Um breve relato pessoal sobre meu tour em uma sociedade pandêmica

wp-1642255473014

Em visita às Cataratas do Iguaçu, uma multidão aglomerada mas, felizmente, portando máscaras faciais

Após viver praticamente dois anos em um alto grau de isolamento por causa da pandemia da COVID-19, estou, por assim dizer, na estrada desde 21 de dezembro, tendo dirigido cerca de 4.000 km por três estados brasileiros, com direito uma breve visita ao Paraguai. Durante todo esse tempo, usei duas máscaras faciais (uma cirúrgica e outra de pano) e frequentei todo tipo de lugar superlotado. O detalhe é que sai de Campos dos Goytacazes tendo recebido 3 doses de vacinas contra a COVID-19.

Ao longo desse tempo, em que logrei não contrair o vírus visitei locais super lotados, incluindo hotéis, restaurantes e pontos turísticos. Antes, durante e depois de entrar em contato com um alto número de pessoas, higienizei as mãos e tomei banho após ir a locais especialmente lotados de pessoas, incluindo uma ida a Ciudad del Leste, onde inexistia qualquer controle na entrada e saída da fronteira brasileira. Afora isso, usei estratégias de distanciamento naqueles locais em que tive que retirar as máscaras que utilizava. Aliás, neste viagem trouxe um número alto de máscaras de pano e caixas de máscara cirúrgicas para poder trocar sempre a proteção, evitando que tenha de portar unidades que estejam “cansadas”.

Agora que apontei meus cuidados pessoais, quero compartilhar um pouco do que vi em relação às pessoas com quem interagi e os locais em que estive. A primeira coisa que me pareceu importante é que nos três estados que passei (Rio de Janeiro, São Paulo e Paraná), há uma alta disposição das pessoas sobre portar máscaras faciais e utilizar produtos de higienização. Além disso, os trabalhadores com quem tive contato mostraram alto grau de disciplina sobre a necessidade de adotar padrões de segurança pessoal, tendo sido orientado sobre as medidas de higienização na maioria dos locais onde passei.  Nesse sentido, há que se reconhecer que a batalha da comunicação não foi tão perdida como é relatado pela mídia corporativa por “especialistas” convocados pelas grandes emissoras. Para mim, a coisa não está e não foi pior porque a maioria das pessoas já entendeu o risco de se estar contaminado com o coronavírus. Em um país com diferenças sociais colossais como é o caso do Brasil, isto não me parece pouca coisa.

Nomeando os que resistem contra as medidas de prevenção

wp-1642255524972Em um ônibus turístico lotado com pessoas portando máscaras houve quem preferisse ignorar os protocolos de segurança apresentados no início do trajeto

Um detalhe que me parece ser revelador acerca de onde está a resistência para enfrentarmos a pandemia é o comportamento de parte das pessoas, as quais não são em sua maioria os mais pobres. Nos locais que frequentei os que se recusavam a adotar a máscara facial eram sempre aqueles que portavam roupas de grife, com aquele jeitão inconfundível que os membros da classe média possuem.  A resistência ao cuidado coletivo não vem dos mais pobres como se parece acreditar, mas de pessoas que têm toda a condição de entender o impacto de suas ações individualistas, mas optam por não considerar o risco que causam para si e para os outros.

Por outro lado, a partir do que vi, considero que a falta de controle sobre grandes estabelecimentos e os operadores privados de locais públicos é um dos facilitadores da disseminação do coronavírus. É que quanto maior era o tamanho do empreendimento maior era o descontrole, incluindo pontos turísticos que continuavam aglomerando milhares de pessoas em meio ao início da disseminação da variante “ômicron”.  Nesse tipo de empreendimento a ausência quase completa da vigilância sanitária era óbvia, ficando os cuidados por conta “do cliente”.  Com isso, cai por terra qualquer argumento no sentido de que os capitalistas vão cuidar dos seus clientes, pois o que conta mesmo é a garantia do lucro instantâneo.

Duas rápidas observações sobre vacinas e testes

Notei que a maioria das pessoas com quem propositalmente interagi acerca das vacinas apoia a vacinação e estava vacinada.  Isso me mostra que todo o esforço do governo federal, principalmente do presidente Jair Bolsonaro, não logrou convencer uma parcela significativa da população.  Isso também explica porque em um estado que votou maciçamente em Jair Bolsonaro em 2018, o Paraná, não notei qualquer apoio público às manifestações anti vacina do presidente da república. 

Um detalhe é que fui perguntado em incontáveis vezes sobre a eficiência das vacinas e a importância de se completar o esquema vacinal.  Em todos esses casos havia dúvidas sobre a eficiência, mas nada que refletisse a postura negacionista de Jair Bolsonaro.

Além disso, verifiquei “in loco” que as pessoas estão acorrendo aos postos de testagens quando suspeitam que podem ter sido contaminadas pelo coronavírus, fato que explicita o grave equívoco que tem sido a não disponibilização de um amplo processo de testagem no Brasil. Tivéssemos tido testagem em massa, o mais provável é que não o Brasil não haveria alcançado o macabro número de mais de 620 mil mortos pela COVID-19.

Resumo da ópera

É forçoso reconhecer que estamos em meio a mais uma forte onda de contaminações do coronavírus no Brasil, muito em parte pelo alto grau de contágio propiciado pela variante ômicron. Entretanto, considero que a situação poderia ser ainda muito pior se uma parcela significativa da população não tivesse aderido aos parcos protocolos de segurança adotados no país.  

O importante é identificar que a grande parcela de culpa sobre o quadro assumido pela pandemia no Brasil deve recair sobre o presidente da república, um negacionista científico declarado, e de toda a sua equipe de governo que permitiu que ele agisse da forma que agiu e continua agindo. 

Mas não se pode desconhecer daquelas parcelas do capital que estão fortemente associadas ao governo Bolsonaro que se comportam de forma oportunista e irresponsável em meio à essa catástrofe humana que estamos vivenciando por causa da COVID-19.  Um necessário ajuste de contas terá que ser feito com esses segmentos, pois grandes e médios empresários ajudaram conscientemente a agravar a pandemia, apenas para manter seus lucros rolando.

Finalmente, considero que é importante ressaltar que a pandemia causou sim uma forma de aprendizagem sobre a importância do conhecimento científico e do Sistema Único de Saúde (SUS). Esse aprendizado poderá ser útil para a retomada dos direitos que os últimos anos de desmanche do estado brasileiro que foi o resultado mais objetivo do golpe parlamentar de 2016 contra a ex-presidente Dilma Rousseff. 

Antes que me esqueça, estou chegando em casa sem ter contraído o coronavírus. Considero isso o resultado da combinação de meus cuidados pessoais com o fato de ter completado meu esquema vacinal com a terceira dose antes de sair de Campos dos Goytacazes. Somado a isso, o fato de ter desafiado as estatísticas e não ter me contaminado nos locais onde tive de retirar as máscaras de proteção. Por isso tudo, recomendo que todos se vacinem e se mantenham disciplinados no tocante ao uso dos equipamentos de proteção.

Rastreando a próxima pandemia na Amazônia

Na floresta amazônica, cientistas estão procurando outros patógenos que podem se espalhar de animais para humanos

mosquitoOs mosquitos da febre amarela (Aedes aegypti) também podem transmitir o vírus Zika. Foto: dpa/AP/Felipe Dana

Por Norbert Suchanek para o “Neues Deutschland”

Desde o final do ano passado, a variante ômicron do Covid-19 vem se espalhando pelo mundo na velocidade da luz. Também no Brasil, onde as infecções voltaram a subir desde a virada do ano. Mas pesquisadores brasileiros alertaram no ano passado para outro vírus que pode ser transmitido de animais para humanos, o vírus Mayaro. Não é uma questão de saber se, mas quando outra epidemia vai eclodir.

Os virologistas consideram a floresta amazônica em particular, com sua riqueza de espécies, como um gigantesco reservatório de patógenos que podem desencadear zoonoses semelhantes à Covid-19. Desmatamento, invasão de estradas e assentamentos, mineração e garimpo ilegal de ouro, invasão agrícola e construção de barragens estão colocando um número cada vez maior de pessoas em contato com esses patógenos potenciais que circulam não apenas em morcegos, mas também em pássaros, macacos e outros animais vertebrados da região. floresta tropical.

O epidemiologista Felipe Gomes Naveca alertou no ano passado que o vírus Mayaro, ainda pouco estudado, é um candidato promissor para a próxima epidemia grave no Brasil e além. O vice-diretor de Pesquisa do Instituto Fiocruz Amazônia em Manaus e sua equipe na Amazônia estão no rastro de potenciais desencadeadores de pandemia.

O vírus Mayaro, que pertence aos alfavírus, circula na natureza principalmente em vertebrados arbóreos, como macacos, e até agora foi transmitido principalmente pelo mosquito hemagogo (Haemagogus janthinomys) encontrado nas florestas tropicais da América Central, Amazônia e Caribe. Outras espécies animais como roedores, marsupiais, pássaros e até jacarés também podem ser portadores do vírus.

Sabe-se desde 1954 que esse alfavírus pode infectar humanos e desencadear o que é conhecido como a febre Mayaro. Os cientistas descobriram o patógeno no sangue de trabalhadores florestais infectados na província de Mayaro, na ilha caribenha de Trinidad, e o nomearam em sua homenagem. Os doentes sofrem de sintomas semelhantes aos da gripe, como febre, erupções cutâneas, vômitos, diarréia, dor de cabeça, dores musculares e articulares, que podem durar várias semanas, em alguns casos até meses. Como o vírus Chikungunya ,  o Mayaro também pode causar doenças reumáticas.

No Brasil, o primeiro surto de febre Mayaro foi relatado em 1955 no estado do Pará (sudeste da Amazônia). Desde então, também foram registradas infecções pelo Mayaro na Guiana Francesa, Bolívia, Peru, Suriname, Argentina, Colômbia, Venezuela, Tobago e Haiti. Na capital amazônica de Manaus, mais de 30 pessoas adoeceram com o vírus Mayaro em 2011. Estudos recentes indicam que esse alfavírus também está se espalhando para regiões fora da Amazônia, pois já foram encontradas pessoas com o  Mayaro no sangue nos estados do Rio de Janeiro e São Paulo.

Em 2019, um total de 901 infecções em seres humanos causadas pelo Mayaro foram relatadas na América Latina e no Caribe, segundo cientistas da Universidade George Washington e da Organização Pan-Americana da Saúde. As mortes não são conhecidas até o momento. No entanto, como a febre Mayaro é clinicamente indistinguível das doenças da dengue ou chikungunya, os pesquisadores assumem um número desconhecido de casos diagnosticados erroneamente e não relatados.

O vírus Mayaro é considerado particularmente perigoso porque possui uma alta taxa de mutação e notável flexibilidade genética. Isso aumenta a probabilidade de adaptação a novos hospedeiros. Por outro lado, experimentos de laboratório mostraram que outras espécies de mosquitos, em particular o mosquito da febre amarela urbana (Aedes aegypti) e o mosquito tigre asiático (Aedes albopictus) , também podem transmitir o alfavírus da Amazônia. Se isso realmente acontecer, seria um colapso epidêmico. Porque o vírus pode saltar de seu ciclo na floresta tropical para as cidades mesmo fora de sua área de distribuição anterior.

O mosquito da febre amarela, que provavelmente foi introduzido com o tráfico de escravos nos séculos XVI e XVII, hoje é encontrado em todas as cidades do Brasil e já provocou várias epidemias de Dengue, Zika e Chikungunya nas metrópoles do país. O mosquito tigre, originário da Ásia que está circulando no Brasil desde a década de 1980, também pode transmitir esses perigosos patógenos, mas prefere áreas rurais, subúrbios mais arborizados e parques urbanos. Caso o Aedes aegypti e o Aedes albopictus realmente se tornassem portadores do vírus Mayaro, milhões de pessoas estariam ameaçadas, não só no Brasil.

O Aedes aegypti, também conhecido como mosquito tigre egípcio, está agora distribuído mundialmente nos subtrópicos e trópicos e também atingiu o sul da Espanha, Grécia e Turquia. Originalmente restrito ao sul e sudeste da Ásia, o mosquito tigre asiático agora está difundido na África, nos EUA e no sul da Europa.

Até o momento, não há vacina, medicamento ou terapia preventiva para o vírus Mayaro. Evitar picadas de mosquito continua sendo a única prevenção. Em última análise, proteger os biomas brasileiros e frear o desmatamento da floresta amazônica é uma das medidas mais importantes para evitar novas pandemias, afirma a cientista da Fiocruz Alessandra Dales Nava, do Laboratório de Ecologia de Doenças Transmissíveis da Amazônia.

Algumas “boas” notícias, pelo menos para pessoas que já sobreviveram à chikungunya, vêm de um estudo em ratos de laboratório publicado em novembro passado. Os roedores infectados com chikungunya desenvolveram imunidade parcial ao vírus Mayaro. Mas quem quer contrair o chikungunya para ficar imune à febre Mayaro?

color compass

Este texto foi escrito originalmente em alemão e publicado pelo jornal “Neues Deutschland” [Aqui!].

Promessas vazias: Cargill continua fornecendo ração ligada ao desmatamento da Amazônia para fazendas do Reino Unido

A Cargill, que se comprometeu a limpar sua cadeia de suprimentos, vende ração para muitos dos bilhões de frangos que são abatidos anualmente apenas no Reino Unido

cargill soybean

Uma investigação descobriu as ligações da Cargill com a fazenda fornecedora brasileira Fazenda Conquista. Fotografia: Greenpeace Unearthed/Pedro Ladeira

Por Andrew Wasley , Lucy Jordan e Elisângela Mendonça para o “The Guardian”

A Cargill, grande fornecedor de ração animal para o Reino Unido, ainda está comprando soja e milho de uma fazenda ligada ao desmatamento na Amazônia, apesar de ter se comprometido a limpar suas cadeias de suprimentos globais.

A Cargill, uma multinacional agrícola gigante que vende ração para granjas britânicas, compra colheitas de uma fazenda que cultiva soja em terras desmatadas na Amazônia brasileira.

Uma investigação do Bureau of Investigative Journalism, Greenpeace Unearthed, Repórter Brasil e Ecostorm descobriu as ligações da Cargill com a fazenda fornecedora brasileira, Fazenda Conquista.

A fazenda na Amazônia brasileira foi responsável por oito quilômetros quadrados de desmatamento desde 2013, com vários incêndios florestais registrados em 2020. Sua negociação com a Cargill inclui o fornecimento de soja, e a fazenda assinou um acordo para entregar 5.700 toneladas de milho à empresa neste ano. Não se sabe se as culturas em questão foram cultivadas em uma parte recentemente desmatada da fazenda.

As descobertas levantam questões sobre o processo de due diligence da Cargill. A empresa se comprometeu a não comprar soja de terras desmatadas na Amazônia depois de 2008, e no ano passado se comprometeu a agir mais rapidamente para eliminar o “desmatamento impulsionado por commodities”.

Mas a Cargill também tem sido repetidamente associada ao desmatamento . Em 2020, o Bureau e o Unearthed relataram 800 quilômetros quadrados de desmatamento e 12.000 incêndios desde 2015 em terras usadas pelos fornecedores de soja da Cargill no Cerrado , outro bioma protegido no Brasil.

A empresa exporta anualmente milhares de toneladas de soja brasileira para o Reino Unido para uso em ração animal. Os ativistas disseram que as descobertas destacaram os custos ambientais ocultos da carne barata.

“As galinhas de carne são os animais mais intensivamente criados no Reino Unido, com mais de um bilhão de animais abatidos a cada ano”, disse Lindsay Duncan, gerente de campanhas da World Animal Protection UK.

“A crescente demanda por frango barato leva à crescente demanda por soja, causando desmatamento em grande escala e degradação ambiental devastadora, que destrói os habitats naturais de milhões de animais selvagens.”

Cerca de 80% de toda a soja cultivada em todo o mundo é destinada ao gado. O Reino Unido importou cerca de 3,5 milhões de toneladas de grãos de soja em 2019, com cerca de metade disso terminando em ração para frangos.

Cerca de um quarto da soja importada do Reino Unido vem do Brasil, e a grande maioria é comercializada pela Cargill.

A Cargill disse: “Estamos comprometidos em eliminar o desmatamento de nossas cadeias de suprimentos no menor tempo possível e estamos acelerando nossos esforços”. Respondendo às constatações sobre a Fazenda Conquista, o comunicado prosseguiu: “Caso o fogo tenha sido utilizado e tenha impactado a mata nativa ou confirmada alguma irregularidade, tomaremos as medidas cabíveis”.

O estado da terra em questão antes de 2013 é contestado: a administração da Fazenda Conquista disse em comunicado que a fazenda tinha permissão do órgão ambiental local para realizar uma “queima controlada” na terra porque originalmente havia sido desmatada no início dos anos 1980 .

No entanto, imagens de satélite mostram que a floresta estava crescendo desde então, e o programa de monitoramento de desmatamento do Brasil sinalizou a derrubada em 2013 como desmatamento.

A Secretaria Estadual de Meio Ambiente (Sema) confirmou que autorizou uma queima na fazenda em 2012 para limpar o pasto com algum grau de regeneração. Mas a Sema disse que nenhuma licença para desmatamento total dentro da fazenda foi autorizada e admitiu que, embora não houvesse imagens de satélite de alta resolução antes de 2019 para identificar o desmatamento em tempo real, uma análise recente sugeriu que havia desmatamento dentro da propriedade. A Sema disse que iria investigar mais.

Em uma análise independente de imagens de satélite, a ONG Aidenvironment também considerou que a terra foi desmatada. Este ano, a fazenda será incluída na lista negra da Moratória da Soja, um acordo voluntário da indústria que proíbe o comércio de soja em terras amazônicas desmatadas após 2008. O Grupo de Trabalho para a Soja, que supervisiona a moratória, disse ter identificado uma área de desmatamento que tinha sido semeado com soja na última época de plantio.

Um repórter do Bureau visitou a fazenda este ano e viu grãos de soja crescendo na terra.

A destruição da floresta amazônica tem sérias consequências para o clima, com especialistas temendo que o bioma possa cruzar em breve um “ponto de inflexão” no qual começará a mudar de floresta tropical exuberante para uma savana mais seca, liberando grandes quantidades de carbono armazenado na atmosfera.

De acordo com a agência espacial brasileira, o desmatamento na Amazônia aumentou 22% nos 12 meses até julho do ano passado.

As principais empresas de alimentos britânicas adotaram esquemas de certificação de “desmatamento zero” para enfrentar o problema, mas a soja “suja” ligada ao desmatamento continua a entrar nas cadeias de suprimentos.

color compass

Este texto foi inicialmente escrito em inglês e publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui! ].

Cheia do Paraíba do Sul de 2022: por que o dilema “abrir” ou “fechar” comportas é falso?

cheia 2022 1
Cheia de 2022 do Rio Paraíba do Sul expõe situação de completo abandono do sistema de diques e canais no Norte Fluminense
A enorme cheia de 2022 do Rio Paraíba do Sul está levantando um debate até interessante sobre o papel que o sistema de comportas criado pelo antigo DNOS para regular a direção e a intensidade do fluxo da água na Baixada Campista (no tocante a isso sugiro a leitura da obra de Arthur Soffiati “As lagoas do Norte Fluminense: contribuição à história de uma luta” de 2013). É que diante da urgência da situação houve quem sugerisse a abertura das comportas para baixar um pouco o nível do Paraíba do Sul, apenas para se ouvir a palavra de “especialistas” no sentido de que tal ação acabaria causando inundações em determinados bairros.
Eu não vou entrar nesse dilema, pois o acho falso e explico a razão. É que há décadas esse complexo sistema de comportas está em sua maioria relegado ao completo abandono. Por isso, tenho dúvidas sobre se seria possível abrir e fechar as comportas da forma organizada, de modo a contribuir para diminuir o problema, e não aumentá-lo.
Assim, de que vale a visita do governador acidental Cláudio Castro e sua teatral entrada nas águas vazando do Rio Paraíba do Sul para prometer minguados R$ 20 milhões para o Instituto Estadual do Ambiental (Inea) minimizar os impactos do rompimento do dique de São Bento em São João da Barra. Como bem falou a prefeita de São João da Barra, Carla Machado, “são 25 km de malha de canais e diques sem conservação há décadas“, acrescentando que existem outros diques que estão sob risco de romper. O interessante é que estando como prefeita por mais de 3 gestões, a própria Carla Machado não tenha desenvolvido um projeto que garantisse uma gestão mais moderno dessa mesma malha de canais e diques. E olhe que, ao contrário de Campos dos Goytacazes, São João da Barra possui uma secretaria municipal de meio ambiente.

cheia 2022

Cheia de 2022 do Rio Paraíba ameaça a região central da cidade de Campos dos Goytacazes
A questão é que a fatura do abandono do vasto complexo sistema de diques e canais que foram construídos na baixada campista chegou mais claramente na cheia de 2022, mostrando a fragilidade não apenas de áreas rurais frente a eventos meteorológicos extremos, mas também as áreas urbanas de Campos dos Goytacazes e São João da Barra. Assim, se me permitem os prefeitos Wladimir Garotinho e Carla Machado, sugiro que parem de esperar por soluções providenciadas pelo sobrenatural e comecem a investir e demandar investimentos na modernização do sistema de comportas, de forma a permitir que as futuras cheias (e elas virão cada vez mais frequentemente) sejam enfrentadas de forma organizada.
Ah sim, não custa lembrar que um dos primeiros atos do prefeito Wladimir Garotinho foi extinguir a Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Sema), reforçando o que a dissertação do mestre em Políticas Sociais pela Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), André Moraes Barcellos Martins Vasconcellos, já havia diagnosticado de forma precisa, qual seja, o desprezo pela pauta ambiental no plano de governo do jovem alcaide campista. O que se espera, pelo menos eu espero, é que diante da gravidade do cenário, Wladimir reveja sua postura equivocada e recrie a Sema, e com o orçamento necessário para que se proceda a um amplo diagnóstico dos problemas existentes no sistema de diques e canais do município. Mas se desprezar essa humilde sugestão, que depois não vai adiantar pedir pela intervenção divina.

A França e seu padrão duplo no uso de agrotóxicos: o caso do Clordecona nas Antilhas Francesas

A França finalmente reconhece o risco de câncer como uma doença ocupacional entre os trabalhadores das plantações nas Antilhas

clordecona 1Em muitas regiões do mundo, agrotóxicos altamente tóxicos ainda são pulverizados do ar. Foto: Alamy Stock Photo

Por Ralf Klingsieck, Paris para o Neues Deutschland

No departamento ultramarino francês de Guadalupe, a pequena reportagem foi celebrada como uma grande vitória de palco na mídia: no diário oficial “Journal officiel”, por decreto, câncer de pessoas que trabalharam durante anos nas plantações de banana e entraram em contato com o agrotóxico altamente tóxico Clordecona foi finalmente reconhecido como uma doença ocupacional. O Ministério da Agricultura ainda não anunciou qual é o valor das compensações e quantas pessoas têm direito a elas.

A Clordecona foi amplamente utilizada como inseticida nos territórios ultramarinos franceses das Antilhas entre 1972 e 1993 . De acordo com o presente decreto, no entanto, apenas os trabalhadores agrícolas que trabalharam nas plantações de banana por pelo menos dez anos e que tenham passado pelo menos 40 anos entre o último contato com o inseticida e o diagnóstico de câncer de próstata têm direito ao reconhecimento e à pensão . Para as associações de vítimas que estão litigando no estado desde 2006 por causa de “riscos à saúde com risco de vida”, este é apenas um sucesso inicial. Eles continuarão lutando até que as condições restritivas sejam relaxadas e o círculo de vítimas que podem reivindicar reparação financeira seja muito mais amplo.

O  “Atlas dos Agrotóxicos de 2022” apresentado em Berlim ontem (12/01) mostra que a quantidade de agrotóxicos usados ​​em todo o mundo aumentou 80% desde 1990, em algumas regiões como a América do Sul em quase 150%. O atlas foi publicado pela Federação para o Meio Ambiente e Conservação da Natureza, a Fundação Heinrich Böll e a Pesticide Action Network (PAN Alemanha). De acordo com isso, o uso de cerca de 350.000 toneladas na UE ainda está em um nível alto. Na Alemanha, as maçãs são pulverizadas cerca de 30 vezes por estação, as vinhas até 17 vezes e as batatas até 11 vezes.

A Clordecona é um desregulador endócrino, ou seja, um produto químico que pode interromper o modo bioquímico natural de ação dos hormônios e, assim, causar efeitos nocivos – por exemplo, a interrupção do crescimento e desenvolvimento. O agrotóxico, cuja natureza questionável era conhecida desde a década de 1960, foi colocado na lista de substâncias potencialmente cancerígenas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) da ONU em 1979.

Nas regiões das Antilhas Francesas de Guadalupe e Martinica, o número de casos de câncer de próstata per capita é o mais alto do mundo. Embora a Clordecona não tenha sido usada na França continental desde 1990, durou até ser proibida nas áreas das Antilhas Francesas até 1993, pois os proprietários das plantações obtiveram uma autorização especial. Os trabalhadores agrícolas preocupados foram acalmados pelas autoridades de saúde locais. Os riscos para a saúde só foram revelados anos depois por meio de pesquisas de associações ambientalistas e grupos de cidadãos. Cientistas a quem pediram ajuda descobriram que mais de 90% da população das Antilhas é afetada, o que pode ser atribuído ao fato de que o uso de clordecona não se limitou às plantações de banana. As áreas de cultivo de frutas e hortaliças provavelmente serão poluídas por séculos pelo envenenamento das águas subterrâneas.

As mentiras oficiais na questão da Clordecona levaram a uma profunda desconfiança das instituições estatais, especialmente em Guadalupe. Este é um terreno fértil para notícias falsas e teorias da conspiração espalhadas na Internet. Portanto, não é de surpreender que, na atual pandemia de corona , a taxa de vacinação seja a mais baixa de todos os departamentos franceses . Isso é perigoso para a saúde da população e arriscado para os hospitais, onde as unidades de terapia intensiva não têm capacidade suficiente.

Um conflito aberto surgiu quando o governo de Paris impôs exigências de vacinação para todos os profissionais de saúde meses atrás. Enquanto na França continental apenas algumas centenas dos mais de 200.000 médicos e enfermeiros se opuseram à vacinação, em Guadalupe o mesmo se aplica à maioria dos funcionários. Eles lutam há semanas com ações às vezes violentas para garantir que a vacinação obrigatória para as Antilhas seja suspensa. As sedes sindicais de Paris estão extremamente envergonhadas que os sindicatos locais estejam liderando essa luta.

Enquanto isso, as ações aumentam. Depois que os hospitais foram ocupados e bloqueados por dias, o departamento de saúde de Guadalupe foi sitiado na semana passada e seu conselho de administração foi sequestrado como refém e só liberado depois do expediente. As ações atingiram seu pico por enquanto no início desta semana, quando um membro do parlamento foi agredido do lado de fora de sua casa por manifestantes com os quais ele queria discutir. Ele havia votado anteriormente na Assembleia Nacional de Paris pelo certificado de vacinação, que será condição para acesso a instituições gastronômicas ou culturais ou viagens a partir de meados de janeiro.

color compass

Este texto foi escrito originalmente em alemão e publicado pelo jornal “Neues Deutschland” [Aqui!].

Em um país em que governantes desprezam a ciência, o custo sempre será alto

morro da forca
Deslizamento de terra, previsto em estudo de 2016, destruiu hoje prédios históricos no centro da cidade de Ouro Petro (MG)
A persistência das chuvas e o inevitável impacto que elas trazem sobre a estabilidade geológica está trazendo uma série de prejuízos para muitas cidades em Minas Gerais, incluindo as históricas. O último acontecimento que está dando o que falar foi o deslizamento de terras no Morro da Forca na manhã desta quinta-feira (13), em Ouro Preto/MG, cujo resultado foi a completa destruição de casarões no centro histórico da cidade (ver vídeo abaixo).

Para que se tenha ideia da perda que ocorreu hoje em Ouro Preto é só notar que um dos prédios destruídos, o Solar Baeta Neves, era a primeira construção de estilo neocolonial do município. Mas o que a maioria das pessoas que está assistindo chocada à destruição do patrimônio histórico em Ouro Preto é que um estudo de 2016, realizado por pesquisadores da Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais (CPRM), vinculada ao Serviço Geológico Brasileiro, já havia previsto o “alto risco de movimento de massa” no local que desmoronou no dia de hoje (ver imagem abaixo).

wp-1642101129377
Este estudo, segundo me foi informado, foi entregue às autoridades locais que, obviamente, optaram por desprezar o prognóstico científico que cerca de 6 anos depois se provou muito preciso. Esse desprezo pela ciência custou um valor incalculável para não apenas para os proprietários dos imóveis destruídos pelo deslizamento de terras, mas principalmente para o patrimônio arquitetônico nacional.
Mas está mais do que claro que a rejeição ao conhecimento científico não está restrito aos governantes de Ouro Preto, mas é a regra entre a maioria dos mandatários brasileiros, e em todas as esferas de governo. Assistindo de longe as cenas de destruição que estão ocorrendo no Norte Fluminense, principalmente em Campos dos Goytacazes e São João da Barra, fica óbvio que estamos diante de governantes que não levam em conta o conhecimento científico existente, seja para responder aos problemas imediatos, seja para preparar seus municípios para o “novo normal” climático que será a ocorrência de eventos meteorológicos extremos em curtos períodos de tempo. Essa postura é quase que uma garantia de que continuaremos expostos à repetição de eventos trágicos, seja em termos de perdas materiais ou de vidas humanas.
A questão da persistência de padrões ultrapassados de governança só será alterada se houver uma clara tomada de posição da população para exigir que a ciência seja internalizada na gestão pública. Também caberá aos cientistas saírem de sua posição majoritariamente passiva frente ao que ocorre na sociedade em que vivem para que o seu conhecimento seja colocado adiante de formas arcaicas de governo que tendem a privilegiar o patrimonialismo e, não raramente, os interesses privados de quem ocupa as cadeiras de poder.

Estudo aponta que Coronavac neutraliza a ômicron

omicron coronavac

Um trabalho publicado na última segunda (10) na plataforma de preprints Research Square mostrou que pessoas que completaram o esquema vacinal de duas doses com CoronaVac, vacina do Butantan e da Sinovac, e depois foram infectados pela variante delta do vírus SARS-CoV-2 estão protegidas contra a cepa ômicron – o que não acontece com quem teve a doença mas não tomou a vacina. Pesquisadores da Universidade Médica Hebei, em Shijiazhuang, e do Beijing Instituto de Microbiologia e Epidemiologia, ambos da China, descobriram que, nessas condições, a efetividade de neutralização da vacina é 14 vezes maior na comparação com quem não recebeu a imunização.

Os cientistas avaliaram a atividade neutralizante de soros coletados de dois grupos de pacientes previamente infectados pela variante delta: o primeiro grupo, de 18 a 77 anos, havia sido vacinado com duas doses da CoronaVac, e o segundo grupo, de nove a 17 anos, não havia sido vacinado. Todos foram infectados durante um surto da delta entre outubro e novembro de 2021 na cidade de Shijiazhuang. Todas as amostras analisadas na pesquisa foram coletadas entre 47 e 53 dias após o aparecimento dos primeiros sintomas. As avaliações foram feitas em relação à cepa original de Wuhan e às variantes beta, delta e ômicron.

“Descobrimos que os níveis de anticorpos contra a cepa original de Wuhan e contra a variante ômicron no grupo vacinado foi significativamente maior do que o observado no grupo não imunizado”, apontaram os pesquisadores. “É importante ressaltar que, após a vacinação, os pacientes com a infecção delta induziram efetivamente um aumento substancial na neutralização do soro contra o vírus de Wuhan e a variante ômicron.”

No grupo vacinado com CoronaVac, formado por 31 convalescentes, foi observado que a infecção com delta após a vacinação aumentou a resposta de anticorpos contra a cepa de Wuhan para 3.942 (títulos), sete vezes mais do que o observado no grupo não-imunizado. Já a resposta de anticorpos contra a variante delta foi de 1.160 (títulos). Com relação à ômicron, a efetividade de neutralização foi avaliada em 269 títulos de neutralização, ou seja, 14 vezes maior do que o resultado do grupo convalescente não-vacinado.

O grupo não vacinado, que serviu de base de comparação, era formado por 28 convalescentes, sendo 26 deles jovens com idades entre nove e 17 anos. Ao realizar o ensaio de neutralização do soro deste grupo, os pesquisadores verificaram um grau de neutralização contra a cepa de Wuhan muito menor do que o do grupo vacinado (média de 563 títulos de neutralização) e praticamente igual em relação à variante delta (1.245 títulos), que havia causado a infecção e contra a qual haviam ganhado imunidade. No entanto, a atividade neutralizante contra a variante beta mostrou-se bem menor (38,5 títulos) e apenas seis amostras de soro exibiram atividade neutralizante detectável contra a ômicron, com média de 19,2 títulos de neutralização.

De acordo com os pesquisadores, a neutralização aprimorada para variantes entre os vacinados com CoronaVac pode ser devido à ampla e potente atividade neutralizante de anticorpos produzidos pelas células B de memória. “Nossos dados sugerem que a infecção por delta após a vacinação pode gerar uma forte resposta de anticorpos para indivíduos previamente vacinados, não apenas ao considerar os níveis de anticorpos, mas também ao examinar os resultados da atividade neutralizante para as variantes”, apontaram os pesquisadores.

Os ensaios foram realizados com pseudovírus da cepa original de Wuhan e das variantes beta, delta e ômicron. Pseudovírus são elementos que podem ser produzidos naturalmente durante uma infecção ou artificialmente em laboratório. Comparado a um vírus vivo, um pseudovírus contém fragmentos de DNA da célula humana infectada pelo SARS-CoV-2 sem conter componentes genéticos do vírus, o que torna sua manipulação muito mais segura.

Coalizão Brasil adverte que desmonte do monitoramento do Cerrado atenta contra biodiversidade e produção agrícola

Desmatamento-no-CerradoFalta de verba ameaça monitoramento contra desmatamento no Cerrado

Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura, movimento multissetorial composto por mais de 300 empresas, organizações da sociedade civil, setor financeiro e academia, vê com preocupação o anúncio da descontinuidade do monitoramento do Cerrado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). O bioma, que ocupa aproximadamente 24% do território do país, abrange nascentes da maior parte das bacias hidrográficas cruciais para o abastecimento de água e energia do Brasil. É, também, o celeiro da produção agropecuária, abrigando o cultivo de commodities, como soja, milho e algodão.

Além de sua importância econômica, cabe destacar que o Cerrado é reconhecido como a savana mais rica do mundo em biodiversidade e encontra-se em franco processo de degradação. No último dia 31 de dezembro, o Inpe divulgou que o bioma perdeu 8.531,4 km² de vegetação nativa em um ano, entre agosto de 2020 e julho de 2021. Trata-se de um aumento de 7,9% em relação ao índice constatado nos 12 meses anteriores.

É, portanto, momento de investir em monitoramento e pesquisa, e não desmobilizar equipes e recursos. O possível “apagão de dados” sobre o desmatamento do Cerrado é um reflexo do sucateamento do Inpe, cujo orçamento em 2021 foi de R$ 75,8 milhões, uma redução de 85% ante o recebido em 2010 (R$ 487,6 milhões).

Há verbas para manutenção do monitoramento do Cerrado somente até abril. O país, portanto, entra em contagem regressiva para garantir a sobrevivência do trabalho do Inpe, cujos dados são necessários para a vitalidade da fiscalização ambiental, do agronegócio e de estudos científicos.

Vale destacar que o gasto com o sustento do projeto ameaçado é irrisório. O monitoramento do Cerrado custa apenas R$ 2,5 milhões por ano. Para se ter uma noção, a multa por desmate ilegal de 1 hectare vale R$ 1.500. Ou seja, as infrações relacionadas à devastação de 1.700 hectares já pagam todo o sistema.

Ao assinar um acordo florestal durante a Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP 26), há exatos 70 dias, ao lado de 140 países, o Brasil assumiu o compromisso, perante sua população e a comunidade internacional, de proteger ecossistemas críticos como o Cerrado. Diversos países, como os Estados Unidos, além da União Europeia, já indicaram que o cuidado socioambiental é um tema central para a agenda diplomática e as transações comerciais. O Brasil, ao não cumprir os seus deveres, opta pelo isolacionismo e pelo atraso. Tampouco conseguirá controlar a narrativa. Outras iniciativas, envolvendo governos e a sociedade civil, podem assumir por conta própria o monitoramento de biomas.

As ações serão sempre mais fortes que as palavras. Portanto, mais uma vez a reputação do país está em jogo, ao demonstrar incoerência e desalinhamento entre os compromissos que assumiu — tanto para o enfrentamento da crise climática quanto para a perda de biodiversidade — e as ações que implementa — sejam elas ligadas a pesquisa, monitoramento e inteligência, que deveriam promover boas políticas públicas.

Coalizão Brasil solicita que o governo federal assegure os recursos necessários para a continuidade do programa de monitoramento do Cerrado e de todos os biomas brasileiros. É uma questão de legalidade, transparência e credibilidade.

Moradores do Distrito de Macacos convivem com tensão causada pela instabilidade das estruturas de contenção da mina Mar Azul

Mar Azul 1

Mina Mar, operada pela mineradora Vale em Nova Lima (MG), onde barragem de rejeitos vive situação de forte instabilidade desde 2019

Venho acompanhando desde meados de 2019 os problemas causados pela instabilidade do sistema de barragens da mina Mar Azul que a mineradora Vale opera em Nova Lima (MG). Uma área especialmente afetada pelos problemas de instabilidade das barragens da Mar Azul é o distrito de Macacos que fica em distância relativamente pequena das estruturas.  Como mostrado recentemente a situação teve uma piora com a construção de um muro de contenção que evitaria a movimentação da mancha de rejeitos que poderá escapar em caso de rompimento da barragem da Mar Azul. No entanto, na manhã desta 3a. feira, o rompimento de um talude da mina lançou grande quantidade de rejeitos em um dos corpos hídricos da região de Macacos (ver vídeo abaixo).

Pois bem, hoje recebi uma imagem do que seria uma deslizamento de terra na área lateral da barragem B3/B4 que estaria no nível 3 (aquele em que há risco imediato de rompimento da estrutura) (ver imagem abaixo).

b3b4

A mineradora Vale já agiu rapidamente para colocar panos quentes na situação e lançou um informe em que procura minimizar o risco de que as estruturas de retenção dos rejeitos da Mar Azul estejam prestes a colapsar (ver imagem abaixo),

nota vale macacos

Mas em que pese os desmentidos da Vale, a situação causa forte preocupação não apenas entre os moradores do Distrito de Macacos, mas também nos habitantes dos municípios que ficam à jusante da Mar Azul.  O fato é que a situação de risco na Mar Azul também está ocorrendo em outros municípios de Minas Gerais que convivem neste momento com a possibilidade de que outros incidentes de alto teor destrutivo como os de Brumadinho e Mariana se repitam em escala ainda maior. De toda forma, os próximos dias serão de alta tensão no Distrito de Macacos.

Analistas-Tributários aprovam AGNU permanente, entrega de cargos/funções e Operações-Padrão nacional

Receita1

Analistas-Tributários da Receita Federal do Brasil (RFB), reunidos em Assembleia Geral Nacional Unificada (AGNU) ocorrida dos dias 3 a 7 de janeiro, aprovaram os indicativos de mobilização encaminhados pela Diretoria Executiva Nacional (DEN) do Sindireceita. Em conformidade com os indicativos, a categoria deliberou pelo estado permanente de AGNU; pela realização de Operações-Padrão nas áreas de tributos internos, gestão corporativa e aduana; pela entrega de cargos em comissão, funções de confiança ou encargos; e pela não participação dos servidores do cargo em treinamentos, convocações e metas. Veja aqui o relatório com os resultados das votações da AGNU [Aqui!].  . 

A partir desta terça-feira, dia 11, os Analistas-Tributários encontram-se em regime permanente de AGNU. A medida, aprovada por 93% dos participantes da assembleia, se justifica pela eventual necessidade de convocação de AGNU imediata, face à gravidade do caso do descumprimento, pelo Poder Executivo, do Termo de Acordo nº 03/2016.

Além desta iniciativa, os ATRFBs também aprovaram os indicativos que preveem a realização de Operações-Padrão nas atividades de fiscalização e controle aduaneiro nos portos, aeroportos e pontos de fronteira (aprovado por 87% dos votos), bem como nas atividades relacionadas às áreas de tributos internos e processos (aprovado por 89% dos votos). Durante a AGNU, os Analistas-Tributários também deliberaram pela suspensão da participação dos servidores do cargo em treinamentos, viagens e no incremento de metas (aprovado por 85% dos votos).

Cabe frisar que as Operações-Padrão não serão aplicadas no controle de bagagens. Além disso, a medida também não será adotada nas atividades de fiscalização e controle aduaneiro relacionadas a medicamentos e insumos médicos e hospitalares, cargas vivas e perecíveis.

Outro indicativo aprovado pela categoria durante a AGNU trata da entrega ostensiva de todos os cargos em comissão, funções de chefia e encargos em todos os níveis hierárquicos na Receita Federal (aprovado por 83% dos votos). Os Analistas-Tributários que aderirem a esta medida devem entrar em contato com os representantes locais de suas respectivas Delegacia Sindicais (DS), que fornecerão instruções sobre os procedimentos a serem adotados para o pedido de exoneração ou de dispensa. Por sua vez, os representantes locais encaminharão à DEN a relação de Analistas-Tributários demissionários para fins de tabulação nacional e acompanhamento.

Conforme deliberado na AGNU, os ATRFBs também assumiram o compromisso de não ocupar nenhum desses cargos em comissão, funções de confiança ou encargos, em decorrência dos pedidos de desligamento durante esta mobilização, até que seja publicado o decreto de regulamentação do Bônus de Eficiência e Produtividade.

Além das medidas acima destacadas, que estão detalhadas no documento disponível na Área Restrita, os colegas Analistas-Tributários também podem encaminhar à DEN suas sugestões de atualização das orientações. As propostas devem ser enviadas para o e-mail atribuicoes@sindireceita.org.br.

A Diretoria Executiva Nacional do Sindireceita agradece pela participação e engajamento da categoria durante a AGNU. Reiteramos o nosso compromisso histórico de luta em defesa dos diretos dos ATRFBs, do fortalecimento da Receita Federal e do respeito ao serviço público brasileiro. A nossa luta é pela construção de um país justo e de uma sociedade próspera. Unidos, venceremos mais este desafio e construiremos um novo e vitorioso capítulo em nossa história.

Vamos à luta!

Diretoria Executiva Nacional (DEN)

Sindireceita