Estive hoje acompanhando um dos meus orientandos na apresentação do seu trabalho de Iniciação Científica no âmbito XV Congresso Fluminense de Iniciação Científica e Tecnológica (CONFICT). E como é comum nessas ocasiões, aproveitei para ver o que outros estudantes da Uenf estão fazendo em suas pesquisas. A minha caminhada pelas centenas de posters foi interrompida quando me defrontei com três trabalhos orientados pelo professor Gerson Adriano Silva, do Laboratório de Entomologia e Fitopatologia (LEF) do Centro de Ciências e Tecnologias Agropecuária.
O que me despertou o interesse, já que acompanho a matéria há mais de 20 anos, foi a avaliação realizada pelos orientador do professor Gerson Adriano Silva de 7 agrotóxicos quanto à sua eficiência para remover infestações, a dose letal necessária para uma dada praga, e ainda os impactos sobre a abelha cachorro, um importante polinizador para várias culturas.
No caso dos efeitos dos inseticidas Clorfenapir (proibido na União Europeia, Lambda Cialotrina e Metomil (proibido na União Europeia), a principal descoberta se refere ao fato de que a exposição das abelhas cachorro (T. spinipes) a esses agrotóxicos impacta a capacidade de voo delas. O resultado é que as abelhas tendem a demorar mais tempo para retornar para as colmeias, com impactos diretos na sustentação das mesmas. Na conversa com o estudante que realizou a pesquisa, ele me informou que a abelha cachorro é um importante polinizador justamente para as culturas nas quais os inseticidas são aplicados.
O segundo experimento fez uma avaliação de efetividade do inseticida organofosforado Malationa contra a lagarta do inseto Plutella xylostella (ou a traça das crucíferas), um inseto da microlepidópteros, que causa prejuízos consideráveis nas culturas da couve, couve-flor e repolho, penetram na epiderme da folha e causam a destruição da mesma. O Plutella xylostella ocorre nas culturas da alface, beterraba, brócolis, chicória, entre outras. Neste caso, o problema é que a dose letal (DL) determinada foi 74 vezes maior do que a dose recomendada, tornando o uso desse agrotóxico de nenhuma utilidade para a erradição de infestações de Plutella xylostella. Em outras palavras, qualquer uso da malationa para a traça das crucíferas é basicamente um desperdício de dinheiro.
O terceiro experimento se referiu à avaliação dz eficácia de 3 agrotóxicos (2 de controle biológico e outro o Lambda Cialotrina) contra a Spodotera frugiperda (conhecida como lagarta do cartucho) que é especialmente prejudicial em plantios de milho. Aqui a “surpresa” é que o Lambda Cialotrina apresentou uma eficácia quase 5 vezes menor do que a bioinseticida Tracer, enquanto o bioinseticida Dipel teve uma eficácia ainda menor do que a do Lambda Cialotrina. O problema aqui é a diferença de custo entre o Tracer e o Lambda Cialotrina é de 7 por 1. Com isso, os agricultores podem estar comprando e aplicando mais doses de Lambda Cialotrina para aumentar a taxa de letalidade do inseto alvo, levando junto outros insetos, inclusive insetos não alvo, incluindo polinizadores.
Pessoalmente considero essas pesquisas de muita importância e fico feliz que estudantes de Agronomia as estejam realizando este tipo de pesquisa, na medida em que seus resultados poderão impactar diretamente as práticas agrícolas para as quais eles estão sendo treinados para organizar e avaliar.