Chuvas RS 2025: quem será o Caramelo da vez?

Nas chuvas de 2024, o cavalo Caramelo simbolizou a resistência contra as chuvas devastadoras que se abateram sobre o estado do Rio Grande do Sul

Por João Anschau*

A saudosa professora Iracema foi um ser que surgiu em minha vida sem pedir licença para ficar. Ocupou a janela, mesmo tendo chegado atrasada na lista dos notáveis influenciadores que estava sendo construída no meu imaginário. Nem por isso teve sua importância diminuída. Era dura, mas nunca perdeu a ternura pela escolha de um ofício, na época mais valorizado e respeitado, e mantinha o mesmo sentimento com seus rebentos adotados. Certa vez, numa prova de matemática – minha matéria favorita na época – me deu zero. Algo “improvável” de acontecer, mas o poder da caneta era dela. Recebi a avaliação, voltei para minha mesa e conferi uma por uma das questões. Todas estavam certas. Retornei e disse para ela que havia um erro. Ela concordou. 

– Mas a falha foi sua professora, retruquei. 

– O que diz o enunciado? 

– Desenvolva as questões. 

– O que você fez? 

– Resolvi as questões e as respostas estão corretas. 

– Você às resolveu diretamente, sem detalhá-las. 

– Mas a senhora sabe que eu sei. 

– Eu te conheço, mas se outra professora tivesse aplicado a prova, ela poderia concluir que você copiou as respostas de um coleguinha.

– Mas eu não colei. 

– Mas também não elaborou.

Com as paredes vertendo água internamente, devido ao excesso de umidade, acompanho o noticiário oficial da tragédia chuvosa que mais uma vez atinge centenas de municípios gaúchos. E entre um e outro boletim, aparentando um “Não vale a pena ver de novo”, reprise de 2023/24, um repórter quase comemora o fato de não termos ainda atingido os mesmos níveis de chuvas de maio do ano passado. Você não leu errado. Informa assim: “comemorando.”

Quem mora no extremo sul do Brasil sabe que o ocorrido por aqui há mais de um ano foi tratado com irresponsabilidade por quem deveria “informar e mediar o debate” acerca das volumosas chuvas. Sonho meu. Reconheço. O básico, causas e consequências, não estava na pauta. Campanhas publicitárias ufanistas — até filme idealizado pela Secretaria de Comunicação do governo gaúcho foi lançado, no qual se enaltecia o nosso ‘novo Bento Gonçalves Leite’ — brotaram em todos os cantos do Rio Grande do Sul (RS). Era um tal de força dos gaúchos pra cá, pra cima deles pra lá, que, de tanto floreio, dava pra desconfiar dos rumos que tomava a discussão a respeito de crises climáticas provocadas pelos mesmos de sempre. Romantização e normalização do absurdo foram a tônica sem gás. A mídia hegemônica que tem lado – o do lucro, e dane-se a nossa vivência harmoniosa (catástrofes também enchem os cofres dos patrões) – parecia ter apenas um objetivo: criar novos ‘heróis’ conhecidos, ou nem tão anônimos assim. Agora está em busca de um novo “Caramelo” para chamar de seu. E as vidas ceifadas? E as vidas ceifadas? Os capitalistas guascas colocam na rubrica ‘danos necessários’ e (serão) cobertos pelo erário mais adiante.

O mundo de Cristina e a lei de Murphy… “Parece mentira que estamos passando por isso novamente”. Essa frase foi disparada pela apresentadora do telejornal mais visto no RS. Não foi uma estagiária fazendo um programa experimental, no qual até se admitem erros pontuais que não prejudiquem o produto final. E acreditem, a jornalista não corou. Foi na cara dura mesmo. Abro agora a seção “erraram”.  Dona Cristina, o hoje foi previsto ontem por quem nos avisa há muito. Pesquisadoras e pesquisadores não fazem exercícios de futurologia lendo a borra do café. A ciência usa métodos racionais e nos apresenta cenários. São pessoas que, mesmo atacadas e tratadas como delinquentes, continuam a executar a tarefa de iluminar a estupidez humana — de nada adianta ter, como bem lembrou Jorge Furtado em “Ilha das Flores”, o telencéfalo altamente desenvolvido e polegar opositor, se a desigualdade continuar a ser a nossa maior “virtude”. Não há problema com a sua memória que, evidentemente, é seletiva e atende a interesses distintos da sua audiência. E acredito que pela sua idade não deve haver um diagnóstico de Alzheimer que possa justificar seu esquecimento. A senhora representa sem questionamentos os fiadores e patrocinadores da destruição do bem comum.

Em abril deste ano, o cais do porto, um dos espaços mais atingidos, em Porto Alegre, pelas águas em 2024, foi palco de um evento que discutiu empreendedorismo e inovação. O South Summit Brazil 2025 foi uma festa,  literalmente. Um carnaval sem malemolência fora de época. Nem parecia que naquela área, há alguns meses, a natureza mandava recados, incompreendidos por quem decide e aparenta ter problemas cognitivos, auditivos e visuais. Tudo o que era mostrado agora tinha glamour, respirava um ar de normalidade e tentava dar contornos de superação, alegria e novas oportunidades. Durante vários dias, em quase todos os espaços de jornalismo/entretenimento, éramos inundados — não é um trocadilho — com notícias incessantes a respeito da celebração — numa análise mais cuidadosa, aqueles informes pareciam peças criadas por relações públicas e marqueteiros do patrocinador maior, o Governo gaúcho. O meio ambiente, e sua composição cada dia mais apagada, inexistia para os olhos ligados de pessoas descoladas do mundo de verdade, aquele no qual inundações mataram, desalojaram e apagaram histórias. 

E o gerente governador Eduardo Leite — mesmo sem o uso do colete laranja vibrante, sempre alinhado, limpinho e bem passado — concedeu entrevista à sua rede particular de comunicação – leia-se concessão pública de TV e rádio. Entre as platitudes proferidas, Edú disse que em um ano não se resolve tudo. Invejem, Brasil, nosso “Nostradamus” de boutique. Temos um genuíno visionário e difusor de sentenças dignas de crianças em processo inicial de alfabetização. Um luxo no meio do lixo acumulado nas casas dos desafortunados de plantão. Fiquei de butuca aguardando que o gestor Leite anunciasse uma nova e “profícua” viagem, juntamente com o prefeito do chapéu de palha, Sebastião Melo, para a Holanda e aprender com o primeiro mundo como se faz. Concluo, depois de doses de “sabedoria” governamental, que a experiência acumulada por pesquisadores e especialistas gaúchos no tema não produz diárias e fotos para o próximo álbum — 2026 logo ali na frente — de estadista gourmet. A ciência gaudéria não fala holandês e se convidada a sentar-se à mesa, pode azedar o leite. Por isso, continuam as apostas em soluções mágicas, paliativas e totalmente distantes das reais necessidades que o momento exige. 

Na quarta-feira, dia 18, início da tarde, durante o retorno da cidade de Ijuí, noroeste do RS, tive a companhia, em aproximadamente 40 kms, de muita chuva. Água na pista, misturada com terra, era normal. Lavouras encharcadas, idem. Curvas de nível praticamente inexistem, pois ‘diminuem’ a área produtiva, e o solo que lute. E no meio dessa lama — literal e política — eis que surgem os produtores do PIB, pedindo renegociação. Apoio. Desde que os beneficiários estejam no grupo daqueles que realmente foram severamente atingidos pelas águas e que não possuem condições de continuar. É importante lembrar que o chamado agronegócio recebe uma generosa fatia de incentivos fiscais patrocinados por mim e por você. Estima-se que 85% das benesses direcionadas para o agro estão concentradas em grandes produtores de commodities (soja, milho, gado). E o que recebemos em troca? Na água e nos alimentos um combo de venenos e outros insumos zero saudáveis que são utilizados para acelerar processos e atender a sanha produtiva predatória agroalimentar. Resulta que o Brasil é um grande produtor de alimentos cancerígenos, cujos tratamentos, em sua maioria, são custeados pelo SUS. Sem magoá-los, vou me apropriar de uma definição dos especialistas do segmento nada pop: abre-se uma janela de oportunidade para que seja revisto — só que não vai rolar — esse modelo nocivo de praticar agricultura. Registro que a securitização não é para a senhora e para o senhor que plantam comida de verdade e têm uma relação harmoniosa com a natureza.

E o Barão de Itararé se apresenta e reforça a sempre atual frase: “De onde menos se espera é que não sai nada”. Se o Rio Grande do Sul foi em 2024 um laboratório de como não desenvolver ambientalmente, o mínimo que se espera da representação política eleita democraticamente é que revejam suas posições, mesmo para aqueles que estão no Congresso apenas e tão somente para representar os interesses de seus financiadores privados. Esse seria, no meu mundo ingênuo, o melhor dos mundos. Se a legislação ambiental já sofria ataques anteriores, agora conseguiram a façanha de abrir toda a porteira e aprovaram a Lei Geral do Licenciamento Ambiental. Enquanto isso acontecia, o RS perdia mais um tanto de sua cobertura vegetal de Áreas de Proteção Permanente. Ah, mas o que isso tem a ver com as enchentes sulistas? Tudo e mais um pouco. E já que o pudor foi deixado do lado de fora da porta da casa de tolerância legislativa, humildemente sugiro — também por respeito a elas, tratadas a machadadas — que retirem dos calendários a data alusiva ao dia da árvore. Não é apenas incoerente manter o 21 de setembro, plantar algumas espécies, sacar algumas selfies e no outro dia fingir que a cidade passou do verde para o cinza do concreto. Até a máfia tem regras de convívio que devem ser respeitadas, portanto, não adianta a bancada da destruição ambiental cobrir sua cara de surpresa quando a água cobra a conta.

Escrevo essa provocação durante a semana de Corpus Christi. Milhares não estarão com os seus para dividir o pão e o vinho porque mais uma vez foram expulsos de suas casas pelo recado duro das águas. Não é mais aceitável tratar isso como novo normal e aguardar, daqui a 12 meses, outros registros do mais do mesmo. Tampouco é recomendável aguardar as eleições de 2026 para ver quem vai puxar a capivara da destruição e exibir seus feitos nada cristãos. Se ainda existe resistência e resiliência, urge que se apresentem e guiem. O contraponto não é apenas uma questão de retórica. É fundamental apontar o nome, sobrenome e endereço dos responsáveis pela necropolítica guasca, financiada por aqueles que dizem não guentar mais “pagar” tantos impostos, mas nadam em isenções fiscais pecaminosas. Não é um convite à revolução. É algo mais simples: é a busca da salvação coletiva. Para isso, precisamos gravar na lista dos compromissos diários que reconstrução não é sinônimo de estradas. 

Ah, detalhe importante: diferente do que disse uma senhora, que ao mostrar-se conformada por ter sido desalojada outra vez, cravou que ‘Deus está no controle’, há controvérsias. Primeiro: não tenho procuração para representá-lo, mas contudo já adianto que Ele nos entregou o planeta alinhadinho, bastando efetuar manutenções pontuais e seguir. Segundo: Ele é filho de carpinteiro, mas não cursou engenharia. Terceiro: atrevo-me a revelar — e não é uma heresia, apenas análise de seu comportamento — que Ele não volta mais. A desistência tem relação direta com a falta de interpretação textual e comportamental do que Ele pregava. Portanto, incluam Ele fora dessa bagunça. E mais: Ele também não disse para contribuir com o dízimo e sustentar os agiotas da fé.

As respostas continuam insatisfatórias, incompletas. O poder público é omisso e mostra-se incapaz de ouvir especialistas. O barulho do colapso sugere não incomodar, e a escora dos anúncios de recursos e vazios de planejamento dá indícios de apodrecimento. Para além dos extremos climáticos, o que continua a avançar é a agenda do capital, esta que nunca é chamada às falas e, onipresente, escreve, interpreta e sentencia o nosso amanhã. A ampulheta do ‘se continuar assim, vai dar nada bom’ corre lentamente e segue o seu rito. E nós, convencidos de que é assim que a roda gira, assistimos e esperamos um milagre de um Deus que já deixou claro que não é signatário da teoria da prosperidade destrutiva. E não será surpresa se em breve as bets — outra praga normalizada e legalizada — entrarem no cassino da morte e faturarem ainda mais, literalmente em cima de mais um desastre que atinge certeiramente os carregadores da base.

Vivemos uma quadra histórica na qual a estupidez humana é premiada. Grosseiramente comparando, é como se alertássemos uma criança a não pôr um objeto de metal em uma tomada elétrica. Que aquilo pode dar ruim. Ao invés da segurança, da proteção, o que temos é o estímulo a fazer errado e o errado é saudado como necessário para “desenvolver”. Nossas “crianças” grandes, bem nutridas e com polpudos orçamentos publicitários, são tratadas como empreendedores… — e faço o complemento — do caos. Vivemos tempos de carestia e não faço referência aos preços dos alimentos. O meu alvo é outro: a escassez da razão. Não sei se haverá tempo, mas os sinais estão aí para quem é crente ou ateu. Contemplar, refletir, exigir e cobrar de quem sempre ganha à custa do nosso sofrer é mais do que urgente. Professora Iracema, ah como a senhora faz falta, pois necessitamos de mais pessoas que exijam o desenvolvimento aprofundado do enunciado e não queiram, de forma apressada, resolver tudo na base do “eu sei e ponto”, ignorando processos, terceirizando responsabilidades e culpando os atingidos, como se eles pudessem fazer escolhas. Mestra, a senhora tinha razão: precisamos da conta completa, sem atalhos.


*João Anschau é jornalista e Mestre em Educação nas Ciências pela Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul. Também é criador e impulsionador do podcast “Salve, Terra!” que está disponível no Spotify.

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