Economia sustentável para a Amazônia

Produtos Florestais Não Madeireiros ajudam a manter a floresta em pé e fazem crescer a economia com geração de renda e emprego

Evans-Brazil-nuts-blog

Fundamentais para a subsistência de muitas pessoas ao redor do mundo, especialmente as que vivem nas florestas e arredores, Produtos Florestais Não Madeireiros (PFNM), como o nome já diz, abrange tudo o que possa ser extraído da floresta e que não seja madeira. São óleos, frutos, sementes, folhas, raízes, cascas, resinas, por exemplo, que podem ser utilizados na alimentação, produção de medicamentos, cosméticos, construção de moradias, móveis, utensílios, biojóias, entre outros.

“Por ter um papel econômico, social e cultural importante para várias populações, a troca de conhecimentos relacionados à bioeconomia, sociobiodiversidade e cadeias de valor, pode ajudar bastante em um período como esse, de crescimento de demanda por esses produtos, causada pela preocupação mundial relacionada às crises climáticas”, afirma Fabiana Prado, coordenadora do Projeto LIRA, Legado Integrado da Região Amazônica, iniciativa do IPÊ – Instituto de Pesquisas Ecológicas. Para isso foi criado o BioForestALC, um fórum virtual com o objetivo de entender o potencial de PFNM para a bioeconomia da América Latina e Caribe, visando conectar a bioeconomia e as florestas com o desenvolvimento humano.

Segundo Fabiana, a importância do manejo e do uso desses produtos é que, sendo feito de maneira sustentável, constitui uma excelente alternativa para conservar a floresta em pé, além dos aspectos positivos sociais e econômicos. “A população se beneficia dos serviços e produtos da floresta e, ao mesmo tempo, é gerada renda com agregação de valor de uso sustentável das florestas.

Atividades preparatórias para o BioForestALC

O BioForestALC vai acontecer em março de 2022, mas as atividades relacionadas a ele foram iniciadas desde setembro de 2021. Como reuniões preparatórias envolvendo participantes de vários países, sendo a última delas realizada em 25 de novembro. Foram dois blocos, um sobre bioeconomia e políticas públicas na América Latina e Caribe e outro sobre experiências inclusivas da sociobiodiversidade.

“O que ficou evidente é que os desafios são parecidos, independentemente do país de origem e que a troca de conhecimentos, portanto, é fundamental. Outro ponto importante foi o apontamento da importância das organizações de apoio nas três experiências”, afirma Fabiana.

Serviço

Segunda reunião preparatória para o I Fórum Virtual sobre o potencial dos Produtos Florestais Não Madeireiros para uma bioeconomia da América Latina e Caribe.

Vamos falar de Bioeconomia da Floresta latino americana e caribenha?

Painel 1: Bioeconomia e as políticas públicas na América Latina e Caribe

Palestrantes do Brasil e Colômbia

Painel 2: Experiências inclusivas em Cadeias da Sociobiodiversidade na América Latina e Caribe

Experiências Da Guatemala, Suriname e Brasil

O vídeo estará disponível no Canal do Ipê

Sobre o BioForestALC

Em 2019, durante o durante o XXV Congresso Mundial da União Internacional de Organizações de Pesquisa Florestal (IUFRO) realizado no Brasil, foi instituída uma Força Tarefa intitulada “Unlocking The Bioeconomy and NonTimber Forest Products”.

A Força-Tarefa envolve pesquisadores de mais de 25 países, incluindo representantes de toda a América Latina, e membros de organizações internacionais como a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), que têm participado ativamente.

Nesse contexto, surgiu a proposta de organizar um e-FORUM sobre o Potencial de Produtos Florestais Não Madeireiros para a Bioeconomia Latino-americana, inspirada na Rede Temática Europeia INCREdible sobre Redes de Inovação em PFNMs do Mediterrâneo. Embora em contextos distintos, o objetivo da rede europeia, de reduzir a distância entre o conhecimento disponível em pesquisa e a inovação efetivamente implementada no setor, é também de interesse na América Latina e Caribe, especialmente, quando se pensa em desenvolver estratégias de bioeconomia inclusivas.

Assim, nasceu o BioForestALC (I Fórum Virtual sobre o Potencial dos Produtos Florestais Não Madeireiros para uma Bioeconomia da América Latina e Caribe: Conectando a bioeconomia e as florestas com o desenvolvimento humano), proposta que contempla uma série de atividades prévias realizadas a partir de setembro de 2021 e culminando na apresentação dos resultados em maio de 2022.

Sobre o LIRA

O LIRA é uma iniciativa idealizada pelo IPÊ – Instituto de Pesquisas Ecológicas, Fundo Amazônia e Fundação Gordon e Betty Moore, parceiros financiadores do projeto. Os parceiros institucionais são a Fundação Nacional do Índio (FUNAI), o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), Secretaria Estadual do Meio Ambiente do Amazonas – SEMA-AM e o Instituto de Desenvolvimento Florestal e da Biodiversidade do Estado do Pará – IDEFLOR-Bio. O projeto abrange 34% das áreas protegidas da Amazônia, considerando 20 UCs Federais, 23 UCs Estaduais e 43 Terras Indígenas, nas regiões do Alto Rio Negro, Baixo Rio Negro, Norte do Pará, Xingu, Madeira-Purus e Rondônia-Acre. O objetivo do projeto é promover e ampliar a gestão integrada para a conservação da biodiversidade, a manutenção da paisagem e das funções climáticas e o desenvolvimento socioambiental e cultural de povos e comunidades tradicionais. Site do LIRA .

Suspeita de greenwashing no Deutsche Bank: discurso de sustentabilidade, investimentos em combustíves fósseis

Fundo subsidiário do Deutsche Bank investe em combustíveis fósseis sob o rótulo de sustentabilidade

dwsAs alegações de lavagem verde contra o Deutsche Bank e sua subsidiária de fundos DWS estão ficando cada vez mais barulhentas
Por Raphaël Schmeller para o JungeWelt

Mais uma vez, o Deutsche Bank é confrontado com alegações de greenwashing. Conforme  relatado pelo em Handelsblatt em sua edição de fim de semana, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos da América informou à instituição financeira de Frankfurt que pode ter violado um acordo anterior concluído em um contexto diferente em conexão com os chamados investimentos de sustentabilidade pela subsidiária do fundo DWS. O grupo não encaminhou reclamação interna ao DWS para o Ministério Público, daí a denúncia.

Especificamente, é sobre um e-mail do ex-chefe de sustentabilidade do DWS, Desiree Fixler, para o presidente do conselho de supervisão do fundo, Karl von Rohr (também membro do conselho do Deutsche Bank), no qual ela alegou a prática de greenwashing. A cópia do e-mail continha também o gerente de imprensa e sustentabilidade do banco, Jörg Eigendorf, segundo o Handelsblatt , que pôde ver a mensagem.

Em janeiro, o Deutsche Bank esclareceu os encargos legais nos Estados Unidos com um acordo de acusação, o Deferred Prosecution Agreement (DPA). A instituição pagou pouco menos de 125 milhões de dólares americanos por alegações de suborno em certas transações estrangeiras e manipulação no comércio de contratos de metais preciosos. No DPA,  o Deutsche Bank declarou que não permitiria mais nenhuma conduta indevida e que denunciaria imediatamente as possíveis violações das regras às autoridades. Em troca, a acusação foi dispensada.

O Departamento de Justiça dos EUA está agora examinando se o Deutsche Bank não deveria ter informado os supervisores imediatamente sobre o e-mail de 13 de março. Fixler, que deixou seu emprego pouco depois disso, deu uma entrevista ao Wall Street Journal em agosto, na qual ela tornou públicas as alegações de lavagem verde. Só então as autoridades norte-americanas souberam do incidente.

Se o Departamento de Justiça dos Estados Unidos chegar à conclusão de que o Deutsche Bank violou o regulamento da DPA, a instituição financeira sediada em Frankfurt poderá enfrentar encargos ou penalidades adicionais. A DWS negou as alegações de Fixler e contratou o renomado escritório de advocacia Sullivan and Cromwell de Nova York como advogados de defesa.

Enquanto isso, as acusações contra o Deutsche Bank estão ficando estão aumentando. Só na sexta-feira o NDR divulgou um estudo das organizações não-governamentais “Facing Finance” e “Urgewald”, que examinou 2.000 fundos “verdes”. Das aplicações financeiras examinadas, apenas 104 são classificadas como “não oneradas”. De acordo com o resultado, pelo menos 650 dos recursos que se autodenominam “sustentáveis” têm se mostrado direcionados a investimentos em empresas que estão entre os maiores emissores de gases de efeito estufa.

Vários fundos DWS aparecem na lista de organizações que estariam em violação dos princípios de sustentabilidade. O “Europe Energy ESG Screened ETF” é particularmente notável – o ESG significa “Environment, Social, Governance”, algo como: Environment, Social, Corporate Management. Segundo os autores do estudo, esse sistema acaba sendo um fundo de petróleo e gás, e os investimentos são feitos aqui exclusivamente em energia fóssil.

O DWS apontou para o NDR que é um fundo especial para o setor de petróleo e gás e que »os produtores de energia única convencionais, como petróleo e gás pode ser atribuído a este setor«. Além disso,  o gestor de ativos afirmou não era ilegal chamar esse fundo de “sustentável”.  

blue compass

Este texto foi escrito originalmente em alemão e publicado pelo jornal “JungeWelt” [Aqui!].

Frigol envia resposta sobre estudo realizado pelo Greenpeace

frigolSão Paulo, 13 de dezembro de 2021

NOTA PARA A IMPRENSA

 Referente à reportagem publicada pelo Greenpeace em 09 de dezembro sob o título “Carne de destruição: como grandes frigoríficos seguem alimentando o desmatamento e a grilagem na Amazônia”, a FRIGOL informa que:

Carne de destruição: como grandes frigoríficos seguem alimentando o desmatamento e a grilagem na Amazônia”, a FRIGOL informa que:

  • Monitora seus fornecedores diretos para todas as linhas de produtos in As fazendas que comercializaram para a Frigol no período informado pela reportagem não possuíam nenhum impedimento nos órgãos de fiscalização ambiental e trabalhista e estavam em acordo com o TAC da Carne – no qual a Frigol obteve 95,1% de conformidade na auditoria do período 2018-2019. Atualmente, esse índice é ainda maior.
  • O caso relatado pela reportagem é de um fornecedor indireto. Para evitar que fatos como estes ocorram, a Frigol vem desenvolvendo seu programa de Controle de Origem, que avança para o monitoramento de toda sua cadeia de fornecedores nos próximos anos.
  • A primeira etapa do programa foi concluída em 2021, com a implantação de sistemas de rastreabilidade socioambientais para os fornecedores diretos. Com isso, todos os produtos in natura da empresa passam a contar com um código QR na embalagem com informações sobre as fazendas que originaram o produto e sua situação perante os órgãos ambientais e As informações são retiradas diretamente dos sites dos órgãos oficiais, sem a interferência da empresa e registrada em blockchain, para garantir total transparência e segurança da informação. O consumidor pode acessá-la diretamente do smartphone, fazendo a leitura do código QR.
  • Para o monitoramento dos fornecedores indiretos, está atualmente em fase de testes na Frigol o uso do software VISIPEC (NWF) para o bioma amazônico, e foi firmada uma parceria com a empresa CONECTA (Safetrace) para os demais biomas onde a empresa atua.
  • Além disso, em 2022, a Frigol disponibilizará aos fornecedores diretos a ferramenta SMGeo Prospec, que dará ao pecuarista meios para que ele possa selecionar seus fornecedores com base nos indicadores socioambientais previstos pelo TAC da Carne. É uma iniciativa inédita para apoiar o pecuarista que está em conformidade com a legislação ambiental e

A Frigol tem pautado sua atuação pela confiança, transparência e respeito à legislação vigente. Nos últimos anos, investiu em estudos e sistemas que permitiram à empresa avançar progressivamente no cumprimento do Pacto pela Amazônia/TAC da Carne, com o qual está plenamente comprometida. A empresa está à disposição para tirar qualquer dúvida.

Atenciosamente,

Frigol S/A

Sobre a Frigol

A Frigol SA é um dos principais frigoríficos brasileiros e um dos líderes em produção de carne bovina e suína na América do Sul. Fundada em 1992 pela família Gonzaga Oliveira, que atua no ramo de carnes desde 1970, a Frigol está estrategicamente localizada nos estados de São Paulo e Pará. A empresa possui hoje importante participação no mercado nacional e internacional, com presença em mais de 60 países espalhados pela América do Sul, Europa, Oriente Médio, Ásia e África. A Frigol foi destaque na lista “As 100 maiores empresas do agronegócio brasileiro em 2020”, segundo revista FORBES. Saiba Mais: https://frigol.com.br/pt/

THE LANCET: Impacto socioeconômico da COVID-19 é maior e será mais duradouro em populações vulneráveis

covid 19 amazonia

Uma pesquisa publicada hoje pela The Lancet – uma das revistas científicas, voltadas para a área médica, mais prestigiadas no mundo -,  reuniu especialistas para explicar como a queda econômica terá efeito por anos e será pior em países pobres. Sem um consenso para ações preventivas, famílias e comunidades serão afetadas de forma desproporcional. A longo prazo, as desigualdades na saúde, no bem-estar físico e socioeconômico serão ampliadas por todo o mundo. 

Essas populações vulneráveis são, geralmente, invisíveis para os governos, o que resulta em um acesso insuficiente a serviços públicos e programas de igualdade econômica. Além disso, dados oficiais de indicadores de saúde, ligados ou não à COVID-19, não são disponibilizados publicamente em diversos países. Por isso, a verdadeira dimensão da gravidade é subestimada. Há uma urgência por mais dados desagregados e padronizados que informem com precisão as ações e políticas públicas. 

Um dos autores da pesquisa é o Superintendente Geral da Fundação Amazônia Sustentável (FAS), professor Virgilio Viana, PhD por Harvard, membro da Pontifícia Academia das Ciências Sociais do Vaticano e professor associado da Fundação Dom Cabral. Ele mencionou os desafios que comunidades indígenas e ribeirinhas enfrentam na parte brasileira da floresta amazônica por conta da COVID-19:

“Esse artigo realça de uma maneira muito clara a importância que a ciência dá para a necessidade de ter um tratamento diferenciado para as populações mais vulneráveis. Em relação à Amazônia, o atendimento às questões de saúde em áreas indígenas e populações tradicionais da Amazônia profunda merece uma atenção especial, como podemos ver com a chegada do vírus nas comunidades. Portanto, essa produção científica aponta para a necessidade de pensarmos o SUS na floresta de maneira a aumentar a sua eficiência e a sua eficácia, a partir da experiência com o nosso trabalho na FAS, que ajudou muitas comunidades e deu suporte durante o período mais difícil da pandemia, principalmente no Amazonas.”

Para entender o efeito da COVID-19, especificamente em pessoas vivendo em condições de vulnerabilidade, há uma necessidade específica de uma coleta de dados atualizada. O número de hospitalizações, mortes e outros indicadores de bem-estar social e de saúde precisam ser divididos por gênero, idade, raça, etnia, deficiências e outras variáveis.  

Nísia Trindade Lima, presidente da Fundação Oswaldo Cruz, explica que estes dados podem ajudar a criar políticas públicas: 

“A pandemia nos obriga a resgatar uma perspectiva sobre como a proteção social e a cobertura universal para assistência de saúde foram negligenciadas na última década. Os efeitos populacionais de fenômenos ambientais e sociais são sentidos mundialmente, principalmente por pessoas em situação de vulnerabilidade. Não é mais possível encarar a desigualdade como se não fosse um problema de todos.”

Quem são os afetados?

Quando falamos em populações vivendo em situação de vulnerabilidade, estão incluídos indivíduos que enfrentam exclusão sistemática e discriminação por causa de fatores como idade, deficiência, raça, etnia, gênero, classe econômica, religião, credo ou crença, identidade de gênero, orientação sexual e situação migratória, além daqueles que estão em conflitos e apátridas. Pessoas que estão encarceradas, com condições crônicas de saúde (ex.: deficiências mentais), vivendo em moradias inadequadas e expostas à degradação ambiental, poluição do ar e em risco durante a mudança climática também são afetadas.

Ao final do artigo, os autores destacam cinco recomendações para melhor auxiliar na proteção de populações vulneráveis, a fim de reduzir desigualdades na área da saúde. A primeira delas refere-se à importância de executar uma cobertura universal de saúde e implementar sistemas de proteção social nos países; a segunda diz respeito ao compromisso de governos e parlamentos para financiar e salvaguardar os serviços sociais e de saúde; como terceira recomendação, há a necessidade da equidade digital para todos; na quarta indicação, a ênfase está na economia do cuidado; e, finalmente, a quinta recomendação evidencia a revitalização das relações entre governos e atores da sociedade civil, de modo a garantir que comunidades, populações vulneráveis e todas as identidades de gênero detenham papel central na tomada de decisões.

O estudo concluiu que o mundo chegou a um momento crucial, exigindo mais do que nunca uma resposta colaborativa para ampliar o acesso universal à saúde e proteção social. É preciso construir estratégias e políticas públicas que levam em conta sistemas de saúde e de assistência social mais resilientes, incluindo aqueles que vivem uma crise humanitária, para mitigar efeitos da pandemia, solucionar a desigualdade e melhorar a resiliência de comunidades vulneráveis.

93% dos imóveis rurais na Amazônia Legal e Matopiba ainda não têm CAR validado

Novo relatório do Observatório do Código Florestal aponta limitações na implementação da Lei que atrasam a restauração de cerca de 15 milhões de hectares de vegetação nativa

matopiba

Às vésperas de completar 10 anos, o Código Florestal Brasileiro anda devagar, após avanços e recuos. Segundo relatório do Observatório do Código Florestal, mais de um terço (36%) da área a ser regularizada não foi cadastrada por seus proprietários rurais no Sistema de Cadastro Ambiental Rural (Sicar). Dos cerca de 6,1 milhões de imóveis inscritos no Cadastro Ambiental Rural (CAR), apenas 3,4% foram analisados e tiveram seus dados validados. O relatório mostra também que metade do déficit de Áreas de Preservação Permanente (APP) e 65% do déficit de Reservas Legais (RL) no país estão concentrados em grandes propriedades rurais.

“Apesar do país contar com uma legislação ambiental que permite cumprir metas climáticas e atender aos anseios dos importadores, todos os indicadores sugerem que ela ainda não foi devidamente aplicada. Avançar na implantação do Código Florestal é o nosso maior desafio atualmente”, afirma Roberta del Giudice, secretária executiva do Observatório do Código Florestal. “A não aplicação da lei deixa o Brasil vulnerável a questionamentos ambientais, que só tendem a crescer. O acordo global de florestas, anunciado na COP26, e o projeto da União Europeia de barrar importações contaminadas por desmatamento são apenas dois exemplos da transformação pela qual o comércio internacional está passando”, observa.

Nos 11 estados que compõem a Amazônia Legal e o Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), regiões que sofrem intensa pressão de desmatamento e dos importadores de commodities agropecuárias, apenas 7% dos imóveis inscritos passaram por alguma etapa de análise dos órgãos ambientais. Em outros estados, o volume de avaliações vai de patamares entre 10 a 300 cadastros analisados em Alagoas, Maranhão, Goiás, Sergipe, Santa Catarina e Distrito Federal, até 72 mil cadastros avaliados e também validados no Espírito Santo, que é o estado mais avançado nesse processo. Minas Gerais, por outro lado, não possui dados disponíveis sobre a validação do CAR.

A análise e validação dos cadastros, que são autodeclaratórios, é de responsabilidade dos órgãos estaduais, que enfrentam limitações de pessoal e estrutura que comprometem a celeridade do processo, segundo o relatório do OCF. Isso impede a implantação de Programas de Regularização Ambiental (PRA), o instrumento legal que inicia a efetiva adequação de uma propriedade rural ao Código. Apenas 18 estados regulamentaram seus PRAs e, mesmo assim, várias de suas regras são de baixa qualidade técnica, o que inviabiliza sua operação ou leva a processos judiciais devido ao fato de reduzirem a proteção prevista no Código Florestal.

Além do baixo número de inscrições analisadas e validadas, cerca de 30% dos cadastros têm problemas de sobreposição com outras propriedades ou terras públicas. No Pará, por exemplo, foram cancelados mais de 4 mil cadastros em 2020. O estado possui 111.523 cadastros analisados e 1.449 cadastros validados.

Segundo o relatório do OCF, a área em que se aplica o CAR (área cadastrável) para imóveis rurais ocupa mais de 507 milhões de hectares no país. Com a exclusão das sobreposições, estima-se que cerca de 30% do total de 507 milhões de hectares da área rural do país ainda não foram cadastrados. Essas áreas, conhecidas como vazios do CAR, chegam a ocupar mais de 60% da área cadastrável no estado de Roraima e mais de 50% na Bahia. Oito estados têm mais de 40% de vazios do CAR em sua área cadastrável.

O relatório também trouxe a estimativa de déficit de vegetação nativa, ou seja, a área que precisa ser restaurada. São 2,3 milhões de hectares em Áreas de Preservação Permanente (APP) e 12,8 milhões de hectares em Reserva Legal (RL). Os grandes imóveis rurais são responsáveis por cerca de metade do déficit de APP e 65% do déficit de RL no país. São 345,5 mil hectares em imóveis pequenos e 8,2 milhões de hectares de déficit de RL e 1,1 milhão de hectares de déficit de APP em imóveis grandes.

Atraso na validação do CAR compromete fiscalização ambiental

O relatório do OCF aponta também que é baixo o número de ações judiciais relacionadas ao Código Florestal e ao desmatamento, indicando que o atraso na validação do CAR impede que órgãos de comando e controle usem adequadamente essa ferramenta em operações de monitoramento e fiscalização. Segundo o relatório, em 2018, apenas 13% das ações judiciais impetradas no Brasil estavam relacionadas ao meio ambiente, e os dados disponíveis não permitem uma separação entre ações para o combate ao desmatamento e outras. Nesse mesmo ano, em toda a região Norte, onde está localizada a Floresta Amazônica, apenas 6% das ações movidas pelo Ministério Público Estadual versavam sobre questões ambientais. No Pará, estado com maior índice de desmatamento em 2019, apenas 214 processos se relacionavam ao meio ambiente.

Segundo o relatório do OCF, “Esse cenário permissivo do descumprimento do Código Florestal contamina negativamente a sociedade brasileira e desacredita o país internacionalmente, trazendo prejuízos ao desenvolvimento sustentável do Brasil. As perdas decorrentes da não implantação do Código Florestal são econômicas, ambientais e sociais. Elas são diretamente responsáveis pela redução da biodiversidade, pelo desequilíbrio de ecossistemas, pelo desabastecimento hídrico, pelo aumento dos problemas de saúde, pela baixa produtividade agrícola e pela insegurança alimentar.”

De acordo com o mais recente levantamento do Mapbiomas, 78,3% da área de desmatamento no Cerrado – bioma responsável pela maior parte das exportações de commodities agrícolas do país – ocorreu dentro de propriedades privadas.

Sobre o Código Florestal – O Código Florestal brasileiro (Lei 12.651, de 25 de maio de 2012)

é a principal norma para o uso da terra e a conservação de florestas e outras formas de vegetação em terras privadas. Ele exige, por exemplo, que todos os agricultores conservem a vegetação natural de sua posse ou propriedade rural (com percentual de proteção variando entre 80% e 20%), além de proteger matas ciliares e topos de morros. A lei florestal pode ajudar a conservar mais de 162 milhões de hectares de vegetação nativa no Brasil, sequestrando cerca de 100 GtCO2, o que é crucial para que o país possa cumprir o compromisso assumido no âmbito do Acordo de Paris. Vale destacar que a maior parte das reduções nas emissões deveria resultar da contenção do desmatamento ilegal e da restauração de 12 milhões de hectares de florestas, ambas medidas necessárias para o cumprimento do Código Florestal, o que colocaria o setor agropecuário brasileiro na vanguarda da sustentabilidade mundial.

Além de poder levar a uma redução drástica do desmatamento, a implementação do Código Florestal também contribuirá para diminuir a violência no campo e promover a restauração de pouco mais de 15 milhões de hectares (cerca de 150 mil km2) – de déficits de vegetação natural. O Código Florestal tem o potencial de garantir a segurança hídrica e a sustentabilidade da produção agrícola, bem como reduzir os riscos jurídicos e ambientais para investidores, comerciantes e outros atores. Isso trará importantes benefícios sociais, ambientais e econômicos para o agronegócio, setor que responde por 21,4% do PIB brasileiro.

Sobre o Observatório do Código Florestal
O Observatório do Código Florestal foi criado em maio de 2013 para promover o controle social da implantação da Lei no 12.651, de 25 de maio de 2012 (Código Florestal brasileiro) e garantir integridade ambiental, social e econômica às florestas em áreas privadas. Atualmente a rede é composta de 36 organizações da sociedade civil, que se juntaram pelo objetivo comum de proteção, restauração e uso sustentável das florestas.

Clima extremo no Brasil: tempestade causa devastação no sul da Bahia e em Minas Gerais

clima-extremo-Brasil-810x540

O sul da Bahia e o nordeste de Minas Gerais estão sofrendo com os efeitos das fortes chuvas que atingiram a região nos últimos dias. Pelo menos sete mortes foram confirmadas nos dois estados, além de 175 feridos. De acordo com o governo baiano, quase 70 mil pessoas foram afetadas por enchentes e deslizamentos de terra. EstadãoFolha, g1O Globo e UOL, entre outros veículos, repercutiram os efeitos da tempestade.

A situação é particularmente desastrosa nos sul e extremo-sul da Bahia. O volume acumulado de chuvas chegou a superar os 450 mm em um período de 24 horas na última 5ª feira (9/12). De acordo com o governo do estado, 25 municípios decretaram situação de emergência. Muitos povoados e áreas rurais ficaram ilhados por conta do acúmulo de água, dificultando o resgate de feridos. Cerca de dez mil pessoas foram forçadas a deixar suas casas. Em Minas Gerais, as chuvas atingiram ao menos 28 municípios, deixando 2 mil pessoas desabrigadas.

Na BBC Brasil, o climatologista Francisco Eliseu Aquino (UFRGS) explicou as fortes chuvas como resultado da combinação de dois fenômenos. Primeiro, a formação da Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS) a partir de 5 de dezembro, que levou umidade da região amazônica para os litorais de Bahia, Espírito Santo, Rio de Janeiro e São Paulo. E, segundo, o surgimento de uma área de baixa pressão no Atlântico, próximo à região costeira, que evoluiu para um sistema de depressão subtropical, batizada de Ubá.

A ZCAS é um fenômeno comum na região nessa época do ano; já a depressão subtropical é atípica, com condições para se tornar uma tempestade tropical. “As mudanças na circulação geral da atmosfera sugerem para nós que o oceano mais quente na costa do Brasil poderia formar com mais frequência áreas de baixa pressão como essa, levando à depressão subtropical”, assinalou Aquino.

A MetSul também explicou como a Ubá se formou, destacando que a tempestade foi um dos maiores ciclones do mundo registrados no último final de semana. De acordo com os meteorologistas, a tempestade subtropical deve se distanciar da costa, em direção ao Atlântico Sul.

Em tempo

Enquanto a chuva inunda o sul da Bahia, a região Sul do Brasil encara uma escassez hídrica que deve perdurar por mais alguns meses. O Valor destacou análise do INMET apontando para os efeitos do La Niña nos níveis de precipitação até fevereiro no Brasil. O estado mais afetado pela estiagem é o Rio Grande do Sul, que já enfrenta uma situação delicada, com perdas na produção agrícola em decorrência da falta de chuvas.

ClimaInfo, 13 de dezembro de 2021.

blue compass

Este texto foi inicialmente publicado pelo ClimaInfo [Aqui! ].

O Ecocídio na Amazônia na Oceania e em Haia

Juntando vozes para um objetivo comum

16 de dezembro, a partir das 9am (horário de Brasília) .

Organização: No Peace Without Justice e Seja Legal com a Amazônia.

Moderação: Michelle Reyes Milk (No Peace)
A organização italiana No Peace Without Justice e campanha brasileira Seja Legal com a Amazônia tem o prazer de convidá-los para o evento virtual “Ecocídio na Amazônia na Oceania e em Haia”, que acontecerá no dia 16 de dezembro de 2021, à margem da Assembleia dos Estados Partes do Tribunal Penal Internacional, atualmente em reunião em Haia.

O evento visa contribuir para as discussões em curso sobre o ecocídio, ou seja, qualquer ato ilegal ou arbitrário realizado sabendo-se que existe uma possibilidade significativa de causar graves danos ao meio ambiente, promovendo a conscientização do público e estimulando a vontade política para a criminalização desse tipo de ato, tanto em nível nacional quanto internacional. Mais importante ainda, o evento convidará os líderes globais a se comprometerem e se unirem ativamente à nossa jornada em direção a proteções ambientais mais rigorosas através da lente da justiça criminal.

A fim de incluir vozes locais e especialistas de nível institucional, o evento também enriquecerá as discussões em andamento, trazendo perspectivas e testemunhos diretos dos povos e comunidades mais afetados pela destruição ambiental.

Entre os convidados estarão o pesquisador sênior do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) e porta-voz da Seja Legal, Paulo Barreto; Olympia Bekou (professora de Direito Internacional da Nottingham University) ; James Baghwan (secretário-geral da Conferência de Igrejas do Pacífico); Marie Toussaint (membro do Parlamento Europeu); e Kattrin Jadin (membro do Parlamento Belga).

A tradução simultânea será disponibilizada em inglês, espanhol, português, francês e italiano .

Você pode registrar sua participação aqui para receber o link e participar do evento.

Siga-nos no Facebook , Twitter e Instagram para mais atualizações!

Baía da Guanabara, um paraíso intoxicado pela indústria do petróleo e gás

No dia 11 de novembro publiquei neste blog um texto sobre a situação de calamidade criada na Baía da Guanabara pela indústria de petróleo e gás que transformou um rico ecossistema em uma zona aberta de sacrifício, com a instalação de múltiplos terminais e pontos de despejos de todo tipo de poluição química. Pois bem, no dia de ontem, o jornal O Globo publicar uma matéria intitulada “Paraíso hostil: óleo, lixo, esgotos e efluente tóxicos. tudo vai parar na Baía da Guanabara” de autoria do jornalista Rafael Galdo (ver imagem abaixo).

paraiso hostil 1

A matéria faz uma descrição bem elaborada dos diferentes tipos de fontes de lançamento de poluentes no interior do ecossistema da Baía da Guanabara, e traz um mapa que aponta para a situação razoavelmente heterogênea em termos de níveis de degradação, bem como os principais “players” envolvidos na chegada de substâncias químicas que afetam a vida em uma região de alto interesse ecológico (ver mapa abaixo).

paraíso tóxico

O interessante é que, muito em função da ação de monitoramento realizado pela Associação Homens do Mar da Baía da Guanabara (Ahomar), há um conhecimento relativamente forte das principais fontes de poluição em pontos principais da baía. Tal conhecimento deveria estar permitindo, por exemplo, que órgãos ambientais (i.e., INEA e IBAMA) realizassem ações para coibir atividades ilegais e que atentam contra a integridade ecológica da Baía da Guanabara.  Entretanto, como relatado na matéria assinada por Rafael Galdo, isto aparentemente não está ocorrendo na forma e intensidade necessárias para se evitar uma degradação ainda maior.

O que me parece evidente é que além dos problemas já tradicionais de lançamento de esgotos in natura e de lixo, o crescimento desenfreado e descontrolado das atividades de petróleo e gás representam atualmente o maior risco ambiental e social não apenas para o interior da Baía da Guanabara, mas também para os mais de 11 milhões de habitantes localizados no seu interior ou entorno. 

Apesar deste ser um tema “batido”, me parece que em 2022 há que se cobrar uma ação mais diligente dos órgãos ambientais e também da comissão de meio ambiente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), na medida em que os riscos existentes poderão gerar ainda um evento de grandes proporções no interior da Baía da Guanabara.

Finalmente, há que se enfatizar a importância do trabalho do pescadores da Ahomar que estão desenvolvendo ações de monitoramento das atividades poluidoras, sem as quais não teríamos como saber o que está acontecendo em um dos mais belos cartões postais do Brasil que foi transformado em “paraíso hostil”.

‘Te conto de um parque’, novo podcast do Semeia, conduz a uma viagem pelos parques do país embalada por literatura e música

Iniciativa visa ampliar a proximidade das pessoas com as áreas protegidas do país

banner-podcast-7baa606e21a477e3202198109a60f26e

O Instituto Semeia acaba de lançar o podcast “Te conto de um parque”, produzido com o apoio da Agência Alemã de Cooperação Internacional (GIZ – Brasil). Cada episódio contará com informações sobre aspectos históricos, culturais e naturais de diversas áreas protegidas do país, e tudo isso embalado por trechos de obras da literatura e música brasileira, além de relatos de profissionais que se dedicam à conservação desses espaços.

A iniciativa surgiu com o propósito de estimular o interesse das pessoas pelos parques brasileiros, ainda pouco conhecidos e visitados por boa parte da população. “O ‘Te conto de um parque’ vem para ampliar a compreensão das pessoas sobre o que essas áreas realmente significam, promovendo a criação e o fortalecimento de laços afetivos com os parques. E por toda a relevância ambiental, social e cultural das unidades de conservação para a sociedade, entendemos ser fundamental criar iniciativas como essa, que ajudem a estimular interesse, gerar pertencimento e orgulho pelos parques e outras áreas protegidas”, explica o diretor-presidente do Instituto, Fernando Pieroni.

A primeira temporada do podcast contará com seis episódios, lançados às sextas-feiras nas principais plataformas de áudio (Spotify e Deezer) e no Conexão Semeia. A condução dessa expedição pelos parques fica por conta da jornalista Paulina Chamorro.

“É importante que a gente conheça as áreas naturais conservadas do Brasil para entendermos que aquilo é um patrimônio de todos nós e também para ajudar a entender os novos desafios que temos pela frente, como as mudanças climáticas, perda de biodiversidade e outras ameaças. São nesses ambientes conservados que estão resguardados todos os benefícios que a natureza oferece coletivamente. Então, o ‘Te conto de um parque’ vem para encantar, para trazer conhecimento e contribuir com histórias legais sobre os parques brasileiros”, avalia a jornalista.

A estreia do podcast foi sobre o Cerrado. “Partimos com as histórias e curiosidades do Parque Nacional Grande Sertão Veredas (MG), cujo nome é inspirado no livro de João Guimarães Rosa, um dos maiores escritores brasileiros”, conta Pieroni. Não por acaso, esse episódio traz alguns trechos dessa obra que dá nome à unidade na voz de André Dib, um dos principais fotógrafos documentaristas do Cerrado brasileiro.

Do Cerrado, a viagem segue para o Arquipélago de Abrolhos (BA), protagonista do segundo episódio do podcast. Nele, mergulhamos nos relatos sobre a origem natural e cultural dessa área protegida – incluindo a ilustre visita de Charles Darwin ao arquipélago, em 1832 –, além de conhecer a história de Berna Barbosa, agente ambiental que há duas décadas se dedica à conservação dessa unidade.

Na sequência, o “Te conto de um parque” adentra o Pantanal Matogrossense (MT), tema do terceiro episódio da série. Quais animais habitam o local e como se deu sua formação geológica? Esses e outros causos sobre a terra d’água são abordados nesta edição do podcast, que conta ainda com trechos do novo livro de Luciano Candisani, narrados por André Casé.

O quarto episódio é dedicado ao Parque Estadual da Cantareira (SP), que possui uma das maiores matas tropicais nativas do mundo em plena São Paulo. As histórias da criação e a importância dessa unidade, que abriga 7.916 hectares da Mata Atlântica, são embaladas por canções do Emicida, cidadão ilustre da região. Ainda nesta edição é possível conferir uma entrevista especial com o biólogo Luciano Zandoná.

Também não poderia faltar nessa temporada a história do primeiro parque nacional do país. O Itatiaia (RJ) é tema do quinto episódio do podcast ‘Te conto de um parque’. Esse guardião da Mata Atlântica atrai milhares de visitantes todos os anos e sua exuberância foi motivo de comoção para o poeta Vinícius de Moraes, que fez dessa área seu refúgio natural para escrever e se reconectar com a natureza.

E, para fechar com chave de ouro, o sexto e último episódio traz em pauta o Parque Nacional do Iguaçu (PR), patrimônio natural da humanidade. Que registros históricos e culturais estão abrigados nessa área? E como é o parque a partir do ponto de vista de quem trabalha nele? Essas questões foram abordadas em uma entrevista especial com Cibele Munhoz, atual chefe dessa unidade de conservação.

Serviço

“Te conto de um parque”

Data: às sextas

Onde: https://conexao.semeia.org.br/podcast

Sobre o Instituto Semeia

Criado em 2011, o Instituto Semeia é uma organização da sociedade civil sem fins lucrativos. Com sede em São Paulo (SP), trabalha para transformar áreas protegidas em motivo de orgulho para brasileiras e brasileiros. Atua nacionalmente no desenvolvimento de modelos de gestão e projetos que unam governos, sociedade civil e iniciativa privada na conservação ambiental, histórica e arquitetônica de parques públicos e na sua transformação em espaços produtivos, geradores de emprego, renda, e oportunidades para as comunidades do entorno, sem perder de vista sua função de provedores de lazer, bem-estar e qualidade de vida. São pilares de sua atuação: a geração e sistematização de conhecimento sobre a gestão de unidades de conservação; o compartilhamento de informações por meio de publicações e eventos; a implementação e o acompanhamento de projetos com governos de todos os níveis, como forma de testar e consolidar modelos eficientes e que possam ser replicados no país.

A fuga do Facebook para o futuro

Com o Metaverso, Mark Zuckerberg promete uma nova Internet agradável com mais comunidade e intercâmbio. Uma nova era de capitalismo de vigilância total se esconde por trás da fachada colorida

metaverso

Teremos que nos acostumar com essas imagens em algum momento: um homem com óculos de realidade virtual que está temporariamente submerso em uma realidade virtual.FOTO: SIMON DAWSON, REUTERS

Por Marko Kovic para o Woz

No dia 28 de outubro, o Facebook, o maior de todos os grupos de mídia social, mudou de nome, que visa mostrar claramente o foco futuro do gigante da tecnologia: o metaverso. Mas o que é isso?

De acordo com a visão de Mark Zuckerberg, o fundador e chefe do Facebook (e agora do Meta), o Metaverso é uma “Internet incorporada” na qual nós, como usuários, não apenas olhamos para “a experiência”, mas também “estamos certos no meio “. Um lugar onde podemos fazer “quase tudo o que imaginamos”: reunir-nos com amigos e família, trabalhar, aprender, brincar, fazer compras, “criar” coisas. O metaverso como o próximo estágio evolutivo da internet deve ser intuitivo, acessível e autoexplicativo. Um mundo virtual tridimensional e colorido no qual nos movemos com nosso avatar pessoal e interagimos naturalmente com outras pessoas. E não ereto e tranquilo como antes com teclado, mouse e smartphone. Para mergulhar no admirável mundo novo online,

Pode surpreendê-lo que o Facebook – desculpe meta – está procurando uma grande novidade. Afinal, o império tecnológico em torno do Facebook, Instagram e Whatsapp ainda é o líder mundial nas redes sociais, que a concorrência está emulando. O grupo gerou mais de US$ 29 bilhões em lucro somente em 2020.

Mas os anos de gordura podem acabar logo. O crescimento de usuários: os números internos estão estagnados, as gerações mais jovens preferem brincar em plataformas concorrentes, como Tiktok e Snapchat, e a crescente pressão política em torno dos efeitos sociais negativos do Facebook e companhia pode frustrar o modelo de negócios atual na forma de regulamentação mais rígida . O metaverso é a grande fuga que temos pela frente, antes que seja tarde demais.

Mark Zuckerberg pode ser o proponente mais famoso do metaverso, mas não é o seu inventor. Esta homenagem vai para o escritor de ficção científica Neal Stephenson. Ele concebeu o Metaverso em seu clássico cyberpunk “Snow Crash” de 1992 como uma visão distópica do futuro: um mundo virtual tridimensional operado por uma empresa de tecnologia gigantesca em que os maiores licitantes podem pagar por bens virtuais de prestígio – melhores avatares, propriedades maiores , casas mais extravagantes – enquanto o resto está lutando pelas migalhas digitais. Do ponto de vista das empresas de tecnologia, o Metaverso de Stephenson contém elementos utópicos e positivos: qualquer pessoa que cria e controla um mundo virtual como uma empresa reúne uma quantidade incrível de poder econômico.

Capitalismo em overdrive

O meta de Zuckerberg não é a primeira tentativa no metaverso. O experimento metaverso mais duradouro até hoje é o mundo online “Second Life” lançado pela Linden Lab em 2003 (por anos na Internet). Comparado com as visões brilhantes do Meta, o Second Life parece um pouco antiquado, completamente sem fones de ouvido de RV e realidade aumentada, e o número de usuários está caindo. Os videogames online como “Fortnite” da Epic Games agora estão ultrapassando o “Second Life”. “Fortnite” está desfrutando de enorme popularidade com dezenas de milhões de usuários ativos. Ele viu a luz do dia como um videogame puramente online, mas os mecanismos reais do videogame estão cada vez mais desaparecendo em segundo plano. Este desenvolvimento é intencional: a Epic Games anunciou em abril que

Qual é o modelo de negócios do Metaverso? As plataformas de mídia social de hoje geram seus lucros principalmente por meio de anúncios feitos sob medida que podem vender a seus clientes graças aos enormes reservatórios de dados de bilhões de usuários. Mas o potencial econômico do Metaverso abrange muito mais do que publicidade antiquada, como o capitalista de risco Matthew Ball descreve em seu influente ensaio Framework for the Metaverse nos círculos de tecnologia. Deve criar um ciclo econômico independente e fechado, cujo valor agregado ocorra no próprio Metaverso. A chave para isso: escassez artificial de bens virtuais que os residentes do Metaverso podem comprar e vender dentro. No Metaverso, devemos querer ter coisas virtuais exclusivas – e gastar dinheiro real com elas. Você gostaria de construir uma casa para o seu avatar? Não tem problema: você pode simplesmente comprar um pedaço do terreno virtual limitado e construir uma casa virtual nele. Mais tarde, você pode vender ambos novamente com lucro. O operador do Metaverso cobra uma comissão sobre essas transações. Et voilà: um ciclo econômico virtual baseado exclusivamente no consumo sem fim e na luta por bens artificialmente escassos.

Não há razões técnicas para que os bens virtuais no Metaverso sejam escassos e exclusivos. Pelo contrário: o que é revolucionário na Internet é que os bens digitais podem ser reproduzidos quase indefinidamente com praticamente nenhum custo adicional. As enciclopédias impressas de tempos anteriores foram negadas à classe socioeconômica alta, que podia pagar pelos livros caros. A Wikipedia, por outro lado, pode ser usada por toda a humanidade ao mesmo tempo. É aqui que reside o potencial radicalmente igualitário da Internet e do digital em geral: o digital é uma saída para a roda do hamster da escassez e exclusividade projetada para maximizar os lucros. Mas é precisamente esse potencial que se pretende destruir com o Metaverso.

O que também é notável sobre a economia do metaverso é que o trabalho está se tornando fundamentalmente obsoleto: os bens virtuais pelos quais estamos competindo são produzidos automaticamente com o apertar de um botão. Mas isso não significa que as pessoas estão se tornando mais livres em seu modo de vida – pelo contrário: a automação do Metaverso visa manter as pessoas presas em uma espiral infinita de consumo. Ele, portanto, possui traços de um pós-capitalismo bizarro, no qual as restrições econômicas clássicas são superadas graças à automação – apenas para introduzir uma forma ainda mais nítida de exploração.

Dinheiro real para bens virtuais

Por que devemos participar do Metaverso? Se for para líderes como Mark Zuckerberg ou Satya Nadella, o CEO da Microsoft, não teremos escolha: o Metaverso não deve apenas oferecer atividades de lazer, mas também se tornar o lugar onde trabalharemos juntos no futuro. O escritório doméstico de hoje se torna o Metaverso Office: nos encontramos com colegas de trabalho no escritório digital, realizamos reuniões na sala de conferência digital e praticamos conversa fiada com um aperitivo digital no final do dia de trabalho. O Metaverso não deve ser uma diversão opcional, mas um requisito básico para o tão elogiado “mundo do trabalho de amanhã”.

Depois de sermos empurrados para o metaverso sob pressão não muito suave, as empresas de tecnologia podem usar todo o conhecimento que reuniram sobre a manipulação comportamental nos últimos vinte anos para nos amarrar. As plataformas e aplicativos de mídia social já estão usando vários truques cognitivos e neuropsicológicos para literalmente “hackear” o sistema de recompensa do nosso cérebro e nos manter presos à tela pelo maior tempo possível. O exemplo de “Fortnite” já demonstra que este tipo de influência também pode funcionar no Metaverso. “Fortnite” é basicamente gratuito, mas gera vários bilhões de dólares americanos em vendas anualmente com as chamadas microtransações, nas quais os usuários voluntariamente gastam dinheiro real em pequenos itens adicionais, como fantasias e armas para seus avatares.

O psicólogo social e filósofo Shoshana Zuboff descreve a era atual da economia de dados digitais como capitalismo de vigilância. Quando usamos a Internet, somos medidos, rastreados e comercializados digitalmente em cada etapa do caminho. Os dados obtidos desta forma são a base sobre a qual os impérios de gigantes da tecnologia como Google e Facebook são construídos. Mas ainda existem certos retiros digitais e meios de pelo menos uma pequena eliminação desse monitoramento: bloqueadores de rastreamento, navegação anônima, aplicativos e comunidades que não são tão ávidos por dados.

Presos no panóptico

O metaverso continua apertando o parafuso capitalista de vigilância e também elimina essas últimas reservas de liberdade digital. Isso ocorre porque a arquitetura do Metaverso inevitavelmente assume a forma de um panóptico capitalista de vigilância total, no qual todos os cantos podem ser vistos. A estrutura de propriedade digital e os ciclos de consumo sem fim para bens digitais que estão em falta só podem ser gerenciados de forma eficiente se cada momento de nossa atividade online for monitorado de forma abrangente. Com o Metaverso, o monitoramento permanente e a mercantilização de nosso comportamento não são mais apenas um efeito colateral desagradável, mas o objetivo central do exercício.

É aí que reside a grande vertigem do Metaverso. Não é uma evolução inofensiva e colorida da Internet com ótimos recursos novos. O Metaverso é a ambição de redesenhar a Internet do zero de acordo com a lógica do capitalismo de vigilância. A consequência para nós como sociedade? Os grandes problemas de hoje atingem um novo nível de escalada com o Metaverso. Se a comunicação livre e a democracia já estão ameaçando ficar sob as rodas com as plataformas de mídia social, elas não murcharão o suficiente mais do que uma nota marginal no Metaverso.

blue compass

Este texto foi escrito inicialmente em alemão e publicado pelo jornal “Woz” [Aqui!].