Jair Bolsonaro reinaugura ponte de madeira de 18 m, e acena para o vazio em uma típica encenação bolsonarista

Em meio à escalada da violência de garimpeiros contra comunidades indígenas,  O PRESIDENTE Jair Bolsonaro (sem partido) saiu de Brasília, viajou cerca de 2.800 km para reinaugurar a ponte Rodrigo e Cibele entre o município de São Gabriel da Cachoeira e uma comunidade indígena no estado do Amazonas, mais precisamente na fronteira com a Venezuela e a Colômbia.

A pequena ponte de madeira de 18 metros de cumprimento, sobre o igarapé Yá-Mirim, foi entregue pelo Exército em 2 de março deste ano.   A ponte  em questão fica a 2 km do Morro de Seis Lagos, a maior reserva de nióbio do planeta, estimada em 2,9 bilhões de toneladas e deverá beneficiar os garimpeiros que agem ilegalmente naquela região.

Mas o mais interessante é que a inauguração dessa pequena ponte de madeira já tinha ocorrido em março de 2021 sem a presença de Jair Bolsonaro, o que torna a ida do presidente da república a essa nova inauguração bastante curiosa.

As duas imagens abaixo mostram a “monumental” ponte inaugurada por Jair Bolsonaro, bem como a ação de ilusionismo que ele pratica em uma foto de campanha.

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E notem bem que pela posição da ponte, Jair Bolsonaro e seus acompanhantes saúdam o vazio com seus braços levantados. Não deixa de ser um ato revelador da situação em que nos encontramos neste exato momento. É que enquanto Bolsonaro encena cenas de grandeza em pequenas inaugurações, a vacinação contra a COVID-19 continua desacelerando, favorecendo uma maior difusão de variantes ainda mais contagiosas do que a cepa original do Sars-Cov-2.

The Guardian noticia o #29 de Maio e informa que dezenas de milhares foram às ruas pedir o impeachment de Jair Bolsonaro

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Manifestantes nas ruas do Rio de Janeiro no sábado. Quase 500.000 brasileiros morreram com coronavírus. Fotografia: Bruna Prado / AP

Por Tom Phillips, no Rio de Janeiro, para o “The Guardian”

Dezenas de milhares de manifestantes foram às ruas das maiores cidades do Brasil para exigir o impeachment do presidente Jair Bolsonaro por sua resposta catastrófica a uma pandemia de coronavírus que ceifou quase meio milhão de vidas de brasileiros.

Os manifestantes compareceram em mais de 200 cidades e vilas para aquela que é a maior mobilização anti-Bolsonaro desde o início do surto de COVID-19 no Brasil

“Hoje é um marco decisivo na batalha para derrotar a administração genocida de Bolsonaro”, disse Silvia de Mendonça, 55, uma ativista de direitos civis do Movimento Negro Unificado do Brasil, enquanto liderava uma coluna de manifestantes pelo dilapidado centro da cidade do Rio.

Osvaldo Bazani da Silva, um cabeleireiro de 48 anos que perdeu o irmão mais novo para a COVID-19 , disse: “Não podemos perder mais vidas de brasileiros. Precisamos ir às ruas todos os dias até que este governo caia. ” 

Manifestantes chutam um adereço de cabeça representando o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, durante um protesto no Rio de Janeiro no sábado.

Manifestantes chutam um adereço de cabeça representando o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, durante um protesto no Rio de Janeiro no sábado. Fotografia: Pilar Olivares / Reuters

No Rio, muitos manifestantes carregavam cartazes caseiros lembrando seus entes queridos que perderam em uma epidemia que matou quase 460.000 brasileiros, o segundo maior número oficial de mortos depois dos Estados Unidos. “Estou aqui em sua memória”, disse Luiz Dantas, 18, segurando uma fotografia do avô, Sebastião, falecido em fevereiro aos 75 anos.

“O culpado tem um primeiro e um segundo nome”, afirmou Dantas, referindo-se ao presidente de extrema direita de seu país, que repetidamente banalizou o coronavírus como uma “pequena gripe” e sabotou esforços de contenção, como distanciamento social ou bloqueio.

“Eu quero justiça”, acrescentou o adolescente, derramando lágrimas enquanto falava.

Irene Grether, uma psicanalista de 69 anos que também estava na manifestação, disse que dois parentes morreram como resultado da inação de seu governo. “Este governo é mais perigoso do que o vírus”, disse ela, enquanto milhares de manifestantes se reuniam perto de uma estátua em memória do líder da resistência antiescravista Zumbi dos Palmares.

Manifestantes protestam contra Jair Bolsonaro em frente ao Monumento Zumbi no Rio de JaneiroManifestantes protestam contra Jair Bolsonaro em frente ao Monumento Zumbi, no Rio de Janeiro, no sábado. Fotografia: Pilar Olivares / Reuters

A sobrinha de Grether, uma economista de 46 anos chamada Ana Paula Carvalho, disse acreditar que Bolsonaro deveria ser levado ao tribunal penal internacional de Haia “por crimes contra o povo brasileiro”. “Ele promove a morte e a destruição”, disse ela. “O Bolsonaro é uma tragédia brasileira.”

Bolsonaro defendeu sua resposta à pandemia, alegando que sua oposição obstinada ao bloqueio visa projetar a subsistência e empregos brasileiros. Mas Carvalho disse que ao permitir a propagação descontrolada do vírus – e ao não adquirir vacinas suficientes – Bolsonaro destruiu a economia, assim como vidas. “Hoje o povo brasileiro pode escolher entre morrer de vírus ou de fome”, disse ela.

As manifestações de sábado – que também ocorreram nas principais cidades, incluindo São Paulo, Belo Horizonte, Recife e a capital Brasília, bem como em dezenas de cidades menores – vêm com Bolsonaro em sua pior fase desde que assumiu o cargo em janeiro de 2019.

As pesquisas sugerem uma raiva crescente com a forma como o populista de direita está lidando com Covid, com 57% da população agora apoiando seu impeachment . Um inquérito do Congresso está atualmente dissecando a calamitosa resposta de Bolsonaro à crise de saúde pública, com revelações prejudiciais sobre a conduta de seu governo sendo transmitidas todas as noites no noticiário.

Bolsonaro parece particularmente abalado com o ressurgimento de seu rival político Luiz Inácio Lula da Silva, o ex-presidente de esquerda que parece prestes a desafiá-lo à presidência na eleição do próximo ano. Em entrevista recente ao “The Guardian”, Lula , cujos direitos políticos foram recentemente restaurados, disse que não tinha dúvidas de que o povo brasileiro se “libertaria” de Bolsonaro em 2022. “Ele poderia ter evitado metade dessas mortes”, disse Lula sobre a reação de Bolsonaro para a COVID-19.

Roberto Anderson, professor universitário e ambientalista de 67 anos que estava na marcha de sábado, disse que se sentiu encorajado pela grande participação que sugeria que a maré finalmente estava se voltando contra o líder de direita radical do Brasil.

“As pessoas estão acordando. Muitas pessoas que votaram em Bolsonaro estão vacilando … e os políticos que o apóiam ainda são oportunistas – no momento em que virem as pessoas se organizando, também mudarão de lado ”, afirmou Anderson.

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Este artigo foi escrito originalmente em inglês e publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

Cravo e ferradura na saúde municipal em Campos dos Goytacazes: num dia corte de direitos dos servidores, em outro contrato milionário sem licitação

Empresa vai ganhar R$ 33,572 milhões com dispensa de licitação em Campos

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Por Roberto Barbosa para “O Rebate”

Nesses tempos loucos de pandemia, a empresa MX Gestão e Saúde Ltda não tem do que reclamar, pois vai ganhar a bagatela de R$ 33,572 milhões da Fundação Municipal de Saúde de Campos, por meio de um contrato emergencial e com dispensa de licitação. 

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Ganha um título de mestre em juridiquês quem souber interpretar o detalhamento das tarefas que a empresa vai executar, segundo o edital publicado no Diário Oficial do Município:

“Serviço especializado em coordenação, análise situacional e prestação de serviços assistenciais em saúde na rede municipal, objetivando a análise operacional, administrativa assistencial e de gerenciamento, com a finalidade de buscar a otimização de recursos financeiros dispendidos pela municipalidade”. 

Para entender e concorrer, vale fazer uma prece a São Guimarães, o padroeiro das causas confusas e rentáveis.

Tempos Estranhos

Não é qualquer dinheiro. Campos dos Goytacazes tem 45 mil pessoas vivendo em extrema pobreza e 180 mil trabalhadores dependurados no Auxílio Emergencial do Governo Federal.

Esta semana, com apoio de 15 vereadores, o prefeito Wladimir Garotinho sacrificou o vale-alimentação no valor de R$ 200 de três mil servidores e aprovou uma lei que prevê confisco de imóveis privados que estão em desuso. O objetivo é levar à leilão, com dinheiro revertido para o município. São tempos estranhos na república do chuvisco.

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Este texto foi publicado inicialmente pelo jornal “O Rebate” [Aqui!].

Xuxa Meneghel atrai fúria dos bolsonaristas após convocar apoio a abaixo-assinado pró impeachment de Bolsonaro

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Xuxa Meneghel atrai fúria dos bolsonaristas ao convocar apoio a abaixo-assinado pró-impeachment de Jair Bolsonaro

Há quatro dias postei em meu canal do Youtube um vídeo produzido pelo movimento  “Vidas Brasileiras” que trazia o depoimento/convocação feito pela artista/ apresentadora/empresária Maria da Graça Meneghel (a Xuxa) no qual ele pediu adesão a um abaixo-assinado que postula o impeachment do presidente Jair Bolsonaro em função dos descaminhos ocorridos em seu governo (ou seria desgoverno?) no combate à pandemia da COVID-19 (ver abaixo).

O que eu não contava, já que meu canal tem um acesso normalmente baixo por uma opção preferencial minha de usá-lo como caminho de passagem para materiais postados neste blog, é que o vídeo atingisse rapidamente a marca de 49 mil visualizações, muito em parte pela identificação que ele acabou tendo por parte dos seguidores/apoiadores do presidente Jair Bolsonaro que passaram não apenas a visualizar, mas atacar Xuxa Meneghel por ter se posicionado publicamente, muitas vezes  usando formas grotescas de ataque.

Um dos mecanismos que já identifiquei na seção de comentários, entre outras coisas, foi a destruição de caráter. Dentre as táticas usadas para alcançar este fim estão a conexão com pedofilia, saudades da Lei Rouanet, as relações amorosas, supostas conexões com o satanismo e mesmo o fato de que Xuxa Meneghel está envelhecendo.

Certamente Xuxa Meneghel já tinha noção de que iria ser alvo da fúria dos apoiadores de Jair Bolsonaro, mas o ponto não é esse. O que fica evidente é que há uma articulação clara para calar quem ousa se posicionar contra o atual presidente da república, já que a maioria dos quase 3.000 comentários possui similaridades marcantes, dando a entender que temos uma malta de apoiadores esperando para atacar ou que o exército de robôs que atuou nas eleições de 2018 continua funcionando em grande estilo.

De qualquer forma, está claro que existe uma estrutura de ataque à oposição que não tem qualquer veleidade ou restrição de utilizar os argumentos mais baixos para pressionar e impedir que mais pessoas se manifestam publicamente em prol do impeachment de Jair Bolsonaro.

Em tempo: o meu canal que tinha em torno de 300 seguidores antes da postagem deste vídeo, agora está chegando a 800, o que indica que o vídeo de Xuxa Meneghel definitivamente teve um impacto.

BTG e XP estão a serviço de estrangeiros suspeitos de compra ilegal de terras brasileiras

Brasilagro possui mais de 300 mil hectares no Cerrado “em desconformidade com a lei”, diz Incra — beneficiados vão de ruralistas argentinos a Banco de Nova York

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Por : Caio de Freitas Paes | Infográficos: Bruno Fonseca para a Agência Pública

Agência Pública – Quem acompanha o noticiário lê, com frequência, sobre falta de interesse e medo de investidores estrangeiros apostarem no Brasil sob Bolsonaro. Operações do próprio mercado financeiro revelam um lado B nessa narrativa, como no último dia 24 de janeiro, quando a XP Investimentos juntou-se ao banco BTG Pactual para uma parceria que resultou numa operação milionária com uma expoente do agronegócio no país, a Brasilagro.

Juntas, as matrizes dos dois bancos e suas filiais nos Estados Unidos venderiam o equivalente a mais de R$ 670 milhões em ações de uma “das maiores empresas brasileiras em quantidade de terras agricultáveis” do país. Tanto o BTG quanto a XP venderiam os papéis sob uma condição: o que não fosse comprado por terceiros seria adquirido por ambos.

 O problema é que o governo investiga a Brasilagro por suspeita de aquisições ilegais de terras desde 2016. Para o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), a companhia é suspeita de atuar “em desconformidade com a lei”, driblando limites impostos nas vendas de terras a estrangeiros.

Ao contrário do que o nome da empresa sugere, documentos obtidos pela Pública indicam que são investidores argentinos e norte-americanos que conduzem a Brasilagro.

Com acesso a um conjunto de documentos oficiais, a reportagem identificou compras desse grupo estrangeiro na Bahia, no Maranhão e no Piauí – todas “sem autorização do Incra ou do Congresso Nacional”, em desconformidade com a lei. Atualmente, há uma série de restrições, como limites de áreas que podem ser adquiridas e a exigência de autorização prévia do governo para a venda de terras a estrangeiros.

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As fazendas da Brasilagro se espalham pelo berço das águas brasileiro, o Cerrado. Parte das propriedades fica em sua nova fronteira da soja, o chamado Matopiba, que engloba os estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. Nesse território, maior que a França e a Inglaterra somadas, denúncias de grilagem e desmatamento se multiplicam enquanto o preço das terras se valoriza desde os anos 2000.

Dados reunidos pelo Chain Reaction Research – consórcio que monitora o agronegócio em esfera global – mostram que, entre 2012 e 2017, a Brasilagro teria derrubado mais de 21 mil hectares de matas nativas em suas fazendas.

Em seu relatório anual de 2019, a companhia registrou que parte da devastação está sob julgamento. Em 2013, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais (Ibama) teria multado a Brasilagro em R$ 5,9 milhões por desmatamento ilegal de uma área de proteção permanente em Goiás.

A companhia recorreu à Justiça Federal no estado e, em 2019, informou à Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos: “Estamos aguardando o julgamento dos recursos do Ibama. Considerando que houve decisão favorável em primeira instância nesse processo em particular, nossa chance de derrota foi avaliada como remota”.

Faz parte do modelo de trabalho da Brasilagro comprar e “preparar” terras para o cultivo de cana-de-açúcar, milho e soja, ou para a pecuária em larga escala. A produção agrícola do grupo é vendida a grandes empresas do exterior, como a holandesa Bunge, a norte-americana Cargill e a britânica Glencore. Feito o serviço, o que era Cerrado vira ativo financeiro: terras já desmatadas e registradas no governo valem mais, especialmente para agronegócios. 

“A criação de fundos de investimento específicos, como o Fiagro, e de um mercado fundiário onde donos podem ‘picotar’ suas propriedades em diferentes matrículas no Incra, especulando com seus imóveis, são indícios de uma ‘financeirização’ das terras e do agronegócio no Brasil”, diz o professor da Universidade de São Paulo (USP) Fábio Pitta, que há anos pesquisa o papel de investidores estrangeiros na destruição do Cerrado e de seus povos, especialmente no Matopiba. 

“Os produtores rurais dependem dos preços futuros de commodities, determinados pelo mercado financeiro. Eles produzem para pagarem suas dívidas, mas criam novas dívidas para isso. Ou seja, é um modelo [de negócio] que segue o padrão das bolhas especulativas”, diz o professor, também membro da Rede Social de Justiça e Direitos Humanos.

“Tem espaço para todo mundo crescer nesse negócio”

Em julho de 2020, meses antes da milionária venda de ações, o presidente da Brasilagro, André Guillaumon, apresentou as credenciais do grupo em um bate-papo com a XP Investimentos. “Temos um portfólio de aproximadamente 300 mil hectares no Brasil”, disse, para logo após emendar: “Tem espaço para todo mundo crescer nesse negócio”.

Em setembro do ano passado, foi o BTG Pactual que entrou em cena. O banco passou a administrar um novo fundo de investimentos vinculado à Brasilagro, avaliado em mais de R$ 363 milhões até 10 de maio passado, segundo a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais. 

Na prática, o BTG controla parte dos ativos e passivos da gigante agrícola por meio desse fundo. Assim, o banco negocia as ações pertencentes ao grupo paulista Charles River, focado em investimentos mais arriscados, de renda variável nas bolsas de valores. O grupo tem cerca de 10% das ações da Brasilagro.

Além disso, entre acionistas com poder de voto na gigante agrícola existem fundos ligados ao Citibank e ao JP Morgan, bancos norte-americanos acusados de ameaçar a Amazônia e seus povos, ao europeu Credit Suisse e ao Itaubank S.A., do grupo Itaú.

Procurados pela Pública, tanto BTG Pactual quanto XP Investimentos preferiram não comentar.

 O território nacional na mira de estrangeiros

Desde 2010, o Incra é o responsável por autorizar ou não vendas de terras a estrangeiros, especialmente de propriedades de médio e grande portes, o nicho da Brasilagro. A empresa já alegou ao governo que “não é proprietária de imóveis rurais”, mas fiscais identificaram que ela “adquiriu um total de 319 mil hectares” até 2016.

Para a situação não ser ilegal, a Brasilagro precisava apresentar os registros fundiários em seu nome e mostrar que não era uma companhia comandada por estrangeiros. Como havia suspeita sobre a empresa, o Incra abriu um procedimento para apurar a situação em maio de 2016, fazendo com que a Brasilagro enviasse, já no mês seguinte ao início da apuração, um calhamaço de documentos: quase 200 páginas de comprovantes, documentos fiscais e uma lista completa dos seus então acionistas. 

O Incra identificou, assim, que cada uma das ações negociadas em bolsas de valores aqui ou no exterior corresponde a um voto nas assembleias gerais da Brasilagro. “Conclui-se que quem participa com maior número de quotas [ações] detém o poder de deliberação da empresa”, diz um documento do órgão fundiário.

Os fiscais do governo afirmaram em sua apuração: “É nítido o maior quantitativo de ações em nome de estrangeiros” na Brasilagro. 

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Documento do INCRA indica que estrangeiros são responsáveis pela Brasilagro

O rápido avanço da investigação em 2016, ano do impeachment de Dilma Rousseff (PT), não teve a mesma celeridade entre os governos de Michel Temer (MDB) e Jair Bolsonaro (sem partido). Na prática, diretores do Incra, à época indicados pelo Centrão, não deram andamento aos pedidos dos fiscais, retardando eventuais descobertas sobre a companhia.

Os fiscais pediam informações de cartórios municipais espalhados pelo Cerrado. Para confirmar ou não as suspeitas, o Incra necessitaria encontrar os registros das fazendas declaradas pela Brasilagro nos cartórios.

No mesmo período, o tema ressurgiu na política. O Senado aprovou um projeto que facilita a venda de terras a estrangeiros, uma proposta de lei hoje sob análise da Câmara.

Dança das cadeiras

Com menos de um mês de investigação, o Incra apontou “241.289 hectares [de fazendas] adquiridos e ainda não vendidos” pela Brasilagro. À Pública, o órgão informou que não houve aval para essas aquisições.

Pouco antes, em janeiro de 2016, o então presidente da companhia empolgava-se com futuras compras no país. “Quando olhamos o câmbio e nossas margens e vemos no setor oportunidades importantes de aquisição [de terras], estas operações se mostram mais interessantes”, disse ao Estadão Júlio César de Toledo Piza Neto.

Após oito anos na empresa, o executivo renunciou à presidência e à diretoria de Relações com Investidores da companhia. Piza Neto era um dos nomes fortes da Brasilagro junto ao mercado financeiro – atualmente é membro do conselho superior do agronegócio da Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp) até o fim de 2021.

Fato é que Piza Neto não foi o primeiro grande nome a se afastar da expoente agrícola – ao menos publicamente. Antes dele, o bilionário Elie Horn fez o mesmo. Horn manteve um “sólido relacionamento de mais de 15 anos” com os sócios majoritários da Brasilagro.

Fundador de uma das maiores construtoras no Brasil, a Cyrela, Horn trabalhou pela credibilidade da companhia junto ao mercado financeiro, segundo a Bloomberg. Afastado do conselho da Brasilagro desde julho de 2012, o empresário segue como um dos sócios: Horn mantém ações na expoente agrícola em seu nome e em nome de sua Cape Town LLC, empresa registrada no estado de Delaware (EUA).

Horn previu, na Agência Estado, um “novo boom imobiliário” logo após a vitória de Jair Bolsonaro (sem partido) nas eleições. “Só gostaria que esse boom não fosse tão grande quanto no passado”, disse ainda em 2018. Na mesma entrevista, ele declarou estar “animadíssimo” com o futuro governo.

 Um processo vagaroso

Após os primeiros indícios de irregularidades, o Incra precisava encontrar os registros das fazendas nos cartórios, averiguando onde a Brasilagro teria arrendado, adquirido ou comprado terras com suspeita de ilegalidade. Nesse ponto, o processo ficou vagaroso.

Levou quase dois anos entre uma sugestão por novas diligências, em junho de 2016, e um pedido de envio de ofícios aos cartórios. Em março de 2018, apenas uma assinatura do diretor de Ordenamento da Estrutura Fundiária do Incra era necessária para a expedição dos documentos. Mas houve nova pausa, de um ano, até os envios em maio de 2019 – período em que três diretores passaram pelo cargo.

À Pública, o Incra informou que Rogério Papalardo Arantes foi o primeiro a receber o pedido por diligências contra a Brasilagro. Ele virou diretor após indicação de seu tio, o ex-deputado Jovair Arantes (PTB), ligado ao Centrão, quando aliado da ex-presidente Dilma Rousseff (PT).

Arantes ficou cerca de três meses no cargo e saiu após a Operação Registro Espúrio, do Ministério Público Federal (MPF), que envolveu seu nome na investigação. Procurado pela reportagem, Rogério não retornou até a publicação.

Meses depois, Cletho Muniz de Brito, o “Brito do Incra”, assumiu o cargo. Brito ganhou fama no início do governo Bolsonaro ao pedir a paralisação da reforma agrária no país, como noticiou a Repórter Brasil.

Brito também teria ignorado, por seis meses, o pedido por diligências contra a Brasilagro. Ele também já foi investigado, só que por corrupção na superintendência do Incra em Rondônia. Procurado pela reportagem, Brito não retornou até a publicação.

À Pública, um dos servidores envolvidos na apuração sobre a Brasilagro disse “não lembrar” se as mudanças internas influenciaram as investigações. “Apurações muitas vezes demoram porque há pouco efetivo ao nosso dispor. Analisamos conforme a equipe dá conta”, disse, sob anonimato.

Oficialmente, o Incra diz que a investigação segue “a cargo da Divisão de Fiscalização e Controle de Aquisição por Estrangeiro”. A última movimentação foi a “expedição de oito ofícios” a cartórios no “Piauí, Maranhão, Mato Grosso, Bahia, Minas Gerais e Goiás”.

Oficialmente, o governo mantém o entendimento de que “foram adquiridos imóveis rurais pela Brasilagro sem autorização do Incra ou do Congresso Nacional, após a publicação do Parecer AGU/LA-01/2010”, a lei que rege o tema.

O suposto método

A Pública procurou os cartórios que receberam pedidos de informação do Incra em sua busca pelos registros das fazendas da Brasilagro. Apenas um respondeu: o de Correntina, no extremo oeste da Bahia. Seu oficial responsável alegou não ter recebido documento algum do Incra, mas no material consultado pela reportagem há comprovantes dos envios pelo órgão fundiário.

A partir dessa ponta solta, a Pública identificou um possível método por trás das atividades da Brasilagro. A Filial Chaparral, que fica em Correntina, é uma das cinco fazendas da companhia no oeste baiano. Trata-se de um latifúndio maior que 2 mil estádios do Maracanã onde a Brasilagro planta e colhe toneladas de algodão, milho e soja, à beira da rodovia BR-020, uma das principais rotas para escoamento agrícola nesse canto do país.

O consórcio Chain Reaction Research já flagrou desmatamentos na região, como em dezembro de 2018, quando o grupo teria derrubado quase 2 mil hectares das matas nativas na área.

Mesmo sob o controle da Brasilagro, a Chaparral não está registrada em seu nome. Segundo o Sistema de Gestão Fundiária do governo federal, a fazenda pertence à Imobiliária Cajueiro Ltda., cujos responsáveis legais são o presidente e diretor da Brasilagro, o paulistano André Guillaumon e o argentino Gustavo Javier López.

Ambas as empresas ficam no mesmo endereço, no quinto andar do número 1309 na avenida Brigadeiro Faria Lima, São Paulo. “É uma prática muito comum aqui no país porque, em caso de problemas, os empresários conseguem ‘cortar os fios’, impedindo que punições afetem seu patrimônio. Mas no caso de estrangeiros é uma prática ilegal”, diz um dos servidores do Incra envolvidos no processo da Brasilagro.

“Em seis meses era possível chegar a uma conclusão, pedindo informações aos cartórios, fazendo diligências, acionando órgãos que fazem controle acionário no país”, afirma o mesmo servidor, que falou sob a condição de anonimato.

 A Brasilagro empregaria o mesmo método com outras oito imobiliárias no Cerrado – avaliadas aproximadamente em R$ 380 milhões, segundo a Receita Federal. Como explicou o servidor do Incra, “tem empresas que dividem suas áreas em dois, três, vários CNPJs [Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica], às vezes com intenção de fugir da fiscalização, ao mesmo tempo que é um controle contábil e uma manobra jurídica comuns no Brasil”. Ao fazê-lo, ele explica, a Brasilagro desvincula suas fazendas de seu CNPJ matriz.

“Quando se cria uma série de CNPJs, você dificulta até para o cartorário, porque ele avaliará documentos de uma empresa registrada no Brasil, com sede no Brasil, identificando brasileiros entre os sócios, porém são empresas controladas por grupos econômicos do exterior. É uma forma de burlar a lei”, diz o advogado Maurício Correia, coordenador da Associação de Advogados de Trabalhadores Rurais (AATR) da Bahia. A associação monitora a compra de terras por estrangeiros no Cerrado há anos.

Segundo Correia, o mesmo método – envolvendo imobiliárias comandadas por grupos do exterior – já foi identificado no extremo oeste baiano. O coordenador da AATR alerta que o governo pode até decretar a nulidade das aquisições da Brasilagro caso comprovadas as irregularidades. “Na prática, os investidores perderiam as terras sem que haja, necessariamente, um cancelamento das matrículas junto aos cartórios municipais”, afirma.

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R$ 1 bilhão em terras 

Dados da Receita Federal organizados pelo site Brasil.io mostram que a Brasilagro vale mais de R$ 1 bilhão, somando-se suas imobiliárias às filiais diretas.

A companhia abriu sete dessas filiais após o marco legal que limita a venda de terras a estrangeiros no país. São elas que detêm os registros das fazendas Arrojadinho – também no oeste baiano – e São José II, em São Raimundo das Mangabeiras (MA), entre outras.

A São José II tem pouco mais de 17 mil hectares, sendo 10 mil deles voltados para o cultivo de milho e soja no Cerrado maranhense. A própria Brasilagro anunciou essa compra de R$ 100 milhões aos seus acionistas, ainda em 2017.

O método foi repetido no Piauí já durante a pandemia. Em maio de 2020, a companhia adquiriu uma fazenda de 4.500 hectares em Baixa Grande do Ribeiro, uma das frentes de avanço da soja no Matopiba, por outros R$ 25 milhões. Novamente, compras sem o crivo do Incra ou do Congresso Nacional.

À Pública, a Brasilagro disse que “é uma empresa brasileira com ações listadas no segmento do Novo Mercado da B3 e conduzimos nossos negócios utilizando as melhores práticas de governança corporativa”. “Reiteramos que todas as operações e transações realizadas pela Companhia estão em regularidade com a legislação aplicável”, afirmou a empresa por meio de nota à reportagem.

Brasil só no nome?

Ruralistas argentinos, além do Banco de Nova York, diversos fundos de pensão dos Estados Unidos e muitas offshores – firmas registradas em paraísos fiscais –, estão entre os que se beneficiam dos negócios da Brasilagro.

A gigante do agronegócio argentino Cresud, por exemplo, detém a maior parte das ações individuais da companhia. A investidores dos Estados Unidos, a Cresud não esconde os riscos das operações aqui no Brasil.

“A implementação da lei [que limita a venda de terras a estrangeiros no Brasil] pode nos exigir aprovações antes de futuras aquisições […] e outros procedimentos adicionais, que podem resultar em atrasos e/ou incapacidade de obtenção das aprovações exigidas por lei”, declarou a Cresud, em junho de 2020, à Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos.

No site da Brasilagro quase não há informações sobre outros sócios, mas a Pública encontrou investidores bilionários dos Estados Unidos, como os fundos de aposentadoria de Utah, dos servidores públicos de Los Angeles e do sistema educacional do Missouri – todos com poder de voto.

Um dos representantes desses investidores no Brasil é Ricardo José Martins Gimenez, empresário que toma decisões na Brasilagro em nome do banco municipal e do fundo de pensões de Nova York.

Esse mesmo executivo representa também uma offshore chamada Kopernik, sediada nas Ilhas Cayman e no estado de Delaware, de acordo com o governo dos EUA. A Kopernik também vota nas assembleias da Brasilagro.

Até o fechamento do texto, não houve retorno por parte dos fundos de pensões dos Estados Unidos, nem dos investidores argentinos da Cresud.

 Uma ofensiva norte-americana

O caso da Brasilagro ressalta, mais uma vez, a presença de investidores dos Estados Unidos no Cerrado. Há outros dois emblemáticos: o fundo de aposentadoria dos professores norte-americanos, chamado de TIAA, e a Universidade Harvard.

Relatórios da Rede Social de Justiça e Direitos Humanos apontam que ambos acumularam mais de 750 mil hectares no Brasil desde 2008. Somando às áreas da Brasilagro, dá mais de 1 milhão de hectares no Cerrado – uma faixa de terras maior que Pernambuco.

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Em 2018, a Pública revelou que empresa que integra fundo de Harvard comprou terras griladas na Bahia

Estima-se que apenas Harvard tenha gastado quase meio bilhão de dólares em terras no berço das águas do país até agora.

O dinheiro da universidade norte-americana financiou a grilagem de uma fazenda maior que a cidade de São Paulo nos confins do Cerrado, em Cotegipe (BA), como já mostrou a Pública. O caso rendeu processos na Justiça estadual e teve desdobramentos em outubro de 2020, como relatado pela Mongabay.

Em dezembro passado, mais problemas, dessa vez com antigos negócios do TIAA na mesma região.

O fundo dos professores dos EUA também se viu envolvido em uma das maiores grilagens de terras no Brasil, uma disputa em torno de 800 mil hectares no interior baiano – quase o dobro de todo o estado do Rio de Janeiro.

Essa disputa entre grileiros se dá em Formosa do Rio Preto (BA), líder disparada em desmatamento no Cerrado, bem na divisa com Piauí e Tocantins. É o lado oculto da chamada Operação Faroeste, deflagrada em novembro de 2019.

Essa investigação do MPF revelou um balcão ilegal de negócios no Tribunal de Justiça do estado da Bahia, com venda de sentenças em grandes disputas por terras no extremo oeste do estado. 

A Faroeste respinga ainda na Cargill, também dos Estados Unidos. Uma das líderes do agronegócio global, teria adquirido soja cultivada em áreas envolvidas pelo mesmo esquema, segundo reportagem da Mongabay.“O cenário não é animador, pois há um aprofundamento do papel do mercado financeiro na agricultura, com mais especulação sobre as terras e mais disputas, com endividamento de famílias, empresas, governos. Os impactos são os piores possíveis, especialmente para as comunidades do Cerrado”, diz o professor da USP Fábio Pitta. 

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Esta reportagem foi produzida e publicada inicialmente pela Agência Pública [Aqui!  ].

Solicitação da Bayer para resolver futuros acordos judiciais é negada por juiz nos EUA

A ordem do juiz aborda as falhas “mais flagrantes” do acordo. O monitoramento é exagerado, a compensação “exagerada”, diz ele

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Por Joe Rosenblatt para a agência Bloomberg

A proposta da Bayer de pagar até US $ 2 bilhões para resolver reivindicações futuras de pessoas que reclamam que seu herbicida Roundup causa câncer foi rejeitada por um juiz dos EUA, agravando ainda mais sua luta para encerrar litígios herdados da aquisição da Monsanto Co.

O juiz distrital dos EUA, Vince Chhabria, na quarta-feira rejeitou o complicado acordo em uma ordem breve que aborda o que ele chamou de “as falhas mais gritantes” do acordo – esta a segunda vez o acordo proposto pela Bayer é recusado. O acordo rejeitado é parte de um acordo mais amplo de US$ 11,6 bilhões para resolver os processos judiciais do Roundup nos EUA de cerca de 125.000 consumidores e agricultores.

Chhabria disse que o acordo que cobre reivindicações futuras é “claramente irracional” para os consumidores que estão expostos ao Roundup, mas ainda não foram diagnosticados como tendo o Linfoma não-Hodgkins – algo que pode demorar uma década ou mais.

As disposições do acordo “exageram muito” os benefícios potenciais de quatro anos de “ordem do juiz vagamente aborda as falhas ‘mais gritantes’ do acordo. Monitoramento é exagerado, compensação” exagerada “, diz ele descreveu o monitoramento médico” para aqueles que ainda não contraíram o câncer , Disse Chhabria. Os benefícios de um fundo de compensação são “muito exagerados” para esse grupo, decidiu ele.

Elizabeth Cabraser, uma advogada que representa os consumidores no acordo rejeitado, disse que ficou desapontada com a decisão, mas continua a acreditar que um acordo de classe de bilhões de dólares é possível. Ela disse que um acordo incluiria, entre outros benefícios, assistência diagnóstica, compensação, serviços jurídicos gratuitos, pesquisa sobre o tratamento da NHL e “reforma do rótulo do Roundup” para informar os consumidores sobre a ciência por trás da ligação entre o Roundup e a NHL.

A Bayer não respondeu imediatamente a uma solicitação de comentário enviada por e-mail. Depois que Chhabria expressou ceticismo em relação ao negócio em uma audiência na semana passada, a empresa disse que é comum que os tribunais “solicitem alguns ajustes aos acordos de liquidação coletiva” e que está confiante de que pode trabalhar com os advogados dos consumidores para resolver as preocupações do juiz.

A decisão é mais um revés para a Bayer no contencioso que continua sendo um grande obstáculo para a empresa desde que fechou a compra da Monsanto em 2018. O processo de liquidação se arrastou e mais ações judiciais sobre o glifosato se acumulam quase que diariamente.

Vários consumidores se opuseram ao acordo por vários motivos, dizendo que as revisões da proposta anterior rejeitada não eram boas o suficiente. No ano passado, Chhabria rejeitou um US $ 1,25 bilhão proposta para reclamações futuras. O caso Roundup é faz parte de um processo de judicial que corre no  Distrito Norte da Califórnia (San Francisco).

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Este texto foi escrito originalmente em inglês e publicado pela agência Bloomberg [Aqui!].

Vídeo explicativo sobre a Operação Akuanduba e a participação de Ricardo Salles no esquema

akuanduba

Para quem ainda não entendeu a gravidade dos indícios já levantados pela Polícia Federal acerca do envolvimento do ministro (ou seria anti-ministro?) do Meio Ambiente, Ricardo Salles, e do ex-presidente do IBAMA, Eduardo Bim, em uma suposta rede de contrabando internacional de madeira ilegalmente extraída na Amazônia agora é possível entender a maior parte dos detalhes da chamada “Operação Akuanduba” que são apresentadas no vídeo abaixo.

Jornal suíço pergunta: o ministro mais importante de Jair Bolsonaro cobrava subornos da máfia da madeira tropical?

O judiciário brasileiro está investigando se o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, ajudou contrabandistas de madeira. Mas Bolsonaro segura o ministro porque precisa dele: Salles é a figura-chave da atrasada política ambiental do Brasil.

madeira ilegalA maior parte da madeira tropical do Brasil é derrubada ilegalmente e depois exportada com documentos falsos. Sob o presidente Bolsonaro, os regulamentos para licenças de exportação foram amplamente revogados. Ueslei Marcelino/Reuters

Por Alexander Busch, Salvador, para o Neue Zürcher Zeitung

Três contêineres do Brasil com folheado de madeira deixaram as autoridades alfandegárias do porto de Savannah, no estado norte-americano da Geórgia, suspeitas em janeiro do ano passado. Porque a madeira veio de árvores tropicais protegidas, como Ipê e Jatobá, que só podem ser exportadas com certificado. No entanto, não houve evidência de que a madeira veio de áreas cultivadas de floresta tropical. Sem problemas: O chefe do órgão ambiental do Pará do Amazonas entregou pessoalmente a aprovação da exportação.

Duas semanas depois – em meados do carnaval brasileiro de 2020 – seu chefe, o presidente do órgão ambiental Ibama, garantiu que tais indagações não se repetissem no futuro: A pedido da indústria madeireira do estado, ele dispensou o indústria de quase todas as obrigações de licenciamento para exportações. Essa regra estava em vigor há oito anos e tornava difícil para os contrabandistas de madeira fazer negócios. Em um anúncio em jornais, a associação da indústria agradeceu publicamente ao chefe da autoridade pela cortesia.

Esse episódio do ano passado já era conhecido há muito tempo. Em particular, a agência de notícias Intercept no Brasil, fundada por Glenn Greenwald, publicou inúmeros documentos sobre o assunto. Mas a operação noite e névoa não teve consequências legais para nenhum dos envolvidos. Mas agora isso mudou

Movimentos suspeitos por conta do ministro

Na semana passada, com a aprovação de um juiz do Supremo Tribunal Federal, a Polícia Federal investigou as contas, escritórios e residências do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles. Nove funcionários do órgão ambiental do Ibama que ele indicou, incluindo o presidente, estão suspensos do cargo por 90 dias. Há suspeita de auxílio e cumplicidade no contrabando de madeira, lavagem de dinheiro e corrupção. A Inspecção Financeira detectou movimentos suspeitos nas contas do Gabinete do Ministro. O texto de 62 páginas do juiz do tribunal federal baseia-se principalmente em informações das autoridades alfandegárias americanas. A mídia suspeita que a cooperação entre as autoridades americanas e o judiciário brasileiro em questões ambientais ganhou novo fôlego desde a mudança do presidente nos EUA

sallesO ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, é o homem mais bem-sucedido de Bolsonaro no gabinete: apesar de todas as críticas no Brasil e no exterior, ele dá continuidade à reestruturação da política ambiental brasileira. Adriano Machado / Reuters

Para o ministro do Meio Ambiente, 45 anos, Ricardo Salles, ameaçar com o aproveitamento do escritório corporativo não é novidade. Ele parecia predestinado ao cargo de ministro do Meio Ambiente de Bolsonaro porque em sua carreira já havia defendido empresas contra as regulamentações ambientais ou prestado assessoria administrativa como secretário estadual do meio ambiente em São Paulo e como advogado. Ele concorreu a quatro partidos – mas nunca foi eleito. Sua carreira política ameaçou terminar cedo quando ele foi condenado a uma multa pesada em dezembro de 2018 e seus direitos políticos foram privados de seus direitos políticos por três anos. Ele mudou os planos de uso público no interesse das empresas.

Mas duas semanas depois, Bolsonaro o nomeou ministro do Meio Ambiente – embora Salles declarasse francamente que nunca tinha estado na Amazônia e que também não conhecia o lendário protetor da floresta tropical Chico Mendes. Isso foi bastante benéfico para seu novo cargo no governo de Bolsonaro. “Quando vi a veemência com que os ambientalistas criticam a sua nomeação, soube que tinha escolhido a certa”, explicou Bolsonaro.

De fato, nos dois anos e meio de mandato, Salles reduziu ou fechou sistematicamente todas as instituições de controle e monitoramento da floresta por meio de cortes de orçamento e pessoal. Demitiu chefes de quase todos os departamentos e os substituiu por militares e policiais paulistas, que não faziam ideia da Amazônia. Sob Salles, as ações contra os madeireiros foram interrompidas e quase nenhuma penalidade foi imposta

O ministro se solidariza com a máfia da madeira

Só recentemente ele garantiu pessoalmente que a enorme quantidade de 200.000 metros cúbicos de madeira tropical fosse liberada para exportação. Esse montante – cerca de um quinto das exportações de 2020 de madeira tropical processada do Brasil – foi apreendido pela Polícia Federal. As árvores foram suspeitas de terem sido derrubadas ilegalmente. Mas o chefe da Polícia Federal na Amazônia foi transferido à força. Salles se reuniu com os comerciantes de madeira e mostrou solidariedade.

Em uma reunião de gabinete há um ano, Salles disse que, enquanto a mídia estiver distraída, a pandemia deve ser usada para fazer com que as leis ambientais sejam criticadas pela oposição no Congresso de uma só vez. O clamor público foi grande.

Mas isso não impede Salles de fazer exatamente isso agora: o governo quer legalizar a posse ilegal na Amazônia retrospectivamente. Os parlamentares acabam de aprovar um projeto de lei sem uma audiência pública, segundo o qual as empresas poderão, no futuro, emitir licenças ambientais elas mesmas e os municípios e estados membros poderão promulgar leis diferentes.

Bolsonaro precisa de Salles para a degradação da proteção ambiental

É bem possível que Salles sobreviva politicamente às atuais investigações do judiciário. O promotor-chefe nomeado por Bolsonaro até agora admitiu todos os processos de corrupção contra a família presidencial e seus confidentes. Imediatamente após a ação judicial contra Salles, Bolsonaro deixou claro que continuaria a apoiá-lo. Ele é um “ministro excepcional”.

E isso é absolutamente verdade. Em contraste com muitos dos ministros conservadores de direita no gabinete de Bolsonaro, que se desqualificaram por incompetência e fracassaram, Salles está continuando de forma eloquente e eficiente sua reestruturação ideologicamente motivada da política ambiental do Brasil. Ele é, portanto, insubstituível para Bolsonaro. Salles não faz apenas a política para garimpeiros e lenhadores, mas também a política ambiental que a maioria dos agricultores, mas também muitos empresários, querem de Jair Bolsonaro.

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Este texto foi originalmente escrito em alemão e publicado pelo “Neue Zürcher Zeitung” [Aqui!].

Com ataque aos direitos dos servidores, Wladimir coloca Campos na vanguarda do atraso

motosserra

Ainda que não se saiba perfeitamente o que a Câmara de Vereadores aprovou do chamado “Pacote de Maldades” enviado em ritmo de urgência urgentíssima pelo jovem prefeito Wladimir Garotinho (PSD), uma coisa parece certa: a tunga nos direitos dos servidores foi alcançada como queria o grupo político que o sustenta e é por ele sustentado. Segundo fontes da imprensa local, dentre os direitos retirados estão o “pagamento de complementação aos servidores cedidos pelo Estado; fim do abono de permanência, que é destinado aos profissionais que já tem idade para se aposentar, mas continuam nos cargos públicos; revogação do auxílio-alimentação, de R$ 200, para servidores que tiver o salário bruto acima de R$ 3.409,37“. 

Com essa retirada de direitos, além de encolher vencimentos, o prefeito certamente aumentará o número de servidores que irão solicitar aposentadoria nos próximos meses e também solicitarão o retorno aos seus órgãos de origem. Essas são consequências óbvias que já devem ter sido antecipadas por quem preparou esse ataque aos servidores. Quem ainda não foi avisado que os serviços públicos municipais irão piorar é a população que mais depende deles.

Há que se ressaltar que todos os cálculos que vi em termos da economia que será alcançada por essas medidas apontam no sentido de que ela será mínima, se alguma.  E, pior, sem que haja qualquer alteração na pressão que determinados custos impõe aos cofres públicos, inclusive no pagamento da folha de pessoal, onde os cargos nomeados representam um custo normalmente mais significativo do que os direitos e incentivos que estão subtraídos dos servidores.

É interessante notar que ao se adiantar à reforma administrativa que começou a tramitar no congresso nacional, Wladimir Garotinho se coloca na dianteira de mais uma onda de ataque aos direitos dos servidores públicos. Nesse sentido, ele se coloca na vanguarda do atraso já que se sabe que a precarização da condição salarial dos servidores só beneficia mesmo corporações privadas que se beneficiam da privatização do Estado, normalmente com contratos extremamente salgados que não garantem a qualidade dos serviços públicos, aliás, muito pelo contrário.

Assim, um governo que começou com a cara de um pequeno museu de velhas novidades agora migra para a condição de ser a vanguarda do atraso. E isso tudo em pouco menos de cinco meses de duração. Isso me faz pensar que os próximos 43 meses têm tudo para serem parecidos com os longos e dolorosos 48 meses do governo de outro jovem que chegou à Prefeitura de Campos prometendo respeitar e valorizar os servidores municipais. 

Finalmente, há que se dizer que com esse ataque aos servidores municipais fica evidente que o “Garotismo” se tornou uma espécie de braço auxiliar do “Bolsonarismo” no estado do Rio de Janeiro, principalmente no município de Campos dos Goytacazes. Resta saber apenas como isso se refletirá nas próximas eleições que ocorrerão em 2022. Eu não me surpreenderia nem um pouco se virmos o pai do prefeito, Anthony Garotinho, subindo ou oferecendo o palanque para a candidatura presidencial de Jair Bolsonaro. Afinal, vanguarda do atraso por vanguarda do atraso, fica difícil ver quem é mais atrasado.