Levantamento inédito do MapBiomas Amazônia mostra que perda de florestas desde 1985 equivale a um Chile

Especialistas alertam que a Amazônia poderá alcançar o ponto de ruptura ainda nesta década se o ritmo de destruição persistir

Sobrevoo no Pará (Foto Marizilda Cruppe/Amazônia Real/17/09/20

Entre 1985 e 2020, a Amazônia perdeu 52% de suas geleiras e 74,6 milhões de hectares de sua cobertura vegetal natural – uma área equivalente ao território do Chile. No mesmo período houve um crescimento de 656% na mineração, 130% na infraestrutura urbana e 151% na agricultura e pecuária. Estas são algumas das principais conclusões de um mapeamento inédito do MapBiomas Amazônia que será apresentado nesta quinta-feira, 30 de setembro, por meio da plataforma youtube.com/raisg às 9h do Peru, Equador e Colômbia; 10:00 da Bolívia e Venezuela; e 11:00 do Brasil. A Coleção 3.0 de Mapas Anuais de Cobertura e Uso do Solo da Amazônia incorpora todo o bioma, desde os Andes, passando pela planície amazônica e alcançando as transições com o Cerrado e o Pantanal.

O mapeamento temporal do uso e cobertura de solo do bioma mostrou que se em 1985 apenas 6% da Amazônia havia sido convertidos em áreas antrópicas, como pastagens, agricultura, mineração ou áreas urbanas, em 2020, esse percentual quase triplicou, chegando a 15% de toda a região. O processo varia consideravelmente entre os países, sendo apenas 1% para Suriname, Guiana e Guiana Francesa e, no outro extremo, 19% no Brasil. Estudos recentes sugerem que a perda de 20-25% da cobertura florestal da Amazônia pode significar o ‘ponto de inflexão’ (ponto de ruptura) para os serviços ecossistêmicos da Amazônia. Se a tendência atual verificada pela MapBiomas continuar, essa virada poderá ser alcançada ainda nesta década.

Gerada por técnicos e especialistas de cada um dos países que integram a Amazônia a partir de imagens de satélite, esta terceira coleção de dados inclui novas classes de uso, como Mineração e Infraestrutura Urbana, além de mapas e dados sobre os vetores de pressão nas florestas e outras coberturas, como concessões de mineração, blocos de petróleo, estradas e usinas hidrelétricas. O objetivo é contribuir para o conhecimento da situação atual da região amazônica de forma integral – tanto das mudanças no uso do solo em toda a Amazônia como das pressões sobre suas florestas e ecossistemas naturais.

“Reconstruir a história de nossa Amazônia olhando as mudanças ano a ano em suas coberturas naturais, identificando perdas de coberturas tão importantes como geleiras e florestas em geral, nos ajuda a construir e propor estratégias de conservação mais precisas”, destaca Beto Ricardo, coordenador geral da RAISG. “A Coleção 3.0 do MapBiomas Amazônia mostra uma antropização profunda e rápida em curso na região”, afirma Tasso Azevedo, coordenador geral da MapBiomas. “Nos atuais mapeamentos do MapBiomas em toda a América do Sul este é um padrão marcante. Os dados são inestimáveis ​​para o entendimento da dinâmica de uso dos recursos naturais da região, além de contribuir para a modelagem climática e o cálculo das emissões e remoções de gases de efeito estufa devido às mudanças e uso do solo na região”, completa.
 
mapbiomas amazonia

Sobre Mapbiomas Amazônia

MapBiomas Amazônia é uma iniciativa liderada pela Rede Amazônica de Informações Socioambientais Georreferenciadas (RAISG) com o apoio do MapBiomas. Em 2019, lançou a Primeira Coleção, abrangendo o período de 2000 a 2017; em 2020, a Segunda Coleção, que cobre 1985-2018. Agora, após intenso trabalho dos integrantes da (RAISG) e colaboração técnica da equipe da MapBiomas Brasil, a Terceira Coleção abrange os 36 anos entre 1985 e 2020: https://amazonia.mapbiomas.org

São mais de 3 décadas de história de Ocupação e Uso de solo da Amazônia em mapas anuais de 1985 a 2020 com resolução de 30 metros. As informações do mapeamento são de livre acesso e download e compatíveis para todos os países da região. A plataforma oferece a possibilidade de visualização dos mapas em nível regional, nacional e até local, identificando as áreas cobertas por florestas, campos naturais, manguezais, agricultura, rios, entre outros, permitindo conhecer a situação da cobertura vegetal, bem como tendências, na unidade que se deseja trabalhar. Permite também entender a dinâmica das mudanças de uso da terra segundo recortes fundiários, como dentro e fora de uma Terra Indígena ou Área Protegida, graças ao fato de que a plataforma oferece não só mapas, mas também estatísticas apresentadas em tabelas e gráficos dinâmicos com as mudanças de uso no período que o usuário necessita.

A ferramenta de mapeamento do uso do solo foi desenvolvida pelo MapBiomas para ser aplicada inicialmente no Brasil. Para a totalidade do bioma amazônico, foi aprimorada com a contribuição das organizações membros da RAISG para adequar os resultados e análises à geografia de cada um dos países. Em particular, foi necessário levar em consideração as variações altitudinais típicas da Amazônia andina. Atualmente, a ferramenta de mapeamento MapBiomas inclui 28 classes, que vão desde geleiras andinas a formações florestais nas planícies amazônicas.

Sobre a Raisg

RAISG é a Rede Amazônica de Informações Socioambientais Georreferenciadas, um consórcio de organizações da sociedade civil dos países amazônicos voltado para a sustentabilidade socioambiental da Amazônia, com o apoio da cooperação internacional. A RAISG gera e dissemina conhecimento, dados estatísticos e informações socioambientais geoespaciais da Amazônia, elaborados com protocolos comuns para todos os países da região; tornou possível visualizar a Amazônia como um todo, bem como as ameaças e pressões que pairam sobre ela. RAISG é o resultado da cooperação de oito organizações da sociedade civil que atuam em seis países amazônicos: Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Peru e Venezuela. https://www.amazoniasocioambiental.org/es/

Sobre Mapbiomas

O MapBiomas é uma iniciativa multi-institucional que reúne universidades, ONGs e empresas de tecnologia que se uniram para contribuir para a compreensão das transformações do território brasileiro a partir do mapeamento anual da ocupação e uso do solo no Brasil. Em agosto de 2021, foi publicada a Coleção 6 de MapBiomas com mapas de cobertura e uso do solo do Brasil de 1985 a 2020. A ferramenta desenvolvida pela MapBiomas para todas as suas iniciativas disponibiliza informações geradas com resolução espacial de 30 metros. Os dados são processados ​​usando algoritmos de classificação automática por meio de informações na nuvem do Google Earth Engine. https://mapbiomas.org/

Bercário de gigantes: Baleias-Francas se concentram

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O local escolhido para o acasalamento e berçário das baleias fica no Sul de Santa Catarina. Imbituba, especialmente a praia de Ibiraquera, é um dos locais preferidos dos mamíferos gigantes, devido a vários fatores, em especial as enseadas com águas calmas, limpas e na temperatura perfeita.

Famílias de baleias-francas, ainda em extinção, fazem dessas praias o seu local de morada por alguns meses. Elas partem da Antártida rumo ao sul do Brasil. Em Santa Catarina o momento mágico tem enchido os olhos dos amantes da natureza. O balé das baleias-francas acontece em especial em setembro (a temporada reprodutiva vai de julho a novembro).

O Projeto Franca Austral, constituído por um grupo de pesquisadores apaixonados, monitora e estuda os animais, além de trabalhar arduamente para a preservação das espécies.

Nas imagens, gravadas nesta temporada, podemos verificar inúmeras baleias, em duplas de mães e filhas, e até um quarteto.

 VÍDEOS

AQUI AS IMAGENS GRAVADAS COM DRONE 4K EM IBIRAQUERA (IMBITUBA-SC). https://youtu.be/YU0y__9PPhw

AQUI AS IMAGENS GRAVADAS COM DRONE 4K EM AÇORES (FLORIANÓPOLIS-SC).

https://youtu.be/iZVEbOytSvo

Path Amazônia terá ingresso colaborativo e mais de 70 horas de conteúdo online com foco na regeneração do planeta

Organização do evento sobre inovação, diversidade e sustentabilidade, realizado nos dias 30 e 31 de outubro, irá sugerir o preço do ingresso solidário, mas o público poderá contribuir com o valor que desejar ou assistir gratuitamente. Estão no line-up nomes como Kaká Werá, Karina Olani, Gustavo Montezano, Nina Silva, Ana Fontes, Fê Cortez, Edu Lyra, Marko Brajovik, João Farkas e Vivi Duarte

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São Paulo, 29 de setembro de 2021: Estão abertas as pré-inscrições para o Path Amazônia, edição especial do Festival Path, que acontecerá de forma virtual nos dias 30 e 31 de outubro. Com mais de 70 horas de conteúdo sobre inovação, diversidade e sustentabilidade – muitos deles produzidos diretamente da região Amazônica – o evento terá um novo formato na cobrança de ingresso. A organização vai sugerir um preço, mas cada um que fizer sua inscrição poderá contribuir com valor que desejar ou assistir gratuitamente. Para garantir o acesso à plataforma é preciso se inscrever por meio do site ondemand.festivalpath.com.br

O Path Amazônia vai colocar em pauta os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU e contará com um time de especialistas para curadoria de cada um dos temas, incluindo especialistas renomados de cada ODS, lideranças de povos tradicionais e instituições sociais. “Estamos convocando um time de parceiros e profissionais engajados e com ideias inovadoras, de diversas áreas, para ajudar a dar luz a assuntos como saúde e bem-estar, meio ambiente, democracia, consumo consciente, alimento, energia limpa, empoderamento social, econômico, turismo, ciência e povos tradicionais”, adianta Fabio Seixas, fundador e diretor de conteúdo do Path.

Kaká Werá, Karina Oliani, Gustavo Montezano, Nina Silva, Mariana Ferrão, Ana Fontes, Fê Cortez, Edu Lyra, Marko Brajovik, Kênia Maria, Ailton Krenak, Patricia Tavares, Irina Bulara, João Farkas, Xexeu Tripoli, Tia Dag, Marquito Abreu e Vivi Duarte são alguns dos convidados já confirmados.

Path em ação na Amazônia

O Path Amazônia irá arrecadar ainda fundos para construção de uma escola, que será doada pelo evento à Fundação Almerinda Malaquias, e vai atender as comunidades do Amazonas. A escola será assinada por Marko Brajovic. O objetivo é impactar 50 comunidades com melhorias em infraestrutura local e ofertas pedagógicas. Brajovic é especialista em construções sustentáveis e representante brasileiro na Bienal de Arquitetura de Veneza deste ano.

Inicialmente planejado para ser transmitido de um navio na Amazônia, agora por conta do agravamento da variante delta e por recomendações das autoridades locais o Path será 100% online, impactando milhões de pessoas. Diversos dos conteúdos seguem sendo produzidos também na Amazônia onde serão gravados em formas de palestras, documentários, podcasts e mais.

O Path já conta com patrocínios do grupo Heineken, Mastercard e da Volvo Car Brasil, além de parceiros e apoiadores como TRIP, Catraca Livre, Vida Simples e YAM. A programação completa será divulgada em breve. Para inscrições e outras informações, acesse o site do Path: https://www.festivalpath.com.br ou o instagram @FestivalPath

Sobre o Path

O Path é reconhecido pela sua excelência em design de experiências e curadoria de conteúdos relacionados à inovação e diversidade que atingiram dez milhões de pessoas nos últimos anos. Mais de 2.000 pessoas renomadas de diferentes áreas passaram pelos palcos do festival, como Marina Silva, Alex Atala, Monique Evelle, David Schurmann, Regina Casé, Djamila Ribeiro, Pedro Paulo Diniz, Max Fercondini, Camila Coutinho, Alok, Rony Meisler, Dona Onete, entre muitos outros.

Desde a sua criação em 2013, a missão foi inspirar para gerar transformação positiva. A atuação é ligada diretamente à educação em suas mais variadas formas, entendendo que de grão em grão construímos um legado para um mundo com ideias inovadoras e mais diversas que gerem transformação positiva. Seja ela individual ou coletiva.

Em julgamento realizado em Munique, TÜV Sud se exime e apenas manda condolências aos atingidos de Brumadinho

Diante do Tribunal Regional de Munique, a TÜV Süd não vê responsabilidade legal pelos 270 mortos após o rompimento da barragem no Brasil.

BELO HORIZONTE MG 24 02 2019 PROTEST AGAINST VALE IN BH Protestors petitioned for justice duri

Em Belo Horizonte, manifestantes exigem justiça para as vítimas de Brumadinho, Brasil, fevereiro de 2019

Por Patrick Guyton para o “Die Tageszeitung”

“Aconteceu um terrível acidente”, disse Florian Stork, consultor jurídico chefe da TÜV Süd. No grande tribunal de Munique na instalação correcional de Stadelheim, ele expressou suas condolências aos parentes e disse: “Não queremos questionar o sofrimento de forma alguma.” E ainda: a empresa de testes alemã não vê “nenhuma responsabilidade legal” pela catástrofe de 25 de janeiro de 2019.

O rompimento da barragem de uma mina de minério de ferro provocou um grande deslizamento de terra em Brumadinho, Brasil, que destruiu partes do local, deixando 270 pessoas mortas . Poucos meses antes, a barragem havia sido examinada pelo braço da TÜV brasileira e certificada como segura.

Na terça-feira, representantes de Brumadinho, no estado de Minas Gerais, e advogados da TÜV sentaram-se frente a frente em um caso-teste. Novo território legal está sendo negociado no processo: uma empresa pode ser responsabilizada por infrações ambientais cometidas na Alemanha por sua subsidiária no exterior?

Avimar Barcelos, o prefeito de Brumadinho, viajou a Munique para o julgamento. Assim como dois irmãos e o marido da engenheira Izabela Barroso – que morreu no deslizamento. “Ninguém pode trazer Izabela de volta”, disse o prefeito de Brumadinho no tribunal.

“Eles deveriam vir”

“Mas estou indignado que a TÜV se recuse a assumir a responsabilidade.” Barcelos, um homem mais jovem, diz que a sua comunidade ainda está em grande parte destruída. Apenas 30 por cento da lama tóxica foi removida. “Eles deveriam vir e ver o que fizeram.”

A juíza presidente do tribunal regional, Ingrid Henn, tentou chegar a uma negociação de compromisso em que ambos os lados concordam com os valores de compensação. O advogado Jan Erik Spangenberg, que representa os demandantes, estava basicamente preparado para isso.

Para a comunidade, é necessário o equivalente a 70.000 euros, para os familiares dos mortos entre 15.000 e 30.000 euros por pessoa. A TÜV Süd poderia facilmente fazer isso. No entanto: Spangenberg afirma representar mais 1200 parentes.  A empresa poderá vir a ter de desembolsar um bilhão de euros em compensação – o que muito  até para a TÜV .

Mas também há o operador da mina que é o responsável. É o mega-mineradora brasileira Vale. Durante a negociação, a TÜV assumiu a posição de que seu relatório estava “correto”, disse o advogado da empresa Philipp Hanfland.

Sem denominador comum

Não há “evidências de comportamento abusivo” e nenhum “vínculo causal”. O representante das vítimas, no entanto, referiu-se a e-mails nos quais representantes da Vale teriam pressionado a TÜV a produzir um relatório positivo. E citou detalhes técnicos que devem comprovar que os testes não foram realizados de maneira adequada.

Também não havia um denominador comum quando se tratava de saber se o Grupo Vale, a TÜV ou ambos são obrigados a pagar indenizações. 5,8 bilhões de euros estão na sala, o que o grupo Vale teria prometido. A maior parte das compensações vai para a construção de estradas, que por sua vez são usadas principalmente pelas empresas de mineração, criticou o advogado da vítima Spangenberg.

“Ninguém recebeu qualquer tipo de indenização  para os parentes mortos.” O advogado da TÜV, Hanfland, contradisse: O pagamento está sendo preparado, o dinheiro deve fluir no próximo ano, “uma soma gigantesca”. E também para os parentes. Os demandantes duvidaram disso. Spangenberg afirmou que “Você teria que esperar anos e décadas.”

Em Munique, este foi o primeiro e, ao mesmo tempo, o último dia do julgamento. O juiz disse que as duas partes deveriam agora responder a várias questões por escrito. O pessoal de Brumadinho e da TÜV tem que esperar um pouco pelo julgamento que está marcado para 1º de fevereiro de 2022.

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Este texto foi inicialmente escrito em alemão e publicado pelo jornal  “Die Tageszeitung” [Aqui!].

Enquanto o povo come osso, JBS alcança lucro histórico com a exportação de carne

Enquanto aos pobres comem ossos, os irmãos Batista ficam cada vez mais ricos com os lucros fabulosos da JBS

A capa do jornal carioca “Extra” é uma espécie de síntese acabada da situação gerada pela política econômica executada pelo governo Bolsonaro desde janeiro de 2019, pois mostra que o fenômeno da corrida aos ossos por brasileiros pobres está se tornando um fenômeno ampliado em todo o território nacional (ver imagem abaixo).

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Essa corrida aos ossos reflete não o fracasso, mas o sucesso da política de desnacionalização da economia brasileira, iniciada no governo do presidente “de facto” Michel Temer, e largamente ampliada pelo presidente Jair Bolsonaro a partir das políticas ultraneoliberais do seu ministro da Fazenda, o banqueiro Paulo Guedes.

Esse sucesso está demonstrado de forma irrefutável na fila formada por brasileiros para coletar o descarte de ossos que os supermercados corriqueiramente realizam, e que antes eram usados como ração animal. Agora, graças ao sucesso das políticas da dupla Bolsonaro/Guedes restou aos brasileiros pobres correr atrás do “caminhão de ossos” em uma situação que explicita o nível de degradação econômica e social que tais políticas geraram.

A outra face do sucesso das políticas ultraneoliberais do governo Bolsonaro aparece sob a forma dos lucros astronômicos auferidos pela “campeã nacional”, a JBS, que alcançou incríveis R$ 4,4 bilhões de lucro apenas no terceiro trimestre de 2021, no mesmo exato período em que a fome avança como fogo em canavial em dia de vento (ver imagem abaixo).

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O interessante é que os lucros da JBS poderiam ter sido ainda maiores caso a corporação multinacional (muito em parte graças aos generosos aportes feitos durante o período Neodesenvolvimentista dos governos do PT), não estivesse enfrentando contratempos em suas operações de exportação no Brasil e o encarecimento com a compra de insumos usados na produção de ração animal.

O fato é que a corrida aos ossos pelos pobres e os lucros fabulosos da JBS são duas faces da mesma moeda que é a existência de políticas governamentais que têm permitido o aumento da concentração da riqueza em uma sociedade que historicamente é marcada por uma das maiores separações entre ricos e pobres em todo o planeta.

Reconhecer a insustentabilidade social que essa dicotomia é o primeiro requisito para qualquer possibilidade de que o Brasil possa sair da situação precaríssima em que se encontra neste momento. Além disso, há que se reconhecer que os pantomimas executadas pelo presidente Jair Bolsonaro para encobrir a catástrofe social que as políticas do seu governo estão gerando são apenas a ponta de um imenso iceberg que sintetiza uma verdade inescapável: vivemos sob os efeitos de um golpe de estado que dispensa a realização de outro como desejam os segmentos de extrema-direita que apoiam o status quo que comanda o Brasil neste momento, com militares, com STF, com tudo, como anteviu Romero Jucá no período em que se tramava a derrubada da presidente Dilma Rousseff.

CONTAG divulga avaliação dos 1.000 dias do (des)governo Bolsonaro

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O Brasil enfrentou no segundo ano do governo Bolsonaro uma Pandemia. O governo demorou a reagir e a buscar soluções para a crise, deixando para o Congresso e para os(as) governadores(as) e prefeitos(as) a tarefa de liderar o combate ao vírus. Foi assim com o auxílio emergencial, foi assim com a vacinação, foi assim com o incentivo ao uso de máscaras e isolamento nos momentos mais cruciais da crise. O Brasil ficou para trás no combate à COVID-19, e também na recuperação pós Pandemia. Enquanto os países desenvolvidos fazem planos de investimentos milionários para recuperar o tempo perdido, no Brasil, o Estado continua jogando parado.

A queda de 36% no investimento público federal, previsto para 2022 no orçamento enviado ao Congresso nos 1.000 dias de governo, sinalizam a impotência do governo diante da crise.  As previsões do mercado para este e para o próximo ano se deterioraram rapidamente nos últimos meses, revelando a falta de credibilidade do mercado com a recuperação do País.

O retorno ao trabalho e a volta da atividade econômica carregam as marcas da crise. A inflação cresceu 156% de janeiro de 2019 a agosto de 2021. O desemprego cresceu 18% do início do governo até o último mês de junho, o número de desempregados subiu 14%. Ao mesmo tempo, o número de trabalhadores(as) com carteira assinada caiu 9%, enquanto os autônomos sem CNPJ cresceram 4%. O Brasil tem cada vez mais trabalhadores(as) no informais, sem direitos, e cada vez menos trabalhadores(as) protegidos pela legislação trabalhista. A Pandemia mostrou o perigo e o sofrimento desses trabalhadores e trabalhadoras mais precários(as), os que mais sofreram com a crise sanitária e econômica. O rendimento médio do trabalho caiu assim como a renda per capita.

O PIB agropecuário a preços de 1995 cresceu 5%, um crescimento modesto, mas que ajudou a segurar a queda do PIB nacional que subiu 1% no período, entre o primeiro trimestre de 2019 e o segundo trimestre de 2021.  O governo viu o dólar disparar, com uma perda expressiva de valor do real. E viu seu espaço de manobra se reduzir com uma elevação de 44% da dívida pública em termos nominais.

Portanto, a grande maioria do povo brasileiro vive as mil agonias patrocinadas pelo governo Bolsonaro, e isso implica fome, miséria, desemprego, degradação social e ambiental, risco de apagão, aumento da inflação e da corrupção, desvalorização do real e um momento muito ruim da imagem do país no cenário internacional. Esse é o modelo econômico que o governo vem mantendo herdado do golpe político-jurídico-midiático de 2016, com o impedimento do mandato da presidenta Dilma Rousseff, o qual só tem gerado mais desigualdade social, desmatamento, aumento da violência, perda de direitos e um forte ataque à democracia.

Para a agricultura familiar, particularmente, foram momentos de perdas e retrocessos: paralisação da reforma agrária, redução drástica de políticas como o Programa Nacional de Habitação Rural (PNHR), Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (Pronera), Programa Um Milhão de Cisternas (P1MC), Programa Uma Terra e Duas Águas (P1+2), eletrificação rural, Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (PNAPO), políticas para a juventude, mulheres e pessoas idosas rurais, combate à pobreza, dentre outras. Somente o Pronaf permaneceu e, mesmo assim, com o(a) agricultor(a) pagando juros acima da Selic por duas safras seguidas. Só não está maior agora pelo aumento da Selic pelo Copom/BACEN, visando conter a alta da inflação.

Por duas vezes, os PLs de apoio emergencial à agricultura familiar foram votados quase à unanimidade no Congresso Nacional e igualmente vetados pelo presidente da República.

No debate sobre o futuro do País, esse governo não produziu uma só ação que mostre o caminho para a superação dos problemas vividos pela maioria da população. Fez exatamente o contrário, tem mostrado o que não poderia jamais ter sido feito. Está mais do que na hora de o movimento sindical, organizações sociais, sociedade civil organizada e as forças democráticas e populares unirem forças para superar este perverso modelo de desenvolvimento que concentra renda e riqueza e aumenta a fome no País, buscando recuperar o crescimento econômico e social, a preservação ambiental, garantindo vida digna à população brasileira.

TRT/RJ considera ilegais medidas adotadas pela Petrobras nas “medidas de resiliência”

As chamadas “Medidas de Resiliência”, de redução salarial e aumento de carga horária, implementadas pela empresa durante a pandemia, são consideradas ilegais e ilícitas pelo TRT da 1ª Região (RJ)

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Rio de Janeiro, 28 de setembro de 2021 – A Justiça do Trabalho do Rio de Janeiro deu ganho de causa a empregados da Petrobrás em ação coletiva contra aumento de carga horária de trabalho e reduções de salários que variam de 25%, no caso do pessoal administrativo, a 50% para empregados nas plataformas offshore considerados do grupo de risco, conforme classificação da Organização Mundial da Saúde (OMS).

As chamadas “medidas de resiliência” foram determinadas unilateralmente pela Petrobrás no ano passado, por conta da pandemia da COVID-19, sem passar por negociação coletiva. A ação, impetrada pelo Sindicato dos Petroleiros do Norte Fluminense (Sindipetro-NF), filiado à Federação Única dos Petroleiros (FUP), tramitava desde abril de 2020.

A condenação prevê que a estatal efetue o pagamento retroativo das diferenças salariais aos empregados atingidos. A Petrobras ainda pode recorrer da decisão.

Pelas medidas adotadas pela Petrobras, logo após o surgimento do coronavírus no país, os empregados do grupo de risco, ao terem sido afastados temporariamente do trabalho presencial nas plataformas, por conta dos riscos de contaminação, tiveram cortados adicionais de salários, que representaram diminuição de até metade da remuneração. Para os demais trabalhadores offshore, além de diminuições salariais, houve alteração na carga horária de 168 para 200 horas mensais, impactado negativamente no salário-hora. Já para o administrativo, o corte salarial de 25% foi acompanhado por redução de jornada na mesma proporção, em trabalho sob regime “home office”.

Medidas comunicadas por carta

Em abril do ano passado, a Petrobras divulgou internamente carta aos funcionários sobre as novas “medidas de resiliência”. Na ocasião, o Sindipetro-NF entrou com ação coletiva contra a redução da remuneração. Em junho do mesmo ano, o Tribunal Regional do Trabalho (TRT) da 1ª Região, em Macaé, emitiu decisões liminares, para garantir o pagamento integral de salários à categoria daquela base. A petrolífera recorreu, sem sucesso. O juiz Marco Antônio Mattos de Lemos, da 2ª Vara do Trabalho de Macaé, observou, entre outros pontos, que, ao alterar o regime de trabalho dos empregados, a empresa atuou em desacordo com o art. 7º, inciso VI, da Constituição Federal, que veda a redução salarial, salvo for acordado em negociação coletiva.

A Petrobras recorreu da decisão em primeiro grau e, em segunda instância, o caso foi analisado pela desembargadora-relatora Cláudia Regina Vianna Marques Barrozo, que entendeu que as medidas foram implementadas sem qualquer negociação coletiva ou individual, “de forma irregular e ilícita”, mantendo a condenação da empresa. Além da diminuição na remuneração, houve alteração na carga horária dos empregados, com aumento do trabalho semanal de 168 para 200 horas, impactando negativamente no salário-hora.

Em seu voto, a desembargadora ressaltou que qualquer alteração unilateral de trabalho com prejuízo para o trabalhador é ilegal, sendo vedada expressamente pelo artigo 468 da Consolidação das Leis de Trabalho (CLT). Neste sentido, afirmou: “No caso, a reclamada é uma grande empresa, inserida entre as dez maiores empresas nacionais, o que justifica menos ainda qualquer divisão de riscos com os trabalhadores, ainda que seja notória a crise pela qual o país atravessa. A própria empresa admite que já passou por outras crises e delas conseguiu sair com sucesso”.

O Sindipetro-NF também obteve vitória em 2ª instância na ação contra a redução de jornada e salário dos empregados em regime administrativo. Nesta ação, também há condenação da empresa ao pagamento das diferenças salariais aos empregados atingidos. A desembargadora-relatora Dalva Macedo, que compõe a 4ª Turma do TRT da 1ª Região, ressaltou na sentença que “o princípio da irredutibilidade salarial tem assento constitucional (art. 7º, VI), de forma que a redução da remuneração do empregado não pode ficar ao alvitre da Companhia, a pretexto de austeridade das contas, acabam por avançar sobre direitos laborais relativos à subsistência do trabalhador. (…). O princípio da irredutibilidade salarial baseia-se no objetivo de haver estabilidade econômico-financeira do empregado. Nesse diapasão, importa a estabilização de sua condição econômica, que se adaptou ao longo do tempo, de modo que a alteração contratual lesiva perpetrada pela ré se afigura ilegal.

Leia sentença na íntegra

Em audiência pública, secretário estadual de Saúde do MS enfrenta negacionistas da COVID-19 e os chama de “nazistas e fascistas da atualidade”

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Secretário estadual de Saúde do MS, Geraldo Resende, responde de forma dura a manifestantes que impediam realização de audiência pública na Câmara de Vereadores de Campo Grande

Em uma audiência pública realizada para discutir a implantação de um “passaporte da imunidade” no estado do Mato Grosso do Sul, o secretário estadual de Saúde,  Geraldo Resende, resolveu literalmente nome aos bois e chamou manifestantes de “nazistas e fascistas da atualidade” por tentarem se opor aos esforços realizados para conter a continuidade da pandemia da COVID-19, dizendo que a maioria do povo os irá colocar na lata de lixo da história (ver vídeo abaixo).

Erro
Este vídeo não existe

De quebra, Resende defendeu que se avance na implantação de um passaporte sanitário no Mato Grosso do Sul como forma de proteger vidas e deter a pandemia da COVID-19.

Eu diria, sem conhecer a trajetória do secretário estadual de Saúde do MS que ele disse o que muitos pensam e não têm coragem ou oportunidade de dizer.

Podcast com Ailton Krenak: A Terra está com febre!

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“A Terra está com febre!” A frase é do líder indígena, escritor e ambientalista Ailton Krenak, convidado do 36º episódio do Política ao Quadrado. Além de trazer reflexões sobre o custo do atual modelo de consumo e de desenvolvimento para o planeta, o convidado falou sobre vida, morte e sonhos.

Ao explicar as contradições do fenômeno do aquecimento global, Krenak alertou que a Amazônia poderá virar um “Pantanal estragado”, um deserto, enquanto a Rússia demonstra satisfação com o degelo das calotas polares – o que pode aumentar a quantidade de terras daquele país. O líder indígena aponta a existência de estudo de previsão de alteração do bioma da floresta já em 2035, caso o planeta continue esquentando. Autor de livros como “A vida não é útil”, “O amanhã não está a venda” e “Ideias para adiar o fim do mundo”, ele afirma que a questão central a ser discutida na próxima Cúpula do Clima são soluções para desaquecer o planeta.

A pandemia de COVID-19 é outro resultado do desequilíbrio do ecossistema terrestre, conforme o escritor. Ele relatou desconhecer pessoa sensata que a considera um fenômeno natural. Ao observar animais, plantas e insetos livres do vírus, enquanto humanos caíam mortalmente, Krenak conclui: “a covid tem endereço, o endereço dela é o organismo do Homo sapiens. Se o planeta Terra em desequilíbrio deixou escapar um vírus que mata os humanos, a gente está esperando o que pra entender que estamos fazendo a coisa errada?”

O convidado criticou os projetos de desenvolvimento para a Amazônia que permitem a exploração econômica da região por meio de atividades como a agropecuária e a mineração. Ele lembra que a ONU começa a projetar os objetivos do milênio colocando em questão os índices que tomam como referência o acesso a eletrodomésticos, internet, habitações com luz elétrica e saneamento. “Você chega numa metrópole onde todo mundo está empilhado, todo mundo tem fogão, geladeira e carro. Só que eles estão com doença mental”. As novas avaliações de desenvolvimento humano deveriam levar em consideração fatores como segurança alimentar e as condições que proporcionam um estado psicológico saudável.

Quem faz o quadrado? O Política ao Quadrado é o podcast de primeira que vai ao ar toda segunda. A produção independente tem apresentação de Lívia Carolina e Caio Barros, técnica e vídeo por Kauê Pinto, edição e mixagem de Brunno Rossetti e produção de Germano Neto.

Ouça o episódio:

https://spoti.fi/3AMcu4y

O agro é pó, e não pop… e tome “haboob caipira” para provar isso

haboob

A mídia corporativa até agora deu uma cobertura do tipo “passar o pano” para um intenso processo de invasão de nuvens de poeira que vem ocorrendo em Ribeirão Preto (SP) e outros municípios como Franca (que ficam a cerca de 80 km de distância  um da outro). Segundo informou de forma bem prosaica o jornalista Wanderley Preite Sobrinho para o site UOL, o fenômeno que está ocorrendo no coração do latifúndio agro-exportador brasileiro, que transformou a paisagem dos municípios atingidos em uma espécie de Dubai caipira, se chama “haboob” e resulta da ocorrência de fortes temporais de chuva com ventos fortes que, ao entrarem em contato com o solo seco, encontram resquícios de queimada, poeira e vegetação, os quais acabam criando um “rolo compressor” de sujeira que pode chegar a até 10 quilômetros de altura (ver vídeos abaixo).

O problema é que a matéria escrito Wanderley Preite Sobrinho “esqueceu” de mencionar que Ribeirão Preto e os municípios mais próximos têm a maioria das suas terras agrícolas destinadas principalmente ao plantio da monocultura da cana-de-açúcar, o que facilitou a ocorrência deste “haboob”, provavelmente porque os temporais encontraram muita terra nua após a colheita anual de grandes extensões desta lavoura. Assim, ainda que a situação do uso da terra seja ligeiramente diferente, a proximidade espacial fez o município, mais conhecido pelo plantio da monocultura do café, também sofresse os impactos deste fenômeno climático. Em comum, a remoção praticamente total da cobertura florestal.

E a questão aqui é simples: a persistência das grandes monoculturas (independente de qual seja a lavoura dominante) está no cerne da geração deste tipo de fenômeno que antes parecia destinado a ocorrer em regiões desérticas, mas que agora estão ocorrendo aqui mesmo no Brasil, em regiões que outrora eram ocupadas por grandes extensões de florestas, como era o estado de São Paulo até metade do século XX.

Esse “haboob caipira” é mais uma prova de que as mudanças climáticas estão ocorrendo em uma velocidade até maior do que a comunidade científica tem previsto. E quanto antes acordarmos para essa realidade, mais cedo iremos pensar seriamente em nos ajustarmos a um clima em ritmo de mudança acelerada.

Voltando à matéria de Wanderley Preite Sobrinho, uma parte hilária da mesma é sobre um pedido da Sabesp para que as pessoas não lavem a calçada para tirar a poeira trazida pelo haboob. O problema é aqui, lavar com qual água se a região passa por uma gravíssima crise hídrica?