Glifosato não precisa matar as abelhas para ameaçá-las: estudo revela alterações no forrageamento e na química cerebral

Pesquisa publicada no Journal of Experimental Biology mostra que exposição subletal ao herbicida reduz a atividade de forrageamento das abelhas e altera processos neuroquímicos, somando-se a um conjunto crescente de evidências sobre impactos do glifosato em organismos não alvo e possíveis riscos à saúde humana

Durante décadas, uma das principais linhas de defesa utilizadas para sustentar a suposta segurança ambiental do glifosato esteve baseada no argumento de que seu mecanismo de ação teria como alvo uma via metabólica presente em plantas e microrganismos, mas inexistente nos animais. Um estudo publicado em maio de 2025 no Journal of Experimental Biology acrescenta novas evidências de que essa interpretação é insuficiente para compreender os efeitos ecológicos do herbicida.

O artigo, intitulado “Sublethal glyphosate exposure reduces honey bee foraging and alters the balance of biogenic amines in the brain“, tem como primeira autora Laura C. McHenry, pesquisadora que realizou o trabalho no Departamento de Entomologia da Virginia Tech, nos Estados Unidos. O estudo foi desenvolvido juntamente com Roger Schürch, McAlister Council-Troche, Aaron D. Gross, Lindsay E. Johnson, Bradley D. Ohlinger e Margaret J. Couvillon.

A importância da pesquisa começa justamente pelo conceito de exposição subletal. Em vez de perguntar apenas se determinada concentração de glifosato mata uma abelha, McHenry e seus colaboradores investigaram algo ecologicamente mais complexo: se uma concentração que não provoca mortalidade imediata é capaz de modificar comportamentos essenciais para a sobrevivência das abelhas e, consequentemente, para o funcionamento das colônias.

Os pesquisadores treinaram grupos de abelhas (Apis mellifera) das mesmas colmeias para visitar alimentadores artificiais contendo solução de sacarose. Um grupo recebeu apenas a solução açucarada, enquanto outro foi exposto a uma solução contendo glifosato na concentração de 5 mg de equivalente ácido por litro. Posteriormente, os pesquisadores compararam o comportamento de forrageamento e recrutamento das abelhas e analisaram substâncias relacionadas ao funcionamento do sistema nervoso desses insetos.

O resultado merece atenção: as abelhas expostas ao glifosato reduziram em 13,4% sua atividade de forrageamento. Os pesquisadores também encontraram alterações envolvendo a tiramina e relações entre tiramina, octopamina e tirosina no cérebro das abelhas. Essas chamadas aminas biogênicas desempenham funções importantes na regulação do comportamento dos insetos.

Isso significa que a toxicidade ambiental não pode ser medida exclusivamente contando organismos mortos. Uma abelha pode permanecer viva e, ainda assim, ter reduzida sua capacidade de executar atividades fundamentais para a colônia. Forragear significa localizar recursos, coletar néctar e pólen e contribuir para a manutenção energética e nutricional da colmeia. Uma redução persistente nessa atividade pode adquirir consequências que ultrapassam amplamente o indivíduo contaminado.

E existe aqui uma dimensão ainda maior. As abelhas estão entre os principais polinizadores dos ecossistemas terrestres e desempenham um papel fundamental tanto na reprodução de plantas silvestres quanto na produção agrícola. Assim, alterações aparentemente discretas no comportamento individual podem potencialmente produzir consequências em cascata quando milhões de indivíduos são continuamente expostos em paisagens agrícolas dominadas pelo uso intensivo de agrotóxicos.

O estudo de McHenry e colaboradores também não aparece isoladamente. Pesquisas anteriores já haviam identificado diversos efeitos subletais do glifosato sobre abelhas, incluindo alterações da homeostase fisiológica, desregulação imunológica, mudanças nos padrões de sono, redução da capacidade de navegação, menor resposta à sacarose e prejuízos à aprendizagem associativa e à retenção da memória olfativa. Os próprios autores recuperam essa literatura ao contextualizar seus resultados.

Outro resultado particularmente importante havia sido publicado em 2018 na Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS). Erick V. S. Motta, Kasie Raymann e Nancy A. Moran demonstraram que o glifosato pode modificar a microbiota intestinal das abelhas, reduzindo populações de bactérias benéficas. As abelhas expostas tornaram-se posteriormente mais vulneráveis à bactéria oportunista Serratia marcescens. Em outras palavras, o herbicida pode produzir efeitos indiretos sobre um animal justamente porque interfere nos microrganismos dos quais esse animal depende.

Essa constatação desmonta uma simplificação recorrente no discurso sobre a segurança do glifosato. O fato de os animais não possuírem a via do chiquimato, que constitui o alvo primário do herbicida nas plantas, não significa automaticamente que estejam protegidos de seus efeitos. Animais vivem associados a comunidades microbianas, enquanto processos de estresse oxidativo, alterações metabólicas e outros mecanismos podem oferecer caminhos adicionais de toxicidade.

O problema vai muito além das abelhas

A literatura científica disponível indica que os efeitos potenciais do glifosato e de suas formulações comerciais precisam ser examinados em uma escala ecotoxicológica muito mais ampla. Estudos com organismos aquáticos, por exemplo, vêm relatando alterações fisiológicas, histológicas, metabólicas e comportamentais. Uma revisão sobre glifosato e seu principal produto de degradação, o AMPA, reuniu evidências de impactos em organismos aquáticos, particularmente peixes.

Uma síntese mais recente da ecotoxicidade do glifosato em ambientes aquáticos identificou efeitos associados a mecanismos como estresse oxidativo, inibição enzimática e alterações endócrinas, com possíveis consequências neurológicas, reprodutivas e de desenvolvimento em diferentes grupos taxonômicos. Isso é especialmente preocupante porque a utilização agrícola em grande escala cria múltiplas rotas pelas quais resíduos podem alcançar solos, águas superficiais e organismos que jamais foram o alvo da aplicação do herbicida.

Temos, portanto, um problema típico da agricultura quimicamente intensiva: o agrotóxico é aplicado para controlar uma espécie ou conjunto de espécies consideradas indesejáveis, mas sua circulação não respeita as fronteiras do campo cultivado. Deriva, escoamento superficial, transporte pelo solo e contaminação da água ampliam espacialmente a exposição e transformam uma decisão agronômica localizada em um problema potencialmente ecossistêmico.

E os seres humanos?

Quando passamos para a saúde humana, é necessário reconhecer que existe uma controvérsia científica e regulatória importante. Em 2015, a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC), vinculada à Organização Mundial da Saúde, classificou o glifosato no Grupo 2A, isto é, como “provavelmente carcinogênico para humanos”. A avaliação considerou evidência limitada de carcinogenicidade em seres humanos, evidência suficiente em animais experimentais e fortes evidências de genotoxicidade.

A associação epidemiológica com câncer continua sendo debatida. Uma meta-análise publicada em 2019 encontrou associação entre as categorias de maior exposição a herbicidas à base de glifosato e maior risco de linfoma não Hodgkin. Por outro lado, uma meta-análise posterior não encontrou associação estatisticamente significativa para linfoma não Hodgkin considerado em conjunto, embora tenha indicado que uma associação com determinados subtipos, particularmente o linfoma difuso de grandes células B, não poderia ser descartada.

Essa divergência é importante porque mostra que não se deve apresentar como consenso científico aquilo que continua sendo objeto de disputa. Também revela a diferença entre identificação de perigo e avaliação de risco. A classificação da IARC procura determinar se uma substância possui capacidade de provocar câncer sob determinadas condições de exposição; avaliações regulatórias procuram estimar o risco considerando níveis e formas específicas de exposição.

É justamente por isso que existe contraste entre instituições. Em 2023, a Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA) informou que sua revisão não identificara “áreas críticas de preocupação” que impedissem a renovação da autorização do glifosato, embora tenha reconhecido lacunas de dados em determinados aspectos da avaliação.

Entretanto, novas evidências experimentais continuam aparecendo. Em 2025, pesquisadores ligados ao Global Glyphosate Study publicaram na revista Environmental Health os resultados de um experimento de carcinogenicidade realizado com ratos Sprague-Dawley expostos desde a vida pré-natal ao glifosato e a formulações comerciais contendo o herbicida. O estudo encontrou aumento estatisticamente significativo de diferentes tipos de tumores nos grupos expostos, inclusive em algumas das doses estudadas dentro de faixas utilizadas como referência regulatória.

Nenhum desses estudos, isoladamente, encerra a discussão sobre os riscos do glifosato. Mas o conjunto das evidências torna cada vez mais difícil sustentar a imagem de uma substância ambientalmente inócua simplesmente porque sua toxicidade aguda para determinados animais é relativamente baixa.

A morte não pode continuar sendo a única medida da toxicidade

É justamente nesse ponto que o trabalho liderado por Laura C. McHenry adquire relevância especial. A pergunta fundamental deixa de ser “quanto glifosato é necessário para matar uma abelha?” e passa a ser “o que acontece com uma abelha que permanece viva depois de ser exposta ao glifosato?”.

Essa mudança parece pequena, mas possui enormes implicações para a maneira como avaliamos agrotóxicos. Um organismo pode sobreviver e apresentar alterações na memória, orientação espacial, alimentação, reprodução, imunidade, microbiota ou comportamento. Quando esses efeitos atingem organismos sociais como as abelhas, alterações individuais podem potencialmente repercutir sobre a organização da colônia inteira.

E quando o organismo afetado é um polinizador, as consequências potenciais avançam ainda mais pela cadeia ecológica.  A pesquisa publicada no Journal of Experimental Biology contribui, portanto, para questionar um paradigma regulatório excessivamente concentrado na toxicidade aguda. Ecossistemas não são constituídos simplesmente por organismos “vivos” ou “mortos”. Eles dependem de relações ecológicas, comportamentos, processos fisiológicos, reprodução, comunicação, competição, mutualismos e inúmeras outras interações.

O glifosato pode não matar imediatamente uma abelha exposta a uma determinada concentração. Mas uma abelha que forrageia menos, navega pior, apresenta alterações neuroquímicas ou possui microbiota intestinal modificada não é ecologicamente equivalente a uma abelha não exposta.

E talvez seja justamente aí que esteja uma das principais lições desse novo estudo: quando milhões de organismos são submetidos repetidamente a exposições subletais, aquilo que parece pequeno no laboratório pode deixar de ser pequeno na escala de uma paisagem agrícola inteira.  A pergunta que deveria orientar políticas públicas e sistemas de avaliação ambiental, portanto, não é apenas quanto de um agrotóxico um organismo consegue suportar antes de morrer. A questão deveria ser muito mais exigente: quanto é possível alterar silenciosamente o funcionamento dos organismos antes de comprometer também o funcionamento dos ecossistemas dos quais dependemos?

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