O desastre ambiental gaúcho: entre o afogamento das soluções e a inundação das ilusões 

O homem viver da natureza significa: a natureza é o seu corpo, com o qual ele tem de ficar num processo contínuo para não morrer. (Karl Marx) 

Do rio que tudo arrasta se diz que é violento. Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem. (Bertolt Brecht) 

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Por Frente de Estudos Socioambientais da Revolução Brasileira 

Corre entre nós um problema de memória, e quando a prática política não remete aos fatos históricos, seu destino é se diluir. Rio Grande do Sul (2023 e 2024), litoral norte do estado de São Paulo, Bahia, Petrópolis, Nova Friburgo, Manaus… Se somente nos bastarmos nos exemplos mais emblemáticos dos últimos anos e associados ao fenômeno natural das precipitações. Todos eles exigiram um alto grau de conhecimento técnico, o que, aos trancos e barrancos, ainda se tem, pelo que restaram das universidades, desde a interpretação de imagens de satélite até rigorosos cálculos da taxa de evasão de rios e mananciais, resultando em propostas de intervenção pública. E a perda dessa memória é retroalimentada por uma práxis política que nos condena às eternas ações de caráter reativo, esboçando o fracasso de tentar nos defender, cegos, de problemas que se mostram à luz do dia, intransponíveis diante das margens da Dependência, que nos comprimem. A fé cega no “Estado”, a “naturalização” do problema e a terceirização das responsabilidades para nosso próprio povo sempre fizeram parte do vasto arsenal que a direita empunha contra nós.  Porém, nas últimas três décadas, tais ilusões vieram a compor o largo acervo de ignorância da esquerda liberal que, em parceria com a direita, também apontam tais armas contra nós, o ambiente.    

 O esquecimento desses episódios e o tratamento dos mesmos como reflexos de condições “naturais” carrega um interesse de classe para que a população em geral – e a esquerda liberal em particular, desarmadas ideologicamente, estejam reféns dos fatos semanais noticiados pela imprensa burguesa, e que nunca se chegue, de fato, à discussão central e cunho político das tragédias. Esse debate necessário é o que torna o desastre, justamente, ambiental, e não natural, que passa pelas razões no nível da reprodução ampliada do capital em sua expressão dependente, e não por uma imposição de caráter naturogênico, pretensamente “inevitável”¹. Por um lado, a direita se mostra em sua face mais acabada, atrelando o problema a um mero caráter de ocupação “desordenada”, esvaziando o conteúdo político de um capital que se reproduz espacialmente a partir da concentração da renda da terra e da desterritorialização da classe trabalhadora dos centros e das ocupações regulares. Por outro lado, a perda da memória e das lições das últimas tragédias faz com que, pelo lado da esquerda liberal, sempre se cheguem às mesmas medidas paliativas, reativas, solidaristas e comemoradas com muito festejo, principalmente depois que a suposta dívida do estado do Rio Grande do Sul foi adiada por míseros três anos e pela pífia isenção da taxa do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), ao invés de chegar à raiz dos nossos problemas. Ou seja, devemos politizar sobre a tal dívida e sobre os reais custos ambientais derivados da atuação das mega-empresas dos setores industrial, agrário e minerador pois, juntos, esses custos são tratados como “externalidades”, não entrando na conta de capitais, para sim serem devidamente socializados sobre a população e o “meio ambiente”, enquanto que a remessa de lucros e as limitações impostas na periferia capitalista no nível geopolítico caracterizam o modo de produção que gera e mantém os modelos de extração agro-mineral que subdesenvolvem e reproduzem a miséria do perifério².  Um simples reflexo desse desequilíbrio fica exposto na diferença entre o investimento em obras de prevenção locais após uma crise sócio-ambiental no centro capitalista – o episódio do furacão Katrina, nos EUA –, que chegou a ser 60 vezes maior do que a receita para a Defesa Civil de um estado com o aporte e a influência do Rio Grande do Sul, tanto em termos políticos quanto ambientais³

 O “investimento” mesmo, que até é reivindicado pela esquerda liberal durante seus episódios reativos, esbarra na cumplicidade que tem sobre um governo PTucano que adota a estratégia liberal solidarista, cuja expressão máxima seja a única e mísera reunião que o Comitê Interministerial sobre Mudança do Clima (CIM) teve durante toda a gestão4. Somado a isso, a receita do Centro de Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (CEMADEN) no primeiro ano do governo Lula III, conseguiu ser menor do que em 2015. O esquecimento das tragédias é impulsionado pelo PTucanismo em forma de defesa abstrata do “meio ambiente”, porque quando há períodos sem chuvas intensas, o “meio ambiente” é festejado de forma meramente simbólica. Quando o “meio” se impõe, aí é que o governo faz seu recuo estratégico, em nome dos interesses do poder central rentista comandado pelos banqueiros e pelo latifúndio agro-exportador. Atividades essas hegemônicas, que não geram emprego para uma população de tamanho continental como a nossa mas, sim, criam e recriam os impactos sócio-ambientais catastróficos do modelo. Tanto “sob o desemprego estrutural e a precarização do trabalho, como em termos ecológicos, indo desde a desestruturação dos solos, rios e estuários, pela agricultura industrial e pela proliferação de vírus na figura do agronegócio”, nascemos, vivemos e morremos dentro de uma “rachadura ou falha estrutural nas relações produtivas portanto, sociais, vigentes no modo de produção capitalista”6. Essa é a “relação-limite” que Marx já chamava de “rachadura” ou “falha metabólica”, sob as relações produtivas e sociais, a partir da efetivação do modo de produção capitalista. E, para entendermos a atuação do Estado periférico, é dentro desse projeto de extração de mais-valia e superexploração que ele é criado, moldado e mantido por nossa classe compradora – nossas ínfimas elites, parceiras locais dos capitais metropolitanos. Apenas dentro desse contexto é que podemos compreender a função legitimadora e garantidora do Estado, seja em forma de ditadura empresarial-militar, seja de alianças PTucanas, continuadas pelo protofascista Bolsonaro, no período pós-Plano Real.

 Deste modo, o que ocorre é um problema de cunho geral e multifacetado, embora sua manifestação concreta seja particular. O Rio Grande do Sul, em termos “físico-territoriais”, localiza-se em uma região estratégica para se pensar nos últimos episódios de eventos climáticos acentuados globalmente. Isto porque se encontra em uma área de formação de ciclones extratropicais e de convergência entre a Massa Tropical Atlântica (típica do verão) e a Massa Polar Atlântica (típica do inverno), formando sistemas de instabilidade. Somado a isso, o Guaíba, onde se insere a realidade de Porto Alegre, é formado por oito bacias de drenagem distintas, que escoam por quatro rios a partir do delta do rio Jacuí7, formando um corpo hídrico cuja classificação, embora complexa, é reduzida pela prefeitura como um lago, que tem implicações diretas na especulação da terra, como há de ser visto. 

 Todo esse arsenal nos ajuda a compreender que, em escala regional, o Rio Grande do Sul, como também poderiam ser citados os casos da região serrana do Rio de Janeiro ou da bacia amazônica, necessita de uma intervenção em termos de infraestrutura e participação que, no nível de um país capitalista dependente periférico, é impossível dentro da ordem. Esse fato é contemplado, dentre outros, por três fatores essenciais: 1) o primeiro se relaciona com o baixo investimento em defesa civil (construção e manutenção de diques, comportas e casas de bombas), o que está atrelado tanto às limitações impostas pelo sistema da dívida pública quanto pela austeridade, expressa pelo Novo Teto de Gastos; 2) um sistema de monitoramento colaborativo, de planos de evacuação, alerta e radicalização democrática dos processos de decisão (comitês de bacia, movimentos populares urbanos, etc.) que, no nível da burocracia estatal burguesa e da educação pública desconexa das demandas reais do nosso povo, não pode ser cumprido em nível de representação real e; 3) o padrão de urbanização dependente, não exclusivo ao Rio Grande do Sul, permitiu a ocupação de encostas e alagados, sob diretrizes de distribuição espacial de moradias e serviços que não atendessem às demandas reais da população, mas de grupos econômicos estrangeiros e privados que investiram, historicamente, em nossa economia. Os três maiores eventos de inundação já registrados no Rio Grande do Sul nos últimos oito meses8, antes de revelar o desafio que os gaúchos têm em mãos, ilustram que, em nível nacional, um país periférico só pode produzir as condições necessárias de resiliência e atendimento de demandas locais mediante uma profunda convulsão social, orientada pela radicalidade e necessidade da Revolução Brasileira. 

 Embora o liberalismo de esquerda, em seus diagnósticos, apresente o tema da especulação fundiária como componente explicador para a alocação da classe trabalhadora nas planícies de inundação, o faz sem a responsabilização do governo Lula, que contribuiu, mediante suas políticas urbanísticas e agrárias, de forma central, para a concentração e internacionalização da propriedade da terra. Isso porque os três primeiros governos petistas foram os que mais concentraram terra durante a democracia liberal9. A ofensiva do governo se apresentou em outras frentes, como do indigenismo, em que a atual gestão demarcou apenas 10 terras indígenas durante todo o governo das 14 prometidas somente para seu primeiro ano de mandato10! No que concerne aos assentamentos, é feita a mesma política de emissão de títulos da terra de Bolsonaro¹¹. Migalhas que, ao fim e ao cabo, são a sentença de morte de famílias assentadas diante de grileiros no dia de amanhã! No Rio Grande do Sul não foi diferente: com a bancada ruralista operando com liberdade e apoio do governo, somada à gestão funcional de Eduardo Leite, a ofensiva do latifúndio sobre as matas ciliares e sobre os menos de 2% da biodiversidade original das matas subtropicais8 é plena e absoluta, o que contribui diretamente para o assoreamento de rios e o aumento de sua evasão. O mesmo ocorre em termos do solo urbano, em que os mecanismos, embora insuficientes, de uso social da propriedade não são evocados pelos parlamentares petistas, resultando em mais de 100 mil imóveis ociosos somente em Porto Alegre¹². Tampouco pode se afirmar algo no sentido da reforma urbana, que não está no horizonte PTucano, rendido à mesma construção civil que ocupou as margens do Guaíba. O que interessa, afinal, é que as gestões petistas estão em perfeita sintonia com a lógica da especulação da terra, cujo horizonte são as Parcerias Público-Privadas, em que o Estado assume apenas os prejuízo das infraestruturas. Como expressão disso, no nível de política social, o Minha Casa Minha Vida, que não passa de uma digestão moral da pobreza, retroalimenta este ciclo.

Os defensores do governo Lula teimam em dizer que há uma “governabilidade” em jogo, cuja expressão máxima seja a bancada ruralista. Mas ignoram que não há maior postura de cumplicidade do que com o avanço do latifúndio agroexportador e do afrouxamento das legislações ambientais!Se houvesse mesmo um compromisso do lulismo diante das tragédias, o mesmo não dependeria da tal “governabilidade”, sustentada pelo seu inegociável compromisso eleitoralista, e convocaria as massas a exercerem o poder político. Nenhuma palavra saiu de Lula ou do Ministério do Meio Ambiente, tampouco do ministro ruralista Carlos Fávaro, a respeito da aprovação do Projeto de Lei 1366/22, que exclui a silvicultura (cultivo para fins comerciais, como eucalipto e pinho) do leque de atividades potencialmente poluidoras¹³. O eucalipto, como a soja, avança sobre as matas originais, e diminui ainda mais a possibilidade de cultivo de alimentos, que promoveriam a subsistência das famílias no campo e na cidade, bem como das matas ciliares, fundamentais para o controle de inundações. Mesmo diante da retaliação da proteção aos biomas do Pampa e da Mata Atlântica, promovida pelo tucano Eduardo Leite em várias frentes, não houve qualquer menção por parte de Lula ou Marina Silva, tampouco sinal de combate. Em 2023, o governo de Eduardo, por meio do Conselho Estadual do Meio Ambiente (CONSEMA), possibilitou a ampliação do uso do solo para a silvicultura¹³, o que promoveu uma radical alteração no uso de seus recursos hídricos. Ademais, neste ano, o governo tucano conseguiu aprovar uma lei que permite a construção de barragens e açudes em Áreas de Proteção Permanente (APPs), em nome dos interesses do latifúndio14. A própria caracterização do Guaíba como um “lago” (quando, na realidade, é um corpo hídrico muito mais complexo do que isso) assegura maior liberdade de exploração do solo por parte do latifúndio e da construção civil, uma vez que um lago tem apenas 30m de APP ao longo de sua margem, ao passo que um rio apresenta até 500m de dimensão da APP a partir de sua faixa15. E afinal, tudo isso corrobora com uma incapacidade do governo federal? Na realidade, a omissão e a ausência de sinal de combatividade não traduzem uma incapacidade do governo PTucano de agir sobre a preparação das tragédias, como a que assola o Rio Grande do Sul, mas uma expressão cabal de partilhar os interesses do latifúndio agro-exportador e, portanto, sua posição ideológica. É nesse sentido estrutural que, diante dos fatos que se apresentam, Lula não pode confrontá-los em suas últimas consequências, porque é um agente dos interesses da burguesia fundiária doméstica e internacional, inconciliável com os interesses da classe trabalhadora. 

 Hoje, em fase monopolista-rentística do sistema, onde o capital especulativo é hegemônico, a internacionalização do valor da produção extrativista brasileira e, até, da propriedade da terra em si, exercem pressões diretas sobre a classe parasitária doméstica e o Estado a aumentarem e aceleraram ainda mais a superexploração e extração de mais-valia do país. Há alguns anos, já era visto um rápido aumento da concentração do controle de capital internacional sobre territórios brasileiros, como no MATOPIBA e, pasmem, no Rio Grande do Sul¹⁶. Entre as trágicas manifestações locais, gaúchas, de tais pressões do latifúndio – agora casado com o rentismo – teriam que estar a recente flexibilização (para não dizer destruição) do Código Estadual do Meio Ambiente do Rio Grande do Sul, que em 2020 foi “rasgado” em “regime de urgência” pelo estado e literalmente jogado ao mar¹⁷. Deste modo, no beco sem saída em que se encontra a esquerda liberal, seu refúgio passa a ser a terceirização das responsabilidades sobre o desastre ambiental. Precisamente nos referimos à expressão “negacionistas climáticos”, de caráter grotesco e impostor. Ao invés de colocar o dedo na ferida sobre os especuladores imobiliários, os latifundiários e a coalizão que eles representam com o governo Lula, sem o povo, o liberalismo de esquerda preferiu jogar sobre o colo da classe trabalhadora, desorientada pela perda da radicalidade política por parte da esquerda, uma expressão estéril que mais serve aos interesses de legitimação da direita do que explica a real trama por trás das mudanças climáticas e de seus discursos. Isso porque há, por parte dos países e das classes, responsabilidades mediatas e imediatas, bem como capacidades distintas de mitigação e prevenção, cuja inserção do Brasil e dos trabalhadores, nesse quesito, deveria ser muito bem compreendida pela esquerda. E o que ela teria a dizer da ausência de reuniões sobre mudanças do clima por parte do MMA? E qual é a “ruptura” promovida pelo governo federal em nível de investimento no CEMADEN ou pelo combate à aprovação do uso de agrotóxicos, que nem durante o governo Bolsonaro foram tão expansivos? O que há, por fim, é uma continuidade, fruto de um contexto tão despolitizante a ponto de gerar sobrevida ao debate “Estado mínimo x máximo”, que não compreende o papel de classe que nosso Estado cumpre.   

 O Rio Grande do Sul não será mais o mesmo, e isso é um sinal dos tempos para nós. O governo Lula é uma embarcação em estágio avançado de naufrágio. O contexto exige de nós a consciência plena de que um desastre não é isolado, mas fruto da reprodução das condições dependentes que estão presentes em vários setores de nossa vida, desde o padrão de urbanização, uso e ocupação do solo aos investimentos de mitigação e prevenção dos desastres. Quando o vale de lágrimas terminar de ser escoado pela esquerda PTucana, não sobrará tijolo algum para reconstruir, de fato, uma nova orientação, que depende da superação da dependência e do subdesenvolvimento. Por maior que seja o esforço liberal de esquecer as tragédias, novas estão por vir. E por maior que seja a constituição de nosso povo enquanto povo nos gestos solidários das últimas semanas, será preciso que essa indignação e compaixão turbinem a consciência crítica, porque somente ela é capaz não de “solucionar” as questões, mas de superá-las, segundo uma revolução socialista e nacionalista.

Frente de Estudos Socioambientais da Revolução Brasileira

 

1 Um dos principais interlocutores do debate da politização dos desastres tem sido o geógrafo Marcelo Lopes de Souza. Ver: SOUZA, Marcelo Lopes de. Ambientes e Territórios: Uma Introdução à Ecologia Política. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2019 e https://www.youtube.com/watch?v=8ddba3IHe6A

2 Gunder Frank, André. Desenvolvimento do Subdesenvolvimento. Monthly Review, Nova York, vol. 18, n. 4, set. 1966

3 Cálculo feito por Luciana Genro. Disponível em: https://movimentorevista.com.br/2024/05/luciana-genro-nao-foi-so-a-chuva

Principal órgão do governo Lula para clima teve apenas uma reunião (uol.com.br) 

5https://portaldatransparencia.gov.br/receitas/consulta?paginacaoSimples=true&tamanhoPagina=&offset=&direcaoOrdenacao=asc&orgaos=OR24000&colunasSelecionadas=ano%2CorgaoSuperior%2Corgao%2CunidadeGestora%2Ccategoria%2Corigem%2Cespecie%2Cdetalhamento%2CvalorPrevistoAtualizado%2CvalorRealizado%2CpercentualRealizado%2CvalorLancado&ordenarPor=ano&direcao=desc 

6 Bilhalva, Fernando Vitória e Fontana, Cleder. Natureza e Sociometabolismo em Marx: Contribuições à Leitura da Crise Socioecológica do Capital.  Germinal: marxismo e educação em debate, Salvador, v. 13, n.2, p. 92, ago. 2021.

7 Dilermando Cattaneo. Disponível em: https://www.youtube.com/live/TBcOlDvuVus?si=az7u0HWIbKQxta5b 

8 Respectivamente: Guilherme Oliveira; Dirce Suertegaray . Disponível em: https://www.youtube.com/live/0F32K9wxdYU?si=arJ5KUB6VIbJOhR_  

https://mst.org.br/2010/06/06/concentracao-da-terra-e-maior-que-na-decada-de-20/ 

10 https://www.metropoles.com/brasil/lula-demarcou-10-de-14-terras-indigenas-prometidas-no-inicio-da-gestao 

11 https://blogdopedlowski.com/2023/12/19/lula-repete-bolsonaro-e-governo-nao-compra-terras-para-reforma-agraria-pelo-terceiro-ano-seguido/ 

12 Herminia Maricato. https://www.youtube.com/live/Fytui10yJSU?si=IaV5v-t-rpwSuSPA 

13 https://blogdopedlowski.com/2024/05/11/em-meio-ao-caos-no-rs-bancada-ruralista-et-caterva-avancam-pacote-da-destruicao-ambiental-no-congresso-nacional/. Ademais, em escala estadual: https://sul21.com.br/noticias/meio-ambiente/2023/09/sob-critica-de-ambientalistas-consema-aprova-novo-zoneamento-ambiental-da-silvicultura/ 

14 https://blogdopedlowski.com/2024/05/07/eduardo-leite-e-seu-plano-marshall-casa-de-ferreiro-espeto-de-pau/ 

15https://x.com/necofachel/status/1788032612440662510?t=DmUXitnVU5Dxmg_5EM60ew&s=19 

16 Siviero Vicente, J. Estratégias de Financeirização No Agro: Três Casos de Investimentos Na Agricultura e nos Mercados de Terras No Brasil. Estudios Rurales, vol. 11, núm. 22, 2021, Universidad Nacional de Quilmes, Argentina. Disponível em: https://estudiosrurales.unq.edu.ar/index.php/ER/article/download/66/191/454); ver também, Siviero Vicente, J. (2020). Uma nova safra de proprietários rurais? O caso dos investimentos da Universidade de Harvard em recursos naturais no Brasil. Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade). Instituto de Ciências Humanas e Sociais, Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, RJ.

17 Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (AGAPAN). Governo Leite Destruiu Código Ambiental Que Protegia o Meio-Ambiente: Alguns apontamentos sobre as alterações do Código Ambiental original (Lei 11.520/2000) feitas para flexibilizar leis e criar o substituto (Lei 15.434/2020), 24 maio de 2024; Disponível em: Código Ambiental RS (agapan.org.br) Observe que o Código Estadual do Meio Ambiente do Rio Grande do Sul, protocolado na Assembleia Legislativa como projeto de lei em 1994 e aprovado em 2000 (Lei 11.520/2000), era formado por um arcabouço de leis que incluía o Código Florestal do Estado do Rio Grande do Sul (1992), o Sistema Estadual de Proteção Ambiental (1993) e o Sistema Estadual de Recursos Hídricos (1994). Parte do contexto local também é que, ao todo, o Código Estadual do Meio Ambiente do Rio Grande do Sul foi conquistado coletivamente com a participação conjunta dos municípios, da população e de vários profissionais das áreas relevantes, que faziam parte da “Comissão de Saúde e Meio Ambiente”. Esse Código foi considerado único no país por ser o primeiro e por contemplar proteções que iam além do previsto a nível federal. Portanto, o ataque de 2018-2024 foi, e continua sendo, tanto um retrocesso ambiental como também um retrocesso do ponto de vista democrático, tanto para o estado como para a nação.


Fonte: Revolução Brasileira

Garimpo ilegal provocou aumento nos casos de malária na Amazônia, afirma estudo

garimpoGarimpo ilegal nas terras indígenas Munduruku e Yanomami colaborou para aumento de 108% nos casos de malária entre 2018 e 2021

A malária avança na região Amazônica principalmente devido ao garimpo ilegal associado ao desmatamento. Um estudo da Universidade de Brasília (UnB) reúne constatações científicas anteriores e aponta que a área de garimpo em terras indígenas aumentou 102% entre 2018 e 2021. Esse fato impactou, possivelmente, no aumento de casos de malária nas terras indígenas Yanomami, em Roraima, e Munduruku, e no Pará, de acordo com a análise publicada na segunda (24) na Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical

O trabalho traça o cenário epidemiológico da malária em áreas de garimpo no Norte do país em um período maior de tempo, de 2011 a 2023, e propõe estratégias para o controle da incidência da doença na região, a partir da revisão da literatura dos principais estudos sobre o tema. Foram usados dados de casos da doença registrados nestes 13 anos no Sistema de Informação da Vigilância Epidemiológica (Sivep-Malária) e do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), do Ministério da Saúde.

Segundo o pesquisador Pablo Sebastian Tavares Amaral, de 2018 a 2021, foi registrado um aumento de 108% nos casos de malária em pacientes das áreas de garimpo da região Amazônica. “Esses números podem ser subestimados, uma vez que, devido à atividade do garimpo ser ilegal, muitos omitem a informação de que são garimpeiros”, salienta Amaral, que é coautor do estudo e doutorando no Programa de Pós-Graduação em Medicina Tropical da UnB.

Em 13 anos, mais de 253 mil casos de malária foram registrados em áreas de garimpo. Os registros começam a subir, principalmente, a partir de 2020. Dentre as regiões mais afetadas, estão os estados do Mato Grosso e de Roraima, com aumento de casos entre 2017 e 2022, principalmente em áreas de garimpo ilegal. Em 2020, 59% dos garimpos brasileiros eram ilegais, segundo dados da pesquisa.

Ao mapear as áreas de garimpo impactadas pela malária, a pesquisa traz resultados que podem orientar ações de vigilância e de controle da doença na Amazônia. “Conhecer as áreas prioritárias e a dinâmica da doença é essencial para direcionar melhor as ações”, explica Amaral. Ele ressalta que, por serem ilegais, as áreas de garimpo têm pouca estrutura de saúde, o que dificulta o tratamento para a doença.

O grande número de garimpos ilegais impõe desafios para o seu monitoramento, segundo o trabalho. Essas áreas acabam virando criadouros de mosquitos que transmitem a malária. Por isso, como estratégia, o estudo identifica a necessidade de revisar a legislação para aumentar o controle sobre o desmatamento e as atividades de garimpo, principalmente em terras indígenas.

Além dela, outras estratégias citadas são expandir a vigilância da malária, por meio da ação de agentes comunitários, e de ações multissetoriais para fornecer assistência imediata às populações indígenas. Outra proposição do estudo é de conectar dados de desmatamento e malária, inserindo alertas sobre desmatamento no Programa Nacional de Prevenção e Controle da Malária. Essas ações podem ter impacto na melhoria do diagnóstico e do tratamento da malária nas terras indígenas e outras regiões mais afetadas pela doença.

O grupo de pesquisa continua a fazer estudos sobre malária na Amazônia, procurando entender o impacto das grandes obras hidrelétricas na dispersão da doença. “Esses empreendimentos passam por um processo de licenciamento ambiental que insere a malária em um plano específico, diferente dos garimpos ilegais”, explica Amaral. O pesquisador procura entender se essas ações direcionadas podem ter efeito no controle da doença na região.


Fonte: Agência Bori

“O que existe hoje é a cultura dos agrotóxicos, do veneno”. Entrevista com Vandana Shiva

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Vandana Shiva, ativista e intelectual ecofeminista 

Vandana Shiva (Dehradun, 1952) é uma das ativistas e intelectuais ecofeministas mais reconhecidas de nosso tempo. Doutora em física quântica, foi uma das fundadoras do Fórum Social Mundial, pioneira na abertura do debate agroecológico e sobre o controle de sementes e é autora de mais de 15 livros. Desde 1987, lidera o sítio agroecológico e o banco de sementes Navdanya, no norte da Índia, e contribui para organizar as lutas camponesas em todo o mundo.

CTXT se encontrou com Shiva no antigo complexo industrial Fabra i Coats de Barcelona, onde foi participar da Feira Literária de Barcelona, um encontro de editoras críticas. Lá, a ativista e intelectual indiana participou de um debate com Yayo Herrero, diante de um público de quase 700 pessoas.

A entrevista é de Pablo Castaño e Adrià Rodríguez, publicada por CTXT.  A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

Com Yayo Herrero, compartilha um diagnóstico sobre a crise ecológica. Como o descreveria?

O primeiro elemento para compreender a crise ecológica é que acontece devido a uma extração sem limites. Isto acontece porque foram concedidos direitos corporativos e coloniais e são recompensados com um poder absoluto. Ao apresentar uma atividade extrativa como progresso, oculta-se a exploração, oculta-se a violação da auto-organização dos sistemas, como as árvores estão ligadas aos rios, como o solo está ligado à agricultura, como a biodiversidade das plantas está ligada à dos insetos. Todas estas relações são fundamentais.

Francisco Varela e Humberto Maturana falaram da autopoiese e propuseram uma mudança total de paradigma ao nos fazer ver que os sistemas vivos são auto-organizados. O extrativismo destrói a organização interna dos organismos vivos e as relações desses organismos com tudo o mais que está vivo. É assim que toda destruição passa a ser considerada uma externalidade. Você destrói, mas oculta a destruição.

Parte disso vem do pensamento cartesiano e do pensamento mecânico de Francis Bacon. O pensamento mecânico desmonta as coisas e dá vida a cada parte em separado. Para as pessoas que foram educadas nesse pensamento mecânico é difícil ver as relações. As relações foram destruídas em uma economia de morte.

Como você definiria a perspectiva ecofeminista em concordância com Yayo Herrero e outras pensadoras, como Maria Mies?

Ecofeminismo é dizer que a Terra está viva, que a Terra sustenta e mantém a vida. E é dizer que as mulheres não são um segundo sexo passivo. Não são um objeto a ser possuído, nem controlado. As mulheres sustentam a sociedade. Os seus cuidados e o seu trabalho invisibilizado são a verdadeira economia, porque se ocupam da reprodução e da regeneração da sociedade.

Também são as cuidadoras da Terra, porque a elas se conferiu fazer o verdadeiro trabalho [de cuidados], que não conta como trabalho, precisam trabalhar com a natureza. Por exemplo, na Índia, as mulheres são as principais provedoras de água. Elas sabem quando um poço está secando, quando um rio está secando, pois trabalham com a natureza, são as primeiras a responder à crise ecológica.

Um dos debates sobre a relação entre tecnologia e transição verde é o das energias renováveis. O IPCC e outras organizações dizem que uma das ações necessárias para enfrentar a mudança climática é promover as energias renováveis, mas estas exigem grandes quantidades de minerais e de terra. Como podemos promover as energias renováveis sem criar outra nova onda de extrativismo e colonialismo?

Minha primeira crítica ao reducionismo das energias renováveis tem a ver com o esquecimento de que há muitos tipos de energia no mundo. Todo sistema vivo é um gerador de energia. Schrödinger, físico quântico, escreveu que a diferença entre as máquinas e os sistemas vivos é que as máquinas requerem energia externa e geram entropia, que é energia desperdiçada na forma de emissões, ao passo os sistemas vivos não requerem energia externa. Uma semente se torna uma árvore com a sua própria energia e a energia do sol, e isso é entropia negativa. Ocultou-se toda a questão da entropia positiva e negativa, mas este é o cerne do debate sobre a energia e sobre o clima.

Olhar apenas para o consumo de energia e dizer que continuaremos consumindo o mesmo, por meio de energias renováveis, é não abordar o debate sobre a geração de energia e ocultar a demanda por recursos e terras. Isto é reducionista em todos os sentidos. É problemático como o tema climático foi reduzido ao consumo de energia, a buscar energias renováveis e a uma questão de temperatura.

Pensar que os fenômenos climáticos provêm da atmosfera sem ver o que está sendo feito com a terra é separar o que está conectado. Não podemos resolver um problema ecológico, que é um problema de como a vida está sendo desmantelada, mantendo a mentalidade industrial, de engenharia e mecânica. Como disse Einstein, não é possível resolver um problema com a mesma mentalidade que o criou.

Outro dos eixos de seu trabalho, também ligado à questão da tecnologia, são os agrotóxicos. Nos últimos meses, houve muitos protestos de agricultores na Europa. Um dos motivos do protesto foi a regulamentação europeia que restringia o uso de agrotóxicos na agricultura. Em resposta, a Comissão Europeia diminuiu o nível de exigência desta regulamentação. Como proteger as economias agrícolas e familiares e ao mesmo tempo a ecologia?

Os protestos começaram por uma questão econômica, começaram contra o acordo de livre comércio com o Mercosul. O livre comércio acaba destruindo todas as economias, ao passo que permite que as corporações prosperem. O livre comércio não opõe a Europa ao Sul Global, são os trabalhadores da Europa e do Sul Global que sofrem com ele.

O sistema agroindustrial globalizado é uma receita para aumentar os custos de produção e derrubar os ingressos agrícolas. É uma economia negativa. Por isso, os agricultores estão em crise. Em todo o mundo, onde quer que se incentive o livre comércio e uma maior industrialização, os agricultores respondem.

Os protestos acontecem porque os agricultores compreendem que há uma tentativa de se desfazer deles, que se tornaram uma entidade dispensável: tendemos para uma agricultura sem agricultores. A indústria aproveitou estes protestos como uma oportunidade, porque distribui os produtos fitoquímicos através dos grandes sindicatos de agricultores. Fizeram com que alguns deles falassem a respeito da retirada das regulamentações sobre os agrotóxicos, mas essa é a voz das corporações, o cartel do veneno. Não é a voz dos pequenos agricultores independentes.

A questão dos agrotóxicos tem muito a ver com o controle das sementes, uma luta na qual você está envolvida desde 1987. Como o assunto evoluiu nos últimos 30 anos? Permanece sendo tão relevante?

A vida sempre será relevante. A renovação dos sistemas vivos pelos seus próprios meios será sempre a base da liberdade na natureza e na sociedade. Por que me envolvi no tema das sementes? Porque em 1987 me convidaram para uma reunião em que se debatia as novas biotecnologias. Naquele momento, ainda não havia transgênicos no mundo. O primeiro organismo geneticamente modificado foi comercializado em 1992.

A indústria havia traçado seu caminho e disse que o seu principal objetivo era gerar patentes para as sementes. Ora, uma patente é um monopólio obtido porque se inventou algo novo. Então, a primeira coisa necessária era mudar a natureza da semente na mente das pessoas. A semente tinha que deixar de ser algo que gerava a si mesma e passar a ser um produto inventado pela Monsanto.

Uma mercadoria?

Mais do que uma mercadoria: uma criação. Uma mercadoria reconhece que o agricultor tem um papel, que a terra tem um papel. Quando falamos de propriedade intelectual sobre as sementes, a Monsanto é Deus. Assumiram o papel da criação e transformaram algo que se renova e se multiplica por si só em algo que foi feito por eles. Contudo, uma semente não é uma máquina.

Por isso, decidi começar a criar bancos comunitários de sementes, como Navdanya. Em segundo lugar, decidi começar a trabalhar com o governo e o parlamento indianos para redigir leis que respeitem a integridade da vida na Terra. Escrevemos leis que dizem que plantas, animais e sementes não são entidades criadas por seres humanos e, portanto, não podem ser patenteadas.

Essas leis permanecem vigentes na Índia. A terceira coisa que decidi foi processar as empresas de sementes nos tribunais por estar roubando-as. Foi o que eu chamo de “a segunda chegada de Colombo”. Simplesmente, roubam e dizem: “é minha propriedade intelectual”. E nós dizemos: “não, vocês roubaram e, portanto, é biopirataria”.

Outra questão fundamental na crise ecológica é a água. Neste momento, a região mediterrânea onde estamos está sofrendo uma seca e se prevê mais escassez de água no futuro. Trata-se de uma questão transversal que abrange dimensões sociais, ecológicas e políticas. Como podemos olhar para o problema da água a partir de todos estes diferentes pontos de vista?

Não precisamos apenas unir as múltiplas dimensões da água, precisamos unir as múltiplas dimensões de um planeta interligado. A crise climática e de biodiversidade são uma crise única. Quando esquecemos da biodiversidade e a destruímos, o clima se desestabiliza, porque a biodiversidade gere o clima. No movimentoChipko, as mulheres perceberam que se você destrói a floresta, ocorre uma seca, uma inundação.

Sendo assim, gerir a água significa gerir a regeneração da biodiversidade, das florestas, das plantas, da terra, das relvas. Todos são sistemas de gestão da água, assim como a questão climática. Os estragos climáticos têm a ver com os sistemas hidrológicos desestabilizados, que são os verdadeiros assassinos no Sul Global. Cada desastre na Índia em que pessoas morreram é um desastre hídrico. Quando vem um ciclone, as pessoas morrem. Quando um lago glacial derrete e há uma inundação, as pessoas morrem.

É necessário interligar todas as dimensões da água. Quando o governo constrói uma barragem para os agricultores ricos do vale, todos os outros perderão o acesso à água. Como todos os recursos estão interligados, devem ser geridos como bens comuns e para o bem de toda a comunidade. Não podem ser divididos para o seu uso extrativo pelos mais poderosos. Neste momento, a privatização da água e o mercado futuro da água são questões de grande relevância às quais as pessoas resistem. A água de Delhi ia ser privatizada e conseguimos evitar.

O ultranacionalista Narendra Modi, do partido BJP, provavelmente será reeleito primeiro-ministro da Índia, enquanto a extrema-direita tem perspectivas de crescer na Europa. Estes partidos têm em comum o fato de combinarem nacionalismo e neoliberalismo. Como podemos explicar a sua ascensão no contexto da crise ecológica?

Em 1991, escrevi o Manifesto por uma Democracia na Terra. Em 1999, bloqueamos a cúpula da OMC, em Seattle. Durante este período, desenvolveu-se o neoliberalismo, a desregulamentação do comércio e da economia e a morte da democracia. Também começou esta nova cultura de morte e destruição. O livro de Samuel Huntington, O choque das civilizações, é fundamental para este momento. Vem dizer que só posso saber quem sou quando sei quem odeio. Criou-se o ódio como moeda de identidade.

Ora, todas as tradições espirituais dizem algo diferente: saber quem você é tem a ver com a forma como você se relaciona com a terra e com a sua comunidade. Você existe na comunidade e, como comunidade, você faz parte da natureza e produz junto com a natureza. Passou-se disso para uma identidade negativa, uma cultura de destruição, violência e morte. O que existe hoje é a cultura dos agrotóxicos, do veneno: “Saiba a quem deve exterminar”. Essa agenda, saber quem é o seu inimigo, tornou-se a agenda nacional.

Contudo, uma nação tem a ver com a forma como correm os riachos, qual é a saúde das florestas, qual é o estado de saúde dos cidadãos, até que ponto estão organizados para cuidar dos bens comuns, Essas são as questões que definem uma comunidade. No entanto, hoje, as culturas, as economias e as democracias foram esvaziadas de comunidade e se tornaram propriedade das corporações. É assim que o nacionalismo cultural se tornou sócio do neoliberalismo corporativo.

Em algum momento, falou sobre a necessidade de criar um G-7 bilhões. Quais tipos de instituições democráticas precisamos para defender uma democracia da Terra?

A verdadeira democracia é possível junto com outros seres que habitam o planeta Terra. Cultivar alimentos de forma ecológica é uma prática de democracia da Terra, tem a ver com a liberdade de todas as formas de vida e suas interconexões. Salvar as sementes, por exemplo, não é apenas salvar os humanos, mas também os polinizadores. Devemos reivindicar isso.


Fonte: Contraosagrotóxicos

A postura agressiva de Lula contra a greve nas universidades federais mostra a sua real opção de futuro para o Brasil

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Lula fez diversas manifestações contra a greve realizada por professores e servidores de universidades e institutos federais

Em mais uma manifestação irritada contra a greve realizada por professores e técnicos de universidades e institutos federais, o presidente Lula declarou que não teria medo de reitores porque não que teriam sido eles que teriam “mordido” o seu dedo mindinho (aquele que ele perdeu em uma prensa mecânica nos tempos em que era metalúrgico).

Governo Lula nega reajuste a servidores e convoca mesa para acabar com a  greve

Essa é mais uma manifestação reveladora da postura do governo Lula curiosamente contra um segmento que o apoiou de forma majoritária durante o período em que ficou preso em Curitiba e também no duro embate eleitoral travado em 2022 contra Jair Bolsonaro.  É que ao negar algo minimamente próximo ao mesmo tipo de reposição salarial concedida à policiais federais e a policiais rodoviários federais (categorias que claramente formaram a linha de frente de apoio a Bolsonaro),  Lula mostra algo mais profundo que é o descompromisso com o fortalecimento das universidades e institutos federais cujos orçamentos estão muito aquém do que seria preciso para recuperar as perdas ocorridas sob Bolsonaro.

Ao negar o fortalecimento não apenas dos salários de professores e técnicos, mas principalmente a recomposição da condição orçamentária das universidades federais, Lula apenas confirma seu descompromisso com o desenvolvimento científico e tecnológico do Brasil.  É que até as emas do Palácio do Planalto sabem que é nas universidades federais que se produz mais de 90% da ciência nacional. Assim, ao se negar a recompor as perdas salariais acumuladas ao longo dos últimos anos e manter as universidades em condição de penúria,  Lula literalmente mantém as linhas gerais adotadas por Bolsonaro.

Biden Cracks Down on Chinese Tech Investment

Enquanto o Brasil investe em uma agricultura altamente predatória, a China faz investimentos massivos em desenvolvimento científico e tecnológico

Apenas por comparação, a China que está se tornando a principal potência científica do mundo vem aumentando de forma consistente o orçamento investido em desenvolvimento científico e tecnológico.  Enquanto isso, a opção brasileira é por investir em torno de R$ 360 bilhões para apoiar principalmente o latifúndio agro-exportador que não precisa de muita tecnologia para produzir commodities que serão compradas majoritariamente pelos chineses que cada vez mais nos vendem produtos com alto valor agregado (curiosamente quase o mesmo valor investido pela China em desenvolvimento científico e tecnológico).  O resultado deste tipo de troca altamente desigual nós já sabemos: alto nível de desenvolvimento para os chineses, enquanto que para o Brasil sobra poluição de águas e solos pelo uso excessivo de fertilizantes e agrotóxicos, desmatamento e diminuição de recursos hídricos.

A questão que me parece clara é que os seguidos ataques de Lula ao movimento grevista nas universidades federais reflete mais a sua opção de país que ele quer que o Brasil seja do que qualquer preocupação com a falta de aulas para os estudantes. E no caso, o país que se desenha a partir dessas declarações que continuará atrasado tecnologicamente e cada vez mais dependente e controlado pelas oliquarquias agrárias que sempre controlaram os rumos da sociedade brasileira.

A produção de alimentos se tornou uma fonte de problemas climáticos

fertilizantes

Os fertilizantes são uma das principais fontes de emissões de óxido nitroso, um gás de efeito estufa que aquece o planeta. pixdeluxe/E+ via Getty Images
Por Hanqin Tian, Eric Davidson, Pep Canadell e Rona Louise Thompson para o “The Conversation”

O papel dos alimentos nas alterações climáticas emergiu como um dos desafios definidores do nosso tempo. A viagem de um bife, fruta ou salada desde as vastas extensões de terras agrícolas até aos pratos nas nossas mesas deixa uma pegada significativa no ambiente.

Como cientistas da Terra , do clima e da atmosfera , rastreamos as emissões globais de gases de efeito estufa e acabamos de publicar a avaliação mais abrangente até agora de um poderoso gás de efeito estufa proveniente da produção de alimentos: o óxido nitroso, ou N₂O.

Depois do dióxido de carbono e do metano, o N₂O é o gás de efeito estufa mais importante que os humanos estão liberando na atmosfera. Embora haja menos N₂O do que dióxido de carbono na atmosfera, este é 300 vezes mais poderoso no aquecimento do planeta e permanece na atmosfera, retendo o calor, durante mais de um século. Hoje, os níveis atmosféricos de N₂O são cerca de 25% mais elevados do que antes da Revolução Industrial e continuam a aumentar a um ritmo acelerado.

Um gráfico com uma linha de pontos de dados que remonta a quase 200 anos mostra que os níveis atmosféricos de N2O permaneceram bastante estáveis ​​até 1800, quando começaram a subir rapidamente e continuam a subir
A concentração atmosférica de N₂O permaneceu bastante estável até 1800, quando começou a aumentar rapidamente. Medido em núcleos de gelo da Antártida (verde) e através de medições modernas (vermelho). BoM/CSIRO/AAD

Descobrimos que, globalmente, os fertilizantes e a gestão do estrume animal estão a liderar o aumento das emissões de N₂O e a sua rápida acumulação na atmosfera. Isto é mais do que um problema climático. O N₂O também destrói a camada de ozônio , que protege os humanos da radiação solar prejudicial. E o escoamento de nitrogênio dos campos polui os cursos de água , aumentando a proliferação de algas nocivas e criando zonas mortas com falta de oxigênio.

O crescimento das emissões de N₂O é alarmante, mas hoje as pessoas têm o conhecimento e muitas das tecnologias necessárias para inverter a tendência.

De onde vêm as emissões de N₂O?

Antes da Revolução Industrial, as fontes naturais de N₂O provenientes de micróbios que viviam nos solos florestais e nos oceanos eram aproximadamente iguais aos sumidouros naturais que consumiam N₂O no ar, pelo que as concentrações atmosféricas de N₂O eram relativamente constantes.

No entanto, a população humana e a sua procura de alimentos cresceram rapidamente, desequilibrando esse equilíbrio natural.

Descobrimos que as atividades humanas por si só aumentaram as emissões de N₂O em 40% nas últimas quatro décadas, com a agricultura contribuindo com aproximadamente 74% do total das emissões antropogênicas de N₂O.

As maiores fontes humanas de N₂O são a agricultura, a indústria e a queima de florestas ou resíduos agrícolas.

Ilustração do orçamento global de N2O mostra fontes de emissões
Fontes anuais de emissões de N₂O e mudanças ao longo da década de 2010-2019. Medido em milhões de toneladas métricas. Projeto Global de Carbono , CC BY

Os fertilizantes nitrogenados, amplamente utilizados na agricultura, são um dos maiores contribuintes. Os fertilizantes são responsáveis ​​por 70% do total das emissões agrícolas de N₂O em todo o mundo. O esterco animal proveniente da pecuária intensiva contribui com cerca de 30%. Uma fonte menor, mas que está em rápido crescimento, é a aquicultura, como a piscicultura , particularmente na China, onde aumentou vinte e cinco vezes nos últimos 40 anos.

Além da agricultura, os processos industriais como a produção de náilon , explosivos e fertilizantes, e a combustão de combustíveis fósseis também contribuem para as emissões de N₂O, mas em menor grau do que a agricultura.

Emissões de N₂O por país

As emissões variam muito de país para país por uma série de razões sociais, económicas, agrícolas e políticas.

As economias emergentes, como a China e a Índia, registaram fortes tendências de aumento de N₂O nas últimas quatro décadas, à medida que aumentavam a produtividade agrícola para satisfazer a crescente procura alimentar das suas populações .

emissoes n20

A China é o maior produtor e usuário de fertilizantes químicos. O seu Plano de Acção para o Crescimento Zero na Utilização de Fertilizantes até 2020, publicado em 2015, ajudou a reduzir essas emissões de N₂O . No entanto, as suas emissões industriais de N₂O continuaram a aumentar .

No Brasil e na Indonésia, o corte e a queima de florestas para dar lugar às culturas e à pecuária, juntamente com práticas agrícolas cada vez mais intensivas, exacerbaram as perdas de nitrogênio provenientes de fontes naturais e ampliaram as emissões de gases com efeito de estufa.

África tem oportunidades para aumentar a produção alimentar sem aumentar a fertilização com azoto. No entanto, os países do Norte de África mais do que triplicaram o crescimento das suas emissões nas últimas duas décadas, principalmente devido a um crescimento substancial da população pecuária em África.

Algumas regiões, no entanto, conseguiram reduzir algumas das suas emissões de N₂O com práticas mais sustentáveis.

fontes de emissão

A União Europeia, o Japão e a Coreia do Sul reduziram com sucesso as emissões antropogênicas de N₂O nos últimos 40 anos, embora continuem a ser grandes emissores à escala global; as reduções vieram em grande parte da indústria química na década de 1990. A sua utilização de azoto na agricultura também se tornou mais eficiente; no entanto, eles ainda têm trabalho a fazer. As suas emissões provenientes da aplicação direta de fertilizantes e de estrume diminuíram apenas ligeiramente e estabilizaram recentemente.

Nos EUA, as emissões agrícolas continuam a aumentar, enquanto as emissões industriais diminuíram ligeiramente, deixando as emissões globais bastante estáveis .

Como reduzir as emissões de N₂O

Enfrentar o desafio de reduzir as emissões de N₂O requer uma combinação de intervenções políticas, inovação tecnológica e ações individuais. Por exemplo:

A traseira de um trator jogando fora pequenas bolinhas de fertilizante, do tamanho de ervilhas.
Um trator espalha fertilizante em um campo. As técnicas de agricultura de precisão podem reduzir o uso de fertilizantes e o potencial de escoamento para os cursos de água. fotokostic/iStock/Getty Images Plus
  • Da mesma forma, as inovações na gestão pecuária , tais como suplementos dietéticos e melhores práticas de gestão de resíduos, podem reduzir a quantidade de N₂O do gado.
  • As indústrias, especialmente a produção de náilon e de fertilizantes, podem instalar tecnologias existentes e acessíveis para reduzir quase todas as suas emissões de N₂O. Essa é uma vitória fácil para a implementação e para o clima. A maior parte do mundo já o fez, deixando a China e os EUA responsáveis ​​pela maior parte das restantes emissões industriais de N₂O.
  • Os consumidores também podem tornar os alimentos vegetais uma fração maior de suas dietas. Você não precisa se tornar vegano a menos que queira, mas reduzir a frequência e o tamanho das porções de consumo de carne e laticínios pode ser saudável para você e para o meio ambiente. Práticas ecológicas, como a compostagem de resíduos alimentares e a redução do uso de fertilizantes nos gramados, também ajudam.

Globalmente, é necessária uma abordagem holística que combine políticas, tecnologia e ações individuais para abordar as emissões de N₂O e combater as alterações climáticas. Com governos, indústrias e cidadãos a trabalhar em prol de um futuro sustentável, estas estratégias podem ajudar a garantir a segurança alimentar e a sustentabilidade ambiental para as gerações futuras.


Fonte: The Conversation

Saúde da Mama é tema central de Simpósio Internacional no Rio de Janeiro

Especialistas de todo o país discutem avanços científicos no combate ao câncer de mama e avaliam políticas públicas para melhorar acesso da população à prevenção e tratamento

Abertura Simpósio Internacional RJ_ 20Jun2024

O Rio de Janeiro volta a ser palco de debate de novas soluções e técnicas no tratamento do câncer de mama, além de medidas efetivas que possam potencializar a estrutura já existente no atendimento público às mulheres. Trata-se do SIM Rio – Simpósio Internacional de Mastologia, evento tradicional na Cidade e no país e que chega a sua 13ª edição, a partir desta quinta-feira, 20/06.

De acordo com a Dra. Maria Julia Calas, presidente da Sociedade Brasileira de Mastologia – regional Rio de Janeiro, a entidade tem um olhar contínuo na busca por melhorias para o acesso das mulheres à prevenção do câncer de mama e, principalmente, ao tratamento para quem já recebeu o diagnóstico. Por isso, neste ano o evento contará com o “Fórum para todos”, no qual mulheres da sociedade civil poderão discutir com os médicos o tema central de tratamento e qualidade de vida. “Devido a limitação de espaço, abrimos 50 vagas para que diferentes mulheres com histórias distintas, diagnosticadas ou não, possam obter mais informações, e, fundamentalmente, compartilhar as suas histórias, mostrando suas dificuldades de acesso a exames e tratamento. Essa troca é enriquecedora e nos ajuda na identificação da realidade vivida por elas e, consequentemente, na necessidade de novas diretrizes em termos de políticas públicas”, afirma a presidente.

A especialista destaca também alguns temas polêmicos na sociedade, mas que é de suma importância para quem está no tratamento do câncer de mama, como o uso da cannabis no tratamento oncológico, os efeitos da hormonioterapia e, sobretudo, como as pacientes são fundamentais como agentes de mudança, ou seja, no impacto das políticas de saúde. “Nosso objetivo no Fórum é proporcionar para elas e com elas reflexões e entendimentos sobre esse tema complexo. Se de um lado o nosso SUS é uma referência mundial, por outro sabemos que há muitos gargalos, como o acesso não tão ágil aos exames preventivos, como a mamografia, e, principalmente, no tratamento das mulheres diagnosticadas”, esclarece, lembrando que há lei em vigor no Brasil que garante as mulheres o início do tratamento do câncer em até 60 dias após o diagnóstico, o que nem sempre acontece.

O SIM Rio acontece entre os dias 20 e 22, no Prodigy Hotel, no Aeroporto Santos Dumont, e reunirá cerca de 500 especialistas, entre mastologistas, oncologistas, ginecologistas, radiologistas, entre outros, abordando também temas relevantes do conteúdo científico e novos estudos, inclusive com palestrantes internacionais.

“Outras tragédias ambientais estão por vir e vão afetar milhões de brasileiros”

Em entrevista, o agrônomo e membro do Movimento Ciência Cidadã, Leonardo Melgarejo, explica como as enchentes no RS resultam de um modelo predatório de agricultura e incentivos fiscais à destruição ambiental

eldorado do sul

Vista aérea de Eldorado do Sul, cidade foi destruída pela enchente. Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

Por Solange Engelmann, da Página do MST

As mudanças climáticas já se tornaram um problema ambiental e social no Brasil, que necessita de medidas urgentes por parte dos Estados brasileiros e do governo federal para amenizar o sofrimento de milhares de pessoas que vem perdendo a vida, a moradia, lavouras e destruindo sonhos e perspectivas de vida, construídos em décadas. A exemplo temos a tragédia com temporais e enchentes que atravessa o Rio Grande do Sul, desde o mês de maio.

Até o momento o número de pessoas mortas devidos às enchentes no estado já chega a 177, além de 37 pessoas que estão desaparecidas. Ao todo, mais 2 milhões de pessoas foram afetadas pela inundações no RS. Conforme o balanço da Defesa Civil, o estado ainda conta com 478 municípios afetados pelas fortes chuvas e cerca de 10 mil pessoas continuam em abrigos. Porém, no último fim de semana, pelo menos 19 municípios gaúchos sofreram novos danos em razão de mais enchentes, e nesta segunda (17), a Defesa Civil emitiu novo alerta de chuvas intensas e rajadas de vento no estado.

Entre os dez assentamentos do MST no estado, dois tiveram todas as casas destruídas e perderam as plantações e animais, sendo obrigados a se deslocarem para outros assentamentos. E e outros dois assentamentos tiveram metade de suas casas destruídas, além de outros dois assentamentos com perdas devidos as inundações. Entre as várias perdas das famílias assentadas estão casas, a produção de alimentos plantados e estocados, animais e ferramentas, além de estruturas coletivas, maquinários, matéria prima, produtos para venda das cooperativas e agroindústrias localizadas nesses assentamentos, como por exemplo, toda a produção de Arroz Agroecológico e a área plantada.

Engenheiro agrônomo, doutor em Engenharia de Produção, membro do Movimento Ciência Cidadã e colunista do Brasil de Fato RS, Leonardo Melgarejo explica que as enchentes no RS não surgem do nada, mas são fruto do modelo predatório do agronegócio e da desregulamentação das políticas de fiscalização e de preservação ambiental, entre outros fatores.

“Uma coisa muito fácil de entender para qualquer tipo de solo, é que o desmatamento desprotege o solo e dificulta a capacidade de retenção da umidade. Mas a caixa d’água do solo também depende de elementos que são invisíveis e que o agronegócio está destruindo. Os microrganismos, a matéria orgânica, a porosidade do solo, as áreas de banhado que são drenadas, tudo isso compõe redes de serviços ecológicos que o negacionismo vem destruindo e estimulando a destruição. E isso se agrava com distorções nos acordos sociais, que estão nas alterações legislativas, nos financiamentos públicos, na isenção de impostos aos agrotóxicos, nos benefícios fiscais.”

Confira mais na primeira parte da entrevista exclusiva para a Página do MST

Quais os principais prejuízos e dificuldades que as mudanças climáticas tem causado na vida das famílias assentadas e do campo, atingidas pelas enchentes no RS?

O primeiro elemento que chama a atenção é a desestruturação da base física em que se apoiam essas famílias para viver. Na quase totalidade dos assentamentos, as áreas ocupadas pelas famílias eram áreas exploradas por um modelo predatório, e isso leva à degradação dos solos, à degradação das formas de vida estabelecidas naquele território. E a vida das famílias é iniciada no assentamento pautada por uma espécie de recolonização, com vida, com a incorporação de muito trabalho pra agregar matéria orgânica, pra devolver a cobertura vegetal, devolver aquilo que nós não enxergamos que é a micro vida do solo. E, ao mesmo tempo, essas famílias têm que realizar um enorme investimento de tempo e de trabalho para estruturação de mercados, para destinar sua produção, para a construção de relações de confiança com os consumidores nesses mercados.

Nesse sentido, a destruição das bases produtivas, o rompimento das cadeias de mercado afetam a vida daquelas famílias de uma maneira muito concreta. Isso tem uma enorme repercussão sobre o psicológico, sobre o que sentem as famílias e como elas veem o mundo. Felizmente, os assentados da Reforma Agrária fazem parte de uma articulação que é comprometida com uma espécie de visão de família ampliada, que não permite que as pessoas se sintam abandonadas. E o Rio Grande do Sul passa pela destruição objetiva de estruturas físicas que carregam histórias e possibilidades de vida, e que jogam as pessoas numa ideia de isolamento, porque essa família estendida não é uma realidade pra todos os grupos. As destruições físicas crescem pela pressão psicológica, pelo desânimo, pela ameaça iminente de miséria, de fome, de doenças, e até por isso, o desastre nos assentamentos ganha um vulto maior, porque é dali, dos assentamentos que estão vindo esforços muito evidentes para o acolhimento não só dos assentados, mas principalmente dos não assentados.

Que esforços são esses?

A produção e a distribuição de alimentos é uma evidência de exemplo concreto de solidariedade que deixa claro que juntos podemos fazer milagres. E por isso, o MST e outros movimentos, o MTST, o Levante Popular, as cozinhas solidárias, hoje se colocam no Rio Grande do Sul como principal elemento de ligação entre os flagelados dos campos e das cidades, entre o presente dramático do Estado e o futuro que vai emergir depois dessa coisa. E essa conexão estabelecida pelo MST tem que ser reconhecida e fortalecida, porque isso é do interesse de todos. Outras tragédias ambientais estão por vir e vão afetar de uma maneira cada vez mais brutal, milhões de brasileiros em todos os territórios, nos campos, nas matas e nas cidades.

Cozinha Solidária do MST, em Viamão. Foto: Tiago Giannichini

Quais os verdadeiros responsáveis pelas tragédias e crimes ambientais e sociais, como do RS e como responsabiliza-los e cobrar soluções?

Existem fundamentações dessa crise e podem ser diluídas em função da estrutura geográfica do Rio Grande do Sul, que dá as condições de base pra que ocorra o que tenha ocorrido. Existem as implicações do capitalismo, da ideia de crescimento infinito sobre a depredação de recursos e serviços e das implicações dessa degradação de recursos e serviços ambientais sobre o aquecimento global, em função do modelo de desenvolvimento capitalista, onde tudo é mercadoria. E as implicações, agora bem objetivas, de dimensão destrutiva de eventos ambientais que vão se suceder com maior frequência e com maior dimensão catastrófica. Chuvas cada vez mais intensas, secas cada vez mais prolongadas. E isso decorre do metabolismo planetário, que tem ciclos bem definidos.

Nós estamos num período de El Niño com essa chuvarada, mas antes dele houve um La Niña com secas que afetaram muito a economia do estado do Rio Grande do Sul, e a partir desse período de enxurradas, nós esperamos já a partir do próximo ano a volta do La Niña com secas. E no Rio Grande do Sul, essa sequência se agrava por conta da posição do Estado em relação ao globo terrestre. No caso das enchentes, elas são extremamente graves, porque sobre o Rio Grande do Sul e parte de Santa Catarina se chocam umas frentes frias que sobem lá da Antártida com umas frentes quentes que descem do norte e que descem do litoral. Nesse choque, as massas de vapor de água se condensam e despencam. E como o aquecimento global está fazendo com que exista menos água retida de forma congelada nos pólos, e a maior parte dos rios estão sendo assoreado pelo mau uso dos solos, estão secando, então, o volume da água na forma de vapor e na forma de chuva é muito maior. Isso vem num crescente.

E o que fazer diante disso?

Nós temos que pensar no que que nós fazemos como população, como sociedade, gerenciando o território onde essa água vai despencar. Como no Rio Grande do Sul, nós temos um desnível de até 800 metros entre as áreas altas da Serra do Planalto e as áreas baixas para onde escorrem as chuvas que caem lá em cima. Essas várzeas são invadidas por volumes de água com grande força, pela diferença de altitude, pela força da gravidade, empurrando essas águas e grande poder de destruição. E tudo chega no rio Guaíba, que está praticamente ao nível do mar, está colado na Lagoa dos Patos e se espalha em torno da lagoa e em torno das várzeas desses rios. Porque o canal de ligação da lagoa com o mar é muito estreito para um volume de água tão gigante. Como os rios estão assoreado essa água chega com maior volume naquela boca de saída e com maré alta essa água é represada com os ventos vindos do sul. E as inundações que eram previstas e que, em condições normais, seriam também inevitáveis, elas só adquirem essa dimensão causando esses danos, assim do tipo nunca visto, porque, o nunca visto é algo sequencial. O próximo nunca visto vai ser pior do que este.

Então as enchentes no RS poderiam ter causado danos menores?

Com certeza. Com solos protegidos, rios não assoreados, com medidas de proteção, via a legislação protetiva ao ambiente e fiscalização dos crimes ambientais, as coisas seriam diferentes e, principalmente, se nós tivéssemos orientações políticas e de mecanismos de educação que se encaminhasse para conscientização social numa linha não negacionista. Poderíamos ter evitado esse drama na dimensão que esteve. Porto Alegre, por exemplo, estava preparada para conter a elevação do rio Guaíba até seis metros e o rio Guaíba não subiu seis metros, a água não passou dos 5,5. E ela não teria entrado na cidade, não teria provocado o que vimos se a sucessão de administrações que estiveram na Prefeitura de Porto Alegre, que controlaram a cidade nos últimos 20 anos, não tivessem desmontado o sistema de proteção criado por administrações anteriores, não tivessem descuidado de fazer o básico.

E como fica a responsabilidade dos culpados pela tragédia?

A responsabilização é parte do serviço de educação que nós precisamos, de desalienação, que nós precisamos. Nós precisamos que os erros sejam identificados para que eles não se repitam. Precisamos que os promotores dos erros sejam desmascarados. Isso é necessário para que os grupos políticos de que fazem parte os promotores dos erros, não sejam protegidos pela cumplicidade do silêncio. E nós temos muitos exemplos negativos já na nossa história, relacionados a perdões, anistias, esquecimentos, que se repetirem nesse caso vão alimentar a crise e os dramas futuros que estão por vir. É inegável a volta dessa roda.

Como o modelo do agronegócio, através do uso intensivo de agrotóxicos e o desmatamento vem contribuindo para agravar os efeitos das mudanças climáticas para os povos do campo?

O solo, com diferentes níveis de cobertura é o maior reservatório de água. Os volumes de água que os diferentes tipos de solo vão conseguir segurar dependem da composição do solo, da profundidade e das plantas que estão sobre o solo. Uma coisa muito fácil de entender para qualquer tipo de solo, é que o desmatamento desprotege o solo e, portanto, dificulta a capacidade de retenção da umidade. Mas a caixa d’água do solo também depende de elementos que são invisíveis e que o agronegócio está destruindo, talvez mais facilmente pela invisibilidade, os microrganismos, a matéria orgânica, a porosidade do solo, as áreas de banhado que são drenadas. Os mecanismos de descompactação do solo que são realizados por insetos e pelas raízes, tudo isso compõe redes de serviços ecológicos que o negacionismo vem destruindo e vem estimulando a destruição. E isso se agrava com distorções nos acordos sociais, nas alterações legislativas, nos financiamentos públicos, na isenção de impostos aos agrotóxicos, nos benefícios fiscais. E também não dá para esquecer, que uma ocultação da realidade que ilude a sociedade. Há uma publicidade, campanhas de marketing que promovem a destruição dos ecossistemas e que são veiculadas nas grandes redes.

Então, como o desmatamento contribui para o encharcamento do solo e o aumento das enchentes?

Quando eliminamos as árvores, não estamos descartando apenas os serviços que as árvores realizam, quando impedem a força do choque das gotas de chuva sobre o solo que desagregam o solo ou o serviço que as árvores realizam, absorvendo e devolvendo pela respiração para o ambiente, parte da água que chega até elas. É muito grave e pouco comentado o fato de que nós, cortando os canais profundos que são abertos pelas raízes, reduzimos de uma maneira muito significativa a capacidade de absorção e de retenção das águas da chuva pelo solo. E o que não é retido, escorre.

Em resumo, nós precisamos reflorestar, e não basta ser iludido por plantio de eucalipto. Nós precisamos reflorestar com diversidade, a diversidade da cobertura viva do solo e da vida subterrânea dos solos, é que define esse serviço de retenção de água que o agronegócio desfaz. A substituição daquelas composições bio diversas por um único tipo de planta, por exemplo, a soja, semeada ano após ano nos mesmos locais acaba retirando a capacidade de absorção e retenção da água do solo e, além disso, isso também gera uma camada impermeabilizada na linha de corte dos discos dos arados, e faz com que mais água escorra. E aquela camada superficial do solo pulverizada, acaba sendo carregada, vai parar nos rios, nos lagos e reduz a capacidade dos rios de escoamento das águas. E isso aumenta o volume da inundação, a velocidade e a violência das enchentes. E tudo isso aconteceu no Rio Grande do Sul, que enganado pela mídia, vinha se orgulhando de um modelo de produção ecocídio. Consolidado esse modelo dependente de isenções fiscais, que estimula o uso de veneno. Tudo que foi destruído pela força das águas escorreu em direção às áreas baixas, carregando os problemas.

E como essas enchentes geram mais problemas para os agricultores agroecológicos e assentados da Reforma Agrária no estado?

Lavoura de arroz alagada. Foto: MST-RS

Os agricultores ecológicos que, com as suas áreas de cultivo, onde produziam alimentos orgânicos, também foram inundadas pelo escorrimento das áreas degradadas pelo agronegócio. Isso estabeleceu um paradoxo, por que esses agricultores de áreas orgânicas vão precisar recuperar a fertilidade e retirar o veneno dos seus solos. E essa é uma dificuldade que tende a se estender no tempo e com o período de seca que está por vir.

E os lagos associados por essa última enchente, com a seca vão ter níveis mais baixos, maior concentração proporcional de resíduos dos venenos, que ali foram depositados. Os animais que buscarem matar a sede nesses locais vão ser contaminados. E nos próximos períodos, mais chuva e o drama vai se repetir.

O corolário é que se não mudarmos o modelo de produção, se a gente continuar jogando veneno no Rio acima, nós vamos continuar reduzindo a capacidade de retenção de água pelos solos. E a diferença, ano após ano, só vai se observar na dimensão dos estragos. É esse o drama está posto.

*Editado por Fernanda Alcântara


Fonte: MST

O PT e sua singularidade

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 Não há Lula sem PT, mas haverá PT sem Lula?

Por Douglas Barreto da Mata

Não é desejável, mas é aceitável que nos tornemos mais ranzinzas com o avançar da idade.  Seja o desconforto com as inovações tecnológicas, que parecem alterar nossa percepção, nos dando a impressão de que falta ainda muito menos tempo que nos resta, seja com a descoberta de que tudo aquilo que acreditamos por décadas não era, exatamente, o que pensávamos (nunca é, ainda bem), ou enfim, porque tudo fica mais difícil mesmo.

Voltar ou começar a fazer exercícios físicos, abandonar velhos vícios (ou criar novos), cortar pêlos que insistem em nascer em locais horríveis, tudo é muito mais difícil pelo simples fato de que tudo acelera lá fora, enquanto ficamos mais e mais lentos.

No entanto, o tempo vivido (e vívido, parafraseando Back in Bahia de Gilberto Gil) traz uma vantagem (para alguns, não todos) de poder olhar esse período de uma perspectiva bem mais ampla, simplesmente porque você tem esse passado, que antes, era apenas uma expectativa (futuro). É o que ando fazendo com minhas crenças políticas.

Falo da militância orgânica por mais de 20 anos no Partido do s Trabalhadores, o PT, desde 1986 até meados de 2007/2008, quando passei a ser um simpatizante/militante, mais afastado, sem deixar de acreditar que aquela legenda seria a ferramenta de transformação social que o país precisava. Olhando hoje, após 38 anos, posso dizer que tenho tempo suficiente para acreditar que não é mais, e pior, pode nunca ter sido como eu acreditei.

Tenho escrito muita coisa ácida e deselegante sobre o PT nesses últimos tempos, e mais sobre Lula, cuja imagem abraçado comigo, capturada no jantar do Hotel Palace, na campanha presidencial de 1998, senão me engano, mantenho em minha sala de estar, em um porta retratos que minha filha mandou fazer para mim.

É um sentimento ambíguo, que mistura memórias afetivas com decepções, as quais me impedem de guardar o quadro, talvez para a sua exposição faça com que me recorde sempre que aquilo que eram esperanças nunca se concretizaram.

Vejam bem, decepção nem sempre é melancolia, e neste caso, é remédio amargo para os sentidos, que aguça a razão.  Em algum momento, o PT, eu corrijo, nós do PT deixamos de cuidar daquilo que deveria ser a coisa mais importante.

Explico.  O espectro político brasileiro, por suas injunções históricas, nunca contou com partidos políticos que materializassem a noção básica de um ajuntamento desta natureza.

Talvez o PTB de Getúlio Vargas, os partidos comunistas, os demais sempre foram agrupamentos de individualidades políticas, de personagens, onde a grande massa de filiados e militantes corressem atrás de lideranças carismáticas, com maior propensão à reunião em tempos eleitorais, e com pouca ou nenhuma densidade e penetração em movimentos sociais.

Para sermos justos, em todos os cantos do mundo, é mais ou menos assim, e o debate político mais robusto fica a cargo de poucos grupos e partidos.

O PT, nesse sentido, veio como uma novidade, apesar de contar com uma liderança de calibre, Lula.  Podemos dizer que durante anos, o PT reivindicava ser o único partido cuja sigla fazia sentido, que combinava com sua trajetória política, era um partido dos trabalhadores, isto é, para os trabalhadores e feito por trabalhadores.

Esse corte de classe parecia claro.  Ao contrário dos demais partidos, que levam sempre “democrático”, “social”, “progressista”, mas que nunca agiam como tais, o PT dizia guardar essa coerência como um diferencial.

Para nós, a compreensão da luta para a melhoria de vida dos trabalhadores percorria muitas vias, e também isso era a grandeza do partido, sua vida interna, pulsante, intensa, e às vezes, extremada, mas nunca omissa ou cúmplice do crime histórico praticado pelas elites, no processo que chamávamos de democracia interna.

Bem, era nisso que eu acreditava.  De certa forma, não quero crer que, em algum momento, que essa visão do PT ingênua não tenha correlação com alguma porção de verdade, mesmo pequena, que seja.

É essa a questão.  Era verdade, ou melhor, havia a  busca por essa verdade?

Dói dizer, de onde me encontro, que o PT, a meu ver, olhando para trás, nunca foi, ou em algum momento deixou de ser um instrumento de luta da classe trabalhadora contra as elites.

Observando mais de perto a sua principal liderança, Lula, podemos afirmar que, na verdade, Lula nunca pretendeu ser esse veículo da luta de classes.  Simplesmente porque Lula é, dito por ele mesmo, uma pessoa que acredita que há conciliação entre esses segmentos da sociedade, e que o Estado, através do governo representativo, pode dar conta de cimentar esse pacto através de ações políticas nessa direção, sempre equilibrando os lados em conflito. Ele, portanto, nunca negou essa condição de “amortecedor” destas disputas.

Talvez nossa ingenuidade, ou melhor dizendo, a minha, tenha sido acreditar que pudéssemos estar à sombra do líder popular, para em alguma forma de gradualismo reformista, fizéssemos a ruptura com o sistema que gera enormes desigualdades, o capitalismo.

Imaginamos (será?) que dava para “melhorar” as desumanas condições dos trabalhadores no capitalismo, enquanto lutamos para acabar com ele?  Ou sequer lutamos para isso?

Ou pior, quem sabe esperávamos que algum conforto econômico proporcionado por alguns anos de consumo (churrasco de picanha, e viagens de avião, como brada o presidente) fizessem os trabalhadores, por milagre, entenderem a sua posição na luta de classes, e tomando consciência dessa condição subordinada, dedicassem o apoio político irrestrito ao PT e seu governo, para atacar a causa de seus infortúnios, a desigualdade e o sistema que a gera?

Não.  O que aconteceu foi a simbiose de um partido com seu líder, que maior que a legenda, a engoliu, e sim, o matou.  Como um ser político antropófago, Lula deglutiu o partido e tomou para si a sua essência, como acreditavam os povos originários, que dedicados ao ritual, quando apenas comiam aqueles que admiravam e respeitavam.

Pode ter sido tudo isso.  Pode ter sido tudo isso, e algo mais. Aprendemos que é pouco provável que mudemos o passado, e o futuro que nos resta é tão escasso que nossa atenção acaba se diluindo em menos futuro, para termos mais presente.

Lula tem pouco tempo, e sabe disso também.  No fim, “olhando em perspectiva”, como disse lá em cima, não tinha como dar certo, porque já nasceu errado.  A sigla PT hoje não significa o que as letras dizem, e bem dizendo, não querem dizer mais nada. Lula não assusta mais ninguém, domesticado pelas elites nacionais, incensado como um bem arqueológico nas reuniões internacionais, como este porta-retratos que tenho na minha sala.

Uma lembrança incômoda de derrota. Sorte que ainda restou algum afeto.  Mas de que serve afeto a esta altura das coisas?

Esperando por Godot, o PT de Campos foi buscar lã e voltou tosquiado

ovelhas

Por Douglas Barreto da Mata

O PT esperou Godot, e Godot não veio.

A tática do partido, em sua seção local de Campos dos Goytacazes, em emplacar a candidatura da Deputada Estadual Carla Machado, ex-prefeita de SJB, não deu certo. Deu a lógica, e o TSE confirmou o que todos sabiam, que um prefeito de município vizinho (limítrofe) não pode concorrer a um terceiro mandato na cidade ao lado, mesmo que tenha renunciado ao cargo no meio do segundo mandato.

Defendi essa tese no programa da Rádio Aurora, com meus amigos Léo Puglia e José Alves, e disse na ocasião que mesmo que houvesse uma mudança de entendimento da jurisprudência, ela não poderia valer neste pleito, dada sua natureza normativa e de amplo espectro, isto é, o novo entendimento alteraria, significativamente, a situação jurídica de vários interessados.

Ressalte-se que tais renovações têm se tornado tão comuns na Justiça brasileira, que já são chamadas de F5 (aquele comando do computador para atualização da página). É certo, como já apontou o juiz Nunes Marques, acompanhado de outro, que há chance de reexame do tema. Não é esse o assunto aqui, que merece até outro texto. Quero falar de outra questão.

O fato de que o PT se transformou em um partido-ônibus ou partido hospedeiro. Incapaz de elaborar uma estratégia política de médio e longo prazos, carente de quadros e de renovações destes quadros, a legenda repete os mesmos erro, enquanto espera resultados diferentes. Impossível.

O PT optou sempre por ser rabo de elefante, a ser cabeça de mosquito, e agora não faz diferente.  Em lugar de traçar um caminho próprio, ainda que modesto, o PT de Campos prefere embarcar nos projetos do anti-garotismo local, sem perceber que esse garotismo se alterou, com a atual administração do prefeito Wladimir Garotinho, mas mesmo assim, mantém sua indiscutível hegemonia.

Seria o momento de manter alguma interlocução com o atual prefeito?  Os petistas podem argumentar, com certa razão, que o atual prefeito simboliza hábitos políticos da direita, e ele mesmo admite isso, e que tal circunstância tornaria qualquer conversa um incômodo.

Há também cicatrizes históricas no embate do PT com a família Garotinho, certamente, com culpas para todos.  Porém, o fato é que parte dos antagonistas que o PT escolheu para se associar, como um partido auxiliar, agora retornam ao ninho garotista, como a família Vianna, dentre outros, todos recrutados pela extrema habilidade do atual prefeito Wladimir, que transita com facilidade nas esferas superiores de comando do próprio PT.

Para levar adiante esse plano equivocado, a nosso ver, o PT foi procurar aconchego nos rivais do atual prefeito, que nem de longe podem ser identificados como progressistas, os Bacellar, ele mesmo presidente estadual do União Brasil, aliado do governador bolsonarista, que administra o estado onde essa facção política joga quase todas as suas fichas, junto com SP.

Então, vamos combinar, a questão não é ideológica ou apego ao histórico de lutas do partido.  No campo do cálculo eleitoral, há ainda a constatação de que os aliados que o PT procurou, os Bacellar, apesar de terem uma dimensão estadual considerável e nada desprezível, na cidade de Campos dos Goytacazes carecem de maior densidade, o que pode ser comprovado na ausência de um nome de peso do grupo para concorrer com o prefeito que tenta reeleição.

Se fosse, com certeza, a candidata não seria Carla Machado, que entrou e saiu do partido como se ali houvesse uma “catraca livre”, servindo-se da legenda sem trazer nada em troca, ou quase nada. Na trajetória da deputada, nada que se identifique com o PT, ao contrário, ela foi a patrocinadora de primeira hora de um dos maiores escândalos financeiros e da política nacional, protagonizado por Eike Batista e sua “grilagem” do V Distrito de SJB, onde até hoje as populações locais sofrem os efeitos do desterro, da salinização da água e do solo, e das violências praticadas em nome da propriedade portuária instalada ali.

Como se não bastasse, mesmo SJB sendo uma das cidades com maior orçamento per capita do país, com quase 1 bi para 2025 e 36 mil habitantes, o que dá R$ 27.777,00 por habitante, a cidade ostenta o maior nível de pessoas abaixo da linha da pobreza do Estado, e claro, do país.

O PT desperdiçou, novamente, um belo quadro, Jefferson Azevedo, ex reitor do IFF, ou sequer fez um debate de alianças, partindo para um adesismo barato, uma espécie de prostituição chamada, eufemisticamente, de “pragmatismo”.  Não!  Pragmatismo é quando se cede para ganhar algo.  E o PT não ganhou nada com Carla Machado, nem com os Bacellar, ou se ganhou, ninguém quis contar, e não ousamos dizer a razão do segredo.

Agora, o partido espera eleger ao menos um vereador. Pouco provável. Sem uma cabeça de chapa digna desse nome, que pelo menos mantivesse a densidade nos estratos eleitorais que já votaram no PT, ou da esquerda, é muito difícil.

Ao mesmo tempo, o ressurgimento das lutas campesinas poderia oferecer ao PT uma base de apoio social, mas o partido parece anêmico.  Agarra-se no SindiPetro/NF, um sindicato que parece atônito com a gestão privatista que foi colocada pelo Governo Lula na Petrobrás, cujo plano de ação em nada parece resgatar o aspecto crucial da estatal, ao contrário, domesticado pelo mercado, Lula, o seu governo, o PT e a Petrobrás adernam para o naufrágio iminente.

Agora, Inês está morta.  O PT de Campos foi buscar lã e voltou tosquiado.

E Godot? Será que vem?

Microplásticos e nanoplásticos foram encontrados em todo o corpo humano – até que ponto deveríamos estar preocupados?

microplastico

Por Michael Richardson e Meiru Wang para o “The Conversation”

O mundo está ficando entupido de plástico. Partículas de plástico tão pequenas que não podem ser vistas a olho nu foram encontradas em quase todos os lugares, desde as profundezas dos oceanos até o topo das montanhas . Estão no solo, nas plantas, nos animais e estão dentro de nós. A questão é: que danos, se houver, eles estão causando?

Quando o lixo plástico é despejado em aterros sanitários ou no mar, ele se decompõe muito lentamente. A luz solar e as ondas fazem com que a superfície do plástico se torne quebradiça e as partículas sejam lançadas no meio ambiente. Conhecidas coletivamente como “pequenas partículas de plástico”, elas variam em tamanho de cinco milímetros ou menos (microplásticos) a menos de um milésimo de milímetro (nanoplásticos). Os menores só podem ser detectados com instrumentos científicos especiais.

Ainda não está claro como os microplásticos e nanoplásticos entram nos seres vivos, mas vários pontos de entrada foram sugeridos. Por exemplo, podem passar através do intestino através de alimentos ou bebidas contaminados com pequenas partículas de plástico. Ou podem ser inalados ou absorvidos pela pele.

Uma pesquisa que publicamos na revista científica Environmental International sugere que, pelo menos para alguns animais, os nanoplásticos são uma má notícia. Injetamos nanopartículas de plástico em embriões de galinha, os pesquisadores descobriram que as partículas viajavam rapidamente no sangue para todos os tecidos, especialmente coração, fígado e rins. Eles também foram excretados pelos rins embrionários. Nós também que as nanopartículas de plástico tendem a aderir a um certo tipo de célula-tronco no embrião. Estas células são essenciais para o desenvolvimento normal do sistema nervoso e de outras estruturas. Qualquer dano às células-tronco pode colocar em risco o desenvolvimento do embrião.

Suspeitamos que as células-tronco do embrião de galinha tenham substâncias em sua superfície, chamadas “moléculas de adesão celular”, que aderem às nanopartículas de poliestireno que usamos. Estamos a acompanhar esta descoberta, porque quando os nanoplásticos aderem às células e entram nelas, podem causar a morte celular e até defeitos congênitos graves em galinhas e ratos.

É claro que estudos semelhantes não podem ser realizados em seres humanos, pelo que ainda não é possível dizer quais são as implicações da nossa investigação animal para os seres humanos. O que sabemos é que os nanoplásticos são encontrados no sangue dos seres humanos, em outros fluidos corporais e em vários órgãos importantes e tecidos essenciais do corpo.

Nos últimos anos, microplásticos e nanoplásticos foram encontrados no cérebro , coração e pulmões de humanos. Eles foram descobertos nas artérias de pessoas com doenças arteriais, sugerindo que podem ser um fator de risco potencial para doenças cardiovasculares. E foram detectados no leite materno , na placenta e, mais recentemente, no pênis .

Mãe amamentando bebê
Nanoplásticos foram encontrados até no leite materno. Dzmitry Kliapitski / Alamy Banco de Imagem

Pesquisadores chineses relataram no início deste ano que encontraram microplásticos em testículos humanos e de cães . Mais recentemente, outra equipa chinesa encontrou microplásticos em todas as 40 amostras de sêmen humano testadas. Isto segue-se a um estudo italiano que encontrou microplásticos em seis em cada dez amostras de sémen humano.

O nosso receio é que os microplásticos e os nanoplásticos possam agir de forma semelhante às fibras mortais de amianto. Tal como o amianto, não são decompostos no corpo e podem ser absorvidos pelas células, matando-as e depois sendo libertados para danificar ainda mais células.

Tranquilizador, por enquanto

Mas há necessidade de cautela aqui. Não há evidências de que os nanoplásticos possam atravessar a placenta e entrar no embrião humano.

Além disso, mesmo que os nanoplásticos atravessem a placenta, e em número suficiente para danificar o embrião, esperaríamos ter visto um grande aumento nas gravidezes anormais nos últimos anos. Isso porque o problema dos resíduos plásticos no meio ambiente tem crescido enormemente ao longo dos anos. Mas não temos conhecimento de qualquer evidência de um grande aumento correspondente de defeitos congênitos ou abortos espontâneos.

Isso, por enquanto, é reconfortante.

Pode ser que os microplásticos e os nanoplásticos, se causarem danos aos nossos corpos, o façam de uma forma subtil que ainda não detectámos. Seja qual for o caso, os cientistas estão trabalhando arduamente para descobrir quais podem ser os riscos.

Uma via promissora de pesquisa envolveria o uso de tecido placentário humano cultivado em laboratório. Tecidos especiais de placenta artificial , chamados “organóides trofoblásticos”, foram desenvolvidos para estudar como as substâncias nocivas atravessam a placenta.

Os pesquisadores também estão investigando usos potencialmente benéficos para os nanoplásticos. Embora ainda não estejam licenciados para uso clínico, a ideia é que possam ser usados ​​para fornecer medicamentos a tecidos específicos do corpo que deles necessitam. As células cancerígenas poderiam, desta forma, ser alvo de destruição sem danificar outros tecidos saudáveis.

Qualquer que seja o resultado da investigação sobre nanoplásticos, nós e muitos outros cientistas continuaremos a tentar descobrir o que os nanoplásticos estão a fazer a nós próprios e ao ambiente.