O sistema nacional de pós-graduação como produto de uma tempestade perfeita

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Tenho lido várias análises interessantes não apenas sobre os resultados da avaliação quadrienal da CAPES, mas também sobre o contexto em que está imerso o sistema nacional de pós-graduação. Resolvi, então, expor minhas próprias posições sobre o que observo cotidianamente, não apenas no programa em que estou inserido na Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf), o Programa de Políticas Sociais, mas também em outros nos quais participo eventualmente como avaliador de trabalhos de conclusão de Mestrado e Doutorado.

Salta aos olhos que a pós-graduação passou por um profundo ajuste desde 1998, ano em que ingressei como professor na Uenf. A principal questão que identifico é que a CAPES logrou desenvolver um sistema de centralização que, por um lado, padronizou o funcionamento dos programas e, por outro, causou forte perda de autonomia na definição dos elementos estratégicos que deveriam orientar seus objetivos. Tudo isso com pouquíssima compensação financeira. Costumo dizer que os docentes da pós-graduação vivem cumprindo tarefas intermináveis, como em um jogo de amarelinha: um pula-pula eterno, sempre com regras novas.

Como já apontaram analistas mais capazes, a CAPES utiliza sua alavancagem financeira, que nem é tão significativa, para criar um ambiente de competição entre programas. Isso não ocorre por mero sadismo, mas pela lógica de estabelecer um ambiente de “livre mercado” no qual os supostamente mais competitivos são premiados com mais verbas.

Do lado dos programas, essa lógica costuma ser assimilada sem maiores questionamentos, pois há a naturalização de que “é assim mesmo” e que reclamar pode render a pecha de programa problemático que não alcança as metas de excelência estabelecidas pela CAPES. Em vez do pensamento crítico e reflexivo que deveria caracterizar qualquer esforço científico, prevalece a busca incessante por notas mais altas nas avaliações, já que elas condicionam o acesso a benefícios, traduzidos em mais verbas de custeio e bolsas. Vive-se o reino do produtivismo acadêmico, em que ser “produtivo” significa gerar mais “produtos”. O que tenho observado é o aumento de produtos aptos a entrar na contabilidade da CAPES, algo semelhante ao que ocorre com caixas de banco que assumem múltiplas funções para ampliar o lucro dos banqueiros.

Pós-graduandos sem lenço nem documento, mas com forte pendor para uma relação garçom/cliente

É importante reconhecer que o ambiente criado pelo sistema de avaliação e ranqueamento da CAPES aposta na formação mais rápida de mestres e doutores, em um contexto no qual a maioria dos graduados não terá emprego. Faltam concursos nas universidades, e isso não é compensado pelas vagas nos institutos federais, que se tornaram uma espécie de válvula de escape.

A CAPES também se mostrou ausente na política de ensino superior ao permitir a redução, nas instituições privadas, da presença de mestres e doutores nos quadros docentes. Seus dirigentes sucumbiram às pressões dessas instituições quanto à empregabilidade desses profissionais, inclusive no âmbito da política de investimento em ciência. Enquanto isso, tais instituições absorvem um volume expressivo de recursos federais por meio de programas de governo. A política de beneficiar instituições privadas com recursos públicos favorece apenas os grandes grupos do ensino privado e resulta na entrega de profissionais de baixa qualificação à sociedade brasileira.

A escassez de empregos ajuda a explicar por que muitos procuram a pós-graduação sem a vontade e a disposição necessárias ao trabalho exigente desse nível de formação. Soma-se a isso um problema geracional agravado pela pandemia de COVID-19, com impactos dramáticos na qualidade intelectual dos ingressantes. Há ainda a crença de que a pós-graduação seria um destino manifesto, em que o diploma deixa de ser fruto de dedicação e compromisso com o conhecimento para se tornar algo presumido desde a aprovação na seleção. Muitos professores sabem que a cobrança por leituras e trabalhos de qualidade pode ser confundida com assédio ou perseguição política.

Nem sempre o problema é de vontade individual, mas resultado de um longo processo de rebaixamento de expectativas quanto às exigências para a certificação. O sistema de pós-graduação acaba arcando com déficits formativos que se iniciam ainda na educação infantil.

Esse processo de precarização formativa resulta na entrada de muitos pós-graduandos sem ferramentas básicas para uma formação exigente. Em nome da multiplicação de títulos, aceita-se tacitamente a necessidade de transigir em nome de um suposto bem comum. Em outras palavras, a pós-graduação brasileira é como um gigante com pés de barro.

A Inteligência Artificial e seus tentáculos estendidos

As ferramentas de inteligência artificial vieram agravar uma situação já problemática. Quem ingressou na pós-graduação há décadas sabe o que significava buscar produções científicas qualificadas, seja por meio de pedidos de separatas aos autores, seja em bibliotecas com acervos limitados.

Hoje, além dos portais eletrônicos — pouco utilizados por muitos alunos —, ferramentas como ChatGPT, DeepSeek e Gemini transformaram a forma de construir bibliografias e elaborar textos. Sem afirmar de saída que isso seja bom ou ruim, já se observa a precarização do esforço intelectual dos estudantes.

A noção tradicional de plágio está superada, e muitos orientadores ainda não perceberam isso. Acostumados a um processo manufatureiro de escrita, nem todos se deram conta de que hoje é possível gerar textos inteiros com um comando. O problema não é apenas a baixa qualidade, mas o fato de muitos textos serem falsificações de qualidade igualmente baixa.

Para agravar o quadro, a maioria dos programas ainda não ajustou regras que regulamentem o uso de IA na produção de dados e textos. Apesar da expansão desses “tentáculos digitais” e da produção crescente de lixo científico, o problema segue sendo ignorado.

A transformação da carreira acadêmica e sua captura pela subjetividade neoliberal

Cabe esclarecer o conceito de subjetividade neoliberal, inicialmente formulado por Michel Foucault e desenvolvido por Pierre Dardot e Christian Laval. Segundo a síntese do Gemini, trata-se de um modo de produção de si no qual o indivíduo se percebe como uma empresa (“capital humano”), orientado por desempenho, competição e autocontrole. Essa mentalidade internaliza a lógica de mercado nas relações sociais e afetivas, gerando isolamento, consumo excessivo e adoecimentos psíquicos.

Há hoje nas universidades brasileiras diversas situações funcionais adversas, inclusive para quem alcançou posições antes consideradas o ápice da carreira. Além da subjetividade neoliberal, o trabalho acadêmico está estruturalmente precarizado. Isso decorre não apenas de salários insuficientes, mas também da ausência de um horizonte claro de entrada e saída no sistema de emprego.

Jovens professores ingressam nas universidades públicas com menos direitos trabalhistas e sem perspectiva de aposentadoria compensatória. A ideia de que o professor universitário é privilegiado só faz sentido em uma sociedade uberizada, em que muitos trabalham longas jornadas sem direitos. Essa precarização reduz o apetite pelo trabalho intelectual e torna a produção qualificada algo desejável, porém secundário. Soma-se a isso a falta de investimentos contínuos na qualificação docente e em laboratórios de qualidade.

A produção e disseminação científica também foram alteradas pela expansão de publicações online sob a bandeira do Acesso Aberto, que transformou os mecanismos de publicação e abriu espaço para a premiação de lixo científico via editais. Há jovens pesquisadores acumulando dezenas de artigos e obtendo prêmios e financiamentos, embora muitos desses trabalhos tenham valor científico questionável.

O resultado é que professores precisam equilibrar cobranças crescentes por produtos mensuráveis com sua própria sobrevivência.

Síntese: uma situação que tende ao fracasso

Considerados em conjunto, os elementos elencados configuram uma verdadeira tempestade perfeita, na qual múltiplas distorções se reforçam mutuamente e produzem resultados estruturalmente equivocados. O problema central não é a ausência de diagnóstico, mas a escassez de disposição crítica para alterar o rumo.

Pode-se alegar que, por ser uma economia dependente, o Brasil não poderia aspirar a protagonismo científico ou a prêmios Nobel. Esse argumento, porém, ignora que outras economias já ocuparam posições ainda mais frágeis e conseguiram reverter trajetórias. A China é um exemplo eloquente de que a posição de partida não determina o destino. O entrave maior não é estrutural, mas a disposição de se acomodar a padrões baixos de exigência e tomar a estagnação como estratégia.

Na conjuntura atual, a adesão quase acrítica ao modelo de avaliação da CAPES e a difusão da subjetividade neoliberal no ambiente universitário apontam para a erosão da autonomia intelectual. Em vez de agentes críticos, corremos o risco de nos tornar executores de métricas. Se esse quadro persistir, a consequência previsível é a consolidação do atraso científico e tecnológico, acompanhada da evasão contínua de quadros qualificados. Trata-se menos de um risco hipotético e mais de uma trajetória já em curso.

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