Quando o aquecimento global realmente atingirá o limite histórico de 1,5 ºC?

O planeta está a caminho de atingir a média de 1,5 ºC na década de 2030 – embora um novo relatório sugira que um único ano provavelmente cruzará a linha muito antes

heathAs temperaturas dispararam na Índia em abril: ondas de calor se tornam mais prováveis ​​à medida que o planeta esquenta. Crédito: Sudipta Das/NurPhoto via Getty

Por Nicola Jones para a Nature

Há 66% de chance de que a temperatura média global anual atinja 1,5 ºC acima das temperaturas pré-industriais em algum momento nos próximos cinco anos, de acordo com um relatório da Organização Meteorológica Mundial divulgado em 17 de maio . Atingir 1,5 ºC de aquecimento em um único ano será um momento marcante para o planeta, que em 2022 foi cerca de 1,15 ºC mais quente do que em tempos pré-industriais. Mas não é exatamente o marco que a maioria das pessoas quer dizer quando fala em 1,5 ºC de aquecimento – para isso, provavelmente ainda temos cerca de uma década.

O famoso valor de 1,5 ºC, amplamente citado como o ‘máximo’ desejado para o aquecimento planetário, decorre doacordo de Paris das Nações Unidas de 2015 sobre mudanças climáticas. Este tratado declarou o objetivo de manter a temperatura média global bem abaixo de 2 ºC acima dos níveis pré-industriais, com um limite preferencial de 1,5 ºC.

O acordo de Paris, no entanto, refere-se a uma média planetária sustentada de 1,5 ºC de aquecimento – não apenas a média de um único ano, que por si só poderia ser anormalmente mais quente ou mais frio do que a média de longo prazo. O acordo de Paris não especificou exatamente o que significava 1,5 ºC de aquecimento, mas omais recente relatóriodo primeiro grupo de trabalho do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), publicado em 2021, esclarece que significa o ponto médio do primeiro período de 20 anos em que a temperatura média do ar na superfície global é 1,5 ºC mais quente do que a média de 1850-1900.

Em 2018, um relatório especial do IPCC sobre 1,5 ºC de aquecimento estimou que o mundo provavelmente atingiria o limite de 1,5 ºC em algum momento entre 2030 e 2052. Em 2021, usando uma metodologia diferente, que havia sido fixada no início dos anos 2030. “O prazo está cada vez mais próximo”, diz o geógrafo William Solecki, da City University of New York, autor do relatório especial do IPCC.

Um enorme ‘balanço global’de progresso de dois anos sobre os objetivos do acordo de Paris está terminando agora e será apresentado na próxima reunião da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP28), que começará em 30 de novembro. Até agora, o balanço descobriu que as coisas não estão indo bem. Para uma chance de 50% de limitar o aquecimento a 1,5 ºC, observa um relatório de reunião de balanço, as emissões globais de gases de efeito estufa precisam atingir o pico antes de 2025; isso ainda não aconteceu e os compromissos nacionais de emissões não são suficientes para manter o planeta dentro da meta.

Quanto mais baixo melhor

O número de 1,5 ºC foi escolhido na tentativa de limitar a severidade dos impactos do aquecimento, levando em consideração fatores como segurança alimentar e eventos climáticos extremos. No entanto, os especialistas do IPCC enfatizaram que 1,5 ºC não deve ser visto como um “guarda-corpo” abaixo do qual tudo estaria bem, e observaram que qualquer que seja a temperatura em que o aquecimento mundial atinge seu pico, quanto menor, melhor. “Obviamente há um continuum”, diz Solecki. “Quanto mais alta a temperatura, pior o resultado.”

O relatório do IPCC de 2018 sobre 1,5 ºC de aquecimento observa que os efeitos de atingir esse limite podem incluir: dias extremamente quentes em latitudes médias que são 3 ºC mais quentes do que em tempos pré-industriais; aumento do nível do mar de até três quartos de metro até 2100; a perda de mais da metade do habitat viável para 8% das plantas e 4% dos vertebrados; e uma diminuição nas capturas anuais da pesca global de 1,5 milhão de toneladas.

O relatório também observa que, como o aquecimento global é desigual, mais de um quinto da população mundial vive atualmente em regiões que já ultrapassaram 1,5 ºC de aquecimento em pelo menos uma estação.

Mais importante do que quando a Terra atingirá 1,5 ºC de aquecimento é a quantidade de aquecimento em que o planeta atingirá o pico e quando isso acontecerá. “A cada décimo de grau acima de 2 ºC, você observa impactos mais sustentados e sistêmicos”, diz Solecki.

Esses números não serão aparentes por décadas. De acordo com as projeções de temperatura global do IPCC para 2021em diferentes cenários de emissões, o pico de temperatura pode ser de 1,6 ºC por volta de 2050 (se o globo atingir emissões líquidas zero até então), caindo para 1,4 ºC em 2100; para, com emissões ainda subindo, 4,4 ºC em 2100, com o pico ainda por vir.

Os próximos anos podem trazer um pico anormalmente alto nas temperaturas anuais em comparação com a média de longo prazo, graças a um evento esperado do El Niño – um padrão climático natural que traz temperaturas mais quentes para o leste do Oceano Pacífico e que tende a aquecer o planeta como um todo. Em abril, o Carbon Brief, um site que informa sobre questões climáticas, estimou que 2023 estava se preparando para ser um dos seis anos mais quentes já registrados , provavelmente o quarto mais quente. E em abril, o oceano global atingiu a temperatura mais quente desde o início dos registros.

doi: https://doi.org/10.1038/d41586-023-01702-w


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Este texto escrito orginalmente em inglês foi publicado pela revista “Nature” [Aqui!].

Especialista comenta decisão do Ibama sobre veto à exploração de petróleo pela Petrobras na Foz do Amazonas

Para Philip Martin Fearnside, membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza (RECN), não é possível fazer a exploração de forma segura

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Na última quarta-feira (17), o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) anunciou parecer contrário ao projeto de exploração de petróleo na bacia da Foz do Amazonas pela Petrobras. A empresa informou que vai recorrer da decisão.

Para Philip Martin Fearnside, membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza (RECN), pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), membro da Academia Brasileira de Ciências e que já foi identificado como o segundo cientista do mundo em citações sobre aquecimento global (Thomson-ISI), a decisão do Ibama de vetar a exploração pela Companhia foi acertada, já que não é possível desenvolver a atividade na região de forma segura.

“Não é possível fazer uma proposta de exploração na Foz do rio Amazonas de forma segura. Isto é comprovado pelo evento Deepwater Horizon, que aconteceu no Golfo de México, em 2010, quando um poço de petróleo da empresa British Petroleum vazou a uma profundidade de 1,5 km e jorrou petróleo durante meses, até ser estancado”, comenta o especialista.

“O derramamento causou danos bilionários e mostrou que ninguém no mundo tem a capacidade de controlar vazamentos nessa profundidade, inclusive o Brasil. Todo o discurso de como o país tem grande capacidade na área de exploração petrolífera no mar nunca foi testado por um vazamento a grande profundidade. A proposta na Foz do Amazonas inclui poços ao dobro da profundidade do poço do desastre do Golfo de México”, acrescenta.

Ainda de acordo com Philip, os riscos são principalmente de vazamento e, nas profundidades previstas, o petróleo derramado atingiria uma vasta área. “As correntes marinhas levariam o óleo ao norte, atingindo as costas do Amapá, Guiana Francesa, Suriname e Guiana. Assim, a atividade petroleira na região ameaça não só o Brasil, mas também os países vizinhos. Haveria ainda sérios impactos nos ecossistemas marinhos. O estuário do rio Amazonas, além de ter importante biodiversidade, é uma grande fonte de pescado, que abastece a cidade de Belém”.

Sobre a Rede de Especialistas em Conservação da Natureza

A Rede de Especialistas em Conservação da Natureza (RECN) reúne cerca de 80 profissionais de todas as regiões do Brasil e alguns do exterior que trazem ao trabalho que desenvolvem a importância da conservação da natureza e da proteção da biodiversidade. São juristas, urbanistas, biólogos, engenheiros, ambientalistas, cientistas, professores universitários – de referência nacional e internacional – que se voluntariaram para serem porta-vozes da natureza, dando entrevistas, trazendo novas perspectivas, gerando conteúdo e enriquecendo informações de reportagens das mais diversas editorias. Criada em 2014, a Rede é uma iniciativa da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza. Os pronunciamentos e artigos dos membros da Rede refletem exclusivamente a opinião dos respectivos autores. Acesse o Guia de Fontes em www.fundacaogrupoboticario.org.br 

Meta, controladora do Facebook, recebe multa recorde por transferir dados de usuários europeus para os EUA

meta A placa do logotipo Meta do Facebook é vista na sede da empresa em Menlo Park, Califórnia, em 28 de outubro de 2021. A União Europeia atinge a Meta, controladora do Facebook, com uma multa recorde de US$ 1,3 bilhão por transferências de dados de usuários para os EUA. (Foto AP/Tony Avelar, Arquivo)

Por Kelvin Chan, cobrindo tecnologia e inovação na Europa e além para a Associated Press

LONDRES (AP) – A União Europeia (UE) impôs à Meta uma multa de privacidade recorde de US$ 1,3 bilhão nesta segunda-feira e ordenou que ela parasse de transferir dados de usuários através do Atlântico até outubro, a última salva em um caso de uma década desencadeado por temores de espionagem cibernética dos EUA .

A multa de 1,2 bilhão de euros da Comissão de Proteção de Dados da Irlanda é a maior desde que o rígido regime de privacidade de dados da UE entrou em vigor há cinco anos, superando a multa de 746 milhões de euros da Amazon em 2021 por violações de proteção de dados.

O cão de guarda irlandês é o principal regulador de privacidade da Meta no bloco de 27 nações porque a sede europeia da gigante de tecnologia do Vale do Silício está sediada em Dublin.

A Meta, que já havia alertado que os serviços para seus usuários na Europa poderiam ser cortados, prometeu apelar e pedir aos tribunais que suspendessem imediatamente a decisão.

“Não há interrupção imediata do Facebook na Europa”, disse a empresa.

“Esta decisão é falha, injustificada e estabelece um precedente perigoso para inúmeras outras empresas que transferem dados entre a UE e os EUA”, disse Nick Clegg, presidente de assuntos globais e globais da Meta, e diretora jurídica Jennifer Newstead, em comunicado.

É mais uma reviravolta em uma batalha legal que começou em 2013, quando o advogado austríaco e ativista de privacidade Max Schrems apresentou uma queixa sobre o manuseio de seus dados pelo Facebook após as revelações do ex-contratado da Agência de Segurança Nacional Edward Snowden sobre espionagem cibernética dos EUA.

A saga destacou o conflito entre Washington e Bruxelas sobre as diferenças entre a visão estrita da Europa sobre privacidade de dados e o regime comparativamente frouxo dos EUA, que carece de uma lei federal de privacidade.

Um acordo que cobre as transferências de dados UE-EUA, conhecido como Privacy Shield, foi derrubado em 2020 pelo tribunal superior da UE, que disse que não fez o suficiente para proteger os residentes da intromissão eletrônica do governo dos EUA.

Isso deixou outra ferramenta para governar as transferências de dados – contratos legais de ações. Os reguladores irlandeses inicialmente determinaram que a Meta não precisava ser multada porque estava agindo de boa fé ao usá-los para mover dados através do Atlântico. Mas foi anulado pelo painel superior da UE de autoridades de privacidade de dados no mês passado, uma decisão que o cão de guarda irlandês confirmou na segunda-feira.

Enquanto isso, Bruxelas e Washington assinaram um acordo no ano passado sobre um Escudo de Privacidade reformulado que a Meta poderia usar, mas o pacto está aguardando uma decisão das autoridades europeias sobre se protege adequadamente a privacidade dos dados.

As instituições da UE estão revisando o acordo, e os legisladores do bloco neste mês pediram melhorias, dizendo que as salvaguardas não são fortes o suficiente.

A Meta alertou em seu último relatório de ganhos que, sem uma base legal para transferências de dados, será forçada a parar de oferecer seus produtos e serviços na Europa, “o que afetaria material e adversamente nossos negócios, condição financeira e resultados operacionais”.

A empresa de mídia social pode ter que realizar uma reformulação cara e complexa de suas operações se for forçada a parar de enviar dados de usuários através do Atlântico. A Meta tem uma frota de 21 data centers, segundo seu site, mas 17 deles estão nos Estados Unidos. Três outros estão nas nações europeias da Dinamarca, Irlanda e Suécia. Outra está em Cingapura.

Outros gigantes da mídia social estão enfrentando pressão sobre suas práticas de dados. O TikTok tentou acalmar os temores ocidentais sobre os riscos potenciais de segurança cibernética do aplicativo de compartilhamento de vídeos curtos de propriedade chinesa com um projeto de US$ 1,5 bilhão para armazenar dados de usuários dos EUA em servidores Oracle.


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Este escrito originalmente em inglês foi publicado pela “Associated Ptess” [Aqui!].

Pega no esquema de falsificação do cartão vacinal de Jair Bolsonaro et caterva, Campos dos Goytacazes é exemplo de atraso

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Uma notícia publicada hoje no jornal “O DIA” sacramenta a participação do município de Campos dos Goytacazes no esquema de falsificação do cartão vacinal do ex-presidente Jair Bolsonaro, seus familiares e auxiliares diretos, informação que veio à tona graças ao aprofundamento das investigações dentro da chamada “Operação Venire”. É interessante notar que outra cidade que teve participação neste esquema foi Duque de Caxias que se tornou, na gestão de Wladimir Garotinho, uma espécie de “irmã” de Campos dos Goytacazes até em processos de licitação pública.

A existência dsse tipo de esquema de conexão que desabona Campos dos Goytacazes lamentavelmente tem como contraponto a inexistência, por exemplo, de representações formais para cuidar dos interesses do município em locais de poder político e econômico. Isso fica evidente quando se  verifica que apesar de Campos dos Goytacazes estar entre as 40 cidades de maior orçamento do Brasil. O fato é que Campos dos Goytacazes  não dispõe de um escritório ou uma representação institucional nos principais centros decisórios de poder em São Paulo ou Brasília.

Assim, apesar dos atuais governantes encherem a boca pra enaltecer supostas virtudes do capitalismo e da livre iniciativa privada, mas não tem qualquer tipo iniciativa, sequer como operadores do sistema capitalista. Nem como agente público, nem como representante do setor privado.  Assim, o municipio que é o maior em extensão territorial do Estado depende quase totalmente da produção agrícola vinda de outros estados. Para verificar, isso basta que se vá ao Mercado Municipal para constatar que a quase totalidade dos produtos que chegam à mesa do campista é importado. O mais lamentável é que o município possui mais de uma dezena de assentamentos de reforma agrária, os quais continuam solenemente abandonados e, não raramente, exporta a comida que em um efeito bumerang volta para nossas mesas via as bancas do Mercado Municipal.

O resultado disso é que vivemos em uma cidade que depende da geração de empregos das estruturas produtivas e/ou de comercialização que nem mesmo estão localizadas em seu próprio território. Além disso, quando se verifica os números do Caged, é forçoso verificar que os mesmos são explicados pela existência de uma agricultura rudimentar e sazonal.  Assim, quando entra o período da entressafra, os números de pessoas empregadas caem acentuadamente, e o que acaba salvando o nível de empregabilidade é o setor de serviços, que tem sofrido como nenhum outro setor com a precarização e com a pejotização.

Mas um ingênuo poderá perguntar sobre qual seria a relação entre um esquema de falsificação de cartões de vacina e o resto? Eu diria que tudo. É que o contínuo apego à formas patrominialistas de governo irá continuar gerando tudo isso que está ai, e a pretensa modernidade que se propõe como imagem não passa de um verniz para o atraso em que continuamos atolados.

Agrotóxicos: um “Atlas” global expõe o desastre sobre solos, água, ar e seres humanos

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Um Atlas mundial, publicado no dia 16 de maio, traz uma série de dados sobre esses produtos tóxicos. As mulheres são as vítimas insuspeitas do uso de agrotóxicos em todo o mundo.

A reportagem é de Marie Astier, publicada por Reporterre 

Eles estão por toda parte e são invisíveis: na água, no ar e nos solos. Os efeitos nocivos dos agrotóxicos nos organismos vivos e na nossa saúde são conhecidos, mas o Atlas des Pesticides (Atlas dos Agrotóxicos), divulgado na terça-feira, 16 de maio na França, consegue nos surpreender. Publicado pela fundação alemã Heinrich Böll e pela La Fabrique Écologique, em colaboração com o coletivo de ONGs ambientais Nourrir e a associação Générations Futures, reúne em textos e gráficos uma série de dados sobre os agrotóxicos em nível mundial. É baseado em numerosos estudos científicos. Versões em inglês, alemão e italiano já foram lançadas em outras partes da Europa.

O documento é oportuno para identificar o fenômeno, enquanto um novo estudo acaba de lembrar que os agrotóxicos são os principais responsáveis pelo declínio das aves.

Reporterre mergulhou neste Atlas e destacou cinco fatos.

1 — O consumo mundial de agrotóxicos aumentou 80% desde 1990

A União Europeia gostaria de reduzir o consumo de agrotóxicos pela metade até 2030. Na França, o plano Écophyto tinha o mesmo objetivo. Mas tanto na França como na União Europeia, o consumo está estagnado em vez de cair. Em outras partes do mundo, alguns continentes concentram o aumento do consumo. Na América Latina, o consumo de agrotóxicos mais que dobrou (+119%) entre 1999 e 2020. No mesmo período, a África aumentou seu consumo em 67%.

A França permanece acima da média europeia em termos de uso de agrotóxicos. Atlas des Pesticides

A União Europeia afirma proibir os  agrotóxicos mais perigosos. No entanto, não impede de continuar a fabricá-los em seu solo e exportá-los. O Reino Unido, a Alemanha e a Itália são os três maiores exportadores desses agrotóxicos proibidos na Europa por serem muito perigosos. Eles são vendidos principalmente no Brasil, Ucrânia e África do Sul. Enquanto 195 agrotóxicos considerados “extremamente perigosos” pela ONG Pesticide Action Network são proibidos na União Europeia, apenas 20 são proibidos no Mali, 19 na Nigéria, 18 na Argentina. “É indigno”, sublinha Géraud Guibert, presidente da La Fabrique Écologique.

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2 – Quatro empresas controlam 70% do mercado global de agrotóxicos

A indústria de agrotóxicos está concentrada nas mãos de um punhado de empresas. Syngenta GroupBayerCorteva e BASF controlavam 70% do mercado global de agrotóxicos em 2018 (em comparação com 29% 25 anos antes). As mesmas detêm 57% do mercado de sementes.

O mercado de agrotóxicos cresce 4% ao ano desde 2015 e pode chegar a 130,7 bilhões de dólares (120 bilhões de euros) em 2023. Mas “a lucratividade do setor de agrotóxicos atualmente seria impossível sem o apoio público e a carga coletiva de impactos negativos”, estima o Atlas. Avalia que na França, em 2017, os lucros da indústria de agrotóxicos atingiram os 200 milhões de euros, mas que as despesas que geraram (despoluição das águas, tratamento das doenças que provocam, etc.) custaram 372 milhões de euros. Ou seja, praticamente o dobro.

3 – 80% dos solos europeus contaminados

“Na Europa, as análises mostraram que de 317 solos agrícolas testados, mais de 80% continham resíduos de agrotóxicos”, lembra o Atlas dos Agrotóxicos. O solo está contaminado e a água também. Também na União Europeia, “segundo um estudo da Agência Europeia do Ambiente (EEA), até um terço das estações europeias de monitoramento das águas superficiais apresentaram níveis de agrotóxicos superiores aos limiares nacionais entre 2013 e 2019”, acrescenta o Atlas. No ar, agrotóxicos foram encontrados a mais de 1.000 quilômetros de onde foram aplicados.

Os pesticidas estão em todas as partes. Atlas des Pesticides

4 – As mulheres são mais expostas aos perigos dos agrotóxicos

As mulheres, menos alfabetizadas no mundo, portanto menos capazes de ler rótulos e instruções de aplicação, são mais vulneráveis aos agrotóxicos, destaca o Atlas. Ele dá dois exemplos. No Nepal, 53% dos agricultores leem e entendem os rótulos, em comparação com 25% das agricultoras. Em Gana, 65% dos agricultores conhecem os  agrotóxicos proibidos, em comparação com 5% das agricultoras.

Ao nível da saúde, “o seu corpo é constituído por tecidos mais sensíveis aos hormônios” e, portanto, aos pesticidas desreguladores endócrinos. No entanto, as mulheres são parte da solução. “Nas zonas rurais dos países do Sul, (…) elas assumiram a luta contra os agrotóxicos”, indica o Atlas.

5 – Mudar o sistema agrícola seria mais barato

Conhecemos a solução para acabar com os agrotóxicos, mesmo que não seja simples. “É todo o sistema agrícola e alimentar que precisa ser mudado”, explica Mathilde Boitias, diretora da La Fabrique Écologique e coordenadora do Atlas. A agricultura orgânica é a única que garante a não utilização de agrotóxicos sintéticos. A União Europeia gostaria de triplicar o número de fazendas orgânicas até 2030. Isso custaria “1,85 bilhão de euros por ano, menos do que os custos sociais ligados aos pesticidas”, sublinha o Atlas.

A França é o país da União Europeia com maior área de plantação de orgânicos, à frente da Espanha e da Itália. 20% dos vinhedos, que consomem muitos agrotóxicos, são orgânicos. Mas se quisermos encorajar esta dinâmica “devemos colocar os meios”, insiste Géraud Guibert.

Na Europa, as populações de pássaros e borboletas, por exemplo, diminuíram mais de 30% desde 1990. Atlas des Pesticides

As últimas decisões do governo francês questionam sua capacidade de apoiar essa aspiração da sociedade de abandonar os agrotóxicos. A ajuda destinada pelo governo à agricultura orgânica em crise é insuficiente dependendo do setor. E o sucesso do orgânico provocou uma reação dos defensores da agroindústria. Um projeto de lei debatido no Senado no dia 16 de maio quer, em particular, colocar nas mãos do ministro da Agricultura uma série de poderes sobre a autorização ou retirada de agrotóxicos (atualmente sob a responsabilidade da ANSES, a Segurança Nacional da Saúde). “Seria um retrocesso terrível”, adverte Nadine Lauvergeat, delegada geral da organização Générations Futures.


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A versão em português deste texto foi inicialmente publicada pelo Instituto Humanitas Unisinos [Aqui!].

Justiça Federal cancela audiências e licenças do IPAAM para exploração de gás e petróleo na Bacia do Amazonas (AM)

Um dia após o Ibama impedir a perfuração de bloco marítimo na Foz do Amazonas, decisão judicial cancela autorizações irregulares para exploração de gás e petróleo em Silves e Itapiranga, e confirma insustentabilidade da extração de combustíveis fósseis na Bacia Amazônica

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(19 de maio de 2023) – A 7a Vara da Justiça Federal em Manaus cancelou nesta sexta-feira as duas audiências públicas irregulares que seriam realizada pelo IPAAM (Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas) em Silves e Itapiranga neste final de semana para debater a exploração de gás e petróleo pela empresa Eneva no chamado Campo do Azulão, localizado entre os dois municípios.

Diante do todo o exposto, defiro parcialmente os pedidos de tutela de urgência, para determinar a suspensão das audiências públicas marcadas para este fim de semana, bem como para suspender as licenças ambientais discutidas na inicial e acima descritas”, escreveu em sua decisão a juíza Maria Elisa Andrade, da 7ª Vara Federal Ambiental e Agrária da Seção Judiciária do Amazonas.

A Juíza também suspendeu as licenças ambientais de operação e de instalação que haviam sido emitidas irregularmente pelo IPAAM para a liberação da instalação e operação da Usina de Petróleo e Gás Natural que já se encontra em funcionamento.

Os argumentos apresentados pelos autores apresentam, neste primeiro momento, verossimilhança, na medida em que a descrição das licenças acima sugere que a exploração de gás tem área de influência que ultrapassa os limites do estado do Amazonas. Esta circunstância, por si só, lança dúvidas quanto à competência administrativa do IPAAM para o licenciamento ambiental, porquanto empreendimentos que possam impactar dois ou mais estados da federação devem ser submetidos a licenciamento pela União, nos termos do art. 7°, XIV, alínea “e” da Lei Complementar 140/2011“, registra a decisão.

E complementa: “Um segundo ponto é a afirmação de que a exploração de gás impacta comunidades indígenas cujas terras não foram consideradas no relatório de impacto ambiental, não teriam sido previamente consultadas e tampouco participaram do licenciamento ambiental. Em se confirmar esta tese, estar-se-ia diante de grave violação de direitos humanos fundamentais, imposta às comunidades afetadas”.

A Ação Civil Pública (ACP) foi proposta por organizações da sociedade civil que atuam na região, com apoio da organização global 350.org, Comissão Pastoral da Terra (CPT) e da Alternativa Terra Azul.

A decisão liminar da Juíza Maria Elisa Andrade foi emitida um dia após o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente), o órgão regulador ambiental federal, rejeitar licença para a Petrobras perfurar um bloco marítimo localizado na Foz do Rio Amazonas, no litoral do Amapá e do Rio Grande do Norte, o que reforça a necessidade de suspensão da exploração de combustíveis fósseis em toda a Bacia Amazônica.

“Ao não conceder a licença para a Petrobras avançar na exploração de petróleo e gás na Foz do Amazonas, o Governo Federal e o Ibama enviam um importante recado para todo o setor. É essencial que também olhem com mais atenção o que vem acontecendo nas bacias terrestres do bioma Amazônico, como a Bacia do Amazonas e a Bacia dos Solimões onde nos últimos anos a empresa Eneva vem avançando na exploração do gás e já deixando diversos impactos sócio ambientais a povos indígenas e comunidades tradicionais”, avaliou Ilan Zugman, diretor para a América Latina da organização 350.org, que apoiou o pedido de liminar.

“A proteção do bioma amazônico deve ser integral, precisamos avançar na transição energética justa por todo país e reduzir drasticamente a exploração de petróleo gás de maneira urgente”, concluiu Zugman.

EIA não foi divulgado; povos tradicionais não foram ouvidos

“A audiência pública não atendia aos princípios básicos da consulta livre e informada às comunidades ribeirinhas, povos indígenas e quilombolas, além de não ter sido divulgado o EIA que precede a apresentação do RIMA. Existem potenciais riscos de contaminação das águas superficiais e subterrâneas da Bacia Amazônica, o que causaria grandes problemas de saúde e até morte das populações”, estima a ASPAC, uma das autoras do pedido de ACP.

“A Eneva nunca ouviu os povos tradicionais que moram aqui na região. Ela não tem nenhum respeito ao povo indigena que mora no município de Silves”, avaliou a Associação dos Mura, que também assina o pedido.

“Existem ameaças sociais e ambientais no projeto de Campo do Azulão. Ele prevê que um município com 12 mil habitantes irá receber 5 mil homens, com efeitos na vida das mulheres, na prostituição infantil, na gravidez precoce, nas doenças e tudo mais. E, ainda mais grave, no risco dos danos ambientais. As entidades registram estranheza e perplexidade na atitude do órgão ambiental estadual IPAAM e o empreendedor Eneva que sequer apresentarem antes à sociedade o EIA mesmo após requerido pelas organizações sociais, “rasgando” a Resolução Conama 237 que trata dessa matéria”, avalia a Rede GTA.

Confira aqui a íntegra da decisão judicial

Estudo confirma o efeito negativo do glifosato nas abelhas

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Espécime de Tetragonisca angustula, uma abelha nativa não comercial que é particularmente afetada pelo glifosato. Crédito da imagem: Demeter/Wikimedia Commons, imagem de domínio público.
 
Por: Nicolás Bustamante Hernández para a SciDev

Essas novas descobertas de pistas sobre o declínio nas populações de abelhas –uma situação de grande preocupação para a comunidade científica e países de todo o mundo–, asseguram os investigadores, membros de uma colaboração de diferentes universidades brasileiras, em um artigo publicado naa revista Ecotoxicology .

“Dado que é um problema multifatorial, as investigações demonstraram que a alteração da paisagem e os contaminantes são algumas de suas principais causas”, afirma Vinícius Gonzalez, do Laboratório de Bioquímica e Biofísica do Instituto Multidisciplinar em Saúde da Universidade Federal da Bahia, Vitória da Conquista (Brasil), e um dos autores da investigação.

“As abelhas , tanto as comerciais —como Apis mellifera — como as nativas não comerciais, como a Tetragonisca angustula , são responsáveis pela maior parte da polinização, e assim a diminuição de suas populações tem um impacto significativo na produção agrícola ”, explica .

“Esta situação —agrega Gonzalez— pode reduzir a quantidade de alimentos produzidos por ano por país e aumentar o custo de produção pela necessidade de polinização artificial”.

“As abelhas , tanto as comerciais —como Apis mellifera — como as nativas não comerciais, como a Tetragonisca angustula , são responsáveis pela maior parte da polinização, e assim a diminuição de suas populações tem um impacto significativo na produção agrícola”.

Vinícius Gonzalez, Laboratorio de Bioquímica y Biofísica del Instituto Multidisciplinario en Salud de la Universidad Federal de Bahía, Vitória da Conquista, Brasil

O objetivo da pesquisa era determinar se uma formulação a base de glifosato, quer dizer, uma solução, geralmente comercial, com glifosato e outros aditivos em sua composição, afetava a abelha sem ferrão T. angustula , conhecida no Brasil como abelha Jataí .

Em seu experimento, os científicos utilizaram a preparação da marca comercial Round-Up, produzida pela Bayer (antes da Monsanto). Segundo os autores, eles optaram por esta marca porque testes de toxicidade usando glifosato sozinho têm resultados diferentes dos testes usando glifosato com mais adjuvantes.

Para o experimento, as abelhas ingeriram diferentes concentrações de Round-Up diluído em mel. Então os pesquisadores determinam a mortalidade e a Dose Letal 50 (LD 50, em português) em 24 e 48 horas, e a comparação com a dose abaixo de LD 50 para provar os efeitos sobre a locomoção e o voo, e outros comportamentos das abelhas. A dose Letal 50 referem-se à dose a partir da qual metade de uma amostra morre, geralmente 10 abelhas.

Em entrevista ao SciDev.Net , Gonzalez explicou que a concentração LD 50 que usa é igual à que se encontra no ambiente que roda as granjas depois de um par de dias de dispersão no ar do Round-Up, como o que se faz por meio de aviões.

“É importante usar essas concentrações, pois as abelhas podem consumir resíduos de Round-Up através da ingestão de pólen e néctar. Com estas concentrações semelhantes, podemos inferir que Round-Up pode alterar a capacidade de T. angustula para voar de e para a colméia e pode até se tornar mortal para esses animais”, afirma Gonzalez.

Questionado sobre se esses achados podem ser extrapolares para diferentes espécies de abelhas, Gonzalez respondeu que trabalhos anteriores mostraram efeitos semelhantes em diferentes espécies de abelhas, embora as concentrações letais de Round-Up variem de uma espécie a outra.

Jorge Tello Durán, zootecnista colombiano com mestrado e doutorado em Genética pela Universidade de São Paulo (USP), e que foi professor da Universidad Nacional de Colombia por 38 anos, enfatiza o rigor do estudo em questão, e acrescenta que, embora também utilize uma técnica comum em pesquisas semelhante às abelhas (ou LD 50), neste caso é utilizado um grande número de grupos de animais, de modo que a amostra é significativamente representativa .

“O estudo confirma o que diz a maioria das pesquisas, ou seja, que o glifosato é mortal para as abelhas, porque modifica a microbiota desses insetos, alterando as populações de fungos, bactérias e leveduras que eles têm em seus sistemas digestivos”, disse Durán

E também que o glifosato também danifica os recursos cognitivos das abelhas, como seu sistema de navegação. “Esto se evidencia quando, por exemplo, ao ir a buscar alimento esquecem como voltar às colmeias e não sabem como distribuir”, diz Tello, que, além da formação acadêmica, trabalha como apicultor há 45 anos.

Abejas T. angustula , ou abelha Jataí, trabalhando em seu favo de mel.Crédito da imagem: Gmmv1980/Wikimedia Commons , sob licencia Creative Commons (CC BY-SA 4.0) .

Para Gonzalez, é urgente que a indústria agrícola tome medidas para diminuir os efeitos negativos dos herbicidas em animais de grande valor para os ecossistemas, como as abelhas:

“Necessitamos que as empresas divulguem os adjuvantes usados ​​nas formulações a base de glifosato para determinar quais, isolados ou por meio de interações, estão causando esta mortalidade, e deveríamos usar soluções de glifosato sem adjuvantes, mas isso reduziria su taxa de dispersão”, observa.

“Para finalizar, recomendo usar meios de produção mais agroecológicos e integrar práticas orgânicas enquanto reduz o uso de herbicidas”, pontua.

Link  publicado em Ecotoxicologia


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Este artigo foi produzido pela edição de América Latina e Caribe de  SciDev.Net [Aqui!].

MCTI lança plano para pesquisa brasileira na Antártica até 2032

Na ocasião, será lançado edital no valor de R$ 30 milhões que financiará o próximo ciclo de pesquisas nacionais no continente gelado

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O Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) lança nesta segunda-feira (22), às 15h, em Brasília (DF), o Plano Decenal para a Ciência Antártica do Brasil. O documento estabelece as diretrizes para a pesquisa brasileira no continente antártico para a próxima década. O novo Plano é resultado de um grupo de trabalho que consultou a comunidade científica e instituições de ciência e tecnologia.

Estarão presentes a ministra Luciana Santos; o presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Ricardo Galvão; e o secretário da Comissão Interministerial para os Recursos do Mar, Contra-Almirante Marco Antonio Linhares Soares, além de pesquisadores antárticos.

Na mesma oportunidade será lançada a chamada pública de R$ 30 milhões, que financiará o próximo ciclo de pesquisa, desenvolvimento e inovação na Antártica. O valor é o maior já registrado em 40 anos de pesquisas brasileiras na região polar.

Serviço

Lançamento do Plano Decenal para a Ciência Antártica e do edital para pesquisa

Local: Auditório do MCTI – Esplanada dos Ministérios – Bloco E

Data: 22/05/2023

Horário: 15h

Os “Projetos especiais” da UERJ: um escândalo que parece longe do fim

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O Portal UOL publicou hoje mais uma matéria assinada pelos jornalistas Ruben Berta e Igor Mello sobre a saga dos chamados “projetos especiais” realizados na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). O capítulo de hoje revela que dois projetos da Uerj pagaram pelo menos R$ 2 milhões a pessoas ligadas à cúpula do Partido Liberal (PL) no Rio de Janeiro, incluindo associados do deputado federal Altineu Côrtes e do vereador Carlos Bolsonaro.

Essa reportagem revela que os pagamentos se deram a partir de dois projetos – um em inovação de escolas públicas e outro de educação profissional. O interessante é ver as “expertises” de alguns dos beneficiários do esquema de pagamentos, incluindo um vendedor de espetinhos em São Pedro D´Aldeia e um assessor jurídico de Carlos Bolsonaro, passando ainda pela mãe do senador Carlos Portinho.

O curioso (na falta de melhor palavra) é que essa nova reportagem mostra uma ligação direta entre a Uerj e a família Bolsonaro. Esse tipo de conexão talvez explique algumas situações ocorridas dentro do campus Maracanã que foi alvo de várias “visitas” turbulentes de parlamentares bolsonaristas. Agora, com mais essa reportagem da dupla Berta e Mello, fica-se na dúvida se tudo não passava de teatro para ocultar as relações nada republicanas que envolvem o dispêndio de milhões de reais no pagamento de contratados que agora têm dificuldade de explicar o porquê dos pagamentos.

Mais lamentável ainda é a posição da reitoria da Uerj que se resume a declarar que “”vem apurando rigorosamente todas as denúncias apresentadas de supostas irregularidades”. Essa declaração que carece de qualquer credibilidade, na medida em que não há notícia de tais apurações rigorosas e, tampouco, as irregularidades são supsotas. É ainda mais lamentável saber que, por muito menos, a reitoria da Uerj já abriu as chamadas “comissões especiais de sindicância” para tratar de questões bem mais simples do que aquilo que as reportagens de Ruben Berta e Ifor Mello têm revelado nos últimos meses.

Há que se lembrar que toda essa situação embaraçosa ocorre em um contexto em que a Uerj convive com graves problemas no seu funcionamento cotidiano, a começar pela precariedade das instalações física do campus Maracanã. O pior é que esse tipo de escândalo ainda serve para desmoralizar os justos pleitos pela melhoria do financiamento das universidades públicas.

Finalmente, eu fico imaginando se em um certo momento estas revelações ainda não vão chegar na própria reitoria da Uerj, visto que os tais projetos especiais aconteceram sob o beneplácito da administração central da instituição.

Estudo oferece uma nova reviravolta em como os primeiros humanos evoluíram

Uma nova análise genética de 290 pessoas sugere que os humanos surgiram em vários momentos e lugares na África

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Escavações no sítio arqueológico de Jebel Irhoud, no Marrocos, onde fósseis de 300.000 anos que podem ser a evidência mais antiga do Homo sapiens foram encontrados em 2017.Crédito: Shannon McPherron/UPI, via Alamy

Por Carl Zimmer para o “New York Times”

Cientistas revelaram uma origem surpreendentemente complexa de nossa espécie, rejeitando o antigo argumento de que os humanos modernos surgiram de um lugar na África durante um período no tempo.

Ao analisar os genomas de 290 pessoas vivas, os pesquisadores concluíram que os humanos modernos descendem de pelo menos duas populações que coexistiram na África por um milhão de anos antes de se fundirem em vários eventos independentes em todo o continente. As descobertas foram publicadas na quarta-feira na Nature .

“Não existe um local de nascimento único”, disse Eleanor Scerri, arqueóloga evolutiva do Instituto Max Planck de Geoarqueologia em Jena, Alemanha, que não participou do novo estudo. “Isso realmente coloca um prego no caixão dessa ideia.”

Paleoantropólogos e geneticistas encontraram evidências que apontam para a África como a origem de nossa espécie. Os fósseis mais antigos que podem pertencer aos humanos modernos, datando de 300.000 anos, foram desenterrados lá. Assim como as ferramentas de pedra mais antigas usadas por nossos ancestrais.

O DNA humano também aponta para a África. Os africanos vivos têm uma grande diversidade genética em comparação com outras pessoas. Isso porque os humanos viveram e evoluíram na África por milhares de gerações antes de pequenos grupos – com grupos genéticos comparativamente pequenos – começarem a se expandir para outros continentes.

Dentro da vasta extensão da África, os pesquisadores propuseram vários lugares como o local de nascimento de nossa espécie. Os primeiros fósseis humanóides na Etiópia levaram alguns pesquisadores a olhar para a África Oriental. Mas alguns grupos vivos de pessoas na África do Sul pareciam ser parentes muito distantes de outros africanos, sugerindo que os humanos podem ter uma história profunda lá.

Brenna Henn, geneticista da Universidade da Califórnia, em Davis, e seus colegas desenvolveram um software para executar simulações em larga escala da história humana. Os pesquisadores criaram muitos cenários de diferentes populações existentes na África em diferentes períodos de tempo e depois observaram quais poderiam produzir a diversidade de DNA encontrada nas pessoas vivas hoje.

“Poderíamos perguntar que tipos de modelos são realmente plausíveis para o continente africano”, disse o Dr. Henn.

Os pesquisadores analisaram o DNA de vários grupos africanos, incluindo os Mende, agricultores que vivem em Serra Leoa, na África Ocidental; os Gumuz, um grupo descendente de caçadores-coletores da Etiópia; os Amhara, um grupo de agricultores etíopes; e os Nama, um grupo de caçadores-coletores da África do Sul.

Os pesquisadores compararam o DNA desses africanos com o genoma de uma pessoa da Grã-Bretanha. Eles também analisaram o genoma de um Neandertal de 50.000 anos encontrado na Croácia. Pesquisas anteriores descobriram que os humanos modernos e os neandertais compartilhavam um ancestral comum que viveu 600.000 anos atrás. Os neandertais se expandiram pela Europa e Ásia, cruzaram com humanos modernos vindos da África e foram extintos há cerca de 40.000 anos.

Os pesquisadores concluíram que já há um milhão de anos, os ancestrais de nossa espécie existiam em duas populações distintas. A Dra. Henn e seus colegas os chamam de Stem1 e Stem2.

Cerca de 600.000 anos atrás, um pequeno grupo de humanos brotou de Stem1 e se tornou os Neandertais. Mas Stem1 resistiu na África por centenas de milhares de anos depois disso, assim como Stem2.

Se Stem1 e Stem2 estivessem totalmente separados um do outro, eles teriam acumulado um grande número de mutações distintas em seu DNA. Em vez disso, a Dra. Henn e seus colegas descobriram que eles permaneceram apenas moderadamente diferentes – tão distintos quanto os europeus vivos e os africanos ocidentais são hoje. Os cientistas concluíram que as pessoas se mudaram entre Stem1 e Stem2, formando pares para ter filhos e misturando seu DNA.

O modelo não revela onde as pessoas Stem1 e Stem2 viveram na África. E é possível que bandos desses dois grupos tenham se movimentado bastante ao longo dos vastos períodos de tempo em que existiram no continente. Cerca de 120.000 anos atrás, indica o modelo, a história africana mudou dramaticamente.

Na África Austral, os povos de Stem1 e Stem2 se fundiram, dando origem a uma nova linhagem que daria origem aos Nama e a outros humanos vivos daquela região. Em outras partes da África, ocorreu uma fusão separada dos grupos Stem1 e Stem2. Essa fusão produziu uma linhagem que daria origem a pessoas vivas na África Ocidental e na África Oriental, bem como as pessoas que se expandiram para fora da África.

É possível que as convulsões climáticas tenham forçado as pessoas Stem1 e Stem2 nas mesmas regiões, levando-as a se fundirem em grupos únicos. Alguns bandos de caçadores-coletores podem ter tido que se retirar da costa quando o nível do mar subiu, por exemplo. Algumas regiões da África tornaram-se áridas, potencialmente enviando pessoas em busca de novos lares.

Mesmo após essas fusões há 120.000 anos, as pessoas com ancestralidade exclusivamente Stem1 ou exclusivamente Stem2 parecem ter sobrevivido. O DNA do povo Mende mostrou que seus ancestrais se cruzaram com o povo Stem2 há apenas 25.000 anos. “Isso me sugere que o Stem2 estava em algum lugar próximo à África Ocidental”, disse o Dr. Henn.

Ela e seus colegas agora estão adicionando mais genomas de pessoas em outras partes da África para ver se eles afetam os modelos.

É possível que eles descubram outras populações que sobreviveram na África por centenas de milhares de anos, ajudando a produzir nossa espécie como a conhecemos hoje.

O Dr. Scerri especulou que viver em uma rede de populações misturadas em toda a África pode ter permitido que os humanos modernos sobrevivessem enquanto os neandertais foram extintos. Nesse arranjo, nossos ancestrais poderiam manter mais diversidade genética, o que, por sua vez, poderia tê-los ajudado a suportar mudanças no clima ou até mesmo desenvolver novas adaptações.

“Essa diversidade na raiz de nossa espécie pode ter sido a chave para nosso sucesso”, disse o Dr. Scerri.


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pelo jornal “The New York Times” [Aqui!].