Em situação inédita, cientistas renunciam coletivamente à honraria concedida por Jair Bolsonaro

ordem do mérito

Em uma situação inédita na relação entre a comunidade científica brasileira e um governo federal em pleno exercício,  21 cientistas brasileiros que foram nominados por decreto presidencial do dia 03 de dezembro para receberem a “Ordem Nacional do Mérito Científico” emitiram hoje uma carta aberta onde renunciam coletivamente à referida honraria.

Entre as razões apresentadas pelos pesquisadors foram listados a perseguição cometida contra Adele Schwartz Benzaken e Marcus Vinícius Guimarães de Lacerda que foram inicialmente agraciados com a concessão da “Ordem Nacional do Mérito Científico”, mas que foram posteriormente tiveram a honraria cassada por serem críticos da forma pela qual o governo Bolsonaro geriu a pandemia da COVID-19 no Brasil.

A carta dos cientistas também enfatiza que é inviável a aceitação de uma honraria científica concedida por parte de um governo que tem agido de forma negacionista em relação ao papel da ciência brasileira no desenvolvimento do Brasil, bem como os seguidos cortes orçamentários que “têm sido utilizados como ferramentas para fazer retroceder os importantes progressos alcançados pela comunidade científica brasileira nas últimas décadas“.

Ao longo da minha vivência acadêmica de mais de quatro décadas, considero que este documento é um dos mais agudos no sentido de apontar o fosso que separa a comunidade científica de um dado governo. Nesse sentido, essa renúncia coletiva é um momento singular que evidencia que o limite da paciência dos cientistas brasileiros com o negacionismo científico do governo comandado por Jair Bolsonaro foi alcançado.

Restará agora ao presidente Bolsonaro entregar para si mesmo e aos seus ministros a honraria científica a qual os cientistas estão renunciando. Idi Amin Dada nunca fez melhor! Enquanto isso, o espírito de Marlon Brando vive.

Abaixo publico a carta aberta dos “condecorados” em sua íntegra.

Carta aberta dos cientistas condecorados com a Ordem Nacional do Mérito  Científico em 03/11/2011

Os cientistas abaixo assinados, condecorados com a Ordem Nacional do Mérito Científico, em decreto presidencial de 3 de novembro de 2021, vêm a público declarar sua indignação, protesto e repúdio pela exclusão arbitrária dos colegas Adele Schwartz Benzaken e Marcus Vinícius Guimarães de Lacerda da lista de agraciados, em novo decreto presidencial na data de 5 de novembro de 2021. Tal exclusão, inaceitável sob todos os aspectos, torna-se ainda mais condenável por ter ocorrido em menos de 48 horas após a publicação inicial, em mais uma clara demonstração de perseguição a cientistas, configurando um novo passo do sistemático ataque à Ciência e Tecnologia por parte do Governo vigente.

Enquanto cientistas, não compactuamos com a forma pela qual o negacionismo em geral, as perseguições a colegas cientistas e os recentes cortes nos orçamentos federais para a ciência e tecnologia têm sido utilizados como ferramentas para fazer retroceder os importantes progressos alcançados pela comunidade científica brasileira nas últimas décadas.

Como bem pontuaram a Academia Brasileira de Ciências e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, em notas divulgadas no dia 5/11/2021, a Ordem Nacional do Mérito Científico, fundada em 1993, é um instrumento de Estado para reconhecer contribuições científicas e técnicas de personalidades brasileiras e estrangeiras. A indicação de membros agraciados é realizada por uma Comissão, formada por três membros indicados pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, três membros indicados pela Academia Brasileira de Ciências e três membros indicados pela SBPC. Nossos nomes foram honrosamente indicados por essa comissão, reunida em 2019. O mérito científico (como não poderia deixar de ser) foi o único parâmetro considerado para a inclusão de um nome na lista. Consideramos, portanto, gratificante nossa presença nessa lista, e ficamos extremamente honrados com a possibilidade de sermos agraciados com um dos maiores reconhecimentos que um cientista pode receber em nosso país. Entretanto, a homenagem oferecida por um Governo Federal que não apenas ignora a ciência, mas ativamente boicota as recomendações da epidemiologia e da saúde coletiva, não é condizente com nossas trajetórias científicas. Em solidariedade aos colegas que foram sumariamente excluídos da lista de agraciados, e condizentes com nossa postura ética, renunciamos coletivamente a essa indicação.

Outrossim, desejamos expressar nosso reconhecimento às indicações da Academia Brasileira de Ciências e da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, entidades que têm respeito duradouro em defesa da Ciência, Tecnologia e Inovação na sociedade brasileira. Esse ato de renúncia, que nos entristece, expressa nossa indignação frente ao processo de destruição do sistema universitário e de Ciência e Tecnologia. Agimos conscientes no intuito de preservar as instituições universitárias e científicas brasileiras, na construção do processo civilizatório no Brasil.

Brasil, 6 de novembro de 2021

Assinam (em ordem alfabética)

Aldo Ângelo Moreira Lima (UFC)

Aldo José Gorgatti Zarbin (UFPR)

Alfredo Wagner Berno de Almeida (UEMA)

Anderson Stevens Leonidas Gomes (UFPE)

Angela De Luca Rebello Wagener (PUC-RJ)

Carlos Gustavo Tamm de Araujo Moreira (IMPA)

Cesar Gomes Victora (UFPel)

Claudio Landim (IMPA)

Fernando Garcia de Melo (UFRJ)

Fernando de Queiroz Cunha (USP)

João Candido Portinari (Projeto Portinari)

José Vicente Tavares dos Santos (UFRGS)

Luiz Antonio Martinelli (USP)

Maria Paula Cruz Schneider (UFPA)

Marília Oliveira Fonseca Goulart (UFAL)

Neusa Hamada (INPA)

Paulo Hilário Nascimento Saldiva (USP)

Paulo Sérgio Lacerda Beirão (UFMG)

Pedro Leite da Silva Dias (USP)

Regina Pekelmann Markus (USP)

Ronald Cintra Shellard (CBPF)

Por discordar da gestão da pandemia e da censura a críticos do governo federal, pesquisador recusa “ordem do mérito” concedida por Jair Bolsonaro

ema cloquina
Postura negacionista de Jair Bolsonaro em relação à pandemia da COVID-19 foi um dos motivos citados para recusa de epidemiologista em receber a Ordem Nacional do Mérito Científico
O professor emérito da Universidade Federal de Pelotas, o epidemiologista Cesar Victora, enviou no dia de hoje uma correspondência ao ministro da Ciência e Tecnologia, Marcos Ponte, dando conta de sua recusa em receber a “Ordem Nacional do Mérito Cientifico” que lhe foi concedido em decreto pelo presidente Jair Bolsonaro no última dia 03 de novembro (ver imagem abaixo).
carta cesar victora
Entre as razões alegadas pelo professor Victora, um pesquisador de renome internacional, está o fato de que a honraria está sendo concedida por “Tum governo federal que não apenas ignora, mas ativamente boicota as recomendações da epidemiologia e da saúde coletiva, não me parece pertinente”. Além disso, Victora enfatiza que “como cientista e epidemiologista, tenho tornado pública, através de palestras e artigos científicos, minha completa oposição à forma como a pandemia de COVID‐19 tem sido enfrentada por esse governo”.
Por outro lado, o professor Victora acrescentou que não conseguiria “compactuar com a forma pela qual o negacionismo em geral, as perseguições a colegas cientistas e em especial os recentes cortes nos orçamentos federais para a ciência têm sido utilizados como ferramentas para retroceder os importantes progressos alcançados pela comunidade científica brasileira nas últimas décadas”.
Para finalizar, Cesar Victora enfatizou que havia escrito a sua carta de recusa da “Ordem Nacional do Mérito Cientifico” antes “de ficar ciente de que as indicações de dois colegas cientistas (i.e., Adele Schwartz Benzaken e Marcus Vinícius Guimarães de Lacerda) com posições críticas ao governo federal foram tornadas sem efeito, conforme o Diário Oficial de 5 de novembro”.

É interessante que no caso do protesto de Cesar Victora à retirada das medalhas de Adele Schwartz Benzaken e Marcus Vinícius Guimarães de Lacerda, já houve um pronunciamento da Academia Brasileira de Ciências (ABC), por meio do seu presidente, o físico Luiz Davidovich, protestando contra o que seria “o expurgo de cientistas que têm contribuído, com integridade e competência, para o desenvolvimento nacional e a saúde da população”. A mesma carta da ABC aponta que ” protestamos, como cientistas e cidadãos, contra essa escalada autoritária, que representa um ataque frontal ao espírito da Ordem Nacional do Mérito Científico” (ver imagem abaixo).

carta abc
Pelas informações que o “Blog do Pedlowski” recebeu é possível que outros agraciados por Jair Bolsonaro sigam o caminho trilhado por Cesar Victora e que outras associações científicas sigam a da ABC. Com isso, poderemos ter uma cerimônia de entrega de medalhas que exporá de forma ainda mais explícita a distância que separa a comunidade científica brasileira e o governo comandado por um presidente que se construiu como político negando o valor da Ciência nacional. O que o presidente deixou bastante explícito durante a ainda desastrosa gestão da pandemia da COVID-19 cujo resultado mais óbvio é a perda da vida de 600 mil brasileiros.
Finalmente, voltando à minha postagem original sobre a auto-concessão da “Ordem Nacional do Mérito Científico” por Jair Bolsonaro, tudo indica que o espírito de Marlon Brando pulsa firme em uma parte importante da comunidade científica brasileira. Melhor que seja sim.

IBAMA não responde pleito da AHOMAR pela anulação do licenciamento da ExxonMobil

Manifestacao-ExonnMobilMobilização contra a ExxonMobil em Sergipe

Como decorrência da audiência pública virtual ocorrida em 14/09/2021, a AHOMAR, entrou em 04/10/2021, com requerimento junto ao Ibama onde pede a anulação da audiência pública virtual e a realização de audiências públicas presenciais em todos os estados impactados, inclusive no Rio de Janeiro.

A situação é no mínimo inusitada uma vez que todas as outras organizações e/ou pessoas que fizeram questionamentos foram respondidos, somente a AHOMAR, aguarda manifestação do IBAMA, sendo que a regulamento da Audiência Pública atribuia o prazo de 20 dias para resposta formal.

Na data de hoje a AHOMAR fez novo requerimento onde solicita a análise de seu requerimento e a manifestação da procuradoria do IBAMA.

No último domingo (24/10), o Fórum dos Povos e Comunidades Tradicionais de Sergipe, a 350.org, a Associação de Homens e Mulheres do Mar da Baía de Guanabara (AHOMAR) e membros da comunidade acadêmica protestaram contra a tentativa de licenciamento de 11 poços exploratórios na bacia marítima de Sergipe-Alagoas pela ExxonMobil

Além da ausência de consulta aos moradores, o próprio Relatório de Impacto Ambiental da ExxonMobil mostra que cerca de 80 municípios estão sujeitos aos impactos potenciais da atividade de exploração que a empresa quer realizar.

compass

Este texto foi originalmente publicado pela AHOMAR [Aqui!].

Em meio à COP 26, representantes do Parlamento Europeu reúnem brasileiros para debater desmatamento na Amazônia

Evento totalmente online contará com a pesquisadora Brenda Brito, do Imazon, organização que integra a campanha Seja Legal, contra o roubo de terras públicas na região

parlamento

Enquanto na COP 26 em Glasgow, na Escócia, líderes mundiais discutem caminhos e se comprometem com metas para mitigar as mudanças climáticas, representantes do Parlamento Europeu, por meio da Comissão de Direitos da Mulher e de Igualdade de Gênero e da Comissão de Meio Ambiente, Saúde Pública e Segurança Alimentar, realizarão um encontro online no dia 9 de novembro para debater meios de manutenção da floresta amazônica brasileira em pé e proteção de sua população e povos tradicionais.

O evento “Enfrentando o desmatamento na Amazônia brasileira: um direito à terra e a perspectiva das mulheres” será totalmente online e mediado por Alessandra Moretti, membro do Parlamento Europeu. Na mesa de debate, representantes de organizações e iniciativas brasileiras falarão sobre desafios e oportunidades e também como a comunidade internacional pode atuar na defesa do patrimônio ambiental brasileiro.

O encontro online é uma iniciativa da organização italiana No Peace Without Justice em parceria com a campanha Seja Legal com a Amazônia, que une entidades do setor privado, do agronegócio e do terceiro setor no combate à grilagem de terras públicas.

A pesquisadora do Imazon, Brenda Brito, vai falar sobre regularização fundiária e sua relação com a grilagem de terras públicas e o desmatamento na região. Além dela, também participarão Daniel Lopes (Instituto Maira), Puyr Tembé (APIB), Paulo Celso de Oliveira e Gersem dos Santos Luciano (Fundo Brasil), Telma Taurepang (UMIAB) e de Eleonora Evi, membro do Parlamento Europeu.

Entre os dados que serão abordados pelo Imazon, organização signatária da Seja Legal, estão os principais resultados de um estudo sobre as leis e práticas fundiárias nos nove estados da Amazônia brasileira. A estimativa do levantamento lançado neste ano, é de que 29% da região amazônica carece de definição de posse da terra e de que 40% do desmatamento entre 2013 e 2020 ocorreu nessas áreas sem definição.

São os alarmantes dados do relatório “Dez fatos essenciais sobre regularização fundiária na Amazônia“, que mostram que as leis de terras nos estados amazônicos encorajam a invasão e desmatamento contínuos de terras públicas. Isso porque, embora 43% da área sem definição fundiária na Amazônia tenha prioridade para conservação, os procedimentos atuais não garantem a designação de posse de terra para atender esse propósito. Encontrar e colocar em prática as soluções para proteger a maior floresta tropical do planeta está no centro do debate mundial.

SERVIÇO

O que: Evento online “Enfrentando o desmatamento na Amazônia brasileira: um direito à terra e a perspectiva das mulheres”.

Quando: Dia 9 de novembro, às 13h30 (horário de Brasília).

Onde: Facebook | YouTube

Inscrições: Após a inscrição, o link de acesso será enviado por e-mail

Comissão Arns lança nota cobrando punição contra ataque de jagunços no Assentamento Fábio Henrique no sul da Bahia

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A Comissão de Defesa dos Direitos Humanos Dom Paulo Evaristo Arns – Comissão Arns vem a público manifestar seu veemente repúdio ao ataque sofrido neste domingo, 31 de outubro, por trabalhadores rurais e suas famílias, no Assentamento Fábio Henrique, na cidade de Prado, sul da Bahia.

É inaceitável que um bando de 20 homens armados invada um assentamento onde agricultores vivem e produzem de modo pacífico, com o objetivo de atentar contra a vida e a liberdade de crianças, idosos, mulheres e homens da comunidade.

Casas depredadas, ônibus incendiados, veículos alvejados por disparos, danos a instrumentos de trabalho, entre outras graves ameaças contra sua integridade física e psicológica, fizeram dos trabalhadores ali reunidos reféns da barbárie.

Diante de violência tão inominável, a Comissão Arns, fiel ao seu compromisso de defesa dos direitos humanos, cobra ação rápida do governador da Bahia, Rui Costa, para a identificação e responsabilização de mandantes e executores do crime perpetrado contra a comunidade de Fábio Henrique.

O braço da lei deve impor a ordem constitucional, coibindo o banditismo desses agentes do atraso. Como jagunços de tempos arcaicos, a associação criminosa que ali atuou visa semear conflitos e mortes pela força das armas, escondendo-se sob capuzes que cobrem a vergonha da sua covardia.

Cobramos também a manutenção do reforço policial no local dos ataques, para garantir segurança às famílias que hoje vivem sob o trauma da violência sofrida. E, por fim, mas não por último, que essas famílias possam assistir neste sábado, 6 de novembro, em clima de paz, união e concórdia, ao filme “Marighella”, do diretor Wagner Moura, cuja exibição já estava prevista quando o atentado criminoso aconteceu.

Ao Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra (MST), que organizou este assentamento, transmitimos o nosso respeito e solidariedade, assim como abraçamos as vítimas das atrocidades.

São Paulo, 5 de novembro de 2021

Comissão Arns

MAM organiza protesto para marcar os 6 anos do incidente ambiental da Samarco em Mariana (MG)

Na manhã desta sexta-feira, 05/11, cerca de 500 trabalhadores e trabalhadoras sem terra, liderados Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM) e outras organizações e movimentos sociais, ocuparam a entrada da Mineradora Samarco, em Mariana (MG)l, perto da mina de Fazendão, que pertence à mineradora Vale (ver imagens abaixo)

Com o lema: O lucro não vale a vida, a ação  liderada pelo MAM tem como objetivo denunciar o  modelo  predatório de mineração implantado no Brasil, cuja impunidade tem sido a marca diante dos crimes cometidos por empresas como as mineradoras Samarco, a Vale e BHP no estado de Minas Gerais.

São 6 anos desde o fatídico dia 5 de novembro de 2015, onde nos deparamos com o rompimento da barragem de Fundão, maior crime ambiental da história do Brasil, que ceifou a vida de 19 pessoas e  aprofundou a degradação ambiental do Rio Doce em escala inédita, com a lama descendo desde a sua nascente em Minas Gerais até a foz na costa do Espírito Santo.

Os mortos e atingidos pelo Tsulama da Samarco em Mariana não podem ser esquecidos!

Organizações ambientais alertam contra rótulos verdes para gás natural e energia nuclear

ovelhasFoto: imago images / Chris Emil Janßen

Bruxelas. As organizações ambientais alertam a Comissão Europeia contra a classificação da energia nuclear e do gás natural como energias amigas do ambiente. Tal movimento contradiria as medidas que seriam necessárias para limitar a mudança climática a 1,5 graus, disse Sébastien Godinot do WWF na quinta-feira. A inclusão da energia nuclear e do gás natural na chamada taxonomia da UE seria “grosseiramente irresponsável”, disse a ativista do Greenpeace Silvia Pastorelli.

O pano de fundo para isso é o trabalho em andamento pela Comissão da UE em um sistema de classificação para investimentos sustentáveis. Isso deve dar aos investidores diretrizes claras sobre quais investimentos são considerados amigáveis ​​ao clima – o selo, portanto, oferece enormes vantagens financeiras.

Um documento circulou em Bruxelas pedindo que a energia nuclear e o gás fossem incluídos na taxonomia. De acordo com diplomatas, ele vem da França, mas também é apoiado por vários outros países, como a Polônia e a República Tcheca. Até agora, a Alemanha se manifestou claramente contra classificar a energia nuclear como amiga do clima. No entanto, existe um forte lobby para a promoção do gás como uma tecnologia de transição, a fim de garantir o fornecimento de eletricidade após a planejada eliminação da energia nuclear e do carvão.

Segundo os critérios propostos no documento, metade das fábricas de gás existentes na UE seriam consideradas “verdes”, disse Godinot. Também poderia financiar novas usinas de gás que poderiam durar até 2065. De acordo com o economista do WWF, isso não é compatível com os objetivos de proteção climática da UE.

Roger Spautz, do Greenpeace, alertou sobre as consequências ambientais dos resíduos radioativos produzidos pela fissão nuclear. “Em nossa opinião, a indústria nuclear quer entrar na taxonomia porque quer roubar dinheiro para manter seus antigos reatores funcionando”, disse Spautz. Depois de 70 anos, a indústria nuclear ainda não encontrou uma solução para o lixo nuclear, disse Godinot, colega do WWF.

De acordo com a comissária de finanças responsável da UE, Mairead McGuinness, a decisão sobre a classificação do nuclear e do gás deve ser tomada até o final do ano. Os estados membros e o Parlamento da UE têm então dois meses para levantar objeções – caso contrário, a taxonomia entrará em vigor. (dpa / jW)

compass

Este texto foi escrito originalmente em alemão e publicado pelo jornal “JungeWelt” [Aqui!].

Com o Brasil com sua ciência em estado comatoso, Jair Bolsonaro concede a si mesmo ordem nacional do mérito científico

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Após decreto de própria lavra, Jair Bolsonaro tornou-se Grão-Mestre da Ordem Nacional do Mérito Científico, e Marcos Pontes, chanceler. Enquanto isso, a ciência brasileira continua em estado comatoso
Pode-se dizer o que for do presidente Jair Bolsonaro, mas não se pode negar que ele seja capaz de produzir momentos do mais puro e fino cinismo. É que poucas semanas após o Ministério da Fazenda ter dado uma tesourada praticamente letal na ciência brasileira com um corte de R$ 600 milhões no orçamento da CAPES e do CNPq, hoje (04/11) o Diário Oficial da União trouxe a publicação de um Decreto que concede a chamada “Ordem Nacional do Mérito Científico” a ele próprio, ao dublê de ministro e astronauta, Marcos Pontes, um seleto grupo de políticos, e, finalmente, a pesquisadores que supostamente possuem alto mérito na sua produção científica.
Um fato ainda mais saliente é que, pela ordem, os ocupantes de postos chaves no governo federal que receberão esta Ordem, são os seguintes: a) Grão-Mestre: JAIR MESSIAS BOLSONARO, Presidente da República; b) Chanceler: MARCOS CESAR PONTES, Ministro de Estado da Ciência, Tecnologia e Inovações; e os membros do Conselho da Ordem Nacional do Mérito Científico: CARLOS ALBERTO FRANCO FRANÇA, Ministro de Estado das Relações Exteriores; PAULO ROBERTO NUNES GUEDES, Ministro de Estado da Economia; e MILTON RIBEIRO, Ministro de Estado da Educação.
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O que me deixa curioso nessa situação toda é o que farão com suas medalhas os pesquisadores, alguns de inegável contribuição para o desenvolvimento da ciência brasileira, durante a cerimônia de entrega desta ordem. Vão lá aproveitar o rega-bofe que certamente será oferecido após a entrega de medalhas para se congraçar alegremente com Jair Bolsonaro, Marcos Pontes, Paulo Guedes e Milton Ribeiro, como não se fossem esses senhores responsáveis pela condição comatosa em que a ciência brasileira se encontra neste momento (situação comatosa em condição de agravamento, gostaria de frisar)?
Não sei por quê, mas desconfio que nesta cerimônia que será presidida pelo “Grão Mestre” Jair Bolsonaro não teremos um momento a la Marlon Brando, quando o ator estadunidense em uma cerimônia de entrega de um Oscar por sua atuação em “O Poderoso Chefão”, enviou uma ativista apache, Sacheen Littlefeather, para recusar o prêmio entregue a ele como forma protestar pela forma como os povos originários dos EUA eram retratados em Hollywood.
O problema, como já disse um dia Simone Beauvoir, o opressor não seria tão forte se não tivesse cúmplices entre os próprios oprimidos. E sirvam-se as medalhas, enquanto a fila dos aeroportos continuam empurrando os cientistas brasileiros para o exílio.

A ciência moderna tem nas métricas a sua Guantánamo

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Recentemente publiquei neste blog um texto publicado pela revista Nature acerca da difusão de práticas de captura de material científico por editoras predatórias que estão cada vez mais sofisticada em atrair pesquisadores ansiosos por melhorar sua performance em um amplo mercado de índices de mensuração (as chamadas métricas). Um colega que reputo ser da mais alta capacidade científica apontou que a discussão em torno dos métricas não é novo, mas que falta apontar um caminho que não fique apenas na crítica pela crítica, pois, suponho, há que se medir para conferir algum nível de chancela de qualidade que nos permita olhar para além da quantidade de artigos publicados, pois a imensa maioria não será lida uma mísera vez sequer.

Após refletir sobre esse chamado à produção de respostas práticas para sairmos da armadilha criada pelos operadores do mercado editorial para nos meter em uma espiral interminável de publicações que estão mais para lixo científico do que para conhecimento que mereça ser classificado como ciência, penso que não haverá saída para o atual imbróglio da quantidade sobre a qualidade se ficarmos tentando colocar o gato de volta dentro do saco. Em minha modesta opinião há que se jogar o saco fora, para voltarmos a nos preocupar com o que deveria ser essencial na produção do conhecimento científico, qual seja, que o produto das pesquisas realizadas sejam de fato baseadas no uso apurado da análise crítica, de forma a privilegiar não as necessidades de obtenção de recursos financeiros, seja para executar projetos de pesquisa ou, simplesmente, atender as necessidades econômicas pessoais dos pesquisadores.

O problema é que como toda qualquer outra coisa, o Capitalismo transformou a ciência, e principalmente os artefatos que são usados para demonstrar a sua realização em um tipo específico de commodity (para os interessados no processo de comodificação da ciência sugiro a leitura do livro “The Commodification of Academic Research: Science and the Modern University” de Hans Radder) que, como qualquer outra, é objeto de opções mercadológicas que privilegiam o chamado “valor de troca” em detrimento do “valor de uso”. Em outras palavras, em situações corriqueiras, o interesse de quem financia  e de quem produz ciência não tem nada a ver com a melhoria da qualidade de vida das pessoas e da evolução das formas de relação com os sistemas naturais da Terra, mas simplesmente com a acumulação de riquezas.

Alguém que estiver lendo este texto poderá apontar que até aqui, a única coisa que propus de concreto foi rasgar o saco em vez de tentar colocar o gato de volta dentro dele.  E se alguém notou isso, não me resta dizer que rasgar o saco (entendido aqui como uma metáfora do processo de comodificação da ciência) será muito mais difícil do que parece em princípio. É que depois de décadas de ações para  premiar os bem comportados que estão plenamente satisfeitos em viver aprisionados no labirinto das métricas (a qual equivale a uma espécie de Guatánamo que aprisiona a produção de ciência com revestimento crítico), pois isto traz recompensas palpáveis, sejam eles materiais ou apenas de reafirmação de uma cultura acadêmica hedonística.

O problema é o capitalismo e não o clima

Dois conclaves mundiais que enfocam o debate sobre o “aquecimento global” coincidiram no final de semana passado, a COP 26 em Glasgow, na Escócia, e o G20, em Roma, na Itália

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Os EUA são responsáveis ​​por 20% das emissões totais de CO2 do mundo | Foto: Hollywood Hills, Los Angeles, CA

Por Julio Gambina para a AlaiNet

A preocupação comum é o clima, em um quadro de evidente crise econômica, com crescente desigualdade social, preços preocupantes e deterioração ambiental derivada da emissão de gases de efeito estufa produzidos pela forma de produção contemporânea. O impacto no meio ambiente é um problema acelerado desde os tempos da revolução industrial (1750), enorme após o segundo pós-guerra (1945) e de forma descontrolada nas últimas três décadas (1990-2021). A forma de produção capitalista traz esses resultados.

Uma análise resumida e didática apresenta Michael Roberts em seu blog, traçando as estatísticas das responsabilidades na emissão de CO2, com a China à frente na atualidade e os Estados Unidos longe, na acumulação histórica do desenvolvimento capitalista. O autor britânico destaca que a China “é o maior emissor de CO2 do mundo”, desde a sua posição de país com maior população do planeta e fabricante exportador do mundo. Ele acrescenta que “as emissões acumuladas na atmosfera nos últimos 100 anos vêm dos outrora industrializados e agora consumidores de energia ricos do Norte”. Ele destaca que os EUA são responsáveis ​​por acumular a emissão de “20% do total mundial. A China ocupa um segundo lugar relativamente distante com 11%, seguida pela Rússia (7%), Brasil (5%) e Indonésia (4%). ” Nessa estatística, a Argentina aparece em 14º lugar.

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Levando-se em conta as emissões relativas ao uso da Terra, o Brasil foi o quarto maior emissor de CO2 entre 1850 e 2021

O assunto é importante e no blog do FMI você pode ler uma análise sobre o assunto e América Latina e Caribe. No texto, eles afirmam que “As emissões líquidas de gases de efeito estufa (GEE) da região são consistentes com seu tamanho econômico e população, cerca de 8% do total mundial. Mas a composição das emissões na ALC é muito diferente da de outras regiões. ” Enfatiza-se a seguir que “O setor de energia contribui muito menos para as emissões totais na ALC (43%) em comparação com a média mundial (74%). A agricultura, por outro lado, contribui com 25%, em comparação com uma média mundial de 13%. Uso da terra, mudança no uso da terra e silvicultura (LULUCF) contribuem com 19 %, muito mais do que a média mundial, pouco mais de 1%. ”

Última oportunidade

Outras fontes de informação podem ser utilizadas e é claro que a catástrofe que ameaça a humanidade não pode ser escondida, e os Estados nacionais e suas articulações globais vão de cúpula em cúpula para definir compromissos que não cumprem. O resultado é alarmante a ponto de o Secretário-Geral das Nações Unidas afirmar que “Se não agirmos com determinação, estaremos literalmente jogando nossa última chance de mudar o curso das coisas”.

O alarme é uma chamada de atenção para a ordem produtiva, baseada na crescente exploração da força de trabalho, com menos previdência social, e na pilhagem recorrente e generalizada de bens comuns na ordem global, estimulando o consumo das elites que a afetam. condições de vida da sociedade como um todo. Não há solução para o “aquecimento global” se não forem tomadas medidas em áreas estratégicas da produção mundial, como energia, agricultura, transporte, serviços públicos essenciais, saúde, educação, visando limitar e reduzir as emissões de gases de efeito estufa, algo que não pode. ficar nas mãos do “mercado”, ou seja, de investidores privados, empresas transnacionais, em busca do lucro e da rentabilidade de seu capital.

O comentário aponta tanto para o poder das empresas transnacionais de petróleo e gás, alimentos e biotecnologia, entre tantas outras, quanto para a discussão sobre as políticas dos Estados-nação e organizações mundiais sobre para quê, como e quanto energia e produção, orientado para o que precisa satisfazer. São extensos comentários sobre a alimentação e, portanto, mais pensamento e ação na satisfação das demandas sociais e dos direitos à alimentação e energia do que estimular os mercados, justamente em um momento em que a alta dos preços concentra-se tanto em produções estratégicas de reprodução do social quanto. vida diária natural.

A solução virá mais das lutas e resistências populares, especialmente de formas alternativas de produção e reprodução socioeconômica do que de decisões públicas dos Estados capitalistas, em cúpulas como o G20 onde se propõem discutir as desigualdades e a aceleração da recuperação. Ambas as questões são o resultado da forma capitalista de organização da sociedade. É lógico que o regime do capital promova a restauração da taxa de lucro ao invés da satisfação de milhões de empobrecidos nos povos do mundo. Isso é desigualdade, um produto da ordem capitalista. Mudar o modelo de produção e desenvolvimento é a base para organizar uma ordem econômica e social que remedie os danos ecológicos e garanta a reprodução metabólica do planeta. 

compass

Este texto foi escrito inicialmente em espanhol e publicado pela Alainet.org [Aqui!].