Cenas da neve campista: enquanto a cana queima descontrolada, o mercúrio entra nas nossas casas

Em 24 de setembro de 2024 publiquei uma postagem que trazia a informação de que, por causa das queimadas dos campos de cana de açúcar, Campos dos Goytacazes era a principal área de contaminação por mercúrio atmosférico. A relação entre queimadas nos campos de cana é simples e direta: as altas temperaturas que ocorrem nos solos no momento em que uma dada área é queimada libera o mercúrio que está preso ali há décadas em função do uso de agrotóxicos mercuriais, como no caso do DDT. 

As repercussões da presença de mercúrio sobre a saúde humana estão bem documentadas, pois a acumulação desse elemento químico no organismo humano é responsável por sérios distúrbios no sistema neurológico. Não bastasse os impactos do mercúrio, as partículas mais finas são capazes de entrar no sistema  respiratório, o que causa sérios problemas respiratórios em crianças e idosos.

Agora vejamos a imagem abaixo que mostra duas cenas do impacto da fuligem que está chegando em grandes quantidades nas residências dos campistas em função do grande número de queimadas descontroladas que já estão ocorrendo em função do início da safra de 2025 (ver imagem abaixo).

Enquanto no lado “A” se observam partículas maiores que normalmente atormentam quem quer manter o interior das residências e quintais limpos, o lado “B” mostra os impactos da deposição de um material particulado mais fino, justamente aquele que poderá vir a ser inspirado pelas pessoas e que irá disparar os problemas de saúde acima apontados.

Convenhamos que a cena “parada” não é tão impactante e não passa a mensagem em sua totalidade. Pois então vejamos as partículas em movimento, causando uma espécie de nevasca de cinzas, a qual adentra residências e o organismo das pessoas via processo respiratório.

Claramente não é necessário ser um pesquisador para entender o problema que estamos vivenciando  e que neste 2025 parece estar sendo favorecido por uma combinação entre fatores climáticos e demanda por matéria prima. 

Pois bem, dado que o município não possui mais uma secretaria municipal de Meio Ambiente, o que fazer? Eu diria que está passada a hora de que pare de procrastinar a aplicação da Lei Estadual nº 5.990/2011 que estabeleceu prazos generosos para a erradicação da queimada, com metas específicas para áreas mecanizáveis e não mecanizáveis. A mesma lei também definiu condições para a realização da queimada, como a comunicação prévia ao INEA e limites de distância de áreas urbanas.  Há que se lembrar que esta lei estabeleceu a proibição de atear fogo em áreas a menos de 1.000 metros da sede do município. Contudo, qualquer morador de área periférica sabe que esse limite não é respeitado.

Assim sendo, deixo a palavra com o Ministério Público Estadual, pois das autoridades municipais já se sabe que, incluindo o dublê de vice-prefeito e usineiro, não vão fazer nada para impedir que o fósforo continue cantando livre, leve e solto pelos campos de cana instalados no município.

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