A Inglaterra, que já vacina, decide fazer um lockdown radical contra a COVID-19. E o Brasil de Bolsonaro? Nada!

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Em que pese o Reino Unido já ter começado o seu processo de vacinação em massa contra a COVID-19, o  primeiro ministro conservador (isto é, de direita) Boris Johnson declarou hoje medidas de lockdown que são as mais extremas desde março de 2019.  As razões para a adoção de medidas que envolvem a permissão de sair de casa apenas uma vez por dia para a maioria dos ingleses por um período de, pelo menos sete semanas, são o espalhamento acelerado da pandemia, a elevação do número de mortos, e o ainda processo ainda relativamente lento de vacinação.

Já no Brasil, que ainda não possui um calendário real para iniciar o seu processo de vacinação (aliás, o governo Bolsonaro sequer conseguiu garantir a compra da quantidade de seringas que seria necessária para garantir o uso das vacinas quando elas forem finalmente liberadas para aplicação), tudo continua ao “Deus dará”, sem medidas reais de confinamento social, e com um presidente da república que continua objetivamente incentivando processos de grande aglomeração, com resultados que são mais do que previsíveis, mas que incluem a elevação do número de pessoas contaminados e do número de mortos pela COVID-19.

Enquanto isso, vejo os partidos políticos (sem distinção de viés ideológico) se ocupando da disputa pelo controle das mesas diretoras da Câmara de Deputados e do Senado Federal, como se nada estivesse ocorrendo de anormal no Brasil, e como se os problemas reais dos brasileiros se concentrem apenas em uma suposta defesa de uma democracia que, no nosso caso, é meramente formal.

Já escrevi antes e repito agora: a questão política central neste momento é obrigar o governo Bolsonaro a reverter a sua opção fiscalista de sabotar a adoção de um massivo processo de vacinação da população brasileira, o que além de fazer sentido do ponto de vista sanitária, é a única forma de colocar o país em um movimento de mudança política progressiva. 

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Enquanto isso não ocorrer, o presidente Jair Bolsonaro poderá continuar tranquilamente com suas performances, seja na praia ou no campo, pois continuará imune à qualquer pressão política real. Afinal de contas, seja quem vencer a eleição da Câmara de Deputados, Baleia Rossi ou Arthur Lira, o governo Bolsonaro continuará controlando a agenda política, impondo ainda mais derrotas e regressões aos trabalhadores brasileiros.

Aos leitores do blog, renovo a minha insistência que aumentem suas medidas de autoproteção (incluindo as medidas de isolamento, uso de máscaras e de asseio pessoal).  É que no imenso Deus dará que está estabelecido no Brasil, não é possível se dar ao direito ao descuido.

Agronegócio e pandemia da COVID-19: uma mistura explosiva

Já abordei anteriormente a íntima ligação entre a variante estadunidense da fazenda industrial com o aparecimento de pandemias, incluindo a da COVID-19.  Pois bem, para quem quiser saber mais sobre esta questão em geral, bem como no caso específico do Brasil, a edição brasileira do jornal Le Monde Diplomatique acaba de ser publicada é um prato cheio de conhecimento. É que boa parte da edição é dedicada a investigar e demonstrar a relação íntima entre grandes criações de animais e abatedouros industriais no espalhamento da COVID-19 no Brasil e nos EUA.

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No caso brasileiro, o artigo assinado pelos professores Fernando Mendonça Heck, do Instituto Federal de São Paulo, Campus Avançado Tupã (SP),  e Lindberg Nascimento Júnior do Departamento de Geociências da Universidade Federal de Santa Catarina, teve como foco o papel jogado pelos frigoríficos no espalhamento da COVID-19 na região Sul do Brasil, onde ficou patente uma clara sincronia entre a presença dos abatedouros e o grau de disseminação da pandemia (ver figura abaixo).

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Os professores Heck e Nascimento Junior mostram que ao impedir o isolamento social dos seus trabalhadores, os frigoríficos impuseram a difusão da pandemia não apenas nos municípios sede, mas também nas regiões de entorno, onde parte dos seus contratados reside.  Somado a esse padrão geográfico, os pesquisadores mostram que as condições de alta precariedade em que o trabalho dentro dos frigoríficos ocorre contribui de forma direta para o adoecimento dos seus empregados, bem como das famílias destes.

Já o artigo assinado pelos professores Larissa Bombardi do Departamento de Geografia da USP,  Immo Fiebrig, professor associado honorário da Escola de Biociências a Universidade de Nottingham na Inglaterra, e Pablo Luiz Maia Nepomuceno do Departamento de Geografia da USP.  Em seu artigo, os três pesquisadores abordaram  a possível correspondência espacial entre as áreas com criação intensiva de porcos e aquelas com altas taxas de população infectada por COVID-19 nos EUA. Essa investigação teve início com a divulgação na imprensa, a partir de abril de 2020, de diversos casos de trabalhadores da indústria da carne infectados pelo novo coronavírus, já que as plantas industriais onde ocorre o abate de animais teriam se transformado em hotspots de disseminação do SAR-Cov-2. 

Ao relacionar a presença de grandes rebanhos de suínos com as plantas de abate, Bombardi e seus colegas confirmaram a existência de uma relação inequívoca   na distribuição espacial entre as áreas com grande presença de suinocultura e/ou de frigoríficos e aquelas com alta taxa da população infectada por Covid-19 nos EUA (ver figura abaixo).

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Bombardi e colegas argumentam que a transformação de porcos em uma mera “massa de proteína animal” tem se mostrado deletéria não apenas para os animais, mas também para os seres humanos e para o meio ambiente.  Por causa disso eles concluem que não é de se estranhar que novas cepas tenham surgido na velocidade com que o fizeram neste século.

Outros artigos também sinalizam a incompatibilidade do modelo de fazenda industrial com a manutenção de níveis aceitáveis de segurança alimentar, de condições de vida minimamente dignas para os animais, bem como a prevalência de condições adequadas para os trabalhadores da indústria da carne animal.  Um elemento que aparece de forma eloquente, por exemplo, no artigo assinado  pelo  doutor José Raimundo Sousa Ribeiro Junior, professor visitante do Instituto de Saúde e Sociedade da Unifesp. Em seu artigo, Ribeiro Junior coloca em xeque a falácia de que o “agronegócio mata a fome do mundo”. É que segundo dados levantados por , a pandemia pode ser responsável pelo crescimento de 83 milhões a 132 milhões na quantidade de pessoas cronicamente desnutridas no mundo. em que pese os lucros fabulosos auferidos pelas corporações que controlam a produção e distribuição de alimentos no mundo.

Quem desejar acessar a íntegra da edição de janeiro de 2020 do Le Monde Diplomatique Brasil, basta clicar [Aqui!]. 

Degradação, uma ameaça contínua para a Mata Atlântica

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A Mata Atlântica é uma das florestas tropicais mais importantes do mundo, mas suas florestas são altamente fragmentadas. Crédito da imagem: Angeloleithold / Wikimedia Commons , licenciado sob Creative Commons 3.0

Dê uma olhada

  • Mata Atlântica já perdeu mais de 80 por cento de suas florestas
  • Monitorar a degradação florestal é tão importante quanto considerar o desmatamento, dizem os cientistas
  • Combate à degradação da Mata Atlântica atrairia grandes investimentos em créditos de carbono

Por:Washington Castilhos para a SciDev

Os impactos humanos sobre os remanescentes da Mata Atlântica causaram perdas de até 42% de sua biodiversidade e reservas de carbono, elementos essenciais para a conservação da vida e a regulação do clima, concluiu um novo estudo.

Com uma variedade de florestas tropicais de vários tipos e vegetação única – como o pau-brasil, a espécie de planta que deu o nome ao Brasil – a Mata Atlântica já cobriu toda a costa do Brasil e partes da Argentina, Paraguai e Uruguai. Hoje, apenas fragmentos sobrevivem.

Por meio da análise de 1.819 levantamentos, que levaram em consideração o clima, o solo, o nível de degradação florestal e o tamanho do que resta, uma equipe científica determinou que, em média, os fragmentos florestais apresentam um índice de 25-32. porcentagem menos biomassa (elementos da floresta, como raízes, tronco, folhas e galhos); 23-31 por cento menos espécies e 33, 36 e 42 por cento menos indivíduos de espécies endêmicas, de sucessão tardia e de sementes grandes, respectivamente.

Juntos, isso equivale à perda de 55.000-70.000 km 2 de florestas ou US $ 2,3-2,6 bilhões em créditos de carbono , destaca o estudo publicadona Nature Communications .

“É preciso destacar que a Mata Atlântica tem nível endêmico igual ou superior ao da Amazônia, mas pouco se fala sobre sua riqueza em biodiversidade”.  Marcos Pedlowski, geógrafo da Universidade Estadual do Norte Fluminense, Rio de Janeiro

Esses números têm implicações diretas para a mitigação das mudanças climáticas, já que um dos mecanismos para enfrentá-las é o combate à degradação florestal, explica à SciDev.Net o principal autor do estudo, Renato Lima, pesquisador do Instituto de Biociências do Universidade de São Paulo.

A pesquisa reconhece que “quantificar os impactos da degradação florestal é difícil e, portanto, tem recebido menos atenção do que o desmatamento nas mudanças climáticas e nas agendas de conservação , como o Acordo de Paris”.

A degradação ocorre quando o acúmulo de distúrbios dentro da floresta (como queimadas, extração de madeira e proliferação de espécies invasoras) altera todo o ecossistema e o funcionamento da floresta, afetando sua capacidade de armazenar carbono e água e prejudicando a biodiversidade.

Embora o desmatamento tenha recebido muita atenção nas últimas décadas, os cientistas alertam que o destino das florestas tropicais depende não só de promover o reflorestamento de áreas desmatadas, mas também de mitigar a degradação florestal nos fragmentos remanescentes de floresta.

As projeções do Centro Comum de Pesquisa – o serviço de ciência e conhecimento da Comissão Europeia – mostram que, se as taxas atuais de perturbação forem mantidas, as florestas tropicais virgens desaparecerão em 2050.

De acordo com essas projeções, algumas das florestas virgens da África Subsaariana desaparecerão entre 2024 e 2090; 2034 seria o ano do desaparecimento das pessoas localizadas na Tailândia ou no Vietnã; em 2040, os de Madagascar e da Índia desaparecerão, e em 2129 os da Amazônia brasileira.

Um mapa do Centro Comum de Pesquisa da UE mostra o ano esperado de desaparecimento das florestas em todo o mundo, com base nas perturbações observadas na última década

Antes da próxima COP15 – a Convenção das Nações Unidas sobre Diversidade Biológica (CDB), a ser realizada em maio de 2021 em Kunming, China – pesquisadores de doze países mapearam 2,9 bilhões de hectares de diferentes tipos de ecossistemas degradados e Eles foram divididos em uma escala de prioridades, da mais alta à mais baixa.

Nessa escala, a Mata Atlântica está entre as áreas de maior prioridade global e, em outros trabalhos , aparece como uma das áreas críticas de conservação com maior área de restauração.

Para Marcos Pedlowski, geógrafo da Universidade Estadual do Norte Fluminense, no Rio de Janeiro, a importância do novo estudo reside no fato de ter como foco a degradação da Mata Atlântica.

“Os esforços mais recentes levam em conta o desmatamento da Amazônia , sem levar em conta todos os outros biomas ou o problema da degradação. É importante ressaltar que a Mata Atlântica tem nível endêmico igual ou superior ao da Amazônia, mas pouco se fala sobre sua riqueza em biodiversidade ”, afirma Pedlowski, que não participou do estudo.

Esta vista aérea mostra o desmatamento da Mata Atlântica, porém medir a degradação florestal é muito mais difícil. Crédito da imagem: Cnes – Spot Image / Wikimedia Commons , licenciado sob Creative Commons 3.0

O geógrafo, cujo estudo recente chama a atenção para o índice de degradação da Amazônia, acrescenta que quanto menos perturbado o fragmento, mais serviços ambientais ele pode oferecer.

“Além de ser um ecossistema diversificado, a Mata Atlântica está localizada no entorno das maiores concentrações urbanas do Brasil e a água é um elemento importante para esses centros urbanos. Passamos por graves crises de água; entretanto, a geração de água é um dos serviços ambientais que as florestas preservadas podem oferecer ”, explica Pedlowski.

Segundo o estudo, o combate à degradação florestal no que resta da Mata Atlântica pode atrair bilhões de dólares em investimentos relacionados aos créditos de carbono.

Renato Lima acrescenta que como a maioria dos fragmentos está localizada em propriedades privadas, é fundamental criar alternativas atraentes para os proprietários.

“ A restauração florestal tem seus custos, mas pode gerar ganhos no mercado de créditos de carbono. A formulação de políticas pode ser a chave para a captação de recursos para a Mata Atlântica ”, afirma.

No Brasil, os recursos para reduzir as emissões de carbono por desmatamento e degradação florestal estão concentrados principalmente na Amazônia. Atualmente, apenas o estado do Rio de Janeiro possui um fundo voltado para a proteção da Mata Atlântica.

O estudo é financiado pela FAPESP, doadora da SciDev.Net

Link para o estudo na Nature Communication

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Este artigo foi escrito originalmente em espanhol e publicado pela SciDev [Aqui!].

A extradição de Julian Assange foi negada, por enquanto

Justiça inglesa profere um veredito surpreendente para o caso do fundador do Wikileaks

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Foto: dpa / Dominic Lipinski

Por Daniel Lücking para o Neues Deutschland

“Extradição negada”, tweetou o jornalista James Doleman da sala de imprensa do Woolwich Crown Court em Londres pouco antes do meio-dia. A extradição de Julian Assange para os EUA não ocorrerá por enquanto. A juíza Vanessa Baraitser levou em consideração a situação de saúde de Julian Assange no veredicto. O lado americano agora tem 15 dias para apelar da decisão. O advogado de Julian Assange anunciou que agora solicitará fiança.

A sua estrutura de personalidade autista, que intensifica sua depressão clínica, da qual Assange sofre após anos de isolamento na embaixada do Equador, e na prisão de segurança máxima em Belmarsh, torna provável que Assange possa cometer suicídio na prisão, explicou Baraitser .

O veredito é surpreendente, porque a juíza inicialmente estava claramente aberta ao lado americano. “Este tribunal confia que um tribunal dos EUA examinará adequadamente o direito do Sr. Assange à liberdade de expressão”. Segundo a juíza, Assange continuou a fazer mais do que apenas jornalismo.

Os observadores políticos não foram autorizados a assistir à decisão de Raraitser na segunda-feira. O parlamentar de esquerda Sevim Dagdelen tweetou que ela foi impedida de entrar no Reino Unido no último minuto por “razões frágeis”. Dagdelen foi registrado para participar e deveria ocupar um dos assentos que a família de Julian Assange não poderia usar. Não foi possível para todos os membros da família viajar da Austrália para ouvir pessoalmente o veredito.

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Este artigo foi escrito originalmente em alemão e publicado pelo Neues Deutschland [Aqui!].

Para se combater o governo Bolsonaro há que se separar a encenação dos seus fins práticos

 

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As cenas do presidente Jair Bolsonaro nadando (ainda que tropegamente) em meio a uma multidão de apoiadores nas águas de uma praia na Baixada Santista fez com que muitos analistas sérios o equiparassem ao ditador fascista Benito Mussolini que um dia também usou dessa estratégia para mostrar estratégia. Além de derivar comparações com um passado fascista, as cenas de Bolsonaro nadando deixaram muita gente boa atônita pelos simples fato de ainda existirem brasileiros que se disponham a tratá-lo como “mito”.  A solução para esse mistério está surgindo em narrativas de pessoas que estavam na areia da mesma praia quando as cenas envolvendo o presidente brasileiro ocorreram.  Segundo pelo menos uma testemunha, toda a situação pode ter sido simulada, provavelmente para energizar a base mais sólida sobre a qual Bolsonaro se apoia para governar.

Mas qual seria a surpresa se as cenas vindas de Praia Grande tenham sido realmente apenas uma bem elaborada encenação teatral? Para mim, nenhuma. É que ao longo de 2020, Bolsonaro foi flagrado realizando várias encenações dessa natureza, inclusive uma em que ele acena de forma animada para o vazio em um aeroporto em Goiás como se acenasse para uma multidão (ver vídeo abaixo). Coisa de um político que está há muito tempo no teatro da política, e que sabe manejar como poucos as emoções de uma base pequena, mas aguerrida, de fieis seguidores.

Contudo, se todos já deveriam saber que Bolsonaro e seus ideólogos são versados nas técnicas de manipulação da realidade, por que tantos ainda caem facilmente em seus truques? Em minha opinião, isso ocorre porque Bolsonaro é o espantalho perfeito para que as forças políticas que o apoiam, mas também supostamente o atacam, fujam das responsabilidades em relação ao projeto que ele e Paulo Guedes estão tendo implementar que é, basicamente, desmontar e reduzir a pó os elementos progressivos da Constituição Federal de 1988, incluindo não apenas os direitos sociais, mas também a proteção do meio ambiente e dos povos tradicionais. 

Como a imensa maioria dos partidos políticos fugindo do debate sobre o projeto que está sendo executado, à direita e também à esquerda, ficam todos apontando o dedo para Bolsonaro, enquanto Paulo Guedes continua avançando com as privatizações espúrias e com o desmanche das políticas sociais.  Essa é a tônica inclusive das análises feitas pelos chamados “intelectuais de coleira” que lotam os programas da mídia corporativa e cujas análises contribuem para esse clima de fim feira em meio à pandemia que contribui para a persistência da paralisia política. Se levarmos ao pé da letra o que muitos desses intelectuais amestrados, nem será preciso fazer eleição em 2022, pois já se sabe que Jair Bolsonaro será reeleito.

A saída para essa verdadeira “chave de cadeia” em que o Brasil está metido começa pela questão básica que é destrinchar o papel de Jair Bolsonaro no atual teatro de operações, mas continua com a identificação dos atores que estão ganhando com o avanço de seu projeto de desconstrução do sistema de direitos sociais e trabalhistas que está sendo aplicado por seu governo. Entender a relação entre a aparência e a essência da situação política que nos envolve será a principal tarefa nos primeiros meses de 2021, sob pena de ficarmos todos boquiabertos se os trabalhadores e a juventude resolverem desmontar por conta própria as caixas de ilusão de ótica que o presidente monta para esconder sua própria fragilidade.  Por isso, é essencial que se mantenha claro que com Bolsonaro só há uma verdade absoluta: nem tudo é o que parece. E isso como regra básica.

Mas mais do que a natureza e a finalidade da máquina de propaganda do Bolsonarismo, o essencial será sair da inação letárgica em que as forças políticas que dizem se opor ao projeto político convenientemente estão colocadas. E isso deverá começar por questionários desde os municípios a aplicação do receituário ultraneoliberal da dupla Bolsonaro/Guedes.  Essa será a chave para se sair das cordas e partir para a ofensiva política que a conjuntura requer.

 

Fim do auxílio emergencial em meio à avanço da pandemia equivale a jogar fósforo aceso na gasolina

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Com o anunciado fim do chamado “Auxílio Emergencial, em poucas semanas nem as maiores peripécias do presidente Jair Bolsonaro irão impedir que a dura realidade se instaura em milhões de lares brasileiros, onde faltarão os recursos necessários para colocar um pouco de comida na mesa.  Quem se dá ao trabalho de olhar o que está acontecendo nas ruas das cidades brasileiras com milhões de pessoas vagando em busca de comida não consegue entender como o governo Bolsonaro está cometendo um erro de cálculo político tão imenso, especialmente em um contexto de expansão da pandemia da COVID-19 que imporá uma redução na atividade econômica, jogando ainda mais pessoas em um já imenso exército de desempregados.

A resposta para esse aparente mistério está no apego do ministro Paulo Guedes a um receituário econômico que foi abandonado pela imensa maioria dos governos nacionais que, para combater a expansão da pandemia da COVID-19,  optou por destravar as torneiras dos recursos necessários par manter a suas respectivas populações com condições mínimas de sobrevivência. Em outras palavras, o fim do “Auxílio Emergencial” é uma consequência direta da manutenção da ortodoxia neoliberal pelo governo Bolsonaro. 

O presidente Bolsonaro, entre um mergulho em outro em praias ocupadas por seus apoiadores, sintetizou a disposição do seu governo com a singela frase “Toca a vida“.  A questão é que Bolsonaro sabe que dadas as condições estruturais da economia brasileira, não há como “tocar a vida”, a não ser que seja passando fome e sede.

O agravamento do cenário difícil que vivemos em 2020, e que jogará ainda mais brasileiros na condição de miséria extrema (o número inicialmente é de 15 milhões de pessoas), colocará uma pressão extraordinária sobre prefeitos e governadores. O problema é que estes também estão sendo pressionados a abraçar as mesmas políticas ultraneoliberais da dupla Bolsonaro/Guedes. Como governadores e prefeitos se comportarão ainda é um mistério, mas suponho que as eventuais resistências serão pontuais, e a maioria optará por apertar as contas para alcançar um impossível equilíbrio das contas públicas, optando por restringir gastos com políticas sociais.

Todo esse cenário disparado pelo fim do pagamento do “Auxílio Emergencial” acabará mostrando rapidamente o seu potencial de gerar uma forte explosão social nas principais cidades brasileiras. E que ninguém venha depois alegar algum tipo de surpresa, pois a decisão de jogar fósforo aceso em gasolina foi anunciada publicamente e adotada sem maiores resistências.

Incêndios colocam em risco as matas ciliares no Pantanal e no Cerrado

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Por Norbert Suchanek para o Neues Deutschland

No ano que acaba de terminar, os piores incêndios florestais em décadas assolaram o cerrado brasileiro e o Pantanal. As chamadas matas de galeria que margeiam as margens dos rios da paisagem de savana são particularmente afetadas pelos incêndios. Este ecossistema de floresta rica em espécies ameaça tombar. Este é o resultado de um estudo publicado recentemente no Journal of Applied Ecology.

As florestas de galeria perenes não são apenas particularmente ricas em espécies, elas evitam a erosão do solo e protegem os recursos hídricos. Eles também são essenciais para a sobrevivência de numerosas espécies animais, como a onça-pintada em extinção. As matas ciliares são seu refúgio preferido e uma parte importante dos corredores para a preservação da biodiversidade. Surpreendentemente, a proximidade com a água também não protege as matas ciliares dos incêndios florestais que foram causados ​​principalmente para expandir as plantações de soja e pastagens de gado. Uma equipe internacional de cientistas com a participação da Universidade de Hohenheim em Stuttgart examinou os efeitos de um incêndio devastador no parque nacional brasileiro Chapada dos Veadeiros.

Em 2017, 860 quilômetros quadrados de cerrado foram queimados ali. Para parte da área, a equipe de cientistas avaliou imagens de satélite de antes e depois do incêndio e realizou estudos de campo no local. De acordo com isso, cerca de 90 por cento das matas ciliares na região de estudo ainda estavam intactas em 2003. Após os devastadores incêndios florestais de 2017, no entanto, a cobertura florestal nas margens do rio caiu para 20 por cento em alguns lugares. “Em média, a cada segunda árvore adulta e 88 por cento das mudas morreram”, disse a equipe de pesquisa.

“Para nossa surpresa, as florestas que inundavam na época das chuvas foram as que mais sofreram danos. Algumas dessas florestas foram completamente destruídas. Quase todas as árvores morreram e gramíneas e outras espécies invasoras invadiram as áreas «, explica o primeiro autor da publicação, Bernardo Flores, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Os cientistas veem uma razão para isso na casca relativamente fina das árvores nas margens. Porque embora as matas ciliares cresçam em um ambiente onde os fogos fazem parte do ecossistema, os fogos naturais raramente os atingem por conta própria. Nesta área, a camada superficial do solo rica em húmus também foi queimada, o que levou à perda de nutrientes e à erosão do solo, além de liberar CO2

Incêndios naturais geralmente surgem de quedas de raios durante tempestades. A chuva subsequente geralmente extingue rapidamente esses incêndios. Além disso, normalmente ocorrem trovoadas na época das chuvas, de forma que o solo e a vegetação ficam úmidos e dificilmente inflamáveis ​​”, explica a pesquisadora Anna Abrahão, da Universidade de Hohenheim. Mas os produtores de soja e gado atearam fogo na estação seca, quando a vegetação está seca e fácil de incendiar.

Além disso, as espécies de gramíneas africanas não nativas das pastagens artificiais para gado espalharam-se pela savana adjacente e deslocaram a vegetação natural. Essas gramíneas exóticas, por sua vez, resultaram em mais biomassa acumulada e forneceram combustível adicional para o fogo. As matas ciliares não suportam esses incêndios intensificados. Ao mesmo tempo, os pesquisadores observaram uma extensão da chamada estação do tempo de fogo nas savanas tropicais de todo o mundo devido às mudanças climáticas. Na região tropical da América do Sul, esse período é 33 dias a mais do que há 35 anos. Os pesquisadores veem todo o ecossistema em perigo.

A expansão das monoculturas tornou o Cerrado e o Pantanal mais inflamáveis. Ao mesmo tempo, o governo brasileiro enfraqueceu a política ambiental do Brasil nos últimos anos, o que também está levando ao aumento dos incêndios florestais, resume Rafael Oliveira, ecologista da Unicamp e coautor do estudo.

O Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, fundado em 1961 no nordeste do estado da Chapada, tinha originalmente uma área de 625.000 hectares. Sob pressão do lobby agrícola, foi drasticamente reduzido em 1972, inicialmente para 171.924 hectares e depois novamente em 1981 para apenas 65.500 hectares. Em 2017, o governo Michel Temer finalmente expandiu o parque nacional, que também está “protegido” como Patrimônio Mundial da Unesco desde 2001, para sua área atual de 235.000 hectares, que, no entanto, continua sendo um espinho no lado do lobby agrícola. A última tentativa de reduzir o parque para 65.500 hectares novamente fracassou em 2019 no Supremo Tribunal Federal.

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Este artigo foi originalmente escrito em alemão e publicado pelo jornal Neues Deutschland [Aqui!].

Geraldo Venâncio, o sortudo, caiu antes de subir

geraldoAo defender medidas de lockdown para conter a pandemia da COVID-19, o médico Geraldo Venâncio tornou-se uma espécie de “Viúva Porcina” da nova administração municipal ao deixar de ser, sem nunca ter sido. Mas esta condição poderá se mostrar rapidamente um momento de imensa sorte

Li com pouca surpresa a informação de que o experiente Geraldo Venâncio acabou não sendo nomeado para ser o secretário municipal de Saúde no governo de Wladimir Garotinho (PSD).  Apesar das justificativas educadas do sempre educado Dr. Venâncio, não posso deixar de desconfiar que a sua defesa da adoção cientificamente lógica e racional de uma forma mais rígida de isolamento social para conter a expansão da COVID-19 acabou lhe custando  a nomeação.

Mas dada a flagrante onda de irresponsabilidade coletiva que grassa em certos segmentos da sociedade campista, que tendo rendido cenas dantescas de aglomeração em meio à expansão de uma pandemia letal, eu fico com a impressão de que cair antes de subir vai acabar se provando um bafejo de imensa sorte do Dr. Geraldo Venâncio. É que a História não é conhecida por ser clemente com aqueles que podendo conter o espalhamento de doenças letais, optam pelo caminho contrário.

Em tempo: conversando há alguns dias com a minha irmã que é servidora pública lotada na secretaria municipal de Saúde em minha cidade natal, ela me expressou alegria em ter alguém com experiência na área da saúde assumindo o posto de secretários, em vez de um estranho vindo da área da administração de empresas como ocorreu há alguns anos atrás. É que segundo ela, a experiência com um administrador de empresas em um lugar em que a saúde humana deve ser priorizada ficou longe de dar certo.

Aí é que eu fico com a impressão de que Geraldo Venâncio está sendo ainda mais sortudo ao se livrar das pressões que certamente ocorrerão para se priorizar a gestão focada nas relações de custo/benefício em vez do necessário foco na gestão primária da saúde, impedindo com isso a necessidade de se gastar com remédios. Por isso mesmo é que tem horas que cair é melhor do que subir.

Oráculo: o que esperar da partida de Rafael e seus menudos, e a chegada de Wladimir e seus secretários “experientes”?

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Good-bye Rafael, welcome Wladimir: saem os menudos e entram os experientes

A primeira coisa que quero dizer que se 2021 já me garantiu uma alegria essa se dá na certeza de que não terei mais de escrever sobre as políticas equivocadas do agora ex-jovem prefeito Rafael Diniz e seus menudos neoliberais. É que, confesso, esse blog não foi criado para acompanhar em micro-escala as idas e vindas da ação governamental no Brasil. Eu tenho pretensões de outra natureza para a utilidade deste espaço, e fazer o trabalho que deveria estar sendo feito pelo Ministério Público, pelo Tribunal de Contas, e por uma sociedade civil que deveria ser organizada nunca esteve nos meus planos. Foi o estelionato eleitoral de Rafael Diniz que me obrigou a dedicar atenção aos muitos equívocos que ele e seus menudos neoliberais cometeram ao longo de longuíssimos quatro anos (especialmente longos para quem é pobre e dependente da existência de empregos para não afundar na miséria extrema).

Ouvi com atenção o discurso de posse do novo prefeito Wladimir Garotinho, e avalio que ele acertou mais do que errou nas direções que sinalizou para a sua gestão. Se ele vai cumprir a promessa de governar olhando para frente e pensando na maioria da população só o tempo dirá.

Tenho a impressão de que ele terá um governo bem mais monitorado do que o de Rafael Diniz foi. Avalio que muito provavelmente teremos a volta de uma ação mais diligente do Ministério Público Estadual que andou estranhamente silencioso desde janeiro de 2017. Também não estranharei se ocorrer uma reativação da blogosfera campista que tinha dezenas de blogs funcionando para micro-monitorar o governo de Rosinha Garotinho, mas que entraram em um peculiar estado de letargia, com muitos dos blogueiros tendo suas verves críticas acomodadas em cargos de confiança no governo municipal. Com o fim, digamos, dessas oportunidades de colaborar com a gestão municipal, é quase certo que os blogueiros voltem a ser blogueiros, e Wladimir Garotinho se torne rapidamente alvo daquelas postagens apimentadas com as quais Rafael Diniz não teve de conviver. Por último, avalio que teremos a emergência de mecanismos de observação autônomos em relação a forças políticas tradicionais, mas que se ocuparão de fazer o básico que é ler o diário oficial do município de Campos dos Goytacazes para verificar como estará sendo gasto o ainda bilionário orçamento municipal.

Somando tudo isso, é quase certo que o escrutínio sobre o governo de Wladimir Garotinho será intenso, e ele terá que se ocupar da tarefa de garantir que seu governo, como a mulher de César, não seja apenas honesto, mas pareça honesto. Além disso, o novo prefeito terá de cumprir algumas metas básicas, mas estratégicas, para evitar que seu governo nasça sob a égide do descrédito, a começar pela reabertura do restaurante popular, a retomada de um sistema público de transporte minimamente operacional e, obviamente, por um uso mais eficiente dos recursos aplicados em saúde e educação.  E acima de tudo, que haja um esforço concentrado para deter o avanço da pandemia da COVID-19, garantindo inclusive a compra de vacinas com dinheiro próprio sem ter que esperar pelos hoje inviáveis suprimentos vindos do governo federal.

De minha parte, espero ter que me dedicar pouco neste blog no acompanhamento das ações do governo municipal, pois, como disse, avalio que teremos uma plêiade de candidatos a fazer isso, liberando este blog para outras searas. Agora, como vivo e respiro o ar que os mais de 500 mil campistas respiram, isso não quer dizer que serei omisso. Mas desejo ao novo prefeito toda a sorte do mundo, pois ele vai precisar dela. Por último, também desejo que ele realmente dê a necessária liberdade para seus secretários agirem tecnicamente na hora de decidir sobre os rumos que devem ser tomados para resolver os muitos problemas herdados. Agora, na hora que o calo apertar, que ele não se furte a ouvir a voz da experiência de um dos políticos mais astutos e de raciocínio ágil que existem no Brasil. Felizmente para o novo prefeito, se fizer isso, nem terá de ir muito longe, e ainda poderá conversar comendo um panetone caseiro.

Governo Bolsonaro e sua agenda tóxica resultaram na liberação recorde de 945 agrotóxicos no biênio 2019-2021

comida agrotóxicos

Se está patinando em adquirir até insumos básicos para viabilizar a vacinação da população brasileira para debelar a pandemia da COVID-19, em seus dois anos de existência o governo Bolsonaro fez a alegria dos fabricantes de venenos agrícolas. É que fechado o ano de 2020, podemos contabilizar a liberação de 945 agrotóxicos (ver planilha completa Aqui!), muitos deles de alta periculosidade para a saúde humana e o meio ambiente (incluindo águas e solos).

Já ressaltei em postagens anteriores o claro cinismo que marca a atitude do presidente Jair Bolsonaro em face do uso da Coronavac, vacina produzida e comercializada pela empresa chinesa Sinovac. É que todas as vacinas já desenvolvidas por outras empresas dependem de insumos produzidos na China para poderem ser produzidas e vendidas a preços relativamente mais altos do que a da Sinovac.  Além disso, como já demonstrado ao longo de 2020, uma parcela significativa dos agrotóxicos liberados nos dois anos de governo Bolsonaro são produzidos exclusivamente na China, sem que se ouça qualquer menção do presidente ou de algum dos seus filhos sobre o processo de envenenamento dos brasileiros pelos “agrotóxicos chineses”.

Mas é preciso reconhecer que um dos grandes méritos da máquina de propaganda do governo Bolsonaro é desviar a atenção dos assuntos que realmente interessam e inocular elementos paliativos e insignificantes na narrativa que molda a agenda política brasileira. 

Um dos complicadores do debate acerca do debate necessário sobre o grave risco que o uso abusivo e indiscriminado de agrotóxicos altamente tóxicos pelos grandes latifundiários que controlam a pauta de exportação brasileira é que os partidos da esquerda institucional, mormente o PT, aparentemente não veem isso como um problema.  A única exceção significativa nessa situação de aprovação tácita de um modelo de agricultura envenenada é o PSOL cuja atuação resultou em 2016 na apresentação de uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (a ADI 553) que questiona as imorais isenções fiscais dadas aos fabricantes de venenos agrícolas. Mas a falta de uma maior capacidade de mobilização política em torno da questão vem permitindo que a ADI 553 tramite na velocidade de um cágado de pata quebrada, permitindo que o Tsunami de aprovações de agrotóxicos gere bilhões de reais em lucros para as corporações que fabricam agrotóxicos.

O estudo aqui divulgado em que são demonstradas alterações no DNA de trabalhadores rurais expostos a agrotóxicos durante suas atividades profissionais em Goiás é apenas a ponta do iceberg de problemas infringidos à saúde humana no Brasil. Antecipo que apesar de todas as dificuldades de financiamento à pesquisa científica, ainda iremos ver emergindo evidências cientificamente corroboradas de outros distúrbios causados à saúde dos brasileiros por causa da exposição direta ou indireta a agrotóxicos, muitos deles banidos em seus países de origem, incluindo a China que hoje domina o fornecimento de venenos agrícolas no nosso país (um exemplo disso é o herbicida Paraquate que apesar de oficialmente banido continua sendo usado no Brasil em função de estratégias legais usadas pelos representantes do setor produtor de venenos agrícolas e associações que defendem os interesses do latifúndio agroexportador).

Também prevejo que veremos a continuidade da aprovação expedita de agrotóxicos pelo governo Bolsonaro em 2021. Por isso mesmo, a partir do “Observatório dos Agrotóxicos”, o “Blog do Pedlowski” continuará documentado as aprovações e oferecendo as principais informações contidas nos atos oficiais de liberação de mais produtos para um mercado ambicionado pelas grandes corporações multinacionais. Apesar de trabalhoso, essa ação será continuada porque a última coisa que podemos nos permitir enquanto durar o governo Bolsonaro é o direito à ignorância.