A mobilização histórica que uniu jovens, trabalhadores e idosos reverteu a vitória da extrema-direita no primeiro turno e mostrou a força da combinação entre redes sociais e ruas. Agora, o desafio é manter essa energia popular para transformar a vitória eleitoral em conquistas sociais e impedir novos retrocessos
Eu poderia me concentrar, neste momento, na atitude de mau perdedor que Flávio Bolsonaro demonstrou em seu pronunciamento após a derrota. Mas entendo que isso não apenas seria gastar vela com mau defunto, como também significaria passar ao largo do que me parece essencial neste momento. Prefiro destacar a impressionante mobilização da parcela da população que votou em Lula, incluindo até pessoas centenárias. Foi essa mobilização, iniciada no dia 5 de outubro por estudantes da Universidade Federal Fluminense, em Niterói (RJ), que rapidamente se estendeu por todas as partes do Brasil, desde as grandes áreas metropolitanas até os mais distantes rincões do país, que desempenhou um papel decisivo na vitória eleitoral.
É importante notar que essa mobilização, que uniu a juventude e os segmentos mais idosos da nossa população, ocorreu porque as pessoas compreenderam a gravidade da vitória de Flávio Bolsonaro no primeiro turno e as profundas repercussões institucionais, políticas e econômicas que sua eventual confirmação no segundo turno poderia produzir a partir de sua posse, em janeiro de 2027. Aqui, é fundamental apontar que, pelo que veio a público, as medidas que seriam adotadas por Flávio Bolsonaro reproduziriam o mesmo modelo arrasa-quarteirão implementado por Javier Milei na Argentina, que acabou empurrando uma parcela significativa da classe média argentina para a pobreza. Caso Flávio vencesse, havia indicações de que seriam publicados pelo menos 200 decretos que afetariam diretamente direitos trabalhistas, pensões e aposentadorias.
Foi o espectro desse imenso ataque à classe trabalhadora que impulsionou mobilizações inéditas, não apenas nas capitais, mas também em pequenas cidades espalhadas por todas as regiões brasileiras. Essas mobilizações se refletem agora nos resultados eleitorais, que mostram que Lula avançou sobre Flávio na maioria das cidades brasileiras, revertendo derrotas ou ampliando suas margens de vitória. Dois casos particularmente emblemáticos foram as capitais de São Paulo e Rio de Janeiro, onde Lula venceu, rompendo um ciclo de derrotas que provocava não apenas desconforto numérico, mas também político, na medida em que a extrema-direita parecia ter conquistado um controle praticamente permanente das urnas.
Há ainda que se frisar que também ontem foi derrotado o líder direitista da Sérvia, Aleksandar Vučić, por uma coligação liderada pela juventude, que se levantou contra a percepção de corrupção estrutural nas instituições daquela nação dos Bálcãs. A mobilização na Sérvia não pode ser analisada isoladamente do que ocorreu nas eleições brasileiras, pois ambas as situações parecem conectadas a outros grandes levantes populares em curso na Índia, Espanha e França. Na raiz desses movimentos, que começam a produzir repercussões eleitorais, encontra-se a crise do capitalismo, agravada pelo esgotamento das políticas neoliberais difundidas a partir do chamado Consenso de Washington. Aliás, as eleições de meio de mandato que ocorrerão nos Estados Unidos, no próximo dia 3 de novembro, poderão ser tão impactantes quanto a vitória de Lula, pois também estão inseridas nesse mesmo contexto de insatisfação social e contestação política.
Também é necessário observar que a vitória de Lula terá repercussões imediatas sobre toda a América Latina, na medida em que interrompe uma sequência de derrotas eleitorais impostas pela extrema-direita, frequentemente impulsionada pelas chamadas big techs. Cabe lembrar que, apenas nos últimos 12 meses, a extrema-direita venceu eleições na Bolívia, no Chile, na Colômbia e no Peru, sempre com o uso ostensivo das redes sociais. Com a vitória de Lula, esse ciclo não apenas é interrompido, como também parece ter surgido um poderoso antídoto contra essa ofensiva: a combinação entre a mobilização nas redes sociais e a ocupação das ruas.
Finalmente, que ninguém imagine que todos os problemas do Brasil estejam resolvidos com a vitória de Lula. O que evitamos foi a consolidação da hegemonia da extrema-direita bolsonarista sobre os três Poderes constituídos. Agora, é preciso lembrar que o que garantiu esse resultado foi uma mobilização política que rompeu com a inércia da direção do PT e do comando da campanha de Lula. Manter essa mobilização será fundamental não apenas para impedir quaisquer estripulias da extrema-direita, mas também para garantir que a vitória eleitoral se traduza em melhorias efetivas nas condições de trabalho e de vida dos trabalhadores e da juventude.
O resto, me permitam dizer, já faz parte da história.
