De Copa do Mundo a uma extrema-direita que vai asfixiando um continente

Por Ismael Machado* 

De tempos em tempos meu organismo passa por uma situação singular. Ele adapta seus horários de forma a acompanhar eventos como Olímpiadas ou Copa do Mundo, de forma intensa, visceral. Gosto, sobretudo, dos jogos pequenos, mas que contêm uma enorme dramaticidade político-social-geográfica. Como as partidas de Cabo Verde, Curaçao, Nova Zelândia, Irã. Há possibilidades de os iranianos enfrentarem os Estados Unidos em outra fase da competição. Com o cenário de guerra entre as duas nações será mais que uma partida de futebol. Aliás, sou dos que defendem a tese de nunca ser apenas um jogo. Futebol é sempre algo além.

Já li textos afirmando que um sucesso de Messi e companhia ajudaria a conter a frustração do povo argentino com seu presidente, o tresloucado Milei. A conferir.

Fato é que, independentemente do que esteja ocorrendo em gramados mexicanos, estadunidenses e canadenses, o mapa político da América do Sul atravessa uma transformação significativa. Depois de quase duas décadas em que a chamada “onda rosa” levou ao poder governos de esquerda e centro-esquerda em grande parte do continente, observa-se hoje um cenário bastante diferente e preocupante a quem sempre almeja uma sociedade menos fratricida. Forças de direita e, em alguns tristes casos, de extrema direita, conquistaram espaço eleitoral e institucional em diversos países. A Argentina de Javier Milei talvez seja o exemplo mais emblemático dessa nova fase, mas não está sozinha. Equador, Paraguai e outros países da região também caminharam para governos mais conservadores ou liberais na economia, enquanto movimentos de extrema direita cresceram de forma expressiva em países onde ainda não chegaram ao poder.

Nesse contexto, o Brasil governado por Lula passou a ocupar uma posição singular. Não se trata exatamente de um isolamento diplomático, já que o país continua sendo a maior economia da América Latina e um ator relevante no sistema internacional, mas de uma relativa dissociação em relação à tendência predominante no continente. Em certo sentido, o Brasil tornou-se uma exceção em uma região que, pelo menos momentaneamente, parece ter deslocado seu centro de gravidade político para a direita. No meu pêndulo democrático, um país tender à direita, embora me avexe internamente, não é um problema insanável, pois faz parte do tabuleiro político. Já a ascensão da extrema-direita que não respeita a democracia em nenhum aspecto, me causa arrepios tremendos.

Essa situação contrasta fortemente com o início do século XXI. Entre os anos 2000 e o início da década de 2010, a América do Sul viveu um dos períodos de maior convergência política de sua história recente. Governos progressistas chegaram ao poder em praticamente todo o continente. Hugo Chávez na Venezuela, Evo Morales na Bolívia, Rafael Correa no Equador, Néstor Kirchner e depois Cristina Kirchner, além de Lula no Brasil. Embora houvesse diferenças importantes entre esses governos, existia uma percepção compartilhada de que a região deveria ampliar sua autonomia em relação aos Estados Unidos, fortalecer mecanismos de integração regional e utilizar o crescimento econômico para reduzir desigualdades históricas.

Foi nesse ambiente que surgiram iniciativas como a UNASUL, a ampliação do papel do Mercosul e a criação da CELAC. Havia um projeto político regional relativamente claro, o de aumentar a capacidade de negociação internacional da América do Sul atuando de maneira coordenada. Para quem não conhece, a CELAC é a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos, um organismo de articulação política criado em 2010 e formalmente constituído em 2011. Ela reúne 33 países da América Latina e do Caribe, abrangendo praticamente todos os Estados independentes da região. Sua principal característica é que não inclui os Estados Unidos nem o Canadá, diferentemente da Organização dos Estados Americanos. Por isso, a CELAC foi concebida por muitos governos como um espaço em que os países latino-americanos e caribenhos poderiam discutir seus interesses de forma mais autônoma, sem a influência direta de Washington, o que eu sempre considerei uma iniciativa incrível.

A mudança que ocorreu posteriormente não pode ser explicada apenas por fatores ideológicos. Tentando ter um pouco a inteligência analítica de meu amigo Bruno Malheiro, penso que o fim do superciclo das commodities reduziu o crescimento econômico, limitando a capacidade dos governos de financiar políticas públicas expansivas. Ao mesmo tempo, escândalos de corrupção (inerentes a governos de todos os matizes ideológicos, à direita e à esquerda), aumento da violência urbana (um subproduto do neoliberalismo mais agudo), crises fiscais e o desgaste natural de grupos políticos que permaneceram muitos anos no poder abriram espaço para alternativas que prometiam ruptura com o sistema estabelecido.

A ascensão da direita e da extrema-direita contemporânea na América do Sul também está ligada a fenômenos globais. O crescimento das redes digitais, a crise de confiança nas instituições tradicionais (causadas por um bem elaborado plano dessa mesma extrema-direita de minar a democracia em todas as suas instâncias), o fortalecimento de discursos nacionalistas (xenófobos e racistas, inclusive) e a emergência de lideranças que se apresentam como antissistema reproduzem tendências observadas em outras partes do mundo. Em muitos aspectos, o que acontece hoje na região dialoga com fenômenos que levaram à eleição de Donald Trump nos Estados Unidos, ao crescimento de partidos nacionalistas na Europa e ao fortalecimento de lideranças conservadoras em diversas democracias.

Entretanto, reduzir o momento atual a uma simples vitória ideológica da direita seria uma simplificação excessiva. A América do Sul continua sendo uma das regiões mais desiguais do planeta, e grande parte do eleitorado alterna suas preferências de acordo com a percepção de desempenho econômico dos governos. A história política recente da região mostra que ondas ideológicas são frequentemente sucedidas por movimentos em sentido contrário. Foi assim após o ciclo neoliberal dos anos 1990, substituído pela ascensão da esquerda nos anos 2000. Pode ocorrer novamente nas próximas décadas. Espero que isso não demore tanto, pois o relógio da destruição avança a cada ciclo mais rapidamente. Pelo menos é a sensação que tenho.

Do ponto de vista geopolítico, a questão mais relevante talvez não seja quem governa cada país, mas a crescente dificuldade de construção de consensos regionais. A integração sul-americana nunca foi plenamente consolidada e, nos últimos anos, tornou-se ainda mais frágil. Mudanças de governo frequentemente levam à paralisação ou abandono de projetos iniciados por administrações anteriores. O resultado é uma região que possui enorme potencial econômico, energético, mineral e ambiental, mas que raramente consegue transformar esse potencial em influência política coletiva.

Essa fragilidade torna-se particularmente importante em um momento de reorganização da ordem mundial. A disputa estratégica entre Estados Unidos e China, a transição energética, a corrida por minerais críticos e o papel crescente da Amazônia no debate climático colocam a América do Sul no centro de questões decisivas para o século XXI. Paradoxalmente, a região possui recursos cada vez mais estratégicos e, ao mesmo tempo, encontra-se politicamente mais fragmentada. E cada vez menos industrializada, é bom lembrar, o que nos torna mais suscetível a um domínio de um governo autoritário como o de Donald Trump, que não tem pejo algum de assumir ser um colonialista branco com espírito de vilão de HQ. Aliás, quem viu a postagem sobre as frases que poderiam ser atribuídas a vilões de histórias em quadrinhos, mas que eram de nomes como Elon Musk, entre outros, percebeu o tamanho do buraco em que nos encontramos.

E volto à minha paixão primeva. Vejo que nesse cenário, o futebol e a Copa do Mundo assumem uma relevância que vai muito além do esporte. Desde o século XX, grandes competições esportivas funcionam como instrumentos de projeção internacional. Elas ajudam a construir imagens nacionais, fortalecer identidades coletivas e ampliar o chamado “soft power” dos Estados-países. Estamos inseridos em um mundo onde a influência de um país também é exercida pela cultura, pelo entretenimento e pela capacidade de atrair atenção global. Nisso, poucos eventos possuem o alcance simbólico de uma Copa do Mundo. E como essa Copa escancarou as entranhas disso de uma forma a demolir os últimos tijolinhos de uma possível inocência sobre esse esporte tão querido mundo afora.

Lá atrás, a América do Sul já havia compreendido isso. O futebol tornou-se uma das linguagens culturais mais poderosas do continente. Brasil, Argentina e Uruguai transformaram suas conquistas esportivas em elementos centrais de suas identidades nacionais e de sua projeção internacional. Não por acaso, o futebol frequentemente produz um reconhecimento global que muitas vezes supera a visibilidade alcançada por iniciativas diplomáticas ou econômicas.

Durante uma Copa do Mundo, bilhões de pessoas voltam seus olhos para os países participantes. As seleções nacionais tornam-se embaixadoras culturais, e suas histórias ajudam a moldar percepções internacionais. Isso é particularmente importante para países do Sul Global, que frequentemente enfrentam dificuldades para ocupar espaço no noticiário mundial fora de momentos de crise.

Há ainda uma dimensão política menos evidente. Em um mundo marcado por divisões ideológicas, o futebol continua sendo um dos raros elementos capazes de atravessar fronteiras políticas. Governos mudam, alianças se desfazem, projetos regionais entram em crise, mas a rivalidade e a admiração mútua entre as grandes seleções permanecem. O esporte funciona como uma espécie de patrimônio simbólico compartilhado da região. Ainda que eu olhe com certo nojo e desprezo para a organização política dessa Copa, a partir desse intragável presidente Gianni Infantino, me comovo com as reações como a de torcidas caboverdianas, emocionadas com o que sua seleção vem fazendo em campo, ou com a primeira vitória de Egito na competição. São os dois lados de uma mesma moeda em meu peito de apaixonado por esportes e mais ainda por futebol.

Por isso, penso que a coincidência entre uma América do Sul politicamente fragmentada e uma nova Copa do Mundo possui um significado interessante. Enquanto os governos seguem caminhos distintos e frequentemente conflitantes, o futebol continua oferecendo uma narrativa continental reconhecida globalmente. No instante em que a região encontra dificuldades para falar com uma só voz na política, ela ainda consegue ser identificada internacionalmente por sua enorme influência cultural e esportiva. É pouco? Não sei. Não tenho respostas adequadas a isso.

Mas avalio que o Brasil ocupa posição central nessa equação. Mesmo diante de um contexto regional menos favorável aos seus projetos diplomáticos, o país continua sendo a principal potência sul-americana em termos demográficos, econômicos, culturais e territoriais. E mesmo os que odeiam Lula deveriam reconhecer o quanto ele pensa política e diplomacia no que essas palavras tem de melhor. Sua capacidade de liderança, porém, depende cada vez menos da afinidade ideológica entre governos vizinhos e cada vez mais da habilidade de construir consensos pragmáticos em áreas estratégicas, como comércio, energia, infraestrutura, meio ambiente e segurança. Não é uma tarefa fácil, como diria a mestra Zélia Amador, quando há um nítido apequenamento do sentido fazer política e diplomacia ao redor.

A questão central para os próximos anos talvez seja justamente saber se a América do Sul continuará presa à lógica dos ciclos ideológicos que reorganizam periodicamente o continente ou se conseguirá construir instituições e projetos suficientemente sólidos para sobreviver às alternâncias políticas. A história recente sugere que a primeira hipótese ainda predomina. Mas os desafios globais do século XXI podem exigir algo diferente. O mundo está mudando de cara e os Estados Unidos, desesperados, já sabem disso melhor que ninguém. Pois nesse cenário marcado pela competição entre grandes potências, regiões capazes de atuar de forma coordenada tendem a ampliar sua influência. Regiões fragmentadas, por outro lado, correm o risco de assistir às transformações globais mais como objeto do que como sujeito da história. Quem está na extrema-direita, na verdade pouco se importa com isso, desde que um cenário racista, misógino, xenófobo, branco etc predomine.

Nesse sentido, penso que o aparente isolamento político que esteja cercando o Brasil não seja apenas uma questão eleitoral ou partidária. Pode estar revelando um problema mais amplo, qual seja a própria dificuldade histórica da América do Sul em transformar proximidade geográfica, identidade cultural e interesses comuns em um projeto geopolítico duradouro. Essa talvez seja a questão mais importante para o futuro do continente. O objetivo trumpista atual está dando certo. Eles sempre querem dividir para conquistar. E raras vezes fugimos dessa ratoeira com queijo envelhecido.

*Ismael Machado é jornalista


Fonte:  Medium

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