceu foi uma redução do número de casos, mortes e de ocupação de leitos. Para entender essa situação, uma pesquisa com participação do Instituto de Medicina Tropical de São Paulo (IMTSP) e da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) usou um modelo que simula a disseminação da doença a partir dos números oficiais de distanciamento social. O estudo, publicado como pré-print (versão prévia de artigo científico, sujeita a verificação), concluiu que a diminuição pode ser causada pela formação de bolhas de proteção local, onde os infectados estão rodeados de pessoas imunes, ao mesmo tempo em que se esgotam as redes de contágio.

A pesquisa usou um modelo desenvolvido pelo Ação Covid-19, um grupo interdisciplinar que estuda como a desigualdade afeta a evolução da pandemia no Brasil, reunindo pesquisadores da Universidade Federal do ABC (UFABC) e de outras instituições. O modelo combina o cronograma oficial da taxa de distanciamento social divulgado pelo governo do Estado de São Paulo com a hipótese de redução da taxa de distanciamento social para 20% em média em 100 dias, a partir de 12 de julho.

“A curva epidêmica média após 238 dias de simulação, contados desde o primeiro caso da doença, registrado em 25 de fevereiro, mostra uma taxa de 12,71% de infectados e 0,12% de mortes, ou seja, 0,9% de letalidade”, afirma Gerusa Maria Figueiredo, pesquisadora do IMTSP, que participou do trabalho. “A simulação mostra a curva de transmissão diminuindo, mesmo com uma redução drástica do isolamento social, com um aumento leve e temporário a partir do 150º dia.”

De acordo com a pesquisadora, o resultado parece contraditório ao levar em conta que devido à baixa taxa de imunidade, a imunidade de rebanho está distante. “Por isso foi levantada a hipótese do surgimento de bolhas locais de proteção na cidade. As bolhas seriam locais onde existem pessoas infectadas, mas rodeadas de pessoas já imunes, quer seja pela doença sintomática ou assintomática, e estas protegendo os suscetíveis dessa mesma região”, explica.

Gerusa aponta que uma explicação adicional para a redução do contágio é o esgotamento da rede de infecção. “Isso ocorre quando o vírus está presente em uma parte da população por um período relativamente longo, nesse caso, de 138 dias desde o primeiro caso registrado. Um número substancial de infectados não encontra muitas pessoas suscetíveis no ambiente para infectar durante o período de transmissão, o que seria suficiente, a princípio, para diminuir a taxa de transmissão”, aponta. “Esses resultados podem ser encontrados em outras situações, como as de Manaus e Estocolmo, que também tiveram queda de casos após relaxamento das políticas de distanciamento social.”

Bolhas de proteção

Dado o baixo número de pessoas imunes no município de São Paulo apresentado pelos inquéritos sorológicos, essa redução representa um equilíbrio instável, que é fundamentalmente diferente da estabilidade esperada da imunidade de rebanho, observa a pesquisadora. “Essas bolhas de proteção podem estourar ou as redes podem ser reiniciadas, ou seja, novas ondas de transmissão podem ocorrer se o distanciamento social cair muito ou houver uma reintrodução do vírus em regiões da cidade onde poucas pessoas foram infectadas e, portanto, não se tornaram imunes à doença”, alerta. “Prever essas ‘bolhas estouradas’ é difícil, mas não é um fato improvável.”

“O risco de rompimento das bolhas poderia ser bastante reduzido com políticas de testes em massa ou com a combinação de testes seletivos e rastreamento de contato”, ressalta Gerusa. “No momento, onde perdeu-se a chance de lockdown, a testagem de casos pouco sintomáticos e o rastreamento de contatos com realização de testes RT-PCR seria uma estratégia razoavelmente eficaz na redução da cadeia de transmissão”, afirma. “Infelizmente, além do número total de testes realizados, não se sabe como esta estratégia está sendo efetivada nos territórios cobertos pela atenção básica, comprometendo o trabalho da Vigilância Epidemiológica. Uma estratégia de comunicação clara para a população, com mensagens não contraditórias, também é de suma importância.”

A pesquisadora observa que, embora o modelo seja adequado para abordar heterogeneidades dentro da cidade (diferenças nas vulnerabilidades dos bairros, por exemplo), a pesquisa considerou a cidade como uma unidade homogênea. “Para contemplar a heterogeneidade, seria necessário construir um modelo mais complexo com diferentes ambientes interconectados.”

As conclusões da pesquisa são detalhadas no artigo Local protection bubbles: an interpretation of the decrease in the velocity of coronavirus’s spread in the city of Sao Paulo publicado no site Medrxiv.

A pesquisa foi coordenada por José Paulo Guedes Pinto, da Universidade Federal do ABC, em São Bernardo do Campo (Grande São Paulo). O trabalho teve a participação de Patrícia Camargo Magalhães, da Universidade de Bristol (Reino Unido), Gerusa Figueiredo, da FMUSP, Domingos Alves, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP e Diana Maritza Segura-Angel, da Escola de Aviação do Exército, em Bogotá (Colômbia).

Mais informações: e-mail gifigueiredo@usp.br, com Gerusa Figueiredo

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Este artigo foi inicialmente publicado pelo “Jornal da USP” [Aqui!  ].

A COVID-19 sumiu das manchetes, mas o Brasil continua sendo um dos epicentros mundiais da pandemia

media blackoutParentes são vistos durante enterro em massa de pessoas que faleceram devido à  COVID-19, no cemitério do Parque Tarumã em Manaus, Brasil, em 26 de maio de 2020. REUTERS / Bruno Kelly

Nas últimas semanas venho notando um gradual desaparecimento das notícias sobre a  COVID-19 da posição de destaque que ocupavam desde que o Brasil passou a ser um dos epicentros da pandemia.  Essa mudança não me parece ser acidental, parecendo mais um ajuste editorial à necessidade de manter protegido um corpo que vem aplicando um dos maiores ajustes já operados em uma economia nacional desde que Ronald Reagan e Margareth Tatcher colocaram a ideologia neoliberal a serviço das grandes corporações capitalistas.

Mas que ninguém se engane ou se deixe confundir pela ausência da pandemia em posições de destaque nas publicações da mídia corporativa brasileira.  O fato é que o Brasil continua sendo com os EUA, um  dos principais epicentros da COVID-19, alcançando números cada vez mais catastróficos (ver tabela abaixo com os dados desta 3a. feira – 18/08)

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O fato é que no dia de hoje, o Brasil foi segundo país com mais casos de novas infecções (+44.119) e o primeiro em número de mortes nas últimas 24 horas (+1.234). Além disso, o total de mortos já atingiu incríveis 109.888, o que indica que até o final de agosto, o Brasil deverá ter em torno de 120.000 mortos pela COVID-19.

E, pior, não há nenhum sinal de que estejamos baixando do platô de alto número de infectados, o que implica que o número de mortos continuará sendo alto, cinco meses após o início oficial da pandemia da COVID-19 em território nacional.

Quais seriam os motivos para que a mídia corporativa brasileira passe a colocar os efeitos catastróficos da pandemia em posições secundárias de seus veículos? As possibilidades são inúmeras, mas a principal parece ser a necessidade pragmática de salvaguardar a existência do governo Bolsonaro, já que este opera para que as instituições financeiras e o rentismo que elas emulam continue dando aos donos dos grandes veículos de mídia o tipo de retorno econômico que suas atividades principais não geram. 

A verdade é que não nenhuma indicação de que o Brasil está próximo de passar o pior cenário da pandemia da COVID-19.  A diferença é que agora estamos sendo ainda mais mal informados sobre o que de fato está acontecendo. 

Tudo isso é péssimo porque a falsa sensação criada pela falta de informação gera a sensação de que o pior já passou, o que tende a acentuar comportamentos descuidados que contribuem para a dispersão do coronavírus.

Por isso, precisamos continuar nos esforçando para não apenas para manter a disciplina pessoal necessária para se manter saudável enquanto não for iniciada alguma campanha massiva de vacinação, mas também para continuar tentando informar o número máximo de pessoas que é preciso continuar tomando os cuidados básicos para se evitar a infecção pelo coronavírus. 

 

Quando a manchete esconde a notícia

Datafolha apurou que a maioria dos brasileiros critica Bolsonaro pela atuação na covid-19, opinião partilhada até por 35% dos eleitores bolsonaristas, mas a Folha deixou essas informações em segundo plano, escreve Paulo Moreira Leite, do Jornalistas pela Democracia

bolsonaro tosseJair Bolsonaro tosse durante ato em favor do golpe militar, no dia 19 de abrilImagem: Foto: Sérgio Lima/AFP

Por Paulo Moreira Leite

Um dos ensinamentos básicos da comunicação é simples: a manchete vale mais que o título, o título vale mais do que o texto e às vezes a foto vale mais do tudo. Estamos falando de comunicação, é bom esclarecer.

Jornalismo é outra atividade. Muitas vezes, por incompetência ou alguma motivação obscura, a notícia — a informação mais importante — está na última linha do texto. Pode parar na nota de rodapé. Ou mesmo desaparecer.

Num momento dramático da vida do país, a manchete de hoje Folha de S. Paulo é uma demonstração definitiva de uma inversão dessas noções elementares do jornalismo — atividade cuja legitimidade reside na capacidade de oferecer informações fidedignas para orientar leitores e, através deles, a população de um país.

Como não era difícil imaginar, a pesquisa mais recente do Datafolha apurou que 52% dos brasileiros consideram que Bolsonaro teve um papel negativo no combate à pandemia. Alguns acreditam que ele é totalmente responsável. Outros, que é parcialmente responsável.

Em qualquer caso, 52% da população não tem receio receio de afirmar que Bolsonaro tem responsabilidades numa tragédia destinada a permanecer para sempre na memória do país.

A Folha também apurou que, para 47% dos entrevistados, Bolsonaro “não tem culpa nenhuma”. Um número respeitável, sem dúvida.

A notícia, no entanto, é que 52% apontam a responsabilidade de Bolsonaro no episódio, com ênfase maior ou menor. Estamos falando da opinião da maioria de brasileiros e brasileiras, um dado essencial para o país debater a pandemia, as responsabilidades e as providências que devem ser tomadas no próximo período.

O destaque a esse número permite valorizar a necessidade de correção de rumo e definir responsabilidades. Sob governos democráticos, as pesquisas de opinião podem funcionar como filtros que auxiliam na tomada de decisões com apoio da maioria.

A longo prazo, é óbvio que essa avaliação– e a forma pela qual foi retratada –terá um efeito sobre a conjuntura política, inclusive na campanha presidencial de 2022.

Não cabe, aqui, questionar a qualidade técnica do levantamento do Datafolha. O instituto tem reputação comprovada pelo trabalho. A questão é outra.

Ao colocar a opinião minoritária na manchete, repetindo o destaque nas páginas internas, os editores do jornal fizeram uma opção questionável, quando se recorda que vivemos numa sociedade dividida, com maiorias difíceis.

Também deram pouco destaque a um dado importante que o próprio Datafolha apurou: a crítica a atuação do presidente atinge uma dimensão tamanha que já envolve uma parte significativa do eleitorado que lhe deu o voto em 2018.

Perdido na página B1, um gráfico mostra que 30% dos eleitores de Bozolonaro no segundo turno de 2018 apontam o presidente como “um dos culpados” pela pandemia. No mesmo gráfico, descobre-se que 5% cravam na opção “principal culpado”. Conclusão: 35% dos brasileiros e brasileiras que voltaram em Bolsonaro têm uma visão negativa de seu papel na luta contra a covid-19.

Isso explica porque 52% tem uma visão negativa do papel de Bolsonaro. É fácil saber onde estava a notícia.

Alguma dúvida?

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Este texto foi originalmente publicado pelo site “Brasil 247” [Aqui!].

Risco de morrer por COVID-19 em São Paulo é 50% maior em áreas de menor nível socioeconômico

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O mapa mostra o nível socioeconômico dos diferentes distritos administrativos do município de São Paulo de acordo com o índice GeoSES, usado no estudo. As regiões em vermelho são as de pior nível socioeconômico e, as áreas em azul, são as com melhor classificação segundo o indicador (imagem: reprodução do artigo)

Karina Toledo | Agência FAPESP – Moradores de bairros como Parelheiros ou Capão Redondo, ambos situados nas franjas da capital paulista, correram, em média, 50% mais risco de morrer de COVID-19 entre os meses de março e junho do que os paulistanos que residem em vizinhanças centrais e de alto nível socioeconômico, como Vila Mariana ou Moema.

A análise, baseada em dados do Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM) do Ministério da Saúde, foi feita com apoio da FAPESP por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP). Os resultados foram divulgados na plataforma arXiv, em artigo ainda não revisado por pares.

“A diferença no risco de morrer entre os bairros paulistanos de menor e maior nível socioeconômico pode chegar a 66% no período analisado caso sejam incluídos na conta os óbitos suspeitos, muitas vezes não confirmados por falta de testes”, diz à Agência FAPESP Francisco Chiaravalloti-Neto, professor da Faculdade de Saúde Pública (FSP-USP) e coordenador da pesquisa.

Como levantamentos anteriores já sugeriam, o padrão de mortalidade observado no estudo da FSP-USP foi se modificando com o passar dos meses. Até meados de abril, o risco de morrer por complicações causadas pelo novo coronavírus era maior nos bairros paulistanos centrais e de maior poder aquisitivo. A tendência se inverte na semana epidemiológica de número 16 – de 12 a 18 de abril – e, a partir desse momento, ter um bom nível socioeconômico passou a ser um fator de proteção contra a doença.

“Nossa análise indicou ainda que os óbitos por COVID-19 na cidade de São Paulo atingiram o pico na semana epidemiológica de número 20, entre 10 e 16 de maio. Depois disso é possível observar uma tendência de estabilização, que ainda não sabemos se vai se manter”, afirma Chiaravalloti-Neto.

Metodologia

Para chegar às conclusões descritas no artigo, os pesquisadores correlacionaram os registros de óbitos por COVID-19 – confirmados e suspeitos – com informações sobre o nível socioeconômico do local de moradia. Foram analisados os dados do SIM extraídos da base TabNet, da Prefeitura Municipal de São Paulo (PMSP), e os solicitados por meio do Sistema Eletrônico de Informação ao Cidadão (e-SIC), também da PMSP.

“Embora menos atualizado, o e-SIC nos forneceu dados com informação sobre as áreas de ponderação do IBGE [Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística] onde residiam os óbitos. Então correlacionamos a mortalidade por COVID-19 com as informações das áreas de ponderação do IBGE, que congregam setores censitários contíguos e trazem dados sobre escolaridade e renda, entre outros”, explica Chiaravalloti-Neto.

No estudo, o nível socioeconômico de cada local da cidade foi definido com base no Índice Geográfico do Contexto Socioeconômico para Estudos Sociais e Saúde (GeoSES), desenvolvido pela geógrafa Ligia Vizeu Barrozo, professora da USP e coautora do artigo. O indicador, que leva em conta variáveis como renda, escolaridade, riqueza e grau de segregação, varia de -1 (nível socioeconômico mais baixo) a 1 (nível socioeconômico mais alto).

“Observamos que o risco de morrer aumentou com maior intensidade nas áreas periféricas da cidade com o passar das semanas. Em todo o período analisado, vimos que o aumento de uma unidade no índice GeoSES [de -1 para 0, por exemplo] representou uma redução de 25% no risco de morrer por COVID-19 quando considerados os óbitos confirmados. Se incluirmos os óbitos suspeitos a redução foi de 33%”, conta o pesquisador. Seguindo o mesmo raciocínio, a redução seria, respectivamente, de 50% e 66% com a variação de duas unidades no índice GeoSES, ou seja, quando se passa de um extremo ao outro do indicador.

“Esse tipo de análise, que mostra a evolução da mortalidade semana a semana, pode indicar para o gestor público onde é preciso investir mais para combater a doença. Também revela áreas em que há excesso de óbitos suspeitos e, portanto, possíveis barreiras relacionadas ao controle da epidemia, como falta de acesso a testes diagnósticos, dificuldade de obter orientações e recursos para proteção individual e coletiva e menor acesso à internação e ao tratamento. O estudo enfatiza a necessidade de reconhecimento e enfrentamento da estreita relação entre os determinantes sociais e as condições de vida com o risco de morrer”, avalia Chiaravalloti-Neto.

O artigo Spatiotemporal dynamic of COVID-19 mortality in the city of São Paulo, Brazil: shifting the high risk from the best to the worst socio-economic conditions pode ser lido  [Aqui!]. 

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Este artigo foi inicialmente publicado pela Revista da Fapesp  [Aqui!].

O Programa de Meio Ambiente das Nações Unidas divulga obras sobre gestão resiliente em tempos de COVID-19

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O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA),  está circulando duas publicações recentemente traduzidas para o português com potencial uso por formuladores de políticas públicas e tomadores de decisão. O PNUMA é a principal autoridade ambiental global que determina a agenda internacional sobre o meio ambiente, promove a implementação coerente da dimensão ambiental do desenvolvimento sustentável no Sistema das Nações Unidas e serve como autoridade defensora do meio ambiente no mundo.

Diante de nossa missão e da situação de pandemia que a humanidade enfrenta, enxergamos a COVID-19 como um lembrete de que a saúde humana está profundamente ligada à saúde do planeta. Seguindo essa linha, gostaríamos de compartilhar dois materiais que acreditamos ter grande serventia na formulação de políticas públicas, nacionais e locais. 

O primeiro é a cartilha “Trabalhar com o meio ambiente para proteger as pessoas: resposta do PNUMA à COVID-19”, publicado pelo PNUMA  em maio de 2020. Nela, discutimos a origem de doenças zoonóticas, tais como a COVID-19 que nos aflige atualmente. Buscamos também apresentar suas origens e implicações, destacando o papel da natureza e de sua preservação na interrupção do ciclo de doenças zoonóticas. Por fim, apresentamos como o PNUMA se reorganizou para responder à crise atual e evitar crises futuras. As zoonoses representam cerca de 75% de todas as doenças infecciosas emergentes. Para evitar futuros surtos, devemos enfrentar as ameaças aos ecossistemas e à vida selvagem, incluindo perda de habitat, comércio ilegal, poluição e mudanças climáticas.

O segundo é o relatório “Construindo sociedades resilientes após a pandemia do COVID-19: principais mensagens do Painel Internacional de Recursos”, publicado pelo PNUMA e pelo Painel Internacional de Recursos (IRP) em maio de 2020, que fornece recomendações de políticas e exemplos extraídos de avaliações científicas do IRP para apoiar uma recuperação econômica inteligente em termos de recursos, guiada pela proposta de repensar a maneira como geramos riqueza, a maneira como nos movemos, vivemos e comemos.