Mineração na Argentina: onda de repressão em Andalgalá

Em cidade argentina, a polícia está mirando oponentes de uma mina

mineração argentinaDanos ambientais da mineração ilegal de ouro. Foto: dpa / AP / Fernando Vergara

Por Nico Graack para o Neues Deutschland

“As pessoas no Norte Global têm que entender o que está sendo destruído aqui todos os dias por suas empresas!” Rosa Farías disse ao “Neues Deutschland”. Ela é uma das muitas moradoras da pequena cidade de Andalgalá que atualmente enfrenta uma série de ataques violentos, prisões e intimidações. Andalgalá está localizada na província de Catamarca, no noroeste da Argentina. Durante anos, várias iniciativas de cidadãos e organizações ambientais têm lutado contra o planejado projeto de megaminas MARA da empresa canadense Yamana Gold. “Toda a situação me dói incrivelmente. Os presos são nossos vizinhos que, como todos nós, lutam por sua água potável ”. Mas Rosa quer continuar:“ Não vamos parar até que a mina tenha parado e nosso rio e nossas montanhas sejam novamente nossos.

A “Caminhada pela Vida e pela Água” realiza-se todos os sábados em Andalgalá há onze anos. Em 10 de abril, ocorreu um incêndio no escritório do projeto da mina. A polícia interpretou isso como pretexto para as batidas. O grupo de protesto Asamblea El Algarrobo publicou um comunicado na mesma noite em que declarava não estar envolvido no incêndio criminoso. Eles também acusaram a polícia de se infiltrar na assembléia pacífica com agitadores por mais de onze anos. Os policiais que acompanhavam a reunião desapareceram repentinamente antes dos tumultos.

Maria Mansilla descreveu a prisão de seu irmão Walter na revista “Cítrica”: a polícia arrombou a porta destrancada, saqueou o apartamento e se recusou a mostrar um mandado de busca. Walter foi espancado toda vez que tentou falar e sua câmera e outras ferramentas foram confiscadas. Ele fotografa os protestos há muitos anos. As casas de conhecidos ativistas da água foram sitiadas por unidades armadas, circundadas por drones e fotografadas.

Rosa relata que a presença policial diminuiu entretanto e que os militares que chegaram nesse ínterim também desapareceram, mas casas e pessoas continuam sendo acompanhadas: “A cidade ainda está em estado de alarme”.

Doze pessoas estão atualmente presas. A organização de direitos humanos CELS informou que os advogados de defesa dos detidos somente tiveram acesso aos arquivos para uma audiência. As famílias dos detidos e simpatizantes protestam regularmente em frente ao Ministério Público. Não há datas de julgamento até agora.

O projeto da mina MARA surgiu da joint venture concluída em 2020 entre a mina planejada de Água Rica e a mina vizinha de La Alumbrera, que está em operação desde 1998 e desde então foi esgotada, na qual ouro e cobre foram extraídos. Além de molibdênio e prata, ouro e cobre em particular serão extraídos na nova mina. A nova mina Água Rica teria cerca de três vezes o tamanho da mina de La Alumbrera.

Na mineração de ouro, grandes quantidades de mercúrio e / ou cianeto de sódio são usadas para extrair o ouro bruto da rocha. Só a mina Alumbrera consome 95 milhões de litros de água por dia. A água de infiltração altamente tóxica resultante é armazenada em bacias de coleta. A poluição da água extensa foi documentada para a área, inclusive da Universidade de Córdoba.

A Yamana Gold fala em tornar a região de Catamarca um “ponto de desenvolvimento central no noroeste da Argentina” com a mina. As iniciativas de cidadãos e organizações ambientais em Andalgalá veem isso de forma diferente. Fabio Paz, um dos ativistas, explicou em entrevista ao portal de notícias ANCAP: “Através de La Alumbrera, cidades como Vis Vis desapareceram porque as famílias tiveram que se mudar por causa da seca e poluição da água”. E acrescentou: “No caso das minas Veladero e Alumbrera, por exemplo, um emprego criado para cada US $ 1,2 milhão investido. Isso mostra que muitos empregos são uma ilusão. Na província de Catamarca, o emprego gerado pelas mineradoras é inferior a um por cento. ”

O caso Andalgalá faz parte de uma longa história de repressão contra as pessoas mais afetadas pela degradação ambiental e pela catástrofe climática e que lutam contra isso. No relatório anual da organização de direitos humanos Global Witness, o negócio de mineração tem estado por muitos anos na vanguarda de assassinatos, ataques, prisões, violência sexual e ações legais contra ativistas do clima. A maioria das vítimas são indígenas cujos territórios se encontram em recursos minerais e que são deslocados à força de lá. Via de regra, são as empresas transnacionais do Norte Global que afirmam seus interesses desta forma.

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Este texto foi escrito originalmente em alemão e publicado pelo Neues Deutschland [Aqui! ].

Empresas brasileiras temem prejuízos financeiros por ‘antipolítica ambiental’ do governo Bolsonaro

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 Por Lucas Baldez

Especialista afirma que o discurso do presidente Jair Bolsonaro na Cúpula do Clima não reflete a prática do governo e que o país precisará de ações efetivas para atrair a atenção de investidores internacionais.

A Cúpula do Clima, realizada na semana passada, trouxe ainda mais luz para o debate sobre políticas ambientais no Brasil. Mas mesmo antes do encontro internacional, organizado pelo presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, empresários brasileiros já vinham pressionando o governo federal por medidas concretas na área ambiental.

A preocupação das empresas é que a falta de engajamento do país na preservação do meio ambiente e no combate ao aquecimento global gere também prejuízos econômicos. Isso porque o descompromisso do Brasil provocaria uma redução dos investimentos no país.

Na última quinta-feira (22), durante seu discurso na Cúpula do Clima,o presidente Jair Bolsonaro prometeu reduzir as emissões de gases de efeito estufa e zerar o desmatamento ilegal até 2030, além de fortalecer os órgãos ambientais e duplicar recursos para fiscalização.

Porém, no dia seguinte, na sexta-feira (23), ao sancionar o Orçamento de 2021, Bolsonaro cortou quase R$ 240 milhões em verbas destinadas ao Ministério do Meio Ambiente neste ano.

Segundo a especialista sênior em políticas públicas do Observatório do Clima, Suely Araújo, o governo passa um sinal de que apenas atenuou o discurso para o encontro e que, na prática, não pretende alterar sua postura em relação ao meio ambiente.

“Está bem caracterizada uma ‘antipolítica ambiental’. Acredito que as promessas são pouco críveis e que os eventuais financiadores externos já perceberam. Precisa de muito mais do que um discurso atenuado para convencer os outros países de que o Brasil vai realmente cumprir as promessas”, afirmou a pesquisadora em entrevista à Sputnik Brasil. Formada por 56 organizações da sociedade civil, a entidade foi fundada em 2002 com o objetivo de discutir as mudanças climáticas. 

Jair Bolsonaro, à esquerda, com o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, após condecorá-lo com a Medalha de Mérito Rio Branco, o maior prêmio da diplomacia, em 22 de outubro, 2020.

Jair Bolsonaro, à esquerda, com o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, após condecorá-lo com a Medalha de Mérito Rio Branco, o maior prêmio da diplomacia, em 22 de outubro, 2020. © AP PHOTO / ERALDO PERES

Um documento do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), enviado antes do encontro aos ministérios da Economia, Meio Ambiente, Agricultura e Relações Exteriores, diz que podem ser gerados US$ 17 bilhões (aproximadamente R$ 92,63 bilhões) até 2030 “a partir de negócios com base na natureza”.

Segundo a entidade, “o PIB do país também pode ter um crescimento vertiginoso com a implantação de práticas de baixo carbono, atingindo um ganho total acumulado de R$ 2,8 trilhões até 2030 em relação à trajetória atual”.

O texto conta com a assinatura de empresas como Bayer, Braskem, Bradesco, BRF, Ipiranga, Itaú, JBS, Lojas Renner, Marfrig, Natura, Shell, Siemens, Suzano e Votorantim.

Pelo Acordo de Paris, o país tem a meta de reduzir em 37% a emissão de gases de efeito estufa até 2025 e em 41% até 2030. O texto foi assinado pelo Brasil em 2015 e confirmado pelo governo em dezembro de 2020.

Mas a entidade deseja que o Brasil vá além da meta estipulada e contribua para um movimento de compromisso de emissão neutra até 2050.

Ou seja, a ideia é compensar as emissões que forem inevitáveis através de medidas ambientais que anulem os efeitos nocivos ao meio ambiente e à camada de ozônio.

A pressão ocorre após a notícia de que o desmatamento na Amazônia registrou o pior mês de março dos últimos dez anos.

Um levantamentodo Imazon (Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia) mostrou que a área devastada triplicou em relação ao registrado no mesmo mês de 2020. Foram 810 km² desmatados da Amazônia Legal, área equivalente à cidade de Goiânia.

Pedaços de troncos de árvores da Amazônia derrubadas ilegalmente na reserva Renascer, no Pará

Pedaços de troncos de árvores da Amazônia derrubadas ilegalmente na reserva Renascer, no Pará. © AP PHOTO / LEO CORREA

Suely Araújo, do Observatório do Clima, afirma que o Brasil não está inserido no debate da reconstrução do mundo pós-pandemia quanto à questão ambiental. Para ela, o país “está sofrendo efeitos negativos do posicionamento do governo Bolsonaro em relação à política ambiental já há algum tempo”.

“O mundo está se preparando para um novo olhar sobre a relação com o meio ambiente. Tem um debate no plano internacional. E o Brasil está olhando para o retrovisor”, disse a especialista.

De acordo com a pesquisadora, poderá haver ainda consequências mais graves no plano internacional, como com relação à participação em tratados e acordos. Ela cita a dificuldade do país na formalização definitiva do tratado de livre comércio entre Mercosul e União Europeia e no ingresso à OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico).

“Estamos perdendo mercado e vamos perder mais. Há um conjunto grande de efeitos negativos, decorrente da postura do presidente Bolsonaro”, afirmou.

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Este texto foi originalmente publicado pela Sputnik New [Aqui!].

Dossiê alerta que a expansão da soja provocou estagnação da produção de alimentos

Produzido pela FASE, “Dossiê crítico da logística da soja” analisa as diversas dimensões da produção dessa commodity, buscando reflexões para o futuro

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Nos últimos 40 anos, o Brasil aprofundou a lógica colonial concentrando as terras agrícolas em torno do monocultivo de poucas commodities para exportação, com graves consequências sociais e ambientais. Com Infográficos, dados e análises sobre o avanço da monocultura rumo à Amazônia, Dossiê Crítico da Logística da Soja: Em defesa de alternativas à cadeia monocultural, produzido pela FASE, detalha o risco de desabastecimento de produtos básicos como o arroz e o feijão e os diversos conflitos de terra que estão surgindo por consequência dos avanços da cultura de soja rumo às terras e portos do Norte.

“O estrangulamento da agricultura familiar tem provocado a fragilização dos sistemas tradicionais de cultivo desses alimentos. No caso do arroz, por exemplo, nesses 40 anos, um único estado (Rio Grande do Sul) passou de 34% para 70% da produção nacional, com graves consequências para o abastecimento”, analisa Silvio Porto, coautor e professor da Universidade do Recôncavo da Bahia. Além disso, a estratégia de formação de estoques públicos foi abandonada. “O estoque atual de arroz não atende sequer ao consumo nacional de dois dias, enquanto as exportações só crescem”, completa.

A soja, carro-chefe do agronegócio “moderno”, representou, junto com o milho, mais de 90% de toda a safra de grãos colhida no Brasil em 2020. Em 43 anos, a produção brasileira da oleaginosa foi ampliada em 10 vezes, saltando de 12 milhões de toneladas (na safra 1976/77) para 124,8 milhões de toneladas (na safra 2019/20). A logística da soja tem estado no centro da agenda “pública” do país, em detrimento de alternativas de infraestrutura com potencial de dinamizar outras economias e formas de viver e produzir.

Devastação, conflitos e resistência

O terceiro capítulo do dossiê analisa a “guerra das rotas”, como os interesses do agronegócio incidem sobre os programas públicos de infraestrutura em um contexto de disputas entre diferentes projetos para o escoamento da soja. Em comum, o desenho de rotas que permitam conectar as fronteiras agrícolas ao novo destino prioritário: a China.

Em 2020, dos 12 principais complexos portuários em termos de volume de soja exportada no país, seis estavam na Amazônia: Barcarena (PA), Itaqui (MA), Santarém (PA), Itacoatiara (AM), Porto Velho (RO) e Itaituba (PA). Mais um complexo portuário do Arco Norte (fora da Amazônia Legal) figurava entre os doze principais: Cotegipe em Salvador (BA). Há diversos projetos de concessão previstos até 2022, em especial das ferrovias de Integração Oeste-Leste (FIOL) TO-BA, em obras, e a Ferrogrão (MT- PA). Além do Ministério de Infraestrutura, os governos estaduais se mobilizam ativamente pela atração de investimentos em seus estados, em especial Maranhão, Pará, Bahia e Mato Grosso. “Além das evidentes consequências econômicas e ambientais, a apropriação privada da terra, a concentração fundiária e a violência no campo são a face mais perversa desse processo”, conclui Diana Aguiar, pesquisadora e organizadora da publicação.

Para Diana, a continuidade desses projetos ao longo de inúmeros governos representa a vigência de um consenso: ênfase nas infraestruturas para a viabilização da extração e escoamento de commodities. “Para cada um desses projetos, há processos de mobilização e resistência em curso. Esses projetos são desenhados a partir de lógicas totalmente alheias aos territórios por onde cruzam, gerando legítimos questionamentos de povos e comunidades tradicionais sobre o que é o ‘desenvolvimento’ que prometem e, acima de tudo, para quem é esse desenvolvimento”.

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Este publicação foi originalmente publicada pela Fase [Aqui! ]

Estudo mostra impacto cumulativo de 20 anos da criação de camarão em manguezais do Nordeste do Brasil

criadourosVale do rio Jaguaribe, Ceará, onde se vê piscinas de criação havia um pujante manguezal

Os manguezais brasileiros cobrem cerca de 11.100 km 2 e fornecem uma ampla gama de serviços ecossistêmicos. Apesar de sua importância, eles são um dos ecossistemas mais impactados devido às influências combinadas de mudanças climáticas, poluição e conversão e perda direta. Um dos principais impulsionadores dos impactos ambientais é a carcinicultura e isso é particularmente agudo no semi-árido do nordeste do Brasil, onde os manguezais são restritos em uma faixa estreita ao longo de estuários efêmeros que costumam ser afetados por secas plurianuais. Mudanças recentes na legislação brasileira, em particular no Código Florestal, enfraqueceram a proteção aos manguezais e aos ecossistemas “ apicum ” (salinas) associados. 

mapa carcinicultura

No Nordeste do Brasil, a maioria dos tanques de camarão são convertidos de “ apicuns adjacentes aos manguezais”Ao invés dos próprios manguezais com conectividade hidrológica periódica através de canais represados, permitindo a descarga dos efluentes. Como resultado, os principais impactos sobre os manguezais são tipicamente indiretos, por causa de entradas de poluição de efluentes de tanques de camarão e perda associada de serviços ecossistêmicos, incluindo reduções na produtividade primária, capacidade de armazenamento de carbono, resiliência a outros estressores ambientais, sua eficiência como filtros estuarinos, e biodiversidade e abundância do uso de subsistência das espécies marinhas. Os danos ao solo e a infraestrutura remanescente após a desativação do viveiro de camarões prejudicam a recuperação dos manguezais. Isso estende a duração dos danos e permite a ocupação de áreas degradadas por outras atividades que podem prejudicar permanentemente o funcionamento do ecossistema. 

mapa criação de camarão

Agora um artigo publicado na revista “Frontiers in Forests and Global Change” realizada por uma equipe de pesquisadores pelo Professor Luiz Drude de Lacerda, do  Instituto de Ciências do Mar, Universidade Federal do Ceará (UFC)  aborda os vários aspectos do boom da carcinicultura no Nordeste brasileiro, suas características e consequências, e o futuro dos manguezais na região, considerando as mudanças climáticas e o aumento da pobreza.

Em suas conclusões, o artigo aborda as principais práticas e resultados da criação de camarão em manguezais provavelmente se aplicam a áreas com configurações ambientais semelhantes, por exemplo, regiões semi-áridas em todo o mundo, e particularmente na região da América Latina e Caribe, e  os autores acreditam que suas descobertas podem ser levadas em consideração para melhorar a conservação. e manejo dessas florestas pelo menos em escala regional.

Quem desejar baixar o artigo que é citado nesta postagem, basta clicar [Aqui!].

Caso Henry: Morte, Milícia e Mídia no Rio De Janeiro

henry borel

Por Luciane Silva, Tiago Abud, Eliz Rosa, Pesquisadores do Núcleo Cidade Cultura e Conflito da UENF

Como pesquisadores e pesquisadoras do Núcleo de Pesquisa Cidade, Cultura e Conflito (NUC) da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), a morte de Henry Borel, criança de 4 anos, tem sido objeto de nossa reflexão. Para este artigo vamos aplicar a Análise de Conteúdo (AC), uma técnica que possibilita o estudo de sentidos, posicionamentos e ideologias a partir de elementos dispersos. A AC pode ser realizada com base em cartas de soldados em guerra, colunas de um jornal, ocorrências policiais ou letras de música. A proposta é pensar que esses materiais formam um conjunto capaz de fornecer uma compreensão sobre determinado grupo particular, sobre sentimentos de uma categoria profissional ou mesmo sobre uma sociedade em determinada conjuntura. Nesse exercício reflexivo, a partir das manchetes, canais de vídeo e sites de discussão, o objetivo é compreender a avaliação dos moradores fluminenses (especialmente cariocas) sobre o caso e como essa compreensão pode ser útil para problematizar questões sobre moral, democracia e segurança pública.

O caso

Em 8 de março o menino Henry Borel, residente à Barra da Tijuca dá entrada em um hospital. Posteriormente é divulgada a notícia de que a criança já estaria morta naquele momento. A alegação de queda da cama feita pela mãe e padrasto são contraditórias com as lesões (posteriormente foram  apontadas 23) no corpo de Henry.

Os acusados

A alegação de que a morte teria sido causada por um acidente doméstico (a queda da cama) foi descartada pela necropsia. O vereador Jairo Souza Santos Júnior (Dr. Jairinho), o padrasto com formação em medicina, e Monique Medeiros, mãe de Henry, foram presos por suspeita de atrapalhar a investigação.

A ação policial

Uma força-tarefa foi montada pelo delegado Henrique Damasceno, titular da 16º DP (Barra da Tijuca). Perícias, depoimentos, uso de tecnologia de ponta e reprodução simulada foram recursos utilizados em uma investigação de excelência da Polícia Civil do Rio de Janeiro. A conclusão do inquérito deve ocorrer antes do final do mês de abril. No desdobramento do caso, os dois acusados, Dr. Jairinho e Monique Medeiros devem ser indiciados por homicídio duplamente qualificado, por emprego de tortura e sem possibilidade de defesa da vítima.

A cobertura midiática

Todas as grandes redes de televisão e rádio têm noticiado o caso diariamente. E uma infinidade de canais de análise comportamental, sensacionalistas, investigativos e jurídicos tem tomado o caso como objeto de suas pautas. É nas redes sociais e canais como YouTube que podemos acompanhar a cobertura ao vivo e sua repercussão sobre a opinião pública.

Análise do conteúdo das redes e YouTube

Desde o início do caso temos analisado o conteúdo das manifestações em canais, blogs, jornais e outros veículos de mídia. Algumas delas merecem destaque para compreendermos a reação ao ato lesivo e o que estas manifestações indicam.

Em primeiro lugar, a mãe aparece como cruel, fútil e não raras vezes é responsabilizada pela morte de Henry. Ou seja, a figura materna como responsável pelo bem-estar da família ganha centralidade em um crime no qual um dos acusados apresenta um histórico de agressão a mulheres e crianças, com uso de tortura. Em declarações recentes, Monique apresenta uma carta com riqueza de detalhes sobre o modus operandi de Jairinho. É absolutamente crível a declaração feita por ela: ciúmes, perseguição, manipulação, uso de remédios, ameaças, violência física cotidiana, opressão. Neste ponto vemos os perigos da formação de uma opinião pública a partir de imagens da mãe indo ao salão ou bem vestida no dia da morte do filho. Nenhum destes elementos (vaidade, futilidade, frieza) suplanta a prova: Jairinho é um homem extremamente violento, manipulador e acima de tudo, poderoso. Julgar Monique desconhecendo o poder da milícia é um equívoco. Quem o enfrentaria ?

Em segundo lugar, a tese de psicopatia individualiza o caso como resultado da ação de pessoas más. Aceitar essa tese é desconhecer a regularidade e intensidade dos maus tratos às crianças e aos adolescentes no Brasil. E desconhecer que a violência doméstica exercida sobre uma criança frequentemente se estende aos outros membros da família. Mesmo que seja mais reconfortante expressar o ódio ao casal, o assassinato de Henry revela que a infância em nosso país é vulnerável. Essa revelação não pode ser combatida com teses sobre psicopatia, pois, para reduzirmos danos dessa natureza, é preciso política pública de assistência e proteção social. Não estamos tratando de pessoas com comprometimento de nenhuma faculdade mental. Estamos tratando de práticas sociais conhecidas por toda opinião pública.

Em terceiro lugar, a cobertura do caso Henry e a investigação explicitam a seletividade da ação do Estado quanto ao perfil das vítimas. Neste 23 de abril de 2021, completamos 4 meses sem saber o paradeiro de Fernando Henrique de 11 anos, Alexandre da Silva de 10 anos e Lucas Matheus de oito. Os três meninos brincavam na rua na comunidade de Castelar, em Belford Roxo, quando foram vistos pela última vez. Segundo os familiares as investigações deveriam ter início imediatamente. O que não aconteceu. Este desaparecimento não tem lugar na mídia.

O que falta explicitar e qual seria o significado de tornar explícito?

Por último, cabe destacar o elemento mais interessante desse caso. Dos sites e material analisado podemos acompanhar a comoção social na expressão do ato bárbaro em relação à uma criança de 4 anos. As acusações a Monique Medeiros também são frequentes. Quando são endereçadas separadamente ao vereador Jairinho, vêm acompanhadas de crítica ao sistema político como corrupto. RAROS SÃO OS COMENTÁRIOS SOBRE O FATO DO VEREADOR SER APONTADO COMO MILICIANO. Jairo Santos, filho de Coronel Jairo, já foi acusado pela tortura de jornalistas do jornal O Dia na favela do Batan.

Por que esse é um fato tão importante no caso Henry?

Porque o Rio de Janeiro trava, há muitas décadas, uma guerra às drogas[1]. Uma guerra que tem custado milhares de vidas anualmente de civis e agentes do Estado. Porque a cognição dos moradores do Rio e do Brasil associa todo mal existente na periferia a ação do tráfico. Porque o governador Wilson Witzel se elegeu com esse discurso e deu tiros com um helicóptero, além de comandar ações oficiais desastrosas em favelas, causando a morte de crianças inocentes e sem qualquer efeito prático sobre o mercado de drogas. Quando assumiu o cargo, o governador já sabia que o mapa da cidade e do Estado já não mostrava mais o tráfico como o grande problema da segurança pública.

Chama a atenção que Dr. Jairinho tenha ligado para o governador em exercício Cláudio Castro no dia do ocorrido. Chama a atenção que tenha tentado uma resolução rápida no hospital (tenha imaginado que isso seria possível). O pesquisador José Cláudio Souza Alves, em entrevista à Publica de 28 de janeiro de 2019, afirmara: “no Rio de Janeiro a milícia não é um poder paralelo. É o Estado”. O pesquisador tem demonstrado em livros e entrevistas, os tentáculos da milícia avançando para dentro do Estado. Em gabinetes parlamentares, na ocupação de cargos fundamentais como deputados e na estratégia de intimidação e ampliação dos espaços por dentro das instituições. Chegando aos mais “altos poderes” da República.

É terrível pensar que após cometer tantos crimes, foi preciso o homicídio de uma criança para que Jairinho fosse preso. É terrível pensar que, em seu início, a milícia em Rio das Pedras foi saudada pelo prefeito Eduardo Paes. É terrível pensar que moradores na região norte da cidade já defenderam a Liga da Justiça, de qual o coronel Jairo é apontado como liderança. Não estamos falando de um fato isolado, mas de uma prática comum a este grupo. Uma banalização do mal repetida anteriormente e amparada no medo das vítimas. Amparo que possibilitou a Jairinho seguir torturando crianças nos últimos anos.

É terrível pensar que ainda não sabemos quem mandou matar Marielle.

Todos esses crimes convergem para um mesmo fenômeno. E ele precisa ser nomeado por cada leitor e leitora quando tratar do caso Henry. As milícias avançam sobre o Estado sem recuo e construindo laços no Legislativo, Executivo e Judiciário. 

Essa é a questão central pouco explicitada nos grandes jornais.

[1] Agradecemos a Rafael Barros Vieira pela leitura e sugestões.

Epidemia de fome que afeta milhões de brasileiros é capa no “The New York Times”

Dezenas de milhões de brasileiros enfrentam fome ou insegurança alimentar à medida que a crise da COVID-19  se arrasta no país, matando milhares de pessoas todos os dias

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Fazendo fila para almoçar fora de uma instituição de caridade católica em São Paulo. O número de pessoas que passam fome quase dobrou no Brasil recentemente

Ernesto Londoño e 

RIO DE JANEIRO – Adolescentes magricelas seguram cartazes em navios de cruzeiro com cartazes que dizem fome – fome – em letras grandes. As crianças, muitas delas sem ir à escola há mais de um ano, imploram por comida em supermercados e restaurantes. Famílias inteiras se espremem em acampamentos frágeis nas calçadas e pedem leite em pó para bebês, biscoitos ou qualquer outra coisa.

Um ano após a pandemia , milhões de brasileiros passam fome.

As cenas, que proliferaram nos últimos meses nas ruas do Brasil, são a prova cabal de que a tentativa do presidente Jair Bolsonaro – de proteger a economia do país evitando políticas públicas de saúde para controlar o vírus- falhou.

Desde o início do surto, o presidente brasileiro se mostra cético quanto ao impacto da doença e desdenha a orientação de especialistas em saúde, argumentando que os prejuízos econômicos dos fechamentos, a suspensão das atividades empresariais e as restrições de mobilidade que recomendaram ser uma ameaça maior do que a pandemia para a fraca economia do país.

Esse sacrifício causou uma das maiores taxas mortes no mundo, mas também falhou em seu objetivo: manter o país à tona

O vírus afeta o tecido social ao estabelecer recordes dolorosos, enquanto a crise da saúde se agrava e leva as empresas à falência, matando empregos e atrapalhando ainda mais o avanço de uma economia que há mais de seis anos praticamente não cresceu.

Daniela dos Santos prepara uma refeição no centro de São Paulo.  A pandemia exacerbou a crise econômica do Brasil e aumentou o número de desempregados e desabrigados.

Daniela dos Santos prepara uma refeição no centro de São Paulo. A pandemia exacerbou a crise econômica do Brasil e aumentou o número de desempregados e desabrigados

Os voluntários distribuem sopas e sanduíches.

Os voluntários distribuem sopas e sanduíches

No ano passado, as transferências emergenciais de dinheiro do governo ajudaram a colocar alimentos na mesa para milhões de brasileiros. Mas quando esse dinheiro foi reduzido este ano em face de uma crise de dúvida que se aproximava, muitos armários foram deixados vazios.

No ano passado, cerca de 19 milhões de pessoas passaram fome, quase o dobro dos 10 milhões que passaram por situação semelhante em 2018, o ano mais recente para o qual há dados, segundo o governo brasileiro e um estudo de privação durante a pandemia realizado por uma rede de pesquisadores brasileiros engajados no assunto.

E o estudo mostrou que cerca de 117 milhões de pessoas, ou cerca de 55 por cento da população do país, enfrentam insegurança alimentar com acesso incerto à nutrição em 2020, um salto enorme em relação aos 85 milhões que estavam nessa situação há dois anos.

“A forma como o governo lidou com o vírus agravou a pobreza e a desigualdade”, disse Douglas Belchior, fundador da UNEafro Brasil, uma das várias organizações que se uniram para arrecadar fundos para levar despensas a comunidades vulneráveis. “A fome é um problema sério e incurável no Brasil”.

Luana de Souza, 32, era uma das mães na fila do lado de fora de um banco de alimentos improvisado em uma tarde recente na esperança de conseguir um saco de feijão, arroz e óleo. Seu marido havia trabalhado em uma empresa de organização de eventos, mas ficou sem emprego no ano passado devido a oito milhões de pessoas que se juntaram ao desemprego no Brasil durante a pandemia e aumentaram a taxa de 14% ao vivo, de acordo com o Instituto de Geografia e Estatística. do Brasil.

No início, a família administrou cuidadosamente a ajuda do governo, disse De Souza, mas neste ano, quando cortaram os pagamentos, eles tiveram dificuldades.

“Não há trabalho”, disse ele. “E as contas continuam chegando.”

Ismael dos Santos pede moedas em semáforo

Ismael dos Santos pede moedas em semáforo

Membros de uma igreja evangélica distribuem cafés da manhã

Membros de uma igreja evangélica distribuem cafés da manhã

Em 2014, a economia brasileira entrou em recessão e não havia se recuperado quando a pandemia estourou. Bolsonaro costumava evocar a realidade de famílias como a de De Souza, que não podem ficar em casa sem trabalhar para argumentar que os bloqueios impostos pelos governos da Europa e de outros países ricos para impedir a disseminação do vírus eram insustentáveis ​​no Brasil.

No ano passado, governadores e prefeitos de todo o país decretaram a suspensão das atividades de negócios não essenciais e ordenaram restrições à mobilidade, medidas que Bolsonaro chamou de “extremas” e alertou que causariam desnutrição.

O presidente também descartou a ameaça do vírus, lançou dúvidas sobre as vacinas , que seu governo começou a obter tardiamente, e muitas vezes encorajou multidões de seus apoiadores em eventos políticos.

Uma segunda onda de casos este ano levou ao colapso do sistema de saúde em várias cidades, e as autoridades locais impuseram uma série de medidas duras e se viram em guerra com o Bolsonaro.

“As pessoas precisam de liberdade, de direito ao trabalho”, comentou no mês passado, dizendo que as novas medidas de quarentena impostas pelos governos locais equivaliam a viver em uma “ditadura”.

Este mês, quando o número de mortes diárias causadas pelo vírus ultrapassou 4.000, Bolsonaro reconheceu a gravidade da crise humanitária que seu país enfrenta. Mas ele não assumiu a responsabilidade e, em vez disso, culpou as autoridades locais.

“O Brasil está no limite”, disse ele, argumentando que a culpa foi de “quem fechou tudo”.

Mas economistas disseram ser “um falso dilema” dizer que as restrições ao controle do vírus agravariam a crise econômica do Brasil.

Em carta aberta às autoridades brasileiras no final de março, mais de 1.500 economistas e empresários pediram ao governo que imponha medidas mais rígidas, incluindo um bloqueio.

“Não é razoável esperar que a atividade econômica se recupere de uma epidemia descontrolada”, escreveram os especialistas.

A economista Laura Carvalho publicou um estudo que mostrou que as restrições podem ter um impacto negativo na saúde econômica de um país no curto prazo, mas que, no longo prazo, teria sido uma estratégia melhor.

“Se o Bolsonaro tivesse implementado medidas de confinamento, teríamos saído antes da crise econômica”, disse Carvalho, professor da Universidade de São Paulo.

A abordagem do Bolsonaro teve um amplo efeito desestabilizador, disse Thomas Conti, professor do Insper, uma escola de negócios.

“O real brasileiro foi a moeda mais desvalorizada entre todos os países em desenvolvimento”, disse Conti. “Estamos em um nível alarmante de desemprego, não há previsibilidade para o futuro do país, as regras orçamentárias são violadas e a inflação cresce sem parar”.

A comida é distribuída e batizados são realizados

A comida é distribuída e batizados são realizados

A deterioração da crise COVID-19 do país deixou Bolsonaro politicamente vulnerável. Este mês, o Senado lançou uma investigação sobre a forma como o governo está lidando com a pandemia. Espera-se que o inquérito documente erros, incluindo apoio governamental para medicamentos ineficazes para tratar COVID-19 e falta de suprimentos médicos básicos, como oxigênio. Algumas dessas falhas provavelmente serão responsabilizadas por causar mortes evitáveis.

Creomar de Souza, analista político e fundador da consultoria Dharma Politics em Brasília, disse que o presidente subestimou a ameaça que a pandemia representava para o país e não elaborou um plano abrangente para enfrentá-la.

“Eles acreditaram que não seria algo sério e presumiram que o sistema de saúde poderia cuidar disso”, disse ele.

De Souza disse que Bolsonaro sempre fez campanha e governou de forma combativa, apresentando-se aos eleitores como uma alternativa aos rivais perigosos. Sua resposta à pandemia foi consistente com aquele manual de operação, disse ele.

“A grande perda, além do aumento do número de vítimas nesta tragédia, é uma erosão da governança”, disse ele. “Estamos diante de um cenário altamente volátil, com muitos riscos políticos porque o governo não cumpriu as políticas públicas”.

Grupos de defesa e organizações de direitos começaram este ano uma campanha Tem Gente Com Fome , ou Pessoas com Fome, com a intenção de arrecadar fundos de empresas e indivíduos para entregar despensas às pessoas necessitadas em todo o país.

Belchior, um dos fundadores, disse que a campanha leva o nome de um poema do escritor e artista plástico Solano Trindade. Descreve cenas de miséria vividas no Rio de Janeiro, percorre bairros pobres dos quais o Estado esteve ausente por décadas.

“Mais e mais famílias estão pedindo comida para ser entregue mais cedo”, disse Belchior. “E dependem mais das ações da comunidade do que do governo”.

Uma fila de pessoas esperando a entrega da comida

Uma fila de pessoas esperando a entrega da comidaJoaquim Ribeiro procura material reciclável para vender.

Joaquim Ribeiro procura material reciclável para vender

Carine Lopes, 32, presidente de uma escola comunitária de balé em Manguinhos, um bairro da classe trabalhadora do Rio de Janeiro, respondeu à crise transformando sua organização em um centro de ajuda improvisado.

Desde o início da pandemia, o preço dos produtos básicos aumentou dramaticamente nas lojas próximas, disse ele. O custo do óleo de cozinha mais do que triplicou. Um quilo de arroz dobrou. À medida que a carne se tornou cada vez mais proibitiva, os churrascos aos domingos se tornaram uma raridade na vizinhança.

Por muito tempo, Lopes estava acostumado a receber ligações de pais que queriam desesperadamente uma vaga para seus filhos na escola de balé, mas agora ele se acostumou com algo muito diferente. Todos os dias, velhos conhecidos e desconhecidos lhe enviam mensagens de texto perguntando sobre as cestas básicas que a escola de balé distribui semanalmente.

“Essas mães e pais estão apenas pensando no básico agora”, disse ela. “Eles ligam e dizem: ‘Estou desempregado, não tenho mais nada para comer esta semana. Há algo que você possa nos dar? ‘

Quando o vírus finalmente desaparecer, as famílias mais pobres terão mais dificuldade para se recuperar, disse ele.

Lopes se desespera pensando em alunos que não conseguiram se conectar a aulas online de suas casas porque não têm conexão com a internet, ou onde o único aparelho com tela pertence a um pai / mãe que trabalha.

“Ninguém vai poder concorrer a uma bolsa com um aluno de classe média que conseguiu acompanhar as aulas com sua boa internet e seus tablets”, disse. “A desigualdade está se agravando.”

ny8 hungerEntrega de doações

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Este artigo foi escrito originalmente em inglês e publicado pelo “The New York Times” [Aqui!  ] .

Observatório dos Agrotóxicos: com mais 33 produtos técnicos liberados, governo Bolsonaro atinge liberação de recorde de agrotóxicos em 28 meses

pesticides overuse

Um dos mais aspectos mais marcantes dos quase 28 meses de governo do presidente Jair Bolsonaro é a persistente onda de liberações de agrotóxicos que estão inundando o mercado brasileiro com produtos banidos nos países que os criaram, começando pela União Europeia, por causarem danos consideráveis sobre a saúde humana e o meio ambiente.  As liberações mais recentes ocorreram com a publicação do ATO Nº 20,  de 8 de ABRIL de 2021 que aprovou a comercialização de mais 33 agrotóxicos do tipo produto técnico. Com essa rodada, o governo Bolsonaro alcançou incríveis 1.172 liberações em 845 dias de governo, o que dá uma média de 1,39 agrotóxicos liberados por dia. Além disso, graças a essa volúpia de aprovações, o Brasil hoje conta com 3.231 produtos disponíveis no mercado, o que implica no fato de que o governo Bolsonaro é responsável por 36% de todos os agrotóxicos passíveis de serem comprados legalmente no Brasil.

Como em outras publicações, o ATO Nº 20,  de 8 de ABRIL de 2021 beneficia fortemente empresas sediadas na China que são responsáveis pela produção de 76%  dos agrotóxicos liberados, incluindo o fato de que uma empresa  localizada em Israel, e que fornecerá um dos agrotóxicos liberados, também agora é controlada por uma estatal chinesa (ver gráfico abaixo).

Ato no, 20 países sede

Outro aspecto recorrente da “tsunami de agrotóxicos” do governo Bolsonaro é a recorrente aprovação de produtos que contém substâncias banidas por terem sido flagradas causando graves danos à saúde humana e aos ecossistemas ambientais. No caso do ATO Nº 20,  de 8 de ABRIL de 2021, 30% dos agrotóxicos estão proibidos na União Europeia.

Tabela substâncias liberadas

Dentre as substâncias liberadas há que se enfatizar pelo menos duas, a Atrazina e o Fipronil, cujos impactos sobre a saúde humana (a Atrazina) e sobre espécies benignas como as abelhas (o Fipronil) estão solidamente documentadas não pela comunidade científica, mas também por órgãos governamentais como é o caso da União Europeia. No caso do Fipronil, que teve sua introdução no Brasil feita pelo governo Bolsonaro, o total de produtos liberados contendo esse princípio ativo chega a 25, o que deverá ter fortes impactos sobre as populações das abelhas em território nacional. No caso da Atrazina, o total de produtos liberados pelo governo Bolsonaro é de 22, apesar de todas as evidências que existem sobre o impacto que essa substância causa vários impactos negativos saúde humana (e.g., a exposição materna à atrazina na água potável foi associada a baixo peso fetal e defeitos cardíacos, urinários, além de retardar o desenvolvimento de fetos e causar a redução na sobrevida dos mesmos. Essa substância também têm sido associada à ocorrência de câncer de mama e de próstata, além de ser considerada um disruptor endócrino). 

O mais problemático disso tudo é que a sinergia dessa verdadeira multidão de agrotóxicos altamente perigosos e seus potenciais impactos sobre a saúde ecossistemas naturais, corpos hídricos e os alimentos que chegam às mesas dos brasileiros está sendo fortemente negligenciada pela mesma agência, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) que continua adotando táticas protelatórias no processo de liberação de vacinas contra a COVID-19, como é o caso da vacina russa Sputnik V.  Pelo jeito, todo o cuidado alardeado pela Anvisa não cobre a aprovação tsunâmica de agrotóxicos, deixando clara qual é a opção que orienta as ações do governo Bolsonaro.

Quem quiser baixar a planilha contendo os 33 agrotóxicos técnicos, basta clicar [Aqui ]. Para os interessados, em baixar a planilha contendo os 1.172 agrotóxicos liberados desde 01 de janeiro de 2019, basta clicar [Aqui!].

Nature publica estudo que revela aumento de mortalidade após uso de hidroxicloroquina na COVID-19

Doctor holding Chloroquine Phosphate drug

Por Isabel Cristina Melo Mendes para o Portal PEBMEDApesar de inicialmente terem sido vistos com grande entusiasmo como potencial terapia para infecção pelo SARS-CoV-2, causador da COVID-19, os antimaláricos cloroquina e hidroxicloroquina não mostraram benefício na maior parte dos estudos em que foram avaliados.

Grandes ensaios clínicos, como o RECOVERY e o SOLIDARITY, suspenderam o uso desses medicamentos em suas avaliações após a análise dos dados ter demonstrado ausência de benefício em desfechos clínicos importantes como mortalidade. Estudos investigando seu uso profilático também falharam em demonstrar eficácia.

Entretanto, com o grande número de trabalhos envolvendo COVID-19 sendo publicado a cada dia, muitas vezes heterogêneos e de qualidades metodológicas diferentes, resultados conflitantes podem aparecer. Nesse contexto, revisões sistemáticas e meta-análises são desenhos de estudo que permitem uma melhor avaliação global das evidências publicadas até o momento. Uma publicação da Nature traz uma meta-análise de ensaios clínicos randomizados sobre o efeito de cloroquina ou hidroxicloroquina na mortalidade por COVID-19

Materiais e métodos

Trata-se de uma meta-análise colaborativa, focada em mortalidade por todas as causas. Eram elegíveis todos os trabalhos em que indivíduos com casos suspeitos ou confirmados de COVID-19 foram randomizados para receber um tratamento contendo hidroxicloroquina ou cloroquina ou placebo/tratamento padrão. Estudos em que os antimaláricos foram comparados com outro potencial tratamento foram excluídos. Não houve restrição em relação a esquema posológico, tempo de seguimento, língua, região geográfica, local de atendimento (ambulatorial ou intra-hospitalar) ou se o estudo já havia sido concluído ou se estava em andamento.

Ensaios clínicos que preenchessem os critérios de inclusão foram pesquisados nas plataformas ClinicalTrials.gov e WHO International Clinical Trials Registry Plataform (ICTRP), assim como nos registros de ensaios clínicos de COVID-19 do PubMed e Cochrane. Os pesquisadores principais dos estudos considerados elegíveis foram contactados por e-mail e convidados a confirmar os critérios de inclusão e informar dados agregados de mortalidade em cada braço.

A busca dos autores encontrou 146 ensaios clínicos randomizados investigando cloroquina ou hidroxicloroquina como tratamento contra COVID-19 , sendo 83 considerados potencialmente elegíveis. Destes, os autores de 47 responderam ao e-mail de convocação, resultando, após verificação dos critérios, na inclusão de 28 trabalhos: 14 ainda não publicados, 9 publicados e 5 publicados como preprint.

Hidroxicloroquina foi avaliada em 26 estudos e cloroquina em 4, compreendendo análise de 10.012 e 307 pacientes, respectivamente. A mediana do tamanho da amostra foi de 95 (IQR 28 -282) para os estudos com hidroxicloroquina e 42 (IQR 29 – 95) para os estudos com cloroquina. A maioria (79%) dos estudos foi conduzida no ambiente intra-hospitalar.

Em relação à hidroxicloroquina, 606 de 4.316 (14%) dos pacientes tratados com a droga morreram, comparados com 960 de 5.696 (16,9%) dos pacientes no grupo controle, o que resultou, na meta-análise, de uma OR de 1,11 favorecendo o grupo controle (IC 95% 1,02 – 1,20; p = 0,02). Em 12 trabalhos, não houve mortes em nenhum dos braços. Quando somente estudos publicados foram avaliados, houve um pequeno aumento de mortalidade entre os pacientes tratados, com uma OR de 1,12 (IC 95% 1,08 – 1,16), o que não aconteceu entre os artigos não publicados.

Já para a cloroquina, 18 de 160 pacientes tratados (11%) morreram, enquanto foram encontradas 12 mortes em 147 pacientes nos grupos controle (8%). A OR combinada foi de 1,77 (IC 95% 0,15 – 21,13; p = 0,21). Em 2 estudos, não houve mortes em nenhum dos braços.

Subanálises não mostraram diferença nos resultados em relação ao local de atendimento (ambulatorial, enfermaria ou CTI), confirmação do diagnóstico, tipo de controle utilizado (placebo e tratamento padrão ou somente tratamento padrão), status de publicação ou dose utilizada. A heterogeneidade entre os estudos foi considerada baixa.

Os resultados mostram que não houve benefício em redução de mortalidade em pacientes com casos suspeitos ou confirmados de Covid-19 com o uso de cloroquina e que o uso de hidroxicloroquina esteve associado a maior mortalidade no braço que recebeu medicação.

Diversas diretrizes internacionais recomendam contra o uso de hidroxicloroquina e cloroquina, como sumarizado abaixo:

Sociedade Última revisão Recomendação Força da recomendação Qualidade de evidência
OMS Março de 2021 Recomenda contra o uso de hidroxicloroquina/cloroquina, independente da gravidade dos sintomas Forte recomendação Moderada
IDSA Abril de 2021 Recomenda contra o uso de hidroxicloroquina/cloroquina Forte recomendação Moderada
NIH Fevereiro de 2021 Recomenda contra o uso de hidroxicloroquina/cloroquina, com ou sem azitromicina Forte recomendação Alta

Mensagens práticas

  • O uso de cloroquina não esteve associado a diminuição de mortalidade e hidroxicloroquina esteve associada ao aumento de mortalidade em pacientes com COVID-19 suspeito ou confirmado, evidenciando dano com o uso dessa medicação.
  • Atualmente, as principais diretrizes internacionais recomendam contra o uso de cloroquina e hidroxicloroquina para tratamento de Covid-19.

Referências bibliográficas:

Isabel Cristina Melo Mendes é Infectologista pelo Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (UFRJ) ⦁ Graduação em Medicina na Universidade Federal do Rio de Janeiro

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Este texto foi originalmente publicado pelo Portal PEBMED [Aqui!].

STJ aponta risco de ruptura na barragem do Vale em Barão de Cocais (MG)

brucutuA mina de Brucutu em Minas Gerais (Crédito: Vale)

O Superior Tribunal de Justiça (STJ) decidiu nesta quinta-feira (22/04) restabelecer decisão que impede a retomada das atividades na barragem Norte/Laranjeiras, de propriedade da Vale, em  Barão de Cocais (MG).

A empresa cortou a produção da mina de Brucutu – a maior mina de Vale em Minas Gerais – em dezembro para avaliar a estabilidade da barragem.

O processamento úmido em Brucutu  foi suspenso em fevereiro de 2020 a pedido do Ministério Público local após  o desastre da barragem de rejeitos em Brumadinho , que deixou 243 mortos.

A recente decisão do STJ se baseou em nova informação do Ministério Público Federal (MPF), que relatou risco de rompimento na barragem Norte/Laranjeiras.

Um relatório recente da Agência Nacional de Mineração (ANM) constatou “incertezas sobre o comportamento geomecânico da barragem e sua fundação e a existência de materiais de baixa resistência na estrutura”.

O MPF informou que um estudo realizado no local demonstrou “o aparecimento de fissuras na estrutura da barragem, cujas causas ainda não foram identificadas”.

Com a decisão do STJ, foi restabelecida a decisão da Justiça estadual que havia suspendido a operação da barragem em 2019.

A Vale afirmou em nota à imprensa que a decisão não tem efeito prático, uma vez que já desativou a barragem de Norte/Laranjeiras.

“A Vale continua realizando estudos e monitorando as condições da estrutura, além de obras para melhorar a segurança da barragem”, disse a mineradora.

Brucutu, que tem capacidade anual de 30 milhões de toneladas de minério de ferro, está produzindo a uma taxa anual de apenas 10 milhões de toneladas.

A Vale reportou queda de 19,5% na produção em relação ao trimestre anterior no 1T20, adicionando combustível à alta do preço do minério de ferro.

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Este texto foi escrito originalmente em inglês e publicado pelo Minning.com [Aqui!].

Marketing acadêmico: disponibilizando o livro “Ditadura, Conflito e Repressão no campo: a resistência camponesa no estado do Rio de Janeiro”

ditadura no campo RJ

Em um momento em que há uma profunda negação da violência e dos crimes cometidos pelo Estado brasileiro durante o período coberto pela Ditadura Militar de 1964, obras que documentem os diferentes ângulos pelas quais a sociedade brasileira, e especialmente os trabalhadores, foi duramente castigada se tornam fundamentais.  Por isso, o  livro “Ditadura, Conflito e Repressão no campo: a resistência camponesa no estado do Rio de Janeiro” é de tamanha importância, pois apesar da violência cometida contra os trabalhadores rurais e suas organizações ter atingido níveis duríssimos, ainda existe pouca literatura científica que possa alimentar as devidas reflexões sobre o que aconteceu naquele período e de como ainda convivemos com os efeitos daquele processo todo.

O livro “Ditadura, Conflito e Repressão no campo: a resistência camponesa no estado do Rio de Janeiro” foi organizado pela professora Leonilde Sérvolo de Medeiros, professora do Programa de Pós-Graduação de Ciências Sociais em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade (CPDA/UFRRJ), que efetivamente é uma das principais intelectuais no campo dos estudos agrários brasileiros, e está dividido em 15 capítulos que discorrem com bastante aprofundamento os enfrentamentos e violências vivenciados pelos trabalhadores rurais do Rio de Janiero.

Um desses capítulos aborda a luta dos trabalhadores rurais do município de Campos dos Goytacazes entre 1964 e 1985 Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Campos dos Goytacazes que foram conduzidas pelo Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Campos (STRC), pioneiro na luta por direitos dos trabalhadores da agroindústria canavieira.  Esse capítulo tem como uma das suas autoras, a professora Ana Maria Almeida da Costa, do Departamento de Serviço Social da Universidade Federal Fluminense em Campos dos Goytacazes. Aliás, a importância da ação do STRC nas lutas dos trabalhadores rurais é reforçada pela presença de outro capítulo intitulado “Ação sindical e o regime militar. O Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Campos dos Goytacazes entre as décadas de 1960 e 1980”, este de autoria dos pesquisadores Rayanne de Medeiros Gonçalves e Rodrigo Pennutt da Cruz.

Mas é importante dizer que nos seus 15 capítulos esta obra realiza um primoroso trabalho de reconstrução das lutas ocorridas nas áreas rurais de todo o estado do Rio de Janeiro, trazendo ainda 3 anexos que trazem a relação de camponeses presos pelo regime militar, a lista de assassinados no campo entre 1964 e 1985, e ainda a lista dos desaparecimentos forçados.

Esta obra foi publicada pela “Consequência Editora”, mas pode ser baixada na íntegra [Aqui!].