Diquate mostra as duas faces da mesma política: a Europa proíbe, mas continua exportando veneno para o Sul Global

A reportagem “Intoxicações por agrotóxico banido na Europa crescem 1.100% em 8 anos no Brasil”, assinada pela jornalista Naira Hofmeister e publicada pela Repórter Brasil, revela um aspecto particularmente perverso do modelo agrícola dominante. O levantamento mostra que os casos de intoxicação por diquate aumentaram onze vezes entre 2018 e 2025, alcançando 250 registros e ao menos 40 mortes. O crescimento acompanha a rápida expansão do uso desse herbicida após a proibição do paraquate no Brasil, evidenciando que a substituição de uma substância altamente tóxica por outra da mesma família química dificilmente representa um avanço em termos de proteção à saúde pública.

O trabalho jornalístico também expõe uma contradição que há muito tempo deveria provocar indignação internacional. O diquate encontra-se proibido na União Europeia em razão dos riscos identificados para trabalhadores rurais, moradores vizinhos às áreas agrícolas e ao meio ambiente. Ainda assim, empresas sediadas em países europeus continuam fabricando esse produto e exportando grandes volumes para países como o Brasil. A própria investigação mostra que parte significativa do Reglone, principal formulação comercial do diquate, chega ao mercado brasileiro a partir de unidades produtivas da Syngenta localizadas na Inglaterra e na China.

Essa prática revela uma hipocrisia difícil de justificar. Se uma substância é considerada perigosa demais para agricultores e consumidores europeus, sob qual princípio ético ela se torna aceitável para trabalhadores rurais, comunidades e consumidores brasileiros? Na prática, cria-se uma geografia da toxicidade em que vidas humanas recebem valores diferentes conforme o país onde vivem. A União Europeia protege sua população por meio de critérios regulatórios mais rigorosos, mas tolera que suas empresas transformem o Sul Global em mercado consumidor de produtos que ela própria rejeitou. Trata-se de uma manifestação contemporânea do chamado colonialismo químico, no qual riscos sanitários e ambientais são externalizados para países com menor capacidade regulatória e maior influência política do agronegócio.

No caso brasileiro, esse cenário tornou-se ainda mais preocupante com a consolidação do chamado Pacote do Veneno”. A nova legislação flexibilizou procedimentos de registro, fortaleceu o papel do Ministério da Agricultura nas decisões regulatórias e reduziu salvaguardas historicamente associadas à proteção da saúde e do meio ambiente. Embora o diquate já estivesse autorizado anteriormente, o novo marco legal aprofundou um ambiente político e institucional claramente favorável à expansão do mercado de agrotóxicos, facilitando a permanência e a introdução de substâncias cuja segurança permanece alvo de intenso debate científico.

Os números apresentados pela Repórter Brasil sugerem que essa flexibilização possui consequências concretas. O aumento de mais de 1.100% nas intoxicações por diquate não representa apenas uma estatística preocupante. Ele indica que a ampliação da disponibilidade desses produtos inevitavelmente aumenta a exposição de trabalhadores rurais, comunidades vizinhas às áreas agrícolas e do próprio sistema público de saúde aos custos humanos desse modelo produtivo. Como a própria Repórter Brasil já havia mostrado em investigação anterior, 2025 registrou o maior número de intoxicações por agrotóxicos da última década no Brasil, reforçando a associação entre expansão do mercado desses produtos e crescimento das contaminações.

O caso do diquate também desmonta um argumento frequentemente utilizado por fabricantes e setores do agronegócio: o de que a aprovação regulatória equivaleria automaticamente à segurança do produto. A história recente dos agrotóxicos demonstra exatamente o contrário. Diversas substâncias foram consideradas aceitáveis durante anos antes de novas evidências científicas levarem ao seu banimento. O paraquate constitui um exemplo emblemático desse processo, e não há razão para supor que a trajetória do diquate será diferente caso novas evidências continuem acumulando riscos à saúde humana e aos ecossistemas.

Enquanto isso, o Brasil segue consolidando sua posição como destino preferencial para substâncias rejeitadas em outras partes do mundo. Essa condição não decorre da ausência de conhecimento científico, mas de escolhas políticas que colocam interesses econômicos acima da proteção da saúde coletiva. Ao mesmo tempo em que a União Europeia preserva seus cidadãos dos riscos desses compostos, aceita que empresas instaladas em seu território lucrem com sua comercialização em países periféricos. Essa combinação entre desregulação doméstica e exportação internacional de riscos sanitários talvez constitua uma das expressões mais explícitas das profundas desigualdades que continuam estruturando o sistema agroalimentar global.

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