Por Douglas Barreto da Mata
Animado pelo aperitivo oferecido pelo editor deste blog, professor Marcos Pedlowski, vou colocar minha colher nessa sopa de eventos. Há algum tempo atrás eu mantenho a opinião de que a pré campanha para o cargo de Estado do Rio de Janeiro, e demais posições vinculadas, como a composição de chapas (vice), senadores e deputados federais e estaduais, não serão definidas por uma afirmação de supremacia completa de uma facção sobre outra. Ao contrário, vai ser uma luta renhida, onde vão sobressair sobreviventes, e a depender da conjuntura a ser desenhada, os candidatos e os vencedores terão tantas cicatrizes que a vitória poderá ser comparada a de Pirro.
Além das questões próprias de todas as campanhas eleitorais em todos os níveis e lugares, o Estado do Rio de Janeiro carrega questões bem específicas, ou como dizem os gaiatos, “o Rio não é para amadores”. Nesse pleito de 2026, esse Estado estará em péssimo estado, me perdoem o trocadilho, e as representações políticas tendem a refletir esse ambiente de fragmentação e atritos. Não é fácil construir consensos no meio na penúria e caos, pois “onde falta pão, todos gritam e ninguém tem razão”.
Uma olhada rápida para um dos concorrentes, o deputado estadual Rodrigo Bacellar e sua trajetória, até aqui, acidentada e truncada, são um exemplo dessa hipótese que defendo. Claro, nenhum processo de construção de uma posição é isento de conflitos, rusgas, cotoveladas e dedos nos olhos. Porém, olhando o adversário, Eduardo Paes, o único declarado até agora, observa-se que mesmo expostos ao mesmo tempo de especulação, pois os dois (Rodrigo e Paes) já revelaram seus planos desde 2022, parece que o caminho de Rodrigo pode ser comparado a escalada do Everest, enquanto Eduardo Paes, no máximo, sobe o morro da Pedra da Gávea.
Por certo, alguns dirão, principalmente os correligionários de Rodrigo, que isso pode fortalecer seu capital político e seu ânimo em vencer a tudo e a todos, e que uma queda de 50 metros é tão letal quanto uma de 500 metros. Sim, o jogo só acaba quando termina. Não duvido, e a derrota do próprio Eduardo Paes para Wilson Witzel seria uma comprovação dessa teoria, que precisa ser ponderada àquela que ensina que as coisas só se repetiriam em condições exatamente iguais, e isso é impossível, porque o tempo sempre será outro. Em resumo, Rodrigo não é Witzel, Paes não é o mesmo daquele tempo, e o tempo é outro.
A experiência nos mostra que campanhas iniciadas com esse nível de esforço raramente conseguem manter o ritmo até o fim. É diferente ser um azarão desacreditado, sem máquina, sem apoios de peso, ser uma “zebra”, e estar na condição de governador em exercício, presidente da assembléia estadual e controlador de orçamentos, e ainda assim não conseguir pacificar nem seu próprio quintal, nem na sua cidade natal.
Olhemos as circunstâncias. O governo Cláudio Castro padece de um sintoma antigo, que incide sobre a maioria das administrações que o chefe não concorrerá à reeleição, que é o fim antecipado do governo e de sua força. Aqui adicionamos os problemas da estratégia eleitoral em si, que exige que o governador atual “troque o pneu com o carro andando”, ou seja, “deixe de ser” o centro das atenções para dar impulso ao concorrente que ele diz apadrinhar (outros juram que foi obrigado a fazê-lo). Tudo isso em um governo que não reúne boas condições administrativas (para ser bem gentil), acossado por questões jurídicas pendentes, e com baixíssimo apoio do eleitor.
“Ah, mas Eduardo Paes” também viverá esse problema da transição e enfraquecimento. Sim, mas quem olha esse processo na prefeitura carioca observa que o prefeito Paes parece muito mais confortável que o pessoal do governo do Estado. A cidade carioca firmou-se como destino de eventos importantes, e o prefeito conseguiu angariar toda a atenção, enquanto o governo do Estado parece um coadjuvante distante. No debate sobre a segurança pública, Paes ganhou de lavada, e inverte uma lógica conhecida: mesmo alguns problemas sendo estaduais, como a segurança, o povo cobra do prefeito.
Eduardo Paes, nesse quesito, deu um nó tático no pessoal do governo do Estado. Nesse sentido, talvez o silêncio da família Bolsonaro não seja apenas uma reticência pessoal do primeiro filho Flávio com o deputado Bacellar, como todos os bastidores da política comentam, mas um cálculo político, ou seja, os Bolsonaro aguardam para anunciar apoio, caso o deputado Bacellar sobreviva a essa primeira etapa.
É um recado importante, que mesmo não verbalizado, precisa ser ouvido. Na política, às vezes, mais relevante é o que não é dito, arrisco a dizer que na maioria das vezes. Os Bolsonaro devem saber que não hipotecar apoio antecipado e público ao deputado enfraquece sua posição de partida, pois pouparia o concorrente de vários embates e definiria aos agentes envolvidos quem é quem.
Ainda que lá na frente os Bolsonaro, como todo grupo político, refizessem cálculo e substituíssem o deputado, com outra estratégia ou uma improvável, porém não impossível aliança com Paes, mesmo assim o deputado estaria em condições de negociação muito melhores, inclusive em relação a caminhos eleitorais alternativos, ou até, como dizem, uma opção por uma vaga ao Tribunal de Contas do Estado (TCE).
Então, sabedores de tudo isso, por que fazem desse jeito? Bem, não ouso adivinhar, mas sei dizer porque não o fazem, não o apoiam de antemão porque não o julgam merecedor desse apoio, não agora, e adotam o critério da oportunidade (ou oportunista), isto é, se ele emplacar, vamos com ele mesmo.
Um outro método de observação que aprendi, com o passar dos tempos, é olhar com atenção às aparições e gestos públicos em torno do candidato. Com exceção de seus deputados da chamada tropa de choque, e dos prefeitos que precisam de dinheiro, e por isso nunca ousariam fazer o que o fez o prefeito de Campos dos Goytacazes, Wladimir Garotinho, as visitas do governador em exercício em atos oficiais (e pré eleitorais) carecem de densidade (gente) e de repercussão, para além das bolhas de mídias já conhecidas.
Eu não posso afirmar com 100% de certeza, mas nessas agendas cruciais para o governador em exercício, pois são a largada de seu projeto, não vi nenhum nome “peso”, nenhum senador, como o próprio Flávio ou Portinho, que poderiam aproveitar para cerrar fileiras e, de quebra, começar as tratativas da campanha que vem por aí. Pode ser zelo para impedir interpretações de campanha antecipada pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE)? Pode ser reflexo das incertezas em relação a quem caberá qual vaga na chapa? Pode.
O estranho é que esse suposto cuidado não combina com tantas outras aparições descuidadas, ao mesmo tempo que seria normal a um pretendente a ser candidato a senador, como Portinho, e que não tem vaga certa, estivesse ali, justamente, para demarcar seu território, disputar espaço, conquistar o apoio, ou ao menos, não ter o futuro governador e candidato contra si. Enfim, o que parece é que Rodrigo Bacellar foi deixado no meio da arena, com leões como os Reis, os Garotinho, sem apoio explícito dos Bolsonaro, com a total indiferença de outro quadro relevante, como Dr Luizinho do PP.
Se ele conseguir sobreviver e sair debaixo dos escombros do terremoto causado pelo choque de tamanhas placas tectônicas, vai ter outra tarefa: se conseguir construir uma campanha, ele já estará bem ferido, enfrentando alguém que não sofreu tanto, como Eduardo Paes.
Para não fugir a metáfora esportiva, é como se ele tivesse lutado e ganho uma luta de doze duríssimos assaltos contra Evander Holyfield, e duas horas depois voltasse ao ringue para enfrentar um George Foreman totalmente descansado. A vitória é possível, porém, improvável.
