Cacau Sustentável da Amazônia cria oportunidade de ação conjunta para Brasil, Colômbia e Peru

cacau sustentável
Por Fabíola Zerbini
Os olhos do mundo estão voltados para a Amazônia. O desafio que se coloca é o de preservar a maior floresta tropical do mundo e ao mesmo tempo, conservar o território das tantas comunidades e povos indígenas que habitam o local – são cerca de 30 milhões de pessoas nas regiões amazônicas do Brasil, Colômbia e Peru. Uma das oportunidades que se apresenta está relacionada ao cacau, fruto nativo que faz parte da cultura amazônica há mais de 14 mil anos, cultivado e cultuado ao longo do tempo por diversos povos originários, principalmente nos três países destacados.
 

A região amazônica reúne a mais diversificada variedade de cacau do mundo em termos genéticos, de sabor e de espécies. Uma combinação entre genética, práticas agrícolas e qualidades de clima e solo podem significar a obtenção de um cacau de alta qualidade, sob práticas de sustentabilidade, conectividade com a paisagem e respeito a aspectos culturais milenares, com potencial para gerar uma produção de cacau com maior valor agregado e consequentemente, comercializado a preços mais elevados. A partir do consenso entre brasileiros, colombianos e peruanos envolvidos na cadeia de produção do cacau de origem amazônica, está surgindo um Plano Estratégico de Desenvolvimento do Cacau Sustentável da Amazônia, com o intuito de atrair compradores e investidores interessados no combate ao desmatamento por meio de uma cadeia de fornecimento que promova a inclusão social e seja orientada pela bioeconomia.

O cultivo sustentável pode colaborar na restauração de áreas degradadas e na redução do desmatamento, além de proporcionar melhoria de vida para agricultores – em sua maioria, pequenos e médios – e suas comunidades, com atributos de potencial apelo para os mercados globais, abrindo um novo caminho para a proteção da Amazônia. Brasil, Colômbia e Peru podem construir uma estratégia sólida em torno da marca Cacau de Origem Amazonica Sustentável; uma oferta unificada de produção diferenciada de cacau, lucrativa para as famílias produtoras e que contribua para uma relação positiva com as florestas e seu ecossistema. Uma agricultura intensiva na produtividade mas não em extensão de terras. O desafio de construir um mercado para o cacau sustentável está colocado; e deve ser respondido de forma articulada entre os três países, considerando a dinâmica do mercado e suas tendências em escala global.

A inovação se dá na estratégia, na metodologia da produção e também na sua relação com o mercado comprador, visto que o objetivo não é atender a uma demanda existente e sim, construir uma demanda. Trata-se, portanto, do desenvolvimento de um novo produto e de um novo mercado. Para viabilizar este novo cenário, é crucial o diálogo franco entre todos os atores envolvidos no mercado interno e com as comunidades indígenas e famílias agricultoras. É deste intenso compartilhamento de ideias que irá emergir uma proposta estratégica e prática que deve incluir suporte técnico, infraestrutura, crédito, e certificações, resultando em significativas melhorias na logística e em aumento de produtividade e rentabilidade.

No Peru, país que concentra seis das dez famílias genéticas do cacau no mundo, a partir da perspectiva Produção – Proteção – Inclusão, foi firmado recentemente o Acordo Cacau, Bosques y Diversidade, com oferta de assistência e extensão rural integral, acesso à tecnologia e inovação, financiamento em condições favoráveis e incentivos para a conservação e a restauração. Pelo acordo, foram estabelecidos compromissos do setor privado – entre eles, a análise de suas cadeias de fornecimento, o estabelecimento de políticas e metas quantitativas de curto, médio e longo prazos, a promoção da intensificação produtiva sustentável e a restauração produtiva em áreas degradadas -, tendo como marco histórico o ano de 2025 para que a totalidade da produção seja livre de desmatamento, de forma verificável. Por parte do setor público e das organizações da sociedade civil, os compromissos assumidos incluem a mobilização de investimentos para a proteção e a restauração da floresta vinculada à produção de cacau, a promoção de mecanismos de incentivo os pequenos produtores, e a colaboração na geração e transmissão de conhecimento para identificar e promover a adoção de práticas sustentáveis de produção de cacau e o desenvolvimento tecnológico da cadeia.

Na chamada Amazônia Legal brasileira, que inclui os estados do Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima, Tocantins, e parte do Maranhão, existe sobreposição entre áreas protegidas e municípios com áreas de cultivo de cacau, mas as áreas semeadas de cacau estão aumentando, o que, dependendo do tipo de valor de conservação e usos permitidos, pode representar uma alteração nos ecossistemas ou uma oportunidade de avançar para uma cultura como o cacau agroflorestal, com grande potencial na restauração de paisagens. O Brasil tem capacidade para se tornar autossuficiente em termos de demanda interna de cacau ou mesmo para atingir, em certa medida, ofertas para a demanda externa. É importante que o país avance nas politicas e estruturas de incentivo à produção de um cacau de qualidade e de seu processamento para atender à demanda interna e externa, e alcançar o estabelecimento de cacau de maior qualidade na produção de origem, uma vez que ambos os fatores valorizam o produto. No entanto, para se posicionar no mercado de cacau fino, é preciso melhorar a qualidade do cacau atualmente produzido, otimizando técnicas de pós-colheita, juntamente com políticas públicas que visem ao desenvolvimento da cadeia produtiva nacional e assistência técnica. Só assim será possível obter reconhecimento e aprovação internacional como produtor de cacau de qualidade superior relacionada à origem. Quando essas características são reconhecidas, elas podem ser valorizadas pelo consumidor por meio de um selo ou uma denominação que remeta à origem.

O objetivo primordial do esforço pelo Cacau de origem Amazônica Sustentável é estimular a conservação e recuperação da floresta amazônica por meio de arranjos agroflorestais de cacau que possibilitem a obtenção de preços mais elevados e maior produtividade por hectare. O cacau em arranjos agroflorestais deve considerar as espécies atrativas para a fauna, tornando-se um aliado da conservação das espécies. Da mesma forma, sua colheita deve gerar conectividade entre os fragmentos florestais, o que também permitirá que sejam culturas aliadas de grandes mamíferos que utilizam esses espaços para sua mobilidade. O cacau agroflorestal sustentável tem um impacto positivo no meio ambiente, permitindo a captura de carbono e a sustentabilidade dos ecossistemas, preservando e melhorando os solos, as fontes de água e preservando a biodiversidade.

Para melhorar os preços de venda do cacau, os produtores podem se associar para reduzir os custos pós-colheita e melhorar a qualidade do grão pela unificação dos processos de fermentação e secagem, para assim obter um melhor preço de venda e certificações, como comércio justo e produção orgânica, o que lhes confere um aumento de preço.

Em conclusão, a região amazônica tem potencial para o desenvolvimento da cultura do cacau e reconhecimento de origem, pois suas condições climáticas e ambientais favorecem o cultivo da planta nativa da região. Para avançar na viabilização do Cacau de origem Amazônica Sustentável, é crucial a interação de organizações públicas e privadas com os produtores locais. União e trabalho conjunto para a valorização da floresta em pé e dos produtores locais, em direção a uma posição de relevância do cacau amazônico nos mercados internacionais. Mãos à obra!

 
Por Fabíola Zerbini é Doutora em Ciência Ambiental pelo PROCAM/USP e Diretora Regional da TFA (Tropical Forest Alliance) para a América Latina

Assembleia da OMS: contrato pandêmico em vez de liberação de patente?

A Assembleia Mundial da Saúde trata de como uma futura pandemia pode ser evitada

graveyardO número de mortes relacionadas com a pandemia corona é duas a três vezes maior em todo o mundo do que os 3,4 milhões suspeitos anteriormente. Foto: AFP / MICHAEL DANTAS

Por Marc Engelhardt, Genebra, para o Neues Deutschland 

Lutar contra o COVID-19 e se preparar para a próxima pandemia são os verdadeiros temas da 74ª Assembleia Mundial da Saúde, que começou na segunda-feira de Whit em Genebra. Mas já na abertura desta reunião anual de todos os 194 estados membros da Organização Mundial da Saúde (OMS) fica claro o quanto o hiato global entre ricos e pobres está ofuscando as discussões.

“Um pequeno número de países que produziu e comprou a maioria da vacina controla o destino do resto do mundo”, criticou o chefe da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, referindo-se principalmente aos dez países que atualmente são 75% dos mais de um bilhão de vacinas usadas em seus próprios cidadãos.

“As vacinações dadas até agora teriam sido suficientes para que toda a equipe médica e todos os idosos fossem vacinados em todo o mundo se tivessem sido distribuídas de forma justa”, disse Tedros. O secretário-geral da ONU, António Guterres, também alertou que a COVID-19 não poderia ser derrotada se um país após o outro fosse vacinado. “Se não fizermos nada agora, os países ricos vacinarão suas populações e abrirão suas economias, enquanto o vírus circula e sofre mutações nos países mais pobres.” O resultado são centenas de milhares de mortes. Como Tedros, Guterres também apoiou o levantamento temporário da proteção de patente para vacinas da COVID-19 durante a pandemia, a fim de dobrar a produção global tanto quanto possível.

As estatísticas globais de saúde apresentadas pela OMS na sexta-feira mostram como essas vacinas adicionais seriam necessárias. Conseqüentemente, o número de mortes em conexão com a pandemia é duas a três vezes maior do que os 3,4 milhões suspeitos anteriormente. Uma das razões para isso é que, especialmente em países pobres, muitas vezes não está claro do que as pessoas morrem.

Na África, por exemplo, de acordo com a OMS, apenas uma em cada dez mortes é registrada de forma confiável, enquanto na Europa é de 98 por cento. Outra razão para o alto número de casos não relatados: muitas outras doenças graves não foram tratadas na pandemia da corona, também porque os sistemas de saúde foram e estão sobrecarregados pelos pacientes da corona. Por outro lado, a iniciativa chamada “ACT Accelerator” lançada pela OMS deve ajudar. Uma “Cúpula Mundial da Saúde” separada da UE e dos países do G-20 em Roma discutiu como ela deveria ser fortalecida na sexta-feira.

A iniciativa, que também inclui o programa de vacinação da Covax, está faltando US $ 18,5 bilhões, além de vacinas, testes da COVID-19, oxigênio e ventiladores, ou seja, praticamente tudo o que é escasso e cobiçado na pandemia. A UE prometeu mais 100 milhões de doses de vacina para os países mais pobres do mundo na sexta-feira, e os fabricantes prometeram bilhões de doses.

No entanto , isso não altera a escassez aguda na maioria dos países do mundo por enquanto. Já os bem vacinados representantes dos países industrializados estão menos preocupados com o presente do que com o futuro.

“Depois que a pandemia é antes da pandemia, devemos estar o mais bem preparados possível para a próxima”, disse a chanceler Angela Merkel no início. Ela fez campanha por um “tratado de pandemia” global que obrigaria os estados a cooperar e ser mais transparentes sobre a próxima pandemia. O problema: a negociação de um contrato desse tipo poderia levar anos, se fosse para ser alcançado. China, Rússia e Brasil estão resistindo a tal acordo, que permitiria à OMS, por exemplo, publicar informações sobre o curso de uma pandemia sem o consentimento dos estados envolvidos.

Os EUA também mostraram pouco interesse até agora. É verdade que três comissões que examinaram o trabalho da OMS durante a pandemia pediram o fortalecimento da organização. Mas se isso realmente acontecerá na próxima semana é, na melhor das hipóteses, incerto. Uma resolução apresentada pela UE, que deve dar à OMS mais oportunidades para investigações independentes sobre suspeitas de pandemias, foi diluída a tal ponto antes do início da assembleia que provavelmente não passará de outro apelo não vinculativo para fortalecer a organização quando a decisão é tomada. E quando se trata de mais dinheiro, de que a OMS precisa com urgência, com seu orçamento anual de pouco menos de dois bilhões de euros, os europeus também falham.

Por um lado, países como a Alemanha já aumentaram suas doações durante a pandemia, outros doadores apontam para os custos da pandemia corona em seu próprio país. Quase todos também se limitam à destinação da maior parte de seus fundos. Mas isso priva a OMS exatamente do que as comissões pedem: mais independência.

Para o chefe da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, esse é um problema que afeta não só a organização que lidera, mas também a si mesmo. Seu mandato expira no próximo ano. Se ele será proposto novamente por cinco anos no topo da OMS depende acima de tudo se a luta global contra a pandemia COVID-19 será melhor do que antes nos próximos meses. Ainda não parece.

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Este texto foi escrito originalmente em alemão e publicado pelo “Neues Deutschland [Aqui!].

Corporações do setor alimentar rejeitam nova lei inglesa que pune produção agrícola em áreas desmatadas ilegalmente nos trópicos

 

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Foto aérea tirada de áreas queimadas da floresta amazônica, perto de Porto Velho, estado de Rondônia, Brasil. Fotografia: Carlos Fabal / AFP / Getty Images

Novo projeto de lei aplicará multas a empresas sediadas no Reino Unido que não conseguirem cortar ligações com terras desmatadas ilegalmente nos trópicos

Por Fiona Harvey correspondente do meio ambiente, para o “The Guardian”

As associações comerciais que representam os principais fornecedores de alimentos questionaram a necessidade de novas regulamentações para proteger as florestas no exterior, que serão apresentadas ao parlamento no projeto de lei ambiental na quarta-feira.

projeto de lei, que está com sua aprovação muito atrasada , conterá disposições para forçar as empresas sediadas no Reino Unido a examinar em profundidade suas cadeias de suprimentos e garantir que estejam livres de ligações com terras desmatadas ilegalmente no exterior.

Será a primeira vez que tais requisitos de devida diligência serão introduzidos na lei do Reino Unido, e ativistas e algumas empresas acolheram bem as mudanças. Regulamentações semelhantes também estão planejadas na UE .

No entanto, documentos obtidos sob a Lei de Liberdade de Informação mostram que empresas e associações comerciais que representam marcas domésticas disseram que os requisitos podem ser muito onerosos, aumentar os custos ou podem não funcionar.

A Cargill, gigante das commodities com sede nos Estados Unidos que tem sido associada ao desmatamento na Amazônia , disse ao governo que custaria mais: “Há um risco de que a devida diligência não supere suficientemente [problemas com rastreabilidade de mercadorias] sem prejudicar a resiliência da cadeia de abastecimento e eficiência, com impactos de custo associados. ”

Alguns órgãos do setor agrícola e da indústria alimentícia também questionaram as penalidades propostas no novo projeto de lei, de multas a empresas que infringirem as exigências.

A Seed Crushers and Oil Processors Association (SCOPA), que representa as empresas de soja e óleo de palma, disse em sua resposta: “Não nos sentimos confortáveis ​​com a ameaça de multas cobradas contra empresas que violam esta lei. A menos que tais violações possam ser definidas de alguma forma como deliberadas ou conscientes, o perigo é que as empresas possam ser penalizadas, apesar de fazerem tudo ao seu alcance para cumpri-las. ”

A International Meat Trade Association (IMTA), cujos membros incluem as carnes brasileiras JBS e Minerva associadas ao desmatamento na Amazônia , respondeu “não sei” a uma pergunta na consulta do projeto de lei ambiental, que questionava se deveria ser ilegal no Reino Unido para as empresas usarem commodities de risco florestal provenientes de terras desmatadas ilegalmente no exterior.

A IMTA também questionou se as multas eram necessárias, perguntando: “Foi considerada uma abordagem baseada em incentivos em vez de uma focada em multas?”

A Agricultural Industries Confederation (AIC) disse em sua resposta à ameaça de multas: “O processo deve ser extremamente robusto porque pode prejudicar desnecessária e involuntariamente a reputação de uma empresa. Isso é especialmente verdadeiro para empresas maiores, nacionais ou multinacionais, que respondem aos acionistas; não pode ser subestimado o quão prejudicial uma multa ou repreensão emitida pelo governo pode ser. ”

A AIC, que representa os fornecedores agrícolas no Reino Unido, também alertou sobre o aumento dos custos e pediu ao governo que “reconheça e trabalhe com as medidas e iniciativas existentes antes de qualquer coisa”.

A Chilled Foods Association (CFA) também questionou se a devida diligência era necessária, dizendo que “já foi feita sempre que possível”, e disse que os relatórios públicos “já foram questionados internamente por muitas empresas associadas”.

Objetivos fracassados ​​das maiores marcas de alimentos para banir o desmatamento do óleo de palma ‘

Sam Lawson, fundador do grupo de campanha Earthsight, que obteve as respostas do FoI, disse: “Grandes agronegócios que operam nos trópicos afirmam levar a sério o combate ao desmatamento, mas a resposta morna de suas associações a esta lei é significativa. Eles querem que o governo confie que eles farão a coisa certa. Mas eles têm mostrado repetidamente que não são confiáveis. Esta lei precisa de dentes ”.

Ele comparou as respostas questionando os requisitos com algumas empresas que adotaram o projeto de lei. A Unilever, a Nestlé e o British Retail Consortium responderam à consulta pedindo aos ministros que fortaleçam a lei para proibir todas as importações relacionadas ao desmatamento.

Um porta-voz da Cargill disse: “A Cargill está firmemente comprometida em transformar suas cadeias de suprimentos agrícolas em desmatamento e sem conversão por meio de políticas de cadeia de suprimentos prioritárias e planos de ação com prazos. Saudamos e apoiamos a atenção e o compromisso do Reino Unido com a devida diligência para commodities de risco florestal. Acreditamos que a complexidade do desafio justifica uma consideração cuidadosa quanto à ‘combinação inteligente’ mais apropriada de ferramentas que contribuiria para resolver as causas do desafio. Para isso, o engajamento e o diálogo com os países produtores, onde este desafio e a necessidade de capacitação são mais agudos, são de extrema importância ”.

Angela Bowden, secretária-geral da SCOPA, disse: “De forma alguma a SCOPA está procurando ‘diluir’ esta legislação proposta, na verdade [nossos] membros todos têm sistemas robustos de devida diligência em vigor agora e relatam isso publicamente. Qualquer legislação deve ser aplicável e, como tal, deve reconhecer as complexidades das cadeias de abastecimento de commodities e incentivar a parceria com os países produtores para alcançar a transformação sustentável das cadeias de abastecimento. Sem isso, há o perigo de desligamento de áreas de alto risco, o que seria prejudicial para fornecedores de terceiros países e prejudicial para os objetivos de abordar o risco de desmatamento e apoiar a produção sustentável. ”

Um porta-voz do IMTA disse: “O IMTA respondeu à consulta do governo sobre a devida diligência em commodities de risco florestal. Apoiamos o governo que analisa esta iniciativa e em nossa resposta clamamos por ‘total engajamento e colaboração com a cadeia de abastecimento’ para ‘melhor garantir que as recomendações de políticas resultantes sejam tão eficazes quanto possível’. ”

A AIC disse que não se opõe a multas ou aos requisitos de devida diligência do projeto de lei. “Se qualquer empresa em uma cadeia de suprimentos está fornecendo conscientemente produtos adquiridos ilegalmente, é certo que as sanções sejam aplicadas, no entanto, a AIC deixa claro que o processo deve ser robusto e justo. A posição da AIC é que a legislação proposta deve se basear nas mesas redondas do Reino Unido sobre soja e óleo de palma sustentáveis ​​e na Iniciativa de Recursos Globais do Reino Unido, cujas recomendações foram o precursor da legislação de devida diligência. ”

Karin Goodburn, diretora geral da CFA, disse: “Desafiar em nossa indústria significa algo que é examinado extensivamente e auditado. Nossos membros já fazem relatórios sobre RSE / sustentabilidade para seus clientes de varejo. Fazer isso diretamente ao governo seria a duplicação de dados. O tipo de due diligence realizada como padrão em nosso setor vai além de qualquer abordagem legalmente obrigatória atual e depende dos requisitos dos clientes de varejo. ”

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Este texto foi escrito originalmente em inglês e foi publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

Dia do Trabalhador Rural: agricultores familiares utilizam técnicas de manejo sustentável na Amazônia

Programa Florestas de Valor, do Imaflora, apoia 150 famílias no Pará com o desenvolvimento de sistemas agroflorestais
 
 
 
São Paulo, 24 de maio de 2021 – O Dia do Trabalhador Rural, comemorado na data de 25 de maio, busca reconhecer o trabalho feito por milhões de agricultores em todo o Brasil. E uma parcela importante desses trabalhadores são formados por produtores da agricultura familiar. Segundo dados da mais recente edição do Censo Agropecuário, de 2017, cerca de 3,8 milhões de estabelecimentos agropecuários são classificados como sendo da agricultura familiar, o que representa 77% do total.

Em termos de área, na época da pesquisa a agricultura familiar ocupava 80,9 milhões de hectares, ou 23% da área total dos estabelecimentos agropecuários brasileiros. São mais de 10 milhões de famílias nessa atividade, que é responsável por gerar renda para 67% dos brasileiros que trabalham no campo.

Valdenilton Lopes de Nina é um desses agricultores. Ele possui um lote de 20 hectares no Projeto de Desenvolvimento Sustentável (PSD) Paraíso, um assentamento de colonização e reforma agrária localizado em Alenquer, no Pará. Com 48 anos de idade, sua vida toda foi no campo, lidando com a terra. Mas, há 11 anos, estimulado pelo programa Florestas de Valor, do Imaflora, desenvolve seu plantio seguindo o sistema agroflorestal (SAF), que reúne espécies agrícolas e florestais.

Nesse modelo, é possível diversificar a produção, gerando uma maior opção de renda para os agricultores, além de promover a soberania alimentar das famílias, que têm acesso a uma variedade maior de alimentos. Além disso, a plantação próxima de árvores gera benefícios econômicos e ambientais. As frutas das árvores podem ser comercializadas, e as árvores sequestram o carbono contribuindo com a regulação climática do planeta.

O Florestas de Valor leva técnicas de sistemas agroflorestais e outras como o Roça sem Fogo, promovendo o manejo do solo sem o uso do fogo, evitando incêndios e reduzindo emissões de gases do efeito estufa. As ações beneficiam cerca de 150 famílias nos municípios de Oriximiná, em comunidades quilombolas, e Alenquer, no PDS Paraíso, na região conhecida como Calha Norte do Rio Amazonas, no norte do Pará. Cerca de 150 hectares de terra já foram preparados com técnicas de sistemas agroflorestais e Roça sem Fogo desde o início do programa, em 2010.

Vadenilton consegue tirar sua renda da plantação de mandioca e da coleta e comercialização de sementes de cumaru, e produz também espécies como laranja, limão, cacau e feijão que, durante dois anos, forneceu para o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE). Ao mesmo tempo que produz, Vadenilton garante a conservação do meio ambiente, ressaltando a importância do modelo de agroflorestas e também de Roça sem Fogo. “Com certeza melhorou muito após os SAFs. Com o projeto a gente conseguiu trabalhar com áreas mecanizadas, e dá para reaproveitar a mesma área. A gente fica mais tranquilo pra plantar cumaru e ir variando o plantio, porque sabe que no ano seguinte não vai ter fogo”, explica o agricultor. Quando não havia o sombreamento dos SAFs, todo ano era preciso abrir uma nova área para o plantio. “Agora parou. Mais da metade do terreno é floresta, e a gente vai botando outras espécies”, conta Valdenilton. O forte da produção é a mandioca e o cumaru, e as demais plantações servem para a variação de cultura.

O trabalho do Imaflora envolve também subsídios, treinamentos, fornecimento de mudas e sementes para a produção. Com isso, a experiência de agricultores como Valdenilton pode servir de exemplo e alcançar outros produtores. “Com os treinamentos, muitos agricultores tornam-se multiplicadores, passando as técnicas adiante”, explica Leonardo Ferreira, Coordenador de Projetos do Imaflora.


Florestas de Valor

O programa Florestas de Valor, do Imaflora, busca fomentar atividades agroextrativistas e agrícolas de base ecológica na Amazônia para consolidar áreas protegidas, conservar recursos naturais e valorizar as populações tradicionais e agricultores familiares. O programa atua em mais de 4 milhões de hectares de áreas protegidas da Amazônia, nos territórios da Calha Norte do Rio Amazonas e no município de São Félix do Xingu, no Pará, contando com patrocínio da Petrobras, por meio do Programa Petrobras Socioambiental e recursos do Fundo Amazônia/BNDES. O território da Calha Norte no Norte do estado do Pará concentra o maior bloco de áreas protegidas de floresta tropical do mundo, abrangendo uma área superior a 20 milhões de hectares, abrangendo grande diversidade biológica e social, com povos indígenas, comunidades tradicionais e extrativistas.


Sobre o Imaflora

O Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora) é uma associação civil sem fins lucrativos, criada em 1995 sob a premissa de que a melhor forma de conservar as florestas tropicais é dar a elas uma destinação econômica, associada a boas práticas de manejo e à gestão responsável dos recursos naturais. O Imaflora acredita que a certificação socioambiental é uma das ferramentas que respondem a parte desse desafio, nos setores florestal e agrícola, com forte poder indutor do desenvolvimento local sustentável. Dessa maneira, busca influenciar as cadeias produtivas dos produtos de origem florestal e agrícola, colaborar para a elaboração e implementação de políticas de interesse público e, finalmente, fazer a diferença nas regiões em que atua, criando modelos de uso da terra e de desenvolvimento sustentável que possam ser reproduzidos em diferentes municípios, regiões e biomas do país.

Mais informaçõeshttp://www.imaflora.org

Agricultura ilegal é o principal motor do desmatamento na América Latina e no Caribe

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No Brasil, os principais produtos agrícolas responsáveis ​​pelo desmatamento são a carne bovina e a soja. As pastagens geraram 74% e a soja, 20% da perda florestal. Crédito da imagem: Marcelo Camargo / Agência Brasil , sob licença Creative Commons 3.0

O desmatamento na América Latina e no Caribe é responsável por 44% da perda total das florestas tropicais, e a maior parte da conversão agrícola foi realizada ilegalmente, conclui um estudo global da organização sem fins lucrativos Forest Trends .

De acordo com o relatório, o planeta perdeu 77 milhões de hectares de florestas tropicais entre 2013-2019 na América Latina, Sudeste Asiático e África. Destes, 60 por cento – 46,1 milhões de hectares – foram impulsionados pela agricultura comercial , e pelo menos 69 por cento desta agro-conversão foi realizada ilegalmente.

Commodities como carne bovina, soja e óleo de palma foram responsáveis ​​pela destruição de pelo menos 31,7 milhões de hectares de florestas tropicais no mundo durante os últimos sete anos, um montante que representa 4,5 milhões de hectares por ano e representa 2,7 gigatoneladas de emissões anuais de CO2.

“Não precisamos cortar mais florestas para cultivar alimentos”, disse o ecologista Arthur Blundell, co-autor do novo relatório que lança luz sobre a inter-relação entre a agricultura comercial e o desmatamento ilegal , ao SciDev.Net . “As pessoas precisam entender o papel da agricultura comercial em impulsionar o desmatamento ilegal e a importância das florestas tropicais”, acrescenta.

“Infelizmente, a floresta ainda não é considerada algo viável (economicamente), daí o interesse em desmatar para torná-la produtiva. O agronegócio, por sua vez, tem viabilidade econômica e altos incentivos do ponto de vista financeiro ”, conta o geógrafo Eraldo Matricardi, professor associado da Universidade de Brasília (UnB), que não participou do estudo , à SciDev.Net .

Com base em dados de 23 países, o estudo estima que o desmatamento na América Latina e no Caribe é responsável por 44% (33,9 milhões de hectares) de todas as perdas florestais nos trópicos, e 77% dessa perda foi devido à agricultura comercial.

Na Ásia, as perdas florestais representam 31% do total, 76% das quais causadas pelo agronegócio.

Na África, a extração de madeira é responsável por 25 por cento da perda de floresta tropical do mundo, mas o desmatamento ilegal impulsionado pela agricultura comercial é baixo no continente (10 por cento), com a maior parte da perda devido à agricultura de subsistência.

Embora algum desmatamento seja necessário por razões sociais e econômicas – atividades de subsistência, por exemplo, exigem algum desmatamento, assim como a agricultura comercial – Matricardi explica que a diferença é que o desmatamento legal segue critérios técnicos. Mas “faltam critérios para o desmatamento ilegal”, diz o especialista em mudanças no uso do solo.

De acordo com o relatório, cerca de 81% da extração de óleo de palma da Indonésia, o principal alimento básico do país, é ilegal.

No Brasil, os principais produtos agrícolas responsáveis ​​pelo desmatamento são a carne bovina e a soja. As pastagens geraram 74% e a soja, 20% da perda florestal. No México, a agricultura comercial é a causa de 68% da perda florestal, com uma combinação de grandes fazendas e campos menores para plantações e frutas

“Os produtores agrícolas precisam fazer cumprir suas leis e impedir o desmatamento ilegal, mas os consumidores internacionais também têm um papel a cumprir. Eles têm que ter certeza de que o que compram não tem relação com a perda de florestas ”

Arthur Blundell, ecologista e co-autor principal do relatório Forest Trends

Junto com a soja, o óleo de palma e os produtos da pecuária (carne e couro), outros produtos básicos, como cacau, borracha, café e milho, também são os principais responsáveis ​​pelo desmatamento ilegal.

O estudo também chama a atenção para a responsabilidade dos consumidores dos Estados Unidos, China e União Europeia (UE), principais importadores desses produtos básicos.

“Os produtores agrícolas precisam fazer cumprir suas leis e impedir o desmatamento ilegal, mas os consumidores internacionais também têm um papel a cumprir. Eles devem garantir que o que compram não está relacionado à perda de floresta. Se você está comprando algo no Brasil, por exemplo, há muitas evidências de que pode vir do desmatamento ”, diz Blundell.

Matricardi concorda que a melhor estratégia seria controlar o consumidor e explica que atualmente os países europeus estão mais atentos ao que compram. Isso se reflete nas exportações brasileiras de soja: 70% vai para a China e 13% para a UE, mas enquanto as exportações para a China estão aumentando, as importações da UE do Brasil estão diminuindo.

A ilegalidade é apresentada como o principal motor do desmatamento: a maior parte da conversão agrícola foi realizada em violação às leis e regulamentos nacionais na América Latina (88%), África (66%) e Ásia (41%). Nos 23 países analisados, o percentual de conversação agrícola ilegal varia de 37% na Malásia a 89% na Colômbia e 97% no México.

Os autores apontam que a ilegalidade é consequência dos sistemas corruptos nos países, especialmente no Brasil e na Indonésia.

No Brasil, a ilegalidade supõe “impunidade para desmatamento em reservas legais e áreas preservadas, anistia para apreensão de terras e desmatamento acelerado de proteções ambientais, desde a chegada do presidente Jair Bolsonaro ao poder”, diz o relatório. Na Indonésia, políticos corruptos usaram autorizações de concessão para melhorar suas chances nas eleições locais, e as empresas estão evitando impostos de desmatamento e outras taxas.

Olhando para o papel que o desmatamento desempenhou na mudança climática, o relatório mostra que as emissões da agroconversão ilegal respondem por mais de 2,7 gigatoneladas de CO 2 por ano, o que é mais do que as emissões da Índia de combustíveis fósseis em 2018.

“Não podemos lidar com a mudança climática a menos que abordemos o desmatamento ilegal, e não podemos lidar com o desmatamento ilegal sem abordar a alimentação comercial”, conclui Blundell.

Matricardi também alerta sobre os efeitos que as mudanças climáticas podem ter na agricultura comercial. “Existem regiões onde o clima e a redução das chuvas terão grande influência na agricultura. A irrigação será resolvida por um tempo, mas no longo prazo os efeitos serão graves. “

Um problema que os pesquisadores enfrentam é que muitos países não relatam dados sobre o desmatamento ilegal e as informações nacionais confiáveis ​​são escassas.

Link para o estudo Forest Trends

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Este texto foi escrito originalmente em Espanhol e publicado pelo SciDev [Aqui].

Capital e corpo

A pandemia da COVID-19 joga o trabalho humano para trás na competição com as máquinas

mother babyA compatibilidade da vida e do trabalho no escritório doméstico. Foto: pixabay.com

Por Stephan Kaufmann para o “Neues Deutschland”

As pessoas “, escreveu Kurt Tucholsky 90 anos atrás,” têm duas paixões além do desejo de se reproduzir e de comer e beber: fazer barulho e não ouvir “- em resumo: irritar os outros. Por mais verdadeiro que isso seja, também é verdade que as pessoas não podem viver sem as outras. A proximidade física é importante, até o toque, o que o “Dia Mundial do Carinho” anual em 21 de janeiro deve nos lembrar. O capitalismo também precisa de contato entre as pessoas em sua função de trabalhadores, como compradores e vendedores. Se você separá-los, ficará caro: De acordo com o instituto IW, que é próximo ao empregador, o “bloqueio”, ou seja, a separação do corpo humano para proteção contra a COVID-19, tem custado caro para a economia alemã até agora.

A história do capital é a história de suas tentativas de usar a natureza e ao mesmo tempo de se libertar de seus imponderáveis. Isso nunca dá muito certo – as mudanças climáticas e a pandemia são um doloroso lembrete ao capitalismo financeiro digitalizado de como ele é dependente de condições arcaicas como a concentração de CO2 e os corpos humanos. Este último, em particular, incomoda o sistema: as pessoas nascem pequenas e desamparadas, têm que crescer em paz, adoecer, precisam de pausas e recuperação até que finalmente apodreçam e morram. Não se encaixa em uma economia que não tem começo nem fim e odeia quebras.

A funcionalidade limitada do corpo humano traz enormes custos para a economia capitalista, mesmo em tempos livres de pandemia. Os bebês querem nascer e as crianças querem ser criadas. A vida e o trabalho adoecem as pessoas, o que significa um triplo golpe para as pessoas sem seguro afetadas: têm maiores custos com o tratamento, sofrem fisicamente e perdem a renda com o trabalho – o capital não paga as pessoas, mas apenas os trabalhadores. Por esse motivo, os países mais ricos introduziram fundos de seguridade social nos quais a classe de assalariados economiza compulsoriamente para os períodos de desemprego, ou seja, trabalha com antecedência.

Mesmo os corpos antigos não podem mais servir ao crescimento econômico, mas ainda querem sobreviver, que o seguro de pensão paga a 325 bilhões de euros anuais. Muitas vezes, isso não é suficiente, e é por isso que a previdência privada tem de intervir – as seguradoras ficam felizes em assumir o “risco de longevidade” individual. Além dos gastos sociais do Estado, há quase 300 bilhões de euros em seguros de saúde e de longa permanência. Todas essas somas representam custos salariais para o capital que atrapalham sua competitividade. Um corpo competitivo está sempre pronto para a ação e resiliente, o que estabelece a base econômica para a tendência de auto-otimização e para a mania juvenil prevalecente.

Não apenas os idosos e doentes, mas também o corpo funcional devem ser protegidos – em tempos normais, não de pandemias, mas das demandas das empresas. As fases de trabalho e recuperação são, portanto, estritamente prescritas. “O trabalho deve ser interrompido por um período de descanso predeterminado de pelo menos 30 minutos para horas de trabalho de mais de seis a nove horas e 45 minutos para horas de trabalho de mais de nove horas”, a Lei de Horas de Trabalho exige antes de regulamentar as exceções . Os regulamentos do local de trabalho estipulam a quanto espaço o corpo de um trabalhador de escritório plano aberto tem direito (12 a 15 metros quadrados), como ele pode ficar de pé, andar, sentar, quanto ar fresco, luz e calor ele pode usar e quanto ruído ele tem que suportar. Tudo isso é constantemente discutido, porque a luz,

O corpo humano não termina na superfície da pele, vai além disso: Há alguns meses, uma distância de 1,5 metro é a distância necessária que as pessoas têm que manter e que torna a pandemia da COVID-19 cara. Formulações como “Lockdown custou à economia 250 bilhões de euros até agora” mostram, portanto, que a proteção e o cuidado com o corpo no sistema vigente não fazem parte da economia, mas se opõem a ela, porque ela custa. E os custos são ruins, você sabe disso. A reprodução do capital e a do corpo não formam uma unidade, nem a reprodução do capital está subordinada à do corpo. Ambos se opõem, como interesses com igualdade de direitos, daí a questão permanente: Quanto vale um ano saudável? Quanto pode custar uma pessoa?

O capital precisa de pessoas para ter lucro, ao mesmo tempo que eles trazem custos dos quais ele quer se livrar. A saída para essa contradição é conhecida como “racionalização”. Quanto mais cara a manutenção da carroceria, mais atraente se torna para as empresas substituí-la por uma máquina que funcione ininterruptamente, não faça greve e faça exigências muito previsíveis nos cálculos do negócio. Nessa competição com as máquinas, a pandemia da COVID-19 joga os trabalhadores humanos para trás, porque eles perdem uma vantagem de custo em relação às máquinas. A racionalização permanente da produção de bens de capital funciona na mesma direção, tornando as máquinas mais baratas e eficientes.

O resultado da pandemia, prevê o think tank norte-americano Brookings Institute, será, portanto, um salto na “digitalização”. Em vista do aumento dos riscos à saúde, as empresas estão cada vez mais substituindo os trabalhadores por robôs. “Milhões de empregos estão ameaçados.” Em 2020, uma em cada cinco empresas na Alemanha com mais de dez funcionários no setor de manufatura usava robôs industriais ou de serviço.
Uma empresa de investimentos dos Estados Unidos comparou recentemente os preços das ações de empresas que têm um número relativamente grande de funcionários em relação às suas vendas com aquelas que trabalham relativamente poucos. Aqueles com pequeno número de funcionários tiveram um desempenho significativamente melhor. A conclusão do estudo: “Parece que teremos tempos ruins para as pessoas”.

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Este artigo foi originalmente escrito em alemão e publicado pelo “Neues Deutschland” [Aqui! ]. 

Com o espectro do embargo no ar: corporação norueguesa da avicultura exclui soja brasileira de suas rações devido ao desmatamento da Amazônia

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  • O produtor de aves norueguês Gårdsand desenvolveu uma nova receita de ração que exclui a soja brasileira devido a preocupações com o risco de desmatamento.
  • De acordo com a Rainforest Foundation Norway, Gårdsand reformulou sua ração para aves em resposta ao aumento do desmatamento na Amazônia brasileira.
  • A ação de Gårdsand segue uma decisão no ano passado da Bremnes Seashore, produtora de salmão, de excluir a soja brasileira de sua ração para peixes, enquanto os fornecedores de soja para as empresas de aquicultura norueguesas Caramuru, Imcopa e CJ Selecta indicaram que farão o mesmo.
  • O desmatamento na Amazônia brasileira tem aumentado constantemente desde meados da década de 2010, com a maior aceleração ocorrendo desde que Jair Bolsonaro assumiu a presidência em janeiro de 2019.

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Gårdsand, uma grande empresa produtora de aves da Noruegadesenvolveu uma nova receita de ração que exclui a soja brasileira devido a preocupações com o risco de desmatamento.

De acordo com a Rainforest Foundation Norway, uma organização que faz campanha sobre questões florestais como o desmatamento vinculado a cadeias de suprimentos de commodities, a Gårdsand reformulou sua ração para aves em resposta ao aumento do desmatamento na Amazônia brasileira. Gårdsand agora eliminou completamente a soja de sua cadeia de suprimentos, usando outras fontes de proteína.

“Acompanhamos a situação no Brasil com crescentes preocupações nos últimos anos”, disse May Iren Varlid Aarvold, líder de marketing da Gårdsand, em um comunicado. “Os números dos incêndios florestais e do desmatamento continuam aumentando a um ritmo alarmante. Sabendo que a produção de soja é um impulsionador do desmatamento em curso, achamos que o risco de incluir esta commodity em nosso fornecimento é tão alto que excluímos totalmente a soja de nossa cadeia de fornecimento e mudamos para outras fontes de proteína. ”

Aves alimentadas com a nova receita de Gårdsand são rotuladas como “produzido sem soja – para o bem das florestas tropicais” nos supermercados “Meny” da Noruega sob a marca “Lerstang”.

mata sojaO desmatamento para plantações de soja e fazendas de gado põe em risco os habitats dos primatas da Amazônia e impede seu deslocamento para novos locais. Os rios limitam ainda mais a capacidade de movimentação de pequenos primatas. Foto de Rhett A. Butler

A ação de Gårdsand segue uma decisão no ano passado da Bremnes Seashore, produtora de salmão, de excluir a soja brasileira de sua ração para peixes, enquanto os fornecedores de soja para as empresas de aquicultura norueguesas Caramuru, Imcopa e CJ Selecta indicaram que farão o mesmo. A Noruega também está eliminando o uso de biodiesel à base de óleo de palma devido a preocupações com o desmatamento, com o consumo diminuindo de 317 milhões de litros em 2017 para 118 milhões de litros em 2019 para 2 milhões de litros em 2020.

A Rainforest Foundation Norway diz que a Amaggi, um dos maiores produtores e exportadores de soja do mundo, não se comprometeu com uma data limite de 2020 para eliminar o desmatamento de sua cadeia de abastecimento. A Amaggi é o principal fornecedor de soja para o setor agrícola norueguês, de acordo com a ONG.

“Enquanto os números do desmatamento continuam aumentando no Brasil e a indústria da soja não consegue conter a crise, o risco de estar associado à soja só vai aumentar”, disse Ida Breckan Claudi, assessora sênior da Rainforest Foundation Norway, em um comunicado.

“A nova ração sem soja da Gårdsand envia uma mensagem clara aos comerciantes de soja de que o modelo de negócios atual dos comerciantes é incompatível com as ambições de sustentabilidade das empresas. A menos que os líderes do setor Cargill, Bunge e Amaggi estabeleçam instrumentos para proteger os remanescentes de florestas nativas brasileiras da expansão da soja, eles continuarão perdendo market share, devido ao risco de desmatamento ”.

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Desmatamento mensal alerta dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais INPE e Imazon desde 2010

O desmatamento na Amazônia brasileira tem aumentado constantemente desde meados da década de 2010, com a maior aceleração ocorrendo desde que Jair Bolsonaro assumiu a presidência em janeiro de 2019. O desmatamento nos 12 meses encerrados em 31 de julho de 2020 foi 47% maior do que dois anos antes. A soja tem o maior impacto direto no cerrado, uma floresta tropical encontrada ao sul e leste da floresta amazônica, embora a produção de soja também afete a cobertura florestal na própria floresta.

Imagem do cabeçalho: Desmatamento na Amazônia Brasileira. Crédito da foto: Rhett A. Butler

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Este texto foi escrito originalmente em inglês e publicado pela Mongabay [Aqui! ].

 

Acionistas da Bunge votam para obrigar empresa a reduzir desmatamento associado à sua cadeia de suprimentos de soja

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Recentemente, houve uma série de votos de acionistas a favor de empresas que tomem medidas para adotar ou fortalecer compromissos de combate ao desmatamento. É provável que essa tendência aumente à medida que o desmatamento se torne uma parte importante da narrativa da mudança climática e os investidores aumentem sua compreensão de como os vínculos com a floresta perdida podem levar a uma variedade de riscos financeiros.

Um dos maiores desenvolvimentos ocorreu no início deste mês, quando os acionistas da trader de commodities Bunge votaram esmagadoramente a favor no sentido da empresa tomar medidas mais fortes para lidar com o desmatamento em sua cadeia de suprimentos. A proposta, aprovada por 98% dos acionistas, foi liderada pela Green Century Capital Management, juntamente com a Storebrand Asset Management.

Em uma reviravolta sem precedentes, o Conselho de Administração da Bunge recomendou que os acionistas votassem a favor de uma proposta para avaliar “se e como [a Bunge] poderia aumentar a escala, o ritmo e o rigor de seus esforços para eliminar a conversão da vegetação nativa em sua cadeia de abastecimento de soja. ”

A Bunge e outros atores nas cadeias de suprimentos de commodities agrícolas estão expostos a estarem vinculados ao desmatamento, o que pode levar à volatilidade da cadeia de suprimentos, acesso restrito a capital, regulamentações rigorosas nos mercados de consumo e perda de acesso ao mercado. A votação da Bunge destaca os compromissos crescentes de empresas, investidores e financiadores para alcançar práticas de desmatamento líquido zero para reduzir riscos.

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A votação também reflete uma maior pressão de investidores ativistas para que as empresas abordem os riscos relacionados às mudanças climáticas, incluindo a perda de florestas para a produção de commodities, e pode levar a um maior envolvimento dos investidores com o desmatamento, o que por sua vez pode levar outras empresas a tomarem medidas semelhantes. “A votação deve ser um sinal para outras empresas da cadeia de abastecimento da soja brasileira que os investidores estão em alerta máximo sobre esses riscos”, disse Leslie Samuelrich, presidente da Green Century.

A votação da Bunge ocorre logo após uma série de contratos de sucesso da Green Century. Por exemplo, em abril, ADM e JPMorgan Chase adotaram compromissos, que se seguiram à votação dos acionistas da Procter & Gamble no ano passado para a empresa eliminar o desmatamento em sua cadeia de suprimentos. Também neste mês, 76% dos acionistas da Bloomin Brands, uma empresa global de jantares casuais, apoiaram uma proposta da Green Century para reduzir sua pegada de carbono, incluindo ações para eliminar a perda florestal em sua cadeia de suprimentos. “Nunca vimos uma temporada de acionistas como esta para enfrentar os riscos climáticos e de desmatamento, com votos sem precedentes na Bunge Limited e na Procter & Gamble”, disse a defensora dos acionistas da Green Century, Annalisa Tarizzo. “Os investidores estão demonstrando um novo entendimento de que reduzir as emissões de gases de efeito estufa e proteger as florestas tropicais do mundo, da Indonésia às savanas únicas no Brasil, não são apenas importantes para o planeta, mas também seus portfólios.”

Embora o desenvolvimento da Bunge seja visto como positivo para os esforços pela redução do desmatamento causado pela soja no Cerrado brasileiro, a votação não é vinculativa, o que significa que a Green Century e outros investidores devem manter pressão sobre o comerciante e seus pares. A Green Century diz que a Bunge pode implementar uma abordagem “suspender e engajar”, ​​que é frequentemente usada por traders e refinadores no mercado de óleo de palma do sudeste da Ásia. Com esta abordagem, uma empresa irá suspender qualquer fornecedor ligado ao desmatamento e, em seguida, envolver o fornecedor para influenciá-lo a reduzir a atividade ligada ao desmatamento. A Bunge também pode aderir ao Manifesto do Cerrado, que já foi assinado por 160 empresas que se comprometeram a eliminar o desmatamento no Cerrado. A Bunge e outros comerciantes concordaram com a Moratória da Soja na Amazônia, um acordo de toda a indústria para interromper a compra de soja em terras desmatadas na Amazônia, mas não assinaram o Manifesto do Cerrado.

Os comerciantes têm sido criticados por terem datas-alvo em seus compromissos que permitem uma janela muito ampla para a eliminação do desmatamento em suas cadeias de abastecimento. Por exemplo, a COFCO tem  como  meta 2023, enquanto a Cargill tem como meta 2030. Os comerciantes enfrentam desmatamento e exposição ao risco de incêndio florestal. A pressão dos investidores deve aumentar sobre a Bunge e seus pares neste verão, durante a temporada de incêndios. A análise da Chain Reaction Research  mostra  que os comerciantes de soja no Cerrado em 2020 viram um grande número de incêndios em uma área de 25 km de seus silos, semelhante aos níveis vistos em 2019. A expansão da produção para atender à demanda do mercado de exportação de soja brasileira está exacerbando estes riscos.

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Este texto foi escrito originalmente em inglês e publicado pela Chain Reaction Research [Aqui!].

O passo descompassado de Wladimir Garotinho na relação com os servidores municipais

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Há algo de muito estranho acontecendo no interior do governo do jovem prefeito Wladimir Garotinho quando se trata de definir as relações com os servidores públicos municipais, com base no que se gasta para fazer a máquina pública funcionar. É que bastou que bastou uma notificação do Tribunal de Contas do Estado (TCE) no sentido de que teria  sido ultrapassado o limite de gastos com pessoal que Wladimir já se serviu de suas redes sociais para lançar a semente de que terá de cortar na carne (dos servidores, é claro) para que haja um suposto retorno aos limites impostos pela Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF).

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A menção de que irá se reunir com os sindicatos para buscar “caminhos possíveis e soluções práticas” parece, em superfície, uma sinalização de que, na iminência de baixar o porrete nos mais fracos, Wladimir decidiu que é preciso conversar para que a cabeça dos que irão ser sacrificados esteja na posição certa. 

O fato é que se houvesse realmente interesse em estancar pontos indevidos de sangria, um primeiro lugar que deveria ser avaliado é a Câmara de Vereadores onde, segundo reportagens publicadas pelo Portal Viu, a gastança anda desenfreada, e com um número de cargos comissionados que não deixa de fora nem familiares (ainda que por laços de casamento) do próprio prefeito.

Assim, se é para começar baixar os gastos com a folha de pessoal que se examine primeiro situações em que as indicações políticas para cargos comissionados que nada contribuem para o funcionamento da máquina municipal. É que sinalizar que vai a prioridade é mexer com o pessoal da saúde, em meio à antessala de uma terceira onda ainda mais mortal da COVID-19, é, antes de qualquer coisa, de péssimo gosto em termos da desmoralização de profissionais que passaram quatro anos comendo o pão que o diabo amassou nas mãos de Rafael Diniz e seus menudos neoliberais.

Apesar do foco deste blog não ser o governo municipal, tenho que lamentar que as mesmas fórmulas de encurtamento de direitos que são ensejadas pelas políticas ultraneoliberais do governo Bolsonaro pareçam ser as preferidas pelo governo Wladimir. É que mais do que nunca, haveria que se prestigiar quem efetivamente trabalha em vez de se ameaçar com a retirada de direitos.

Finalmente, que os sindicatos que representam os servidores municipais façam o que se espera deles em termos de defender de forma obstinada os direitos que estão agora sob ameaça.

Os apuros de Ricardo Salles nas mãos das autoridades ambientais dos EUA não param de crescer

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Vivêssemos tempos normais, o ainda ministro (ou seria anti-ministro?) do Meio Ambiente, Ricardo Salles, não teria apenas sido removido do cargo, mas provavelmente encaminhado para um período de férias no presídio da Papuda. É que as recentes revelações de que um escritório de advocacia do que ele é sócio arrecadou milhões de reais de origem incerta nos tempos em que ele era secretário estadual do meio ambiente já bastaria para que sua remoção estrepitosa do cargo de ministro ocorresse. 

Mas o Brasil não vive tempos normais, e Salles continua sendo saudado pelo presidente da república como sendo “um ministro excepcional que só está sendo denunciado porque é perseguido por supostos esquerdistas que não querem que ele continua seu trabalho “excepcional” no Ministério do Meio Ambiente. E, além de saudado, Salles continua usando agentes do Estado para tentar obter acesso ilícito às investigações dos quais é alvo.

O problema para Ricardo Salles e, por extensão, para Jair Bolsonaro que o mantém no cargo até conta orientações de outros ministros do seu governo é que o ainda ministro aparentemente se tornou alvo do governo dos EUA por causa do contrabando de madeira extraída ilegalmente em diferentes estados da Amazônia (ver abaixo reportagem do Jornal Nacional de ontem).

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O problema aqui é que a apreensão de 70 toneladas de madeira extraída de forma criminosa na Amazônia e exportadas ilegalmente para os EUA motivaram uma ação pouco usual de apreender para depois retornar a carga para o Brasil parece ser uma mensagem direta de que esse tipo de contrabando chancelado por um governo nacional não será tolerado tranquilamente pelo governo dos EUA. É que, além de ser uma carga que resultado do saque ilegal de recursos florestais que compete com a produção de madeira legal nos EUA , esse é um crime que contribui para acelerar a transformação da Amazônia em uma fonte emissora de CO2, o que contribui para a aceleração das mudanças climáticas do qual o governo Biden já disse a que veio em termos de medidas de combate.

Assim, por mais que o presidente Jair Bolsonaro esteja querendo preservar um ministro que tem sido extremamente útil na aplicação de suas políticas anti-ambientais, a lógica dita que haja mais cautela nas relações políticas e econômicas com os EUA que já mostraram no passado que não possuem qualquer escrúpulo em intervir até militarmente quando veem seus interesses estratégicos e até táticos ameaçados. Por isso, essas apreensões de madeira pelo United States Fish and Wildlife Service (uma espécie de IBAMA de lá) não deveriam ser tomadas de forma casual pelo governo brasileiro. Aliás, como se o IBAMA de lá mexe com peixe, o melhor aqui seria Jair Bolsonaro botar as barbas de molho. Há sempre o risco, guardadas as devidas proporções, de que tenhamos um novo “Manuel Noriega” que ficou preso 20 anos em uma prisão estadunidense por achar que ninguém no governo nos EUA iria se incomodar com suas atividades comerciais.