Como a Uenf se tornou tão irrelevante politicamente? A resposta está soprando no vento

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Há alguns dias publiquei um texto provocativo escrito pelo Douglas da Mata, intitulado “Qual será a opção academia diante do fascismo: ação ou omissão?“,  em que ele faz uma espécie de convocação às armas para a comunidade acadêmica campista para participar ativamente do debate eleitoral em Campos dos Goytacazes.  A partir do seu olhar aguçado, Douglas da Mata notou a solene ausência do que podemos chamar com alguma liberdade dos intelectuais acadêmicos sobre o urgente e necessário esforço de defender a democracia brasileira do crescente perigo que nos é imposto pela ideologia de extrema-direita.

Fiquei pensando no que foi dito pelo Douglas da Mata a partir da minha própria trincheira que é a Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf). Como cheguei aqui no cada vez mais longínquo ano de 1998, fui testemunha de visitas ilustres que incluíram Leonel Brizola, Lula, Anthony Garotinho, Sérgio Cabral e Luiz Fernando Pezão, apenas para citar os mais emblemáticos.

Pois bem, neste ano eleitoral, apesar de termos uma penca de candidatos associados (ou pelo menos tentando se associar) à Uenf quando ela completa 31 anos de existência, vivemos um completo marasmo em relação à eleição do próximo prefeito de Campos dos Goytacazes. Além disso, não tive notícia de que qualquer um dos candidatos tenha solicitado uma audiência com a reitora Rosana Rodrigues para tratar das possíveis contribuições que a universidade poderá dar para a solução dos graves desafios que persistem no município, sendo a miséria extrema que assola quase metade da população da população o maior deles.

Não creio que exista apenas uma causa para a perda da importância da Uenf no plano político municipal. Um primeiro aspecto que penso ser importante foi o crescente cerceamento imposto às universidades públicas pela justiça eleitoral para a realização de simples debates entre candidatos, quiça a prosaica distribuição de material de propaganda no interior do campus Leonel Brizola, uma trágica ironia para uma universidade que leva o nome de um dos principais líderes políticos da história recente do Brasil. É importante notar que as regras draconianas impostas pela justiça eleitoral às universidades públicas não foram acompanhadas por reações mínimas dos dirigentes universitários.  Em eleições anteriores, o que houve foi a adesão pura às medidas que engesseram o necessário debate de propostas dentro dos espaços universitários. Quem não se lembra da assinatura coletiva de um documento vindo da justiça eleitoral que potencialmente criminalizava docentes que fossem pegos realizando atividades políticas durante o expediente? Por causa desses dirigentes é que tem hora que lembro de um famoso poema do dramaturgo Bertolt Brecht, o Analfabeto Político.

Por outro lado, ao menos no caso da Uenf, o que se vivencia é o desgaste laboral de uma categoria cujos salários, apesar de serem maiores do que a média nacional, se encontram em franca corrosão há pelo menos uma década, o que torna boa parte dos pesquisadores cada vez mais mais envolvida em atividades adicionais que lhes toma tempo e energia. Com isso, poucos se dispõe a participar do processo eleitoral, que é visto pela maioria como algo com que, para começo de conversa, não vale que se gaste o tempo eventualmente livre.  

Também vejo que graças à compartimentalização disciplinar criada pelo Capitalismo, há quem se sinta constrangido a emitir opiniões e se engajar em debates eleitorais por não se sentirem capacitados a emitir opiniões com algum nível de autoridade acadêmica. Com isso, o pouco de discussão que é conduzida pela mídia corporativa campista acaba sempre reunindo um grupo seleto de intelectuais consentidos cujo olhar é guiado por um viés que não trata a luta política como ela realmente é, optando por um tom escolástico de análise que empareda e engessa em vez de dinamizar. Essa tendência de engessamento favorece aos proprietários da mídia corporativa campista já que se habilitam a indicar e escolher quem possui ou não a habilidade de interpretar o que está acontecendo, criando um museu de velhas novidades.

É juntando todos esses ingredientes que se pode chegar a entender como é que a Uenf se tornou tão irrelevante. O dramático é que se juntam cada vez mais evidências de que o papel idealizado por Darcy Ribeiro para a Uenf nunca esteve tão atual.  A situação política, econômica e ambiental que estamos vivendo demanda um envolvimento de todos os centros de pesquisa da Uenf na formulação de propostas que possam contribuir para que o município de Campos dos Goytacazes possa finalmente vir a ser aquilo que nunca foi.

O problema aqui é como quebrar a inércia paralisante que afeta não apenas os professores da Uenf, mas também os de outras instituições de ensino superior instaladas em Campos dos Goytacazes.  Um bom começo seria prestar atenção no que o Douglas da Mata, um outsider assumido, tem a nos dizer sobre os custos da nossa paralisia frente aos principais embates políticos que se colocam diante de nós nesta eleição e em outras que virão em um futuro próximo.

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