Da memória à esperança: títulos de terra são entregues no Assentamento Cícero Guedes nas terras da antiga Usina Cambahyba

A cerimônia realizada hoje no Centro de Convenções da UENF, na Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro, marcou um momento histórico para as famílias do Assentamento Cícero Guedes: a entrega de 168 títulos de concessão de uso dos lotes nas terras desapropriadas da antiga Usina Cambahyba. O ato reuniu dirigentes universitários, parlamentares, sindicalistas, assentados, movimentos sociais, e apoiadores da reforma agrária, consolidando uma conquista construída ao longo de anos de mobilização e resistência.

Um dos momentos mais emocionantes foi a fala de Mateus Guedes, dirigente do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra e filho de Cícero Guedes, liderança histórica assassinada enquanto apoiava a luta pela criação do assentamento. Em seu discurso, Mateus destacou que a entrega dos títulos simboliza não apenas segurança jurídica para as famílias, mas também a continuidade do legado de seu pai e de tantos trabalhadores que lutaram para transformar terras antes improdutivas em espaços de vida, trabalho e produção.

A formalização das concessões representa um passo decisivo para a consolidação do assentamento, garantindo às famílias condições mais estáveis para investir na produção, acessar políticas públicas e planejar o futuro com maior segurança. Ao mesmo tempo, o evento reafirmou o papel da reforma agrária como política estruturante para o país. Mais do que ampliar a produção de alimentos, a democratização do acesso à terra contribui para gerar trabalho, fortalecer economias locais e reduzir desigualdades históricas na distribuição de renda no Brasil.

Assim, a cerimônia de hoje simboliza uma vitória coletiva: das famílias assentadas, dos movimentos sociais e de todos que defendem um modelo de desenvolvimento rural baseado na justiça social, na produção de alimentos e na construção de um país mais igualitário.

Como nota final, a cerimônia também carregou um forte simbolismo histórico. Os fornos da antiga Usina Cambahyba foram utilizados durante a ditadura militar para incinerar corpos de oposicionistas do regime, um dos capítulos mais sombrios da história recente do país. De forma profundamente irônica e carregada de significado, a entrega dos títulos ocorreu exatamente no 62º aniversário do golpe militar de 1964, transformando um espaço marcado pela violência e pela tentativa de apagar vidas em um território de memória, justiça e reconstrução coletiva. Hoje, o que antes foi cenário de morte torna-se símbolo de vida, dignidade e esperança para centenas de famílias da reforma agrária.

Deixe um comentário