No país construído por Bolsonaro e Guedes, a fome avança que nem boiada estourada

fome

A notícia mais escondida dessas eleições apareceu de forma tímida em uma reportagem do portal G1 nesta 4a. feira: 30% dos brasileiros estão passando fome, sendo que 15% deles no nivel mais grave de insuficiência alimentar.  E isso ocorre enquanto o latifúndio agro-exportador associado às grandes multinacionais produtoras de venenos agrícolas e sementes geneticamente modificadas lavam a burra exportando grãos e carne produzidos em regiões recentemente desmatadas da Amazônia e do Cerrado.

O avanço da fome no Brasil é acima de tudo uma vitória do projeto de desnacionalização das nossas reservas estratégicas e dos nossos bercários de biodiversidade que tem à frente a dupla Jair Bolsonaro e Paulo Guedes.  É esse projeto que causa fome em milhões de brasileiros enquanto a biodiversidade da Amazônia e do Cerrado, bem como os povos originários, são alvo de todo tipo de saqueador que hoje corre livre por causa do desmanche das frágeis estruturas de comando e controle que existiam até o golpe parlamentar orquestrado contra a presidente Dilma Rousseff em 2016.

Pode ser uma imagem de 1 pessoa, criança e texto que diz "Crianças aprendem desde cedo ο que é sentir fome Pesquisa mostra que 7,89 com crianças sofrem com alta do que comer No Luana da Silva alimenta os comida que ganha na rua. PÁGINA 10"

O curioso é que esse projeto de fome foi escancarado pela ação mal enjambrada de um apoiador do presidente Jair Bolsonaro, o “agroempresário” Cássio Cenali, que teve a magnífica ideia (especialmente para a campanha eleitoral do ex-presidente Lula) de produzir um vídeo onde comunicava que iria suspender a entrega de marmitas a uma trabalhadora pobre após descobrir que ela não votaria em Jair Bolsonaro no dia 02 de outubro.

Sem querer, Cenali trouxe à tona o que os efeitos das políticas de fome da dupla Bolsonaro/Guedes e pode ter acelerado uma derrota eleitoral que estava aparecendo no horizonte, mas que agora ganhou tintas fortes.  O espectro da derrota até produziu uma versão chorosa de Jair Bolsonaro cujas lágrimas são tão legítimas quanto uma nota de 2 dólares.

Entretanto, a principal questão que se oferece aos brasileiros não é nem sobre a necessidade de impor uma dura derrota eleitoral a Jair Bolsonaro, pois esta é mais do que óbvia.  O problema é de como colocar o combate à fome que hoje aterroriza milhões de brasileiros no centro da pauta política para o pós-eleição. É que o combate à fome hoje (aliás como sempre sintetizou desde Josué de Castro escreveu o clássico Geografia da Fome) sintetiza todo o desafio de se construir uma nação democrática onde a maioria pobre do seu povo possa ter acesso à condições dignas de existência, e não viver apenas com as migalhas que caem das mesas dos ricos.

O que os agrotóxicos têm a ver com o câncer infantojuvenil no Brasil

cancer infanto juvenil

Crianças e jovens que vivem em regiões com maior produção agrícola são mais propensos a desenvolver câncer, revela estudo. Alerta sobre riscos ligados à exposição já havia sido feito pelo Instituto Nacional do Câncer

Por Schirlei Alves, especial para o Joio e O Trigo e De Olho nos Ruralistas

O câncer infantojuvenil tem aumentado no Brasil e hoje já representa a primeira causa de morte por doença entre crianças, adolescentes e jovens entre 1 e 19 anos, correspondendo a 8% do total de óbitos nessa faixa etária. O dado é do Instituto Nacional do Câncer José Alencar Gomes da Silva (Inca), ligado ao Ministério da Saúde.

Ao menos 12 estudos publicados nos últimos seis anos no Brasil buscam avaliar o efeito da exposição aos agrotóxicos nas células, como mostramos em uma das reportagens da série Brasil Sem Veneno. Os resultados indicaram que os agentes químicos podem provocar dano ao DNA e, por consequência, levar ao desenvolvimento de câncer. Um dos estudos revelou ainda que crianças e jovens que vivem em regiões com maior produção agrícola são mais propensas a desenvolver a doença.

Além do crescimento dos casos de câncer infantil, as malformações congênitas e imunodeficiências também têm aumentado, alerta a médica pediatra e pesquisadora Silvia Brandalise. Ela é fundadora do Centro Infantil Boldrini, em Campinas (SP), referência no combate ao câncer no Brasil.

De acordo com a especialista, tanto a exposição ambiental, como a inalação de agentes químicos, o consumo de alimentos ou água contaminados, a dedetização da casa ou o uso de produtos na pele que contenham derivados de benzeno ou glifosato, por exemplo, são lesivos a toda célula viva. As substâncias, segundo Brandalise, têm capacidade de agredir o DNA do material genético, o que pode alterar a proliferação ou a multiplicação da célula. A leucemia em crianças de até dois anos, por exemplo, pode ocorrer pela exposição materna ou paterna no ambiente de trabalho.

“Outra coisa que se vê é um aumento dos danos neurológicos, inclusive de autismo, que [as pesquisas] associam tanto a metais pesados contaminantes de alimento e água, como a presença de glifosato [um dos ingredientes usados em agrotóxicos], que possa estar neste material. São doenças crônicas que se expressam na criança e que, essas que eu mencionei, aparecem numa linha discretamente ascendente através das décadas, há publicações sobre isso em vários estudos internacionais”.

É importante ressaltar que o aparecimento ou não da doença, no entanto, depende de outros fatores externos e também genéticos, incluindo a capacidade do indivíduo em reparar esses danos. Todas essas variáveis são levadas em conta nos estudos. Pesquisas publicadas em anos anteriores e estudos internacionais já fizeram associação da exposição aos agrotóxicos ao desenvolvimento de câncer por meio de estudos epidemiológicos.

Polos do agronegócio lideram taxas de câncer infanto juvenil

Um dos estudos mais recentes, chamado “Câncer infantojuvenil: nas regiões mais produtoras e que mais usam agrotóxicos, maior é a morbidade e mortalidade no Mato Grosso”, foi publicado no ano passado, no livro Desastres Sócio-Sanitário-Ambientais do Agronegócio e Resistências Agroecológicas no Brasil, por pesquisadores do Núcleo de Estudos Ambientais e Saúde do Trabalhador e do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal do Mato Grosso (Neast/ISC/UFMT).

Como o próprio título revela, o estudo epidemiológico, do tipo ecológico, investiga a distribuição dos casos de câncer infantojuvenil (0 a 19 anos) pelo estado de Mato Grosso e a associação com o uso de agrotóxicos no território. O estudo cruza dados públicos, como internações e mortes por câncer infantojuvenil, do Sistema de Internações Hospitalares do Datasus e do Sistema de Informação sobre Mortalidade, com informações coletadas por macrorregião de economia agropecuária (IMEA) e sobre a área plantada, extraídas da Produção Agrícola Municipal do IBGE/Sidra. Os números são de 2008 a 2017.

Mato Grosso lidera taxas de câncer infantojuvenil. (Foto: Divulgação/NIH)

Ao longo dos oito anos analisados, Mato Grosso registrou mais de 10,9 mil internações por câncer infantojuvenil, sendo que 30% são crianças de 0 a 4 anos. Além disso, 406 pessoas de 0 a 19 anos morreram por câncer, dos quais 30,7%  foram adolescentes e jovens de 15 a 19 anos. As leucemias foram os tipos de câncer mais presentes entre os pacientes internados, correspondendo a 50,2% dos casos. A leucemia linfóide (quando surge um linfócito imaturo e danificado na medula óssea) causou 37,2% das mortes.

O estudo observou correlação positiva entre o uso médio de agrotóxicos em litros e a média de mortes e internações por câncer infantojuvenil. É importante deixar claro que a análise leva em conta os 138 municípios onde há produção agrícola. Cuiabá, Rondonópolis e Várzea Grande, por serem polos industriais, comerciais e conglomerados urbanos, foram excluídos da análise.

De acordo com o especialista em saúde pública e pesquisador que participou da elaboração do estudo, Wanderlei Pignati, os resultados dessa e de outras pesquisas evidenciam o aumento de casos de câncer infantojuvenil no Brasil, principalmente a leucemia – câncer relacionado à produção de glóbulos brancos, de defesa do organismo, que se reproduzem muito rapidamente no nosso corpo. E um dos fatores para o desenvolvimento dessa doença, na avaliação dele, é o agrotóxico.

“Tem agrotóxicos que inibem a produção de hormônio e vários deles [provocam] mutação genética, que altera o DNA. E isso vai [resultar] na produção de células com malformação. Uma parte [das malformações] é rapidamente descartada pelo fígado, mas a outra vai se reproduzir muito, porque tem agrotóxicos que também baixam a imunidade. Então, somam-se vários fatores: mutação, desequilíbrio hormonal, baixa imunidade. Você tem as células cancerígenas se reproduzindo e não tem um sistema de imunidade para ir lá retirar aquela célula com malformação”, explicou Pignati.

Segundo a pesquisa da UFMT, mais de 1 trilhão de litros de agrotóxicos foram aplicados em 117 milhões de hectares de área plantada, entre 2008 e 2017, em Mato Grosso. Um fato curioso apontado na análise é que o número de casos de internação e mortes acompanha a migração das áreas destinadas às culturas agrícolas. Em 2008, quando as extensões de terras plantadas encontravam-se em maior parte nas regiões Oeste, Médio-norte e Sudeste do estado, os casos de internações e mortes também concentravam-se nessas regiões. Já em 2017, o maior uso de agrotóxicos e número de casos ocorreu na região Nordeste do estado, que até então não havia registrado casos de câncer infantojuvenil. O que ocorreu, segundo os pesquisadores, é que houve migração da atividade do agronegócio para essa região, num processo de expansão da fronteira agrícola em direção ao Tocantins.

Desafios da pesquisa científica 

A sanitarista Mariana Soares, autora principal dessa pesquisa, acredita que é possível avaliar a influência do território no processo de adoecimento dos indivíduos por conta das exposições ambientais, ocupacionais e fatores genéticos e hereditários. Ainda assim, ela ressalta, esse tipo de estudo tem limitações, devido à subnotificação dos registros públicos e à impossibilidade de estabelecer uma relação direta de causa e efeito.

“O que a gente tem divulgado no âmbito do Neast/UFMT, são estudos epidemiológicos de cunho ecológico. Nesse caso, a gente encontrou a associação de que nos municípios onde têm maior produção agrícola é onde ocorreu maior aumento de casos de câncer infantojuvenil”, explicou. “O estudo de cunho ecológico, no entanto, não permite uma avaliação individual. Por isso, a gente vem avançando nas nossas pesquisas. Inclusive, a minha tese de doutorado é avaliar a exposição dos pais e a exposição individual da criança ou do adolescente e o adoecimento por câncer”, completou.

Efeitos de exposição a agrotóxicos são tema de pesquisa (Foto: Divulgação)

A médica e pesquisadora Silvia Brandalise explica que a associação do câncer com a exposição aos agrotóxicos só é possível de ser feita por meios estatísticos, como ocorreu com a pesquisa da UFMT, uma vez que não é possível colocar humanos em laboratórios para fazer testes. Além disso, vários outros fatores podem influenciar o desenvolvimento da doença, como os hábitos alimentares e o consumo de cigarro, álcool e outras drogas.

“Não existe um teste que você possa fazer para mostrar essa associação. A associação é epidemiológica, porque o indivíduo não vive sozinho exposto àquele produto, ele está exposto a uma série de outros produtos. Então, a única evidência é através de estudos epidemiológicos, nos quais você pega uma pessoa doente para dois ou quatro controles [não doentes], variados por sexo, idade e ano, na mesma região [e faz a comparação]”, completa Brandalise.

Outro estudo, desenvolvido na Costa Rica e publicado na Revista Científica National Library of Medicine, sugeriu que a exposição precoce a pesticidas dentro de casa, antes e depois da gestação, pode estar associada à leucemia infantil. Os pesquisadores costa-riquenhos também identificaram risco aumentado para as gestantes que moram perto de fazendas.

Um estudo ainda mais ousado, que começou em 2005 e está em andamento, propõe acompanhar os filhos de 1 milhão de gestantes ao longo de 18 anos para examinar as associações entre exposições ambientais e a incidência de câncer infantil. A pesquisa colaborativa, chamada International Childhood Cancer Cohort Consortium (Consórcio Internacional de Coorte de Câncer Infantil, na tradução livre), envolve equipes de pesquisa de 15 países em quatro continentes, inclusive a equipe da médica e pesquisadora Silvia Brandalise, em Campinas.

Sem dar entrevistas, INCA se posiciona contra os agrotóxicos 

A reportagem procurou o Instituto Nacional do Câncer para comentar a associação entre exposição aos agrotóxicos e incidência de câncer, especialmente em crianças, uma vez que o órgão já abordou essa questão em suas publicações, mas não conseguimos nenhuma entrevista. A primeira tentativa ocorreu em março e a segunda, em junho. A justificativa na primeira vez foi falta de tempo. Na segunda, a pessoa responsável nos disse que não poderia dar entrevista em decorrência do período eleitoral. Alguns documentos também foram retirados do ar por conta das eleições. A mensagem deixada no site é a seguinte: “até o encerramento das eleições, diversos materiais do Instituto, como livros, folhetos e cartilhas ficarão indisponíveis”.

De qualquer forma, a assessoria de imprensa compartilhou alguns desses documentos que ainda estão públicos, entre eles o posicionamento do Inca em relação aos agrotóxicos. Na carta de cinco páginas, publicada em 2020, o Inca demarca a sua posição contrária às práticas de uso de agrotóxicos e ressalta os riscos à saúde. O órgão critica o atual modelo de cultivo, com intensa aplicação de agrotóxicos, e a liberação de sementes transgênicas. De acordo com a carta, essa liberação teria sido responsável por colocar o país “no primeiro lugar do ranking de consumo de agrotóxicos”, já que o cultivo das sementes geneticamente modificadas permite o uso de grandes quantidades desses venenos.

A instituição menciona as intoxicações agudas, que geralmente ocorrem pela exposição ocupacional, e causam irritação da pele e dos olhos, coceira, vômitos e diarréias. E também aborda as intoxicações crônicas, que ocorrem pela presença de resíduos de agrotóxicos nos alimentos e no meio ambiente. Mesmo que as doses de agrotóxicos sejam baixas, o Inca afirma que os efeitos podem aparecer muito tempo após a exposição, o que dificulta a correlação com o agente. “Dentre os efeitos associados à exposição crônica a ingredientes ativos de agrotóxicos podem ser citados infertilidade, impotência, abortos, malformações, neurotoxicidade, desregulação hormonal, efeitos sobre o sistema imunológico e câncer”, afirma o documento.

Na carta, o Inca faz ainda um alerta sobre os resultados do Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos (PARA), da Anvisa, que revelaram amostras de alimentos com resíduos de agrotóxicos em quantidades acima do permitido e com presença de substâncias não autorizadas.

Em 2019, o instituto publicou uma nota se posicionando contrária ao Projeto de Lei 6.299/2002, mais conhecido como o “Pacote do Veneno”, que propõe flexibilizar a autorização e o registro de agrotóxicos no país.

Defesa da Agroecologia

O Inca não só criticou o uso de agrotóxicos como defendeu a substituição do modelo de agronegócio pela produção agroecológica, prevista na Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica. Segundo a instituição, a agroecologia otimiza a integração entre capacidade produtiva e conservação da biodiversidade, além de funcionar como uma alternativa aos agrotóxicos.

O engenheiro agrônomo Leonardo Melgarejo explica que o modelo atual de produção em larga escala não é possível sem o uso de veneno. É inviável para o produtor identificar uma praga que surgiu em um cantinho de uma plantação cuja área equivale a milhares de campos de futebol. O veneno, portanto, é aplicado preventivamente sobre toda a lavoura. “Ele aplica o veneno por via das dúvidas, porque ele não pode permitir que a infestação se transforme em um dano econômico relevante”. Só que, ao aplicar o veneno, muitas vezes por pulverização aérea, ele contamina não só os alimentos, mas a água, o solo, os mananciais e até a produção orgânica do vizinho.



Retomada de políticas para produção agroecológica e camponesa é prioridade de movimentos sociais. (Foto: Reprodução)

Para implementar um sistema agroecológico, segundo Melgarejo, seria necessário estabelecer um tamanho máximo da propriedade, condicionado à capacidade de gerenciamento dos trabalhadores, o que, afirma ele, levaria a uma reforma agrária.

“O que nós consumimos de um pé de café, por exemplo, corresponde a 0,2%. Todo o resto é lixo para o agronegócio do café. Na lavoura de arroz, aquelas montanhas de palha viram lixo, é coisa para ser queimada. Para o pequeno produtor, tudo o que a natureza produz é matéria orgânica e insumo para controlar a velocidade de escorrimento da água e o teor de matéria orgânica no solo. Tem que ser reincorporado. E a agroecologia tem diversas maneiras de trabalhar isso”, completa.

A Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica, citada na carta do Inca, foi instituída em 2012, durante o governo de Dilma Rousseff, com o apoio de organizações da sociedade civil, para estimular a oferta de alimentos saudáveis e o uso sustentável dos recursos naturais. A Comissão Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (Cnapo), criada para articular essas políticas, foi extinta no governo de Jair Bolsonaro. No Painel do Orçamento Federal, é possível encontrar ao menos 14 políticas públicas relacionadas à agroecologia, produção orgânica ou agrobiodiversidade. Apenas uma delas ainda persiste. Mesmo quando em vigor, no entanto, as demais políticas encontradas no painel não contavam com orçamentos expressivos.

Procurado, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) afirmou que instituiu por meio de portaria, em 2 de dezembro de 2021, o Grupo de Trabalho do Plano Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (Planapo) e novas instâncias de gestão para voltar a avançar no tema. “Neste momento, os documentos produzidos no GT estão em análise para posterior publicação”, informou via assessoria de imprensa. Sobre as políticas públicas, o Mapa alega que há três programas, sendo que um deles conta com quatro ações orçamentárias distintas, voltados para a Política de Agroecologia e Produção Orgânica (Pnapo). São eles: Defesa Agropecuária, Agropecuária Sustentável e Pesquisa e Inovação Agropecuária.

Imagem em destaque (Denise Matsumoto): projeto Brasil Sem Veneno mapeia impactos dos agrotóxicos em todo o país

| Schirlei Alves é repórter de O Joio e o Trigo. |


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Este texto foi inicialmente publicado pelo “De olho nos ruralistas” [Aqui!  ].

Pesquisadores da UFPR alertam que nova lei de agrotóxicos pode envenenar o mundo

Para pesquisadores do Observatório de Agrotóxicos da UFPR, o Congresso deveria instituir um programa nacional de redução de agrotóxicos em vez de abrir as portas do Brasil para produtos amplamente proibidos no mundo

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Por Afonso Murata, André Cavalcante, Natali Miller, Laís Carneiro, Larissa Faria e Jean Vitule para o “Ciência UFPR”

 Já aprovado na Câmara dos Deputados, tramita agora no Senado um controverso projeto de lei (PLS 526/1999) que flexibiliza a atual legislação de pesticidas. Sob o argumento de que o registro de novos produtos é um processo muito moroso, este PL propõe mudanças na avaliação e autorização de novos pesticidas, excluindo o Ibama e a Anvisa do processo de decisão final. Algo ainda mais preocupante é que as substâncias previamente banidas poderão ser reavaliadas sob estas novas regras. Ou seja, este PL segue a tendência política de enfraquecer a legislação ambiental, priorizando o setor produtivo em detrimento do meio ambiente e da saúde pública do país.

Só em 2022, foi autorizado o uso de 562 novos agrotóxicos no Brasil, muitos deles importados da Europa e da América do Norte. Vários destes pesticidas têm seu uso proibido nos países onde são produzidos, mas as empresas continuam exportando para lugares com legislação mais permissiva, como o Brasil.

O uso indiscriminado de agrotóxicos sem a devida avaliação é, sobretudo, uma questão de saúde pública. Na última década, intoxicações e mortes relacionadas ao envenenamento por agrotóxicos aumentaram em 94% em nosso país.

Em casos de exposição contínua, os agrotóxicos podem acumular nos organismos, causando inflamações crônicas e doenças autoimunes. Esses compostos também podem passar ao longo da cadeia alimentar e serem encontrados até mesmo no leite materno.

Um dos grandes problemas é que os agrotóxicos são altamente persistentes, ou seja, permanecem na água e solo por muito tempo, além de serem carregados pelo ar, o que aumenta o seu potencial de contaminação. Dados do Sistema de Informação de Vigilância da Qualidade da Água para Consumo Humano (Sisagua), órgão vinculado ao Ministério da Saúde, mostram que neste ano foi detectada, em mais de 2,3 mil cidades brasileiras, água “potável” contaminada por agrotóxicos.

São 27 substâncias persistentes ao tratamento convencional da água e quando combinadas atingem 99% do valor máximo tolerado pela legislação brasileira, que é 2.706 vezes o limite dos países europeus, segundo apresentado por pesquisadores e entidades em audiência pública da Fiocruz Brasília em 2019 sobre o tema.

Não podemos esquecer que se a água pós-tratamento está contaminada, aquela presente nos corpos hídricos o está continuamente. E isso compromete a conservação da biodiversidade, o funcionamento de ecossistemas e, consequentemente, a segurança hídrica.

A Associação Brasileira de Limnologia ao apontou isso ao portal de notícias UOL, em maio. A produção de água, de acordo com a bióloga Vivian Cionek, ultrapassa a capacidade da infraestrutura de concreto das estações de tratamento, que, por sua vez, demanda mais que as capacidades de mão de obra técnica e recursos de muitos municípios. Para ela, produzir água potável integra um ciclo biogeoquímico dependente da conservação da bacia hidrográfica com sua vegetação natural e livre de lançamentos de resíduos e efluentes.

O Brasil abriga, respectivamente, 20 % do total de espécies e 13,7 % da água doce disponível do planeta. Recursos nacionais, porém, importantíssimos para o equilíbrio do mundo.

Além disso, o uso indiscriminado dos agrotóxicos pode causar sérios problemas para a biodiversidade, afetando serviços ecossistêmicos essenciais para a vida dos seres humanos. Alguns dos ingredientes ativos dos agrotóxicos são inseticidas fatais para as abelhas. Esses insetos contribuem para a manutenção de populações de plantas nativas que sustentam a existência de diversas espécies e também para a produtividade agrícola.

No Brasil, as abelhas estão associadas a 132 (92%) cultivos diferentes, sendo polinizadores exclusivos de 74 deles.

É estimado que o valor do serviço ecossistêmico de polinização para a produção de alimentos no país gira em torno de R$ 43 bilhões anuais (cálculo realizado para 67 plantas, entre elas soja, café, laranja e maçã que representam 80% desta quantia). Por isso, a redução das populações de abelhas, além de ter um impacto negativo para a biodiversidade, também pode levar a prejuízos econômicos para o setor agrícola.

O Brasil é um dos líderes na exportação de culturas agrícolas, como a soja, que é destinada a diversos países, especialmente para a produção animal. Por isso, a possível aprovação deste PL (que agora aguarda avaliação pelo Senado Federal) deveria ser uma preocupação global, uma vez que o uso de insumos produzidos com agrotóxicos na alimentação animal afeta também a qualidade do produto final. Como já avaliado em um relatório da Organização das Nações Unidas em 2017, nós não precisamos de mais agrotóxicos para alimentar o mundo. Existem soluções que já são bem conhecidas para aumentar a produtividade e que não requerem o uso intensivo de agrotóxicos, como a agroecologia.

Inclusive um projeto de lei alternativo (PL 6670/2016) poderia colocar o Brasil em uma direção melhor, iniciando um programa nacional de redução de pesticidas. Porém, esta proposta tem recebido menos atenção e é improvável que se torne lei sob o governo atual. O fortalecimento das agências ambientais e o investimento em ciência e tecnologia, especialmente baseados em espécies e produtos nacionais, são medidas necessárias para atingirmos o desenvolvimento sustentável no agronegócio.

Autores
AFONSO MURATA é professor titular do Departamento de Fitotecnia e Fitossanitarismo e membro do Observatório de Agrotóxicos da UFPR
ANDRÉ CAVALCANTE é engenheiro ambiental e mestrando em Engenharia Ambiental (PPGEA) da UFPR
NATALI MILLER é bióloga, mestre em aquicultura e desenvolvimento sustentável e doutoranda em Ecologia e Conservação pela UFPR
LAÍS CARNEIRO é engenheira ambiental (UNIFEI) e doutoranda em Ecologia e Conservação pela UFPR
LARISSA FARIA é mestre em Ecologia e Conservação pela UFPR
JEAN VITULE é professor no Departamento de Engenharia Ambiental e coordena o Laboratório de Ecologia e Conservação da UFPR
➕ Artigo baseado no comentário “Brazilian pesticides law could poison the world“, publicado na seção de cartas da revista Science em abril.

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Este texto foi originalmente publicado pela Ciência UFPR [Aqui!].

Estudo aponta que florestas tropicais estão menos úmidas e resistentes, ficando mais vulneráveis

sequia-bosques-996x567A Amazônia apresenta uma redução de umidade mais acentuada do que nas florestas tropicais africanas e asiáticas. Crédito da imagem: Antonio Alberto Nepomuceno/Flickr , sob licença Creative Commons (CC BY-NC 2.0)

Enquanto na floresta latino-americana a redução foi de 93%, especialmente no sul e sudoeste, nas florestas tropicais africanas e asiáticas a redução foi de 84 e 88%, respectivamente.

Além disso, nos três continentes, as florestas tropicais apresentam baixa resiliência à seca, ou seja, pouca capacidade de retornar às condições que apresentavam antes dos períodos de déficit hídrico . Os dados, publicados na revista Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States (PNAS) , apontam o quão limitada é a capacidade desses biomas de resistir a futuras secas.

Com base na observação de imagens de radar de longo prazo (entre 1992 e 2018), com base nos satélites ERS e ASCAT, o estudo relata uma crescente vulnerabilidade dessas florestas à seca.

“Usamos um conjunto de dados que penetra na densa cobertura de nuvens sobre florestas tropicais intactas. Como resultado, vemos uma vulnerabilidade crescente às secas”, disse Shengli Tao, principal autor do estudo, pesquisador do Centro Nacional de Estudos Espaciais de Toulouse, na França, e professor assistente do Instituto de Ecologia da Universidade da França. disse à SciDev.Net Pequim, na China.

“Após o período de estresse causado pela seca, espera-se que a floresta tenha capacidade de retornar à sua condição anterior. O que os autores dizem neste estudo é que isso não aconteceu, antecipando que, com as mudanças climáticas, haverá secas cada vez mais prolongadas.”

Marcos Pedlowski, Programa de Pós-Graduação em Ecologia e Recursos Naturais, Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF), Rio de Janeiro, Brasil

De acordo com o estudo, as variações nos sinais de radar refletem a dinâmica do dossel florestal (a cobertura florestal superior formada pela copa das árvores) e, portanto, estão relacionadas às mudanças na biomassa das árvores, que inclui folhas, galhos, troncos etc.

Ao comparar as mudanças no sinal do radar durante os eventos de seca, os cientistas descobriram que a diminuição da intensidade do sinal do radar durante as secas estava relacionada à diminuição da biomassa. Isso ocorre porque as secas repetidas resultam na redução da produtividade florestal. Ou seja, menos sinal, menos vegetação.

“Em nosso estudo encontramos uma tendência de longo prazo de diminuição do sinal de radar e vimos que essa diminuição reflete em parte uma redução da biomassa nas florestas tropicais e uma mudança na umidade da floresta”, explica o autor.

Segundo o especialista, algumas secas ocorridas após 1992 provocaram reduções de sinais que não se recuperaram até 2018. Isso é alarmante porque as florestas desempenham um papel importante na regulação do clima. Não ser capaz de recuperar seu estado anterior afeta suas funções de retenção de água e armazenamento de carbono.

Segundo o geógrafo Marcos Pedlowski, professor do Programa de Pós-Graduação em Ecologia e Recursos Naturais da Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF), no Rio de Janeiro, Brasil, o artigo traz uma má notícia e um alerta importante.

“Após o período de estresse causado pela seca, espera-se que a floresta tenha capacidade de retornar à sua condição anterior. O que os autores dizem neste estudo é que isso não aconteceu, antecipando que, com as mudanças climáticas , haverá secas cada vez mais prolongadas”, diz o pesquisador, que não esteve envolvido no estudo.

Em entrevista por telefone ao SciDev.Net , Pedlowski também afirmou que a pesquisa é oportuna para desconstruir o equívoco de que as florestas podem ser abusadas, porque elas acabarão voltando ao seu ponto original.

“Sempre houve a noção de que as florestas terão essa capacidade ‘mágica’ de autocorreção, e este estudo mostra que não é bem assim. Já temos evidências de que o lado brasileiro da bacia amazônica não é mais um sumidouro de carbono, ou seja, a Amazônia brasileira está confirmando as afirmações feitas nesta pesquisa”, disse ele, referindo-se a um estudo recente publicado na revista Nature , segundo ao qual a Amazônia, em nove anos, liberou mais CO 2 na atmosfera do que absorveu .

Shengli concorda. “Se essa vulnerabilidade continuar, ou até piorar, pode significar que as florestas tropicais não funcionarão mais como sumidouros de carbono atmosférico. Consequentemente, para alcançar o Acordo de Paris, precisaremos considerar mais estratégias de mitigação dos setores de energia e industrial”.

Segundo os pesquisadores entrevistados, a mitigação climática não pode ser pensada apenas com foco nas florestas. Além da preservação desses biomas, outras estratégias são necessárias, pois os cenários climáticos modelados para o século XXI indicam um aumento na frequência de secas e na temperatura do ar nos trópicos.


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Este artigo foi produzido pela edição da América Latina do SciDev.Net e foi publicado em espanhol [Aqui!].

Nova matéria da UOL revela que UERJ alterou procedimento rotineiro para pagar contratados fantasmas

Após um período de relativa calmaria, uma nova matéria da lavra dos jornalistas Ruben Berta e Igor Mello que foi publicada hoje pelo site UOL revela que a reitoria da Universidade do Estado do Rio de Janeiro utilizou de procedimentos no mínimo estranhos para permitir o pagamento de salários vultosos a contratados em alguns dos ditos “programas especiais” que foram financiados pelo governo de Cláudio Castro com verbas obtidas pela privatização da CEDAE.

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Um procedimento apontado na reportagem foi o de isentar contratados em um tal “núcleo estruturante” dos denominados projetos especiais de terem de passar sequer por um processo seletivo simplificado. Com isso, a matéria mostrou que vários contratados eram ou estavam ligados a políticos diretamente relacionados ao governador acidental Cláudio Castro, incluindo um condenado por porte ilegal de armas.

Esses aliados políticos, ainda segundo a matéria, teriam recebido apenas entre julho e dezembro de 2021 a “bagatela” de R$ 8,3 milhões os quais teriam pagos em folhas secretas que já sabemos eram regularmente pagas na “boca do caixa”, uma forte indicação de que os beneficiários dos pagamentos eram “fantasmas”.

Em uma curiosidade a mais, um dos programas especiais que mais abrigou este tipo de contratado “Gasparzinho” foi o chamado “Observatório Social do Segurança Presente”, o que não deixa de ser curioso, na medida em que o tal observatório deveria se ocupar do correto cumprimento de um programa de policiamento urbano.

Uma das coisas que mais me impressionam nessa situação toda é que fora dos chamados programas especiais, a Uerj tem enfrentado muitas dificuldades financeiras para levar a cabo suas atividades fim, que incluem projetos de ensino, pesquisa e extensão.  Ao que parece, o dinheiro só aparece mesmo quando os beneficiários são ligados a algum político aliado de Cláudio Castro.

Finalmente, a reitoria da Uerj claramente deve explicações críveis à sociedade fluminense e à sua propriedade comunidade universitária. O fato é que a reportagem de hoje aumentará a pressão por explicações. Resta saber se a reitoria terá algum crível para apresentar.

Depois de vídeo promocional sair pela culatra, “empresário” bolsonarista que negou marmita se “arrepende”

Veja quem é o bolsonarista que humilhou eleitora de Lula em vídeo

Cassio Cenali, o “empresário” bolsonarista que decidiu entregar de marmitas a mulher pobre após saber que ela irá votar no ex-presidente Lula

Uma das situações mais bizarras (entre tantas) da atual campanha eleitoral envolve o apoiador do presidente Jair Bolsonarista, o “empresário” Cassio Cenali que gravou e difundiu um vídeo em que comunicava a uma habitante da periferia pobre da cidade de Itapeva (SP) que pararia de doar refeições a ela em função da mesma ter se declarado eleitora do ex-presidente Lula.

Se ameaçar alguém que precisa de apoio para ter comida dentro de casa já seria bizarro,  Cassio Cenali se deu ao trabalho de produzir um vídeo ainda mais bizarro que tratou de difundir em suas redes sociais. Como tanta bizarrice não teria como passar em branco em um tempo de redes fortemente monitoradas, o malfeito de Cenali ganhou notoriedade oposta à que ele desejava (aliás, o que desejava Cenali ao humilhar uma mulher pobre em condição de vulnerabilidade alimentar?).

Com o caso ganhando um vulto maior do que o esperado, Cenali tardiamente gravou outro vídeo, só que agora de suposto arrependimento em relação ao que fez com a mulher pobre de Itapevi. Com isso, Cenali agora ganhou ainda mais notoriedade, negativa é claro, já que poucos acreditam em sua sinceridade.

Agora, o que me deixa curioso é sobre o que se passava na cabeça de Cassio Cenali quando ele decidiu que negar comida a quem declarou voto em Lula lhe traria algum benefício e, pior, algum tipo de vantagem eleitoral a Jair Bolsonaro?

É essa falta de racionalidade que mais me impressiona nos apoiadores mais aguerridos de Jair Bolsonaro que costumeiramente têm esse tipo de posição, e quando flagrados tentam operar um cavalo de pau para não ficar tão mal na fotografia.

Mas  é exatamente esse tipo de pessoa que se declara “gente de bem” que luta contra o mal, apenas para se revelarem essencialmente maus e desprovidos de niveis mínimos de empatia humana, e que não raramente se encontram enrolados com algum tipo de situação problemática.  Porém, como se surpreender com pessoas que se dispõe a apoiar a um político cuja coisa mais lembrada em seus 30 anos de congresso foi declarar apoio a um torturador do quilate do coronel Brilhante Ustra?

Fico ainda pensando nos líderes evangélicos que estão alinhados até o último de cabelo a Jair Bolsonaro e no que eles diriam a Cassio Cenali. O problema é que não tenho certeza que a maioria das declarações seria de apoio e reforço.

Homem nega marmita a eleitora de Lula e vídeo gera críticas | Itapetininga  e Região | G1

Por outro lado, a boa notícia é que ao ficar pública a humilhação imposta por Cassio Cenali, diversas organizações sociais (incluindo o MST) já se dispuseram a apoiar a habitante pobre de Itapeva. Há ainda a possibilidade de que ela tenha um encontro com seu candidato a presidente nos próximos dias. Se isso realmente acontecer, mesmo sem querer, Cenali terá prestado contribuição para a derrota de Jair Bolsonaro. 

 

IPAM lança novo Sistema de Alerta de Desmatamento do Cerrado

Utilizando algoritmos de inteligência artificial, SAD Cerrado está disponível para acesso aberto em plataforma virtual a partir desta segunda

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Com algoritmos avançados para detecção de desmatamento, o Sistema de Alerta de Desmatamento do Cerrado (SAD Cerrado) será lançado em plataforma virtual aberta nesta segunda-feira, 12, pelo IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia), em parceria com a rede MapBiomas e com o Lapig (Laboratório de Processamento de Imagens e Geoprocessamento), da UFG (Universidade Federal de Goiás). O IPAM é responsável pelo desenvolvimento da tecnologia que funciona por meio de inteligência artificial e utiliza imagens do satélite Sentinel-2, da Agência Espacial Europeia, com resolução de 10 metros.

“Devido à heterogeneidade das paisagens e à sazonalidade da vegetação, monitorar o desmatamento no Cerrado sempre foi muito desafiador. Áreas de vegetação nativa exuberantes na época de chuva podem perder todo o seu vigor na seca, se assemelhando a áreas desmatadas. Além disso, áreas afetadas pelas frequentes queimadas no bioma podem ser confundidas com desmatamento. Nesse contexto, o uso de inteligência artificial e imagens de satélite de alta resolução permite detectar áreas desmatadas com maior detalhamento e acurácia”, explica Juan Doblas, pesquisador no IPAM responsável pelo SAD Cerrado.

O SAD Cerrado detectou mais de 50 mil alertas de desmatamento em 2022, totalizando 472,8 mil hectares desmatados até o dia 31 de julho. Somente no último trimestre, houve um aumento de 15% na área desmatada no bioma em relação ao mesmo período do ano passado: foram 291,2 mil hectares derrubados, entre maio e julho de 2022, contra 253,4 mil hectares desmatados nos mesmos meses de 2021.

Mais de 70% da área desmatada corresponde a alertas maiores que 10 hectares. A área média dos alertas detectados pelo SAD Cerrado é de 9,43 hectares, com maior frequência de detecção nos meses de maio a julho, período do início da estação seca no Cerrado.

O sistema revelou uma maior concentração de áreas desmatadas no Maranhão, que, com 124,7 mil hectares desmatados, acumula 26,4% de todo o desmatamento detectado no bioma em 2022. O Tocantins apresentou a segunda maior área de alertas, 108,7 mil hectares, a maior parte na região norte do estado, em áreas de expansão do cultivo de soja.

Entre os municípios que mais desmataram, Balsas, no Maranhão, foi o que mais desmatou, com mais de 12 mil hectares. Em segundo lugar está o município de São Desidério, na Bahia, com 9,5 mil hectares desmatados. A cidade baiana concentra a terceira maior produção de soja no país, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

A velocidade média do desmatamento foi de mais de 2 mil hectares por dia e a maior parte da área de supressão está em vegetações do tipo savana, com 69,2% da área desmatada. As áreas privadas representaram 78,9% do desmatamento no bioma.

“Recentemente o ritmo do desmatamento no Cerrado tem acelerado, principalmente em áreas privadas e nos remanescentes de vegetação nativa no Matopiba (região de Cerrado que engloba Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), que acumulou 65% da área desmatada no bioma no primeiro semestre deste ano. Estamos perdendo a savana mais biodiversa do mundo para a agropecuária, com importância vital para a estabilidade climática e hidrológica regional, precisamos agir rapidamente para protegê-la”, acrescenta Julia Shimbo, pesquisadora no IPAM e coordenadora científica do MapBiomas.

A plataforma virtual completa do SAD Cerrado pode ser acessada neste link disponível a partir de segunda-feira, 12, às 10h30 (horário de Brasília).

O objetivo é que o sistema forneça alertas de desmatamentos maiores de 1 hectare, atualizados mês a mês, considerando todos os tipos de vegetação nativa do Cerrado. Pesquisadores entendem que o SAD Cerrado pode se constituir como uma ferramenta complementar a outros sistemas de alerta de desmatamento no bioma, como o DETER Cerrado, do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), otimizando o processo de detecção em contextos visualmente complexos.

O SAD Cerrado estará disponível em um painel de acesso virtual gratuito e intuitivo a partir desta segunda-feira, 12, data que ecoa o Dia Nacional do Cerrado, celebrado em 11 de setembro.

Serviço

Acesse a plataforma do SAD Cerrado. Disponível a partir de segunda-feira, 12, às 10h30 (horário de Brasília).

Assista ao webinário de lançamento. Segunda-feira, 12, às 10h30 (horário de Brasília). O IPAM terá porta-vozes disponíveis para entrevistas depois do evento.

Alemanha vai proibir exportação de agrotóxicos banidos na União Europeia. Medida irá atingir duramente agronegócio brasileiro

Em 2021, empresas alemãs produziram e exportaram 8.525 toneladas de agrotóxicos proibidos na União Europeia.  A proibição deve atingir o Brasil, um dos principais compradores de substâncias banidas no bloco.

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O ministro alemão da Agricultura, Cem Özdemir, confirmou neste domingo (11/09) os planos do governo da Alemanha para proibir no país a exportação de agrotóxicos nocivos à saúde que foram banidos na União Europeia (UE). A proibição deve entrar em vigor já no próximo ano e deve atingir produtos importados pelo Brasil.

Não é aceitável que continuemos a produzir e exportar pesticidas que proibimos no nosso próprio país para proteger a saúde da população“, afirmou o político do Partido Verde numa entrevista ao grupo de mídia alemão Funke.

Özdemir ressaltou que o direito à saúde é universal e se aplica também a agricultores de outros países. Segundo a reportagem, a proposta para a mudança na legislação alemã com a proibição de exportação de alguns agrotóxicos deve ser apresentada até o final deste ano.

A proibição de exportação de agrotóxicos que foram banidos na UE está prevista no acordo de coalizão do governo da Alemanha, formado por verdes, social-democratas e liberais. Özdemir também afirmou que o país vai apoiar a França para estender essa proibição em toda a União Europeia.

O ministro ressaltou ainda que essa mudança também terá um efeito secundário positivo para os agricultores alemães ao criar um pouco mais de equidade na concorrência com o fim do uso no exterior de produtos banidos no país.

Segundo o Ministério da Agricultura da Alemanha, mais de 53 mil toneladas de ingredientes ativos de agrotóxicos foram exportadas pelo país no ano passado. Destas, 8.525 toneladas eram de substâncias proibidas na União Europeia.

Proibição deve atingir o  Brasil

Muitos dos agrotóxicos proibidos na União Europeia continuam sendo produzidos por empresas sediadas nos países do bloco para a exportação, como as alemãs BASF e Bayer. As empresas defendem a venda destes produtos alegando que as substâncias são liberadas por autoridades de saúde nos países compradores.

A proibição na Alemanha deve atingir o Brasil. Um levantamento de 2019 realizado pela ONG suíça Public Eye revelou que o país era o segundo maior comprador de agrotóxicos fabricado em solo europeu, mas banidos no bloco. Em 2020, o Greenpeace mostrou que a BASF e Bayer detinham a produção de 12% dos pesticidas aprovados no Brasil. As empresas alemãs produzem, por exemplo, os inseticidas Imidacloprid e Chlorfenapyr, que são proibidos na Europa.

cn (dpa, AFP, ots)


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Este texto foi inicialmente publicado pela Deutsche Welle Brasil [Aqui!].

Portos e estruturas eólica e solar em alto mar ameaçam a existência da pesca artesanal no Norte Fluminense

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Uma matéria escrita pela jornalista Mariana Londres para o site UOL sobre a pressa do governo Bolsonaro em aprovar um marco regulatório para a produção de energia eólica e solar em áreas marinhas passou despercebida, mas ela representa novas más notícias para os pescadores artesanais de águas oceânicas, especialmente no Norte Fluminense.

Vejamos, por exemplo, a situação criada pela implantação do Porto do Açu que causou fortes abalos na sobrevivência dos pescadores artesanais que atuavam nas áreas hoje tornadas de exclusão no município de São João da Barra.  Mas o problema poderá ser agravado se forem confirmadas as construções do Porto Central em Presidente Kennedy (ES) e do Porto Norte Fluminense em São Francisco de Itabapoana (ver imagem abaixo).

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Mas a situação poderá ser bastante piorada se for confirmada a instalação em áreas marinhas de unidades de produção de energia elétrica com base eólica e solar (ver imagem abaixo). A má notícia é agravada pelo fato de que para porto construído ou em planejamento parece haver a previsão de uma dessas mega unidades de produção de energia elétrica dentro do mar.

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A questão é que para nova estrutura construída na costa ou dentro das águas marinhas há um aumento de áreas de exclusão para a pesca e outras atividades econômicas realizadas por comunidades tradicionais que dependem do acesso a direto a recursos que se tornam escassos ou inexistentes.

São Francisco de Itabapoana, onde a pressão será forte, não parece ainda entender o problema

Se olharmos as figuras acima veremos que o município de São Francisco de Itabapoana está em uma posição particularmente frágil, na medida em que sua área costeira se tornará virtualmente cercada por portos e fazendas de energia caso todos os projetos previstos sejam de fato construídos.

O problema irá além das áreas de exclusão para a pesca artesanal, devendo incluir aí um aumento do processo erosivo que já incomoda parte da área litorânea do município, apenas para começo de conversa. O curioso é que a própria prefeitura de São Francisco de Itabapoana ainda não acordou para o problema, na medida que também há ali apoio entusiasmado para a construção do chamado Porto Norte Fluminense que representa uma ameaça para a pesca artesanal e para a comunidade quilombola da Barrinha.

 

O custo político e humanitário da adesão da Suécia à Otan: o sacrifício dos refugiados curdos

Para poder aderir à OTAN, a Suécia fez concessões de longo alcance à Turquia. Parece que os curdos no país estão agora sentindo isso com toda a severidade

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Parte da população sueca será sacrificada? O secretário-geral da OTAN Jens Stoltenberg com a primeira-ministra Magdalena Andersson em Harpsund. Foto: Henrik Montgomery, Imago

Por Florian Siber para o Woz

A Suécia e a Finlândia querem se juntar à Otan, e nenhum país se esquivará de fazer grandes concessões ao presidente turco Recep Tayyip Erdogan. A adesão deve ser aprovada por unanimidade pelos membros da aliança – e a Turquia, como membro, está cobrando caro pelo seu sim.

A lista de concessões que Ancara conseguiu negociar na cúpula da Otan em Madri no final de junho é longa. Mas todos eles têm uma coisa em comum: eles servem na guerra de Erdogan contra o movimento independentista curdo. Restrições à venda de armas para a Turquia impostas após a invasão de Rojava em 2019 foram retiradas; Finlândia e Suécia se comprometeram a não impor futuros embargos de armas à Turquia. Além disso, os EUA estão vendendo à Turquia quarenta novos caças F16 e atualizando caças que a Turquia comprou dos EUA. O jato foi usado contra Rojava, a Administração Autônoma do Norte e Leste da Síria.

Processos realmente rotineiros?

Com um dos acordos, Suécia e Finlândia estão até sacrificando parte de sua própria população para a política de poder de Erdogan: a delegação turca deixou claro na cúpula da OTAN que seu sim para a Finlândia e especialmente a Suécia ingressarem na OTAN dependeria se os refugiados políticos curdos fossem extraditados para a Turquia . Este acordo afeta principalmente os curdos na Suécia, onde sua comunidade é particularmente grande.

Após as negociações em Madri, Erdogan disse em entrevista coletiva que a Suécia concordou em extraditar 73 pessoas. Não houve negação de Estocolmo – apenas um comentário de que a lei seria seguida.

O medo agora é desenfreado na diáspora curda da Suécia.

Agora, as primeiras consequências do acordo parecem estar aparecendo. Em meados de agosto, o governo sueco anunciou que iria extraditar um turco curdo condenado por fraude de cartão de crédito – um “assunto de rotina”, como disse o ministro da Justiça, Morgan Johansson. A extradição de um criminoso comum? Segundo pesquisa da emissora pública SVT, o homem foi condenado injustamente. Além disso, ele já havia sido reconhecido como refugiado na Itália por causa de sua conversão ao cristianismo e sua recusa em prestar serviço militar.

Uma semana após o anúncio do governo, o refugiado curdo Zinar Bozkurt foi preso na Suécia. Ao solicitar asilo há oito anos, Bozkurt ofereceu a sua homossexualidade, sua identidade curda e seu apoio ao partido de esquerda HDP como razões para fugir. Depois que a polícia de segurança sueca Säpo o acusou de ter contatos com o PKK, o pedido foi rejeitado pelas autoridades de imigração – mas não houve extradição por enquanto. “Por que a polícia decidiu que Zinar representava um risco de segurança para a Suécia e por que o caso acabou com o Säpo não está claro para nós”, disse seu advogado Miran Kakaee à WOZ.  A Säpo não quer dizer nada quando perguntado.

Então, os dois casos são processos realmente rotineiros, como alega o Ministério da Justiça sueco? O atual acúmulo de entregas possíveis fala uma linguagem diferente, diz Kakaee. Nos últimos trinta anos, a Suécia extraditou apenas cinco pessoas para a Turqui. Além disso, a extradição de pessoas com perfil político é incomum. Dos 33 pedidos de extradição de Ancara até agora, 19 foram respondidos negativamente, 5 não foram respondidos e uma decisão ainda está pendente em 9 casos. “Muitos dos afetados são ameaçados de tortura na Turquia”, diz Kakaee, justificando a relutância anterior da Suécia. 28 dos 33 pedidos são pelo menos suspeitos de serem membros do PKK, de outros grupos de esquerda ou do movimento Gülen.

Um precedente?

No entanto, o medo agora é desenfreado na diáspora curda da Suécia. Kakaee diz que muitos de seus clientes estão perguntando a ele o que os acordos da OTAN significam para eles. Ridvan Altun, do Centro Curdo para uma Sociedade Democrática, também confirma que há medo entre os curdos na Suécia: “Nós, curdos, fugimos para a Europa da opressão de Erdogan. E agora, sob pressão turca, também estamos sendo perseguidos aqui.”

Zinar Bozkurt está em greve de fome desde sua prisão. “O caso de Zinar ficou preso nas negociações de adesão à Otan”, diz seu advogado, Kakaee. Mesmo que sua prisão não tenha sido consequência das negociações da OTAN: “O desfecho da questão também terá consequências políticas” – a extradição pode se tornar um precedente. Enquanto isso, o governo de Erdogan continua a ameaçar derrubar os pedidos de adesão do norte da Europa se suas demandas não forem atendidas.


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Este texto escrito originalmente em alemão foi publicado pelo “Woz” [Aqui!].