Firjan e o espectro do deserto verde no Norte e Noroeste Fluminense

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Deserto Verde no Espírito Santo: por cima tudo verde, mas sem vide por dentro

Os planos de tornar as regiões Norte e Noroeste Fluminense em uma réplica do “Deserto Verde” implantado no Espírito Santo pela agora defunta Aracruz Celulose não são novos. Tanto isto é verdade que ainda no de 2012, o meu então orientando Felipe Correia Duarte defendeu a dissertação intitulada “A expansão da monocultura de eucalipto no Noroeste Fluminense e seu potencial para a geração de conflitos socioambientais” no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais. Neste estudo, Duarte detalhou as estratégias que estavam sendo empregadas pela Aracruz Celulose (que depois foi Fibria e hoje é parte do conglomerado da Suzano Papel) para convencer proprietários rurais a ingressarem nos seus programas chamados de “Fomento Florestal”.

Agora, passados 11 anos desde aquela estudo rigoroso, recebo notícias que a Federação das Indústrias do estado do Rio de Janeiro (Firjan) está com planos grandiloquentes que envolvem o plantio de algo em torno de 260 a 600 mil hectares de eucalipto no Norte e Noroeste Fluminense.  Os debates em torno desse projeto tem aparecido a conta gotas em notícias da própria Firjan, mas fui informado que recentemente houve uma reunião para estabelecer as estratégias para concretizar planos que prometem mudar dramaticamente a paisagem regional.

A primeira coisa que se pode dizer é que tudo o que não se precisa neste momento é de plantios massivos em duas regiões que já sofrem com escassez hídrica a ponto de se estar tramitando um projeto de lei, o PL 1.440/19, de autoria do prefeito Wladimir Garotinho, quando era deputado federal, que visa  caracterizar o Norte e  o Noroeste Fluminense como regiões de clima semiárido. Como existem estudos que mostram o papel nefasto que os plantios extensivos de eucalipto sobre os recursos hídricos em função da demanda dessa espécie por água, sequer pensar em instalar este tipo de atividade no Norte/Noroeste Fluminense é um completo absurdo.

Em segundo lugar há que se dizer que as plantações de eucalipto em escala industrial não apenas escasseiam os recursos hídricos, mas contribuem com a elevação da poluição aquático em função do alto uso de agrotóxicos e fertilizantes químicos.  Assim, além de termos a perspectiva do escasseamento da água, haverá ainda o aumento da poluição química.

A terceira questão se relaciona ao aumento do êxodo rural, visto que a expansão da monocultura de árvores está diretamente associada à expulsão de populações rurais que ficam incapacitadas de obter seu sustento por causa da hegemonia de uma forma particularmente ostensiva de utilização dos solos e recursos hídricos.

Como tive minha atenção chamada para esta tentativa da Firjan de realizar ou participar da expansão desenfreada do eucalipto em nossa região, a minha expectativa é falar mais sobre este assunto. Desde já deixo clara a minha oposição à mais essa tentativa de implantação do deserto verde, quando o que se realmente precisa é de sistemas agrícolas que produzam comida saudável .

Finalmente, há que se lembrar aos planejadores da Firjan que o município de Campos dos Goytacazes aprovou em 2002, a Lei Municipal Nº 7282 de 26 de agosto de 2002 que estabeleceu, entre outras coisas, que o plantio total de eucalipto para fins industriais, não poderá ser superior a 3% (três por cento) do território do Município.

5 comentários sobre “Firjan e o espectro do deserto verde no Norte e Noroeste Fluminense

  1. Excelente artigo para pensarmos juntos a resistência a esses projetos que não levam em consideração os interesses da coletividade. Os interesses das elites agroindustriais da cana já destruíram bastante a Região a partir da manufatura de um consentimento que fez o povo acreditar que os interesses “deles” seriam os “nossos”. Os projetos da FIRJAN estão muito longe de representar os interesses e as necessidades da população das Regiões Norte e Noroeste. Nesse sentido, seu artigo chama atenção para a emergente articulação politica de segmentos da sociedade civil dessas duas Regiões comprometidos com o ambiente e com um processo de reprodução social mais justo.

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  2. Mais uma vez a dona da bola ditando regras nos territórios fluminenses… esse grupo já destruiu o vale do médio Oaraíba do Sul com seu nefasto projeto de industrialização da região sul do ERJ e a zona Oeste do município do RJ. Agora atacam com força o Norte Fluminense e em várias frentes, Hidroelétricas, Pchs termoelétricas, portos, hub de gás, fábrica de fertilizantes, fábricas de locomotivas, gasodutos e agora desertos verdes… até quando essa gente vai se impor em nossos territórios?

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  3. Parece que o escriba em questão não conhece o que é plantio de eucalipto.
    Primeiro: eucalipto não necessita de agrotóxico e a sua adubação com NPK, quando necessária é mínima;
    Segundo: temos no ERJ a lei Carlos Minc que não permite plantio desta monocultura em área contínua maior que 20 hectares.
    Terrorismo ecológico não resolve nada!

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    • Onésimo, as evidências sobre o uso de agrotóxicos em monocultura de árvores estão disponíveis na literatura científica. Sobre a Lei Carlos Minc, essa já foi rasgada faz algum tempo. E você acha mesmo que ela valeria frente aos planos da Firjan? Vamos lá, seja sério.

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