O El Niño está voltando. Porto Alegre está preparada para a próxima grande enchente?

Dois anos depois da catástrofe de 2024, obras avançaram, mas vulnerabilidades persistem justamente quando o risco climático volta a aumentar

Uma reportagem publicada nesta quarta-feira (8) pelo Matinal traz uma pergunta que deveria preocupar não apenas os moradores de Porto Alegre, mas todas as cidades brasileiras expostas a eventos climáticos extremos: depois da catástrofe de 2024, quanto foi realmente feito para impedir que um desastre daquela dimensão volte a ocorrer?

Assinada pelo jornalista João Neto, a reportagem parte de uma circunstância particularmente preocupante. Pouco mais de dois anos depois das enchentes que atingiram 96% dos municípios do Rio Grande do Sul e provocaram 185 mortes, o El Niño volta ao horizonte. Em 2024, o fenômeno climático, intensificado pelos efeitos das mudanças climáticas, foi um dos fatores que contribuíram para a sequência excepcional de chuvas e enchentes que devastou o estado. Agora, quando um novo episódio se aproxima, o levantamento da Matinal mostra que Porto Alegre ainda convive com importantes fragilidades em seu sistema de proteção, especialmente nas ilhas e na zona sul.

O problema central é que a tragédia de 2024 não resultou apenas de uma chuva extraordinária. O desastre climático encontrou um sistema urbano enfraquecido por falhas de manutenção, deficiências de gestão e intervenções que comprometeram estruturas originalmente projetadas para proteger a cidade. No Centro, falhas nas casas de bombas permitiram que a água emergisse pelo sistema subterrâneo. No bairro Sarandi e em áreas de Canoas, trechos de diques teriam sido construídos 1,5 metro abaixo das cotas previstas nos projetos originais. Houve ainda o enfraquecimento de estruturas na zona norte, o rompimento de uma comporta próxima ao Aeroporto Salgado Filho e problemas de refluxo em estações de bombeamento.

Esses fatos ajudam a desmontar uma interpretação bastante conveniente segundo a qual a catástrofe de 2024 teria sido simplesmente um evento natural de magnitude imprevisível. Chuvas extremas ocorreram, sem dúvida, mas seus efeitos foram amplificados pela forma como o território urbano foi administrado. A diferença entre um evento climático extremo e uma catástrofe social costuma estar justamente aí: na qualidade da infraestrutura, na manutenção dos sistemas de proteção, no planejamento territorial e na capacidade das instituições públicas de agir antes que a água chegue.

É preciso reconhecer que obras foram iniciadas depois de 2024. A prefeitura afirma que há intervenções em diques, comportas, casas de bombas e redes de drenagem. Entretanto, o próprio balanço oficial mostra que algumas obras importantes continuam em andamento. A substituição das comportas 11 e 12, por exemplo, ainda tinha conclusão prevista para julho de 2026. Reportagens anteriores também já haviam mostrado que, em abril deste ano, reformas em casas de bombas, comportas e diques permaneciam inconclusas e que as melhorias realizadas seriam capazes de conter apenas parcialmente os efeitos de uma cheia semelhante à de maio de 2024.

A questão, portanto, não é negar o que foi feito, mas perguntar se o ritmo e a escala das intervenções correspondem ao tamanho do risco. Há uma diferença fundamental entre afirmar que uma cidade está mais protegida do que estava em maio de 2024 e demonstrar que ela está efetivamente preparada para enfrentar outro evento daquela magnitude. Quando o sistema ainda possui obras incompletas e áreas vulneráveis, a primeira afirmação pode ser verdadeira sem que a segunda também seja.

Esse é um ponto decisivo porque a emergência climática alterou os parâmetros sobre os quais as cidades brasileiras foram planejadas. Sistemas de drenagem, diques, comportas e estações de bombeamento concebidos com base nas estatísticas do século XX precisam agora operar em um clima diferente. O passado já não oferece necessariamente uma medida segura para o futuro, pois eventos antes classificados como excepcionais tendem a ocorrer com maior frequência e intensidade.

Porto Alegre oferece, nesse sentido, uma advertência para o restante do Brasil. O país continua tratando a adaptação climática como se ela pudesse avançar no ritmo normal da burocracia administrativa, enquanto o clima muda em outra velocidade. Depois de cada desastre, multiplicam-se anúncios, projetos, licitações e promessas de reconstrução. Mas a verdadeira medida da capacidade de adaptação não está no volume de anúncios feitos depois que a água baixa. Está na quantidade de obras concluídas, sistemas testados, equipes treinadas e populações protegidas antes que a próxima chuva extrema comece.

Também é necessário perguntar quem permanece mais exposto quando a proteção é incompleta. Como quase sempre ocorre nos desastres ambientais, a vulnerabilidade não se distribui igualmente pelo território. Os moradores das áreas mais baixas, das ilhas, das periferias e das zonas onde a infraestrutura urbana é mais precária são aqueles que carregam o maior risco. Quando o poder público demora a concluir sistemas de proteção, essa demora também possui uma geografia social.

A reportagem da Matinal é importante justamente porque desloca a discussão do passado para o futuro próximo. A pergunta já não é apenas por que Porto Alegre inundou em 2024, mas o que acontecerá se uma nova combinação de chuvas extremas, rios elevados e falhas de infraestrutura voltar a ocorrer. Essa pergunta se torna ainda mais urgente diante da possibilidade de um novo El Niño.

A catástrofe de 2024 deveria ter produzido uma ruptura definitiva com a lógica de negligência que marcou a gestão da infraestrutura de proteção contra enchentes. Dois anos depois, contudo, a existência de obras ainda inconclusas e de territórios persistentemente vulneráveis mostra que a distância entre aprender com um desastre e simplesmente reconstruir depois dele continua sendo grande.

O El Niño pode voltar. As chuvas extremas certamente voltarão, seja durante este episódio ou em algum momento posterior. A única variável sobre a qual a sociedade possui algum controle é o grau de preparação existente quando isso acontecer. E é justamente por isso que a pergunta formulada pela reportagem da Matinal precisa continuar sendo feita: Porto Alegre está realmente protegida ou apenas menos desprotegida do que estava em maio de 2024?

Este comentário foi elaborado a partir da reportagem “El Niño à vista: como está a proteção antienchente em Porto Alegre”, de João Neto, publicada pela Matinal em 8 de julho de 2026

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