O que a tragédia de Minas Gerais revela sobre o racismo ambiental no Brasil

Deslocamento forçado, especulação imobiliária e racismo ambiental

MG: Chuvas em Juiz de Fora e Ubá deixam 36 mortos

As mortes, desaparecimentos e destruição provocados pelas recentes chuvas em Minas Gerais, especialmente na Zona da Mata, expõem um padrão que se repete em todo o país: os impactos mais graves dos eventos climáticos extremos recaem sobre bairros populares, historicamente negligenciados pelo poder público e majoritariamente habitados por populações negras e de baixa renda. Nesse contexto, é fundamental destacar os agravos direcionados às meninas e, sobretudo, às mulheres negras. Principais chefes de família e responsáveis pelo trabalho de cuidado, elas enfrentam de forma desproporcional as consequências desses desastres, como a insegurança alimentar, o aumento da sobrecarga doméstica e a exposição ampliada às violências raciais e de gênero. Em cidades como Juiz de Fora, as áreas atingidas concentram déficits de infraestrutura urbana, saneamento e drenagem — elementos centrais para compreender o funcionamento do racismo ambiental no Brasil.

Dados técnicos nacionais ajudam a dimensionar a gravidade do cenário mineiro: Minas Gerais lidera o ranking brasileiro de municípios mais suscetíveis à ocorrência de desastres naturais, com 283 cidades mapeadas, e concentra mais de 1,4 milhão de pessoas vivendo em áreas de risco geo-hidrológico, o equivalente a 10,6% da população do estado (Nota Técnica nº 1/2023, Governo Federal; IBGE/Censo 2022).

Para CRIOLA, organização de mulheres negras que há mais de 30 anos atua na defesa dos direitos das mulheres negras, integra redes nacionais e internacionais de justiça climática e racial, e tem denunciado sistematicamente a ausência de políticas públicas que enfrentam o racismo ambiental como eixo estruturante da crise climática brasileira, uma política climática realmente eficaz precisa reconhecer esse legado histórico e incorporar medidas estruturantes, como: regularização fundiária e garantia de permanência; investimentos urgentes em drenagem, saneamento, contenção de encostas e arborização em territórios periféricos; mecanismos legais contra remoções injustas; inclusão direta das comunidades negras na formulação de planos de adaptação; e medidas de reparação histórica associadas à justiça climática.

“A distribuição desigual do território urbano, marcada por um legado de exclusão racial, força especialmente mulheres negras, muitas vezes chefes de família, a viverem em áreas de risco, onde o direito à moradia digna, ao saneamento básico e à infraestrutura é sistematicamente negado. É preciso reconhecer que enchentes como as que atingem Minas Gerais geram não apenas perdas materiais, mas também aprofundam as violências históricas contra mulheres negras. São elas que assumem a sobrecarga do cuidado, enfrentam a interrupção de renda, a insegurança alimentar e maior exposição a violência, enquanto o Estado permanece ausente. Não é desastre natural: é a intensificação do racismo patriarcal cis-heteronormativo que transforma eventos climáticos em mais injustiça para quem já vive na linha de frente da desigualdade”, declara Letícia Ramos, assistente de coordenação de incidência política em justiça climática de CRIOLA.

Pensando nesta temática, a organização lançou, em 2025, a Agenda das Mulheres Negras: Construindo o Futuro com Justiça Climática. Trata-se de um manifesto político e um conjunto de propostas que colocam as mulheres negras no centro do debate sobre a crise climática no Brasil. A publicação critica a exclusão dessas mulheres dos espaços de decisão sobre políticas climáticas e denuncia que o Estado frequentemente as empurra para zonas de risco (morros, encostas, margens de rios), enquanto financia modelos como o agronegócio, que degradam o meio ambiente. O material é gratuito e pode ser obtido via link.

População negra e de baixa renda é a mais atingida pelos eventos climáticos extremos

A intensificação de enchentes, deslizamentos, ondas de calor e secas têm aprofundado o deslocamento forçado de populações negras nas cidades brasileiras. Embora órgãos como a Defesa Civil Nacional e o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) disponham de dados sobre desastres e perfil sociodemográfico, ainda é limitada a produção e a divulgação de informações sistematicamente desagregadas por raça e gênero — o que dificulta a formulação de respostas adequadas.

Para CRIOLA, é fundamental que esses dados sejam coletados, analisados e aplicados de forma estruturante nas políticas públicas, orientando planos de adaptação, prevenção e orçamento. Sem essa incorporação prática, o enfrentamento à crise climática tende a reproduzir desigualdades históricas e a aprofundar o racismo ambiental no país.

Pesquisas sobre desigualdade urbana e socioambiental desenvolvidas pelo Instituto Pólis, pelo IPEA, por pesquisadores vinculados à Fiocruz e por universidades brasileiras apontam que a população negra está inserida de forma desigual no espaço urbano. Tais localidades concentram déficits históricos de investimento público e são classificados com maior frequência como áreas de risco, tornando-se os primeiros a sofrer os impactos de enchentes, deslizamentos e outros desastres associados às mudanças climáticas.

Raízes históricas que conectam clima e desigualdade racial

Pesquisadores e movimentos sociais mostram que a crise climática no Brasil não pode ser compreendida apenas como um problema ambiental. Ela é também territorial e racial.

No pós-abolição, a ausência de políticas públicas de acesso à terra, crédito e moradia empurrou a população negra para áreas desvalorizadas das cidades – encostas, várzeas e regiões periféricas. Esses territórios, historicamente negligenciados pelo poder público, concentraram baixos investimentos em saneamento, drenagem, contenção de encostas e equipamentos urbanos, tornando-se hoje os espaços mais vulneráveis aos impactos climáticos.

Ao longo do século XX, práticas como remoções forçadas sob o discurso da “reurbanização”, abandono crônico de investimentos públicos, expansão urbana orientada pela especulação imobiliária e políticas urbanas excludentes aprofundaram essa segregação socioespacial.

Esse percurso ajuda a explicar o conceito de racismo ambiental: a distribuição desigual dos riscos ambientais e da proteção do Estado, que penaliza sistematicamente populações negras e pobres. Diante desse cenário, é urgente que o poder público assuma uma agenda concreta de enfrentamento, com metas, orçamento e mecanismos de monitoramento, que priorize os territórios mais vulnerabilizados, incorpore dados desagregados por raça e gênero e responsabilize gestores pela implementação de políticas de prevenção, adaptação e reparação. Reconhecer o problema não basta — é preciso transformá-lo em compromisso institucional e ação efetiva.

Sobre CRIOLA

CRIOLA é uma organização da sociedade civil fundada em 1992 e conduzida por mulheres negras. Atua na defesa e promoção de direitos das mulheres negras em uma perspectiva integrada e transversal, tendo por missão trabalhar para a erradicação do racismo patriarcal cisheteronormativo, contribuindo com a instrumentalização de meninas e mulheres negras, cis e trans, para a garantia dos direitos, da democracia, da justiça e pelo Bem Viver.

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