Entrevista ao “Terceira Via” sobre alagamentos e mudanças climáticas

Marcos Pedlowski | Pesquisador afirma que alagamentos em Campos devem se agravar com mudanças climáticas.

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“Temo as piores consequências dos eventos meteorológicos extremos”, diz Marcos Pedlowski, geógrafo e professor da Uenf

Uma das reportagens em destaque do Jornal Terceira Via desta semana, “Chuvas põem à prova sistema de drenagem de Campos” (clique aqui), avalia alguns problemas relacionados a enchentes e alagamentos. Para o geógrafo e pesquisador Marcos Pedlowski, da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro, há vários desafios para serem enfrentados pelo poder público e pela população de Campos dos Goytacazes. Ele afirma que, com as alterações climáticas extremas, os problemas tendem a se agravar nos próximos anos.

A cidade cresce e várias intervenções urbanas acontecem. Como avalia a situação de alagamentos em Campos?

Algo que precisa ser lembrado é que o avanço da malha urbana campista se deu sobre um rico ecossistema de lagoas, o que torna alguns pontos da cidade mais propensos a alagamentos, já que os corpos aquáticos passaram a uma condição de “fantasmas” na paisagem urbana que são incapazes de cumprir as funções de escoamento que prestavam antes de serem aterradas. É por isso que determinadas áreas são sempre o foco de alagamentos mais intensos e persistentes. Eu diria que temos aí um problema crônico cuja busca de soluções tem sido historicamente negligenciada pelo poder público municipal e pelos incorporadores imobiliários que controlam o processo de alteração da paisagem natural para construir seus empreendimentos.

O problema está se tornando mais visível porque estamos passando por um período de alteração dos padrões de chuvas, e agora eventos meteorológicos mais extremos estão ocorrendo mais frequentemente em maior intensidade e em períodos curtos de tempo. Nesse sentido, eu diria que os alagamentos são apenas uma espécie de ponta de um iceberg de problemas urbanos e que deverão se agravar nos próximos anos e décadas já que as mudanças climáticas são um fenômeno que já está claramente demonstrado pela ciência.

Como observa as obras de drenagens e as ações do governo municipal?

Eu diria que essas intervenções foram parciais e insuficientes em função dos problemas acumulados em face do tipo de expansão urbana que se deu, como eu já disse anteriormente com base no sacrifício dos elementos naturais da paisagem. A verdade é que a cidade de Campos dos Goytacazes, apesar de já ter mapeado as áreas que deveriam ser alvo de intervenções retificadoras e alvo de ações de preservação ambiental em seu Plano Diretor Municipal, não possui ações estruturantes para cuidar dos alagamentos e de outros problemas causados por eventos meteorológicos extremos. Na prática, estamos sentados sobre uma bomba de tempo, já que as estruturas construídas não apenas são insuficientes, mas sem a devida manutenção. Eu diria que essa é uma condição propícia para a ocorrência de situações que vão perturbar bastante as vidas dos campistas, especialmente daqueles que vivem em áreas mais propensas a perturbações que esses eventos meteorológicos extremos são capazes de causar. Aliás, o que temos visto em cidades dos estados que estão sendo atingidos por chuvas intensas é que estamos completamente despreparados para a nova realidade climática.  E pior, sem que haja um processo de planejamento que dê conta de preparar nossas cidades para resistirem a esses eventos. Nesse sentido, me parece que a cidade de Campos dos Goytacazes é um bom exemplo do atraso existente no tocante a fazer ajustes para dar conta desses eventos extremos.

Obstrução e coberturas de canais como o caso do Campos-Macaé interfere de que modo nas questões de alagamentos?

Me parece que o caso da obstrução dos canais e o uso deles para despejo de todo tipo de material expressa bem o atraso que temos diante de nós em relação à manutenção dessas estruturas.  Se houvesse um mínimo de planejamento, como já existe, por exemplo, na Europa, a rede de canais existentes no município estaria sendo alvo do mais cuidadoso gerenciamento por parte do governo municipal. Mas o que se vê é a realização esporádica de dragagens que não resolvem o problema e servem apenas para justificar o desperdício de recursos que poderiam estar sendo melhor aproveitados para, por exemplo, recuperar as áreas marginais dos canais com políticas de recuperação da paisagem, de forma a ampliar os serviços ambientais que podem ser oferecidos pelo uso correto dessas estruturas.

Acredita que obras definitivas solucionariam os problemas na cidade?

Em minha opinião há que se ter um processo de planejamento que vá além de obras de engenharia que são necessárias, mas que não resolverão o problema se não estiverem integradas a outras intervenções que coloquem a área urbana do município dentro de um contexto de preservação que vá além de suas poucas áreas verdes.  O fato é que temos de pensar a cidade como algo que faz parte de um contexto geográfico e não apenas algo apartado da paisagem natural.

O que a população e o poder público devem atentar sobre prevenção e combate a alagamentos?

Um fato que me parece urgente é que o governo municipal, independente de quem esteja sentado na cadeira do prefeito, comece a agir de forma a incorporar a inevitabilidade das mudanças climáticas e seus efeitos extremos no planejamento urbano. Cidades que fizerem essa transição, e já existem muitos exemplos disso, poderão responder melhor aos desafios que estão sendo criados pelas mudanças climáticas.  E eu tenho que lembrar que alagamentos e inundações são apenas facetas do processo de mudanças climáticas. A tendência é que passemos a viver por períodos extremos tanto de chuvas como de falta delas, e que tenhamos alternâncias entre muita água e nenhuma água.

No caso do poder público, eu diria que é urgente que se passe de uma postura de completa alienação em relação ao processo de mudanças climáticas para se adotar formas de planejamento ecológico da cidade. E eu não estou falando aqui simplesmente de esforços pontuais de plantio de árvores e criação de praças e outros tipos de áreas verdes.  Há que se transformar a forma de planejar o processo de expansão e de funcionamento da cidade, de forma a assimilar os fenômenos extremos que estão ocorrendo e que tudo indica serão agravados.  Um excelente exemplo disso está sendo realizado pela prefeitura de Estocolmo, capital da Suécia, que está desenvolvendo um programa de iniciativas climáticas que visam preparar a cidade para as consequências das mudanças climáticas dentro de um processo de planejamento de médio e longo prazo.

Aqui em Campos dos Goytacazes, um primeiro passo seria recriar a Secretaria Municipal de Meio Ambiente para que ali sejam concentrados os esforços para estabelecer um processo de planejamento urbano de tipo ecológico, como o que está sendo implementado em Estocolmo. Sem esse primeiro passo, temo que fiquemos condenados a experimentar as piores consequências dos eventos meteorológicos extremos. Além disso, há que se aproveitar o capital humano existente nas universidades locais, pois existe muito conhecimento sobre essa problemática, mas que permanece ignorado na hora de se definir as ações de governo.

Já em relação à população, o que eu esperaria é que se abandone a postura de expectadores de catástrofes para uma mais ativa que não apenas cobre soluções pontuais, mas que se pense em um ambiente urbano que seja acessível e equilibrado em termos das oportunidades dadas a todos os seus habitantes. Mas isso só será possível com mais organização política, especialmente daqueles segmentos que vivam ou trabalham justamente nas áreas mais propensas a serem mais afetadas pelos eventos meteorológicos extremos. Sem essa organização política e a geração de demandas de caráter coletivo, temo que o futuro das cidades brasileiras seja tão tenebroso quanto o que temos assistido com as inundações desse início de 2022.

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Este texto foi inicialmente publicado pelo jornal “Terceira Via” [Aqui!].

Ativistas são presos de forma truculenta em Brasília ao protestar contra o Pacote do Veneno

protesto venenoManifestantes protestam contra PL do Veneno.Créditos: Reprodução/Twitter Mídia Ninja

Ativistas foram presos pela Polícia Legislativa nesta quarta-feira durante um protesto na frente do Congresso Nacional, em Brasília, para denunciar o PL 6299/2002, conhecido como “Pacote do Veneno”.

Vestidos com macacão de segurança e máscaras de gás para sinalizar a luta contra os agrotóxicos, os ativistas seguravam faixas com os dizeres “Bancada do Câncer, não vamos engolir o seu veneno”. Contudo, eles foram impedidos de exibi-las pela polícia, que chegou a jogar spray de pimenta em um deles. O material foi recolhido e eles saíram no carro da polícia acompanhados pelos oficiais em ação. A polícia não informou o motivo da detenção dos manifestantes  (ver vídeo abaixo).

 Entenda o protesto

Os ativistas se manifestavam para denunciar os 301 deputados que votaram a favor do Pacote do Veneno (PL 6299/2002) na noite da última quarta-feira (09). O texto é ferrenhamente defendido pela bancada ruralista há anos e visa substituir a Lei n.º 7.802 de 1989, conhecida como a Lei do Agrotóxico, um importante marco no processo de redemocratização do país e na articulação política entre a saúde coletiva e o ambientalismo, com amplo apoio de sindicatos, movimentos sociais e setores da sociedade civil.

O “Pacote do Veneno” visa dar mais autonomia ao Ministério da Agricultura, hoje presidido pela ministra Tereza Cristina, também mundialmente conhecida como a “musa do veneno” e permitir que novas substâncias sejam aprovadas sem avaliação prévia da Anvisa e do Ibama, através de registros temporários, além de retirar a obrigatoriedade da apresentação de receituário para venda dos agrotóxicos. O projeto ainda quer mudar o nome “Agrotóxico” para “Defensivo Fitossanitário” para melhorar a imagem dos produtos.

A aprovação se deu em menos de 4 horas com o plenário analisando o pedido de urgência e o mérito do projeto, de forma extremamente acelerada sem participação popular e com uma ampla mobilização de movimentos sociais contra.

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Este texto foi inicialmente publicado pelo Mídia Ninja [Aqui!].

Presidente do Crea-RJ fala sobre a tragédia em Petrópolis e anuncia proposta de amplo debate sobre planejamento urbano e habitação popular

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Diante da nova tragédia ocorrida nesta terça-feira (15) em Petrópolis, o presidente do Conselho Regional de Engenharia (Crea-RJ), Luiz Cosenza, falou hoje sobre a proposta que fará à Prefeitura de Petrópolis para a realização de um amplo debate sobre planejamento urbano, a fim de evitar novas tragédias nos morros e encostas, não só na Cidade Imperial, mas em toda a Região Serrana.

“Nós entendemos que tem que existir um projeto nacional de habitação popular. Ninguém mora em área de risco porque quer, é a solução que eles encontram. Pretendemos fazer um grande debate em Petrópolis, junto com a Prefeitura de Petrópolis, com a participação de especialistas das áreas de engenharia civil, de geologia, para a gente discutir soluções urgentes para essa questão da moradia. Para isso, é necessária a presença também de representantes do Governo Federal. É preciso fazer um grande projeto de habitação popular”, diz o presidente do Crea-RJ.

Cosenza informou que o Crea-RJ pode e deve ajudar, tanto Petrópolis quanto outras prefeituras da região serrana, nesse debate, e fará isso assim que passar esse pior momento da tragédia, conversando também com a população, inclusive moradores das áreas de risco e moradores de rua que não têm condições de moradia.

A Prefeitura de Petrópolis e o Corpo de Bombeiros informaram na tarde desta quarta-feira (16) que subiu para 68 o número de mortos após a forte tempestade desta terça-feira. O Corpo de Bombeiros ainda não tem ideia do número total de desaparecidos.

Assista o vídeo do presidente do Crea-RJ [Aqui!].

MPF rebate município de Campos (RJ) em processo sobre gestão local do SUS

Prefeitura recorre contra decisão do TRF2 de determinar regularização de serviços

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O Ministério Público Federal (MPF) rebateu um recurso do município de Campos dos Goytacazes (RJ) contra a sentença que o obriga a gerir melhor recursos federais para pôr fim às “inúmeras irregularidades em diversas unidades de saúde” do Sistema Único de Saúde (SUS). O réu alega, entre outras questões, que a ordem judicial afrontaria ao princípio da separação dos poderes. Em outubro, o Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF2) tinha julgado um processo do MPF contra o Município por irregularidades listadas por auditores do Denasus em relatórios sobre 2010 e 2015-2017, como as faltas de material e mão de obra em unidades de saúde.

O MPF na 2ª Região (RJ/ES) expediu manifestação contra um recurso no qual o município pede ao Supremo Tribunal Federal (STF) que reveja a decisão do TRF2. Na ordem contestada nesse recurso extraordinário, a 7ª Turma do Tribunal rejeitou alegações municipais como a de que o sistema local de saúde não se encontrava na situação apontada em 2015, ano inicial do processo. Se o recurso não prosperar, o MPF avalia que a sentença contra o Município poderá ser executada, ainda que de forma provisória.

“Há um lastro fático robusto e continuado de irregularidades na gestão dos recursos federais destinados à saúde”, afirmou o MPF ao defender que o recurso extraordinário não seja remetido ao STF. “Elas devem ser prioritárias, sobretudo se já empenhado valor de grande monta a determinado ente municipal. Assim, não se trata de afronta ao princípio da separação dos poderes, mas apenas de buscar a correção de inúmeras irregularidades constatadas em inspeções do Departamento Nacional de Auditoria do SUS, bem como em, ao menos, uma dezena de inspeções do MPF em unidades hospitalares, pré-hospitalares e unidades básicas de saúde no Município de Campos dos Goytacazes.”

Em sua manifestação, o MPF relatou ainda inspeções do Conselho Regional de Medicina (Cremerj)   em 2019 que confirmaram a persistência de inúmeras irregularidades citadas na ação de quatro anos antes. As inspeções em agosto daquele ano no Hospital Ferreira Machado e no Hospital Geral de Guarus se deviam à greve dos médicos e não seriam para o MPF produzir provas para o processo, como registrou o TRF2 na decisão contestada pelo Município.

Furadeira de construção na ortopedia

Os autos do processo incluem relatórios do Denasus e o mais recente, do Cremerj. Nele, médicos constataram irregularidades que, somadas, formam uma “situação caótica (…) onde há risco de morte por desassistência por falta de materiais, insumos, medicamentos e equipamentos”. No Hospital Ferreira Machado, viu-se o uso de furadeira de construção civil pela ortopedia, falta de autoclave (local para esterilização) funcionando na sala de atendimento ao politraumatizado, falta de medicamentos e insumos, superlotação de pacientes internados em macas nos corredores (com higiene sendo feita no corredor, em afronta à dignidade humana), respiradores sem bateria e falta de próteses vasculares.

No Hospital Geral de Guarus, o Cremerj viu condições de higiene precária, superlotação de pacientes internados em macas nos corredores, falta de antibióticos e outros medicamentos, uma farmácia da emergência sem aclimatação, respiradores sem bateria, falta de saída de oxigênio nos leitos, tomografia computadorizada sem funcionamento e CTI com deficiências em equipamentos.

Processo nº 0074441-49.2015.4.02.5103/RJ

Crise climática expõe necessidade de uma ampla reforma agrária urbana no Brasil

Os acontecimentos de ontem em Petrópolis mostram a necessidade urgente da retomada de uma discussão atualmente adormecida no Brasil, mas que já foi um dos temas centrais da retomada da democracia após o final do regime militar de 1964. Falo aqui da implementação de uma ampla reforma agrária da terra urbana que seria um dos primeiros passos para o reordenamento urbano necessário para iniciar um urgente processo de adaptação das cidades brasileiras ao novo regime climático.

A reforma da terra urbana é uma política de planejamento social que poderá iniciar a democratização do  direito à cidade, pois é a única forma de readequar o espaço das cidades que não é utilizado ou que é utilizado de forma precária e,  proporcionar a construção de moradias ou de espaços sociais públicos, que teriam a função de atender demandas como lazer, cultura, saúde, educação e outros.

A verdade é que toda vez que um grande evento climático se abate sobre as cidades brasileiras, os que mais sofrem são os mais pobres. As razões para essa correlação direta entre evento extremo e penalização extrema dos mais pobres se dá em função da especulação imobiliária que gera “latifúndios urbanos” e gera uma ampla difusão de lotes vagos em zonas densamente habitadas. 

Assim sendo, a reforma da terra urbana não apenas é necessária para tornar os espaços urbanos brasileiros mais democráticos e menos violentos para a maioria pobre dos seus habitantes, mas também para evitar que as mudanças climáticas em curso tragam uma longa e interminável sequência de catástrofes urbanas.

O problema é que desde o final da Assembleia Nacional Constituinte que gerou a atual Constituição Federal brasileira, o debate do direito à cidade foi abandonado pelas chamadas “forças democráticas” que preferiram fechar os olhos (e não raramente celebraram acordos proveitosos eleitoralmente) com os grandes incorporadores imobiliários.

Agora que as mudanças climáticas vieram para chacoalhar as estruturas anti-democráticas que regem o tecido urbano brasileiro, torna-se urgente a retomada da luta pela reforma agrária, tanto no campo como nas cidades.

É a crise climática, estúpido!

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Quando James Carville pensou nos motes de campanha de Bill Clinton para a presidência dos EUA em 1992 acabou produzindo uma frase que sintetizaria toda a disputa e se transformaria em um “snowclone” capaz de ser adaptada a qualquer contexto em que se procurava facilitar o entendimento de uma dada situação processo. Falo aqui do “It´s the economy, stupid” (ou em português “é a economia, estúpido”. 

Pois bem, o que se viu na cidade de Petrópolis, região serrana do estado do Rio de Janeiro, poderia ser sintetizada como “é a crise climática, estúpido”.  É que a tempestade de ontem alcançou formidáveis 259.8 mm em um período de apenas 6 horas e trouxe com isso um amplo rastro de destruição que atingiu fortemente a cidade como um todo, mas especialmente áreas ocupadas pela população mais pobre (ver vídeo abaixo).

Antes que alguém venha dizer que chuvas intensas não são novidade na região serrana do Rio de Janeiro, o que aconteceu ontem é fora dos parâmetros até para uma região em que fortes chuvas são comuns, bem como a destruição que elas trazem. Mas olhando para os vídeos que circulam amplamente desde ontem, nas redes sociais e nos veículos da mídia corporativa, não há como deixar de se sentir impactado, pois a força da tempestade e os resultados que a mesma teve são realmente impressionantes (ver vídeo abaixo).

O problema é que não há espaço para surpresa, pois esse tipo de tempestade extrema está previsto em incontáveis artigos científicos e nos diferentes relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC).  E o pior é que na falta de ações para deter o aquecimento da atmosfera da Terra, esses eventos tenderão a piorar, causando ainda mais destruição material e perda de vidas humanas.

Entretanto, o que o evento meteorológico extremo ocorrido em Petrópolis deixa claro é que não se está mais no plano puramente do prognóstico sintetizados em tabelas e figuras dos relatórios do IPCC. Temos diante de nós a prova empírica do que significa estar em um mundo afetado por uma forte crise climática. E isto demanda que os governantes brasileiros parem de ignorar o que não pode ser ignorado e comecem a se preocupar com o necessário processo de adaptação climática para que as cenas devastadoras de ontem não sejam apenas um prenúncio de muitos outros desastres que ainda estão por ocorrer.

Um dos problemas que teremos de enfrentar no Brasil é a existência de um governo federal, o de Jair Bolsonaro, e de seus satélites estaduais e municipais que não apenas desprezam o conhecimento científico acerca das mudanças climáticas, mas que agem para piorar a situação ao realizar ações que pioram o status climático do Brasil, a começar pela destruição dos biomas amazônicos e do Cerrado. A presença desse tipo de governante nas esferas de decisão é talvez uma das particularidades especialmente ruins da realidade climática brasileira, pois com este tipo de personagem no poder o caminho para o fundo do precipício é acelerado.

E lembrem  que “é a crise climática, estúpido”. Pense nisso quando for escolher seus candidatos nas eleições de 2022.

Cansado do ostracismo, Ricardo Salles toma passa fora da CNN por espalhar fake news sobre a crise na Ucrânia

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As redes de apoio ao presidente Jair Bolsonaro foram levadas a um êxtase momentâneo pelo ex (anti) ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, que resolveu espalhar uma notícia falsa (i.e., fake news) dando conta que o aparente recuo da Rússia em relação a uma suposta possibilidade de invasão da Ucrânia teria sido dado a partir de uma intervenção do presidente Jair Bolsonaro ao país.  Para tanto, Salles se baseou em montagem envolvendo a rede CNN que foi então forçada a desmentir a fake news espalhada pelo ex- (anti) ministro do Meio Ambiente (ver imagem abaixo).

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Ter Ricardo Salles como ponto de origem de fake news não deveria surpreender ninguém. O que na verdade surpreendeu foi a rápida intervenção da CNN Brasil para desmentir Salles. A razão para tal resposta rápida é que o recuo russo (se houve um) foi anunciado antes do avião de Jair Bolsonaro pousar em solo russo.

Informações dadas por diferentes veículos da mídia corporativa informaram que a comitiva brasileira liderada por Jair Bolsonaro terá de cumprir um isolamento estrito até que haja o encontro com Vladimir Putin.  Aliás, as boas práticas do presidente brasileiro já começaram na hora do pouso, pois, ao contrário do que faz em suas ações no Brasil, Bolsonaro portava uma máscara facial (ver imagem abaixo).

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Quanto a Ricardo Salles, a estas alturas do campeonato, ele já retornou para a obscuridade em que se encontrava desde que foi apeado do cargo da qual sua passagem pouca saudade deixou.

Alterações climáticas. “Situação nunca foi tão grave”, alerta IPCC

O Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC) vai elaborar um novo relatório, cuja “necessidade nunca foi tão grande”. Documento será apresentado a 28 de fevereiro

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Com o aquecimento do planeta a acelerar, os impactos das alterações climáticas sucedem-se, com secas, tempestades ou inundações. © EPA/DANIEL IRUNGU

O presidente do grupo de cientistas do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC, na sigla em Inglês) declarou esta terça-feira que “a situação nunca foi tão grave”, ao lançar o processo de adoção de um novo relatório.

“A necessidade (deste documento) nunca foi tão grande, porque a situação nunca foi tão grave”, afirmou Hoesung Lee, durante uma teleconferência que abriu um período de discussão, à porta fechada, que vai decorrer durante duas semanas.

Com o aquecimento do planeta a acelerar, os impactos devastadores das alterações climáticas sucedem-se, com canículas, secas, tempestades ou inundações, os quais vão agora motivar aquele relatório do IPCC.

Em agosto último, em um outro documento do IPCC, os cientistas estimaram que a subida do mercúrio atingiria em torno de 2030 — dez anos mais cedo do que antecipado — os 1,5ºC estabelecidos como meta no Acordo de Paris.

Antes de uma terceira publicação, esperada para abril, sobre as soluções para reduzir as emissões de gases com efeito de estufa, esta segunda, cuja discussão começou hoje, trata dos impactos do aquecimento e da adaptação.

“Cerca de 4,5 mil milhões de pessoas sofreram uma catástrofe associada a um acontecimento meteorológico nos últimos 20 anos”

Espera-se que decline as consequências sobre todos os continentes e em todos os seus aspetos, como saúde, segurança alimentar, escassez de água, deslocação de populações ou destruição de ecossistemas.

“Cerca de 4,5 mil milhões de pessoas sofreram uma catástrofe associada a um acontecimento meteorológico nos últimos 20 anos”, acrescentou o diretor da Organização Meteorológica Mundial, Petteri Taalas, apontando a responsabilidade das energias fósseis.

Em quase todos os continentes, as pessoas veem as catástrofes em curso. Como em 2021, as chamas a devastarem o oeste dos EUA, a Grécia ou a Turquia, inundações a submergirem regiões da Alemanha ou da China, ou a temperatura a chegar aos 50ºC no Canadá.

E “sabemos (…) que o crescimento dos impactos climáticos supera de longe os nossos esforços de adaptação”, insistiu a diretora da agência da ONU para o Ambiente, Inger Andersen, considerando que o novo relatório do IPCC é “capital para ajudar os líderes mundiais a desenharem respostas aos impactos climáticos”.

Face à litania das catástrofes e à necessidade de reduzir as emissões em cerca de 50% até 2030 para não exceder o objetivo de 1,5ºC, os dirigentes mundiais prometeram em novembro, em Glasgow, durante a 26.ª Conferência das Partes (COP26) da Convenção das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas (UNFCCC, na sigla em Inglês), acelerar a luta contra o aquecimento global e financiar mais as medidas de adaptação.

“Insuficiente para afastar a catástrofe climática que continua a bater à porta”, declarou então o secretário-geral da ONU, António Guterres.

“Espero que este relatório seja um bom pontapé de saída” para a COP27, que vai decorrer no Egito, no final do ano, disse à AFP o enviado dos EUA para os assuntos do clima, John Kerry.

Relatório vai ajudar a “elaborar políticas e a tomar decisões”

O documento “vai integrar mais fortemente as ciências económicas e sociais e fornecer aos líderes, informação e conhecimento para os ajudar a elaborar políticas e tomar decisões”, disse, por seu lado, Hoesung Lee.

Em 28 de fevereiro vai ser apresentado este novo documento do IPCC, depois dos 195 Estados membros analisarem, linha a linha, o ‘resumo para decisores”, um condensado politicamente sensível dos milhares de páginas do relatório científico, preparado por 270 cientistas.

O foco da publicação é a adaptação.

Mas “há limites à adaptação”, sublinhou à AFP o climatologista Laurent Bopp, um dos coautores, evocando o risco de migrações importantes de populações.

“Em algumas zonas, se as temperaturas ultrapassarem níveis já muito elevados, a vida humana deixa de ser possível. Se em algumas zonas costeiras, o nível do mar subir mais de um metro, a proteção com diques deixa de ser possível”, exemplificou.

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Este texto foi originalmente publicado pelo jornal “Diário de Notícias” [Aqui!].

Jair Bolsonaro promove a mineração de ouro na Amazônia

Povos indígenas  temem por suas reservas, ambientalistas alertam para destruição – mas o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, promove a mineração de ouro na região amazônica

A wildcat gold miner, or garimpeiro, uses a basin and mercury to pan for gold at a wildcat gold mine, also known as a garimpo, at a deforested area of the Amazon rainforest near Crepurizao, in the municipality of Itaituba

Garimpeiro trabalhando perto de Itaituba, no estado brasileiro do Pará: extensa prospecção de ouro. Foto: Nacho Doce / REUTERS

O governo  brasileiro fala de mineração artesanal de pequena escala, mas os críticos veem empreendedores poderosos como os mentores: o presidente Jair Bolsonaro aprovou um plano para expandir a mineração de ouro na região amazônica.

Um programa criado dessa forma visa promover o maior desenvolvimento dos métodos de mineração, especialmente na região amazônica, de acordo com uma publicação no diário oficial do governo. Um segundo decreto visa dificultar a punição dos garimpeiros.

Segundo o Ministério Público, existem ligações entre os garimpeiros e o crime organizado. Confrontos armados entre garimpeiros e moradores locais também foram relatados.

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Este texto foi escrito originalmente em alemão e publicado pela revista “Der Spiegel” [Aqui!].

Remédios poluíram perigosamente os rios do mundo, alertam cientistas

Poluição farmacêutica representa ‘ameaça global à saúde humana e ambiental’, segundo estudo importante

hong kongO rio Kai Tak em Hong Kong tinha 34 ingredientes farmacêuticos ativos diferentes em um único local, o maior número registrado. Fotografia: Robert Harding/Rex/Shutterstock

Por Damian Carrington, editor de Meio Ambiente, para o “The Guardian”

Medicamentos poluíram rios em todo o mundo e representam “uma ameaça global ao meio ambiente e à saúde humana”, de acordo com o estudo mais abrangente até o momento.

Produtos farmacêuticos e outros compostos biologicamente ativos usados ​​por humanos são conhecidos por prejudicar a vida selvagem e os antibióticos no meio ambiente aumentam o risco de resistência aos medicamentos, uma das maiores ameaças à humanidade.

Os cientistas mediram a concentração de 61 ingredientes farmacêuticos ativos (APIs) em mais de 1.000 locais ao longo de 258 rios e em 104 países, cobrindo todos os continentes. Apenas dois lugares não estavam poluídos – Islândia e uma aldeia venezuelana onde os indígenas não usam remédios modernos.

Os APIs mais frequentemente detectados foram uma droga antiepiléptica, a carbamazepina, que é difícil de quebrar, a metformina, a droga para diabetes, e a cafeína. Todos os três foram encontrados em pelo menos metade dos sites. Antibióticos foram encontrados em níveis perigosos em um em cada cinco locais e muitos locais também tinham pelo menos um API em níveis considerados prejudiciais para a vida selvagem, com efeitos como a feminização de peixes.

Os APIs acabam nos rios depois de serem levados por pessoas e gado e depois excretados no sistema de esgoto ou diretamente no meio ambiente, embora alguns também possam vazar de fábricas farmacêuticas.

Os pontos de acesso com níveis muito altos de APIs incluíram Lahore no Paquistão, La Paz na Bolívia e Adis Abeba na Etiópia. Madri, na Espanha, estava entre os 10% dos lugares com maiores concentrações acumuladas, e Glasgow, no Reino Unido, e Dallas, nos EUA, estavam entre os 20% melhores.

“A Organização Mundial da Saúde, a ONU e outras organizações dizem que a resistência antimicrobiana é a maior ameaça à humanidade – é uma próxima pandemia”, disse John Wilkinson, da Universidade de York, no Reino Unido, e que liderou o estudo, que envolveu 127 pesquisadores de 86 instituições. “Em 19% de todos os locais que monitoramos, as concentrações de [antibióticos] excederam os níveis que esperávamos para estimular as bactérias a desenvolver resistência”.

Pesquisa publicada em janeiro estimou que 5 milhões de pessoas morreram em 2019 por infecções bacterianas resistentes a antibióticos. As regiões que sofrem o maior impacto da resistência aos antibióticos nesse estudo se alinham com as do estudo com a pior poluição por drogas, sugerindo que a contaminação dos rios pode estar desempenhando um papel no aumento da resistência. Um local em Bangladesh tinha níveis do antibiótico metronidazol mais de 300 vezes maior do que o alvo seguro, possivelmente devido a vazamentos da fabricação de produtos farmacêuticos.

A poluição por drogas já era conhecida por prejudicar a vida selvagem , desde antidepressivos fazendo com que os estorninhos se alimentassem menos e medicamentos contraceptivos reduzindo as populações de peixes. “Se eu fosse um peixe vivendo em alguns desses rios, estaria preocupado agora”, disse Wilkinson. No entanto, os níveis na maioria dos rios não forneceriam altas doses para as pessoas nadando, disse ele.

O estudo, publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences , é de longe o maior até hoje e representa o impacto na poluição dos rios de 470 milhões de pessoas. Os pesquisadores concluíram: “A poluição farmacêutica representa uma ameaça global à saúde ambiental e humana”.

Anteriormente, quase todas as medições haviam sido feitas na Europa Ocidental e na América do Norte, mas as pesquisas mais recentes mostraram que a poluição da API costuma ser muito maior em outros lugares. O trabalho incluiu 36 países nos quais os APIs foram medidos pela primeira vez, principalmente na África e na América do Sul.

Entre as drogas detectadas em todos os continentes, exceto na Antártica, estavam os antidepressivos citalopram e venlafaxina, os anti-histamínicos cetirizina e fexofenadina, o antibiótico trimetoprim e lidocaína, um anestésico. O rio Kai Tak em Hong Kong tinha 34 APIs diferentes em um único local, o maior número registrado.

 Os riscos ecológicos podem ser maiores do que o previsto para as APIs individuais devido às interações toxicológicas dessas misturas”, disseram os pesquisadores. Existem mais de 2.500 produtos farmacêuticos em uso, mas a tecnologia atual permite a análise de apenas 50-100 de uma única amostra, então os pesquisadores se concentraram nos mais usados.

As maiores concentrações de drogas foram encontradas em países de renda baixa a média, incluindo Índia e Nigéria. Os pesquisadores acham que isso pode ser porque as pessoas nesses países têm renda suficiente para comprar produtos farmacêuticos, mas vivem em lugares sem bons sistemas de esgoto, que podem remover medicamentos, mas são caros.

O estudo não incluiu medições de drogas ilícitas, como cocaína e MDMA, que foram detectadas em rios em níveis prejudiciais à vida selvagem , embora análises futuras das amostras possam fazer isso.

Os cientistas esperam que a pesquisa ajude a concentrar os esforços de limpeza nos produtos farmacêuticos e nas regiões de maior risco. “Sabemos que uma boa conectividade de esgoto e tratamento de efluentes é a chave para minimizar, embora não necessariamente eliminar, as concentrações farmacêuticas”, disse Wilkinson. “No entanto, isso é extremamente caro, pois há muita infraestrutura envolvida.”

Usar medicamentos com mais cuidado é outra maneira de reduzir a poluição, disse ele, especialmente antibióticos, que estão disponíveis a preços baixos em muitos países sem receita médica e amplamente consumidos desnecessariamente, por exemplo, para tratar resfriados.

“Os produtos farmacêuticos são quase onipresentes nos rios de todo o mundo”, disse o professor Joakim Larsson, da Universidade de Gotemburgo, na Suécia, que não fez parte da equipe do estudo.

“O estudo mostra que um conjunto bastante grande de produtos farmacêuticos excede os ‘níveis seguros’ e, muitas vezes, em um número muito grande de locais. As bactérias não respeitam as fronteiras nacionais, então se uma nova bactéria resistente se desenvolve em um lado do nosso planeta, logo se torna um risco para todos.”

Os pesquisadores estão procurando estender o número de países cobertos, já que a pandemia de COVID-19 interrompeu suas pesquisas. Eles também estão aumentando o número de medicamentos medidos e esperam avaliar os níveis nos rios ao longo do ano para examinar as tendências sazonais.

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Este texto fo escrito originalmente em inglês e publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].