Instituições financeiras investiram R$ 270 bilhões em mineradoras com interesses em terras indígenas na Amazônia

Indigenous People Manifest in Brasília, Brazil
Indígenas Fazem Manifestação em Brasília

Apenas nos últimos cinco anos, as mineradoras Vale, Anglo American, Belo Sun, Potássio do Brasil, Mineração T’aboca e Mamoré (ambas do Grupo Minsur), Glencore, AngloGold Ashanti e Rio Tinto receberam USD 54 bilhões em financiamento do Brasil e do exterior. Considerando a cotação atual do dólar em cerca de R$ 5, o montante chega a R$ 270 bilhões de reais.

O dado é resultado de uma pesquisa que contou com o apoio do Observatório da Mineração.

O relatório Cumplicidade na Destruição IV – Como mineradoras e investidores internacionais contribuem para a violação dos direitos indígenas e ameaçam o futuro da Amazônia foi  lançado hoje pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) e a Amazon Watch.

Eu escrevi o texto do relatório e ajudei na investigação que teve a participação do InfoAmazônia, do Brasil e a Profundo, da Holanda. Este relatório tem foco exclusivo na mineração é o segundo produzido em parceria com o Observatório da Mineração.

O primeiro, lançado em novembro de 2020, mostrou como instituições financeiras sediadas nos Estados Unidos estavam por trás de investimentos em mineradoras e empresas do agronegócio e de energia envolvidas em conflitos com povos indígenas na Amazônia.

Ao atualizar os valores, aprofundar a investigação e focar em mineração, o novo relatório revela que corporações sediadas nos Estados Unidos continuam entre as principais financiadoras cúmplices na destruição.

Juntas, as gestoras Capital Group, a BlackRock e a Vanguard investiram USD 14,8 bilhões nas mineradoras com interesses em terras indígenas e histórico de violações de direitos.

Instituições brasileiras também tem grande participação no financiamento dessas mineradoras: o fundo de pensão brasileiro Previ (Caixa de Previdência dos Funcionários do Banco do Brasil) é o responsável pelos mais altos investimentos nestas mineradoras, com mais de USD 7,4 bilhões, seguido pelo banco Bradesco, com quase USD 4,4 bilhões e a Caixa Econômica Federal, com USD 786 milhões.

Foto de destaque: Adriano Machado/Greenpeace

Vale recebeu US$ 35,8 bilhões. Belo Sun também se beneficiou

A empresa que mais recebeu investimentos e empréstimos nesse período foi a Vale, com USD 35,8 bilhões de dólares, mostrando que nem mesmo os sucessivos desastres em Mariana e Brumadinho diminuíram o apetite dos investidores com relação à mineradora.

Os dados mostram também o grande interesse do Canadá em financiar a mineração no Brasil.

O Royal Bank of Canada, maior banco privado do país, injetou USD 512 milhões nas mineradoras, e é o principal investidor institucional do Projeto Volta Grande, de mineração de ouro, da empresa Belo Sun, considerado socialmente e ecologicamente inviável.

Vista aérea da região da Volta Grande do Xingu, de onde se vê a Vila da Ressaca, sob ameaça da Belo Sun- Cícero Pedrosa Neto/Amazon Watch

A Belo Sun, que tenta há anos aprovação para este mega projeto no Pará, até agora barrado por ações do Ministério Público, da Defensoria Pública, com licenciamento suspenso e que nunca respeitou a consulta prévia requerida aos indígenas da região, é parte do grupo canadense Forbes & Manhattan.

Recentemente, a Belo Sun fez um “acordo” inédito com o INCRA do Pará para se apropriar da área de assentamentos rurais e poder avançar com o projeto. Nos últimos anos, a Forbes & Manhattan também ganhou um aliado de peso: um general que liderou a missão brasileira no Haiti, amigo de Hamilton Mourão há 40 anos, virou lobista do grupo canadense, se aproximou da cúpula do governo Bolsonaro e conseguiu destravar questões pendentes para a mineradora.

Bancos alemães são parte do pacote

Em outubro, antecipando alguns dos dados e recortes possíveis do relatório, mostrei aqui que os bancos alemães Commerzbank, Deutsche Bank e DZ Bank investiram mais de 1 bilhão de dólares em mineradoras multinacionais que atuam no Brasil, considerando apenas as operações brasileiras dessas empresas. A principal beneficiária foi a inglesa Anglo American, uma das 5 maiores mineradoras do mundo.

Em dezembro,a rede alemã Deutsche Welle repercutiu a matéria e a teia de investimentos e falta de transparência e responsabilização.

“Se um banco quiser fazer uma diligência mínima – o que deveria, e está previsto fazer – sem dúvida, conseguiria descobrir muitas coisas questionáveis, rapidamente”.

Porém, “há mais de dez anos estes bancos estão envolvidos em financiamentos diretos a mineradoras e empresas de commodities envolvidas em conflitos. Será que não fazem a menor ideia de quem são estas empresas?”, eu disse em entrevista para a Deutsche Welle, questionando os “princípios de responsabilidade” que estas instituições teoricamente se comprometem, a falta de acompanhamento interno e a diferença entre a teoria dos acordos que assinam e a prática de para onde vai o dinheiro.

Para Rosana Miranda, assessora de campanhas da Amazon Watch, este é um problema crônico e generalizado, como o Cumplicidade na Destruição tem revelado sistematicamente.

“Esses bancos e fundos de investimentos ainda consideram que investir em mineração é um bom negócio, ignorando o extenso histórico de violações e impactos provocados por esse setor. Este novo relatório demonstra a urgência com que eles precisam se comprometer com mudanças reais a fim de deter o rastro de destruição da mineração”, afirma Miranda.

Indígenas protestam contra a mineração em seus territórios na Esplanada dos Ministérios em Brasília (junho de 2021) – Cícero Pedrosa Neto/Amazon Watch

Mineradoras miram 34 terras indígenas na Amazônia, uma área três vezes o tamanho da cidade de Brasília ou Londres

Apesar dos anúncios recentes de grandes mineradoras de que abandonariam seus interesses em territórios indígenas milhares de requerimentos minerários com interferências nessas áreas seguem ativos na base de dados da Agência Nacional de Mineração (ANM). A abertura de terras indígenas para a mineração e o garimpo está no centro da agenda do governo Bolsonaro.

Com o avanço no Congresso dos projetos de lei como o PL 191/2020 – que figura entre as prioridades do Executivo para 2022 – e o PL 490/2007, esses requerimentos podem garantir às mineradoras prioridade na exploração desses territórios.

Mesmo após declarações públicas de gigantes como a Vale e a Anglo American – que tem interesse na TI Munduruku, entre outras – de que abriram mão dos seus pedidos para pesquisa e exploração mineral nesses territórios, muitos dos seus requerimentos seguem ativos no sistema da ANM – em alguns casos, até aumentaram.

Além disso, alguns requerimentos  foram redesenhados para que as áreas de exploração fiquem contíguas às terras indígenas  – caso da Vale, que anunciou e logo após decidiu cercar a TI Xikrin no Pará, por exemplo – ainda causando enormes impactos. Enquanto isso, as principais instituições financeiras globais estão capacitando o destrutivo setor de mineração da Amazônia com bilhões de dólares em investimentos, empréstimos e subscrição.

O relatório “Cumplicidade na Destruição IV” foca nos interesses minerários em terras indígenas de nove mineradoras: Vale, Anglo American, Belo Sun, Potássio do Brasil, Mineração Taboca e Mamoré Mineração e Metalurgia (ambas do Grupo Minsur), Glencore, AngloGold Ashanti e Rio Tinto.

Juntas, elas possuíam em novembro de 2021 um total 225 requerimentos minerários ativos com sobreposição em 34 Terras Indígenas – uma área que corresponde a 5,7 mil quilômetros quadrados – ou mais de três vezes a cidade de Brasília ou de Londres.

“Enquanto os Povos Indígenas lutam para garantir o direito à vida, tanto em nossos territórios quanto em todo o planeta, o governo brasileiro e as empresas da mineração tentam avançar um projeto de morte. Não é possível seguirmos convivendo com atividades que obrigam os povos indígenas a chorar o assassinato cotidiano de seus parentes, ou a testemunhar a destruição de biomas dos quais são os guardiões para avançar um projeto que não gera desenvolvimento real, e sim destruição e lucros nas mãos de poucos”, afirma Sonia Guajajara, da coordenação executiva da Apib.

As terras indígenas mais afetadas por esses pedidos são a TI Xikrin do Cateté (PA) e a TI Waimiri Atroari (AM), ambas com 34 requerimentos cada, seguidas pela TI Sawré Muybu (PA), com 21. A etnia mais impactada por estes pedidos de mineração é a Kayapó (PA), com 73 requerimentos.

O Pará é o estado com a maior concentração de pedidos, que duplicaram entre julho e novembro de 2021. Os dados foram obtidos a partir de uma parceria com o projeto Amazônia Minada, do portal InfoAmazonia, que resultou em um painel interativo – lançado junto com o relatório – que permite pesquisa em tempo real na base de dados da ANM.

“É preciso um entendimento geral de que essas áreas não estão disponíveis para exploração mineral, e nem devem estar, tanto pelo respeito ao direito constitucional de autodeterminação dos povos indígenas sobre os seus territórios quanto pela sua importância para combater as mudanças climáticas e garantir a vida no planeta. O mesmo vale para territórios tradicionais e outras áreas de preservação. Esse entendimento deve vir do Estado, mas também das empresas (que têm totais condições de saber quais áreas estão pleiteando para sequer protocolar esses requerimentos), e das corporações financeiras que as financiam”, complementa Dinaman Tuxá, da coordenação executiva da Apib.

Cumplicidade na Destruição IV detalha ainda, em estudos de caso, os impactos e as violações de direitos protagonizados por cinco dessas mineradoras – Vale, Anglo American, Belo Sun, Potássio do Brasil e Mineração Taboca.

Com apoio do Observatório da Mineração, foram resgatadas as trajetórias desses conflitos e seus desdobramentos atuais, que vão desde a invasão de territórios tradicionais à contaminação por metais pesados e o desrespeito ao direito de consulta e consentimento livres, prévios e informados.

O relatório mostra, com testemunhos das comunidades afetadas que desafiam as declarações oficiais das empresas sobre sua atuação, como a presença e a atuação dessas corporações desfigura para sempre a vida desses povos e comunidades e podem contribuir efetivamente para a destruição dos ecossistemas e para o aprofundamento das mudanças climáticas.

“Os danos da mineração ao meio ambiente e à vida dos povos da floresta são brutais e pioraram muito no governo Bolsonaro. No ano passado, o desmatamento ligado à mineração na Amazônia aumentou 62% em relação a 2018, ano em que ele foi eleito. A aprovação do Projeto de Lei 191/2020 pode causar a perda de 16 milhões de hectares de floresta amazônica, além de colocar em risco a vida de milhares de povos indígenas e tradicionais. Mais do que nunca, precisamos comprometer além do governo brasileiro, as empresas do setor, seus investidores e a comunidade internacional para impedir o aprofundamento da destruição da Amazônia e dos ataques aos direitos dos povos indígenas”, afirma Ana Paula Vargas, diretora de Programas para o Brasil da Amazon Watch.

Atualização: posicionamento das empresas citadas

Vale

A Vale nega que siga possuindo qualquer requerimento em terras indígenas no Brasil. Segundo a mineradora, em nota: “No ano passado, a Vale anunciou a desistência de todos os seus processos minerários em TIs no país (o que inclui requerimentos de pesquisa e lavra). Os pedidos de desistência foram protocolados na Agência Nacional de Mineração (ANM) ao longo de 2021. Essa decisão se baseia no entendimento de que a mineração em TIs só pode se realizar mediante o Consentimento Livre, Prévio e Informado (CLPI) dos próprios indígenas e uma legislação que permita e regule adequadamente a atividade.

Também não procedem as alegações sobre suposta contaminação do rio Cateté, o que já foi corroborado em laudos periciais, elaborados por peritos judiciais, em diversas áreas científicas, que comprovam inexistência de causalidade entre a operação minerária de Onça Puma e a suposta contaminação”.

AngloGold Ashanti

A AngloGold Ashanti informa que não opera e não tem interesse em operar em Terras Indígenas (TIs). Na década de 1990, a produtora de ouro solicitou requerimentos de pesquisa mineral em diversas regiões no país. Três dessas áreas posteriormente foram demarcadas como Terras Indígenas (TIs), o que levou a companhia a desistir das mesmas. A decisão foi protocolada junto à Agência Nacional de Mineração (ANM) no final da década de 1990. No entanto, como não houve atualização do processo no sistema da ANM, a AngloGold Ashanti ratificou a retirada do requerimento de pesquisa em 21 de junho de 2021. Atualmente, os investimentos da empresa no Brasil estão concentrados basicamente na expansão de suas minas localizadas em Minas Gerais e Goiás.

English version: Investment funds injected US$ 54 billion into mining companies with interests in Indigenous territories in the Amazon

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Em ação emergencial, Serviço Geológico do Brasil está mapeamento as áreas afetadas por deslizamentos em Petrópolis

O órgão também vai dar apoio na avaliação de riscos em unidades museológicas do Museu Imperial e Palácio Rio Negro

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Equipe do SGB-CPRM percorre áreas para análise de risco em Petrópolis. Solapamento da margem direita do afluente do rio Piabanha

O Serviço Geológico do Brasil (SGB-CPRM), juntamente com o Departamento de Recursos Minerais do Rio de Janeiro (DRM) e a Prefeitura de Petrópolis estão realizando o mapeamento emergencial das áreas de risco, após os deslizamentos registrados desde a terça-feira, dia 15/02, em Petrópolis (RJ), que causou 178 mortes, sendo considerada a maior desastre

Os geólogos iniciaram as atividades neste sábado, 19/02. Atendendo pedido da Defesa Civil municipal, já concluíram vistoria para levantamento das zonas instáveis nos bairros Mosella, Moinho Preto e Serra Velha. Uma equipe de engenheiros cartógrafos também participa do trabalho, realizando levantamento macro da região com imagens de drones.

O geólogo Thiago Dutra, que está participando da força-tarefa pelo SGB-CPRM, explicou que o relevo da região possui favorabilidade a processos de deslizamentos causados pelo excesso de chuva, que neste evento chegou a registrar precipitação de 260 mm em seis horas. “O relevo é muito acidentado e não tem espaço para consolidar a ocupação humana. Além do terreno naturalmente instável pelo processo de erosão, há cortes verticais, descarga de águas servidas, que aumentam o contexto de desestabilização das rochas”, relatou.

O SGB-CPRM também vai dar apoio no mapeamento emergencial de riscos em unidades museológicas. O órgão está atendendo solicitação do Centro Nacional de Gerenciamento de Riscos e Desastres, ligado ao Ministério de Desenvolvimento Regional (MDR), que por sua vez recebeu a demanda do Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM) sobre os riscos às unidades do Museu Imperial e Palácio Rio Negro.

O objetivo é obter o levantamento topográfico, a avaliação do solo das áreas afetadas, bem como a indicação de procedimentos e soluções para as demandas identificadas. De acordo com o chefe do Departamento de Gestão Territorial, Diogo Silva, a preocupação manifestada pelo Ibram é para um eventual risco de atingimento das estruturas e do patrimônio cultural associado.

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Região do Centro Histórico de Petrópolis, próxima ao Morro Caxambu, onde é possível ver as cicatrizes dos deslizamentos do dia 15/02. Foto tirada no Parque Natural Municipal de Petrópolis.

Além do trabalho de campo, os geólogos, engenheiros e geógrafos precisam efetuar atividades de escritório relacionadas ao gerenciamento do evento extremo. As áreas de risco identificadas precisam ser cadastradas, é feito um registro de desocupação e uma notificação para que as áreas vulneráveis sejam desocupadas.

O SGB-CPRM é responsável no âmbito do governo federal por produzir mapas que auxiliam na prevenção de problemas relacionados aos desastres de origem geológica, seguindo as diretrizes e objetivos estabelecidos pela Política Nacional de Proteção e Defesa Civil, instituída pela Lei Nº 12.608/2012, de forma a estabelecer ações voltadas à prevenção, mitigação, preparação, recuperação e resposta aos desastres, envolvendo de maneira integrada a União, Estados e Municípios.

A corrida da sueca Ikea pela última floresta antiga da Europa

A gigante sueca de móveis está faminta pelas famosas árvores da Romênia. Pouco fica no caminho da sua fome por árvores.

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Por Alexandre Sammon para a “The New Republic”

A temporada de extração de madeira na Romênia dura sete meses, de meados de setembro a abril, um frenesi de motosserras mastigando milhões de abetos, pinheiros, carvalhos, bordos, faias e abetos. Parte da madeira é cortada legalmente; a maioria não é, e a violência entre a indústria madeireira e seus oponentes ocorre com frequência. No início desta temporada, dois documentaristas sediados em Bucareste, trabalhando em um projeto sobre o comércio ilícito de madeira, partiram para encontrar um grande corte raso de aparência traiçoeira em Suceava, um município do norte onde estão localizadas algumas das maiores serrarias do país e onde a Ikea possui milhares de hectares .

Os cineastas – Mihai Dragolea, diretor, e Radu Mocanu, cinegrafista – estavam acompanhando um ambientalista local, Tiberiu Bosutar. Um ex-triturador de madeira que se tornou ativista, Bosutar não era estranho à madeira ilegal. Ao longo de cinco anos, ele construiu uma reputação como um vigilante da floresta, abordando madeireiros envolvidos em atividades questionáveis ​​ou seguindo caminhões cheios de contrabando de madeira, depois transmitindo os encontros no Facebook Live. Apenas algumas semanas antes, ele se tornou viral transmitindo uma tentativa de deter um caminhão que transportava toras ilegais; quando seu SUV branco ficou sem gasolina, ele chamou uma ambulância e continuou a perseguição.

Mas a viagem dos cineastas não era para ser uma façanha. O grupo pegou o veículo pessoal de Bosutar, bem conhecido na área, e se demorou para tomar um café em um posto de gasolina próximo para dar a conhecer a sua presença e provar que não tinham vindo para antagonizar. Então, com Bosutar ao volante, a pessoa que os havia avisado sobre o corte andando de espingarda, e os cineastas atrás, eles pegaram a estrada, viraram à esquerda por uma estrada de terra e começaram a subir.

Não demorou muito para que eles vissem o que procuravam: tocos. “A floresta foi fodida até os ossos”, Dragolea me disse. “Foi realmente danificado.” Nenhuma surpresa, realmente, e em qualquer outro dia, Bosutar poderia ter entrado no Facebook. Em vez disso, ele escolheu ligar para o escritório do guarda florestal. Era uma oportunidade ideal, pensou ele, para mostrar o potencial de comunicação entre ativistas, policiais e madeireiros, e cumprir a resolução de Ano Novo de tentar uma abordagem menos combativa. “Foi um bom momento para mostrar que estamos abertos ao diálogo.”

Não muito tempo depois, eles ouviram o zumbido dos motores; logo, dois SUVs chegaram. Fora saltou não a polícia local, mas uma horda: 15 homens armados com bastões e machados. A equipe de documentários foi buscar o carro de Bosutar, mas não conseguiu fechar as fechaduras a tempo. Os atacantes arrombaram as portas, quebraram a chave, furaram os pneus e destruíram o equipamento da câmera. Eles espancaram Mocanu, preso entre o carro e a encosta da montanha, inconsciente. Eles bateram no rosto de Dragolea. O diretor mergulhou na ravina próxima, onde se escondeu sob as raízes de uma árvore caída e chamou a polícia, implorando que viesse com as sirenes ligadas. “Eu disse: ‘Eles estão matando os jornalistas na floresta e estão me rastreando’”, contou. “Conheci casos em que pessoas morreram na floresta, vi machados ao meu redor. Se alguém não ligasse, com certeza morreríamos.”

Enquanto isso, com Bosutar ainda no carro, os atacantes tentavam empurrar o veículo para fora da montanha, içando o chassi em duas rodas. Quando ele concordou em sair, eles o espancaram, o despiram e postaram fotos dele online, com sangue escorrendo pelo rosto, com a legenda, em romeno: “Para as florestas virgens, eu tiro minha camisa”. Eles o orientaram a descer a colina até encontrar um segundo grupo de atacantes.

Mas a polícia chegou primeiro, junto com as ambulâncias, que levaram os três homens, dois dos quais desmaiaram em trânsito, para o hospital. Não muito tempo depois, o incidente foi notícia internacional por meio de um fio da Associated Press . O espancamento foi até divulgado nos Estados Unidos pelo The Washington Post .

A partir da esquerda: em 2021, o cinegrafista Radu Mocanu, o diretor Mihai Dragolea e o ativista Tiberiu Bosutar foram atacados enquanto filmavam um documentário sobre extração ilegal de madeira na Romênia.

IOANA MOLDAVAN PARA GREENPEACE (X3)

Não havia muito mais ajuda no caminho. Um porta-voz da polícia disse à AP que a polícia trataria o ataque com “a maior atenção”; menos de uma semana depois, apenas quatro dos 15 assaltantes foram acusados, não de tentativa de homicídio, mas da acusação mais leve de briga. Todos estavam fora da prisão, aguardando julgamento. Temendo por sua vida e sua família, Bosutar fugiu de Suceava para Bucareste. “Esta não é a primeira vez que tenho um atentado contra minha vida”, ele me disse do lado de fora do hotel onde estava escondido. “Já foram três ou quatro vezes que fui atacado. Eu simplesmente admito que este é um estado falido, que não tenho um aliado dentro dele?”

“Não sei o que devo fazer”, acrescentou, e começou a chorar.


Em um acidente geográfico e histórico, a Romênia abriga uma das maiores e mais importantesflorestas antigas do mundo. Sua cadeia montanhosa dos Cárpatos, que envolve como um cinto de segurança o ombro médio e superior do país, abriga pelo menos metade da vegetação antiga remanescente da Europa fora da Escandinávia e cerca de 70% da floresta virgem do continente. Tem sido chamada de Amazônia da Europa, uma comparação adequada e sinistra em igual medida, por causa da velocidade com que, como a própria Amazônia, está desaparecendo.

A maior parte da Europa foi rapidamente desmatada durante a era industrial; menos de 4% das florestas da UE permanecem intactas. A Romênia, longe o suficiente dos centros industriais do continente e por muito tempo um membro fechado do bloco soviético, permaneceu uma exceção brilhante. Durante o período comunista do país, o governo converteu as florestas em propriedade pública e as manteve fora dos mercados globais de exportação, consagrando as tendências de manejo florestal de um antigo regime. O resultado é que a Romênia mantém algumas das raras florestas de abetos, faias e carvalhos que se qualificam como de crescimento antigo ou primário, nunca tendo sido excessivamente exploradas, alteradas pela atividade humana ou replantadas artificialmente.

Mas a queda do comunismo em 1989 dissolveu uma camada de proteção para essas florestas, e a onda subsequente de privatização inaugurou a corrupção generalizada. Em 2007, a entrada da Romênia na União Européia criou um mercado enorme e liberado para a madeira barata e abundante do país e a mão de obra barata necessária para extraí-la, condições que incentivaram as madeireiras austríacas e as empresas de móveis suecas a se estabelecerem. Sucedentes regimes fragilizados e ineficazes promulgaram mais reformas pró-mercado e pouco fizeram para conter a corrupção; nos meses finais de 2021, o primeiro-ministro designado do país se viu incapaz de formar um governo. Acrescente a isso o crescimento astronômico da indústria moveleira rápida, que depende particularmente dos abetos e faias que povoam essas florestas, e o resultado tem sido um delírio de desmatamento.

Há um beneficiário óbvio e notável dessa situação: a Ikea. A empresa é hojeo maior consumidor individual de madeira do mundo, com apetite crescendo em dois milhões de árvores por ano. De acordo com algumas estimativas, ela obtém até 10% de sua madeira do país relativamente pequeno da Romênia e há muito tempo desfruta de relacionamentos com usinas e fabricantes da região. Em 2015, começou a comprar terras florestais a granel ; em poucos meses tornou-se, e continua sendo, o maior proprietário de terras privado da Romênia.

A ousadia do mercado global de madeira, talvez previsivelmente, foi muito além dos limites legais estabelecidos por um estado já permissivo. De acordo com um relatório de 2018, inicialmente suprimido pelo governo romeno e vazado no final daquele ano, o país viu 38,6 milhões de metros cúbicos de madeira sair de suas florestas anualmente durante o período de quatro anos anterior; o governo havia licenciado apenas 18,5 milhões de metros cúbicos. Ou seja, sem sequer contabilizar possíveis violações com base no método de extração, mais da metade da madeira do país é extraída ilegalmente. Mesmo a extração legal de madeira, que em terras públicas e privadas deve ser precedida por um plano de manejo florestal aprovado pelo governo, pode estar repleta de corrupção e abuso. Desde aproximadamente a data da adesão da Romênia à UE, entre metade e dois terços da floresta virgem do país foi perdida.

Como costuma acontecer em negócios dominados pela ilegalidade, a violência nunca fica muito atrás e, na época das compras da Ikea, começou uma onda de ataques de alto nível relacionados à extração de madeira. Em 2015, o ambientalista romeno Gabriel Paun foi espancado até ficar inconsciente por madeireirosem uma emboscada capturada pela câmera; ele finalmente fugiu do país e passou anos vivendo na clandestinidade. Doina Pana, ex-ministra de águas e florestas, anunciou que havia sido envenenada com mercúrio em 2017 após tentar reprimir a extração ilegal de madeira. No final de 2019, dois guardas florestais, Raducu Gorcioaia e Liviu Pop, foram assassinados em ataques separados em apenas algumas semanas.

“Passamos tantos anos olhando para a Amazônia e a Indonésia, a bacia do Congo e a Rússia, todos esses lugares que são muito mais famosos por coisas realmente ruins acontecendo nas florestas”, disse David Gehl, da Agência de Investigação Ambiental , que rastreia questões ambientais. criminalidade em todo o mundo. Quando a agência começou a olhar para a Romênia, Gehl me disse, seus membros ficaram “chocados” ao ver o mesmo tipo de coisa acontecendo dentro dos confins da União Europeia, onde marcas internacionais voltadas para o consumidor como a Ikea prosperam.

Com tão pouca aplicação formal da lei – a Guarda Florestal da Romênia foi criada em 2015 como uma unidade de 617 pessoas que não trabalha à noite ou nos fins de semana – a tarefa de proteger as florestas muitas vezes recaiu sobre ativistas e voluntários, uma responsabilidade que se mostrou traiçoeira. Ao todo, pelo menos seis patrulheiros foram mortos nos últimos anos; em outros 650 incidentes registrados, pessoas foram espancadas, baleadas ou atacadas de outra forma em relação à extração ilegal de madeira. Nenhum dos casos de 2019 foi a julgamento; Os agressores de Paun, capturados em filme, permanecem livres.

“Eu me senti mais seguro no Iraque, em Mosul, em 2016”, disse Mircea Barbu, ex-correspondente estrangeiro que agora trabalha como investigador da ONG ambiental romena Agent Green . “No Iraque, é apenas uma questão de azar se eles te pegarem – se você sair de lá, eles não vão te seguir de volta para casa.”


Então, quando me encontrei com Andrei em setembro passado para investigar o corte de árvores antigas protegidas, sabíamos que teríamos que tomar precauções. Identificado aqui por um pseudônimo para sua proteção, Andrei estava na última etapa de uma viagem de 17 dias que o levou aos confins do país. Para um relatório à Comissão Europeia, ele estava documentando a extração de madeira que havia ocorrido durante os 12 meses anteriores em locais protegidos da rede Natura 2000 , examinando locais onde os satélites indicavam perda conspícua contínua de florestas e evidências de degradação de habitat. Ele concordou em me deixar acompanhá-lo nos últimos três dias de sua viagem. Atarracado como um jogador de rugby, sua barba começando a ficar grisalha, Andrei parecia alguém que se sairia bem em uma luta – uma impressão compensada por seu comportamento jovial.

O programa Natura 2000, estabelecido pela UE, protege uma rede de áreas naturais pelo seu valor excepcional como habitats, especialmente para animais como ursos, linces e pássaros. As normas aplicam-se a terras públicas e privadas e regem a Romênia por força da admissão do país na UE. Os sítios Natura 2000 desempenham um papel crucial na Estratégia de Biodiversidade da UE para 2030, para a qual existe uma norma jurídica aplicável, e são igualmente importantes para as ambições climáticas da UE, para as quais não existe. As florestas antigas absorvem 70% mais carbono do que as árvores cortadas e replantadas, tornando-as o método de captura de carbono mais eficaz do planeta; quando uma única faia atingir 150 anos de idade, ela terá absorvido nove toneladas de CO2, o equivalente a 35.000 milhas percorridas de carro, sua taxa de sequestro acelerando à medida que envelhece.

Por razões óbvias, Andrei trabalha disfarçado. Se alguém perguntar, ele diz que é um turista em busca de fotos da natureza. Ele trabalha nos fins de semana, quando os sites de registro são menos propensos a serem ativos, para evitar desentendimentos e minimizar a chance de ser reconhecido. Ele usa um drone para capturar grande parte de suas imagens; pairando a 300 metros, ele zumbe fora do alcance da voz e é invisível do solo. Não faz mal que o carro dele seja alugado, cujo número da placa não seja facilmente rastreado até ele. Geralmente ele viaja sozinho ou com um amigo. “Para mim, é muito raro sair com jornalistas”, disse ele.

Em uma rodovia empoeirada, traçamos o plano do dia: dirigiríamos até as montanhas do sul de Fagaras, onde tentaríamos acessar alguns locais que – de acordo com um amálgama de imagens de satélite do Google Earth e de baixa resolução, imagens atualizadas com mais frequência de um servidor chamado Sentinel Playground – parecia conter cortes claros recentes. Eu seguia em meu Toyota Corolla alugado até onde ele aguentasse as condições, então eu me empilhava em seu Dacia Duster branco, um pequeno SUV 4×4 comum na Romênia, e nós pegamos estradas madeireiras pelo resto do caminho . Desde que o Duster não parasse mais cedo (nas últimas duas semanas, o pneu traseiro havia travado, o freio de mão falhou e o motor estava vazando óleo), caminhávamos a perna final a pé, na esperança de obtenha provas incontestáveis ​​de fotos e vídeos da condição da floresta.

Andrei documenta o desmatamento em florestas protegidas na Romênia. Para sua segurança, ele é identificado nesta história por um pseudônimo.

FOTOGRAFIA DE IOANA MOLDOVAN PARA A NOVA REPÚBLICA

A extração ilegal de madeira vem em várias formas. O mais comum é o corte em excesso da quantidade permitida (cortes rasos maiores que três hectares, por exemplo, violam as regulamentações romenas), mas qualquer método que danifique cursos d’água, cause erosão ou deixe sujeira para trás também pode infringir a lei . Apenas alguns minutos depois que deixei meu carro em um aglomerado de buracos, tivemos nosso primeiro encontro. Contornando uma curva da estrada, encontramos nosso caminho bloqueado por dois caminhões, um sendo despejado de toras recém cortadas, o outro sendo carregado para trânsito, provavelmente para um depósito, de onde a madeira é vendida. Grandes toras também foram empilhadas ao longo da estrada, aguardando exportação. “Ainda há algumas filiais anexadas”, apontou Andrei. “É ilegal derrubá-los assim porque você está danificando o solo quando os arrasta.” Muitas vezes,

Enquanto esperávamos, Andrei montou sua câmera e, mantendo-a baixa no painel, tirou fotos da cena. “Normalmente, quando tiro fotos, certifico-me de que eles não me vejam”, ele me disse. “Só quero ter certeza de que estou pegando as placas desses caminhões, porque podemos verificá-las mais tarde.”

Uma vez que a carga foi liberada, continuamos, encontrando mais um equipamento madeireiro antes de finalmente chegarmos a uma represa e ficarmos sem estrada. Depois de estacionarmos, subimos um caminho íngreme de terra batida que havia sido substancialmente erodido – também, tecnicamente, uma infração legal.

Da beira da estrada, a área parecia densamente arborizada e praticamente intocada, e poucos minutos depois de entrar, vimos evidências de seu status de vegetação antiga: abetos, faias e bordos de vários tamanhos e idades cresciam entremeados, seus troncos cheios de musgos, líquenes , fungos. O solo estava macio com matéria orgânica podre; arbustos de bagas silvestres, colhidos, sugeriam ursos. Algumas das árvores maiores atingiam bem mais de 30 metros de altura; numerosos gigantes tinham facilmente 300 anos. A diversidade de idade, tipo e densidade provou que esta região nunca havia sido substancialmente explorada ou replantada. Mesmo para um amador, a diferença entre esta floresta e o bosque uniforme e compacto visível em um pico oposto, um trecho replantado de árvores de idade e tamanho idênticos, era óbvia.

Subimos ainda mais, até chegarmos a uma clareira de onde poderíamos lançar o drone. Uma vez no ar, a câmera deu uma revelação gritante. O matagal pelo qual caminhávamos era ladeado por madeireiras comerciais por todos os lados. Enquanto o drone fazia uma panorâmica, manchas carecas se revelavam no monitor: novos cortes claros. As manchas se espalharam pelo topo da montanha. Em outro lugar, vimos o que pareciam marcas de garras, os cortes onde as árvores haviam sido puxadas montanha abaixo por cabos. Em muitos lugares, o que restava era apenas terra marrom; os cortes eram novos o suficiente para que nem a grama ou as ervas daninhas tivessem tido tempo de crescer. A visão de estradas recém-construídas indicava que mais atividades madeireiras começariam em breve. Enquanto isso, nos cachos que permaneceram intocados, o vento começou a derrubar e arrancar as árvores expostas.

“Este é um dos piores”, disse Andrei quando perguntei como a área se comparava ao que ele tinha visto até agora em sua pesquisa. “É muito raro ver tantos cortes claros.” Entre danos causados ​​pelo vento, erosão e besouros, ele estimou, em breve não haveria “nada mais”. Baixamos o drone, subimos para um segundo ponto e o lançamos novamente. O trabalho foi metódico: Registre a filmagem, marque a localização no mapa. Quando a bateria acabou, começamos nossa descida para o carro.

Como prova de que estão cumprindo a lei, os caminhoneiros são obrigados a enviar fotos de suas cargas para um banco de dados online chamado SUMAL, que mantém as permissões de registro ativas. Mas há soluções alternativas. Às vezes, os caminhoneiros não se entregam até serem detidos pelas autoridades, momento em que oferecem a documentação e alegam que estavam fora do alcance do serviço de celular. Outras vezes, eles colocam água na lente da câmera ou fotografam apenas metade de seu transporte. Embora os transportes ilegais em plena luz do dia sejam incomuns, Andrei e eu procuramos os números das placas que vimos. A maioria fez check-out conforme o esperado. Mas um dos motoristas, que havia enviado uma foto com apenas metade da carga no quadro, alegou estar carregando apenas sete metros cúbicos de madeira, um quarto do que os outros caminhões desse porte relataram. Infelizmente, a madeira há muito havia sido deixada em um depósito, misturada com toras legais, possivelmente até vendida para uma serraria. Era tarde demais para fazer qualquer coisa.


No início de 2020, a Comissão Europeia anunciou processos de infração contra a Romêniapor permitir a extração de madeira sem uma avaliação ambiental nas zonas Natura 2000. Alguns meses depois, a comissão escalou o caso emitindo um “parecer fundamentado”, o último passo antes de levar o país ao Tribunal de Justiça Europeu. Apesar de deliberar sobre a legislação nacional que estaria em conformidade com os padrões da UE, o governo romeno ainda implementou pouco além de aumentar as penalidades criminais para o roubo de madeira.

Pode-se pensar que o processo de infração retardaria o desmatamento; se alguma coisa, o oposto tem sido verdade. A ameaça de uma nova legislação que protegeria florestas antigas de propriedade privada e pública desencadeou uma corrida para extrair madeira dessas áreas o mais rápido possível. Em 2018, uma audiência de infração da comissão encerrou toda a extração de madeira na floresta de Bialowieza, na Polônia, também um local antigo da Natura 2000, depois que surgiram evidências de derrubada de árvores de 100 anos. “Obviamente, agora há um aumento da pressão”, disse-me Andrei. “Se você deseja remover grandes volumes de madeira sem fazer perguntas, faça isso agora. Se você esperar até o ano que vem, talvez não consiga fazer isso.” A extração de madeira em uma determinada área pode degradar a floresta circundante o suficiente para torná-la inelegível para proteção, e isso adiciona mais motivação.

Uma antiga faia cresce em um local protegido nas montanhas dos Cárpatos, na Romênia.

ANTJE HELMS/GREENPEACE

Partiríamos naquela manhã de uma hospedaria em Curtea de Arges, uma cidade tão grande e tão distante da floresta que ninguém suspeitaria de nossa presença. No café da manhã, Andrei carregou as imagens do drone do dia anterior. Precisávamos visitar vários locais, desta vez na área da Barragem de Vidraru, para cumprir o cronograma.

Novamente dirigimos até que meu carro alugado não pudesse atravessar os buracos. Mais uma vez, fomos confrontados com evidências de extração de madeira imediatamente depois – desta vez, o zumbido plangente de motosserras. Poucos minutos depois, encontramos um silvicultor que, ao saber que éramos turistas, recomendou um local pitoresco para tirar fotos. Como garantia, Andrei me lembrou que era sábado e que a maioria dos madeireiros terminaria de trabalhar às 13h. Em apenas algumas horas, não teríamos nada com que nos preocupar.

Dirigimos até encontrarmos uma estrada madeireira que parecia que nos levaria a um local que analisamos por satélite naquela manhã. A estrada já estava bastante erodida, com canais mais profundos do que eu. Dirigir era impossível, então nós caminhamos.

Imediatamente, Andrei me disse que aquela parecia ser uma floresta virgem ainda mais rara; algumas de suas árvores ele estimou em 500 anos, impressionantes o suficiente em estatura para ele parar e tirar fotos para seu próprio rolo de câmera. Estradas transitáveis ​​podem ser mais difíceis de encontrar do que os próprios locais de extração de madeira, o que se tornou dolorosamente óbvio à medida que nosso caminho continuava a se desviar do nosso destino. Logo estávamos escalando e descendo uma série de ravinas íngremes, verificando inutilmente o rastreador GPS; nosso destino ficava a apenas algumas centenas de metros de distância, mas parecia inalcançável. A densa cobertura florestal mantinha o ar fresco, mas úmido, e eu estava encharcado de suor. Quando finalmente atingimos uma linha de cume, o corte raso estava longe de ser encontrado. É possível, admitiu Andrei, que o satélite estivesse apenas mostrando danos causados ​​pelo vento.

Mas quando ele lançou o drone, ele o viu abaixo de nós, um trabalho apressado que havia deixado para trás não apenas tocos antigos, mas muitos dos próprios troncos. Madeira morta e cinzenta cobria o solo de tal forma que nada, nem mesmo ervas daninhas, cresciam novamente. Andrei filmou um pequeno vídeo e começamos nossa caminhada de volta pela montanha.

Passamos o resto da tarde assim — lançando o drone, filmando, andando a pé. Assim que o sol de meados de setembro começou a se pôr, partimos para nosso último local, na direção que o silvicultor havia recomendado e de onde ouvimos as motosserras na chegada.

Passando por uma cabana de pastor, começamos a subir estradas de qualidade deteriorada, com o carro batendo não raramente em buracos, pedras e escombros. Depois de um tempo, encontramos algo que não esperávamos: um cartaz anunciando o desmatamento na área. A licença, lemos, havia expirado quase dois meses antes, em 30 de julho. “Tente tirar uma foto desse painel”, Andrei me instruiu. “Eu já não gosto disso.”

Paramos o carro e saí para remover um galho que estava bloqueando a estrada. Andrei apontou rastros de trator profundos e aparentemente recentes na lama. Alguns minutos depois, paramos novamente para que eu pudesse deixar de lado outro galho bloqueando nosso caminho. Andrei me disse para fazer isso em silêncio; era possível que esses impedimentos fossem deixados para sinalizar aos madeireiros à frente que alguém estava chegando.

Nós avançamos pela estrada até que finalmente vimos troncos, grandes e recém-cortados. Eles foram derrubados com galhos ainda presos, uma infração muito menos significativa do que o fato de que este local estava protegido e semanas fora da licença.

Então vimos fumaça. Mais adiante na estrada, logo após as toras que estávamos examinando, ela saía da chaminé do trailer de um lenhador do tamanho de uma caixa de fósforos. “Ah, porra”, disse Andrei. “Vamos tirar uma foto disso e depois voltar lentamente.” Silenciosamente, viramos o carro e começamos a descer a montanha, tentando manter o mínimo de ruído do motor.

A Ikea é agora o maior consumidor individual de madeira do mundo, seu apetite crescendo em dois milhões de árvores por ano.

Assim que recuamos o suficiente para ficarmos fora de vista, Andrei estacionou o carro e lançou o drone. Traçando uma fenda estéril montanha acima, ele gravou um vídeo do local de extração de madeira claramente ativo, que nem estava em seu radar; o local que estávamos mirando ainda estava a quilômetros de distância. Fiquei de vigia para ter certeza de que não estávamos sendo perseguidos. “Você tem algum sinal de telefone aqui?” ele perguntou. Eu não. “Boa. Isso significa que mesmo que os madeireiros nos ouçam, eles não podem ligar para ninguém.” E depois, menos animador: “Aqui estamos um pouco expostos”.

Naquele momento, vi alguém se aproximando rapidamente a pé. “Tem alguém vindo,” eu soltei. Ele estava perto demais para que pudéssemos baixar o drone e escapar. Andrei me entregou os controles e mergulhou no banco do motorista, enfiando a chave na ignição e engatando a marcha. Se eu voasse com o drone para um local à frente, disse ele, poderíamos colocar alguma distância entre nós e nosso perseguidor e ter a chance de pegar o dispositivo. O carro apitou objeções enquanto passávamos pelos buracos, e tentei manter o drone no rumo acima.

Depois de alguns minutos, o madeireiro estava fora de vista e Andrei estacionou o carro. A seu pedido, monitorei meticulosamente a estrada atrás. “Vou terminar em 10 segundos”, ele me assegurou. Não muito tempo depois, vi o madeireiro novamente, aproximando-se de nós. “Ele está vindo, ele está vindo,” eu disse. Andrei voltou para o carro e partimos novamente. Qualquer um que entrasse nos teria bloqueado; qualquer problema com o Duster nos deixaria abandonados. Fiquei vigiando pelo para-brisa traseiro, mas não vimos mais ninguém; ninguém se aproximou da frente.


Rastrear qualquer árvore individual do chão da floresta ao showroom apresenta um desafio quase impossível. À medida que a madeira se move pela cadeia de suprimentos, torna-se cada vez mais difícil definir. Os donos de uma floresta leiloam suas árvores para serem cortadas por uma empresa madeireira, após o que a madeira é levada para um depósito, vendida para uma serraria que a transforma em madeira, cavacos ou aglomerado, e depois vendida novamente para um fabricante, que transforma-o em uma cadeira, ou os pedaços de uma cadeira, em nome de empresas de móveis como a Ikea, que compram, marcam, enviam e vendem para instalação em casa. Cada elo dessa cadeia torna o ponto de origem da madeira mais difuso. Os depósitos, em particular, são famosos por empilhar toras ilegais e legais atrás de cercas ou dentro de armazéns, onde se tornam indistinguíveis.

Se o problema de rastreamento torna quase impossível provar que um determinado log é ilegal, pode tornar igualmente difícil provar que um determinado log é legal. A extração duvidosa que nunca chega ao nível de ilegalidade pode ser tão ruim quanto a formalmente ilegal, e as duas geralmente tendem uma para a outra. Muita madeira, como a carga de caminhão informada incorretamente que vi no meu primeiro dia, seria considerada ilegal se houvesse recursos para revisá-la. Embora se saiba que mais da metade da madeira do país, em média, é extraída sem permissão, apenas 1% dessa madeira ilegal é contabilizada oficialmente.

Imagens de drones, fotografadas em 2021, mostram o desmatamento em florestas antigas na Romênia. No sentido horário a partir do canto inferior esquerdo: Cortes rasos em sítios Natura 2000 protegidos nas montanhas de Fagaras demonstram evidências de degradação do habitat. Inferior direito: Ikea registrou esta área, que faz fronteira com um local protegido, no final de 2020; ele alega que não foi claro.

FOTOGRAFIAS FORNECIDAS (X4)

Essa realidade é crítica para a indústria de móveis, que deve crescer de US$ 564 bilhões em 2020 para US$ 850 bilhões em 2025. É especialmente importante para a Ikea, que não é apenas a maior empresa de móveis do mundo, mas a maior compradora e varejista de Madeira. Tendo dobrado seu consumo nos últimos 10 anos, agora devora anualmente 1% da madeira do mundo, com uma dependência regional particular da Romênia e seus arredores. “O crescimento da Ikea anda de mãos dadas com o setor florestal na Europa Oriental e na Rússia”, disse Tara Ganesh, chefe de investigações de madeira da ONG Earthsight, sediada no Reino Unido . Ganesh trabalhou em várias investigações da empresa, cuja presença na região, segundo ela, é “massiva”.

A demanda insaciável por árvores significa que quase não há como a empresa ter largura de banda para fazer o que os governos estrangeiros não conseguem nem controlar e rastrear toda a madeira que entra e sai de sua boca. Quando o relatório de 2018, que indicava que mais da metade da madeira do país foi extraída ilegalmente, vazou, a Ikea se esquivou. “Todas as grandes empresas saíram e disseram: não é nossa culpa. Recebemos o material legal. Todos aqueles romenos, queimando lenha, e é para lá que as coisas ilegais estão indo”, disse Gehl do EIA. Que 55% da madeira do país esteja alimentando as lareiras de uma população que encolheu no mesmo período e diminuiu em quatro milhões desde 1990, é, obviamente, uma sugestão inconcebível.

A Ikea, por sua vez, ostenta uma excelente reputação por sua boa fé ambiental. De acordo com o site da empresa, mais de 98% de sua madeira é extraída de forma sustentável, ou seja, reciclada ou certificada pelo Forest Stewardship Council ; pretende atingir 100% em breve. “Sob nenhuma circunstância permitimos práticas florestais irresponsáveis”, disse-me um porta-voz. E, no entanto, pelo menos 60% de sua oferta de madeira vem da Europa Oriental e da Rússia, cerca de 10% da Romênia em particular. Como as alegações da Ikea podem ser conciliadas com sua presença descomunal em uma região atormentada por escândalos?

A confiança da empresa na certificação FSC como sinônimo de sustentabilidade ajuda a explicar. Uma pequena ONG internacional, o FSC estabelece um padrão baseado em seus 10 princípios – por exemplo, conformidade com as leis nacionais, compromisso de melhorar o bem-estar dos trabalhadores, plano de manejo florestal atualizado – que é então conferido às operações florestais por , auditores independentes, contratados pelas empresas madeireiras e fabricantes para realizar revisões pré-anunciadas e programadas. Se esses grupos se recusarem a conceder a certificação, as operações madeireiras podem simplesmente pesquisar até encontrar um auditor disposto a receber o cheque e conferir o selo. Talvez seja desnecessário dizer que tal sistema inicia uma corrida para o fundo. Desde que o FSC surgiu em 1993, tem provocado críticas entre os ambientalistas; em 2018, O Greenpeace chamou a organização de “uma ferramenta para silvicultura e extração de madeira”. Não ajuda o fato de a Ikea ser a maior consumidora de madeira da rede FSC e ter sido membro fundadora do conselho. (A Ikea “é apenas um dos mais de 1.000 membros”, um porta-voz do FSC me escreveu. “Nossos padrões globais são discutidos e acordados por nossos membros globalmente.”)

Problemas semelhantes aparecem para cima e para baixo na cadeia de suprimentos. A Ikea contrata fabricantes, que precisam adquirir madeira suficiente para transformar em peças de móveis para cumprir seus contratos. Os fabricantes solicitam serrarias, que precisam produzir madeira suficiente para abastecer as fábricas. “Uma vez que eles assumem esse compromisso, eles precisam encontrar a madeira para a Ikea por bem ou por mal”, disse Ganesh. “Isso muitas vezes pode resultar em cortes no meio ambiente ou na legalidade.”

Quando alguém da cadeia é preso por usar fontes ilícitas ou insustentáveis ​​– digamos, se uma fábrica que fabrica cadeiras dobráveis ​​para a Ikea for acionada por comprar madeira de uma floresta legalmente protegida na Polônia – a Ikea pode simplesmente se distanciar e alegar ignorância, um grampo de subcontratação em qualquer setor. A estratégia contribui para o PR adequado, mas desmorona sob o menor escrutínio. Essas empresas contratadas, pelo menos na Romênia, geralmente ostentam as cores amarelo e azul ou trabalham exclusivamente com a empresa; alguns até arvoram a bandeira sueca. Em 2020, a fábrica romena Plimob foi flagrada por usar madeira ilegal em suas cadeiras ; ele ostenta o azul e o dourado em seu portão, visível até no Google Street View. A Plimob vende 98% de seus produtos para a Ikea.

Uma investigação da Earthsight, a organização do Reino Unido, descobriu que madeira de faia ilegal da Ucrânia, colhida pela empresa de processamento de madeira VGSM, estava sendo usada na produção de cadeiras Ikea fabricadas pela Plimob, bem como enviadas diretamente para a Ikea. Juntos, Plimob e Ikea receberam 96% da faia da VGSM, aceitando remessas quase todos os meses entre 2018 e 2020. Egger, outro fornecedor romeno da Ikea, também foi preso por importar madeira ilegal. Uma investigação descobriu que a linha de móveis infantis da empresa, Sundvik, foi feita com pinho ilegal da Rússia siberiana. Uma equipe da Al Jazeera na Romênia seguiu um caminhão cheio de madeira ilegal até um pátio de toras que abastece a Kronospan, um fornecedor da Ikea que produz grandes volumes de aglomerado, um elemento-chave dos móveis da Ikea. Todas essas empresas – VGSM, Plimob, Egger e Kronospan – são certificadas pelo FSC. Em um caso infame de 2015, a HS Timber certificada pelo FSC (então chamada Schweighofer), a principal processadora de abetos da Romênia, foi flagrada em uma câmera escondida prometendo não apenas comprar madeira ilegal, mas também pagar um bônus por isso. Em 2016, o FSC suspendeu provisoriamente a certificação da empresa e cortou os laços um ano depois; A Ikea esperou até a decisão final do conselho de se dissociar.

Pode ser mais fácil para a Ikea patrulhar sua ingestão se usar sua própria madeira, mas afirma que poucas das florestas que possui na Romênia acabam em sua produção de móveis. Em vez disso, a empresa tem vendido concessões madeireiras para empresas que ostensivamente extraem lenha, uma empresa inteiramente separada. Mas essas propriedades também pairam no interstício entre o legal e o ilegal.

A Ikea comprou suas terras de uma fonte improvável: a doação da Universidade de Harvard, que arrebatou propriedades romenas depois que uma lei pós-comunista de restituição de terras deixou um antiquíssimo sistema de privatização em seu rastro, entregando metade das florestas públicas do país a interesses privados. A partir de 2004, a universidade, usando várias conchas e formações sem fins lucrativos, começou a comprar grandes com a ajuda de um empresário romeno, Dragos Lipan. Várias dessas participações eram vendas incendiárias de reivindicações duvidosas de restituição, e Harvard logo se viu em apuros legais. Em 2015, Lipan recebeu uma sentença suspensa de três anos por suborno e lavagem de dinheiro relacionados a esses acordos, e Harvard estava no tribunal lutando pela legitimidade de suas reivindicações. No mesmo ano, a universidade, pronta para lavar as mãos do negócio, encontrou um comprador disposto na Ikea. Com um braço de investimento, a empresa comprou quase 34 mil hectares de Harvard. Em 2016, acrescentou mais 12,46.700 hectares no total . Hoje, o maior proprietário e operador de lojas de varejo da Ikea, a Ingka Investments, tem cerca de 50.000 hectares em seu portfólio. À medida que as propriedades mudaram de mãos, a mancha de ilegalidade foi ficando cada vez mais fraca. A empresa não corre nenhum risco sério de perder essas participações no tribunal.

As florestas da Ikea também são certificadas pelo FSC; essas florestas também têm sido locais de abuso. Pouco antes de eu chegar à Romênia, uma equipe da BBC encontrou um corte raso – não necessariamente ilegal, mas certamente não ambientalmente correto – em uma floresta da Ikea na província de Maramures, no norte. E apesar de ter se dissociado formalmente da HS Timber, descobriu-se que a Ikea estava vendendo concessões a essa empresa para cortar também suas próprias florestas.


Eu sabia que tinha que ver pessoalmente uma floresta da Ikea; o desafio era encontrar um para visitar com segurança. Qualquer uma das vastas participações da empresa em Suceava parecia imprudente após o ataque; no condado vizinho de Maramures, onde o guarda florestal Pop havia sido assassinado menos de dois anos antes, eu tinha certeza de ver o corte raso, mas continuava perigoso demais em um dia de trabalho.

Resolvi, finalmente, ir para Focsani, perto de uma floresta de baixa altitude onde a Ikea possui cerca de 5.000 hectares, em uma região onde a empresa também enfrenta seus maiores problemas legais. Barbu, o investigador, concordou em se juntar a mim, assim como Andrei, como parte de sua própria pesquisa. Apenas alguns meses atrás, Agent Green, a ONG romena, identificou o que disse ser um corte raso sem licença e sem uma avaliação de impacto ambiental em uma floresta antiga de propriedade da Ikea, adjacente ao local Valea Neagra Natura 2000 , que abrigava árvores de 130 a 150 anos. Eu tinha visto as fotos das consequências marcianas. O grupo apresentou uma queixa; os resultados tinham chegado recentemente.

No caminho, revisamos as descobertas do auditor, compiladas pela British Soil Association, uma certificadora do FSC. Apesar da evidência fotográfica e da falta de uma avaliação de impacto ambiental, a revisão considerou a empresa impecável. Andrei leu em voz alta, incrédulo. “Eles começaram a cortar aqui há dois anos e ainda não têm a licença. OK. E o FSC não tem problema com isso, não menciona que eles estão infringindo a lei. Eles estão apenas dizendo que fizeram ‘esforços’ para cumprir a legislação.”

Atravessamos colinas marcadas não apenas pela extração de madeira, mas também pelos deslizamentos de terra. O solo aqui é espesso com argila, que desliza quando sua vegetação é removida, dificultando a extração de madeira futura e a regeneração de qualquer tipo ainda mais difícil, uma “surpresa desagradável” para os projetos da Ikea na área. Andrei riu sombriamente. “Eles não fizeram a lição de casa.”

Quando chegamos ao local, estava mais verde do que eu esperava. Ervas daninhas e arbustos haviam quebrado as partes mais áridas do terreno. Uma árvore solitária sobrevivente apareceu. Contamos um punhado de mudas de carvalho, nenhuma mais alta que a canela. O crescimento mais impressionante veio na forma de uma planta de tomate que começou a frutificar, provavelmente um vestígio do almoço de um madeireiro.

Por causa da reclamação, havia muita atenção pública para a área, o que, segundo me disseram, significava que o local estaria inativo. Mas enquanto caminhávamos, ouvimos o ruído distante e familiar de motosserras. Mais alarmante, quando as serras pararam, ouvimos o baque das árvores batendo no chão da floresta, uma evidência mais forte de atividade madeireira em algum lugar próximo. Andrei lançou o drone e avistou a operação do outro lado da estrada de onde estacionamos. “De jeito nenhum”, disse Barbu. “Muitos jornalistas estão cobrindo isso e estão vindo para a área, então acho que seria tolice tentar algo totalmente ilegal.”

Andamos até encontrar o serviço de telefone e corremos nossas coordenadas através do SUMAL, o banco de dados on-line, para obter permissões de registro ativo. Uma licença veio à tona: para rarituri – a palavra romena para “desbaste” – emitida para a Ingka Investments, o braço de propriedade de varejo da Ikea. A licença permitiria aos madeireiros remover pequenas mudas, crescimento que poderia impedir o bem-estar geral da floresta, bem como árvores doentes ou mortas. Mas mesmo a centenas de metros acima do solo, podíamos dizer que não era isso que estava saindo. “Estes também são grandes, grandes troncos. Estes são bons logs comerciais. Isso não é coisa que você pegaria de rarituri ”, disse Barbu.

Deliberando, chegamos a uma decisão: entraríamos no local, registraríamos a atividade e enfrentaríamos os madeireiros, com Barbu filmando. Andrei mandou uma mensagem de nossa localização para um colega fora do local como parte de um protocolo de segurança. Para proteger seu status de infiltrado e ajudar a facilitar uma saída mais rápida em caso de emergência, ele permaneceria no carro; Barbu — e pelo processo de eliminação eu também — lidaria com o confronto. Obter imagens de extração ilegal de madeira como essa reforçaria um caso futuro contra as práticas de manejo florestal da Ikea, mas com algum risco. “Foda-se”, Barbu murmurou, carregando cartões de memória em sua câmera. “Não sinto vontade de apanhar.”

Entramos no carro e descemos até a clareira onde os troncos derrubados estavam sendo empilhados. Uma pedra estava bloqueando o caminho. Saí do carro e o joguei para fora da estrada.

Do lado de fora, Barbu começou a filmar, narrando em romeno e explicando em inglês para meu benefício. Grandes toras recentemente cortadas foram empilhadas atrás de um trailer. “Corte horas atrás”, acrescentou. Do outro lado da clareira, encontramos uma estação onde aquelas toras estavam sendo cortadas em cordões para lenha. Na entrada da floresta, uma grande placa anunciava a operação. Assim como o banco de dados havia indicado, ele dizia RARITURI e INGKA INVESTMENTS. Em nenhum lugar vimos troncos ou mudas de aparência doente; colocando em prática um pouco da sabedoria da escola primária, contei anéis que colocam as árvores em algum lugar na faixa de 80 a 100 anos. Também estavam ausentes os madeireiros que tínhamos visto no drone e que esperávamos encontrar.

Então ouvi um motor vindo não da direção da floresta, mas da estrada atrás de nós. Um SUV prateado parou na clareira e Barbu foi falar com o motorista. O homem alegou não estar associado à operação madeireira, disse-me Barbu. Mas, preocupantemente, ele também se recusou a mover seu carro quando Barbu apontou que ele estava obstruindo o único caminho do local de extração de madeira para a estrada. A partir daí, fomos bloqueados.

Alguns minutos depois, um trator vermelho emergiu da floresta, arrastando três grandes toras. “Você está pronto para isso?” Barbu me perguntou. Seguimos o madeireiro a pé até a pilha, onde ele desligou o motor, saiu da cabine e começou a soltar as novas toras. Câmera rodando, Barbu apontou para a licença, a estação de corte de lenha e as toras que tinham acabado de ser derrubadas. O madeireiro gritou de volta. O aldeão saiu de seu Toyota e veio filmar a conversa também. Procurei uma pedra para pegar no caso de as coisas mudarem. Mas os números estavam do nosso lado – o resto da equipe madeireira permaneceu na floresta – e a conversa nunca ficou violenta. Depois de alguns minutos, o madeireiro voltou para o trator e saiu. Nós também voltamos para o carro.

“Ele estava tentando me dizer que mesmo para desbaste, você ainda pode cortar árvores grandes e saudáveis ​​acidentalmente”, Barbu contou para mim. “E eu disse: ‘Olha, mas isso é uma grande pilha de acidentes.’ Ele disse: ‘Sim, bem, isso é permitido. E se você precisar de mais respostas, vá para o escritório da administração.’” “O que é justo,” Andrei acrescentou, “porque ele só corta o que está marcado.” O escritório de administração, é claro, é o escritório regional de Ingka.


No meu último dia na Romênia, parei na loja da Ikea em Bucareste, curioso para saber se haveria alguma indicação do investimento da empresa no meio ambiente local, qualquer demonstração de seus compromissos de sustentabilidade em um país onde eles pudessem realmente ser visíveis. Armado com o aplicativo de tradução do Google, eu andei pelo chão do showroom, encontrando conjuntos de jantar de madeira de faia, aglomerado de abeto e muito mais, mas nenhuma menção à herança da cidade natal dos móveis. No saguão, uma tela dizia: USAMOS MADEIRA COM RESPONSABILIDADE. Saí de mãos vazias, sem intenção de voltar.

A Ikea dificulta o rastreamento da proveniência de seus móveis. Muitas vezes, uma caixa da Ikea reivindica um país de origem que indica apenas o último elo da cadeia de fabricação: MADE IN VIETNAM, por exemplo. Às vezes, dirá ainda menos: FEITO NA UNIÃO EUROPEIA. Internamente, porém, a empresa acompanha de perto os pontos de origem. Uma sequência de números na caixa, inescrutável para o leigo, pode indicar um determinado fabricante ou contrato dentro de um país. Esses códigos permanecem ferozmente guardados e são frequentemente alterados, mas no decorrer da minha reportagem, fui avisado com a cifra da Plimob, o fabricante da Ikea na Romênia que foi recentemente exposto por usar madeira extraída ilegalmente em várias lojas de baixo custo da Ikea , cadeiras emblemáticas. Resolvi voltar ao Ikea mais uma vez, desta vez em Nova York,

A área de carga do armazém do Brooklyn estava escassa quando cheguei lá. Particularmente para itens populares e de baixo preço, o estoque geralmente é difícil de encontrar nesta loja, que atende grande parte da cidade de Nova York. Era final de novembro, e os emaranhados da crise da cadeia de suprimentos ainda eram evidentes nas prateleiras vazias.

Ainda assim, encontrei móveis feitos na Bulgária e na Polônia e, finalmente, na Romênia. Em uma pilha de cadeiras verdes Rönninge, uma das marcas mais sofisticadas, vi o código Plimob. A cadeira custou R$ 484,50.


Este artigo foi publicado na 
edição impressa de março de 2022 com o título “Crime e Silvicultura”.

compass

Este texto foi escrito inicialmente em inglês e publicado pela revista The New Republic  [Aqui!].

É urgente a necessidade de plano preventivo para evitar deslizamentos, enchentes e tragédias naturais, afirma especialista

As regiões Sul e Sudeste do Brasil concentram as maiores áreas de maior suscetibilidade a deslizamentos, por serem regiões serranas ou planálticas edificadas em terrenos geológicos de grande mobilidade e fragilidade crustal. É o que afirma o especialista em infraestrutura e logística, Paulo César Alves Rocha, com mais de 50 anos de experiência. Para ele, sem um plano preventivo, o Brasil seguirá assistindo enchentes, deslizamentos, entre outros trágicos episódios. 

excavator in action

 

O recente episódio dos deslizamentos provocados pela forte chuva em Petrópolis-RJ ascendeu o debate sobre as ações dos Governos Federal e estaduais para prevenir tragédias naturais. O especialista em engenharia de infraestrutura e logística, Paulo César Alves Rocha, explica que o período de chuvas no Brasil é cíclico e que é totalmente possível a elaboração de um planejamento preventivo para desastres naturais.

“As chuvas mais intensas existem em ciclos de anos. Usualmente temos chuvas de cinco em cinco anos, vinte em vinte e assim por diante. Com as mudanças climáticas que estamos vivendo, estes ciclos estão se tornando cada vez mais curtos. Estamos convivendo com chuvas que chegam a 200mm por dia em certos locais, o que é um número que por vezes se aproxima do esperado para um mês”, explica Paulo César Alves Rocha.

O especialista afirma que as chuvas estão mais intensas devido a fatores climáticos, como o aquecimento do Oceano Pacífico, conhecido como La Niña ou do Oceano Atlântico conhecido por El Niño. Também pondera que o desmatamento da Floresta Amazônica está retirando um “freio natural” às correntes que vem o Oceano Atlântico, batem na Cordilheira dos Andes e retornam ao Brasil pelos chamados “rios voadores”.

“A derrubada quase que total da Mata Atlântica e os danos causados ao Cerrado e ao Pantanal também contribuem para acelerar os ventos e chuvas. Assim as chuvas mais intensas podem ser consideradas normais pelos ciclos de anos, mas estão turbinadas por outros fatores. A prevenção dos danos causadas por elas, servem tanto para as chuvas anormais dos ciclos de anos quanto para as chuvas de todo ano. É preciso elaborar planos preventivos urgentemente”, afirma.

Com relação as etapas para elaboração de um planejamento preventivo, Paulo César Alves Rocha destaca os seguintes pontos: “Planejamento do uso do solo, tanto nas áreas agrícolas quanto nas urbanas. Nas áreas agrícolas além de se evitar o desmatamento, se este for absolutamente necessário, proteger as nascentes naturais de água, reservar parte da área para ter árvores, deixar vegetação nas margens de rios e córregos, efetuar as plantações ao longo das linhas de nível do solo, nunca efetuar plantações na linha perpendicular às encostas que causam erosão ou voçorocas, utilizar no pasto de gado plantas que guardem água de chuvas e protejam o solo de erosões, evitar quaisquer tipos de queimadas, utilizar a parte vegetal não colhida para proteger o solo”.

Planejamento Urbano

É preciso atenção permanente às áreas de encostas e às dinâmicas urbanas. O especialista defende que: “nas áreas urbanas nunca construir em margens de rios e canais, em áreas sujeitas a alagamentos anuais, em encostas ou perto delas. Ter sempre em mente que a retirada de árvores e o tipo de vegetação, assim como a urbanização, causam a perda da impermeabilidade do solo, fazendo com que este absorva menos aguas das chuvas e consequentemente escorram mais a procura de canalizações, canais e rios”.

Rocha defende que seja realizada uma ampla análise de riscos pelo Governo Federal dividindo o país por grandes bacias hidrográficas e subdividindo-as até os rios menores. Também promover campanhas educativas e ações efetivas para a que o lixo e demais detritos sejam reciclados ou depositados em locais corretos evitando-se assim que obstruam redes de canalizações, canais e rios.

“Ampliar esta análise para as tubulações que atravessam estradas, para rios e canais das áreas urbanas, para todas as pontes com a finalidade de verificar se o vão útil embaixo delas comporta a vazão máxima dos rios na época das maiores chuvas. Realizar uma ampla investigação dos níveis de assoreamento das redes de canalizações, canais, pequenos rios, grandes rios e represas, com a finalidade de averiguar a situação real da vazão ou capacidade de armazenamento de água”, explica.

O serviço de limpeza e conservação urbana também pode ajudar. “É preciso verificar com base na análise de riscos, o dimensionamento das redes de águas e calha real dos canais e rios. Corrigir ou planejar a correção dos casos de subdimensionamento. É preciso efetuar a limpeza periódica de redes de águas servidas/pluviais e canais e rios. Também executar obras, com base na análise de riscos, que mitiguem as inundações de áreas em que se torne inviável a remoção de construções”.

*Paulo César Alves Rocha é especialista em infraestrutura, logística e comércio exterior com mais de 50 anos de experiência em infraestrutura, transportes, logística, inovação, políticas públicas de habitação, saneamento e comércio exterior brasileiro. Mestre em Economía y Finanzas Internacionales y Comércio Exterior e pós-graduado em Comércio Internacional pela Universidade de Barcelona. É mestre em Engenharia de Transportes (Planejamento Estratégico, Engenharia e Logística) pela COPPE-UFRJ. Pósgraduado em Engenharia de Transportes pela UFRJ e graduado em Engenharia Industrial Mecânica pela Universidade Federal Fluminense. Tem diversos livros editados nas Edições Aduaneiras.

Baixa autonomia financeira da Agência Nacional de Mineração fragiliza fiscalização do setor

mineradora

  • O setor mineral brasileiro teve impacto econômico significativo nas últimas duas décadas
  • Apenas 54% do orçamento da Agência Nacional de Mineração (ANM) foi, de fato, executado
  • Lacunas de orçamento, pessoal e infraestrutura podem afetar o combate aos garimpos ilegais e o monitoramento de barragens de rejeitos

bori conteudo

O rompimento de barragens de rejeitos de mineração nas cidades mineiras de Mariana, em 2015, e Brumadinho, em 2019, e os sucessivos registros de mineração ilegal em áreas da Amazônia nos últimos anos demonstraram a importância da fiscalização dessas atividades. No entanto, pesquisadores da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV/EAESP) e da Universidade Federal de Viçosa (UFV) apontam que o orçamento executado pela Agência Nacional de Mineração (ANM) entre 2003 e 2020 não foi suficiente para o gerenciamento de recursos humanos, físicos e tecnológicos da autarquia no período, fundamentais para que a agência possa desempenhar adequadamente suas funções. O estudo está publicado na “Revista de Administração Pública” (RAP) desde o dia 9 de fevereiro.

Os autores realizaram pesquisa documental e bibliográfica em publicações de órgãos como Tribunal de Contas da União, Controladoria-Geral da União, Ministério de Minas e Energia e a própria AMN com o objetivo de avaliar a execução da política mineral brasileira. A diferença entre o orçamento autorizado e o orçamento de fato executado pela AMN indica lacuna na autonomia financeira da autarquia. Em média, apenas 54% dos recursos aprovados foram executados pela ANM em função do contingenciamento dos recursos definidos pelo Poder Executivo durante o período analisado, que corresponde ao “boom das commodities”.

Houve grande oscilação de orçamento ao longo dos anos por conta da variação anual na arrecadação da Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais (CFEM), repasse governamental que representa a principal fonte de financiamento da autarquia. O orçamento total autorizado é estabelecido pela aprovação da Lei Orçamentária Anual (LOA) e está condicionada ao aumento ou à diminuição dos preços dos minérios no mercado internacional. A ANM também recebe taxas e multas por exploração.

A diminuição contínua das ações de fiscalização a partir de 2008 corresponde à diminuição do orçamento autorizado e do orçamento empenhado pela ANM. A baixa autonomia na gestão orçamentária da autarquia fica evidente na escassez de recursos humanos e materiais. Além de problemas relacionados a acesso à infraestrutura, como veículos e equipamentos, os pesquisadores identificaram, neste período, diminuição de servidores ativos na autarquia, defasagem salarial e parcos incentivos de carreira e condições de trabalho. A dificuldade de reposição de servidores interfere, por exemplo, no tempo de análise dos processos.

O crescimento do valor do minério e das quantidades extraídas tem impacto direto no Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, mas problemas na capacidade administrativa do órgão podem contribuir para a perda de arrecadação pública, riscos de novos desastres ambientais e na ampliação da mineração ilegal. “Acredito que nossa contribuição é evidenciar, ao longo de uma análise de 17 anos, como a ANM – anteriormente DNPM – é amplamente deficitária em termos de recursos técnicos e físicos, bem como politicamente marginal no governo federal. O expressivo crescimento do setor mineral nos últimos 20 anos, definitivamente, não foi acompanhado do fortalecimento do órgão público responsável por regular e fiscalizar a atividade”, afirma Fillipe Euclydes, um dos autores do estudo.

“O trabalho faz um alerta para o Legislativo, Executivo, Poder Judiciário e a sociedade quanto à importância de tornar a ANM mais robusta, com capacidade administrativa. Para tanto, sua autonomia financeira deve ser restabelecida, conforme prevê a lei que a criou. Caso contrário, continuaremos sob o risco de novos desastres como o de Brumadinho e Mariana, da explosão do garimpo ilegal, da perda de arrecadação e dos custos socioambientais com a exploração mineral predatória”, completa Alex Macedo, também autor do estudo.

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Este texto foi inicialmente publicado pela Agência Bori [Aqui!].

Peixes transgênicos vermelhos e verdes brilhantes escaparam de tanques de reprodução em rios brasileiros

Os peixes-zebra não são os únicos peixes ornamentais invasores que brincam nos rios de forma ilegal e indesejada. Se eles se estabelecerem, eles podem perturbar severamente o ecossistema.

Por Stephanie Lahrtz para o Neue Zürcher Zeitung

zebra 1Peixe-zebra transgênico com um gene embutido de criaturas do fundo do mar brilham no aquário

“Starfire Red Danio” e “Electric Green Danio” são apenas uns bons peixes-zebra de dois centímetros, mas você dificilmente pode perdê-los no aquário crepuscular. Eles brilham em vermelho brilhante ou verde brilhante. Quanto mais escuro o ambiente, mais intenso. Porque eles carregam genes de anêmonas do mar, águas-vivas ou corais que foram construídos em laboratório. Esses peixes GM são muito populares – e legais – residentes de aquários em alguns lugares. Mas no sudeste do Brasil, eles escaparam de fazendas de criação em vários lugares e agora estão brincando em vários rios ilegalmente. É o que relatam pesquisadores na revista Studies on Neotropical Fauna and Environment .

De fato, o comércio de peixe-zebra transgênico foi proibido no Brasil desde 2017. Em outros países, incluindo Suíça, Austrália e toda a UE, o comércio e a manutenção de pequenas criaturas coloridas é proibido há muito tempo. Existe o risco de que o peixe possa escapar para a natureza, com efeitos desconhecidos no ecossistema afetado, disse o comunicado.

Projetado para detectar corpos d’água contaminados

Aparentemente, essa preocupação não é compartilhada nos EUA ou em Taiwan, onde os peixinhos coloridos estão disponíveis há quase duas décadas. E tão popular que a empresa texana Glofish, que detém os direitos de patente mundial do peixe neon, agora não apenas oferece peixes-zebra transgênicos em várias cores brilhantes, mas também equipou outros peixes ornamentais, como farpas de Sumatra e tetras longfin com os genes de brilho.

Os peixes GM foram inventados por pesquisadores da Universidade de Cingapura em meados da década de 1990. Foi usado para verificar a qualidade da água. O primeiro peixe-zebra transgênico brilhou em verde quando certos produtos químicos estavam presentes na água. No entanto, este aplicativo não pegou.

Comércio apesar da proibição

No Brasil, os peixes brilhantes são tão populares que, apesar da proibição, milhares deles são mantidos em grandes aquiculturas todos os anos. Houve os primeiros relatos de espécimes individuais escapados já em 2015. Mas para o estudo que agora foi publicado, dados confiáveis ​​foram coletados pela primeira vez.

Para isso, os pesquisadores analisaram de perto uma grande área com 350 pisciculturas e 4.500 tanques de reprodução na Mata Atlântica, no sudeste de Minas Gerais. Os peixes foram coletados em intervalos regulares em rios nas imediações dos tanques de criação, usando redes de malha fina.

Tanto o peixe-zebra GM vermelho brilhante quanto o verde venenoso se contorciam nele de tempos em tempos, mas apenas alguns espécimes cada. Seu conteúdo estomacal mostrou que eles se alimentaram principalmente de insetos aquáticos em vários estágios da vida, mas também de algas e zooplâncton. Aparentemente, os peixes-zebra que escaparam também eram capazes de se reproduzir. Isso foi revelado por exames de seus órgãos sexuais.

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Glowfishes vendidos nos EUA chamados Sunburst Orange, Galactic Purple, Electric Green e Starfire Red (de cima para baixo) Paulo de Oliveira/Imago

No entanto, ainda não está claro se os peixes geneticamente modificados realmente se multiplicam nos rios de forma permanente e se uma população independente se estabeleceu fora dos tanques de reprodução. Uma vez que estes são pescados várias vezes por ano e depois esvaziados no fundo para limpeza, também é provável uma “liberação” não intencional regular. Como os tanques não tinham peneiras nos drenos nem tanques de retenção com peixes predadores para eliminar peixes criados em cativeiro, escrevem os pesquisadores. Isso teria mostrado visitas no local, bem como relatórios dos agricultores.

Aquicultura segura necessária

Essas medidas de segurança devem agora ser instaladas em todos os lugares imediatamente, exigem os cientistas – não apenas por causa de alguns peixes-zebra coloridos que escaparam. Porque nos rios brasileiros nas proximidades das pisciculturas já se encontram mais de 70 espécies de peixes não nativos, em uma das regiões mais ricas em espécies do planeta e, portanto, uma das mais dignas de proteção.

Os efeitos das espécies invasoras de peixes nos respectivos ecossistemas são imprevisíveis. Pode haver competição por comida e áreas de desova, bem como ataques mútuos. Isso agora também está sendo investigado para peixes geneticamente modificados. Numerosos exemplos de muitos países mostram como as espécies invasoras superam as nativas.

Atualmente, é improvável que os genes de luz embutidos do peixe-zebra nos rios do Brasil se espalhem amplamente para outros peixes. Para isso, os peixes geneticamente modificados teriam que encontrar parceiros sexuais adequados para eles, ou seja, outros peixes-zebra. Mas estes não são nativos do Brasil. Os ancestrais dos habitantes do aquário vêm dos rios do Himalaia. No entanto, peixes-zebra escapados e não transgênicos também foram encontrados em rios brasileiros.

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Este texto foi originalmente escrito em alemão e publicado pelo jornal “Neue Zürcher Zeitung” [Aqui!].

O padrão de dupla moral das corporações dos agrotóxicos: produtos proibidos nos países sede são vendidos no Sul Global

Christian_Russau_Rede_Bayer_2019_1200x600Christian Russau, porta-voz da Articulação dos Acionistas Críticos da Alemanha se pronuncia na assembleia anual dos acionistas da Bayer para cobrar coerência entre os discursos e as práticas na produção e venda de agrotóxicos fabricados pela empresa

Ainda que seja inevitável apontar para a responsabilidade do governo Bolsonaro e de sua base aliada na aprovação do Pacote do Veneno, há uma força insidiosa que permanece fora dos holofotes e que tem responsabilidade direta na tentativa de por abaixo um sistema de monitoramento  que, apesar de todas as suas falhas, ainda servia como um elemento que contenção para a entrada de agrotóxicos tão perigosos que foram banidos (alguns há mais de duas décadas) nos países em que as empresas fabricantes têm suas sedes.

Falo aqui do poderoso lobby exercido no congresso nacional e nas estruturas de governo por multinacionais como Bayer/Monsanto, Basf, DowDupont e a ChemChina/Syngenta. É por meio desse lobby que parlamentares ligados ao latifúndio agro-exportador como o deputado Luiz Nishimori (PL/PR) são eleitos para irem participar sem intermediários dos esforços em prol das corporações multinacionais que depois lucram fortunas com a venda de agrotóxicos que estão banidos na Europa, Estados Unidos e China.

Esse padrão de exportar para o Sul Global aquilo que foi proibido nos países-sede já foi documentado pela organização não-governamental suíça Public Eye que publicou em 2019 um relatório sobre os lucros fabulosos auferidos no Brasil pela ChemChina/Syngenta com a venda de produtos altamente perigosos para a saúde humana e para o meio ambiente (ver exemplos de alguns desses agrotóxicos na imagem abaixo).

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A dupla moral da Bayer e da Basf: primeiro envenena, depois vende a cura

Mas não é só a ChemChina/Syngenta que tem a prática de empurrar para o Sul Global agrotóxicos que são sabidamente causadores de doenças graves. As multinacionais alemãs Bayer/Monsanto e Basf também seguem enviando para o Sul Global um conjunto de agrotóxicos que estão banidos na Alemanha. Mas quando pressionados a dar alguma explicação, o que se ouve é que a venda dos produtos dessas empresas está em acordo com as legislações nacionais, omitindo o fato de que atuam para, juntos com os seus extensos laços de lobby, enfraqueceram as legislações nacionais para seguirem vendendo produtos que foram banidos na Alemanha e, na maioria dos casos, em toda a União Europeia.

Um interlocutor deste blog notou ainda que há algo muito cînico com a forma pela qual empresas como a Bayer/Monsanto e a BASF agem, pois, por um lado, vendem venenos agrícolas proibidos por serem causadores de todo tipo de doenças e, por outro, vendem medicamentos que supostamente irão curar os adoecidos por seus agrotóxicos.

Apesar de concordar com a indignação do interlocutor, noto que há ainda algo mais contraditório no comportamento dessas gigantes do setor químico que é o fato de em suas assembleias de acionistas ser repetido à exaustão a cantilena de que estão tomando rumos comprometidos com os desígnios do desenvolvimento sustentável, reforçando que há compromisso com a adoção de modelos agrícolas que produzam alimentos saudáveis.  

A verdade é que não algo tão distante da verdade quanto os discursos de governança corporativa e ambiental dessas empresas. Felizmente, ao menos no caso da Alemanha há ação da chamada “Articulação dos Acionistas Críticos que vem agindo para expor as contradições entre discurso e prática das multinacionais alemãs no Sul Global, mas especialmente no Brasil.

Mas até para fortalecer ações como as realizadas pelos “Acionistas Críticos”, há que se reforçar as articulações já existentes aqui mesmo no Brasil, a começar pela Campanha Permanente contra os Agrotóxicos e pela Vida cujos esforços permanecem desconhecidos da maioria da população brasileira. Com isso o lobby pró agrotóxicos continua agindo livre, leve e solto.

Expor os lobistas é um caminho para forçar uma mudança de comportamento das corporações

Na minha opinião não existem soluções fáceis para combater o poderoso lobby das grandes fabricantes de venenos agrícolas, pois elas estão muito bem articuladas e escondidas em organizações de lobby como é o caso da CropLife cujo braço brasileira, a CropLife Brasiltem como seu atual presidente, o candidato a vice-presidente do Partido Novo nas eleições presidenciais de 2018, o cientista Christian Lohbauer.

Como essas organizações de lobby agem tanto por detrás das cortinas como em frente delas, um caminho para diminuir a força que elas têm no congresso nacional e em órgãos reguladores, começando pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), um primeiro passo tem que ser justamente falar da existência dessas estruturas de lobby, pois ao expô-las ficará mais difícil pressionar as corporações em seus países-sede, pois lá a sensibilidade à opinião pública é maior.

Por isso tudo é que reafirmo que uma das prioridades programáticas para as eleições gerais de 2022 terá de ser a cobrança pela mudança do padrão dominante de produção agrícola que está condenando o Brasil a se transformar em uma latrina química de substâncias químicas cujo poder de destruição já está fartamente documentado pela comunidade científica internacional.

Associação Profissional dos Geólogos do Estado do RJ se posiciona sobre o desastre em Petrópolis e aponta para responsabilidades

petropolis desastre

A Associação Profissional dos Geólogos do Estado do RJ (APG-RJ) lamenta profundamente as perdas e a dor da população enlutada de Petrópolis.

Mas a realidade é crua. Continuaremos a assistir no Rio de Janeiro à proliferação de desastres geológicos e a sua ampliação em frequência e magnitude em função da conjugação de fatores naturais e antrópicos, em parte discutidas e citadas em todas as notas técnicas de entidades civis e públicas, e em manifestações individuais à mídia. O que cabe então a uma entidade de classe, da área de Geologia do Estado do Rio de Janeiro? A nosso ver cabe a reflexão sobre algumas das questões que envolvem o cenário sombrio e desalentador, e coloca-la em perspectiva para a categoria e para a sociedade civil.

Comecemos pela responsabilidade inerente e óbvia do Estado. Não há como propor mudanças efetivas no enfrentamento aos desastres, no qual os afetados são os/as trabalhadores/as e os desempregados/as, todos/as pobres, tendo como elemento propulsor das mudanças um Estado mínimo, sem capacidade de articulação e sem quadros técnicos de ponta, e que veja nos desastres a possibilidade de fazer novas e muitas obras. Não é culpa só dos administradores e dos políticos, mas sim de todos nós, com destaque para a bolha conveniente no qual se encontram pesquisadores e servidores públicos. Assistimos, em geral, confortável e passivamente, a venda ou a tentativa de entrega do patrimônio estadual – CEDAE – e a degradação completa dos órgãos públicos de Geologia – GEO-Rio e DRM-RJ -, que caminham inexoravelmente para o sucateamento ou para a submissão a uma militarização nociva, via defesas civis municipais e estadual, do conhecimento do meio físico e da gestão de desastres.

Destaca-se também a constatação de que os geólogos lá presentes não integram um Gabinete de Crise (existe?!) e não conseguem nem mesmo “entrar” nos helicópteros para “tocar” as ações pertinentes a sua competência. Ou seja, o que cabe aos geólogos fazer – mapeamento das cicatrizes dos deslizamentos recentes e a comparação com as cartas preditivas preparadas na última década; avaliação da confiabilidade das curvas de correlação chuvas x escorregamentos que subsidiam o acionamento das sirenes de alerta e alarme; preparação das cartas de risco remanescente, obrigatoriamente com controle de campo -, não é feito, e o que poderia ser feito, num modelo gerencial inteligente da emergência – remoção imediata dos escombros; destinação dos resíduos a patamares seguros na antiga subida da serra; impedimento da religação antecipada da rede elétrica nas casas inseridas nos polígonos de risco remanescente; alocação dos recursos emergenciais para pagamento de quartos de hotéis e aluguel de apartamentos vazios hoje à disposição no mercado imobiliário local – nem mesmo é pensado.

Por fim, mas não por último, e nem menos importante, está o papel definido (por outrem) para ser cumprido por aqueles profissionais que não estão envolvidos no atendimento ao desastre e que ficam muito justificadamente impactados pelas cenas transmitidas pela TV. Cada qual deve e pode fazer a sua parte, mas atuar açodadamente pode até confortar, mas não fará frente aos desafios. A única saída é atender à coordenação dos colegas servidores que atuam nos órgãos públicos e cobrar permanentemente por ações que ao menos minimizem as demandas das cidades fluminenses de alto risco. Não é razoável demonstrar solidariedade na emergência e deixa-la dissipar na mesma velocidade com que os helicópteros das TVs vão deixar Petrópolis, tal como deixaram a região depois do Megadesastre´2011 da Serra Fluminense. É legítimo e humano a mobilização para subir a serra? Claro que é, mas a única e efetiva contribuição para minimizar tais situações é a constituição de uma cultura de prevenção de desastres! E isto é uma responsabilidade do Estado!

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Este texto foi inicialmente publicado pela Associação Profissional dos Geólogos do Estado do RJ (APG-RJ) [Aqui!].

Observatório dos Agrotóxicos: com mais 14 liberações, governo Bolsonaro alcança 1.609 agrotóxicos liberados e prova que o céu é o limite

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Com a parceria entre Jair Bolsonaro e Tereza Cristina, a tsunami de liberações de agrotóxicos não tem limites

Apesar da aprovação do Pacote do Veneno pela Câmara de Deputados ainda precisar passar pelo crivo do Senado Federal, o Ministério da Agricultura sob a batuta celere da ministra Tereza Cristina está mostrando que não quer perder tempo. É que nesta 6a. feira (18/02) o Diário Oficial trouxe a publicação do ATO Nº 9, DE 14 DE FEVEREIRO DE 2022 por meio do qual foram liberados mais 14 agrotóxicos, do tipo produto técnico.

Com isso o governo Bolsonaro chegou a um novo total de 1.609 agrotóxicos, o que reflete a disposição de fazer “passar a boiada” dos agrotóxicos a despeito do trâmite do Pacote do Veneno.  A questão que muitos podem se fazer é sobre quais seriam as razões para tanta volúpia em liberar tantos agrotóxicos, já que inexiste a prometida modernização do portfólio de substâncias disponíveis no mercado de venenos agrícolas.

Aliás, há que se ressaltar que nessa nova leva de produtos técnicos aprovados estão incluídos os inseticidas Bifentrina e Diafentiurom e o fungicida Epoxiconazol que estão proibidos na União Europeia por causarem danos ambientais e/ou problemas para a saúde humana. 

Por outro lado, o Ato No. 9 confirma outro aspecto consistente na importação de produtos técnicos para uso na forma de agrotóxicos manipulados que é a forte hegemonia de empresas chinesas que no presente caso produzem 13 dos 14 agrotóxicos aprovados.

Quem desejar acessar a planilha do Ato No. 9, basta clicar [Aqui!], e a planilha contendo a planilha atualizada contendo todos os agrotóxicos liberados a partir de janeiro de 2019, basta clicar [Aqui!].

O aquecimento global já está doendo, adaptar é preciso

A segunda parte do sexto relatório de status do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas está prestes a ser finalizada – trata-se de adaptação às mudanças

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Secas extremas – como as do oeste dos Estados Unidos – estão se tornando mais frequentes mesmo com o aquecimento atual. Foto: AFP/Josh Edelson

Por  Jorg Staude para o Neues Deutschland

Centenas de especialistas do grupo de trabalho dois do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) estão sentados juntos virtualmente há uma semana, pesando sentença por sentença e ainda têm uma semana inteira de debates pela frente.

A cada seis anos, o IPCC apresenta um relatório abrangente resumindo o status da pesquisa sobre mudanças climáticas, nomeando suas consequências e formas de proteger o planeta. A segunda parte do sexto relatório de status do IPCC será publicada em 28 de fevereiro . Os especialistas do grupo de trabalho dois estão atualmente debruçados sobre isso, especialmente sobre a parte mais importante: o resumo para os políticos.

Em sua essência, a proteção climática é sempre sobre duas coisas, conhecidas como mitigação e adaptação . Mitigação – no significado latino original da palavra, significa apaziguar, mitigar ou aliviar algo. Em termos de clima, mitigação significa eliminar as causas das mudanças climáticas. Então, acima de tudo, reduzir as emissões de gases de efeito estufa, inicialmente para zero; e depois voltar a extrair gases de efeito estufa da atmosfera e assim gerar as chamadas emissões negativas.

Mas mesmo que consigamos limitar o aquecimento global a dois graus ou menos, as mudanças climáticas já terão consequências para a vida humana. É aqui que entra em jogo o segundo pilar da proteção climática: a adaptação . O ponto aqui é chegar a um acordo com as mudanças no clima ou se adaptar de tal maneira que os danos à civilização possam ser evitados na medida do possível ou as oportunidades que surgirem possam ser aproveitadas.

A segunda parte do sexto relatório do IPCC, que está em fase final de edição, trata principalmente dessas consequências das mudanças climáticas e das possibilidades de adaptação a elas. Boas notícias não estão em casa.

Conexão homem – clima – natureza

Como nenhum outro antes, o novo relatório mostrará “o quanto o mundo já mudou devido às mudanças climáticas e quais riscos climáticos catastróficos devemos esperar no futuro – dependendo da rapidez e do quanto reduzirmos as emissões de gases de efeito estufa”, disse ele. disse Hans-Otto Pörtner, um dos dois co-presidentes do grupo de trabalho dois, explicou recentemente o que pode ser esperado em uma entrevista coletiva do Consórcio Climático Alemão.

O novo relatório causará sensação, não apenas porque trata de impactos climáticos como calor, seca, precipitação extrema ou novos patógenos. Pörtner caracteriza a nova qualidade desta vez, os cientistas apresentariam as conexões entre humanos, clima e natureza “de uma maneira muito mais próxima e clara” do que antes.

Para o biólogo marinho do Alfred Wegener Institute for Polar and Marine Research, o “pensamento em silo” ainda domina o debate climático. O que ele quer dizer pode ser ilustrado pelas demandas que estão sendo feitas atualmente sobre o uso da terra, por exemplo.

Os operadores de energia eólica querem, com razão, mais espaço – mas também os conservacionistas para salvar a biodiversidade, ou o governo federal, que quer construir 400.000 novas casas todos os anos.

Para Pörtner, no entanto, também é uma espécie de “mentalidade de silo” quando hoje, por exemplo, 70% da terra arável global é usada para a produção de ração animal. “Precisamos de cerca de dez quilos de massa vegetal para produzir um quilo de carne animal”, calcula. Com uma mudança consistente na dieta , a humanidade não só faria algo diretamente para a proteção do clima, porque as emissões de metano e óxido nitroso da pecuária diminuiriam – ao mesmo tempo, muito espaço seria ganho para biodiversidade, espécies e proteção de terras e de curso também para a produção de alimentos que não são obrigados a fazer o desvio através do animal.

Para Pörtner, o armazenamento de dióxido de carbono ainda é visto demais do ponto de vista da tecnologia “silo”. A meta climática da UE – neutralidade climática até 2045 – já inclui uma porcentagem de CO2 que deve ser “embalada” em ecossistemas naturais.

Segundo Pörtner, tal abordagem pressupõe que os ecossistemas também possam gerenciar o armazenamento. “Mas já temos uma atenuação de importantes sistemas de armazenamento de CO2, como a floresta tropical e as florestas boreais”, alerta o biólogo. Esses são sinais de alerta. “Não há mais uma gaveta onde você pode colocar CO2, mas é preciso valorizar e cuidar dessa gaveta”, explica. Quando você sai do »silo«, você reconhece, como diz Pörtner, »dependências compulsivas« e »influências mútuas«. Em outras palavras: as pessoas, o clima e a natureza estão mais intimamente relacionados do que pensávamos – e certamente não agimos de acordo.

Atualmente, não há como nutrir e cuidar deles, reclama Josef Settele, chefe de pesquisa de conservação da natureza do Centro Helmholtz de Pesquisa Ambiental (UFZ) em Halle. As mudanças climáticas provocadas pelo homem estão ameaçando cada vez mais a natureza hoje, alerta ele.

A Settele não se concentra apenas na grande e visível destruição causada por secas, ondas de calor ou incêndios florestais. Mesmo atividades menores que foram atrasadas devido a mudanças de temperatura foram suficientes para desequilibrar a natureza. Como exemplo, ele cita os tempos de voo dos insetos polinizadores, que muitas vezes não coincidem mais com os tempos de floração atrasados ​​das plantas relacionados ao clima. Então os polinizadores voam muito cedo ou muito tarde.

Áreas protegidas ajudam o clima

Settele pede que 30 a 50% dos habitats continentais e dos oceanos do mundo sejam protegidos para impedir o declínio da biodiversidade. Este “não é um número utópico” se você incluir diferentes categorias de proteção . Não se trata apenas de reservas totais, mas também de paisagens culturais protegidas.

O cientista certamente está ciente de que essa demanda é uma afronta para muitos empresários – mas, como sugere Settele, provavelmente não há alternativa. “Quem ignora as conexões entre clima, natureza e a base da vida humana não comemorará nenhum sucesso na proteção do clima”, enfatiza o ecologista. »Qualquer coisa que impeça o declínio da biodiversidade também beneficia a proteção do clima.«

Mesmo em regiões urbanas, proteção climática e adaptação climática ainda são amplamente consideradas separadamente, confirma Daniela Jacob, diretora do Climate Service Center Germany, que coleta e processa os resultados da pesquisa climática para a Alemanha em nome do governo federal. Quando se trata de proteção climática, geralmente trata-se da “cidade de curtas distâncias”, da expansão do transporte público ou de edifícios energeticamente eficientes – e quando se trata de adaptação, trata-se de ondas de calor ou de lidar com chuvas fortes.

Jacob defende que se pense em ambos juntos, por exemplo, a infraestrutura “azul” das cidades, voltada para o equilíbrio hídrico, com a “verde”, voltada para árvores e espaços verdes.

É tudo sobre construção inteligente e verde , diz ela. Nas cidades, é concebível uma rede de espaços verdes e telhados verdes. O sombreamento natural pode enfraquecer o efeito do sol e, ao mesmo tempo, reduzir os requisitos de refrigeração doméstica e a quantidade de energia necessária para fazê-lo. De fato, os efeitos duplos e múltiplos da política climática na combinação de natureza e tecnologia já seriam possíveis hoje. Fachadas que protegem contra o calor também podem gerar eletricidade usando energia fotovoltaica de fachada. Poderia brotar verde sob sistemas de telhados fotovoltaicos.

O mesmo vale para as paisagens. Não apenas a energia eólica, mas também a energia fotovoltaica poderia continuar a abranger áreas agrícolas usadas ou – a última idéia – charnecas renaturalizadas. Um conceito fascinante: A maioria das antigas charnecas na Alemanha são agora usadas como pastagens – como pastagem ou como forragem para o gado. Uma mudança na dieta para menos carne e leite de vaca, como Hans-Otto Pörtner tem em mente, tornaria mais fácil tirar grande parte dos mouros de uso, remolhe –os e recuperá-los como armazenamento natural de CO2. Se os fotovoltaicos fossem adicionados no topo sem prejudicar a proteção da charneca, isso resultaria em um sumidouro de CO2 de técnica natural até então desconhecido.

Eco-puristas podem torcer o nariz aqui. Mas preservar a natureza como a conhecemos atualmente dificilmente será possível de qualquer maneira. »Os organismos são especializados para determinadas características climáticas e janelas de temperatura. Este é um ponto importante para o planejamento futuro das medidas de renaturação«, destaca Pörtner. »Simplesmente supondo que podemos restaurar algo histórico, em alguns casos não será suficiente.«

Especialistas em florestas na Alemanha, por exemplo, estão atualmente intrigados sobre quais árvores são adequadas para as condições climáticas que prevalecerão na Alemanha em 20 a 30 anos. Não se sabe exatamente o quanto o clima regional terá mudado até então, nem quais árvores podem ser adequadas para as novas condições. Para descobrir, seria preciso testar uma variedade de árvores por longos períodos de tempo – tempo que a humanidade e a natureza não têm mais se as mudanças climáticas mantiverem seu ímpeto atual.

A redução de CO2 continua crucial

Em todos os esforços para proteger a natureza e a biodiversidade – os especialistas em clima não deixam dúvidas sobre isso – a proteção climática clássica deve continuar a desempenhar o primeiro papel. Josef Settele: »Só teremos sucesso se reduzirmos massivamente o uso de combustíveis fósseis. Não há maneira de contornar isso. Compensar completamente as emissões não é possível.«

Também para Pörtner, a redução de CO2 é o pré-requisito decisivo para que haja um futuro. Para o especialista do IPCC, a interação de temperaturas alteradas e o orçamento global de CO2 ainda disponível resulta em um prazo apertado no qual uma política climática sensata ainda pode ser buscada e as sociedades podem se tornar resilientes e resistentes às mudanças climáticas. E para ele, a mensagem do próximo capítulo do relatório climático mundial é bastante clara: »A janela de tempo para um mundo resiliente ao clima está se fechando.«

Daniela Jacob também avisa. “Não podemos nos adaptar a tudo, especialmente se ultrapassarmos três graus de aumento da temperatura global. Então teremos até seis graus mais regionalmente – e então acabou.« Então não se trata mais de proteção e adaptação climática, mas sobre a pura sobrevivência da civilização.

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Este texto foi escrito originalmente em alemão e publicado pelo jornal “Neues Deutschland” [Aqui!].