Peixes transgênicos vermelhos e verdes brilhantes escaparam de tanques de reprodução em rios brasileiros

Os peixes-zebra não são os únicos peixes ornamentais invasores que brincam nos rios de forma ilegal e indesejada. Se eles se estabelecerem, eles podem perturbar severamente o ecossistema.

Por Stephanie Lahrtz para o Neue Zürcher Zeitung

zebra 1Peixe-zebra transgênico com um gene embutido de criaturas do fundo do mar brilham no aquário

“Starfire Red Danio” e “Electric Green Danio” são apenas uns bons peixes-zebra de dois centímetros, mas você dificilmente pode perdê-los no aquário crepuscular. Eles brilham em vermelho brilhante ou verde brilhante. Quanto mais escuro o ambiente, mais intenso. Porque eles carregam genes de anêmonas do mar, águas-vivas ou corais que foram construídos em laboratório. Esses peixes GM são muito populares – e legais – residentes de aquários em alguns lugares. Mas no sudeste do Brasil, eles escaparam de fazendas de criação em vários lugares e agora estão brincando em vários rios ilegalmente. É o que relatam pesquisadores na revista Studies on Neotropical Fauna and Environment .

De fato, o comércio de peixe-zebra transgênico foi proibido no Brasil desde 2017. Em outros países, incluindo Suíça, Austrália e toda a UE, o comércio e a manutenção de pequenas criaturas coloridas é proibido há muito tempo. Existe o risco de que o peixe possa escapar para a natureza, com efeitos desconhecidos no ecossistema afetado, disse o comunicado.

Projetado para detectar corpos d’água contaminados

Aparentemente, essa preocupação não é compartilhada nos EUA ou em Taiwan, onde os peixinhos coloridos estão disponíveis há quase duas décadas. E tão popular que a empresa texana Glofish, que detém os direitos de patente mundial do peixe neon, agora não apenas oferece peixes-zebra transgênicos em várias cores brilhantes, mas também equipou outros peixes ornamentais, como farpas de Sumatra e tetras longfin com os genes de brilho.

Os peixes GM foram inventados por pesquisadores da Universidade de Cingapura em meados da década de 1990. Foi usado para verificar a qualidade da água. O primeiro peixe-zebra transgênico brilhou em verde quando certos produtos químicos estavam presentes na água. No entanto, este aplicativo não pegou.

Comércio apesar da proibição

No Brasil, os peixes brilhantes são tão populares que, apesar da proibição, milhares deles são mantidos em grandes aquiculturas todos os anos. Houve os primeiros relatos de espécimes individuais escapados já em 2015. Mas para o estudo que agora foi publicado, dados confiáveis ​​foram coletados pela primeira vez.

Para isso, os pesquisadores analisaram de perto uma grande área com 350 pisciculturas e 4.500 tanques de reprodução na Mata Atlântica, no sudeste de Minas Gerais. Os peixes foram coletados em intervalos regulares em rios nas imediações dos tanques de criação, usando redes de malha fina.

Tanto o peixe-zebra GM vermelho brilhante quanto o verde venenoso se contorciam nele de tempos em tempos, mas apenas alguns espécimes cada. Seu conteúdo estomacal mostrou que eles se alimentaram principalmente de insetos aquáticos em vários estágios da vida, mas também de algas e zooplâncton. Aparentemente, os peixes-zebra que escaparam também eram capazes de se reproduzir. Isso foi revelado por exames de seus órgãos sexuais.

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Glowfishes vendidos nos EUA chamados Sunburst Orange, Galactic Purple, Electric Green e Starfire Red (de cima para baixo) Paulo de Oliveira/Imago

No entanto, ainda não está claro se os peixes geneticamente modificados realmente se multiplicam nos rios de forma permanente e se uma população independente se estabeleceu fora dos tanques de reprodução. Uma vez que estes são pescados várias vezes por ano e depois esvaziados no fundo para limpeza, também é provável uma “liberação” não intencional regular. Como os tanques não tinham peneiras nos drenos nem tanques de retenção com peixes predadores para eliminar peixes criados em cativeiro, escrevem os pesquisadores. Isso teria mostrado visitas no local, bem como relatórios dos agricultores.

Aquicultura segura necessária

Essas medidas de segurança devem agora ser instaladas em todos os lugares imediatamente, exigem os cientistas – não apenas por causa de alguns peixes-zebra coloridos que escaparam. Porque nos rios brasileiros nas proximidades das pisciculturas já se encontram mais de 70 espécies de peixes não nativos, em uma das regiões mais ricas em espécies do planeta e, portanto, uma das mais dignas de proteção.

Os efeitos das espécies invasoras de peixes nos respectivos ecossistemas são imprevisíveis. Pode haver competição por comida e áreas de desova, bem como ataques mútuos. Isso agora também está sendo investigado para peixes geneticamente modificados. Numerosos exemplos de muitos países mostram como as espécies invasoras superam as nativas.

Atualmente, é improvável que os genes de luz embutidos do peixe-zebra nos rios do Brasil se espalhem amplamente para outros peixes. Para isso, os peixes geneticamente modificados teriam que encontrar parceiros sexuais adequados para eles, ou seja, outros peixes-zebra. Mas estes não são nativos do Brasil. Os ancestrais dos habitantes do aquário vêm dos rios do Himalaia. No entanto, peixes-zebra escapados e não transgênicos também foram encontrados em rios brasileiros.

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Este texto foi originalmente escrito em alemão e publicado pelo jornal “Neue Zürcher Zeitung” [Aqui!].

O padrão de dupla moral das corporações dos agrotóxicos: produtos proibidos nos países sede são vendidos no Sul Global

Christian_Russau_Rede_Bayer_2019_1200x600Christian Russau, porta-voz da Articulação dos Acionistas Críticos da Alemanha se pronuncia na assembleia anual dos acionistas da Bayer para cobrar coerência entre os discursos e as práticas na produção e venda de agrotóxicos fabricados pela empresa

Ainda que seja inevitável apontar para a responsabilidade do governo Bolsonaro e de sua base aliada na aprovação do Pacote do Veneno, há uma força insidiosa que permanece fora dos holofotes e que tem responsabilidade direta na tentativa de por abaixo um sistema de monitoramento  que, apesar de todas as suas falhas, ainda servia como um elemento que contenção para a entrada de agrotóxicos tão perigosos que foram banidos (alguns há mais de duas décadas) nos países em que as empresas fabricantes têm suas sedes.

Falo aqui do poderoso lobby exercido no congresso nacional e nas estruturas de governo por multinacionais como Bayer/Monsanto, Basf, DowDupont e a ChemChina/Syngenta. É por meio desse lobby que parlamentares ligados ao latifúndio agro-exportador como o deputado Luiz Nishimori (PL/PR) são eleitos para irem participar sem intermediários dos esforços em prol das corporações multinacionais que depois lucram fortunas com a venda de agrotóxicos que estão banidos na Europa, Estados Unidos e China.

Esse padrão de exportar para o Sul Global aquilo que foi proibido nos países-sede já foi documentado pela organização não-governamental suíça Public Eye que publicou em 2019 um relatório sobre os lucros fabulosos auferidos no Brasil pela ChemChina/Syngenta com a venda de produtos altamente perigosos para a saúde humana e para o meio ambiente (ver exemplos de alguns desses agrotóxicos na imagem abaixo).

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A dupla moral da Bayer e da Basf: primeiro envenena, depois vende a cura

Mas não é só a ChemChina/Syngenta que tem a prática de empurrar para o Sul Global agrotóxicos que são sabidamente causadores de doenças graves. As multinacionais alemãs Bayer/Monsanto e Basf também seguem enviando para o Sul Global um conjunto de agrotóxicos que estão banidos na Alemanha. Mas quando pressionados a dar alguma explicação, o que se ouve é que a venda dos produtos dessas empresas está em acordo com as legislações nacionais, omitindo o fato de que atuam para, juntos com os seus extensos laços de lobby, enfraqueceram as legislações nacionais para seguirem vendendo produtos que foram banidos na Alemanha e, na maioria dos casos, em toda a União Europeia.

Um interlocutor deste blog notou ainda que há algo muito cînico com a forma pela qual empresas como a Bayer/Monsanto e a BASF agem, pois, por um lado, vendem venenos agrícolas proibidos por serem causadores de todo tipo de doenças e, por outro, vendem medicamentos que supostamente irão curar os adoecidos por seus agrotóxicos.

Apesar de concordar com a indignação do interlocutor, noto que há ainda algo mais contraditório no comportamento dessas gigantes do setor químico que é o fato de em suas assembleias de acionistas ser repetido à exaustão a cantilena de que estão tomando rumos comprometidos com os desígnios do desenvolvimento sustentável, reforçando que há compromisso com a adoção de modelos agrícolas que produzam alimentos saudáveis.  

A verdade é que não algo tão distante da verdade quanto os discursos de governança corporativa e ambiental dessas empresas. Felizmente, ao menos no caso da Alemanha há ação da chamada “Articulação dos Acionistas Críticos que vem agindo para expor as contradições entre discurso e prática das multinacionais alemãs no Sul Global, mas especialmente no Brasil.

Mas até para fortalecer ações como as realizadas pelos “Acionistas Críticos”, há que se reforçar as articulações já existentes aqui mesmo no Brasil, a começar pela Campanha Permanente contra os Agrotóxicos e pela Vida cujos esforços permanecem desconhecidos da maioria da população brasileira. Com isso o lobby pró agrotóxicos continua agindo livre, leve e solto.

Expor os lobistas é um caminho para forçar uma mudança de comportamento das corporações

Na minha opinião não existem soluções fáceis para combater o poderoso lobby das grandes fabricantes de venenos agrícolas, pois elas estão muito bem articuladas e escondidas em organizações de lobby como é o caso da CropLife cujo braço brasileira, a CropLife Brasiltem como seu atual presidente, o candidato a vice-presidente do Partido Novo nas eleições presidenciais de 2018, o cientista Christian Lohbauer.

Como essas organizações de lobby agem tanto por detrás das cortinas como em frente delas, um caminho para diminuir a força que elas têm no congresso nacional e em órgãos reguladores, começando pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), um primeiro passo tem que ser justamente falar da existência dessas estruturas de lobby, pois ao expô-las ficará mais difícil pressionar as corporações em seus países-sede, pois lá a sensibilidade à opinião pública é maior.

Por isso tudo é que reafirmo que uma das prioridades programáticas para as eleições gerais de 2022 terá de ser a cobrança pela mudança do padrão dominante de produção agrícola que está condenando o Brasil a se transformar em uma latrina química de substâncias químicas cujo poder de destruição já está fartamente documentado pela comunidade científica internacional.

Associação Profissional dos Geólogos do Estado do RJ se posiciona sobre o desastre em Petrópolis e aponta para responsabilidades

petropolis desastre

A Associação Profissional dos Geólogos do Estado do RJ (APG-RJ) lamenta profundamente as perdas e a dor da população enlutada de Petrópolis.

Mas a realidade é crua. Continuaremos a assistir no Rio de Janeiro à proliferação de desastres geológicos e a sua ampliação em frequência e magnitude em função da conjugação de fatores naturais e antrópicos, em parte discutidas e citadas em todas as notas técnicas de entidades civis e públicas, e em manifestações individuais à mídia. O que cabe então a uma entidade de classe, da área de Geologia do Estado do Rio de Janeiro? A nosso ver cabe a reflexão sobre algumas das questões que envolvem o cenário sombrio e desalentador, e coloca-la em perspectiva para a categoria e para a sociedade civil.

Comecemos pela responsabilidade inerente e óbvia do Estado. Não há como propor mudanças efetivas no enfrentamento aos desastres, no qual os afetados são os/as trabalhadores/as e os desempregados/as, todos/as pobres, tendo como elemento propulsor das mudanças um Estado mínimo, sem capacidade de articulação e sem quadros técnicos de ponta, e que veja nos desastres a possibilidade de fazer novas e muitas obras. Não é culpa só dos administradores e dos políticos, mas sim de todos nós, com destaque para a bolha conveniente no qual se encontram pesquisadores e servidores públicos. Assistimos, em geral, confortável e passivamente, a venda ou a tentativa de entrega do patrimônio estadual – CEDAE – e a degradação completa dos órgãos públicos de Geologia – GEO-Rio e DRM-RJ -, que caminham inexoravelmente para o sucateamento ou para a submissão a uma militarização nociva, via defesas civis municipais e estadual, do conhecimento do meio físico e da gestão de desastres.

Destaca-se também a constatação de que os geólogos lá presentes não integram um Gabinete de Crise (existe?!) e não conseguem nem mesmo “entrar” nos helicópteros para “tocar” as ações pertinentes a sua competência. Ou seja, o que cabe aos geólogos fazer – mapeamento das cicatrizes dos deslizamentos recentes e a comparação com as cartas preditivas preparadas na última década; avaliação da confiabilidade das curvas de correlação chuvas x escorregamentos que subsidiam o acionamento das sirenes de alerta e alarme; preparação das cartas de risco remanescente, obrigatoriamente com controle de campo -, não é feito, e o que poderia ser feito, num modelo gerencial inteligente da emergência – remoção imediata dos escombros; destinação dos resíduos a patamares seguros na antiga subida da serra; impedimento da religação antecipada da rede elétrica nas casas inseridas nos polígonos de risco remanescente; alocação dos recursos emergenciais para pagamento de quartos de hotéis e aluguel de apartamentos vazios hoje à disposição no mercado imobiliário local – nem mesmo é pensado.

Por fim, mas não por último, e nem menos importante, está o papel definido (por outrem) para ser cumprido por aqueles profissionais que não estão envolvidos no atendimento ao desastre e que ficam muito justificadamente impactados pelas cenas transmitidas pela TV. Cada qual deve e pode fazer a sua parte, mas atuar açodadamente pode até confortar, mas não fará frente aos desafios. A única saída é atender à coordenação dos colegas servidores que atuam nos órgãos públicos e cobrar permanentemente por ações que ao menos minimizem as demandas das cidades fluminenses de alto risco. Não é razoável demonstrar solidariedade na emergência e deixa-la dissipar na mesma velocidade com que os helicópteros das TVs vão deixar Petrópolis, tal como deixaram a região depois do Megadesastre´2011 da Serra Fluminense. É legítimo e humano a mobilização para subir a serra? Claro que é, mas a única e efetiva contribuição para minimizar tais situações é a constituição de uma cultura de prevenção de desastres! E isto é uma responsabilidade do Estado!

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Este texto foi inicialmente publicado pela Associação Profissional dos Geólogos do Estado do RJ (APG-RJ) [Aqui!].

Observatório dos Agrotóxicos: com mais 14 liberações, governo Bolsonaro alcança 1.609 agrotóxicos liberados e prova que o céu é o limite

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Com a parceria entre Jair Bolsonaro e Tereza Cristina, a tsunami de liberações de agrotóxicos não tem limites

Apesar da aprovação do Pacote do Veneno pela Câmara de Deputados ainda precisar passar pelo crivo do Senado Federal, o Ministério da Agricultura sob a batuta celere da ministra Tereza Cristina está mostrando que não quer perder tempo. É que nesta 6a. feira (18/02) o Diário Oficial trouxe a publicação do ATO Nº 9, DE 14 DE FEVEREIRO DE 2022 por meio do qual foram liberados mais 14 agrotóxicos, do tipo produto técnico.

Com isso o governo Bolsonaro chegou a um novo total de 1.609 agrotóxicos, o que reflete a disposição de fazer “passar a boiada” dos agrotóxicos a despeito do trâmite do Pacote do Veneno.  A questão que muitos podem se fazer é sobre quais seriam as razões para tanta volúpia em liberar tantos agrotóxicos, já que inexiste a prometida modernização do portfólio de substâncias disponíveis no mercado de venenos agrícolas.

Aliás, há que se ressaltar que nessa nova leva de produtos técnicos aprovados estão incluídos os inseticidas Bifentrina e Diafentiurom e o fungicida Epoxiconazol que estão proibidos na União Europeia por causarem danos ambientais e/ou problemas para a saúde humana. 

Por outro lado, o Ato No. 9 confirma outro aspecto consistente na importação de produtos técnicos para uso na forma de agrotóxicos manipulados que é a forte hegemonia de empresas chinesas que no presente caso produzem 13 dos 14 agrotóxicos aprovados.

Quem desejar acessar a planilha do Ato No. 9, basta clicar [Aqui!], e a planilha contendo a planilha atualizada contendo todos os agrotóxicos liberados a partir de janeiro de 2019, basta clicar [Aqui!].

O aquecimento global já está doendo, adaptar é preciso

A segunda parte do sexto relatório de status do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas está prestes a ser finalizada – trata-se de adaptação às mudanças

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Secas extremas – como as do oeste dos Estados Unidos – estão se tornando mais frequentes mesmo com o aquecimento atual. Foto: AFP/Josh Edelson

Por  Jorg Staude para o Neues Deutschland

Centenas de especialistas do grupo de trabalho dois do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) estão sentados juntos virtualmente há uma semana, pesando sentença por sentença e ainda têm uma semana inteira de debates pela frente.

A cada seis anos, o IPCC apresenta um relatório abrangente resumindo o status da pesquisa sobre mudanças climáticas, nomeando suas consequências e formas de proteger o planeta. A segunda parte do sexto relatório de status do IPCC será publicada em 28 de fevereiro . Os especialistas do grupo de trabalho dois estão atualmente debruçados sobre isso, especialmente sobre a parte mais importante: o resumo para os políticos.

Em sua essência, a proteção climática é sempre sobre duas coisas, conhecidas como mitigação e adaptação . Mitigação – no significado latino original da palavra, significa apaziguar, mitigar ou aliviar algo. Em termos de clima, mitigação significa eliminar as causas das mudanças climáticas. Então, acima de tudo, reduzir as emissões de gases de efeito estufa, inicialmente para zero; e depois voltar a extrair gases de efeito estufa da atmosfera e assim gerar as chamadas emissões negativas.

Mas mesmo que consigamos limitar o aquecimento global a dois graus ou menos, as mudanças climáticas já terão consequências para a vida humana. É aqui que entra em jogo o segundo pilar da proteção climática: a adaptação . O ponto aqui é chegar a um acordo com as mudanças no clima ou se adaptar de tal maneira que os danos à civilização possam ser evitados na medida do possível ou as oportunidades que surgirem possam ser aproveitadas.

A segunda parte do sexto relatório do IPCC, que está em fase final de edição, trata principalmente dessas consequências das mudanças climáticas e das possibilidades de adaptação a elas. Boas notícias não estão em casa.

Conexão homem – clima – natureza

Como nenhum outro antes, o novo relatório mostrará “o quanto o mundo já mudou devido às mudanças climáticas e quais riscos climáticos catastróficos devemos esperar no futuro – dependendo da rapidez e do quanto reduzirmos as emissões de gases de efeito estufa”, disse ele. disse Hans-Otto Pörtner, um dos dois co-presidentes do grupo de trabalho dois, explicou recentemente o que pode ser esperado em uma entrevista coletiva do Consórcio Climático Alemão.

O novo relatório causará sensação, não apenas porque trata de impactos climáticos como calor, seca, precipitação extrema ou novos patógenos. Pörtner caracteriza a nova qualidade desta vez, os cientistas apresentariam as conexões entre humanos, clima e natureza “de uma maneira muito mais próxima e clara” do que antes.

Para o biólogo marinho do Alfred Wegener Institute for Polar and Marine Research, o “pensamento em silo” ainda domina o debate climático. O que ele quer dizer pode ser ilustrado pelas demandas que estão sendo feitas atualmente sobre o uso da terra, por exemplo.

Os operadores de energia eólica querem, com razão, mais espaço – mas também os conservacionistas para salvar a biodiversidade, ou o governo federal, que quer construir 400.000 novas casas todos os anos.

Para Pörtner, no entanto, também é uma espécie de “mentalidade de silo” quando hoje, por exemplo, 70% da terra arável global é usada para a produção de ração animal. “Precisamos de cerca de dez quilos de massa vegetal para produzir um quilo de carne animal”, calcula. Com uma mudança consistente na dieta , a humanidade não só faria algo diretamente para a proteção do clima, porque as emissões de metano e óxido nitroso da pecuária diminuiriam – ao mesmo tempo, muito espaço seria ganho para biodiversidade, espécies e proteção de terras e de curso também para a produção de alimentos que não são obrigados a fazer o desvio através do animal.

Para Pörtner, o armazenamento de dióxido de carbono ainda é visto demais do ponto de vista da tecnologia “silo”. A meta climática da UE – neutralidade climática até 2045 – já inclui uma porcentagem de CO2 que deve ser “embalada” em ecossistemas naturais.

Segundo Pörtner, tal abordagem pressupõe que os ecossistemas também possam gerenciar o armazenamento. “Mas já temos uma atenuação de importantes sistemas de armazenamento de CO2, como a floresta tropical e as florestas boreais”, alerta o biólogo. Esses são sinais de alerta. “Não há mais uma gaveta onde você pode colocar CO2, mas é preciso valorizar e cuidar dessa gaveta”, explica. Quando você sai do »silo«, você reconhece, como diz Pörtner, »dependências compulsivas« e »influências mútuas«. Em outras palavras: as pessoas, o clima e a natureza estão mais intimamente relacionados do que pensávamos – e certamente não agimos de acordo.

Atualmente, não há como nutrir e cuidar deles, reclama Josef Settele, chefe de pesquisa de conservação da natureza do Centro Helmholtz de Pesquisa Ambiental (UFZ) em Halle. As mudanças climáticas provocadas pelo homem estão ameaçando cada vez mais a natureza hoje, alerta ele.

A Settele não se concentra apenas na grande e visível destruição causada por secas, ondas de calor ou incêndios florestais. Mesmo atividades menores que foram atrasadas devido a mudanças de temperatura foram suficientes para desequilibrar a natureza. Como exemplo, ele cita os tempos de voo dos insetos polinizadores, que muitas vezes não coincidem mais com os tempos de floração atrasados ​​das plantas relacionados ao clima. Então os polinizadores voam muito cedo ou muito tarde.

Áreas protegidas ajudam o clima

Settele pede que 30 a 50% dos habitats continentais e dos oceanos do mundo sejam protegidos para impedir o declínio da biodiversidade. Este “não é um número utópico” se você incluir diferentes categorias de proteção . Não se trata apenas de reservas totais, mas também de paisagens culturais protegidas.

O cientista certamente está ciente de que essa demanda é uma afronta para muitos empresários – mas, como sugere Settele, provavelmente não há alternativa. “Quem ignora as conexões entre clima, natureza e a base da vida humana não comemorará nenhum sucesso na proteção do clima”, enfatiza o ecologista. »Qualquer coisa que impeça o declínio da biodiversidade também beneficia a proteção do clima.«

Mesmo em regiões urbanas, proteção climática e adaptação climática ainda são amplamente consideradas separadamente, confirma Daniela Jacob, diretora do Climate Service Center Germany, que coleta e processa os resultados da pesquisa climática para a Alemanha em nome do governo federal. Quando se trata de proteção climática, geralmente trata-se da “cidade de curtas distâncias”, da expansão do transporte público ou de edifícios energeticamente eficientes – e quando se trata de adaptação, trata-se de ondas de calor ou de lidar com chuvas fortes.

Jacob defende que se pense em ambos juntos, por exemplo, a infraestrutura “azul” das cidades, voltada para o equilíbrio hídrico, com a “verde”, voltada para árvores e espaços verdes.

É tudo sobre construção inteligente e verde , diz ela. Nas cidades, é concebível uma rede de espaços verdes e telhados verdes. O sombreamento natural pode enfraquecer o efeito do sol e, ao mesmo tempo, reduzir os requisitos de refrigeração doméstica e a quantidade de energia necessária para fazê-lo. De fato, os efeitos duplos e múltiplos da política climática na combinação de natureza e tecnologia já seriam possíveis hoje. Fachadas que protegem contra o calor também podem gerar eletricidade usando energia fotovoltaica de fachada. Poderia brotar verde sob sistemas de telhados fotovoltaicos.

O mesmo vale para as paisagens. Não apenas a energia eólica, mas também a energia fotovoltaica poderia continuar a abranger áreas agrícolas usadas ou – a última idéia – charnecas renaturalizadas. Um conceito fascinante: A maioria das antigas charnecas na Alemanha são agora usadas como pastagens – como pastagem ou como forragem para o gado. Uma mudança na dieta para menos carne e leite de vaca, como Hans-Otto Pörtner tem em mente, tornaria mais fácil tirar grande parte dos mouros de uso, remolhe –os e recuperá-los como armazenamento natural de CO2. Se os fotovoltaicos fossem adicionados no topo sem prejudicar a proteção da charneca, isso resultaria em um sumidouro de CO2 de técnica natural até então desconhecido.

Eco-puristas podem torcer o nariz aqui. Mas preservar a natureza como a conhecemos atualmente dificilmente será possível de qualquer maneira. »Os organismos são especializados para determinadas características climáticas e janelas de temperatura. Este é um ponto importante para o planejamento futuro das medidas de renaturação«, destaca Pörtner. »Simplesmente supondo que podemos restaurar algo histórico, em alguns casos não será suficiente.«

Especialistas em florestas na Alemanha, por exemplo, estão atualmente intrigados sobre quais árvores são adequadas para as condições climáticas que prevalecerão na Alemanha em 20 a 30 anos. Não se sabe exatamente o quanto o clima regional terá mudado até então, nem quais árvores podem ser adequadas para as novas condições. Para descobrir, seria preciso testar uma variedade de árvores por longos períodos de tempo – tempo que a humanidade e a natureza não têm mais se as mudanças climáticas mantiverem seu ímpeto atual.

A redução de CO2 continua crucial

Em todos os esforços para proteger a natureza e a biodiversidade – os especialistas em clima não deixam dúvidas sobre isso – a proteção climática clássica deve continuar a desempenhar o primeiro papel. Josef Settele: »Só teremos sucesso se reduzirmos massivamente o uso de combustíveis fósseis. Não há maneira de contornar isso. Compensar completamente as emissões não é possível.«

Também para Pörtner, a redução de CO2 é o pré-requisito decisivo para que haja um futuro. Para o especialista do IPCC, a interação de temperaturas alteradas e o orçamento global de CO2 ainda disponível resulta em um prazo apertado no qual uma política climática sensata ainda pode ser buscada e as sociedades podem se tornar resilientes e resistentes às mudanças climáticas. E para ele, a mensagem do próximo capítulo do relatório climático mundial é bastante clara: »A janela de tempo para um mundo resiliente ao clima está se fechando.«

Daniela Jacob também avisa. “Não podemos nos adaptar a tudo, especialmente se ultrapassarmos três graus de aumento da temperatura global. Então teremos até seis graus mais regionalmente – e então acabou.« Então não se trata mais de proteção e adaptação climática, mas sobre a pura sobrevivência da civilização.

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Este texto foi escrito originalmente em alemão e publicado pelo jornal “Neues Deutschland” [Aqui!].

AGROTÓXICO agora têm nome bonito: “ produto de controle ambiental”

“E se beberem algum veneno mortífero, não lhes fará mal” (Mc 16, 18).  Este é um dos sinais, relatados por Jesus, que acompanhará aos que Nele crerem

agrotoxicos

Por Fábio Cunha Coelho

Certa vez, o Bispo Dom Hélder Câmara estava em uma comunidade muito pobre de sua diocese e escutou os fieis cantarem um antigo canto religioso: “O Senhor é o meu pastor, nada me pode faltar…” Entretanto, o venerável bispo ao olhar ao redor, percebeu que ali faltava tudo…  Ao meditar sobre o ocorrido, que se repetia com frequência, chegou à conclusão que a bondade, o cuidado e o amor de Deus não acontecem de forma plena, em nosso meio, porque o canal desta Graça é a própria humanidade. E completou: “a bondade de Deus e seu amor e justiça têm como caminho passar pelas mãos de homens e mulheres, que o realizam. Entretanto, se homens e mulheres livremente, não os realizam, ou seja, não os tornam reais (encarnados), também, não se tornarão plenos: a bondade, o cuidado, o amor e a justiça divinas…” Enfim, Deus respeita nossa liberdade de escolha. Ele é o Deus do impossível, assim, Ele deixa o possível para que nós o façamos.

Atualmente, vimos uma grande movimentação do Congresso Nacional para flexibilizar a Lei de Agrotóxicos.  O Brasil é um grande consumidor de agrotóxicos e temos como aprovados, para uso aqui, alguns agrotóxicos que são proibidos em outros países já há bastante tempo. Em acréscimo, nos últimos dias, estampou-se nos noticiários que um grande supermercado foi autuado por comercializar morangos contendo agrotóxicos proibidos para utilização em… morangos. Como é uma fruta que se come crua, certamente, o potencial de intoxicação dos consumidores foi enormemente aumentado.

Mas… nós cremos em Deus! Como pode ser que nos intoxicaremos se comermos algum veneno mortífero, como dito em Mc 16,18? Certamente, o Senhor falava daqueles que seriam envenenados por proclamarem sua Palavra ou por testemunharem a Boa Nova e, infelizmente, não falava sobre nós brasileiros que, livremente, permitimos que nossa legislação nacional nos empurre para uma produção de alimentos com cada vez mais agrotóxicos e, assim, cada vez mais os teremos em nossos pratos e mesas.

Para quem ainda não viu os noticiários, lá vai a funesta novidade: foi aprovada, no Congresso Nacional, a apelidada “PL do Veneno”…mas ainda falta o Senado. Ou seja, a lei anterior em vias de ser revogada, que já tinha suas falhas, poderá ser substituída por outra ainda pior. Para se ter uma noção do disparate, entre janeiro de 2019 a fevereiro de 2022, foram liberados 1595 agrotóxicos para uso no Brasil.

Vocês sabiam que vários agrotóxicos que são proibidos em outros países têm seu uso permitido no Brasil? Muitas das vezes são produzidos em países da Europa, em que seu uso é proibido por lá, entretanto, podem ser exportados para o Brasil e serem livremente utilizados por aqui.  Assim, empresas que vendem os agrotóxicos aqui são dos mesmos países que baniram estas substâncias em seus territórios. Além disto, para alguns agrotóxicos o limite de segurança para sua presença nos alimentos no Brasil pode ser duas ou até 10 vezes maior que nos países da Europa. Assim, nós “podemos” comer e comemos mais venenos que eles.

Eis alguns vilões que nos intoxicam a cada dia: Acefato (infertilidade e danos genéticos),  Atrazina (mudando o sexo dos sapos) e ainda, fenamidona, propinebe, tiodicarbe, tiram, carbendazim etc. etc., todos proibidos na Europa e permitidos por aqui.

Larissa Mies Bombardi, da USP, autora do atlas “Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia” afirma que:  “A União Europeia produz agrotóxicos, mas, tem deixado de lado os produtos que são nefastos à saúde, em função da pressão da sociedade civil organizada”…  E eu pergunto: e nós brasileiros? Ainda acreditamos que o Agro é totalmente Pop?

Será que nós, brasileiros, somos mais resistentes que os Europeus? Ou nossos Deputados Federais, por considerarem que somos um país com maioria de cristãos, pensam que se aplicará a palavra de Marcos 16, 18? “E se beberem algum veneno mortífero, não lhes fará mal”… Penso que, não convém pular no precipício e esperar que Deus mande seus anjos para nos salvar, pois… Ele certamente, com o coração apertado, respeitará nossa decisão.

A “PL do Veneno” foi aprovada em primeira instância, mas, caberá a nós lutarmos por nossos direitos e pressionarmos para que Senadores não a aprovem. Não queremos que nossas crianças sejam envenenadas e paguem, no futuro, por nossa omissão e insensatez!  No site do INCA (Instituto Nacional do Câncer) há uma relação grande de agrotóxicos, com seus efeitos crônicos, causadores de diversos tipos de câncer. Efeito crônico é aquele que manifesta seus efeitos negativos sobre a saúde com o passar de anos de ingestão de pequenas doses. Assim, eles se acumulam no organismo ou vão aos poucos o prejudicando.

O INCA aponta a Agroecologia como saída para uma agricultura livre de agrotóxicos, informando que: “a agroecologia é compreendida como Ciência e prática interdisciplinar que considera não só o conhecimento científico advindo das Ciências Agrárias, da Saúde, Humanas e Sociais, mas, principalmente, as técnicas e saberes populares (dos povos tradicionais) que incorporam princípios ecológicos e tradições culturais às práticas agrícolas gerando uma agricultura sustentável e promovendo a saúde e a vida digna. Tem como princípios fundamentais a solidariedade, sustentabilidade, preservação da biodiversidade, equidade, justiça social e ambiental, soberania e segurança alimentar e nutricional”.

Realmente, “o que faz mal ao homem não é o que entra no homem, mas o que sai do homem”, como sabiamente já comentava nosso Mestre. Entretanto, dentre os males interiores, a ganância, quando sai do homem, pode resultar em contaminação de águas, ambiente, alimentos e pessoas e, também, causar o mal ao homem, a seus filhos e à mãe Terra.

Assim, nós, que proclamamos a Boa Nova, auxiliados pela Graça, devemos nos organizar para pressionar Senadores, a fim de que a ganância, expressa em forma de lei, não seja definitivamente aprovada. Não esperemos que o Pai nos livre deste mal ficando de braços cruzados, enterrando nossos talentos! Nós temos condições para nos livrar! Avante!!!

Fábio Cunha Coelho é Professor Associado do Laboratório de Fitotecnia (LFIT) do Centro de Ciências e Tecnologias Agropecuárias (CCTA) da Universidade Estadual do Norte, e  atua no curso de graduação em Agronomia. Ele também é Diácono Permanente da Diocese de Campos dos Goytacazes, RJ

O grande golpe do greenwashing: as empresas de relações públicas enfrentam o acerto de contas depois de trabalhar para as grandes petroleiras

Um estudo abrangente confirma que as empresas petrolíferas são em grande parte só conversa e nenhuma ação quando se trata de iniciativas de energia limpa

torre de petroleoUm local de perfuração da Chevron perto de Midland, Texas. É improvável que as empresas de relações públicas consigam atender à indústria de combustíveis fósseis como fizeram no passado. Fotografia: Jessica Lutz/Reuters

Por Amy Westervelt para o “The Guardian”

Nesta semana, um estudo revisado por pares confirmouo que muitos suspeitavam há anos: as grandes empresas petrolíferas não estão apoiando totalmente sua conversa sobre energia limpa com ações. Agora, as empresas de relações públicas e publicidade que vêm criando as estratégias de “greenwashing” (lavagem verde) do setor há décadas enfrentam um acerto de contas sobre se continuarão servindo grandes empresas de petróleo.

O estudo comparou a retórica e as ações sobre clima e energia limpa de 2009 a 2020 das quatro maiores empresas de petróleo do mundo – ExxonMobil, Chevron, Shell e BP. Escrevendo na revista Plos One, pesquisadores da Universidade de Tohoku e da Universidade de Kyoto no Japão concluem que as empresas não estão, de fato, migrando seus modelos de negócios para energia limpa.

“A magnitude dos investimentos e ações não condiz com o discurso”, escrevem. “Até que as ações e o comportamento de investimento sejam alinhados com o discurso, as acusações de greenwashing parecem bem fundamentadas.”

Embora esta não seja a primeira vez que as empresas petrolíferas são acusadas de exagerar sua boa fé climática, nunca foi tão abrangente, de acordo com o sociólogo ambiental Dr. Robert Brulle, da Brown University. “Esta é a primeira análise robusta, empírica e revisada por pares das atividades – do discurso, dos planos de negócios e dos padrões reais de investimento das grandes petrolíferas em relação ao seu apoio ou oposição à transição para uma sociedade sustentável”, diz ele .

Brulle diz que as empresas de relações públicas e agências de publicidade que criaram campanhas em torno das reivindicações líquidas de zero das empresas petrolíferas estão agora em alerta. “Não há como negar que eles desconhecem as atividades dessas empresas após a publicação deste artigo”, diz ele. “Este artigo mostra claramente que essas empresas não estão falando sobre isso.”

Isso força a mão de empresas de relações públicas como a Edelman – que ganhou as manchetes no final do ano passado por fazer grandes promessas climáticas enquanto também trabalhava para grandes petrolíferas como Exxon e Shell – e grupos comerciais como a American Fuel and Petrochemical Manufacturers, que têm uma reputação de bloqueando a política climática. Em uma reunião da empresa em dezembro, o presidente-executivo da empresa, Richard Edelman, disse aos funcionários que a empresa não se afastaria dos clientes de combustíveis fósseis, mas que “rejeitaria projetos que atrasassem o progresso em direção a um futuro com emissões líquidas de gases de efeito estufa zero”. Diante do relatório desta semana, seria difícil dizer que qualquer grande petroleira atende a esse padrão.

Casey Norton, porta-voz da Exxon, disse: “A ExxonMobil há muito reconhece que a mudança climática é real e apresenta sérios riscos. Além de nossos investimentos substanciais em tecnologias de próxima geração, a ExxonMobil também defende políticas responsáveis ​​relacionadas ao clima.”

“Essas reivindicações de investimentos em energia limpa são mais um caso de palavras que não combinam com ações”, diz Gregory Trencher, um dos autores do estudo. Trencher observa que a Exxon investiu apenas 0,23% de suas despesas totais de capital na produção e desenvolvimento de energia de baixo carbono de 2010 a 2018, e que a empresa declarou em um relatório resumido de energia e carbono de abril de 2021 que não investe em renováveis. Quanto ao reconhecimento da ciência do clima, Trencher diz que compõe “apenas uma pequena parte do nosso estudo – especificamente, é apenas um dos 25 indicadores estudados”.

Edelman não respondeu a um pedido de comentário até o momento. Nem a empresa de relações públicas WPP, que fez um extenso trabalho para aBP e a Chevron . O T Brand Studio do New York Times, que criou campanhas tanto para aExxon quanto para a Shell ampliando suas alegações de zero líquido, também se recusou a comentar sobre como esse estudo pode contribuir para esse trabalho. O Washington Post também se recusou a responder a perguntas sobre se seu WP Creative Group continuaria a criar campanhas para ChevronShell ou American Petroleum Institute , à luz de uma documentação tão extensa que as campanhas anteriores eram enganosas.

De acordo com Brulle, é improvável que as empresas de relações públicas e publicidade consigam atender à indústria de combustíveis fósseis como fizeram no passado. “Não me parece que eles tenham mais espaço para fazer isso”, disse ele. “Eles teriam que basicamente se envolver em publicidade de má fé e lavagem verde para continuar apoiando essas organizações como realmente engajadas na ação climática”.

O estudo de lavagem verde ocorre apenas uma semana depois que os democratas da Câmara Katie Porter e Raúl Grijalva enviaram cartas a seis empresas de relações públicas pedindo mais detalhes sobre seu trabalho para empresas de combustíveis fósseis, principalmente com relação a campanhas que enganaram o público sobre as mudanças climáticas. O comitê de supervisão da Câmara indicou que também questionará as empresas de relações públicas como parte de sua investigação sobre desinformação climática.

Enquanto isso, a ExxonMobil deve voltar ao tribunal em Massachusetts no início do próximo mês para combater as acusações de que fraudou os moradores daquele estado sobre o clima. Acusações de fraude semelhantes foram feitas a todas as grandes petrolíferas por meio de uma lista cada vez maior de casos, incluindo aqueles registrados em Minnesota, DC, Delaware e Vermont.

Mas Christine Arena, ex-vice-presidente da Edelman que agora dirige sua própria produtora de impacto social, a Generous Films, diz que a fraude climática não pode acontecer sem a ajuda da indústria de relações públicas e publicidade.

“As empresas de relações públicas e publicidade são atores centrais no que vemos como a indústria de influência”, diz ela. “Há muito dinheiro gasto e ênfase em publicidade, marketing e promoção voltados para o exterior que ajudam a sustentar a licença social da indústria de combustíveis fósseis para operar e dar ao mundo uma sensação de que, para citar a API, ‘estamos nisso. ‘ Não precisamos de regulamentação. Somos bons atores corporativos.”

Brulle diz que a mídia também deve tomar nota deste estudo, especialmente quando um executivo-chefe de uma empresa de petróleo faz uma reclamação sobre os compromissos climáticos de sua empresa. “Relatórios bons e críticos teriam que desafiar as declarações dessas empresas de combustíveis fósseis”, diz ele.

blue compass

Este texto foi escrito originalmente em inglês e publicado pelo jornal “The Guardian”  [Aqui!].

Jair Bolsonaro está desligando um dos melhores sistemas de monitoramento de desmatamento do mundo

desmatamento 1Fumaça sobe de um incêndio ilegal na reserva da floresta amazônica, ao norte de Sinop, no estado de Mato Grosso, Brasil, em 11 de agosto de 2020. (Carl De Souza/AFP/Getty Images)

Por Mac Margolis, colunista colaborador de Opiniões Globais do “The Washington Post”

Os caudilhos da América Latina lidaram com verdades pouco lisonjeiras prendendo críticos e queimando livros . O presidente brasileiro Jair Bolsonaro puxa o plugue do sistema de monitoramento do desmatamento do Cerrado.

Desde o desligamento de radares de radar nas estradas mortais do país até o ocultamento de dados sobre um número crescente de mortes por pandemia, nenhum problema é grande demais para o negacionista das Américas tentar enterrar.

Talvez nada fale mais sobre essa miopia intencional do que o manejo das emergências ambientais pelo governo Bolsonaro. Em três anos, seu governo esvaziou os gastos com ciência e tecnologia, deixou a pesquisa na Amazônia na penúria e pauperizou o Ministério do Meio Ambiente.

No entanto, o alvo favorito de Bolsonaro tem sido o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), encarregado de rastrear o desmatamento. Em 2019, Bolsonaro demitiu sumariamente o diretor do instituto depois que ele relatou um aumento no corte raso da Amazônia. Agora, o histórico programa de monitoramento do Cerrado está sob ataque.

A medida ameaça ainda mais a vasta savana do país, mesmo quando a Big Ag cobre a fronteira com safras de exportação e gado. Outros 3.300 milhas quadradas ou mais , uma área aproximadamente do tamanho de Porto Rico, foram arrasados ​​no ano que terminou em julho de 2021. Se o INPE não conseguir financiamento alternativo, o dinheiro do Cerrado se esgota em abril.

Com a Amazônia em chamas, o destino da savana pode parecer uma emergência menor. Os cientistas sabem melhor. O segundo maior bioma do país, cobrindo 24% do Brasil, é considerado a savana mais biodiversa do mundo . Vários dos maiores rios da América do Sul, incluindo o Araguaia e o Xingu, atravessam esses extensos planaltos. As raízes das árvores da savana absorvem as chuvas da estação chuvosa e decantam o escoamento em toda a região central da América do Sul, um aquífero continental que irriga esta área fértil.

Os apelos para estender o mandato de “desmatamento zero” da Amazônia ao Cerrado, uma cesta de pão global que funciona como o motor econômico do Brasil , podem ser equivocados. No entanto, a agricultura sustentável é essencial. Isso significa conter o corte, a queima e a apropriação de terras para evitar que a generosidade da fronteira caia em ruínas. Nenhuma instituição parece mais próxima do que o famoso instituto espacial da América Latina, que trabalha o ano todo para fornecer uma imagem fiel, quase em tempo real, dos habitats sitiados.

Há cinco décadas, o INPE acompanha as mudanças no interior do Brasil, acompanhando de perto a Amazônia e o Cerrado. O que começou como uma pesquisa de baixa tecnologia, com equipes de analistas examinando cópias impressas de fotos tiradas dos céus, evoluiu para uma análise orientada por especialistas de imagens de alta resolução capturadas por satélites em órbita como a Amazônia 1 .

O Inpe mantém um inventário anual de desmatamento (Prodes) desde 1998 e, desde 2004, implantou um sistema de alerta de emergência (Deter) que detecta incêndios e derrubadas no momento em que ocorrem.

A visualização mais nítida dá às autoridades brasileiras uma ferramenta poderosa para intervir e enviar fiscais para o campo para impedir os bandidos ambientais em ato. O resultado: o Brasil reduziu a derrubada da Amazônia em 83% entre 2004 e 2012, mesmo com o crescimento da economia.

As plataformas de monitoramento do instituto também se tornaram parte do kit de ferramentas do poder brando brasileiro, ajudando outras nações tropicais a aumentar seus próprios sistemas de vigilância de habitats. Os dados do INPE foram citados em cerca de 1.200 revistas científicas indexadas e dezenas de dissertações.

O que não escapa a ninguém é que o desfinanciamento do INPE ocorre em meio ao clamor internacional pelo aumento do desmatamento, que o governo se mostrou incapaz de conter, quando não o incentivou ativamente. O desmatamento aumentou drasticamente desde 2018.

Você não saberia disso pelos brometos de funcionários do governo. Em sua estreia internacional, o novo ministro do Meio Ambiente de Bolsonaro – cujo antecessor se demitiu sob uma nuvem de suspeitas – elogiou os compromissos verdes do Brasil na COP26 em Glasgow, sem mencionar os dados mais recentes que mostram um aumento no desmatamento da Amazônia.

Os líderes militares legados do Brasil, a quem Bolsonaro jura fidelidade, podem se escandalizar. Os generalíssimos (1964-1985) não queriam salvar a Amazônia. Em vez disso, eles pretendiam mantê-lo longe das garras estrangeiras e aproveitar a ciência para transformar o maior fracassado da América Latina em uma casa do leme da inovação tecnológica.

Os generais empilharam os principais centros de pesquisa com doutorados, engenheiros e geeks da computação treinados no exterior, na esperança de transformar o INPE em um mundo em desenvolvimento da NASA. Os ases do espaço passaram a transformar seu país em referência em monitoramento ambiental nos trópicos. Agora Bolsonaro corre o risco de ser lembrado como o líder que tomou o caminho oposto.

color compass

Este texto foi escrito originalmente em inglês e publicado pelo jornal “The Washington Post” [Aqui!].

Roubo de ouro é legalizado na Amazônia brasileira

O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, está impulsionando a mineração na região amazônica com decretos

garimpo ilegal

Já é um problema mesmo sem a lei: garimpeiros buscando ouro ilegalmente em Itaituba (21.8.2020)

Por Norbert Suchanek para o “JungeWelt”

O presidente de extrema-direita do Brasil, Jair Bolsonaro, emitiu dois decretos na última sexta-feira (11/02) para aumentar a mineração de ouro na região amazônica. A primeira lei simplifica os critérios de atribuição de concessões mineiras.  Este primeiro ato foi complementado por outro decreto, que, segundo o anúncio do governo na segunda-feira, pretende ser um programa de apoio ao desenvolvimento da mineração artesanal. O objetivo do programa, denominado Pró-Mape, é “promover as melhores práticas e promover a saúde e a dignidade das pessoas envolvidas na mineração artesanal e artesanal”.

Nem todo mundo vê assim. Roberto Liebgott, do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), acredita que a medida visa incentivar o garimpo ilegal nas áreas indígenas, informou nesta segunda-feira o portal Jornal Extra Classe . Segundo Liebgott, o decreto garantirá que os garimpeiros entrem nas reservas com equipamentos de mineração, armas e munições.

A deputada indígena Joênia Wapixana, do partido de proteção ambiental Rede, e seu colega de partido Túlio Gadelha temem o mesmo. Juntos eles querem derrubar os dois decretos. “Este decreto apoia os grandes empresários do garimpo ilegal na Amazônia que estão por trás de toda a violência, invasão e destruição das terras indígenas e das áreas protegidas desse ecossistema”, segundo moção dos dois parlamentares. Também criticaram o fato de a Autoridade Nacional de Mineração (ANM) poder emitir licenças sem exame prévio. Isso criaria muitas novas áreas de mineração e aumentaria os graves impactos socioambientais na Amazônia. “Este é mais um atentado aos direitos sociais e ambientais do povo brasileiro.”

As críticas também vêm do WWF. O decreto de mineração de Bolsonaro é uma “licença para a corrida do ouro tóxico”, disse a organização ambientalista na terça-feira. “O governo de Bolsonaro está efetivamente legalizando a mineração ilegal de ouro e perpetuando suas devastadoras consequências sociais, sanitárias e ambientais: trabalho infantil, pessoas, animais e corpos d’água envenenados com mercúrio e florestas destruídas”, disse Roberto Maldonado, oficial do WWF Brasil. Existem mais de 2.500 minas de ouro ilegais na região amazônica. Estes contaminaram as águas da Amazônia com cerca de 30 toneladas de mercúrio todos os anos, o que significa que os valores-limite considerados seguros são ultrapassados ​​em média 34 vezes.

A mineração na região amazônica está crescendo há anos. Entre 1985 e 2020, a área minerada no Brasil cresceu seis vezes, passando de 31 mil hectares para um total de 206 mil hectares, segundo a última análise da iniciativa Mapbiomas. Um estudo da rede fundada por ONGs e universidades com base na avaliação de imagens de satélite mostra que a mineração ocorreu principalmente na Amazônia. Quase toda a mineração de ouro do Brasil, 93,7%, está concentrada nesta região, disse Mapbiomas. Na última década, a prospecção ilegal de ouro em reservas indígenas, em particular, aumentou rapidamente. Entre 2010 e 2020, a área de mineração dentro desses territórios cresceu 495%. Nas reservas naturais, por outro lado, a área escavada pelos garimpeiros, os chamados garimpeiros, aumentou 301 por cento no mesmo período.

De acordo com o estudo “Panorama do Interesse Minerário no Amazonas”, publicado no ano passado pela organização Operação Amazônia Nativa, o número de pedidos de licenças de mineração no segundo ano do governo Bolsonaro aumentou 342% em relação à média da década anterior. De acordo com outro estudo apresentado em fevereiro pelo Instituto Escolhas, instituto de sustentabilidade com sede em São Paulo, quase metade da produção nacional de ouro do país nos últimos seis anos, totalizando 229 toneladas, veio de fontes ilegais. De acordo com o estudo, 54% do ouro suspeito ilegal foi extraído na região amazônica.

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Este texto foi escrito originalmente em alemão e publicado pelo jornal “JungeWelt” [Aqui!]

Observatório dos Agrotóxicos: confira a lista inédita contendo os 1.595 agrotóxicos liberados pelo governo Bolsonaro

agrotoxico mata

Uma das tarefas que venho tentando cumprir de forma meticulosa desde o início do governo do presidente Jair Bolsonaro é manter a atualizada a lista completa dos agrotóxicos colocados no mercado nacional pela caneta lépida do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) sob a batuta da ministra Tereza Cristina (DEM/MS). 

Um fato que precisa ser reconhecido é que nem sempre tenho o tempo necessário para construir as planilhas para cada ato de liberação de agrotóxicos e para realizar a agregação dos respectivos agrotóxicos na base que contém a totalidade das substâncias liberadas.

Hoje finalmente estou disponibilizando a base completa dos 1.595 agrotóxicos liberados entre janeiro de 2019 e ainda a planilha referente ao Ato No. 55 de 23 de dezembro de 2021. Com isso, os leitores do “Blog do Pedlowski” terão as informações completas para que sejam usadas da melhor forma possível para informar grupos de pesquisa e quaisquer outros interessados em ter acesso a esses dados que normalmente não são fáceis de serem acessados.

Quem se der ao trabalho de examinar as informações contidas nas planilhas que estou disponibilizando poderá analisar vários aspectos importantes da composição de tsunami de venenos agrícolas que foi liberada pelo governo Bolsonaro, muitos deles banidos na União Europeia e em outros pontos do planeta por serem venenosos demais para continuarem em uso.

Entretanto, para o governo Bolsonaro não há aparentemente limites para saciar a sede de venenos do agronegócio brasileiro. Tanto isso é verdade que mesmo depois desse número estratosférico de liberações, a Câmara de Deputados ainda aprovou o “Pacote do Veneno” que deverá facilitar ainda mais a liberação de agrotóxicos, para a imensa felicidade das grandes corporações multinacionais que controlam o mercado global de agrotóxicos.

Uma mudança interessante que já aparece na tabela com o total de agrotóxicos liberados é a mudança de status na União Europeia do inseticida Imidacloprida, membro do grupo dos Neonicotinóides, que saiu da condição de “liberado” para “proibido” por causa dos seus efeitos de “bee killer” (assassino de abelhas). Entretanto, essa proibição na União Europeia não impediu que o Imidacloprida tenha sido alvo de mais de uma dezena de liberações, para alegria dos seus fabricantes e total desespero para quem depende dos serviços  de polinização prestados pelas abelhas.

Para nós sobrarão doenças de toda natureza, mas que incluem câncer, alterações glandulares, danos no sistema neurológico, etc.

Quem desejar baixar a planilha contendo os agrotóxicos liberados pelo Ato Ato No. 55 de 23 de dezembro de 2021, basta clicar [Aqui!]. Já quem desejar baixar a planilha contendo os 1.595 agrotóxicos liberados entre janeiro de 2019 e fevereiro de 2022, basta clicar [Aqui!].