Estudo da Rede Social de Justiça e Direitos Humanos denuncia os impactos da exposição infantil aos agrotóxicos e mostra como a expansão do agronegócio coloca em risco comunidades rurais, escolas e territórios tradicionais
A expansão do agronegócio brasileiro, frequentemente apresentada como sinônimo de modernização, crescimento econômico e desenvolvimento nacional, possui uma face que raramente aparece nas campanhas publicitárias do setor: a exposição de milhões de brasileiros a substâncias químicas potencialmente perigosas, com consequências especialmente preocupantes para as crianças.
Essa é uma das principais questões abordadas no relatório “Exposição silenciosa: os impactos dos agrotóxicos na saúde e nos direitos das crianças no Brasil”, publicado em outubro de 2026 pela Rede Social de Justiça e Direitos Humanos. Elaborado pelas pesquisadoras Teresa Paris e Maria Luisa Mendonça, o documento reúne evidências científicas, dados oficiais, análises da legislação e depoimentos de comunidades rurais do Cerrado para demonstrar como o uso intensivo de agrotóxicos ameaça não apenas a saúde infantil, mas também direitos fundamentais assegurados pela legislação brasileira.
Um modelo agrícola que amplia os riscos de contaminação
O relatório apresenta números que ajudam a compreender a dimensão do problema. Entre 2010 e 2021, o volume de agrotóxicos consumidos no Brasil aumentou 87%. Em 2024, foram comercializadas aproximadamente 825,8 mil toneladas de ingredientes ativos, um crescimento de 9,3% em relação ao ano anterior.
O documento também destaca que os monocultivos de soja, milho, cana-de-açúcar e algodão respondem por 83% dos agrotóxicos comercializados no país. Isso revela a estreita relação entre a expansão das commodities agrícolas e a crescente dependência de insumos químicos. Enquanto grandes corporações transnacionais ampliam seus mercados e lucros, comunidades camponesas, indígenas e quilombolas convivem com a contaminação da água, do solo, do ar e dos alimentos.
As crianças estão entre as principais vítimas
Um dos aspectos mais alarmantes do relatório é a vulnerabilidade das crianças, cujos organismos ainda estão em desenvolvimento e apresentam maior suscetibilidade aos efeitos de determinadas substâncias tóxicas.
Segundo os dados apresentados, em 2025 foram registradas no Brasil 11.714 notificações de intoxicação por agrotóxicos, das quais 2.068 envolveram crianças de até 14 anos. Entre elas, 1.032 tinham entre zero e quatro anos de idade.
Esses números são particularmente preocupantes porque representam apenas os casos oficialmente notificados. A subnotificação, as dificuldades de diagnóstico e a identificação dos efeitos crônicos indicam que a dimensão real do problema pode ser significativamente maior.
A exposição infantil pode ocorrer durante a gestação, pela alimentação, pelo consumo de água contaminada e pelo contato cotidiano com ambientes atingidos pelas pulverizações agrícolas. A literatura científica examinada pelo relatório aponta associações entre a exposição a determinados agrotóxicos e problemas neurológicos, alterações no desenvolvimento e outros agravos à saúde.
Quando até as escolas se tornam territórios de risco
O relatório documenta episódios de contaminação em escolas rurais localizadas próximas às grandes plantações. Casos registrados em Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Pará demonstram que a pulverização de agrotóxicos pode atingir estudantes, professores e funcionários, transformando espaços destinados à educação em ambientes de exposição química.
Os depoimentos recolhidos junto a comunidades do Cerrado também revelam uma realidade marcada pela contaminação de rios, pela perda de lavouras e pelo adoecimento de famílias que vivem próximas às áreas de produção do agronegócio.
Essas situações demonstram que os impactos dos agrotóxicos ultrapassam a esfera da saúde pública e atingem direitos fundamentais, como o acesso à água potável, à alimentação saudável, à educação e a um ambiente ecologicamente equilibrado.
Uma contradição que o Brasil precisa enfrentar
Outro aspecto importante levantado pelo documento é a contradição entre a política brasileira de autorização de agrotóxicos e as restrições existentes em outros países, particularmente na União Europeia.
Diversas substâncias autorizadas no Brasil não possuem aprovação para uso agrícola no território europeu, embora empresas sediadas na Europa continuem participando de sua produção e comercialização para outros mercados. Essa assimetria revela como os riscos ambientais e sanitários associados à produção agrícola são distribuídos de maneira profundamente desigual.
O relatório reforça, assim, uma questão que deveria ocupar posição central no debate público brasileiro: até que ponto o crescimento das exportações agrícolas pode continuar sendo apresentado como indicador de sucesso quando parte de seus custos é transferida para a saúde das populações e para os ecossistemas? A situação torna-se ainda mais grave quando esses custos recaem sobre crianças que não participam das decisões econômicas e políticas responsáveis por sua exposição.
Proteger as crianças exige enfrentar o modelo de produção
Mais do que reunir dados sobre intoxicações, o relatório da Rede Social de Justiça e Direitos Humanos oferece elementos para questionar as prioridades das políticas agrícolas e ambientais brasileiras. A proteção da infância exige fiscalização efetiva, monitoramento da contaminação ambiental, fortalecimento dos serviços públicos de saúde, restrições rigorosas à pulverização próxima de comunidades e escolas e apoio à transição para sistemas agrícolas menos dependentes de substâncias tóxicas.
O documento merece ser lido e divulgado por pesquisadores, professores, profissionais de saúde, movimentos sociais e todos aqueles comprometidos com a defesa dos direitos humanos e da biodiversidade. Afinal, um país que celebra recordes de produção e exportação de commodities agrícolas, mas não consegue proteger suas crianças da exposição aos agrotóxicos, precisa reconsiderar urgentemente o significado de desenvolvimento que orienta suas políticas públicas.
Leia o relatório completo: Aqui!.
