Dependência dos royalties: conversa fiada ou realidade?

Por Douglas Barreto da Mata

Eu passei uma parte de minha vida repetindo que Campos dos Goytacazes era petrodependente, e sempre me referi a tal condição como algo ruim e, ato contínuo, vinculado a classe política de então, personificada na família Garotinho, que em minha narrativa teria sido incapaz de diversificar a matriz econômica. Volta e meia, esse debate vem à tona e, recentemente, eu pude refazer minha opinião. Não é crime mudar de opinião, ainda. 

Na verdade, a cidade de Campos dos Goytacazes desde seu nascimento, até os dias de hoje, nunca teve uma economia de múltiplas atividades.  Começou como um curral na localidade de Campo Limpo, prenúncio do que seria um curto período de pecuária, logo abandonado.  Depois, veio o extenso ciclo escravocrata do açúcar, que evolui para o período da indústria sucroalcooleira, que se exerce como monocultura, até hoje.  Ao lado desse setor cresceu um amplo leque de serviços agregados (máquinas e transporte), e comércio de toda sorte.

Durante quase 500 anos, essa modalidade econômica não deixou de legado nada mais que comércio e serviço.  Os valores acumulados (capital) e concentrados nas mãos da elite local não reverteram em inovação tecnológica, indústria, ciência, nada.  A herança é um povo pobre, que dependia e depende do poder público.

Com a chegada dos royalties, o roteiro se repetiu, e a elite decadente do açúcar se reposicionou para drenar e acumular as verbas de royalties e, novamente, o que se manteve foram o comércio, os serviços e a logística de transporte da mão-de-obra que transita entre as cidades “produtoras”.  Para sermos justos, nenhuma região brasileira que vive de monocultura agrícola ou extrativista consegue ultrapassar essa barreira, transformando o capital primário em capital de transformação.

Campos dos Goytacazes pode ter a oportunidade de manter ganhos com a atração de empresas interessadas na vocação campista de serviços, comércio e logística, como as que necessitam de locais de armazenagem e distribuição de mercadorias, parques de energia fotovoltaica, sem mencionar a possibilidade de se firmar como produtora de alimentos, desde que haja investimentos em tecnologia.

Enfim, o fato é que olhei com mais calma, e percebi que essa cidade sempre foi dependente de uma só fonte econômica, e qualquer economista mediano saberia dizer que não é o dinheiro público que tem que diversificar o capital local. Isso é tarefa do setor produtivo, detentor dessa renda, que deve dar o salto econômico. Infelizmente, esse grupo nestas terras sempre agiu como parasita.

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