Associação de funcionários do Banco Mundial critica indicação de Abraham Weintraub e cita declarações contra a China

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Abraham Weintraub aproveita tempo ocioso para visitar monumentos em Washington DC. Enquanto isso, associação de funcionários do Banco Mundial lembra suas declarações contra a China e os chineses. Fonte: Página  de Abraham Weintraub no Twitter

A Associação de Funcionários do Banco Mundial (WBG Staff Association) divulgou nesta quarta-feira (24) a carta enviada ao ao Conselho de Ética da instituição com críticas duras ao ex-ministro da Educação, Abraham Weintraub. No texto, os signatários pedem que a nomeação do ex- ministro da Educação do governo Bolsonaro a um cargo no banco seja reavaliada.

O documento pede, ainda, que haja uma apuração sobre declarações de caráter racista dadas por Weintraub — no inquérito enviado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) à primeira instância —, que o ex-ministro seja notificado pelo banco e que sua nomeação como diretor executivo no conselho administrativo fique suspensa até o fim das investigações.

“Solicitamos formalmente ao conselho de ética que reveja os fatos por trás dessas múltiplas alegações, com intenção de a) colocar sua indicação em espera até que essas alegações possam ser revisadas e b) garantir que o Sr. Weintraub seja avisado de que o tipo de comportamento pelo qual ele é acusado é totalmente inaceitável nesta instituição.”

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Enviada a todos os funcionários do banco, a carta cita as ameaças feitas por Weintraub a ministros da Suprema Corte do Brasil, além dos comentários racistas que o ex-ministro fez contra a China e minorias, como a população indígena brasileira.

“De acordo com múltiplas fontes, o senhor Weintraub publicou um tuíte de carga racial, ridicularizando o sotaque chinês e culpando a China pela COVID-19, e acusando os chineses de ‘dominação mundial’; levando a Suprema Corte a abrir uma investigação por crime de racismo.”

Segundo a associação, “o Banco Mundial acaba de assumir uma posição moral clara para eliminar o racismo em nossa instituição” e, portanto, o comportamento do ex-ministro é inaceitável.

Como se vê, enquanto estiver diretor executivo do Banco Mundial, Weintraub terá que se comportar de acordo com os protocolos do cargo; coisa que ele ignorou completamente enquanto foi ministro da Educação do governo Bolsonaro.

A estranha fuga de Abraham Weintraub para a Terra do Uncle Sam

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Abraham Weintraub vai para os EUA e deixa para trás um rastro de questões estranhas para serem respondidas pelo governo Bolsonaro

Quando se pensa que as estranhezas que marcam o governo Bolsonaro já chegaram a um limite, a realidade vem mostrar que o buraco sempre pode ser mais fundo. O fato da vez é a escapada protagonizada pelo ex-ministro da Educação, Abraham Weintraub, que rumou para os EUA na velocidade daqueles que estão indo levar os filhos na Dysnelândia.  No caso de Weintraub, até agora não ficaram claras as circunstâncias pelas quais eles conseguiu entregar nos EUA, onde a entrada de brasileiros comuns está proibida pelo governo Trump.

A coisa é tão rocambolesca que o próprio Weintraub teve que confirmar via a rede social Twitter, já na gloriosa Miami, que tinha conseguido se escafeder do Brasil (ver imagem abaixo).

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Outra esquisitice dessa escapada é que a publicação da exoneração de Weintraub só se deu via uma edição extraordinária do Diário Oficial da União que foi publicada neste sábado, quando supostamente Abraham Weintraub já se encontrava em território estadunidense (ver imagem abaixo).

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Essa sincronia entre chegada nos EUA e demissão do cargo de ministro da Educação tem levado a muitos analistas a concluir que Weintraub entrou pelos portões da imigração em Miami de posse de um passaporte diplomático que foi tornado inválido por sua exoneração quando ele ainda estava no ar.

Mas, convenhamos, toda essa velocidade em sair do Brasil não é explicada apenas pelo que já se sabe de todas as pataquadas em que Abraham Weintraub esteve publicamente envolvido enquanto esteve ministro da Educação.  A verdade é que a ruindade da gestão no Ministério da Educação pode ser até um crime contra o futuro do Brasil, mas isto não está necessariamente tipificado no Código Penal. Sair assim no Brasil, meio que levando apenas as roupas do corpo, é sinal de que algo mais grave ainda está por vir a público, restando agora saber do que é.

Como vivi quase 7 anos nos EUA e tive dezenas de encontros com agentes da imigração, tenho quase certeza que Abraham Weintraub não entrou lá sem a devida proteção do governo Bolsonaro, a começar pela posse de algum documento oficial explicando o porquê do ex-ministro estar chegando lá neste momento, e quanto tempo a estadia deverá durar. Além disso, como ninguém chega nos EUA sem ter que explicar para onde está se dirigindo, há a grande possibilidade de que Weintraub não saiu do Brasil sem eira nem beira. Me ocorre ainda a lembrança de que dada a atual restrição para a entrada de brasileiros nos EUA, Weintraub não teria entrado sem algum tipo de visto daqueles que se concede apenas para “pessoas especiais”, o que implica em algum tipo de colaboração da embaixada estadunidense em Brasília.

Todas essas questões tornam a fuga de Weintraub ainda mais estranha e cercada de mistérios. Agora nos resta esperar o que será revelado nos próximos dias. Entretanto, apoiada ou não, essa fuga adiciona pitadas graves de crise a um governo que já está com uma cota bastante alta de imbróglios para resolver.

Enquanto isso Weintraub poderá, digamos, curtir a vida na terra do Tio Sam, como se não houvesse amanhã, que, aliás, talvez seja uma boa escolha para ele.

 

 

O Governo Bolsonaro está em queda livre

Confidentes do presidente caem ou são presos, o vírus se espalha a um ritmo alarmante. O gabinete afunda no caos

grafite 1Um grafite em São Paulo mostra um cabo de guerra entre médicos de um lado e o presidente Bolsonaro do outro lado. O chefe de estado é apoiado pelo vírus corona (Foto: AP)

Por Christoph Gurk de Buenos Aires para o Süddeutsche Zeitung

Enquanto o número de pacientes infectados com o novo coronavírus aumentou para mais de um milhão no Brasil, o governo do país está afundando cada vez mais no caos. O ministro da Educação do Brasil, Abraham Weintraub, anunciou sua renúncia na quinta-feira. O ex-banqueiro de investimentos era considerado um linha-dura da direita no governo. Ele lamentou a “infiltração socialista” de seu ministério e cortou drasticamente os fundos das universidades públicas porque as considerava um refúgio de comunistas.

Weintraub também interferiu em outras áreas da política. Nas últimas semanas, ele foi atingido por ter cometido ataques racistas contra a China em conexão com a pandemia d COVID-19. Há algumas semanas, ele comparou as buscas domiciliares da polícia federal com os apoiadores de Bolsonaro à Noite dos Cristais que ocorreu em 9 de novembro de 1938 na Alemanha nazista. E ele chamou os juízes da Suprema Corte de “vagabundos” que deveriam estar na prisão.

A renúncia de Weintraub é provavelmente a conseqüência da crescente pressão do judiciário brasileiro que o está investigando por seus comentários racistas e envolvimento em uma rede de notícias falsas. Para o governo de Jair Bolsonaro , a saída de Weintraub é uma perda irritante. O ministro era particularmente popular entre os cada vez mais importantes apoiadores de direita. A renúncia é vista como uma derrota para o governo na luta com o Supremo Tribunal Federal.

As estações de TV transmitem a prisão ao vivo

Quase simultaneamente à renúncia de Weintraub, a polícia brasileira prendeu Fabrício Queiroz, um íntimo confidente da família Bolsonaro, na quinta-feira (18/06). O presidente e o ex-policial se conhecem desde os anos de 1980. Mais recentemente, o jogador de 54 anos trabalhou oficialmente como motorista do filho de Jair Bolsonaro, Flávio. Não-oficialmente, diz-se que Queiroz ajudou o filho presidencial, que era ativo na política, a desviar fundos públicos para suas próprias contas. O caso pode ter consequências desagradáveis ​​para Jair Bolsonaro. Ele foi eleito para o cargo em 2018, principalmente porque foi considerado um político de fora do sistema político por muitos brasileiros, sem estar envolvido na ampla cultura de corrupção na política, sem conexão com as práticas de nepotismo e enriquecimento pessoal.

O presidente e sua família negam todas as alegações; o próprio Queiroz fugiu depois que as acusações se tornaram conhecidas. A polícia o prendeu perto de São Paulo, na propriedade de um dos advogados da família Bolsonaro. A prisão causou sensação no Brasil. Dos helicópteros, as equipes das emissoras de TV transmitiram a prisão ao vivo.

O judiciário está aumentando a pressão sobre o presidente brasileiro. Outra investigação já está em andamento contra Jair Bolsonaro: ele teria usado seu cargo político e poder para impedir a investigação da Polícia Federal sobre seus filhos. Além disso, os índices de aprovação do presidente continuam em declínio no decorrer da pandemia da COVID-19. Na noite de sexta-feira, o Brasil deverá exceder a marca de um milhão de infectados.

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Este artigo foi publicado originalmente pelo jornal Süddeutsche Zeitung [Aqui!].

Abraham Weintraub é apenas o sintoma de uma doença mais grave

weintraub olhoAbraham Weintraub, Mestre em Administração na área de Finanças pela Faculdade Getúlio Vargas e professor da Unifesp, está ministro da Educação no governo Bolsonaro, onde tem causado graves danos às universidades públicas

Acostumado a ser avaliado nas variadas esferas que compõe a vida de um professor universitário, sempre me fascino com o fato que temos um ministro da Educação, o “professor” Abraham Weintraub, cujo CV Lattes (uma espécie de pedra filosofal da ciência brasileira) não alcança nem os de vários dos meus orientandos. Aliás, noto com curiosidade que Weintraub não atualiza o seu CV Lattes desde o longínquo dia de 07  de março de 2017; coisa que não me seria permitida já que como membro de dois programas de pós-graduação não me seria permitida por causa das cobranças feitas pelo processo de avaliação realizada pela “Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior” (CAPES), agência que, interessantemente, está subordinada ao mesmo ministério que comandado por ele.

Eu me pergunto por que depois de tanto tempo trabalhando para desmanchar o sistema universitário que é a base fundamental do sistema nacional de ciência e tecnologia, não há uma exposição mais contundente das limitações acadêmicas de Abraham Weintraub, já que sua inapetência para o uso correto da língua portuguesa, ele mesmo já demonstra cotidianamente nas redes sociais.  Esse silêncio explica, ainda que parcialmente, toda a desenvoltura com que Weintraub consegue agir, seja atacando ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) ou toda uma área de conhecimento que é o das Humanidades.

A verdade é que se o Brasil fosse um país que respeitasse minimamente o seu sistema educativo, Abraham Weintraub não seria ministro da Educação, nem tampouco seria docente em uma universidade pública, já que seu despreparo acadêmico é evidente. Mas como estamos no Brasil, Weintraub é ambas as coisas, sem que ninguém se dê ao trabalho de perguntar sobre como isso é tolerado pelos cardeais que ocupam as direções das organizações acadêmicas brasileiras compostas pelos personagens mais ilustres da ciência brasileira. A verdade é que Abraham Weintraub é muito fraco até para levar a cabo o projeto de privatização para o qual ele foi colocado no posto de ministro da Educação para executar.

Mas já conheci muitos Weintraubs ao longo dos meus 40 anos de vida universitária, desde que adentrei os bancos escolares da Universidade Federal do Rio de Janeiro. E após encontrar os incontáveis similares de Abraham Weintraub, a única explicação que eu tenho é que há um molde de ondes esses personagens emergem, pois eles são onipresentes, sempre com posições que a maioria prefere descontar como “malucas” ou “excêntricas”, como se a loucura concedesse uma espécie de passe livre a posturas que vão de encontro ao que as universidades deveriam oferecer em termos da necessária construção de um sistema acadêmico e científico que possa contribuir para um modelo societário que nos permita desmantelar o que aí está e, que, claramente serve apenas a uma minoria privilegiada.

O interessante é que esses personagens que seguem o molde acadêmico “a la Weintraub” não falham. Hoje ao ler que um outro grupo de militares de pijama havia divulgado outro manifesto contra o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Celso de Mello, e que entre os aderentes havia uma “professora doutora”  fui verificar o quilate do CV Lattes da signatária. E não deu outra, a produção mostrada por ela é pouco melhor do que a registrada por Weintraub. A peculiaridade em relação a essa outra personagem foi descobrir que ela é integrante da Academia Brasileira de Defesa, da qual é “Acadêmica Perpétua” (seja isso lá o que for). E a partir daí, ela se soma na tentativa de intimidar o STF. No melhor estilo Weintraub.

Em comum o que os “Weintraubs” têm é seu evidente desprezo pelo que outros conquistaram a mais a partir do próprio esforço, bem como a tentativa de impor aos outros aquelas tendências obscuras que possuem dentro de si.  Entretanto, o problema real é que, estando na posição de ministro da Educação, Abraham Weintraub não só causa danos incomensuráveis ao que se levou tanto tempo para construir, mas como habilita os seus assemelhados a se portarem como seus representantes direitos dentro das instituições onde estão, em uma espécie de oficialização do besteirol como critério relevante para definir a qualidade acadêmica.

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Governo do Distrito Federal multou Abraham Weintraub por não usar máscara em público

Por último, acabo de saber que Abraham Weintraub foi multado pelo governo do Distrito Federal por ter comparecido ontem sem máscara a uma manifestação organizada pelos apoiadores do presidente Jair Bolsonaro. Esse tipo de punição, ainda que irrelevante do ponto de vista financeiro, explicita ainda mais a essência do que este personagem representa. É que se nem em meio a uma pandemia mortal, que já ceifou mais de 40.000 mil vidas apenas no Brasil, o sujeito se adequa a regras básicas de civilidade,  como aceitar que ele seja ou esteja ainda na posto que está? 

Já basta! Protestos com a citação nazista pelo ministro da Educação do Brasil

weintraub deutschAbraham Weintraub comparou as buscas domiciliares da Polícia Federal l brasileira entre políticos com a “Noite dos Cristais”.   Organizações judaicas estão indignadas com essa comparação.

Organizações judaicas nos Estados Unidos e a embaixada de Israel no Brasil protestaram contra a comparação nazista do ministro da Educação do Brasil, Abraham Weintraub. Como noticiou a mídia brasileira na quinta-feira, o ministro comparou as buscas domiciliares pela polícia federal brasileira com o “Kristallnacht” em 9 de novembro de 1938 na Alemanha nazista e seus argumentos contra famílias, empresas e sinagogas judias.

Na quarta-feira, a polícia federal realizou buscas domiciliares contra políticos,  empresários e blogueiros, sob as instruções do Supremo Tribunal Federal. Dizem que fazem parte de uma rede que distribui notícias falsas sobre os oponentes do presidente Jair Bolsonaro .  Membros do congresso nacional e do Supremo Tribuna Federal (STF) também foram alvos de difamação e ameaças.

Weintraub então twittou que a ação policial seria “lembrada como a Noite Brasileira de Cristal”, a “imprensa socialista” chamaria “Sieg Heil” de alegria. Ele também forneceu uma foto na qual capangas nazistas adornam uma loja judaica com pôsteres “Alemães! Defenda-se. Não compre de judeus! ”Nos eventos de 1938, pelo menos 400 judeus foram assassinados e outros 30.000 foram presos.

“Já  basta!”

A embaixada de Israel em Brasília criticou a “banalização da memória da tragédia do povo judeu”. A política do Brasil deve, por favor, manter o Holocausto fora da controvérsia política e ideológica. O Holocausto, com seus seis milhões de vítimas, não deve ser comparado a eventos políticos.

O Comitê Judaico Americano nos Estados Unidos disse: “Basta!” O abuso político repetido dos termos do Holocausto por membros do governo brasileiro é um insulto à comunidade judaica e uma zombaria das vítimas e sobreviventes do terror nazista.

O ministro Weintraub disse depois das críticas que seus avós eram sobreviventes dos campos de concentração nazistas, razão pela qual ele “tinha o direito de falar sobre o Holocausto”.

O  STF já está investigando alegações de racismo contra o ministro conhecido por seu temperamento ardente. Por outro lado, o ministro das Relações Exteriores Ernesto Araújo comparou as medidas de isolamento recomendadas em todo o mundo diante da crise do coronavírus aos campos de concentração nazistas em abril.  Finalmente, o presidente  Jair Bolsonaro já descreveu o Partido Nacional Socialista (NSDAP) de Hitler como sendo um partido de esquerda.

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Este artigo foi originalmente publicada em alemão pelo Frankfurter Allgemeine [Aqui!].

Abraham Weintraub iguala STF à “Noite dos Cristais” e provoca ira de entidades judaicas

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Abraham Weintraub, o “imprecionante” ministro da Educação, causa mais atritos com a comunidade judaica ao comparar a ação da Polícia Federal contra a indústria das fake news à “Noite dos Cristais”.

O “menino maluquinho” do governo Bolsonaro, o professor (?) e ministro da Educação, Abraham Weintraub, parece mesmo disposto a criar embaraços diplomáticos e políticos com a comunidade judaica dentro e fora do Brasil, o que poderá gerar danos incalculáveis aos interesses nacionais.

É que em reação às ações determinadas pela Polícia Federal para apurar a rede de “fake news” que opera em favor do governo Bolsonaro, Weintraub usou sua página oficial na rede social Twitter para comparar a operação de busca e apreensão feita pela Polícia Federa no dia de ontem com um episódio cometido por alemães nazistas contra judeus em 1938, que ficou conhecida como a  Noite dos Cristais (ver reprodução do tweet de Weintraub abaixo).

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A reação dentro do Brasil veio rápida, primeiro por meio de uma nota emitida pela  Confederação Israelita do Brasil (Conib)  que afirmou que a comparação do ministro Weintraub é “descabida e inoportuna, minimizando de forma inaceitável aqueles terríveis acontecimentos, início da marcha nazista que culminou na morte de 6 milhões de judeus” (ver imagem abaixo).

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Outra resposta dentro do Brasil  veio da organização “Judeus pela Democracia”, que utilizou de sua página também no Twitter para refutar a postagem de Weintraub, afirmando que o objetivo da operação da PF foi “tentar evitar que “novas noites dos cristais” aconteçam com outros povos e pessoas”   (ver imagem abaixo).

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Uma resposta ainda mais dura à comparação da ação da PF com a “Noite dos Cristais” veio do American Jewish Committee que também no Twitter usou de uma linguagem bastante explícita para a associação feita por Weintraub afirmando que “Já basta! O uso de repetida de uma linguagem bélica que se apropria do Holocausto por membros do governo brasileiro é profundamente ofensiva aos judeus do mundo e um insulto às vítimas e sobreviventes do terror nazista. Ele precisa parar imediatamente.” (ver imagem abaixo).

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O fato é que o nível de irritação por parte das entidades judaicas com Abraham Weintraub será inevitavelmente traduzido em medidas duras contra os interesses brasileiros. Aliás, essas medidas não ocorreram até agora por causa da proximidade entre entre o presidente Jair Bolsonaro e o líder israelense Benjamin Netanyahu. Entretanto, caso Abraham Weintraub não seja impedido de continuar fazendo alusões que ultrajam as organizações judaicas como já está demonstrado, não haverá amizade que impeça desdobramentos desagradáveis para o Brasil.

O problema é saber se há alguém dentro do governo Bolsonaro que seja capaz de calar a metralhadora giratória de Abraham Weintraub.  É que até agora Weintraub age ao bel prazer dos seus caprichos, sem que ninguém se manifeste dentro do governo Bolsonaro para avisar que a postura do “imprecionante” ministro da Educação ainda causará danos irreparáveis ao Brasil.

 

O conveniente silêncio do Escola Sem Partido sobre a “Escolinha do professor Bolsonaro”

esp bolsonaroDeputado federal Eduardo Bolsonaro durante debate realizado em 2017 sobre Projeto Escola sem Partido na Comissão Especial da Câmara dos Deputados

O movimento “Escola Sem Partido” ganhou notoriedade nos últimos anos no Brasil por seu suposto esforço para eliminar das escolas brasileiras a contaminação político-ideológica provocada por “um exército organizado de militantes travestidos de professores prevalece-se da liberdade de cátedra e da cortina de segredo das salas de aula para impingir-lhes a sua própria visão de mundo.”

Mas agora que o governo Bolsonaro está literalmente destroçando a autonomia universitária e encurtando ainda mais os investimentos em educação, o “ESP” mantém-se em uma posição silenciosa, enquanto continua atuante na tentativa de impor leis inconstitucionais que firam o pouco da liberdade de cátedra que seus membros tanto abominam.

O interessante é que neste momento, tanto na presidência da república como no Ministério da Educação (MEC) estão dois personagens que não hesitam em utilizar termos os quais certamente o ESP não iria querer ver sendo proferidas em sala de aula, mas, que, entretanto, não motivou ainda nenhum pedido de polidez pública por parte de um movimento que não hesitaria em pedir a demissão de qualquer professor que fizesse isso em sala de aula (vejam exemplo no vídeo abaixo que reproduz sequencialmente  falas do presidente Jair Bolsonaro durante a agora famosa reunião ministerial de 22 de abril).

Esse absoluto silêncio do ESP sobre a “Escolinha do professor Bolsonaro” é particularmente revelador da dupla moral que orienta seus militantes. É que o ESP afirma em sua declaração programática que “basta informar e educar os alunos sobre o direito que eles têm de não ser doutrinados por seus professores; basta informar e educar os professores sobre os limites éticos e jurídicos da sua liberdade de ensinar.” 

Entretanto, isso só parece valer para aqueles conteúdos que soam de “esquerda” para os militantes do ESP, pois o silêncio para o que emerge da “escolinha do professor Bolsonaro”, não há contrariedade alguma para ser explicitada. Isto é, por sua vez, revelador das reais intenções de um movimento que se apresenta como contrário à doutrinação, mas objetivamente possui elementos doutrinários claros. E estes seguem na mesma linha do “pofexor” Bolsonaro, apesar do rompimento público que supostamente ocorreu em 2019.

A quem interessa a destruição das Ciências Humanas no Brasil ?

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Por Luciane Soares da Silva*

No ano de 2018, as Universidades brasileiras foram alvo de fiscalizações acompanhadas de truculência e ilegalidade. No Rio, a Universidade Federal Fluminense (assim como a UENF e outras) foi semanalmente visitada por fiscais após “denúncias”. Por trás destes movimentos, vimos a  tentativa de cerceamento da liberdade de expressão de posições em desacordo com os rumos da política nacional e estadual. Vivemos a experiência concreta da aplicação de exceção na qual cada autoridade pôde estabelecer a escala de democracia que deveria ser aplicada a cada momento do processo eleitoral.

Em 2020 em meio a uma pandemia global, somos diariamente atacados no nosso ofício como professores e cientistas e vemos nossos recursos serem sangrados diariamente. E agora, uma portaria do Ministério de Ciência Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTI) exclui a área de ciências humanas da prioridade de projetos de pesquisa financiados pelo CNPq até 2023.

Não é recente a posição do atual presidente Jair Bolsonaro, amparado em seu ministro da educação Abraham Weintraub , de que é preciso “ focar em áreas que gerem retorno imediato ao contribuinte como veterinária, engenharia e medicina”. 

Há um livro bastante interessante do professor Boaventura de Souza Santos. Neste livro, Boaventura discute alguns paradigmas basilares de fundação da ciência moderna, e refuta com argumentos brilhantes, algumas hierarquizações quanto a separação entre as ciências. Já faz algum tempo que esta discussão tem sido feita por pesquisadores entre os quais estão Thomas Kuhn em “A Estrutura das Revoluções Científicas“, Bruno Latour em “A vida de Laboratório” e o próprio Boaventura, É uma boa leitura para pensar e produzir narrativas sobre conhecimento, ciência e tecnologia. É falsa a separação entre uma ciência “rica” em política (como muito comumente são apresentadas as ciências humanas) e uma ciência mais “pé no chão”. Embora a observação seja um dos requisitos fundamentais das ciências ela é indissociável do observador concreto (político) a considerar até mesmo a escolha do objeto.

O ex-Reitor da UFRJ Roberto Leher discutiu a relação entre ciência e sociedade em entrevista na qual argumentou que falta a Universidade Brasileira pensar a forma como o país está inserido na economia mundial. Se estamos pensando inovação e tecnologia, do que falamos exatamente? A quem deve chegar a inovação tecnológica produzida na Universidade? Quando falamos em transformação social, creio que estamos falando de algo muito mais amplo e estrutural do que a efetivação de parcerias entre Universidade e setor privado.

Quando olhamos o Brasil pós democratização e os indicadores de desigualdade, violência e racismo, devemos nos perguntar, como um país tão rico, permanece tão desigual. Quando olhamos o resultado das formas de urbanização que produziram áreas conflagradas, sem saneamento, devemos nos perguntar como um país com tantos recursos e terras permanece tão inacessível aos seus cidadãos. Quando olhamos as mortes no campo e os indicadores que mostram uma educação ainda precária e incapaz de motivar inovação em regiões como Campos dos Goytacazes, devemos nos perguntar como a política municipal não melhora a vida do homem do campo e de sua família. Quando vemos os jovens ingressando tão cedo em instituições como DEGASI e posteriormente engrossando a massa penitenciária que transcende os limites aceitáveis da dignidade humana, devemos nos perguntar como a Justiça permite tantos abusos aos direitos humanos. Quanto o sistema de saúde pratica violência obstétrica, permite que se naturalize o péssimo atendimento público, aceita o descaso e as pequenas corrupções como forma de fracionar o acesso à saúde, devemos nos perguntar por que programas de prevenção e cuidados básicos não foram implementados em nosso país, em pequenas cidades, investindo em melhor alimentação, tratando questões ligadas a saúde mental da população. Quando o Estado mata pessoas com 80 tiros, confunde furadeiras e sombrinhas com fuzis, atira em crianças de 10 anos e tenta justificar envolvimento no tráfico, devemos nos perguntar por que este mesmo Estado segue aplicando políticas de extermínio contra a população negra e pobre.  Quando ele desapropria com celeridade, agricultores para entregar suas terras e águas na mão de empresários inconsequentes, devemos perguntar que matriz de desenvolvimento é esta que não interessa ao bem comum.

 Nós fazemos estas perguntas, realizamos estas pesquisas e mostramos os interesses que destroem um país rico em recursos humanos e naturais. Mostramos opções menos poluidoras, mostramos possibilidades para alfabetização de crianças e adultos, expomos com outras áreas de conhecimento, as mazelas do sistema carcerário, educacional, de saúde. Discutimos a relação entre desenvolvimento e ecologia. Pensamos as formas pelas quais o racismo ainda permanece em nosso país como uma questão estrutural. Discutimos o feminicídio e as formas ampliadas da família contemporânea brasileira. Enfrentamos temas como aborto, depressão e suicídio.  As ciências humanas não são uma ilha isolada e não há a menor possibilidade de vivermos em um mundo globalizado sem discutir como as decisões políticas afetam as mínimas instâncias de nossas vidas. Da água que bebemos as nossas escolhas religiosas e afetivas.

 Sabemos o quanto este governo tem se esforçado diariamente para  “apequenar” um país moderno, para vendê-lo mais barato, humilhado, destroçado  pela ignorância assombrosa de seus representantes. Mas sabemos que é na defesa do acesso á Universidade Pública, gratuita e socialmente referenciada que encontraremos nosso caminho de volta ao um país melhor, menos desigual.

 O certo é que nós cientistas sociais, permaneceremos aqui, pesquisando, lecionando, realizando projetos de extensão. Seguindo aqueles que antes de nós pensaram o país: Darcy Ribeiro, Florestan Fernandes , Sérgio Buarque de Holanda, Caio Prado Júnior, Lélia Gonzalez, Ruth Cardoso e centenas de outros. Pensar não o país do futuro, mas o Brasil possível do presente. Tudo que já se falou sobre os perigos de um país sem memória se atualiza hoje, quando vemos a tragédia repetir-se nas ações do atual governo. Mas as formas de resistência também se atualizam com base nos saberes que produzimos ao longo destas décadas.


[1] Este texto foi publicado como nota interna enviada pela ADUENF em abril de 2019. Mas parece que seus argumentos seguem válidos . 

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*Luciane Soares da Silva é é docente da Universidade Estadual do Norte Fluminense  (Uenf), onde atua como chefe Laboratório de Estudos sobre Sociedade Social e do Estado (Lesce), e também participa da diretoria da Associação de Docentes da Uenf (Aduenf).

Para esconder incompetência de Weintraub, Bolsonaro sugere que ENEM foi sabotado

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O caos estabelecido pela gestão incompetente de Abraham Weintraub no Ministério da Educação (MEC) está sendo didaticamente demonstrado pelas agruras impostas a milhares de estudantes brasileiros que prestaram o chamado Exame Nacional do Ensino Médio, o popular ENEM.  A coisa está tão bagunçada que o próprio MEC teve que suspender inscrições para o “Programa Universidade para Todos (Prouni)” até que o imbroglio causado no ENEM seja desatado.

Em outras palavras, oimprecionante”  Abraham Weintraub conseguiu bagunçar algo que já herdou pronto e testado em diversas ocasiões.  E com isso perdem os que fizeram o exame e também as instituições de ensino superior que adotaram o ENEM como elemento balizador para a entrada de novos estudantes.

A estas alturas, em um governo minimamente sério, Abraham Weintraub já teria sido demitido e voltado para a obscuridade de onde saiu antes de assumir o MEC. Mas o governo Bolsonaro não é minimamente sério, o que está sendo mais uma vez demonstrado pelo próprio presidente Jair Bolsonaro. É que pressionado pela realidade da incompetência de seu ministro,  o presidente da república partiu, mais uma vez, para uma fajuta teoria da conspiração. 

É que segundo noticia o site UOL a partir de matéria escrita pelo jornalista Hanrrikson de Andrade, Jair Bolsonaro teria afirmado que ” o governo vai apurar se houve um erro de gestão, falha humana ou sabotagem na correção do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio)“.  Ora, todos menos Jair Bolsonaro, já sabem que a grande sabotagem ao ENEM está hoje sentada na cadeira de ministro da Educação.  E o pior é que a sabotagem está sendo tremendamente eficiente, e o caos foi instalado.

Resta saber agora como vão reagir os que prestaram o exame e as instituições que não poderão receber estudantes novos por causa da incompetência galopante de Abraham Weintraub.

Sob a sombra de Weintraub, Brasil vive processo acelerado de fuga de cérebros

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O ministro da Educação Abraham Weintraub durante suas mais recentes férias

A BBC publicou hoje uma matéria sobre o processo acelerado de fuga de cérebros que o Brasil está passando em função do êxito da ações de desmonte da ciência nacional por parte do governo Bolsonaro.  As razões apresentadas pelos entrevistados oferecem respostas relativamente conhecidas: falta de perspectivas profissionais, valor baixo das bolsas de pós-graduação e, principalmente, os ataques contra a ciência que tem sido transformada em um espécie de inimiga interna.

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Não há como negar que esta perda de cérebros trará profundos prejuízos para a ciência brasileira e, por extensão, ao processo de desenvolvimento econômico nacional.  É que está mais do que provado que apenas países com sistemas científicos fortes possuem a possibilidade de estarem aptos a participar da economia global em condições de competitividade.  Sem ciência o que resta é a exportação de matérias-primas (as famosas commodities) cujo valor agregado é irrisório, o que cria um grave desequilíbrio na balança comercial dos países que escolhem esse caminho de funcionamento para suas economias.

Ditaria a razão que o financiamento da ciência estivesse fora das disputas ideológicas e que o fortalecimento do desenvolvimento científico fosse colocado como um objetivo estratégico de qualquer governo, independente da ideologia de seus mandatários. Mas já está evidente que o governo Bolsonaro não opera, e não irá operar, no campo da racionalidade, pois suas alianças fundamentais são com setores que possuem uma oposição intrínseca não apenas à razão, mas também à lógica. 

Além disso, desmantelar a ciência nacional é coerente com a tal guerra cultural que não apenas o presidente Jair Bolsonaro, mas vários de seus ministros abraçam. É que esta tal guerra cultural é, na prática, uma corruptela para ocultar a oposição ao pensamento científico crítico que está na base do desenvolvimento científico.

Tenho certeza que, longe de lamentar a perda de tantos jovens pesquisadores para instituições distribuídas ao redor do mundo, os mentores da “guerra cultural”  que embala a agenda ideológica do governo Bolsonaros devem estar é celebrando esse êxodo. É que daí sobra mais espaços para figuras como o “imprecionante” ministro da Educação, Abraham Weintraub continuarem espalhando a fantasia de que a ciência brasileira é comunista ou coisas do gênero.  Em outras palavras, a fuga de cérebros é uma espécie de confirmação do reinado de Weintraub, ainda que ele incorpore o que há de mais intelectualmente lamentável dentro do Brasil.

Minha expectativa é que essa perda de cérebros sirva como uma espécie de salvação de capacidades que, quando ultrapassarmos o período trágico que vivemos atualmente, poderão retornar ao Brasil para dar continuidade ao trabalho que estão deixando para trás neste momento. 

Em tempo:  cresce o escândalo em torno da troca de gabaritos nas provas do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) cuja responsabilidade última está nas mãos do “imprecionante” Abraham Weintraub.  Ele mesmo já admitiu que, apesar de todo o seu êxito em desmantelar a ciência nacional, poderá cair por causa do embaraço que está sendo criado em torno de um sistema que até o início desse governo estava sendo cada vez mais assimilado como um instrumento viável.  Se Weintraub cair por causa de sua própria incompetência, talvez saia sem que tenha que responder pelos maiores danos que criou enquanto está ministro da Educação.