A extrema-direita na América Latina é uma serva de seus senhores

Na América Latina, a extrema-direita está tentando garantir esferas de influência para os Estados Unidos. Tentativa de golpe no Brasil é um exemplo disso

bolso fascista

Bolsonaristas invadem Palácio do Planalto em Brasília no dia 8 de janeiro

Por Volker Hermsdorf para o JungeWelt

No Brasil, em 8 de janeiro, ficou novamente demonstrado que a direita latino-americana e seus partidários só respeitam os resultados das eleições se saírem vitoriosos. Outros exemplos incluem os golpes apoiados pelos EUA na Guatemala (1954), Chile (1973), Honduras (2009), Paraguai (2012), Bolívia (2019) e Peru (2022). Os recentes acontecimentos no Brasil “têm o potencial de se repetir em outros países latino-americanos que os EUA  consideram como sua esfera de influência”, alertou o diário chinês Global Times na terça-feira da semana passada sobre novas tentativas de golpe.

Enquanto as elites econômicas nacionais e os políticos conservadores de direita na América Latina estão preocupados principalmente em manter um sistema que lhes garanta poder, influência e lucros não diminuídos, para os EUA recuperar seu “quintal” é uma questão de sobrevivência para garantir sua presença global poder econômico. O fascista confesso Jair Bolsonaro, que posou em frente a uma bandeira dos Estados Unidos durante a campanha eleitoral, era o candidato preferido de Washington. O governo Biden também há muito apoia um governante no ex-presidente brasileiro, que tem laços estreitos com os responsáveis ​​pela invasão do Capitólio dos Estados Unidos em 6 de janeiro de 2021. De acordo com uma reportagem do canal de notícias americano CNBC Bolsonaro será assessorado pelo ex-estrategista-chefe da Casa Branca, Stephen Bannon. O confidente próximo de Donald Trump pôs em dúvida os resultados das eleições presidenciais dos EUA em 2020 após sua derrota eleitoral e agora segue a mesma estratégia no Brasil. Enquanto Bolsonaro declarou após os ataques a prédios do governo em Brasília que saquear instalações públicas “violava as regras para manifestações pacíficas”, Bannon comemorou os atacantes na plataforma de direita Gettr como “combatentes da liberdade brasileira”. O serviço de mensagens curtas Gettr , fundado pelo ex-porta-voz de Trump, Jason Miller, já financiou eventos do “CPAC Brasil”, desdobramento da Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC) dos Estados Unidos.

O CPAC de extrema direita é um dos grupos por trás da atual agitação no Brasil, disse Zhou Zhiwei, especialista em estudos latino-americanos da Academia Chinesa de Ciências Sociais, ao Global Times. O fato é que esses “defensores da liberdade e da democracia” declararam guerra aos governos progressistas da América Latina. Em junho passado, em conferência da CPAC em Brasília, o filho de Bolsonaro, Eduardo, recebeu, entre outros, o candidato à presidência chileno de extrema direita José Antonio Kast, que perdeu para o atual titular Gabriel Boric em 2021, e o político argentino Javier Milei, que planeja uma candidatura presidencial para 2023. Então, em novembro, uma conferência da CPAC na Cidade do México colocou os participantes no clima de “combates duros”. Entre os torcedores estavam Eduardo Bolsonaro, que pediu “quebrar o monopólio da esquerda nas ruas”, e Luis Fernando Camacho, governador do departamento de Santa Cruz, que falou da Bolívia.

Com o apoio de Jair Bolsonaro e seus apoiadores, os democratas americanos também apoiaram forças promovidas por Donald Trump. No entanto, Bolsonaro, que, a pedido, havia expulsado do país cerca de 8.200 médicos cubanos e concluído sua saída da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac), decepcionou ainda mais as expectativas do governo dos Estados Unidos. Os planos de as empresas americanas assumirem a petrolífera semiestatal Petrobas fracassaram e o país permaneceu como membro do grupo BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), no qual os EUA veem uma ameaça aos seus interesses. Com os “bolsonaristas” vistos como candidatos incertos por causa das expectativas e influência frustradas de Trump, e com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ainda empoderado, pelo menos temporariamente, por sua recente ação de reprimir a invasão do Supremo Tribunal Federal, do Congresso e o Palácio Presidencial, Washington está suscetível de tentar fomentar conflitos internos e criar o caos no futuro, a fim de minimizar a influência do país. A política dos EUA em relação a Cuba, Venezuela e Nicarágua prova que o presidente dos EUA, Joseph Biden, e os estrategistas do Partido Democrata também estão seguindo as demandas agressivas da linha dura de ultradireita por tais objetivos. fomentar conflitos internos e criar o caos para minimizar a influência do país. A política dos EUA em relação a Cuba, Venezuela e Nicarágua prova que o presidente dos EUA, Joseph Biden, e os estrategistas do Partido Democrata também estão seguindo as demandas agressivas da linha dura de ultradireita por tais objetivos. fomentar conflitos internos e criar o caos para maximizar a influência do país. A política dos EUA em relação a Cuba, Venezuela e Nicarágua prova que o presidente dos EUA, Joseph Biden, e os estrategistas do Partido Democrata também estão seguindo as demandas agressivas da linha dura de ultradireita por tais objetivos.

Uma razão para isso é a influência cada vez menor dos EUA na transição de uma ordem mundial unipolar para multipolar. Segundo Zoltan Pozsar, analista do Credit Suisse, em 27 de dezembro, a nova ordem não será moldada pelos países industrializados do G7 ocidental, mas pelas economias emergentes dos países do BRICS. A expansão para o “BRICS plus” promovida pela China e pela Rússia tornará ainda mais difícil para a economia americana o acesso a matérias-primas na Eurásia, Oriente Médio e África. “A Ucrânia é um buraco negro e uma UE fraca, forçada por Washington a comprar gás natural liquefeito (GNL) dos EUA a preços absurdamente altos, não tem recursos essenciais para o império saquear”, destacou o jornalista brasileiro Pepe Escobar na revista online The Cradleum cenário sombrio para os EUA. O jornalista científico salvadorenho Igor Iván Villalta Sorto escreveu no portal online Resumen Latinoamericano que “se os Estados Unidos perderem seu domínio global, mas mantiverem a América Latina, ainda poderão ser muito fortes, dada a riqueza de recursos do continente”. Regimes amigáveis ​​aos EUA em países com reservas minerais particularmente grandes, como Argentina, Bolívia e Chile (lítio), Venezuela (petróleo), Peru (prata, molibdênio), Brasil (ferro, estanho) e até Cuba (cobalto) poderiam, portanto, tornar a economia uma questão de sobrevivência.


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Este escrito originalmente em alemão foi publicado pelo jornal “JungeWelt” [Aqui!].

Ações da Polícia Federal mostram que Campos dos Goytacazes se firmou como vanguarda do atraso político

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As ações da Polícia Federal realizadas pela Polícia Federal em Campos dos Goytacazes para prender ativistas de extrema-direita e documentos que os associe eventualmente aos atos de vandalismo ocorridos em Brasília no dia 8 de janeiro não devem (ou não deveriam) surpreender ninguém que acompanhe com atenção mínima a cena política municipal desde, pelo menos, 2018. É que naquela ano, formandos da Faculdade de Medicina de Campos decidiram por uma fotografia coletiva em que homenageavam o então candidato Jair Bolsonaro tratando-o como “Mito” (ver imagem abaixo), demonstrando uma curiosa opção por um político que não deveria merecer qualquer homenagem de futuros profissionais da saúde.

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Mas a aparição da extrema-direita como um ator proeminente na cena campista não ficou restrito a estudantes entusiasmados com um político do baixo clero que sempre se notabilizou por defender, entre outras coisas, um torturador contumaz como foi o Coronel Brilhante Ustra. Aos longos dos últimos quatro anos, o que se viu foi a colocação de outdoors supostamente financiados por entidades patronais que em uma hora ameaçavam quem não apoiasse os desvarios sendo cometidos por Jair Bolsonaro na condição de presidente da república, para em outra expressar apoio à  sua campanha eleitoral de reeleição (ver imagem abaixo).

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Mas a pitada final nessa proeminência da extrema-direita em Campos dos Goytacazes foi a presença constante de um grupo de apoiadores do agora ex-presidente Jair Bolsonaro na frente da entrada do quartel da 2a. Companhia de Infantaria do Exército, que fica localizado na Avenida Deputado Bartolomeu Lizandro, para expressar a agenda extremista em prol de um intervenção federal, o que na prática significaria a instalação de uma nova ditadura militar no Brasil (ver imagem abaixo).

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Provavelmente as ações da PF no dia de hoje vão servir como uma espécie de “espalha barata” em um grupo que se tornou subitamente visível, apesar de sempre ter estado presente de uma forma mais subterrânea. Entretanto, há que se lembrar que a volta a uma condição mais discreta não vai significar uma conversão ao Estado democrático de direito.  Aliás, muito pelo contrário. O mais provável é que passado o susto das prisões e apreensões, vejamos novamente a extrema-direita em manifestações que reunirão em sua maioria idosos brancos, mas que ainda deverão congregar outros desafetos da democracia para continuarem agindo, ainda que na surdina.

A minha única dúvida é se efetivamente haverá uma busca pelos financiadores destes grupos como está sendo anunciado pelo Ministro da Justiça, Flávio Dino. Se houver, as coisas deverão ficar mais interessantes, pois até as pedras que rolam no Paraíba do Sul sabem que a extrema-direita está sendo financiada por “brasileiros de bens”.

Polícia Federal faz operação contra atos antidemocráticos em Campos dos Goytacazes

Investigadores cumprem cinco mandados de busca e apreensão e três de prisão temporária de suspeitos de organizarem atos em frente à quartéis do Exército, e participar ou financiar dos atos terroristas de 8 de janeiro em Brasília

vandaloBolsonarista radical durante ataques terroristas aos prédios dos poderes em Brasília, em 8 de janeiro — Foto: Eraldo Peres/AP

Por g1

A Polícia Federal deflagrou, nesta segunda-feira (16), uma operação em Campos dos Goytacazes, no Rio de Janeiro, contra atos antidemocráticos após o segundo turno das eleições e naqueles que culminaram na invasão às sedes dos três Poderes em Brasília, no dia 8 de janeiro.

Os suspeitos são investigados por associação criminosa, abolição violenta do Estado Democrático de Direito e incitação das Forças Armadas contra os poderes institucionais.

A operação, chamada de Ulysses, visa cumprir cinco mandados de busca e apreensão e três de prisão temporária de pessoas suspeitas de liderarem bloqueios de rodovias que passam pela cidade.

Os investigadores trabalham também para apurar a organização das manifestações em frente aos quartéis do Exército em Campos dos Goytacazes, bem como a participação dos investigados na organização e financiamento dos atos terroristas que levaram à invasão das sedes dos três Poderes em Brasília no dia 8 de janeiro.

“Durante a investigação, foi possível colher elementos de prova capazes de vincular os investigados na organização e liderança dos eventos. Além disso, com o cumprimento hoje dos mandados judiciais, será possível identificar eventuais outros partícipes/coautores na empreitada criminosa.”, diz comunicado da Polícia Federal.

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Este texto foi originalmente publicado pelo portal G1 [Aqui!].

Liberação de venenos agrícolas no Brasil durante a gestão Bolsonaro

Mas Bolsonaro gostava de se alimentar de forma orgânica e livre de agrotóxicos

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Venenos agrícolas

Por Christian Russau para a Kooperation Brasilien

O professor universitário brasileiro Marcos Pedlowski, da Universidade estadual de Campos dos Goytacazes, no estado do Rio de Janeiro, manteve registros meticulosos nos últimos anos sobre os venenos agrícolas recém-aprovados pelo governo federal em Brasília. Em 31 de dezembro de 2022 , Pedlowski informou sobre dois atos jurídicos recém-publicados pelo Ministério da Agricultura, nos quais mais 98 venenos agrícolas foram liberados de Brasília. Pedlowski somou tudo e apresentou 2.030 venenos agrícolas aprovados durante o mandato de quatro anos de Jair Bolsonaro (1º de janeiro de 2019 a 31 de dezembro de 2022).

Segundo levantamentos da professora da USP Larissa Bombardi, uma pessoa morre a cada dois dias por intoxicação por agrotóxicos no Brasil, e um quinto das vítimas são crianças e jovens de até 19 anos. O enorme uso de agrotóxicos no Brasil traz riscos à saúde da população local (muitas vezes indígenas e outras comunidades tradicionais) que estão diretamente expostos ao uso de agrotóxicos em áreas rurais por meio de pulverização aérea ou contaminação de lençóis freáticos e solo, bem como de todo o população devido a alimentos cada vez mais contaminados e altos níveis de poluentes na água potável, possibilitados por controles oficiais reduzidos e por limites legais relativamente frouxos. Ex-Relator Especial da ONU sobre Direitos Humanos e Substâncias Tóxicas, Baskut Tuncak (2014-2020),O país caminha para um “futuro cada vez mais tóxico” .

Ao mesmo tempo, o Congresso Nacional (mais conservador-reacionário do que nunca) tramita em Brasília o projeto de lei chamado Pacote do Veneno”, ou seja, o projeto de lei 1459/2022 , que estabelece as disposições básicas para a produção, o armazenamento, o uso e o descarte de agroquímicos no Brasil devem ser redefinidos, ou seja, flexibilizados e liberados o máximo possível de agrotóxicos. Os projetos legislativos no Brasil costumam demorar muitos anos para passar por todas as instâncias, mas algumas instâncias já foram aprovadas com o pacote do veneno – primeiro como PLS 526/99 do então senador e (ainda rei da soja) Blairo Maggi, depois como PL 6299/2002 na Câmara dos Deputados e agora no Senado como o mencionado PL 1459/2022. O relatório da comissão do Senado foi aprovado em dezembro, os bastidores fervilham em Brasília (não só sobre o assunto), mas a briga pelo “pacote de veneno” ainda não está decidida. Essa briga também está sendo acompanhada de perto lá fora , ambos os membros do Parlamento da UE , bem como 21 deputados alemães , enviaram uma carta interpartidária aos presidentes do Senado e a vários presidentes de comissões em Brasília para expressar suas preocupações sobre o “pacote de veneno”.

Por outro lado, a Comissão Européia está (não apenas) comprometida com a ratificação do acordo de livre comércio UE-MERCOSUL, que (além de muitas outras coisas, como mais desmatamento da floresta tropical e mais SUVs, menos tarifas e mais conflitos de terra) leva a mais exportações de agrotóxicos da Europa para o MERCOSUL e, portanto, também para o país que já detém o título de campeão mundial na área de agroquímicos: o Brasil. Ao mesmo tempo, esses pesticidas voltarão ainda mais para a Europa – nos produtos agrícolas que a Europa mais importa É duvidoso que a proibição das exportações de pesticidas não aprovados na Alemanha, almejada pela coalizão do semáforo, seja suficientemente robusta, mas é um primeiro passo. Se essa proibição de exportação também se aplicasse a ingredientes ativos (e não apenas a fórmulas de pesticidas acabados) e também estivesse firmemente ancorada na Lei de Proteção de Plantas, estaríamos um passo adiante.

Os jornalistas investigativos do De Olho nos Ruralistas já haviam apresentado sua pesquisa de fundo sobre o lobby político das agroempresas em Brasília durante o governo Bolsonaro em agosto do ano passado , revelando o envolvimento de empresas multinacionais no financiamento aninhado do think tank do agronegócio denominado Instituto Pensar Agro, incluindo empresas como Bayer, Basf, Syngenta, JBS, Cargill e Nestlé, segundo a análise, e realizaram um total de 278 reuniões com o governo Bolsonaro.

Este último bateu recordes nas questões da liberalização e flexibilização dos agrotóxicos no Brasil, ao mesmo tempo em que aparentemente se esforçou ao máximo para alimentar a si e a sua família que alimentos biologicamente orgânicos eram servidos como pratos no palácio do Planalto. Com o cartão de crédito presidencial de Bolsonaro (quem paga o contribuinte) foram feitas 158 compras no mercado de orgânicos nos últimos quatro anos.


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Este texto escrito originalmente em alemão foi publicado pela Kooperation Brasilien [Aqui!].

Uma seita no filme errado, esse é o Bolsonarismo no Brasil

Durante anos, milhões de apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro foram incitados com a retórica da guerra civil. Após o assalto às instituições no domingo, a radicalização deve continuar

09_BrasiliaAinda não chegou com os dois pés na realidade: muitos participantes do assalto ao distrito governamental se isolam em um mundo paralelo. Foto: André Borges, Keystone

Por Philipp Lichterbeck , Rio de Janeiro, para o Woz

Quem quiser entender a tentativa de golpe ocorrida na capital brasileira, Brasília, no domingo, deve primeiro examinar a mentalidade dos apoiadores de Jair Bolsonaro. Observadores especialmente de esquerda tendem a descartá-los como fascistas, racistas e sexistas da classe média e alta branca. O bolsonarismo penetrou em todas as classes sociais e de forma alguma pode ser atribuído a uma cor de pele ou gênero específico. É verdade que, por exemplo, quase nenhum negro esteve envolvido na invasão do distrito governamental de Brasília, mas o número de “pardos” (como são chamados aqui os descendentes de negros e brancos) foi enorme. Foi igualmente impressionante quantas mulheres participaram entusiasticamente dos motins antidemocráticos.

Outra coisa é crucial: a firme crença dos bolsonaristas de que o Brasil está em perigo por causa da eleição de Luiz Inácio Lula da Silva, sim, que sua vitória eleitoral em outubro só foi possível por fraude, porque o “povo” tinha esse ladrão condenado e gangsters finalmente nunca eleitos. Os bolsonaristas acreditam firmemente que defenderam a pátria, a liberdade, a verdade e, em última análise, a verdadeira democracia.

Prólogo de um mês

Lula, por outro lado, estão convencidos, planeja instaurar uma ditadura comunista, dissolver a família tradicional, restringir a prática da religião cristã e abolir a liberdade de expressão. Além disso, Lula representa para ela – não totalmente errado – a típica disputa pelo poder em Brasília, onde um grande número de partidos e personalidades podem ser providos de cargos e cargos.

Os bolsonaristas, portanto, se veem como lutadores da liberdade que tentam fazer valer a verdadeira vontade do povo, que é reprimida pelas instituições estatais em interação com a “grande mídia”. É uma crença que se confirma a cada dia no mundo paralelo em que muitos bolsonaristas se isolaram. Apenas as informações que circulam ali apóiam suas ideias. Qualquer coisa que contradiga isso é ignorado ou reinterpretado sofisticamente. O bolsonarismo é impensável sem as redes sociais.

O movimento, com sua cosmovisão hermética e retórica quase religiosa da salvação, em última análise, assemelha-se a uma seita. Isso também explica a perseverança com que milhares acamparam em frente a quartéis por todo o Brasil desde a vitória eleitoral de Lula, exigindo um golpe militar. Eles se consideram legítimos para se opor a um governo ilegítimo; os fascistas são os outros para eles.

E não se esqueça: não se trata de uma minoria perdida. 58,2 milhões de brasileiros votaram em Bolsonaro, ou seja, 49,1% dos que votaram. Com 60,3 milhões de votos, Lula da Silva recebeu apenas 1,8 ponto percentual a mais.

Os acampamentos foram o prólogo de um mês para a tomada de Brasília. Após uma marcha de protesto, os bolsonaristas romperam cordões policiais inadequados e invadiram o Congresso, o Supremo Tribunal Federal e o Palácio do Planalto. Quebraram janelas e móveis, destruíram obras de arte, atearam fogo, urinaram e defecaram em móveis e jogaram aparelhos eletrônicos no chão. Obras de arte, armas e câmeras também foram aparentemente roubadas. O prejuízo pode chegar a milhões.

O que chamou a atenção em tudo isso foi que a polícia militar no Brasil, conhecida por sua brutalidade, não interveio e alguns policiais até tiraram selfies com os invasores. Não é segredo que as forças de segurança do Brasil são um reduto do bolsonarismo.

A dura resposta de Lula

Embora inicialmente se tenha dito que a polícia havia sido surpreendida pela agressividade dos manifestantes, logo surgiu a suspeita de que havia cálculo por trás da passividade. O serviço interno de inteligência do Brasil, ABIN, aparentemente alertou os responsáveis ​​​​em Brasília no início de que milhares de várias partes do país estavam a caminho para invadir a Praça dos Três Poderes. Agora o chefe de polícia da capital, ex-ministro de Bolsonaro, foi demitido e o governador de Brasília foi afastado do cargo.

O assalto às instituições não foi espontâneo. Os apelos à invasão dos centros de poder do país já circulavam nas redes bolsonaristas há dias. Instruções para ação também foram compartilhadas; dizia-se, por exemplo, que a invasão só deveria ser tentada quando uma massa crítica de pessoas se reunisse. A polícia agora está investigando quem estava por trás dessas ligações e quem financiou as viagens de ônibus que trouxeram os manifestantes a Brasília. Cerca de uma centena de empresas e firmas bolsonaristas são suspeitas, muitas das quais já haviam apoiado os acampamentos de protesto em frente ao quartel.

Os tumultos foram interrompidos no domingo depois que o presidente Lula da Silva, que estava em São Paulo, emitiu um decreto dando ao governo federal o comando do aparato de segurança da capital. Ele anunciou com raiva que os “vândalos e fascistas” seriam punidos. Novas unidades policiais chegaram prontamente à Praça dos Três Poderes; expulsaram os invasores e prenderam algumas centenas deles. Na segunda-feira, a polícia desmantelou os acampamentos em frente aos quartéis em todo o país. Em Brasília, cerca de 1.200 bolsonaristas foram detidos em um pavilhão esportivo para verificar a prática de atos criminosos.

Foi o início da dura resposta do Estado brasileiro. O juiz constitucional Alexandre de Moraes, que já é odiado entre os bolsonaristas por sua repressão aos produtores e divulgadores de notícias falsas, ordenou que as listas de hóspedes de hotéis e pousadas em Brasília sejam revisadas e dados de geolocalização e imagens de câmeras de vigilância sejam analisados. A conduta da polícia local também faz parte da investigação. Isso é facilitado pelo fato de os bolsonaristas filmarem sua invasão e postarem gravações de seus crimes em celulares como troféus. Em sensacional discurso na terça-feira, Moraes afirmou que não haveria “apaziguamento” contra os “terroristas”: “Se o apaziguamento tivesse funcionado, não teríamos a Segunda Guerra Mundial”,

Nos grupos de comunicação bolsonaristas, mas também na Jovem Pan (a contraparte brasileira da direitista norte-americana Fox News), fala-se agora do início da ditadura comunista que Lula sempre planejou. Os bolsonaristas presos foram tratados como prisioneiros em campos de concentração e os crimes em Brasília foram cometidos por provocadores plantados pela esquerda.

O grande perdedor

O assalto às instituições brasileiras era previsível. É o resultado da retórica incitante à guerra civil que o ex-presidente Bolsonaro, políticos aliados a ele, pastores evangélicos, influenciadores e empresários vêm promovendo há anos. Alguns denunciantes online ganharam muito dinheiro com suas postagens nas mídias sociais – e, portanto, um interesse em mais radicalização.

Mas eles podem ter ido longe demais. Políticos da esquerda à direita concordaram que os “terroristas” e os “conspiradores golpistas” deveriam ser punidos em toda a extensão da lei. Lula da Silva conseguiu se apresentar como um poderoso chefe de Estado que assume o comando e toma decisões. Já na segunda-feira convocou governadores de todos os partidos, ministros e os juízes constitucionais de Brasília para demonstrar união. A maioria dos observadores concordou: a jovem democracia brasileira, com apenas 35 anos, provou ser defensiva e forte no final.

O grande perdedor é Jair Bolsonaro. Só mais tarde ele reportou da Flórida para se manifestar no Twitter contra os atos de violência em Brasília. Suas ligações não foram atendidas. Como se o bolsonarismo não precisasse mais disso.


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Este texto escrito originalmente em alemão foi publicado pelo jornal “Woz” [Aqui!].

Informação exclusiva: Observatório dos Agrotóxicos divulga lista completa dos 2.030 agrotóxicos liberados pelo governo Bolsonaro

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Soba batuta firme da ministra Tereza Cristina e do presidente Jair Bolsonaro, o Brasil realizou uma das maiores ondas de aprovações de agrotóxicos da sua história, com resultados imprevisíveis sobre a saúde humana e o meio ambiente

Após um longo e exaustivo trabalho de compilação, o Observatório dos Agrotóxicos do Blog do Pedlowski divulga com exclusividade a base completa contendo os 2.030 agrotóxicos liberados pelo governo Bolsonaro entre janeiro de 2019 e dezembro de 2022.  Além disso, divulgo outras seis planilhas relativas aos atos promulgados pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) entre os meses de setembro e dezembro de 2022 (46, 50, 53, 63 e 64). A divulgação desses dados é voltada para informar a população e pesquisadores que estejam neste momento com sua atenção voltada ao estudo da economia política dos agrotóxicos em nível global e no Brasil, bem como seus efeitos sobre a saúde humana e o meio ambiente.

Uma nota de precaução é que apesar de todos os esforços, algumas informações mudaram e mudarão ao longo do tempo, especialmente no que se refere à condição de permissão dos agrotóxicos na União Europeia, pois os órgãos reguladores europeus estão constantemente ajustando padrões de segurança e observando datas limites de permissão de determinados agrotóxicos, o que implica em que alguns produtos que estejam habilitados a uso possam passar à condição de proibidos. Além disso, o fato de que apenas em dezembro de 2022 foram publicados 2 atos (aparentemente em correria pelos avaliadores) que apresentaram uma série de lacunas técnicas que deixam claro que há que se usar a base levando a presença de inconsistências. Entretanto, esse fato não diminui a riqueza de informações que foram compiladas a partir dos atos publicados pelo MAPA.

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O Brasil se tornou o destino de agrotóxicos altamente perigosos que já estão proibidos em outras partes do mundo

Como já observei em postagens anteriores, o estudo inicial da base geral e das planilhas individuais mostra que o Brasil se tornou o destino de agrotóxicos altamente perigosos que já se encontram proibidos em outras partes do mundo, a começar pela União Europeia. Dentre estes produtos proibidos e que estão sendo amplamente utilizados no Brasil, ainda mais após o governo Bolsonaro, e que já estão tendo repercussões sobre a saúde humana e os ecossistemas naturais. A questão é que estas substâncias, apesar de estarem sendo usadas de forma ampla, geral e irrestrita, as conexões entre a sua presença e os impactos sobre a saúde humana não ainda estão claramente identificadas, o que gera um ambiente social de menosprezo das consequências com o contato, seja ele agudo ou crônico.

Um fato claro que emerge dos dados sobre os agrotóxicos liberados pelo governo Bolsonaro é que a maioria se destina a aumentar o uso já dominante em agriculturas de exportação, principalmente a soja, o milho, a cana de açúcar e o algodão. Isto não apenas reforça o caráter de economia dependente do Brasil, pois o principal fornecedor de agrotóxicos é também o principal comprador de diversas commodities agrícolas brasileiras, mas também o fato de que para sustentar o modelo agrícola exportador, o Brasil e sua população são transformados em uma latrina química para onde são enviados produtos que já estão rejeitados em países que recusam determinados agrotóxicos que são considerados altamente perigosos.

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Representantes de empresas brasileiras fabricantes de agrotóxicos participam de conferência na China

Outro aspecto que fica claro é a dependência crescente do Brasil em relação à indústria chinesa de agrotóxicos, principalmente no fornecimento de agrotóxicos pós-patente ou genéricos onde estão concentradas as substâncias mais perigosas. Entretanto, empresas alemãs como a Basf e a Bayer foram beneficiadas com a aprovação de centenas de produtos, muitos deles proibidos na Europa onde as empresas estão sediadas. 

Por outro lado, há que se frisar que houve a aprovação de um grande número de agrotóxicos biológicos, a maioria deles produzidos por empresas brasileiras ou de subsidiárias de multinacionais sediadas no Brasil. Esse é um elemento que deverá merecer uma análise mais profunda, na medida em que parece estar em curso um giro na indústria dos venenos agrícolas para fazer frente ao processo de crescimento de resistência aos agrotóxicos químicos. 

Findo o governo Bolsonaro, o Observatório dos Agrotóxicos continuará seu trabalho

Apesar do governo Bolsonaro ter terminado, o Blog do Pedlowski continuará acompanhando a aprovação de agrotóxicos, pois a previsão é de que a pressão do latifúndio agro-exportador e das multinacionais produtores de veneno continuará sendo grande para que se aprovem ainda mais agrotóxicos.  

Ainda que o presidente Luís Inácio Lula da Silva tenha apontado para um compromisso com o fortalecimento de um modelo agrícola de base ecológica e menos dependente de agrotóxicos, o fato é que o latifúndio agro-exportador es seus representantes no Congresso Nacional continuarão comprometido com um modelo agrícola dependente e altamente viciado em agrotóxicos. Assim, a avaliação é de que na questão do modelo agrícola repousa um dos maiores desafios do governo que assumiu em janeiro de 2023.

Acesse e baixe a base do Observatório dos Agrotóxicos

Para quem estiver interessado em acessar a base completa dos agrotóxicos liberados pelo governo Bolsonaro, basta clicar [Aqui!]. Já quem estiver interessado em baixar as planilhas individuais dos atos atos publicados entre setembro e dezembro de 2022, pode clicar [Ato No. 46 de 13 de setembro 22, Ato No. 50 de 21 de outubro de 2022, Ato No. 53 de 23 de Novembro 22Ato No. 63 de 27 de dezembro 22,  Ato No. 64 de 28 dez 22]

Agrotóxico é bom no prato alheio: recordista na liberação de venenos agrícolas, Jair Bolsonaro comprou orgânicos 158 vezes no cartão corporativo

Favorável ao uso de agrotóxicos, ex-presidente consumia alimentos saudáveis de produtores locais no Palácio da Alvorada

organicosMercado Malunga, em Brasília, produz e comercializa alimentos orgânicos e saudáveis – Reprodução/Instagram

Por Paulo Motoryn para o Brasil de Fato

O governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) entrou para a história do país como o que liberou, em média, mais de um agrotóxico por dia, considerando os três primeiros anos de mandato à frente do Palácio do Planalto. A gestão do ex-capitão do Exército autorizou, até o início de 2022, uma média de 1,4 por dia, muitos deles altamente perigosos à saúde e ao meio ambiente e, por isso, proibidos em muitos países.

Enquanto o Executivo “passava a boiada” e batia recordes na liberação de agrotóxicos, o Palácio da Alvorada servia ao então presidente um cardápio com legumes, frutas e vegetais orgânicos. A informação consta na base de dados dos gastos do cartão corporativo de Bolsonaro, que estava em sigilo durante o governo anterior, divulgada pela gestão de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em 6 de janeiro.

De acordo com os registros oficiais, os cartões de crédito da Presidência da República foram utilizados 158 vezes em CNPJ’s ligados ao Mercado Malunga, comércio de Brasília que vende uma grande variedade de hortaliças, legumes e laticínios orgânicos produzidos de forma sustentável na Fazenda Malunga, localizada à 70 km de Brasília.

“O Mercado Malunga é uma rede de pessoas, que buscam oferecer uma grande variedade e qualidade de produtos orgânicos para a sua comunidade, buscamos semear a conscientização em relação à alimentação saudável e tecer uma rede colaborativa que acredita que para sermos felizes precisamos cuidar da nossa saúde e do nosso planeta, através da nossa ferramenta mais valiosa, o alimento”, diz o site da empresa.

O valor total gasto com dinheiro público no Mercado Malunga foi de R$ 6.773,24 e, na média, as compras foram de R$ 42,87. A compra mais alta, de R$ 219,88, foi feita em 28 de outubro de 2022. A mais baixa ocorreu em 29 de abril, quando foram gastos R$ 7,99.

Os gastos dos cartões corporativos da Presidência foram publicados pelo governo federal em 6 de janeiro. Dias depois, o Executivo respondeu a uma série de pedidos feitos por organizações, veículos e cidadãos por meio da LAI (Lei de Acesso à Informação). Até então, o governo Bolsonaro argumentava que deixaria os valores em sigilo até o fim do mandato, seguindo um trecho da própria lei.

Apesar de consumir orgânicos no Palácio da Alvorada, Bolsonaro deu uma série de declarações favoráveis ao uso de pesticidas na plantação de alimentos : “Se estivéssemos envenenando os nossos produtos, o mundo não os compraria. É simples!”, afirmou, em 2019. Os seus ministros da Agricultura, Tereza Cristina, e do Meio Ambiente, Ricardo Salles, também acumularam falas defendendo o uso de agrotóxicos.

Outro lado

Como o agora ex-presidente Jair Bolsonaro não tem assessoria de imprensa constituída, não foi possível entrar em contato com sua equipe para buscar um posicionamento para a elaboração desta reportagem. O espaço, porém, segue aberto para manifestações, e o texto poderá ser atualizado.

Edição: Nicolau Soares


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Este texto foi originalmente publicado pelo jornal “Brasil de Fato” [Aqui!].

Golpe de estado Tabajara explicita condição de economia dependente do Brasil

Impeachment Tabajara

A essas alturas do campeonato está mais do que claro que as hordas da extrema-direita que realizaram o quebra quebra em Brasília eram parte de uma engrenagem política mais ampla que buscava realizar mais um golpe de Estado na república brasileira. A coisa só não andou como os idealizadores desse coup d´etat exageraram nos tons das Organizações Tabajara do mesmo. 

A descoberta da minuta de decreto de fechamento da Justiça Eleitoral na casa do ex-ministro Anderson Torres é apenas um detalhe na longa lista de tabajarices cometidas, ao que tudo indica, pelo grupo que cerca (cercava?) mais diretamente o ex-presidente Jair Bolsonaro. O simples fato de que Anderson Torres se mandou para Orlando (mesma cidade onde Jair Bolsonaro se encontra) deixando para trás a tal minuta é um daqueles momentos Tabajara que parecem até armação.

Mas deixando de lado as bizarrices de Jair Bolsonaro e seus colegas, o que me chama a atenção é que mais este golpe não se consumou porque não teve o devido suporte das potências centrais, a começar pelo governo dos EUA, que resolveram apostar na capacidade política de Lula para manter o Brasil em sua condição de economia dependente. É essa faceta que vejo pouco analistas apontando, na medida em que se o governo Biden decidisse apoiar a imposição de um governo não eleito, o mais provável é que as tropas militares já estivessem nas ruas para impondo essa realidade.

Nesse sentido, os desafios que se colocam para o governo Lula são ainda maiores, pois sem a devida organização dos amplos setores que deram o terceiro mandato para Luís Inácio Lula da Silva, uma mudança de humor nas potências centrais significará a imposição de um governo não eleito pela população.

Por outro lado, é fato que existe neste momento uma tentativa de romper as estruturas políticas e econômicas que foram criadas ao final da Segunda Guerra Mundial sob a liderança da China. Um dos aspecto mais marcantes desse processo são os esforços de “desdolarizar” a economia mundial com muitos negócios sendo fechados em outras moedas, incluindo o Rublo russo e Yuan chinês.  Se esse processo avançar como parece que irá,  é possível que as pressões sobre Lula e seu governo de frente ampla sejam ainda maiores.

No que isso tudo vai dar, ainda não é possível afirmar. Mas está claro que uma das consequências do golpe Tabajara que foi aparentemente tentado sem sucesso será explicitar a encruzilhada em que o Brasil está metido neste momento.

Bolsonarismo inova e propõe golpe de estado via manuscrito

torres bolso

O ex-ministro da Justiça Anderson Torres está cada vez mais afundado em um enredo golpista

Os próximos dias deverão ser muito interessantes após a Polícia Federal ter informado que encontrou na residência do ex-ministro Anderson Torres um manuscrito que seria a base para uma espécie de golpe de estado via intervenção na justiça eleitoral. As primeiras explicações vindas dos advogados de Torres são tão pouco favoráveis a ele que dá para pensar que há agora uma grande confusão reinando nas hostes do que se convenciona rotular de “bolsonarismo”.

anderson torres golpe

Após esse manuscrito ter sido encontrado fica a dúvida sobre o retorno ao Brasil não de Torres, mas de Jair Bolsonaro. É que um dos argumentos apresentados pela defesa de Torres é que alguém levou o tal manuscrito para ser apreciado para possível transformação em ato legal. Um desdobramento natural dessa informação é que se faça uma análise caligráfica para determinar quem teria sido o autor da proposta. Se as análises determinarem que a caligrafia não é a de Torres, uma primeira pergunta a ser feito ao ex-ministro da Justiça é de quem ele teria recebido o manuscrito.

Para piorar a situação de Torres, esse tal manuscrito não foi o único documento recolhido na casa de Anderson Torres. Como sempre ocorre brevemente será vazada para a mídia corporativa a informação de quais os outros documentos recolhidos pela Polícia Federal.

Como esses documentos fazem parte das atividades oficiais de Anderson Torres, o mínimo que se pode atribuir a ele é a não transmissão dos mesmos ao novo ministro da Justiça, Flávio Dino. Mas entre outros desdobramentos podem vir as acusações de prevaricação, o que, convenhamos, não é nada bom para Torres.

Resta saber se Anderson Torres, que é delegado da Polícia Federal, vai querer segurar essa bomba toda sozinho ou vai rapidamente demandar o usufruto de uma delação premiada.  

Mas uma coisa é certa: pode-se dizer tudo sobre Jair Bolsonaro e seus operadores, mas que não sejam criativos. Afinal, não me recordo de qualquer outro exemplo de que a prova da preparação de um golpe de estado via anulação dos resultados de uma eleição seja deixada para trás como se fosse um guardanapo onde se rascunhou um poema.

Pesquisa identifica resíduos de agrotóxicos em papinhas infantis

papinhasAnálise feita na Espanha usou metodologia desenvolvida por pesquisadores da Unicamp para rastrear grande variedade de compostos de uma só vez (foto: Freepik)

Monica Tarantino | Agência FAPESP – Estudo conduzido por cientistas do Brasil e da Espanha rastreou a presença de 21 agrotóxicos (incluindo fungicidas, inseticidas e herbicidas) e quatro toxinas produzidas por fungos do gênero Aspergillus (aflatoxinas) em 50 amostras de alimentos industrializados para bebês comercializados em supermercados no estado de São Paulo.

A boa notícia é que não foram encontradas nas amostras selecionadas as temidas aflatoxinas, que são tóxicas ao organismo humano e de animais e podem surgir em cereais, grãos e outros cultivos. A aflatoxina B1, por exemplo, é comprovadamente carcinogênica.

A pesquisa foi conduzida pela engenheira de alimentos Rafaela Prata, com apoio da FAPESP, e divulgada na revista Food Control,.

Quanto aos agrotóxicos, o estudo revelou inicialmente a presença de sete dos 21 compostos rastreados. “Encontramos resíduos de agrotóxicos em 68% das amostras analisadas de alimentos infantis. No recorte por composição e sabor, 47% das papinhas com frutas apresentaram pelo menos um resíduo de agrotóxico, índice que foi de 85% para as comidas de bebês à base de carne e vegetais”, descreve a pesquisadora.

As concentrações dos agrotóxicos identificados ficaram abaixo dos limites máximos de resíduos estabelecidos pela legislação europeia desde 2006, que foi usada como padrão no estudo. De modo geral, na União Europeia, o limite é de 10 microgramas por quilo de alimento para diferentes agrotóxicos. Limites ainda mais baixos foram determinados para agrotóxicos específicos, como fipronil (4 microgramas por quilo). “Não existe, no Brasil, uma legislação própria para limitar a concentração de resíduos de agrotóxicos em alimentos infantis”, diz Prata. “O que existe são monografias sobre agrotóxicos no site da Agência Nacional de Vigilância Sanitária [Anvisa], que consultamos para ver em quais cultivos o uso de determinado produto é autorizado, bem como os limites máximos em alimentos, mas nada sobre as papinhas”, diz Prata.

Para a pesquisadora, falta uma regulamentação específica para esses produtos. “Os bebês são um grupo populacional sensível e vulnerável porque ingerem mais alimentos por quilograma de peso corporal do que os adultos e seus sistemas de desintoxicação e vias metabólicas não estão totalmente desenvolvidos. É importante conhecer a composição dos alimentos oferecidos a eles”, justifica a pesquisadora.

“Ainda que estejam dentro dos limites preconizados pela legislação europeia, o ideal é que essas substâncias não sejam encontradas em alimentos infantis”, afirma o pesquisador espanhol Roberto Romero-González. Referência internacional no estudo de contaminantes e supervisor deste projeto de pesquisa no exterior, González é um dos líderes do Laboratório de Química Analítica e Contaminantes do Research Centre for Mediterranean Intensive Agrosystems and Agri-Food Biotechnology (Ciaimbital), na Universidade de Almeria, na Espanha, onde foi realizada parte das análises das papinhas brasileiras, com financiamento da FAPESP.

Faltam estudos

A presença de agrotóxicos e de toxinas produzidas por fungos em alimentos infantis ainda é pouco estudada no Brasil, embora avance em países europeus. “Somos um dos maiores consumidores dessas substâncias do mundo. Precisamos investir nesse tipo de pesquisa”, defende Prata. “Até onde sabemos, foi a primeira análise feita com uma metodologia desenvolvida para identificar pesticidas de classes diferentes e micotoxinas em alimentos infantis à base de carnes e vegetais.”

Parte da investigação foi conduzida no Laboratório de Análises de Alimentos I da Faculdade de Engenharia de Alimentos da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), sob a coordenação da professora Helena Godoy, que estuda contaminantes em alimentos infantis e validação de métodos com apoio da FAPESP. Anteriormente, o país dispunha apenas de dados sobre a contaminação por agrotóxicos em papinhas feitas com frutas.

Logo depois dessa análise, o grupo submeteu as mesmas amostras a uma nova triagem para rastrear a presença de 2.424 contaminantes não abordados a princípio, entre eles outros agrotóxicos, hormônios, medicamentos veterinários e seus metabólitos (substâncias derivadas da metabolização desses compostos químicos pelo organismo humano).

“Encontramos mais dez agrotóxicos e um metabólito, demonstrando que o método que desenvolvemos é sensível e eficaz”, diz Prata. Ela se refere ao processo de inovação, com uso de novos materiais, para adaptar metodologias usadas para identificar um único composto à detecção simultânea de um conjunto de resíduos de agrotóxicos e micotoxinas. “Nós conseguimos desenvolver um método analítico multirresíduos confiável e validá-lo totalmente. Pode ser uma ferramenta útil para programas de vigilância de alimentos”, afirma.

Segundo a pesquisadora, o metabólito sulfóxido de aldicarbe foi encontrado em três sabores de papinhas: caldo de feijão, arroz e carne; legumes e carne; e abóbora, feijão preto e peito de frango. O teste não mediu a quantidade de resíduos.

O aldicarbe é um agrotóxico proibido no Brasil desde 2012. Por sua alta toxicidade, era usado ilegalmente como raticida (o popular “chumbinho”). Segundo o toxicologista Daniel Junqueira Dorta, professor de química forense na USP de Ribeirão Preto, trata-se de pesticida que se degrada rapidamente no solo, em cerca de duas ou três semanas. A presença de resíduos no alimento sugere, portanto, o uso irregular nas lavouras. Da mesma forma, o composto se degrada rapidamente no organismo e é eliminado.

“O efeito pior do aldicarbe é agudo, por concentração mais alta”, diz o toxicologista. “De todo modo, não deveria haver resíduo desse tipo de jeito nenhum”, diz o toxicologista. Para a professora Helenice de Souza Spinosa, da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP, que analisou a toxicidade do composto em cães e gatos, o achado é relevante e precisa ser mais bem investigado e detalhado. Ela lembra ainda que o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), além das próprias empresas, faz o monitoramento da presença de contaminantes nos alimentos por amostragem regularmente.

“Se você pensar que a criança vai se alimentar com pequena quantidade e nesse estudo nem está quantificado, ou seja, podem ser apenas traços, isso não vai causar intoxicação aguda. Mas o achado é importante: embora proibido, pode ser que estejam usando e não sabemos”, diz Spinosa.

Procurada pela reportagem, a Associação Brasileira da Indústria de Alimentos (Abia) sugeriu, por meio de sua assessoria de imprensa, que a Agência FAPESP entrasse em contato com a Associação Brasileira da Indústria de Alimentos para Fins e Congêneres (Abiad). Em nota, a Abiad afirmou que as empresas a ela associadas seguem todas as normas e legislações nacionais vigentes e que têm restritas políticas para garantir a qualidade dos produtos aos consumidores.

“Os alimentos passam por diversos e rígidos processos de controle de vigilância sanitária, sendo aprovados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária, e só então liberados para o consumo do público. A Abiad também reforça que nenhuma das empresas associadas foi informada por órgãos que regulamentam a qualidade dos produtos no Brasil sobre substâncias irregulares encontradas em alimentos infantis.”

O artigo Targeted and non-targeted analysis of pesticides and aflatoxins in baby foods by liquid chromatography coupled to quadrupole Orbitrap mass spectrometry pode ser lido em: www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0956713522002651?via%3Dihub.


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Este texto foi publicado originalmente pela Agência Fapesp [Aqui!].