Mudança de hábito no consumo de pescado passa por mais informação

A técnica de separação da carne do peixe mecanicamente é uma das alternativas indicadas pela Embrapa para reduzir o custo de produção e o preço final do produto
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Manuela Ornelas de Abreu, proprietária da Peixaria Divina Providência

São Paulo, novembro de 2021 – Atualmente o brasileiro come, em média, pouco mais de 10 quilos de pescado por ano. Metade da média de 20 quilos anuais por pessoa no Japão, de acordo com a FAO – Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura. Hábitos e desinformação são dois motivos para uma diferença tão gritante. Afinal, consumir peixe ainda está ligado a questões religiosas no país. Tanto que os melhores períodos de venda do produto são a Páscoa e o Natal. Além disso, parte das famílias mantêm o costume de incluir o peixe na refeição apenas uma vez por semana.

Há cerca de dois anos, Alessandra Viena Sampaio, moradora no Jardim América, bairro da Leopoldina, na região histórica da zona Norte do Rio de Janeiro, nem pensava em ter pescado no cardápio da família. Mas ao seguir as redes sociais de uma peixaria que fica no Irajá, também na zona Norte carioca, ela foi conhecendo as possibilidades de pratos e a diversidade de peixes mudou sua rotina gastronômica.

Segundo Manuela Ornelas de Abreu, proprietária da Peixaria Divina Providência (@peixariadivinaprovidencia), responsável pela transformação da família Sampaio, a falta de conhecimento gera preconceitos e afasta as pessoas dos peixes. “Estou no ramo há apenas sete anos e há quatro resolvi criar as redes sociais da peixaria com informações e dicas que pudessem auxiliar as pessoas na escolha do produto e no preparo”, explica.

Com quase 30 mil seguidores, número que cresceu bastante durante a Semana do Pescado (@semanadopescado) – campanha nacional realizada de 1 a 15 de setembro, Manuela dá dicas sobre como escolher o peixe na hora da compra, fala dos diferentes modos de preparo e ensina como o consumidor pode evitar as falsificações. “Existem muitos locais que vendem um peixe qualquer como se fosse filé de pescada, por exemplo”, garante. “Mas com um pouquinho de conhecimento e prática o consumidor é capaz de ver a diferença e não ser enganado”.

Na contramão dos pequenos varejistas do setor, ela também se preocupa em falar sobre a pesca predatória e alerta para espécies que estão em risco de extinção. “É o caso do cação, que é muito consumido pelo brasileiro, mas que não passa de um tubarão e que está em vias de ser extinto”.

Está em nosso DNA

Helen Kato, pesquisadora da Embrapa Pesca e Aquicultura, em Tocantins, concorda com Manuela. Para ela, o consumo do peixe está em nosso DNA. Mas falta informação. “Outro fator para a baixa procura pelo pescado é o custo, mas temos evoluído muito”, afirma.

“Hoje o peixe não é para todos, mas na Embrapa desenvolvemos pesquisas que visam deixar o consumo mais acessível para o prato do brasileiro”, afirma. “O produto é recolhido vivo nos tanques dos produtores, colocados em caminhões e transportados até o frigorífico onde será abatido e mantido refrigerado. Isso tudo pesa no preço final”.

Uma das alternativas estudadas pela Embrapa é a técnica chamada CSM – Carne Separada Mecanicamente, realizada através da máquina despolpadora de pescado. “Trata-se de um processo para a retirada mecanicamente da carne que seria descartada. A máquina tira aquilo que a mão humana não consegue. Assim, aproveita-se mais e é possível ter preço melhor.”

Mas a realidade não é a mesma em todas as regiões do Brasil. A pesquisadora lembra que há estados que não possuem indústrias processadoras de pescados devido à baixa produção. “Nenhuma empresa de processamento irá se instalar em um local onde a oferta de peixes é pequena. Por isso, pesquisamos alternativas para diminuir o custo de produção. Nossa intenção é ter um pacote tecnológico bem fechado que reduza esse custo e possibilite investimentos na ampliação na criação de peixes.”

Helen alerta também que o país ainda enfrenta o mito de que peixe enlatado oferece algum tipo de perigo ao consumidor. Para ela, não há nada que justifique esse preconceito. “Hoje temos um rígido controle de qualidade e uma fiscalização efetiva que garantem a qualidade desses produtos. O consumidor precisa ficar atento e comprar apenas peixes que possuem o selo do Sistema de Inspeção Federal – SIF, que certifica que o produto cumpre todas as normas de segurança alimentar”.

Mudança de hábito

Mas o consumo de pescado também precisa passar pela mudança no hábito alimentar. Alessandra lembra que no seu caso foram meses de análise e estudos para se sentir segura. “Uma amiga me indicou a página do Instagram que, segundo ela, era um bar que servia peixes. Comecei a seguir esse perfil pensando em comprar petiscos”, lembra. “Até que descobri que na verdade era uma peixaria que também servia comida aos finais de semana”.

Mesmo com o marido e a filha gostando muito, antes de fazer sua primeira compra, Alessandra diz que passou meses olhando as postagens, analisando. “Lá tem receitas, curiosidades, dicas de como reconhecer o peixe fresco. Mas analisei tudo até que me convenci que podia melhorar minha relação com o peixe, que se resumia ao consumo na semana Santa e o bacalhau do Natal”.

Hoje ela entende que consumia peixe de baixa qualidade e isso afetava sua decisão de ampliar o cardápio com o produto. “Após maratonar no canal do Youtube da peixaria, que descobri pelo Instagram, tomei coragem para comprar peixe, mas sem me arriscar. No início era filé de tilápia e sardinha, que é o que já consumia”.

Para Alessandra foi uma revelação. “O sabor de um peixe fresco é incomparável e a surpresa: dá para fazer peixe sem deixar a casa toda com aquele cheiro que não é nada agradável”, afirma. “De lá pra cá, fui aumentando o consumo e comecei a arriscar a comprar peixes que não conhecia, com preparos de pratos para além de filezinho grelhado. E hoje a família já tem um xodó: Peroá (também conhecido como porquinho). Minhas amigas ainda não acreditam que virei a garota propaganda dos pescados”.

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