A EPA ignorou pedido para endurecer as restrições ao Glifosato, alega ação judicial

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Por Shannon Kelleher para “The New Lede”  

A Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) está colocando a saúde pública em risco ao continuar permitindo que os agricultores pulverizem glifosato, um herbicida associado ao câncer, diretamente sobre a aveia antes da colheita, uma prática que geralmente resulta em resíduos do agrotóxicos em alimentos populares feitos com aveia, de acordo com um novo processo judicial.

O processo , apresentado em 20 de abril pelo Environmental Working Group (EWG), pede ao Tribunal de Apelações dos EUA para o Circuito do Distrito de Columbia que obrigue a EPA a responder a uma petição de 2018 que solicita à EPA a proibição do uso de glifosato para secar plantações antes da colheita e a redução do nível de resíduos de glifosato permitido na aveia de 30 partes por milhão (ppm) para apenas 0,1 ppm. A EPA nunca respondeu à petição, que foi apresentada pelo EWG e um grupo de empresas alimentícias e supermercados.

O processo judicial centra-se no atual “limite máximo de resíduos” (LMR) da EPA para o glifosato na aveia, que é amplamente consumida por crianças em cereais, biscoitos e outros produtos, e alega que os limites não protegem adequadamente a saúde das crianças.

Testes realizados pelo EWG e outras entidades encontraram resíduos de glifosato em diversos alimentos populares, incluindo cereais e snacks à base de aveia, concluindo que a aveia é uma das principais fontes de exposição ao glifosato para bebês e crianças pequenas.

“A EPA tem o claro dever legal de agir em relação a esta petição, e simplesmente se recusou a fazê-lo”, disse Caroline Leary, conselheira jurídica da EWG, em um comunicado .

“Esse tipo de atraso tem consequências reais para as famílias que dependem da agência para garantir que as crianças não sejam expostas a resíduos tóxicos de produtos químicos agrícolas, como o glifosato”, disse Leary.

“Esse tipo de atraso tem consequências reais para as famílias que dependem da agência para garantir que as crianças não sejam expostas a resíduos tóxicos de agrotóxicos, como o glifosato.” — Caroline Leary, EWG

Os limites máximos de resíduos (LMRs, na sigla em inglês), também conhecidos como níveis de tolerância, para o glifosato em culturas alimentares têm sido alvo de controvérsia há muito tempo. Enquanto o LMR para aveia era de 0,1 ppm em 1993, ele foi elevado para 20 ppm em 1997 e novamente para 30 ppm em 2008. Os LMRs da EPA frequentemente permitem que mais resíduos de glifosato permaneçam nos alimentos nos EUA do que em muitos outros países , incluindo os da União Europeia.

Em 2013, a EPA (Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos) emitiu uma nova regulamentação que elevou os níveis de glifosato em oleaginosas, incluindo linhaça, gergelim e soja, de 20 ppm para 40 ppm, além de aumentar drasticamente os níveis permitidos em batata-doce e cenoura. A EPA aumentou os níveis de tolerância em resposta a pedidos da Monsanto .

A EPA está reavaliando o registro do glifosato sob a Lei Federal de Inseticidas, Fungicidas e Rodenticidas (FIFRA), após ter revogado uma decisão provisória de registro em setembro de 2022. A expectativa é que a agência emita uma decisão final sobre a revisão do registro ainda este ano.

Na página da agência sobre glifosato , a EPA afirma que a presença de resíduos detectáveis ​​de agrotóxicos em alimentos não significa que esses resíduos estejam presentes em níveis inseguros.

“Devido ao seu uso generalizado, traços de resíduos de glifosato podem ser encontrados em diversas frutas frescas, vegetais, cereais e outros produtos alimentícios e bebidas. No entanto, esses traços não representam motivo de preocupação para o consumidor”, afirma a EPA em seu site.

Em sua petição de 2019, o EWG escreveu que a EPA “rejeitou indevidamente” muitos estudos científicos que ligaram o glifosato ao câncer, uma medida que “permitiu a aprovação contínua de níveis de tolerância cada vez mais altos de glifosato como resíduo em alimentos comuns”.

O processo da EWG surge no momento em que a Monsanto, fabricante do Roundup, um herbicida popular que tem o glifosato como ingrediente ativo, se prepara para uma batalha judicial em 27 de abril na Suprema Corte , na qual o tribunal deverá determinar se a lei federal prevalece sobre as exigências estaduais de rotulagem para produtos que possam prejudicar os consumidores.

Os documentos legais que apoiam a Monsanto, empresa pertencente ao conglomerado alemão Bayer, sugerem que os EUA podem enfrentar uma “devastação” agrícola e outras dificuldades caso o tribunal decida contra a empresa, enquanto os documentos contrários alertam que apoiar a Monsanto pode isentar as empresas de responsabilidade, privando os consumidores do direito de processá-las caso adoeçam gravemente após a exposição a produtos químicos perigosos.

O glifosato é usado nos EUA desde a década de 1970 e atualmente é o herbicida mais utilizado no mundo. Em um “simpósio sobre glifosato” realizado em Seattle no mês passado, cientistas de todo o mundo se reuniram para instar os órgãos reguladores dos EUA e da Europa a fortalecerem as regulamentações sobre o glifosato. Os pesquisadores examinaram estudos conduzidos na última década, concluindo que as evidências que demonstram que os herbicidas à base de glifosato podem prejudicar a saúde humana “são agora tão robustas que nenhum atraso adicional na regulamentação do glifosato pode ser justificado”.

Um grupo internacional de pesquisa sobre câncer determinou, há mais de uma década, que a substância química é “provavelmente” cancerígena para seres humanos.

Em dezembro, um artigo publicado no ano 2000, que havia sido usado como principal argumento da Monsanto na alegação de que o glifosato não causa câncer, foi retratado , com o editor da revista citando “sérias preocupações éticas”.

Imagem em destaque: Providence Doucet / Unsplash


Fonte: The New Lede

Hierarquias invertidas: salário docente e a economia política do abandono no Rio de Janeiro

Últimos lugares em salários docentes não são acaso, mas resultado de uma política que fragiliza Uerj e Uenf e compromete o desenvolvimento científico

Quem observa à distância pode até supor que a realidade salarial dos professores das universidades estaduais do Rio de Janeiro reflete um padrão nacional — especialmente quando se trata de estados que concentram o grosso da riqueza produzida no país. Essa leitura, no entanto, não resiste ao confronto com os dados.

Um levantamento recente da diretoria da Associação de Docentes da Uerj (Asduerj) desmonta essa ilusão com contundência. No ranking dos salários iniciais para professores doutores em regime de Dedicação Exclusiva, o contraste é gritante: o Pará, apenas o 12º maior PIB estadual, lidera a remuneração, enquanto Rio de Janeiro e Minas Gerais — segunda e terceira maiores economias do país — amargam as últimas posições. Não se trata de uma distorção pontual, mas de um sintoma claro de uma política sistemática de desvalorização ( ver abaixo).

No caso do Rio de Janeiro, a situação é ainda mais alarmante. O salário inicial pago na Uerj é  igual ao da Uenf, o que escancara uma dupla precarização dentro do próprio estado. Em termos concretos, isso significa que docentes altamente qualificados recebem menos do que seus pares em estados com economias significativamente menores — muitas vezes enfrentando, ainda, custos de vida mais elevados e piores condições de trabalho. É uma equação insustentável que empurra as universidades para um processo silencioso de esvaziamento.

Os dados não deixam margem para dúvidas: o que está em curso é um rebaixamento deliberado do investimento em ciência, tecnologia e formação de alto nível. O salário docente funciona, nesse sentido, como um verdadeiro “canário na mina” — um indicador sensível de um colapso mais amplo. Quando se avilta a remuneração dos professores, o que está sendo corroído é a própria capacidade do estado de produzir conhecimento, inovação e desenvolvimento. 

Diante desse quadro, não há espaço para neutralidade ou espera. É urgente intensificar o apoio à luta salarial nas universidades estaduais do Rio de Janeiro e ampliar a solidariedade à greve na Uerj, que não é apenas legítima — é necessária. No caso da Uenf, o momento exige fortalecer a mobilização em curso, elevando o nível de pressão até que o governo estadual seja efetivamente constrangido a negociar. Isso implica não apenas recompor perdas acumuladas, mas também destravar, sem mais protelações, o Plano de Cargos e Vencimentos (PCV) e encaminhá-lo à Assembleia Legislativa.

A situação deixou de ser apenas preocupante — tornou-se vexatória. E, pior, tende a se agravar se não houver resposta à altura. O que está em jogo não é apenas o salário de uma categoria, mas o futuro das universidades públicas estaduais e o papel que o Rio de Janeiro pretende — ou abdica — de desempenhar no cenário científico e educacional brasileiro.

A pesquisa ambiental e seus inimigos: negacionismo, produtivismo & Cia, um debate urgente

Na última segunda-feira (20/4) tive a oportunidade de participar de um debate organizado pela Comissão de Ambiente da Associação Brasileira de Geografia Física (ABGF) que teve como título “A pesquisa ambiental e seus inimigos: negacionismo, produtivismo & Cia“. Participei desta mesa/debate com meus colegas geógrafos Marcelo Lopes de Souza (UFRJ) e Carlos Bordalo (UFPA).

Apesar da duração do debate ter extrapolado as duas horas previstas, isto ocorreu em função dos elementos que foram discutidos, mas que revolveram em torno dos impactos nefastos que o produtivismo acadêmico e o crescimento exponencial da produção de artigos que estão sendo publicados por revistas predatórias ou ainda por por “paper mills” que têm se infiltrado até em revistas científicas tradicionais.

Como Marcelo Lopes de Souza bem demonstrou a combinação de produtivismo acadêmico e a disseminação de artefatos que possuem baixa ou nenhuma qualidade científica está agravando os ataques de inimigos da ciência que se utilizam de argumentos não-científicos para avançar suas agendas anti-ambientais.  

Eu me ative a abordar o crescente problema representado pela privatização da ciência a partir da participação de grandes corporações na definição do que deve ser pesquisado, em combinação com a disseminação da pseudo-ciência que se serve das pressões impostas pelo sistema do “publicar ou perecer” que coloca mais peso na quantidade do que na qualidade das publicações científicas.

Quem desejar assistir a mesa/debate em sua integridade ou mesmo parcialmente, o vídeo completo segue abaixo.  De minha parte, considero que essa questão deverá merecer muitas outras mesas e debates, pois corremos o risco de que a empreitada científica seja desmantelada em função da quantidade de lixo que está sendo publicado como se resultassem de investigações e pesquisas que passem pelos crivos da boa ciência.

 

Após recomendação do MPF, Assentamento Campo Alegre é reconhecido no Rio de Janeiro

Instituto de Terras e Cartografia do Estado do Rio de Janeiro formalizou reconhecimento, que permite acesso a políticas da reforma agrária

Foto mostra um pasto com uma cerca de arame

Foto ilustrativa: Canva

Por ASCOM/ MPF RJ 

O Instituto de Terras e Cartografia do Estado do Rio de Janeiro (Iterj) acatou recomendação do Ministério Público Federal (MPF) e publicou a Portaria nº 363, que reconhece formalmente o Assentamento Campo Alegre como assentamento rural. A atuação do MPF buscou solucionar uma demanda histórica que perdurava por aproximadamente 40 anos.

A ocupação da área, localizada entre os municípios de Nova Iguaçu e Queimados, teve início em 1984, quando cerca de 600 famílias de lavradores e trabalhadores urbanos ocuparam a região em busca de moradia e trabalho. Apesar de tentativas anteriores de desapropriação pelo estado, a falta de pagamento de indenizações e a revogação de decretos impediram a formalização da área por décadas.

Na recomendação, assinada pelo procurador regional dos Direitos do Cidadão adjunto Julio Araujo, o MPF destacou que a ausência de reconhecimento formal impedia os produtores de acessar políticas públicas federais, como créditos agrícolas. O documento ressalta que a regularização é essencial para a segurança jurídica das famílias e para a pacificação de conflitos no campo, citando inclusive condenações do Estado brasileiro na Corte Interamericana de Direitos Humanos por violência rural.

O reconhecimento oficial, publicado no Diário Oficial da União, nesta sexta-feira (17), abrange uma área composta por 308 parcelas, onde residem cerca de 340 famílias de pequenos produtores. Segundo o Iterj, esses agricultores já desenvolvem atividades de subsistência e comercialização no local de forma mansa e pacífica, contando com assistência técnica e insumos fornecidos pelo órgão estadual.

Com a edição da portaria, o assentamento passa a ser tecnicamente apto a integrar a Política Nacional de Reforma Agrária. O ato administrativo determina especificamente que o reconhecimento visa possibilitar a participação dos produtores rurais de Campo Alegre como beneficiários no Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf).

O processo de regularização foi impulsionado pelas tratativas no âmbito do Fórum da Terra, conduzido pelo MPF. O espaço de diálogo reuniu órgãos como o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), o Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA), o próprio Iterj e representantes das prefeituras envolvidas, além das lideranças dos assentados, para destravar as pendências administrativas que se arrastavam desde 1999.

A partir de agora, as unidades técnicas do Iterj deverão supervisionar o processo junto aos Cartórios de Registro de Imóveis competentes e órgãos municipais. Além disso, a Gerência de Assentamentos do instituto buscará junto ao Incra o registro das informações no sistema nacional, garantindo que as famílias aptas possam efetivamente contratar os créditos fundiários necessários para o desenvolvimento de suas produções.

Íntegra da portaria


Fonte:  Assessoria de Comunicação Social da Procuradoria da República no Rio de Janeiro

Plano Safra 2026/2027: entraves dificultam o acesso de povos e comunidades tradicionais ao crédito rural

Rede ÓSocioBio e Conexsus apontam que ao menos 40% dos agricultores familiares atendidos pela Rede de Ativadores de Crédito Socioambiental não conseguem acessar a documentação exigida para obter crédito. Recursos seguem concentrados na pecuária, enquanto uma parcela reduzida alcança as cadeias da sociobioeconomia

 

O acesso ao crédito rural no Brasil ainda enfrenta distorções que limitam a inclusão de agricultores familiares, povos indígenas e comunidades tradicionais, especialmente nas regiões Norte e Nordeste. Apesar de ser a principal política pública de financiamento do setor, o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) segue concentrado em poucas atividades e regiões, deixando de alcançar cadeias produtivas ligadas à sociobioeconomia, como extrativismo, sistemas agroflorestais e pesca artesanal. 

Na prática, o crédito rural não chega de forma efetiva a uma parcela significativa dos produtores que atuam em sistemas produtivos sustentáveis, sobretudo em territórios mais isolados ou com menor presença de serviços financeiros.

Esse cenário está diretamente ligado a entraves burocráticos e operacionais que dificultam a inclusão dessas populações nas políticas públicas. Entre os principais desafios estão a exigência de documentação que muitas famílias não possuem ou têm dificuldade de atualizar, como o Cadastro da Agricultura Familiar (CAF), além da baixa oferta e baixa remuneração de assistência técnica para elaboração dos projetos de financiamento.

Em territórios mais remotos, as dificuldades são ainda maiores. Na fase pós crédito, há casos em que produtores não conseguem comprovar despesas por falta de nota fiscal — comum em regiões onde insumos são adquiridos em pequenos comércios locais ou de forma informal. Também há limitações logísticas, como longas distâncias até agências bancárias, acesso precário à internet e falta de orientação técnica contínua, o que acaba afastando parte das famílias das linhas de crédito disponíveis.

O CAF é um documento indispensável para o acesso a linhas de financiamento voltadas à agricultura familiar, como o Pronaf, permitindo acesso a recursos para produção, infraestrutura e comercialização, além de viabilizar a participação em programas como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA).

Apesar dos avanços recentes, os dados mostram que o financiamento rural ainda apresenta forte concentração produtiva e regional. Atualmente, cerca de 70% dos recursos do Pronaf estão concentrados na região Sul e Sudeste, enquanto mais de 85% das operações seguem vinculadas à pecuária, evidenciando um descompasso entre a política de crédito e a diversidade produtiva dos territórios brasileiros.

“O excesso de exigências burocráticas seguem excluindo povos indígenas, comunidades tradicionais e agricultores familiares das políticas públicas que deveriam fortalecê-los. É urgente adequar o Pronaf à realidade dos territórios, ampliando o acesso ao financiamento para as cadeias da sociobioeconomia. Garantir esse acesso é fundamental para gerar renda, valorizar os modos de vida e manter a floresta em pé como estratégia de desenvolvimento para o país”, afirma Laura Souza, secretária executiva do ÓSocioBio.

Na região Norte por exemplo, 85,4% do volume de recursos do Pronaf em 2025 foi destinado à pecuária, enquanto menos de 8% chegaram às cadeias da sociobioeconomia, como cacau, açaí, castanha-do-Brasil, óleos vegetais, pesca artesanal e sistemas agroflorestais. Apesar do aumento do percentual de operações para os produtos da sociobiodiversidade quando comparado ao ano 2024, as operações dessa categoria concentram-se em 53% na cadeia do cacau. Esse movimento está associado ao aumento expressivo do preço do cacau, e consequentemente, o interesse de famílias em operações de crédito para essa cadeia produtiva.

Esse cenário reforça a necessidade de ajustes estruturais no Plano Safra 2026/2027 para garantir maior equilíbrio na distribuição do crédito rural e ampliar o acesso às atividades ligadas ao uso sustentável da biodiversidade e de outros produtos da sociobiodiversidade ainda pouco financiados.

“A sociobioeconomia representa uma oportunidade estratégica para o Brasil. São cadeias produtivas de alto valor que geram renda, fortalecem comunidades rurais e contribuem para manter a floresta em pé. Ampliar o acesso ao crédito para essas atividades significa transformar a biodiversidade em desenvolvimento sustentável”, afirma Fernando Moretti, diretor de Políticas da Sociobioeconomia da Conexsus.

Segundo ele, ainda há um desalinhamento entre o desenho do crédito rural e a realidade produtiva de muitas comunidades. “Superar essas barreiras é essencial para que agricultores familiares, povos indígenas e comunidades tradicionais possam ampliar sua produção e fortalecer suas economias locais”, diz.

Além da concentração de recursos, outro desafio central é o acesso à documentação. Estimativas da Conexsus, com uma base de dados de mais de 5 mil famílias de agricultores familiares, principalmente povos e comunidades tradicionais, indicam que cerca de 40% das famílias da sociobioeconomia declararam não possuir CAF ativo, o que limita o acesso ao crédito rural e a outras políticas públicas. Esse percentual é semelhante ao identificado em diagnósticos recentes sobre a bioeconomia amazônica. Estudos da Rede Pan-Amazônica pela Bioeconomia, NatureFinance e WRI Brasil apontam que aproximadamente 40% das famílias envolvidas nas cadeias da sociobiodiversidade na Amazônia ainda não possuem CAF ativo, o que limita o acesso ao crédito rural e a políticas públicas voltadas à agricultura familiar e à sociobiodiversidade.

Diante desse cenário, especialistas e organizações que atuam no tema apontam que o Plano Safra 2026/2027 será decisivo para reorientar o crédito rural e ampliar o acesso às cadeias produtivas sustentáveis.

Entre as principais expectativas para este ano estão a ampliação do número de operações de crédito voltadas à sociobioeconomia, com crescimento em todas as regiões do país, além da adoção de critérios que garantam maior participação dessas atividades na destinação dos recursos.

Também está no radar a expansão e descentralização da emissão do Cadastro da Agricultura Familiar (CAF), considerada essencial para ampliar o acesso ao financiamento, e o fortalecimento da assistência técnica, com maior cobertura e remuneração adequada aos profissionais que atuam diretamente nos territórios.

Outro ponto considerado estratégico é a criação de mecanismos de garantia que facilitem o acesso ao crédito por cooperativas e negócios comunitários, além de incentivos para que instituições financeiras ampliem a oferta de financiamento para essas cadeias produtivas.

Para especialistas do setor, a adoção dessas medidas pode transformar o Pronaf em um instrumento mais eficiente de desenvolvimento sustentável, ao alinhar geração de renda, inclusão produtiva e conservação ambiental.

“Quando essas economias ganham escala, os impactos são múltiplos: geração de renda, valorização dos territórios e conservação dos ecossistemas”, afirma Moretti.

Mais do que ampliar recursos, o desafio central está em reorientar o crédito rural, tornando-o mais acessível, inclusivo e alinhado às demandas da agricultura familiar e das economias da floresta.

Tecnologia tenta aproximar comunidades do crédito

Uma das iniciativas recentes para facilitar o acesso ao crédito rural é um aplicativo desenvolvido pela Conexsus para conectar cooperativas e negócios comunitários às linhas de financiamento do Pronaf para seus associados.

A ferramenta funciona como uma plataforma digital de apoio para cadastro e elaboração de projetos de crédito, organizar documentos e facilitar a interlocução entre comunidades, negócios comunitários e instituições financeiras.

Além de facilitar o acesso ao crédito, a iniciativa contribui para estruturar cadeias produtivas da sociobioeconomia e fortalecer Negócios Comunitários que atuam em territórios da sociobioeconomia.

Sobre a Conexus

O Instituto Conexões Sustentáveis – Conexsus atua na promoção da conexão dos negócios comunitários com os mercados, sejam locais, regionais, nacionais ou internacionais, disponibilizando acesso a investimentos financeiros customizados, aliados à orientação técnica voltada a melhoria da maturidade organizacional e o desenvolvimento de sua base de associados.

Sobre o Ósociobio

O Observatório das Economias da Sociobiodiversidade é uma rede que nasceu em meio ao contexto político-eleitoral, em junho de 2022, para demarcar um espaço em defesa das economias dos povos e seus territórios, e se tornar um interlocutor necessário na construção e fortalecimento de políticas públicas orientadas para a sociobiodiversidade, agregando experiências, conhecimentos, habilidades e capacidades de nossos membros, parceiros e colaboradores.

Incêndios, secas e tempestades de vento tornam vegetação da Amazônia menos diversa, mostra estudo publicado na PNAS

Estudo liderado por brasileiros mostra substituição de espécies por generalistas, sem tendência de savanização; porém, áreas recuperadas são mais vulneráveis

Pesquisa foi realizada com base em 20 anos de monitoramento de campo (foto: Paulo Brando).

Por Luciana Constantino  para “Agência FAPESP” 

Mesmo após incêndios, secas severas e tempestades de ventos, a vegetação de florestas degradadas na Amazônia demonstra alta capacidade de regeneração, incluindo espécies arbóreas. A recuperação, no entanto, ocorre sob novas condições ecológicas, com perda de diversidade e aumento de vulnerabilidade a novos distúrbios.

Pesquisa publicada na segunda-feira (20/04) na Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), uma das revistas científicas mais citadas no mundo, mostra que há substituição de espécies vulneráveis por outras generalistas, mais resistentes. Indica, assim, segundo os autores, a formação de florestas homogêneas, mas não uma tendência à savanização, como parte da literatura científica vinha apontando. Esse processo reforça a resiliência do bioma.

Por outro lado, o estudo, realizado com base em 20 anos de monitoramento de campo e liderado por brasileiros, destaca que as áreas recuperadas são mais vulneráveis a eventos extremos cada vez mais frequentes no bioma e aos impactos do desmatamento e das mudanças climáticas. Além de intensificar secas e incêndios, o aquecimento global prejudica os serviços ecossistêmicos, como a regulação de água e a captura de carbono.


O grupo documentou a perturbação e a recuperação em uma floresta experimental em Mato Grosso, chamada Tanguro, localizada em uma região de transição entre os biomas Amazônia e Cerrado. Foram acompanhadas três parcelas de 50 hectares cada – uma de controle sem queima, outra queimada anualmente (entre 2004 e 2010) e a terceira com queimas trienais (2004, 2007 e 2010) (foto: Paulo Brando)

De acordo com os pesquisadores, essa compreensão é fundamental para orientar a conservação florestal e as estratégias de mitigação, especialmente frente a eventos como o El Niño, fenômeno caracterizado pelo aquecimento do oceano Pacífico na faixa equatorial que provoca alterações na circulação atmosférica e no regime de chuvas em escala global.

“A principal mensagem do nosso estudo é que, mesmo altamente degradadas, as florestas conseguem se recuperar. No entanto, estão muito vulneráveis a novos distúrbios. Elas são resilientes, mas, mesmo assim, é preciso preservar. No sítio experimental, temos o controle e o fogo não ocorre mais na área, o que não é possível fazer na Amazônia toda”, pondera à Agência FAPESP o biólogo Leandro Maracahipes, primeiro autor do artigo juntamente com o engenheiro florestal Paulo Brando.

O trabalho é resultado do pós-doutorado de Maracahipes no Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (IB-Unicamp). Atualmente, ele é pesquisador na Yale School of the Environment (Estados Unidos) e também colaborador do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam). O biológo e Brando têm apoio da FAPESP, respectivamente, por meio de Bolsa de Pós-Doutorado e Projeto Temático.

Acompanhamento

O grupo documentou a perturbação e a recuperação em uma floresta experimental em Mato Grosso, chamada Tanguro, localizada em uma região de transição entre os biomas Amazônia e Cerrado. Foram acompanhadas três parcelas de 50 hectares cada – uma de controle sem queima, outra queimada anualmente (entre 2004 e 2010) e a terceira com queimas trienais (2004, 2007 e 2010). Cada uma delas está próxima a áreas agrícolas, que eram utilizadas como pastagem com gramíneas exóticas.

“A escolha do lugar é chave, já que modelos climáticos consideram que a região de transição da Amazônia para o Cerrado será a primeira a sofrer mudanças com os impactos do aquecimento global. Essa pesquisa é inovadora porque integra múltiplos fatores estressantes, como fogo, vento forte e seca, e mostra que a floresta sofreu, se degradou e depois voltou. Mais empobrecida de espécies, porém ainda com características de floresta”, explica o ecólogo e professor do IB-Unicamp Rafael Silva Oliveira.


Com o passar do tempo e aumento da cobertura arbórea (fechamento do dossel), especialmente a partir de 2016, as gramíneas reduziram drasticamente. Para os pesquisadores, isso sugere que os danos causados à floresta não a transformaram em uma paisagem definitiva do tipo savana (foto: Paulo Brando)

Também autor do artigo e então supervisor de Maracahipes no pós-doutorado, Oliveira complementa: “Outro ponto importante é que as árvores cresceram e as gramíneas saíram, sem evidência de savanização. Os modelos criados pelos climatólogos foram úteis para alertar sobre os riscos à Amazônia, mas simplificaram os ecossistemas tropicais, reduzindo-os à floresta ou à savana. Isso ajudou a fortalecer a ideia de um ‘ponto de não retorno’, ainda pouco sustentada por dados de campo. Na prática, a Amazônia é muito mais diversa, com diferentes tipos de florestas e vulnerabilidades. Ao incorporar esse olhar biológico, mostramos uma Amazônia menos previsível e mais resiliente em algumas regiões do que os modelos sugerem”.

Oliveira também teve apoio da FAPESP por meio do Programa de Apoio à Pesquisa em Parceria para Inovação Tecnológica (PITE).

Passo a passo

Os resultados mostraram que, com a suspensão das queimadas, a recuperação da estrutura e do funcionamento da floresta foi rápida em seu interior, com diversidade de espécies relativamente estável.

Já nas áreas de borda o processo foi mais lento, com riqueza de espécies caindo de 20% a 46%, entre 2004 e 2024. O efeito de borda é uma alteração ecológica que ocorre nas margens de áreas desmatadas, onde a floresta passa a ter contato direto com ambientes abertos, como pastagens, estradas ou lavouras, alterando o clima e a biodiversidade.

Apesar da recuperação de alguns serviços ecossistêmicos, como fluxos de carbono e de água, com o crescimento de vegetação após os incêndios a composição de espécies mudou. Passou a ter mais generalistas, com características de tolerância à seca, mas que estão operando em limiares perigosos. A composição original de espécies não retornou mesmo após 14 anos, principalmente das consideradas especialistas de floresta.

As gramíneas foram fator-chave para promover fogos de alta intensidade e impediram a regeneração de árvores, tendo inicialmente se expandido ao longo das bordas. Foram observadas espécies ligadas a áreas de pastagens, como Aristida longifolia e Imperata sp, de origem africana. Após incêndios de alta severidade, gramíneas invasoras, especialmente Andropogon gayanus, entraram nas bordas, atingindo o pico em 2012.

Com o passar do tempo e aumento da cobertura arbórea (fechamento do dossel), especialmente a partir de 2016, elas foram reduzidas drasticamente, ficando apenas manchas de gramíneas tolerantes à sombra. Para os pesquisadores, isso sugere que os danos causados à floresta não a transformaram em uma paisagem definitiva do tipo savana.

“Olhando para a parte biológica, quando analisamos a composição de espécies de gramíneas na floresta que passou por distúrbios, vemos que são espécies utilizadas em pastagem, como braquiária e andropogon. Se o aumento fosse de espécies nativas, poderíamos dizer que o componente graminoso seria um fator importante na recuperação de florestas degradadas. Além disso, não há chegada de espécies lenhosas de savana. Nosso sítio experimental está a cinco quilômetros de áreas de savana do Cerrado, podendo ter fonte de propagação, e mesmo assim não registramos essa savanização”, complementa Maracahipes, que fez análise da composição das espécies ao longo dos anos no local.

A pesquisa mostrou ainda que a vulnerabilidade da floresta ao fogo aumenta por causa da casca fina das árvores; enquanto a baixa densidade da madeira prejudica mais em tempestades de vento. Nas secas severas algumas espécies operam próximo ao potencial de perda da condutividade hidráulica.

Um ponto que se mostrou importante na regeneração florestal foi a presença de fauna local, sendo mamíferos (como antas e macacos) e aves agentes-chave para promover o reaparecimento de árvores consideradas “especialistas de florestas”, ou seja, com alta densidade de madeira e de vida longa.

Cenário

Mesmo com uma queda significativa do desmatamento na Amazônia principalmente nos últimos dois anos, o bioma vem sofrendo com degradações constantes. O fogo tem sido o principal fator. Enquanto o desmate remove totalmente a cobertura de vegetação, a degradação enfraquece a floresta sem destruí-la por completo.

Entre agosto de 2025 e janeiro de 2026, o desmatamento na Amazônia Legal afetou uma área de 1.324 quilômetros quadrados (km²), com uma redução de 35% em comparação ao ciclo anterior (agosto de 2024 a janeiro de 2025). Já a degradação florestal atingiu uma área de 2.923 km² no período.

Nos primeiros três meses de 2026, foi registrado o segundo menor nível para o primeiro trimestre do ano – 399,59 km², o que representa queda de cerca de 7% em relação a 2025. Os dados são do Deter, sistema do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) de alerta de desmatamento em tempo real.

Para este ano, outra preocupação é com a possibilidade de um “super El Niño” a partir do segundo semestre até 2027. Novas projeções do Centro Europeu de Previsão Meteorológica de Médio Prazo apontam para a possibilidade de um fenômeno com potencial para ser o mais intenso em 140 anos. Em 2024, a seca que afetou a Amazônia foi provocada pelo El Niño e seus efeitos vêm sendo estudados até hoje.

“Apesar da resiliência da floresta, a preservação ainda é o caminho que precisamos buscar”, conclui Maracahipes.

O artigo Forest recovery pathways after fire, drought and windstorms in southeast Amazonia pode ser lido em: pnas.org/doi/10.1073/pnas.2532833123.


Fonte: Agência Fapesp

Autor de tese de Doutorado em universidade sueca é repreendido por causa do uso de Inteligência Artificial

Recentemente, um pesquisador da Universidade de Lund foi repreendido após sua tese de doutorado ter sido apontada como utilizando inteligência artificial. O pesquisador, que alegou não ter usado nenhuma ferramenta de IA, foi autorizado a manter o título de doutor, apesar da condenação por má conduta em pesquisa

Uma tese de doutorado foi sinalizada na Universidade de Lund por causa do uso de fontes falsas. Foto: Alexandra Wendt Höjer/Levart_
Photographer (unsplah) (Montagem)

Por Dione Zijp para Lund University 

Sabe-se que os projetos de pesquisa de doutorado são submetidos a rigorosos padrões acadêmicos, pois visam preparar os doutorandos para uma carreira futura na academia. O uso da IA ​​em processos de pesquisa é um tema controverso, que levanta questões sobre rigor acadêmico, integridade e ética científica.

Em fevereiro deste ano, a Universitetsläraren ( Associação de Professores Universitários) informou que o Conselho Nacional de Avaliação de Má Conduta em Pesquisa (NPOF) havia sinalizado uma tese de doutorado da Universidade de Lund por suspeita de uso indevido de inteligência artificial, alegando que o projeto continha 14 referências falsificadas. A lista de referências do projeto continha diversas fontes inexistentes, títulos citados incorretamente e DOIs referenciados de forma errada. Como a tese já havia sido defendida e aprovada pelo orientador e pela banca examinadora, o pesquisador tem permissão para manter o título de doutor. 

Uma análise mais detalhada da avaliação do NPOF mostra que as referências falsificadas apareceram apenas na lista de referências, e todas as citações no texto estavam corretas. De acordo com o relatório , o pesquisador de doutorado argumentou que, como todos os erros de referência ocorreram apenas nessa lista, não houve falsificação nem plágio.

As referências incorretas na lista foram resultado do estresse durante o processo de pesquisa de doutorado e do uso de ferramentas de busca para a compilação da bibliografia. Além disso, a pesquisadora afirmou que uma lista correta foi submetida à banca e que o objetivo final era citar autoras em uma área predominantemente masculina. 

Embora o uso da IA ​​por si só não seja conclusivo para determinar má conduta em pesquisa, o caso destaca o papel crescente que as ferramentas de IA desempenham no processo de pesquisa, inclusive em nível de doutorado. Até o momento, existem poucas pesquisas que avaliam o papel da IA ​​nos processos de pesquisa de doutorado.

A Universidade de Linköping está atualmente conduzindo um estudo com entrevistas sobre a opinião de estudantes de doutorado a respeito do papel da IA ​​em trabalhos de tese, mas os resultados ainda não foram publicados. Enquanto isso, os alunos continuam sendo repreendidos pelo uso de IA em trabalhos acadêmicos, embora os relatos de fraude com IA na Universidade de Lund sejam relativamente baixos em comparação com outras universidades suecas.

O uso da IA ​​no trabalho universitário continua sendo um tema de debate acadêmico. Enquanto isso, a Universidade de Lund publicou suas próprias diretrizes para o uso da inteligência artificial no processo de pesquisa. Em uma das publicações da universidade , os pró-reitores Jimmie Kristensson e Per Mickwitz afirmam que:  “O ponto de partida ao usar IA em pesquisa é seguir os princípios básicos da ética em pesquisa e deixar que eles orientem sua conduta como pesquisador.”

A universidade também menciona as diretrizes de pesquisa publicadas pelo Conselho Sueco de Pesquisa, incentivando os pesquisadores a se guiarem pelos princípios de confiabilidade, honestidade, respeito e responsabilidade ao utilizarem ferramentas de IA.


Fonte: Lund University

Acre: estradas invisíveis avançam e colocam em risco unidades de conservação e terras indígenas

A expansão silenciosa dos ramais revela como a infraestrutura precária, impulsionada por políticas públicas ambíguas e ocupações informais, reconfigura o território amazônico ao mesmo tempo em que aprofunda o desmatamento e fragiliza áreas protegidas

Na Amazônia, onde rios sempre foram caminhos e fronteiras, a abertura de estradas representa mais do que infraestrutura: é a materialização de um projeto histórico de ocupação. Desde a expansão promovida durante o regime militar brasileiro, entre 1964 e 1985, a malha viária na região tem avançado como instrumento de integração territorial, mas também como vetor de profundas transformações sociais e ambientais. No Acre, esse processo ganha contornos particularmente reveladores ao expor a tensão permanente entre políticas públicas, dinâmicas econômicas e a fragilidade dos mecanismos de controle territorial.

O mais recente mapeamento da rede de estradas e ramais no estado mostra que, entre 1989 e 2025, foram identificados mais de 24 mil quilômetros de vias. Trata-se de um crescimento contínuo, com acelerações em momentos específicos — como em 2006, 2019, 2020 e 2025 — que coincidem com ciclos de expansão da fronteira agrícola e aumento do desmatamento. Esses números não apenas dimensionam a extensão física da rede, mas revelam a persistência de um modelo de ocupação que se apoia na abertura de caminhos precários, muitas vezes fora de qualquer planejamento institucional.

A distinção entre estradas oficiais e ramais é central para compreender essa dinâmica. Enquanto as primeiras são registradas e, ao menos formalmente, monitoradas por órgãos públicos, os ramais — vias de terra batida, frequentemente abertas sem autorização — constituem uma malha capilar que escapa à regulação. São essas estradas invisíveis nos mapas oficiais que frequentemente sustentam o avanço de atividades ilegais ou informais, conectando áreas remotas a circuitos econômicos mais amplos.

Os dados indicam que 35% da extensão dessas vias se concentram em projetos de assentamento, o que não surpreende diante da necessidade de garantir acesso à produção agrícola familiar. No entanto, essa concentração também levanta questões sobre o papel do próprio Estado: ao mesmo tempo em que promove a ocupação por meio da reforma agrária, cria as condições para a fragmentação florestal e a intensificação de pressões ambientais. Em seguida aparecem propriedades privadas e terras públicas, reforçando a ideia de que a expansão viária não é apenas um fenômeno marginal, mas parte integrante das formas contemporâneas de apropriação do território.

Particularmente preocupante é a presença crescente de estradas em unidades de conservação, que já concentram cerca de 12% da malha identificada. A partir de 2018, observa-se uma intensificação desse processo, com mais da metade das novas aberturas ocorrendo nos anos recentes. Em áreas como as reservas extrativistas Chico Mendes e Cazumbá-Iracema, a abertura de ramais sinaliza a emergência de novas frentes de ocupação, frequentemente associadas ao desmatamento. Aqui, a contradição se explicita: territórios criados para proteger a floresta tornam-se, gradualmente, permeáveis a dinâmicas que a degradam.

Nos municípios, o avanço também segue padrões definidos. Rio Branco, Sena Madureira e Feijó concentram boa parte da expansão recente, com centenas de quilômetros de novos ramais abertos apenas em 2025. Esses movimentos indicam não apenas crescimento local, mas a reorganização de fluxos econômicos e populacionais que reposicionam o estado dentro da lógica da fronteira amazônica. Em Sena Madureira, por exemplo, a abertura de um ramal de mais de 20 quilômetros dentro de uma unidade de conservação evidencia a fragilidade dos mecanismos de fiscalização.

Se nas terras indígenas a presença de estradas ainda é relativamente baixa, o que se observa é um cerco progressivo em seu entorno. Essa pressão indireta tende a produzir impactos duradouros, seja pela intensificação de conflitos, seja pela introdução de novas dinâmicas econômicas que afetam modos de vida tradicionais. A baixa incidência interna, portanto, não deve ser interpretada como ausência de ameaça, mas como um estágio de um processo mais amplo de pressão territorial.

Por fim, as conexões regionais ampliam a escala do problema. A identificação de dezenas de pontos de ligação com estados vizinhos e países como Bolívia e Peru revela que os ramais não são estruturas isoladas, mas parte de uma rede transfronteiriça que pode facilitar tanto a circulação de mercadorias quanto a expansão de atividades ilegais. Nesse contexto, a estrada deixa de ser apenas um traço no mapa e se torna um dispositivo estratégico na reconfiguração da Amazônia contemporânea.

O que emerge desse panorama é menos uma narrativa de desenvolvimento e mais um retrato das ambiguidades do Estado e de seus instrumentos de intervenção. As estradas que prometem integração também abrem caminho para a degradação; os assentamentos que visam justiça social podem operar como vetores de pressão ambiental; e a ausência de regulação efetiva transforma a infraestrutura em um território de disputas. No Acre, como em grande parte da Amazônia, o avanço da malha viária não apenas acompanha a fronteira — ele a produz, redefine e, sobretudo, a expõe em suas contradições mais profundas.

Quem desejar baixar o arquivo contendo o relatório ” Expansão de estradas e ramais no Estado Acre -1989 a 2025″, basta clicar [Aqui! ].

Bananas tóxicas: os corpos quebrados pela multinacional Chiquita na Guatemala

Na Guatemala, o império bananeiro da Chiquita depende de uma força de trabalho terceirizada e explorada, que trabalha no coração das plantações, apesar de possuírem certificação da Rainforest Alliance. Salários abaixo do mínimo legal, exposição a agrotóxicos pulverizados por via aérea e o abuso de coquetéis de drogas altamente potentes para suportar cargas de trabalho exaustivas: a investigação da Public Eye revela o que se esconde por trás do selo

Chiquita Brands: a influência sombria de empresa que levou ao termo  'república das bananas' - BBC News Brasil

Por Adrià Budry Carbó, Fotografias: Tomás Ayuso / Panos Pictures, para “Public Eye”

Ao amanhecer, a plantação de bananas começa a despertar mesmo antes do sol romper a névoa úmida da costa sul da Guatemala. Nessas plantações terceirizadas pela Chiquita, trabalhadores agrícolas com rostos abatidos caminham entre as bananeiras, botas de borracha afundando na lama negra, facões afiados presos aos cintos. Eles sabem que o dia será longo: 10 horas, às vezes 12, por um salário irrisório – frequentemente abaixo do mínimo legal.

José Maldonado* esfrega mecanicamente os antebraços, irritado pela coceira causada pelos agrotóxicos pulverizados nos campos. Suas mãos contam a história melhor do que palavras: estão calejadas e marcadas por anos de trabalho, com uma ferida ainda aberta. “O corpo humano não é uma máquina”, murmura, mostrando seu último contracheque. Nele consta a quantia de 1.198 quetzales – ou cerca de 105 francos suíços líquidos, seu pagamento por duas semanas de trabalho. O valor é 35% menor que o salário mínimo agrícola nacional.

À sombra das bananeiras, José olha para o contracheque. Seus irmãos, Rogelio* e Luis*, repetem os mesmos movimentos, respiram o mesmo ar carregado de produtos químicos e contam o mesmo número de quetzales ao final de cada quinzena. Na família Maldonado, o trabalho com as bananas é compartilhado – assim como o desgaste físico. A história dos irmãos é também a história desta terra e das pessoas que a trabalham.

A terra do ouro verde

Devido ao clima de violência nas plantações no sul da Guatemala, anonimizamos a maioria dos depoimentos.

Em novembro de 2025, a Public Eye percorreu a Guatemala – traçando uma linha diagonal da cidade portuária de Puerto Barrios, no nordeste, até Puerto San José, no sul – para documentar as condições de trabalho e de vida nas plantações administradas pela Chiquita, com sede no cantão suíço de Vaud desde 2008, e suas subcontratadas.

Ao pé dos bananais e em alojamentos improvisados, encontramos dezenas de colhedores, fumigadores, aparadores de folhas, embaladores e seladores: um amplo espectro de trabalhadores empregados diretamente pela multinacional ou por meio de suas inúmeras subcontratadas no litoral sul do país, onde pudemos identificar diversos locais de trabalho. Em todos os lugares, ouvimos os mesmos relatos: fadiga extrema, salários inadequados, exposição desprotegida a produtos químicos, restrições à liberdade de associação. Cada uma das plantações que visitamos no sul – onde observamos as piores condições – possui, no entanto, a certificação da Rainforest Alliance, uma ONG sediada nos EUA cujo selo visa atestar não apenas a proteção da biodiversidade, mas também os direitos e a segurança dos trabalhadores.

Nossa investigação documenta a clara exploração de trabalhadores em plantações de banana, violações de direitos fundamentais e condições de trabalho que infringem padrões internacionais (incluindo o Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais da ONU e as principais convenções da Organização Internacional do Trabalho, ambos ratificados pela Suíça). Em um país marcado pela pobreza, tráfico de drogas, impunidade e violência endêmica, um clima de medo e desconfiança prevalecia de uma plantação guatemalteca para outra. Maldonado resumiu a situação sem rodeios: “Aqui, ninguém pode dizer não. Você tem que aguentar as longas jornadas e os produtos químicos na pele, ou eles encontram outra pessoa”. Para proteger os indivíduos que entrevistamos de demissões ou represálias físicas, anonimizamos a maioria deles, bem como as plantações que os empregam.

O testemunho dos irmãos Maldonado está longe de ser um caso isolado. No sul do país, onde se concentram 85% dos empregos na indústria bananeira, as empresas que administram as plantações em nome da Chiquita dependem de uma força de trabalho jovem, isolada e com pouca organização sindical – condições ideais para manter regimes de trabalho árduos e controle rígido. Aqui, o “ouro verde” se refere às bananas ainda verdes: embora a cultura sustente toda a economia regional, os próprios guatemaltecos raramente veem os frutos do seu trabalho.

Este relatório nos leva ao coração das plantações, onde a economia global encontra o silêncio – e muitas vezes a cumplicidade – das instituições locais. É um mundo onde milhares de pessoas trabalham em quase total invisibilidade. Aqui, a história brutal da Guatemala ainda está sendo escrita com facões; é uma história não de progresso, mas de suor, pesticidas e coquetéis de drogas.

Uma força de trabalho dopada com la bomba

Em sua paróquia em Puerto San José, uma pequena cidade na costa do Pacífico da Guatemala, o padre Leonel acolhe os poucos membros restantes de sua comunidade que ainda ousam se manifestar. Ele descreve trabalhadores exaustos, famílias ansiosas e jovens que desaparecem por duas semanas seguidas para trabalhar em plantações no sul. “Eles vieram à igreja. Primeiro por Deus… e então, começaram a falar. Não dava para ignorar”, diz ele, apoiando as mãos no púlpito. Nesta parte da Guatemala, o medo é onipresente. “Você nunca sabe com quem está falando”, confidencia o clérigo. “Aqui, muitos não temem apenas perder o emprego; temem por suas vidas.”

O padre Leonel, no entanto, se descreve como “um facilitador, não um agitador” e diz que quer “lançar luz e orientar questões sociais através da religião”. Isso foi o suficiente para que ele fosse proibido de entrar em uma pequena igreja perto de uma plantação. “As portas estão sempre trancadas”, diz ele em voz baixa. Em uma região dominada pelo agronegócio, até mesmo um padre pode se tornar uma ameaça se der voz a quem não a tem.

O padre Leonel caminha cautelosamente por esta terra de ameaças veladas: “Aquí en San José todo se resulve con la muerte.” Aqui, tudo se resolve com a morte.

De sua paróquia em Puerto San José, o padre Leonel oferece um ouvido compassivo aos trabalhadores explorados da indústria bananeira.

Violência nas sombras das plantações

Ao redor dos portos de Puerto Quetzal e Puerto Barrios, o medo assume outra forma. Esses corredores logísticos estratégicos atraem traficantes e redes criminosas, e diversas apreensões de cocaína escondida em carregamentos de banana foram documentadas nos últimos anos. Grupos do agronegócio se apresentam como vítimas desse tráfico. Para alguns sindicalistas, porém, a cadeia de suprimentos deveria ser limpa “de ponta a ponta”.

O medo está enraizado em uma longa história de repressão sindical. Na Guatemala, o movimento operário ainda carrega a memória do Plano Sacapa, um programa clandestino desenvolvido no final da guerra civil (1960-1996) para desmantelar sindicatos em setores considerados estratégicos. O documento – mantido em segredo por muito tempo e consultado pela Public Eye – foi escrito em um contexto de estreita colaboração entre o exército, os serviços de inteligência e certas empresas.

Entre 2004 e 2024, 110 sindicalistas foram assassinados na Guatemala, frequentemente em ataques direcionados realizados por homens armados em motocicletas. Em outubro de 2023, um trabalhador de uma subsidiária da Del Monte, que havia organizado dois dias de greve, foi morto a tiros em frente a uma plantação. A maioria desses crimes nunca foi solucionada.

Muitos trabalhadores vêm para as plantações ao redor de Puerto San José de Cobán, uma cidade indígena nas terras altas, a 10 horas de carro. Isolados de suas comunidades, sem acesso a informações ou apoio, eles aceitam tudo o que as fazendas agrícolas exigem. Sua situação só piorou desde que as ONGs locais – até recentemente apoiadas por fundos da USAID – começaram a desaparecer. Na lacuna que se abriu, outra forma de ajuda humanitária ganhou força nos últimos anos: esta, porém, é química, clandestina e perigosa.

Semana após semana, a mesma palavra surge: la bomba . Essa mistura caseira é feita dissolvendo tramadol – um analgésico opioide – em Raptor, uma bebida energética. “O efeito é mais rápido” assim, explica Pedro*, um jovem sobrecarregado da região. O coquetel explosivo suprime a fome, atenua a fadiga e produz uma sensação artificial de bem-estar. Os trabalhadores daqui consomem até sete por dia só para aguentar. “Faz você sentir que seu corpo aguenta”, explica Pedro.

O tramadol circula de mão em mão, vendido por funcionários mais experientes encarregados de obter e distribuir as drogas. Os supervisores alegam não saber de nada, diz Pedro. Mas os trabalhadores repetem a mesma frase: “Sem a bomba , muitos não aguentariam”. Diante de um ritmo implacável, calor intenso e falta de pausas, a substância se tornou uma ferramenta de sobrevivência – uma espécie de narcótico diário compartilhado entre as fileiras de bananeiras.

Juan Alberto López (50) fraturou a coluna após cair de uma bananeira. Ele se descreve como um “sobrevivente milagroso”, mas acredita que foi bem tratado por Chiquita.  Gustavo Vázquez é um descascador de folhas, um dos trabalhos mais difíceis e com menor remuneração nas plantações da Chiquita.

As consequências desse coquetel de drogas podem ser graves. Em uma longa investigação publicada em outubro de 2024, a revista guatemalteca No Ficción documentou o que descreveu como uma “epidemia” silenciosa que afeta toda a costa sul. Embora reconheça que as causas da doença renal crônica – atualmente uma das principais causas de morte na região – sejam controversas, a reportagem destaca o trabalho agroindustrial como um fator de risco crucial, citado por muitos especialistas. Dados de saúde mostram um aumento nos casos de doença renal crônica no departamento de Escuintla, onde se localiza Puerto San José: embora a costa do Pacífico represente apenas cerca de um décimo da população do país, concentra uma parcela desproporcional das mortes relacionadas a essas doenças.

Estudos científicos e observações de organizações médicas como Médicos Sem Fronteiras também confirmam um aumento nos danos renais entre trabalhadores agrícolas, sem estabelecer uma ligação direta com o tramadol. Um estudo com trabalhadores guatemaltecos estimou a prevalência de doenças renais de origem desconhecida em cerca de 3%, com uma taxa ainda maior no setor bananeiro. Em Puerto San José, muitos atribuem o colapso físico – desmaios, doenças e, às vezes, até a morte – ao calor extremo, aos refrigerantes açucarados, às condições de trabalho forçado e à bomba .

Uma maldição que cai do céu

Encontramos os irmãos Maldonado novamente à porta de casa. No sul da Guatemala, o desgaste físico não resulta apenas do trabalho pesado ou de coquetéis de estimulantes. Outro veneno está sempre presente nas plantações. Quase invisível, este é pulverizado do céu semana após semana.

Ao lado dele, Rogelio, irmão de José, permanece em silêncio. Seus olhos estão fixos em um ponto invisível à distância, como se ainda pudesse ver os pequenos aviões sobrevoando os bananeiros, pulverizando mancozeb, um fungicida agrícola. Em milhares de hectares de plantações de banana na Guatemala, esse fungicida é onipresente. É a principal arma das plantações contra a Sigatoka Negra, uma doença foliar que devasta o precioso “ouro verde” das bananas. Mas para os trabalhadores, é uma ameaça diária.

Uma placa na entrada de uma plantação proíbe o acesso e alerta para a pulverização de agrotóxicos.

“Eles voam muito baixo e o pó amarelo cai direto em nós. Às vezes conseguimos cortar uma folha de bananeira para nos cobrir, mas não é suficiente”, diz Rogelio*, o mais velho dos irmãos Maldonado, que, assim como José e seu irmão Pedro, também trabalha para uma subcontratada da Chiquita. Quando o fungicida é pulverizado, os trabalhadores não têm pausa – nem mesmo um aviso. Eles simplesmente precisam continuar cortando as bananas, carregando-as em carrinhos e puxando os cabos que sustentam os cachos. Às vezes, ele conta, a pulverização ácida os atinge durante o horário de almoço, enquanto comem à sombra das bananeiras. O mancozeb penetra em suas roupas, em seus alimentos e em seus poros, carregado pela densa névoa onipresente no sul da Guatemala.

Neste excerto, Rogelio Maldonado relata sua exposição a agrotóxicos:

O mancozeb foi proibido na União Europeia em 2020 e na Suíça em 2021, após ser classificado como um desregulador endócrino tóxico para a reprodução. Estudos demonstraram que a exposição ao fungicida pode causar malformações cerebrais em fetos. As autoridades europeias também suspeitam que ele seja cancerígeno. Apesar disso, a gigante agroquímica Syngenta – que comercializa o fungicida localmente sob o nome de Ridomil – continua a vendê-lo em países como a Guatemala, onde a regulamentação é mais branda. Outras empresas também o produzem. Em 2024, a empresa búlgara Agria exportou 180 toneladas da Europa para a Guatemala, segundo uma reportagem anterior da Public Eye .

Os fungicidas são pulverizados por avião, frequentemente diretamente sobre os colhedores de banana em atividade. O mancozeb está associado a altos riscos de esterilidade.

Contactada para comentar o assunto, a Syngenta, grupo com sede em Basileia, afirmou que opera “em total conformidade com as leis e regulamentações locais”. A empresa declarou ser uma participante de médio porte no mercado de mancozeb e afirmou que seu produto Ridomil Gold “não está registrado para uso em plantações de banana na Guatemala”. Ressaltou ainda que a agricultura tropical difere fundamentalmente da praticada na Europa e que, consequentemente, “as abordagens de proteção de plantas também devem ser adaptadas às realidades locais”.

Na luta contra a Sigatoka Negra, o mancozeb continua sendo amplamente utilizado. A entidade certificadora Rainforest Alliance concedeu uma autorização excepcional para seu uso em plantações na Guatemala até 31 de dezembro de 2028, citando a necessidade de um “controle rigoroso da doença”.

Nas plantações de banana da Guatemala, a exposição a fungicidas é sistêmica. Aeronaves leves pulverizam mancozeb uma, duas e até três vezes por semana, durante todo o ano. No documentário Banana Land: Blood, Bullets and Poison (2014), um pesquisador relatou como pilotos equatorianos admitiram sofrer breves perdas de consciência ou comprometimento das funções cognitivas durante certos voos, devido aos vapores do fungicida. Estatísticas oficiais mostram que 43 aviões agrícolas caíram na Guatemala entre 2012 e 2025, principalmente no departamento de Escuintla – uma média de três acidentes por ano. Entre as causas citadas nos relatórios está uma enigmática “perda situacional de consciência” do piloto.

O mancozeb é apenas um dos muitos produtos químicos usados ​​nessas plantações. Outros fungicidas, herbicidas e inseticidas são aplicados ao longo do ciclo de cultivo, tanto por via aérea quanto terrestre, utilizando pulverizadores costais. Em seu site na Guatemala , a Syngenta lista 18 agrotóxicos para o cultivo de banana. Oito deles contêm substâncias ativas agora proibidas na Suíça e na União Europeia devido aos riscos à saúde humana ou ao meio ambiente. Mesmo assim, nas plantações, esses produtos continuam sendo usados ​​rotineiramente, muitas vezes entrando em contato direto com os trabalhadores.

Taylorismo implacável

Nos bananais, nenhum desses riscos, desgastes ou injeções de toxinas é recompensado. O pagamento é por unidade de produção – muitas vezes equivalente ao máximo que o corpo é fisicamente capaz de suportar. O sistema salarial não é segredo, mas é um mecanismo cruel. Para os empregadores, os baixos salários são uma ferramenta de eficiência; para os trabalhadores, uma armadilha que os leva à exaustão. O trabalho por peça molda cada minuto do dia, independentemente das condições climáticas.

Em Puerto Barrios, no nordeste, as nove plantações da região são controladas diretamente pela Chiquita. Ali, 2.700 funcionários (20% com contratos por prazo determinado) ganham pouco mais de um franco por dia do que o salário mínimo – desde que cumpram metas de produção rigorosamente definidas. Essas metas estão estipuladas em um acordo coletivo de trabalho (ACT), cuja cópia foi obtida pelo Public Eye.

Para os colhedores, a regra é simples: 14 segundos para cortar um cacho de bananas, de acordo com o acordo coletivo. Trabalhando em grupos de três, eles devem carregar cerca de 350 cachos por dia nos cabos que cruzam os 2.069 hectares de plantações, segundo um sindicalista. “Nós nos apoiamos o máximo que podemos”, diz um colhedor, “porque se um de nós diminui o ritmo, todo o grupo ganha menos.”

Preso por uma correia, o carregador ( halador ) puxa grupos de 20 cachos em direção à unidade de processamento, onde as frutas são selecionadas e etiquetadas com o selo Chiquita. A CBA afirma que ele deve percorrer 250 metros em 2,7 minutos – uma média de 1,56 metros por segundo – carregando meia tonelada de bananas. Em alguns dias, a distância pode chegar a cinco quilômetros, a serem percorridos em 53,4 minutos.

O “carregador” caminha quilômetros, carregando centenas de quilos de bananas presos ao cinto.

Na unidade de processamento, muitas mulheres são empregadas. Elas também têm metas de produção: 390 caixas por pessoa por dia, segundo o Acordo Coletivo de Trabalho – ou cerca de 17 toneladas de frutas. “Não podemos sair até terminarmos, geralmente às 20h”, diz uma embaladora, cujo nome, assim como muitos outros nesta reportagem, tivemos que anonimizar para proteger a identidade da funcionária.

Segundo um relatório de 2021 da Universidade Estadual da Pensilvânia (PennState), as estações de embalagem de bananas também mantêm protocolos de monitoramento rigorosos. “Cada trabalhador é acompanhado individualmente e os trabalhadores são repreendidos se trabalharem muito lentamente”, observa o relatório. A investigação considera esse ritmo de trabalho incompatível com a “capacidade produtiva” individual, um conceito protegido pelas normas regulamentares da Guatemala. O relatório conclui que “forçar os trabalhadores a um ritmo de produção além do que uma pessoa razoável consideraria humanamente possível constitui uma violação das normas da Segurança Social na Guatemala”.

Na Chiquita, aqueles que conseguem superar as metas podem ganhar um pouco mais do que o salário mínimo. Para Manuel Rivas, presidente do sindicato Colsiba, que representa as plantações ao redor de Puerto Barrios, essa é a visão otimista. Rivas reconheceu as conquistas sindicais, mesmo admitindo que elas “não compensam a inflação anual de 4 a 5%”. “Ainda temos uma dívida com a classe trabalhadora”, concluiu.

Chiquita: um século de globalização

Na virada do século XX, a antecessora da Chiquita, a United Fruit Company (UFCO), desenvolveu o porto caribenho de Puerto Barrios para o embarque de seus navios frigoríficos carregados de bananas, formando o que chama de “Grande Frota Branca”.

Hoje, Puerto Quetzal e Puerto Barrios são partes integrantes do circuito logístico da Chiquita na Guatemala. Nas unidades de processamento, caixas preparadas por trabalhadoras são carregadas em contêineres refrigerados e transportadas por caminhões com a marca Chiquita, uma cena comum nas estradas do país. De Puerto Barrios e Puerto Quetzal, as bananas são enviadas para os mercados internacionais.

Com 2,5 milhões de toneladas por ano, a Guatemala é o terceiro maior exportador de bananas do mundo. Os Estados Unidos são o principal destino (cerca de 80%). Parte do volume é enviada para a Europa via Holanda.

Um salário arrancado a golpes de facão

Neste fornecedor da Chiquita, as ameaças explícitas são mal disfarçadas: “Eles precisam levar um bom susto”. Outros sugerem que as pessoas “começarão a aparecer uma a uma nos canaviais” – uma frase que implica que seus corpos podem ser encontrados lá.

As condições são ainda mais difíceis no sul, onde a Chiquita depende mais de subcontratados. De acordo com a PennState, o contraste entre as duas regiões é gritante: no norte, onde há sindicatos, os trabalhadores ganhavam em média US$ 586 por mês e trabalhavam 54 horas por semana em 2021, em comparação com US$ 308 e 68 horas no sul, onde não há sindicatos. As condições no sul também são muito mais árduas, afirma o relatório. Os intervalos são mais curtos e o abuso verbal ou sexual é mais frequente, enquanto a proteção é frágil e o acesso à saúde é limitado. Isso apesar de todas as observações da ONG terem sido feitas em empresas supervisionadas por sistemas de certificação como o GlobalGAP (um padrão agrícola global) e a Rainforest Alliance, que supostamente garantem o bem-estar e a segurança dos trabalhadores.

A Public Eye confrontou a Rainforest Alliance, compartilhando confidencialmente os nomes de duas fazendas onde foram documentados abusos particularmente graves. O órgão certificador ressaltou que as auditorias não conseguem “encontrar tudo, em todos os lugares, o tempo todo” e que nenhum sistema pode garantir 100% de conformidade em toda a cadeia de suprimentos. A organização também afirmou que, desde o lançamento do Padrão de Agricultura Sustentável de 2020 e seu mecanismo de reclamações, nenhuma queixa foi recebida em relação ao setor bananeiro da Guatemala. No caso de um produtor privado — um dos principais fornecedores da Chiquita Brands International e detentor de um certificado que abrange diversas plantações — a auditoria mais recente ocorreu em meados de fevereiro de 2026 e seus resultados ainda estão sendo processados. “No caso das plantações em questão, as auditorias anteriores estão sendo reavaliadas e as medidas cabíveis serão tomadas”, disse uma porta-voz da Rainforest Alliance, acrescentando que não poderia fornecer mais detalhes neste momento.

Chiquita na Guatemala: Respostas da Rainforest Alliance

Rosalía* nos recebe em sua casa e nos mostra seus últimos quatro contracheques. Ela recebe o salário mínimo nacional (cerca de 11,90 francos suíços por dia), mas há meses vem pagando um empréstimo concedido pela subcontratada da Chiquita, para a qual trabalha, com juros que ela desconhece. Ela conta que o custo de equipamentos (luvas, máscara) também é descontado de seu salário a cada duas semanas – ilegalmente, segundo um sindicalista que consultamos. Taxas de associação significativas a uma cooperativa da qual faz parte também são descontadas. No total, quase 40 francos suíços são retidos a cada duas semanas, por razões que ela não compreende totalmente. Quando perguntamos como ela consegue sobreviver com um salário tão baixo depois de três anos, seus olhos se enchem de lágrimas: “Como é que a gente se vira?”, pergunta ela. “Me digam vocês.”

Na Chiquita, os cachos de banana são envoltos em sacos azuis contendo inseticidas.

O salário de Rosalía não cobre a cesta básica ampliada para sua família nesta região agrícola (cerca de 290 francos suíços por mês para duas pessoas). A inflação acumulada atingiu 29% na Guatemala em comparação com os níveis pré-pandemia de 2019. Seu salário líquido evidencia a discrepância entre a renda agrícola real e o que o Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais da ONU e as convenções da OIT sobre salário mínimo definem como salário digno, ou seja, um salário suficiente para garantir condições de vida decentes.

Apesar de repetidas constatações que sugerem isso, a Chiquita não demonstrou a devida diligência eficaz em toda a sua cadeia produtiva. A multinacional depende de uma rede de fornecedores e fazendas terceirizadas, enquanto terceiriza os riscos sociais, de saúde e humanos. Sem mecanismos confiáveis ​​de prevenção, monitoramento independente ou reparação para os trabalhadores afetados, isso configura uma falha no dever de cuidado esperado de uma empresa domiciliada na Suíça. Ao ser contatada, a multinacional sediada em Etoy não respondeu às perguntas da Public Eye.

As origens da ‘república das bananas’

Por trás das práticas contemporâneas da empresa, esconde-se uma questão subjacente mais antiga: um modelo econômico moldado muito antes da chegada da Chiquita à Suíça, à sombra de sua antecessora, a United Fruit Company (UFCO).

A partir do final do século XIX, a UFCO construiu um imenso poderio econômico e político na América Central, controlando portos, ferrovias, terras, exportações e até mesmo governos inteiros. Essa dominação do setor privado sobre frágeis estados estrangeiros deu origem ao termo “república das bananas”. O poder da UFCO atingiu seu auge em 1954, quando um golpe de Estado apoiado pela CIA, organizado a pedido da empresa, derrubou o governo democraticamente eleito de Jacobo Árbenz. Descendente de imigrantes suíços, Árbenz havia implementado a reforma agrária como forma de redistribuir as terras não cultivadas pertencentes à empresa bananeira aos camponeses. O golpe mergulhou a Guatemala em uma situação de profunda instabilidade, culminando em uma guerra civil de 36 anos (1960-1996), uma das mais longas e sangrentas da América Latina.

Na América Central, essa história não é apenas uma relíquia do passado. A multinacional, agora operando sob um nome diferente, continua a exercer pressão sobre os governos locais. Ela paira a ameaça de realocação como a lâmina de uma guilhotina. No Panamá, em meio a uma greve por causa da reforma da previdência , a Chiquita demitiu todos os seus 6.500 funcionários no verão de 2025. Depois de pressionar o governo local, a empresa – outrora apelidada de “polvo” por seus múltiplos tentáculos – concordou em retomar as operações no início de 2026, mas sob um novo modelo de “parceria agrícola”. Nesse acordo, a terra é disponibilizada aos proprietários locais para o cultivo de bananas, sem que a propriedade seja transferida. No sul da Guatemala, como observou a Public Eye, esse sistema se traduz na clara precarização dos trabalhadores.

A cidade de Puerto Barrios foi construída há um século pela United Fruit para exportar suas bananas para a Costa Leste dos Estados Unidos.

O episódio do Panamá soou como um alerta em toda a América Central: a empresa está preparada para abandonar uma região inteira da noite para o dia se os trabalhadores se tornarem muito exigentes. Isso não é inédito. Já em 2003, o fechamento de cinco fazendas ligadas a multinacionais no norte da Guatemala provocou um colapso salarial e o êxodo de famílias inteiras. Rivas, presidente do sindicato Colsiba, referiu-se a isso como um “desastre sindical”. Decisões ruins foram tomadas, disse ele, mas as táticas agressivas foram, acima de tudo, uma demonstração de força por parte da empresa. Desde então, o medo se instalou. “Se a Chiquita fosse embora, seria devastador”, repetiu o sindicalista. Alguns gerentes de nível médio teriam alertado os trabalhadores contra exigências “excessivas”, citando as demissões no Panamá.

A fragilidade estrutural está ligada à transformação global da Chiquita. No início dos anos 2000, a multinacional enfrentou uma crise financeira e declarou falência. Reorganizou-se, vendeu parte de seus ativos na América Central e transferiu seu centro operacional para a Suíça francófona, em Étoy, onde encontrou estabilidade, vantagens fiscais e autonomia. Em 2014, a Chiquita deixou a bolsa de valores, reduzindo suas obrigações de transparência. Na Guatemala, isso foi observado com uma mistura de preocupação e resignação: os centros de tomada de decisão se distanciaram, mas as consequências permaneceram locais.

María Victoria (Maru) trabalha como embaladora e mora com o marido em um alojamento da Chiquita que abriga 40 famílias. Sua casa foi inundada e ela não recebeu nenhuma ajuda da empresa.

Sa voisine et belle-soeur Araceli est femme au foyer. Ela está trabalhando para o carro multinacional no foyer e não perdeu a ajuda humanitária na data de lançamento de 2022.

Sua vizinha e cunhada, Araceli, é dona de casa. Ela gostaria de trabalhar para a Chiquita para ter uma renda extra em casa.

A “lista vermelha”

Nesse cenário de dependência, todo ato de dissidência se torna um risco. Demissões seletivas servem como advertências. E quando um trabalhador cai, raramente cai sozinho.

Os irmãos Maldonado trabalharam na mesma plantação de bananas até alguns anos atrás. A família de trabalhadores rurais dependia inteiramente dos contracheques da indústria bananeira – modestos, mas essenciais para o sustento da casa. Quando um deles compareceu a uma reunião sindical – não para se filiar, explica, mas apenas para entender seus direitos, e principalmente pelos 50 quetzales recebidos em troca da presença, para comprar comida e combustível para sua moto – alguns dias depois, cada irmão foi chamado separadamente e demitido.

Em Puerto Barrios, toda a economia local ainda parece girar em torno da banana.

José ainda não consegue acreditar que seu nome foi repassado ao empregador. “Acho que o sindicato estava a serviço do patrão”, conclui. Seu sobrenome foi adicionado ao que os trabalhadores chamam de “lista vermelha” – um cadastro informal, porém temido, de pessoas consideradas “problemáticas” e proibidas de serem contratadas.

“Depois que seu nome entra nessa lista, você não encontra mais trabalho na indústria bananeira”, diz Pedro, que foi demitido pela segunda vez por comparecer a uma reunião sindical, junto com outros 15 funcionários. A presença de Pedro foi imediatamente reclassificada como “abandono de trabalho”. Quanto aos irmãos Maldonado…

Desde que foram demitidos, alguns dos irmãos Madonado encontraram emprego com um produtor independente, ainda em condições precárias. Pedro, no entanto, não voltou a pisar numa plantação. Desde o seu sofrimento, ele diz que perdeu o apetite pela fruta amarela: “Dizem que vem da natureza, mas quando você sabe o que está por trás da produção de bananas…”, diz ele, deixando a frase incompleta.

Do lado de fora do portão de sua plantação, Rivas mantém um otimismo cauteloso, apontando para uma fina fileira de brotos novos. “A Chiquita ainda está investindo. Veja essas bananeiras: em seis meses elas darão frutos e, em nove meses, as bananas serão exportadas.” Na Guatemala, como em outros lugares, a promessa de uma planta em crescimento permanece frágil.


Fonte: Public Eye

Estado de Greve na Uenf é objeto de entrevista no Programa “Faixa Livre”

Em defesa do PCV, professores da Uenf decidem entrar em estado de greve  para pressionar governo do RJ |

Participei hoje do tradicional “Programa Faixa Livre” que é um dos principais canais da mídia alternativa brasileira.  A razão da participação foi uma entrevista conduzida pelo jornalista Anderson Gomes sobre a situação de “Estado de Greve” em que os professores da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) se encontram desde novembro de 2025.

A entrevista aborda as raízes da crise salarial que aflige os professores da Uenf, os passos que estão sendo adotadas para informar a comunidade universitária e a população de Campos dos Goytacazes, e ainda os esforços para estabelecer de diálogo com o governo do estado do Rio de Janeiro.

Abaixo segue o conteúdo completo da entrevista ocorrida no Faixa Livre.