Em Campos dos Goytacazes, a eleição para prefeito deverá ser por W.O. Mas e depois?

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Por Douglas Barreto da Mata

Há algum tempo, escrevi que a eleição de Campos dos Goytacazes seria decidida não pelo embate governo e oposição, mas por completa ausência desse último segmento, como você pode relembrar aqui.  Hoje, li o texto do Professor Marcos Pedlowski, tecendo considerações sobre o governo Wladimir Garotinho e suas respectivas a falhas.

Pois bem, é preciso fazer um pouco de justiça, a partir de algumas constatações.  É fato que encontrar a cidade após a desastrosa administração de Rafael Diniz já seria algo difícil de reconstruir.  Agora imagine essa condição, acrescentada pela pandemia da COVID-19.  O que se viu, literalmente, foi terra arrasada.  Boa parte do tempo da administração foi dedicado à reversão desse quadro. 

Aquilo que o neto do oligarca Zezé Barbosa disse que seria impossível, a repactuação da cessão de direitos dos royalties, foi costurada pelo atual governo com certa rapidez, assim como uma intensa negociação com o Governo do Estado, que alocou uma gama considerável de recursos na cidade, e deu alívio de caixa ao município.  Também na esfera federal, a atual administração circulou com boa capacidade de interlocução, e conseguiu recursos para melhora da frota urbana de ônibus e outras verbas.

Tudo isso deu chance à recuperação da pontualidade dos pagamentos dos servidores, para posterior recomposição parcial de perdas salariais, restituição dos programas sociais interrompidos, como o Cartão Goytacá, Restaurante Popular, e outros programas menores.

A rede municipal de educação e saúde pareciam uma zona pós guerra, tanto do ponto de vista físico desses equipamentos, quanto do funcionalismo.  Uma grande parte foi reconstruída, e a parte gerencial é prometida como próxima etapa. 

Com a entrada de recursos públicos, a economia gerou empregos, e aqui uma outra observação: sempre creditam o fracasso ou estagnação da economia local, um tipo de Doença Holandesa, a hiper dependência dos royalties.  30 bilhões em royalties, dizem.

Sim, é verdade, o que não dizem é outra coisa.  Apesar de concordar com a tese do desperdício, boa parte desse dinheiro foi destinado ao pagamento de inúmeros serviços públicos, além da indução da economia local, seja com obras públicas, seja com pagamento de servidores. Se não fosse esse gasto, quem geraria empregos? A iniciativa privada?  Onde?

Com saldo positivo de geração de empregos nestes quatro últimos anos, nenhum empreendimento gerador de emprego foi iniciado nesta cidade.  Nada. Os parasitas continuam onde sempre estiveram, esperando vagar uma teta no orçamento público.  Então, temos que rever alguns conceitos sobre esses valores, diante de uma elite tão preguiçosa e mau caráter como a nossa, legatária do tempo da escravidão, e que ainda não entrou no Século XX.

Assim, o Professor Pedlowski sabe muito mais que eu, que por tudo isso, o que foi realizado teve lugar dentro de um ambiente hostil, da maioria da mídia e dos chamados setores “intelectuais”, ao contrário do silêncio cúmplice na administração de Rafael Diniz.

E se governar também é disputar espaço dia-a-dia, uma parte do esforço deste governo foi empenhada na tarefa de construção, senão de um consenso, pelo menos de alguma boa vontade destes, digamos, leões contra a família Garotinho, e gatinhos quando se trata de outros grupos políticos.

Pois bem, há, ainda, grandes problemas?  Certamente.  Mas como os governos se orientam em um processo democrático?  Sem uma oposição forte, com capacidade de debate propositivo, estruturado em dados, os governos tendem a perder a referência de si mesmos.

Quando menciono oposição relevante, não falo apenas do aspecto do incômodo, como fez o grupo local de vereadores, que tentou barrar a votação da lei orçamentária, deixando a cidade em suspenso até o início deste ano.

Querem um exemplo?  Eu me recordo que no início do governo Wladimir Garotinho, diante da possibilidade de restrições orçamentárias, o prefeito enviou à Câmara Municipal um projeto de reforma tributária, bem tímido, diga-se, exortando os mais ricos a pagarem na proporção de suas riquezas, a conta do funcionamento da cidade.

Foi o caos, e pior, raro caso de unanimidade dos edis, governistas e oposicionistas, e de todos os setores da cidade, inclusive da esquerda.  Aquilo que seria o início de uma importante discussão para reconfiguração da estrutura urbana, e que reside na assertiva de que paga mais quem pode mais, e por tal razão, têm os melhores serviços da cidade, foi abortada no útero legislativo.

Outro estranho consenso?  Águas do Parahyba, uma das chagas da vergonha da cidade, uma concessão que age quase na ilegalidade.  Como o prefeito enfrentará essa corporação sem uma base sólida de apoio de todos os vereadores, ou ao menos, a maioria deles? 

O caminho da justiça, tentado pela Procuradoria do Município trouxe alguns ganhos, mas que são poucos, diante do que precisa ser feito como regulação dessa concessão nefasta.  Eu acho que o compromisso das pessoas que desejam uma Campos dos Goytacazes melhor, em todos seus aspectos, é estabelecer uma disputa política concreta e honesta, trazendo para a pauta aquilo que realmente importa:  a cidade e seus serviços devem atender aos que mais precisam, e quem deve custear tudo isso são aqueles que têm mais grana.

É preciso dar aos bairros mais periféricos o mesmo conforto, limpeza, mobilidade, e segurança dos bairros mais ricos. 

É preciso diminuir a quantidade de carros nas ruas, as cidades devem respirar, e a gente andando é que faz a cidade respirar.

É preciso disciplinar, fiscalizar, multar e diminuir a velocidade dos veículos, dizer aos motoristas que eles não são os senhores da vida e da morte.

É preciso praças arborizadas, nos bairros, equipamentos públicos de convivência, mas também com grandes parques, como o Parque Ecológico em construção.

É preciso levar as instalações da administração para as áreas degradadas (centro e etc), fazendo com que funcionários vejam e sejam vistos pela gente que eles servem.

É preciso interromper o ciclo de apropriação da cidade por uma minoria, e devolvê-la à maioria.

Esta tarefa não é só do prefeito, é da comunidade, que deve cobrá-lo, permanentemente.

É preciso, terminada a eleição, sentarem todas estas partes envolvidas, governo, vereadores eleitos, os setores menos delirantes da oposição, e construírem um pacto pela governança da cidade.

Não com nostalgias de um passado horroroso e escravocrata, uma suposta opulência excludente e provinciana, que alguns bobocas de classe média, lacaios de uma elite arcaica, verbalizam por aí, com ares de academicismo. 

Uma cidade plural, viva e pulsante.  Uma cidade cidadã.

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