Entre respostas ensaiadas, improvisos desastrosos e promessas contraditórias, Flávio Bolsonaro expôs suas fragilidades no último debate. Agora, a disputa será decidida nas ruas, nas redes e nas urnas
Não sei quantos leitores deste blog acompanharam integralmente o debate presidencial de ontem na TV Globo. Eu consegui, apesar de considerar esses eventos frequentemente entediantes e, por vezes, um verdadeiro teste de resistência diante da televisão.
Minha impressão inicial foi de que Lula começou frio, enquanto Flávio Bolsonaro conseguiu marcar alguns pontos no primeiro bloco. Diferentemente do que ocorreu no debate da Band, o candidato bolsonarista chegou mais bem preparado e, sobretudo, consciente de que repetir o comportamento grosseiro e quase infantil adotado anteriormente, aparentemente sob orientação de Pablo Marçal, poderia ser fatal às suas pretensões eleitorais.
O problema para Flávio é que o debate não terminou no primeiro bloco. À medida que as discussões avançaram, começaram a aparecer as limitações de um candidato que, apesar de ocupar uma cadeira no Senado da República, demonstrou desconhecimento sobre questões que deveria dominar. Quando precisou abandonar o roteiro preparado por seus assessores, as escorregadas se multiplicaram. Uma delas foi a referência aos nove dedos de Lula, provocação que o presidente soube devolver com dureza.
Houve também momentos que beiraram o ridículo, como a declaração de que seria o mais nordestino dos cariocas caso fosse eleito, ou as confusas referências a pagamentos em dólares envolvendo uma ferrovia nordestina. Em vez de demonstrar compromisso com o Nordeste, região que vem experimentando importantes transformações econômicas e educacionais, Flávio pareceu recorrer a frases ensaiadas e desconectadas da realidade.
Igualmente infeliz foi sua referência ao mau cheiro em Belém, justamente uma cidade que vem recebendo investimentos em saneamento destinados a enfrentar problemas históricos de infraestrutura urbana. A tentativa de desqualificar a cidade acabou revelando mais sobre a superficialidade de sua abordagem do que sobre os problemas reais da capital paraense.
Mas houve um momento particularmente constrangedor: quando Flávio precisou explicar sua posição diante do assassinato de Ana Clara Gomes Machado, uma criança de apenas cinco anos, morta em 2 de fevereiro de 2021, na comunidade Monan Pequeno, em Niterói. A situação ganhou contornos ainda mais dramáticos quando ele se dirigiu à mãe da vítima, presente no debate, utilizando o nome da filha assassinada. Sua tentativa de relativizar a responsabilidade pelo crime, em vez de demonstrar sensibilidade diante da tragédia, transmitiu uma impressão de crueldade absolutamente desnecessária.
Entretanto, o aspecto que mais me chamou a atenção foi outro: a estratégia de prometer aquilo a que Flávio Bolsonaro já se opôs ou que integrantes de sua própria campanha indicaram pretender fazer exatamente ao contrário, caso cheguem ao governo. Essa contradição pode ser especialmente prejudicial entre os eleitores que acompanharam o debate buscando decidir seu voto.
Para mim, foi aí que Flávio mais perdeu. Porque uma coisa é decorar respostas e reproduzir promessas cuidadosamente preparadas por marqueteiros. Outra, muito diferente, é transmitir convicção e compromisso com aquilo que se está dizendo. E, independentemente das críticas que possam ser feitas a Lula, essa é uma qualidade política que o atual presidente possui e que seu adversário não conseguiu demonstrar.
Mas o debate decidirá a eleição de amanhã?
Minha resposta é não. A esta altura, dificilmente um único debate será capaz de determinar o resultado de uma disputa tão apertada. O que poderá fazer a diferença é a capacidade de mobilização das duas campanhas, tanto nas ruas quanto nas redes sociais. E é justamente aí que a eleição permanece completamente aberta.
Para quem chegou até este ponto do texto e pretende votar em Lula, a conclusão é simples: não basta torcer pela vitória. É preciso buscar votos, conversar com os indecisos e transformar apoio político em participação efetiva nas urnas. Afinal, seria difícil imaginar, logo após o primeiro turno, que chegaríamos à véspera da eleição em uma situação de tamanha incerteza.
Por outro lado, as manifestações que tomaram as ruas de inúmeras cidades brasileiras e a mobilização digital impulsionada por André Janones e seu chamado Exército de Lula mostram que ainda existe capacidade de reação. Uma virada histórica continua possível, mas dependerá muito mais da disposição dos eleitores do que de qualquer desempenho televisivo.
Por isso, adaptando o espírito de uma das palavras de ordem da Revolução Francesa, deixo aqui minha convocação:
ÀS REDES E ÀS RUAS, CIDADÃOS!
Afinal, o Brasil não merece um segundo governo Bolsonaro.
