Um balanço amargo dos resultados do segundo turno das eleições municipais: a negação da política colocou o chicote nas mãos dos açoitadores

Flooding due to heavy rains in Rio Grande do Sul

Experiência devastadora das chuvas teve pouco ou nenhum impacto nas eleições municipais em Porto Alegre. Diego Vara/Reuters

Por João Anschau

Findado o segundo turno das eleições municipais é possível cravar sem medo de errar que os grandes perdedores destas eleições somos eu e você. Sim, nós dois ganhamos mais uma derrota. A novidade é que não tem nada de novo nesse resultado. Um trabalho árduo da criminalização da Política, aliado à miopia institucional de líderes estrategistas de ar condicionado no 19, pariu frutos nada saborosos e que terão que ser degustados por mais alguns anos.

A começar! Barrou-se toda e qualquer iniciativa que ousasse discutir, por exemplo, os impactos das mudanças climáticas nas nossas vidas nada românticas, e a consequente necessidade de colocar na agenda, colada na porta da geladeira, a preservação do que ainda resta de biodiversidade. Os poucos que se atreveram foram carimbados de apocalípticos. É mais fácil, cômodo e covarde fazer cara de paisagem, cordial e pacificador. Estes, confundem a fumaça branca do Vaticano com as queimadas produzidas e reproduzidas como de costume, achando que ambos sinalizam o mesmo. 

“Aos vencedores as batatas”

 A abstenção é uma vitória retumbante da chamada “grande” imprensa. Ela, que costuma usar seu o poder persuasão e chantagem, dá as cartas e joga de mão. Tem uma sorte danada e não perde nunca. Como estratégia prefere brigar com os fatos, jamais com os anunciantes. A informação é tratada como mercadoria e as narrativas são moldadas ao gosto do freguês. Umas quantas no cravo e, para vender imparcialidade gourmet, outra na ferradura lá de vez em quando. O Estado deve ser mínimo, minguado, para mim e para você que lê esse escrito agora. Tudo que envolve a política é tratada como uma doença incurável, capaz contaminar o bem bolado bolado pelos liberais que não conseguem viver sem as benesses do poder público. Não é incoerência. É um projeto. A indignação seletiva é alimentada e fortalecida diariamente e o alvo é sempre o mesmo. Os “liberais” não dormem. 

E o ganhador é…?

O acontecido no segundo turno em Porto Alegre já apresentou múltiplas análises. Não é tarefa simples processar o resultado final que reconduz um gestor incapaz de fazer o básico, e que tem como sua maior marca o  negacionismo. Mesmo tendo um currículo de não serviços prestados para o grosso da população, ele logrou êxito. No frigir dos ovos temos algo bem próximo a síndrome de Estocolmo “mas bah”. Ganhou o discurso do “nós por eles”, capturado e patrocinado pelos causadores do desastre. O homem do chapéu de palha deu um chapéu no sofrimento alheio, juntou-se ao grupo das vítimas e recebeu como prêmio um novo mandato. Uma distopia escrita em tempo real que centrou todo o enredo na frase “não é hora de achar culpados”. Não é necessário fazer nenhum exercício de futurologia para trás e saber qual teria sido o comportamento da mídia hegemônica se o paço municipal tivesse na cadeira de prefeito/a alguém do time da esquerda durante as chuvas de maio.  

Sirvam nossas façanhas, outra vez, de como não fazer e evitem seguir o nosso exemplo. Quem um dia se arvorou o carimbo de estado mais “politizado” do Bra(z)sil, hoje está na série D e correndo sério risco de ser rebaixado para divisões amadoras. Giovani Cherini, um deputado federal eleito democraticamente pelo RS, com o uso das urnas eletrônicas, mesmo que seu partido questione a lisura eleitoral há anos, é o chorume não aproveitável e que contamina toxicamente toda e qualquer tentativa de fazer uma conversa minimamente racional. Esse “nobre” parlamentar, a bem da verdade, não está sozinho nesta empreitada muito bem organizada e que não tem nada de estúpida, faz parte da chamada bancado do agro e como tal atende os interesses de seus patronos. Cherini, com o meu e o seu dinheiro, quer ir até a COP-30 e demonstrar – chupem cientistas, pesquisadores e afins – que o aquecimento global é uma grande mentira.

Contará, provavelmente, com a consultoria muito bem remunerada de Luiz Carlos Molion, o mesmo pesquisador que disse em 2023, no senado, que meteorologistas exageravam quanto à possibilidade de muita chuva no Rio Grande do Sul. Um dia depois da sua eloquente afirmação, parte do estado amanheceu debaixo d’água. Molion não foi folclórico ao contestar a ciência e o trabalho de seus pares. O adjetivo é outro.

O sucesso dos ganhadores do mesmo lado seguiu um roteiro muito parecido. Apostaram no medo e em temas que mexem com o imaginário dos eleitores. Continuarão a multiplicar o receituário de que o fim não está tão no fim assim, e que os extremos – chuvaradas, ciclones… – são parte do pacote da “felicidade” – e do Deus deles que quis assim -, mesmo que não os tenhamos contratado, portanto, seu cancelamento é impossível. E como não temos tempo para o óbvio, preocupados e pautados por trivialidades, interdita-se, em todos os sentidos, qualquer iniciativa que promova o contestar. Portanto, o SERASA não colocará em suas listas o nome dos dos delinquentes responsáveis pelo caos. 

Um levantamento feito pela EMATER/RS, após o dilúvio de maio, mostra um cenário nada paradisíaco quando o assunto é perdas, danos e consequências em se tratando de comida no nosso prato para logo ali adiante. Como vivemos cercados pelo improviso nada genial dos gestores públicos municipais, existe uma grande chance de termos gôndolas quase vazias de comida. E não é preciso ser um gênio para saber que segurança alimentar (para a galera que gosta de armas, vamos acabar com a chaga da fome?) foi mandada às favas mais uma vez em nome do “progresso” e das prioridades da turma do 1%.

As indústrias de processados e de remédios agradecem com generosas doações eleitorais. Sejamos honestos, o senhor e a senhora viu/ouviu durante alguns minguados segundos, dedicados por candidato/a ao legislativo ou a executivo municipal, independente de mídia, alertas – alertas – que o tempo não é – nem será tão cedo – de colheita farta, e que o mundo alimentar não se resume à soja? Ou que tomamos agrotóxicos de copinho, fazendo com que sejamos os top one no campeonato da insanidade produtiva e reprodutiva no uso de venenos? Cartas para a ouvidoria do blog. 

E por que chegamos nesse estágio quase terminal? Diferente do outro Deus, os “nossos” gurus acreditam no poder da magia e da osmose. A imortalidade de sua melhor referência política está na lista depositada no pratinho que fica ao lado da vela de 7 dias. No mundo real, aquele em que a desigualdade ainda reina, o modo no qual a relação é recíproca foi abandonada há muito. Ações simples, mas eficazes, foram deixadas de lado, tornando-se obsoletas. O diálogo contínuo foi deletado das práticas mais elementares. Ao invés de habilidosos camisas 10, o que se apresenta atualmente são caneludos que costeiam o alambrado do lado esquerdo e que comprometem o resultado final. Perdeu-se a mão e a forma fraterna de interação. A disputa para estes não é mais Política, mas, apenas, e tão somente, eleitoral. Alguém, com um mínimo de sensibilidade, precisa alertar essa galera que a balança da conciliação pende toda para o lado dos bem nutridos.

Não existe almoço grátis

“Não existe almoço grátis” ou “é a economia estúpido” deixaram de ser apenas mantras que dão as tintas para parte da sociedade que abandonou o caminho da coletividade e optou pelo pragmatismo do despachante ouvidor, bancado por quem já se deu conta de que no final da contas, problemas têm família grande, como já sentenciou o saudoso Paulo Leminski. Não é tão somente a conquista de corações e mentes, mas, voltar a conhecer e conviver com essa galera que têm corações, mentes, sonhos e muito medo represado. Dá pra ser radical, e manter as origens, sem perder a empatia pelos irmãos de jornada. É importante reforçar que mutações fazem parte de outra gaveta. A apatia e o descontentamento interessa apenas ao adversário que joga no ataque a todo o momento de forma sincronizada. 

Peço desculpas mais uma vez aos seres não racionais pela nossa total e irrestrita incapacidade. De fazer o beabá mais simples. De amar ao próximo como se não houvesse amanhã – nos tempos atuais, o amanhã é tão certo como 2+2 são 3. O breve futuro é uma incógnita, mas mesmo assim os advogados do capitalismo predatório, homens brancos, “héteros” e detentores dos meios, querem nos fazer crer que tudo está sob controle e a falta de freio é psicológico. Ao cabo de tudo o que temos é uma luta de equação básica: mais e mais estupidez resulta em cada vez menos tempo por estas paragens. E as opções, para eu que escrevo e você que acompanhou o texto até aqui, de encontrar outro lar, lamento informar, é zero. E morar em Marte, tô fora. A vizinhança é estranha. Portanto, o último apaga a luz. Espera, depois das privatizações, nem isso mais está garantido.

2 comentários sobre “Um balanço amargo dos resultados do segundo turno das eleições municipais: a negação da política colocou o chicote nas mãos dos açoitadores

  1. Excelente análise, JA, contudo, triste demais da conta, em que pese muito colado ao que ocorreu, infelizmente!

    De qualquer modo, é preciso acreditar que isso passará e a sensatez voltará, em 2026, com outra vez, LULA LÁ!

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