Projetos de gás enfrentam graves problemas financeiros, mesmo com recuperação da pandemia

gnl

A Global Energy Monitor divulgou hoje (24/06) os resultados de uma pesquisa mundial sobre projetos de terminais de gás natural liquefeito (GNL). O relatório, “Nervous Money: Global LNG Terminals Update 2021”, destaca que apesar da recuperação da pandemia estar se acelerando em partes do mundo, 38% do fornecimento total planejado de GNL está enfrentando atrasos nas decisões finais de investimento (FIDs) ou outras interrupções graves de projeto.

A notícia é preocupante para o Brasil. Fora da Ásia, o país é um hotspot de investimentos no setor, com 13 terminais de importação de GNL em construção ou pré-construção. E o governo federal está impulsionando a infraestrutura de gás e a criação de novas termelétricas, tanto pela lei do gás sancionada em abril (Lei 14.134/2021), como pelos jabutis infiltrados na Medida Provisória 1031/2021, que privatiza a Eletrobrás.

No ano passado, apenas um projeto de GNL chegou a uma decisão final de investimento no mundo – o terminal Costa Azul, no México. Os custos excedentes foram exacerbados pela COVID-19, uma vez que muitos recursos humanos não puderam realizar o trabalho. “O tamanho dos projetos expôs os investidores a perdas catastróficas”, disse Lydia Plante, a principal autora do relatório da GEM.

O cenário para o gás contrasta com o mercado de energias renováveis. Esta semana, a Agência Internacional para Energias Renováveis (IRENA) divulgou um relatório em que afirma que o percentual de renováveis que alcançaram custo inferior ao das energias fósseis mais competitivas dobrou em 2020. Foram 162 GW – ou 62% do total de geração adicionada no ano passado – com custo mais baixo que as opções fósseis mais baratas. O documento ressalta ainda uma tendência de redução sustentada de custos das renováveis, tanto para instalação, como para a manutenção.

Barreiras ao gás

As preocupações climáticas são o maior entrave do gás na Europa, mas regiões-chave para esse mercado, como os EUA, foram afetadas também pelo fornecimento barato de Qatar e Rússia, afirma o estudo. O relatório aponta ainda a vulnerabilidade dos terminais de gás em ambientes de instabilidade política, e cita como exemplo os ataques de insurgentes às instalações da Total em Moçambique , ainda em construção. A petroleira francesa declarou “força maior” para o encerramento do projeto de 20 bilhões de dólares financiado por um amplo consórcio, incluindo investidores privados, bancos públicos e instituições de crédito dos Estados Unidos, China, Japão e União Europeia.

Outro impacto negativo para o ambiente de investimentos em gás foi o inédito relatório net-zero da Agência Internacional de Energia (AIE) em maio. A agência vê a demanda de gás caindo significativamente nos próximos anos e uma mudança global para a descarbonização total do setor energético viabilizada pela energia renovável. De acordo com a AIE, o comércio interregional de GNL precisaria diminuir rapidamente após 2025 sob um cenário zero líquido em 2050.

“O GNL foi vendido aos formuladores de políticas e aos investidores como uma aposta limpa e segura”, afirma Plante. “Agora todos esses atributos se transformaram em responsabilidades. Os cenários recentes da AIE para 2050 mostram que o GNL não tem lugar num futuro energético seguro para o clima. A indústria perdeu sua auréola climática, e a única questão é se a Administração Biden irá desperdiçar capital político precioso para apoiar potenciais elefantes brancos”.

Para Ted Nace, diretor executivo da Global Energy Monitor, quem avalia o investimento em infraestrutura como “seguro” pode enfrentar percalços no setor de gás. “A oportunidade para a construção de mais capacidade de exportação se reduziu, e os projetos norte-americanos ficaram para trás por vários motivos. Eles são vistos com razão, especialmente pelos compradores europeus, como particularmente sujos, devido à sua dependência do fracking.”

Uma vez considerado como uma solução climática potencial, o setor de GNL é cada vez mais visto como um problema climático, particularmente para os compradores europeus. A América do Norte responde por 64% da capacidade global de exportação em construção ou pré-construção. A América do Norte também tem os projetos mais conturbados, com 11 dos 26 terminais de exportação de GNL relatando atrasos na FID ou outras perturbações graves.

A capacidade de importação de GNL continua em rápida expansão, com projetos suficientes em construção ou pré-construção para aumentar a capacidade global em 70%. Da capacidade em construção ou pré-construção, 32% está na China, 11% está na Índia e 7% está na Tailândia. Fora da Ásia, o Brasil é um hotspot com 13 terminais de importação de GNL em construção ou pré-construção.

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Leia o relatório aqui.
A metodologia usada no Global Fossil Infrastructure Tracker está aqui .

Contatos para entrevista:
Ted Nace, Global Energy Monitor, (510) 331-8743, ted.nace@globalenergymonitor.org
Lydia Plante, Global Energy Monitor, (504) 442-8145, lydia.plante@globalenergymonitor.org
James Browning, Global Energy Monitor, (215) 900-0869james.browning@globalenergymonitor.org

Sobre o Global Energy Monitor

Global Energy Monitor é uma rede de pesquisadores que desenvolve recursos informativos sobre combustíveis fósseis e alternativas energéticas.

Sobre o Global Fossil Infrastructure Tracker

O Global Fossil Infrastructure Tracker identifica, mapeia, descreve e categoriza os oleodutos e terminais existentes e propostos. Desenvolvido pelo grupo de pesquisa Global Energy Monitor, o rastreador utiliza fontes públicas para documentar cada projeto e é projetado para apoiar o monitoramento longitudinal.

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