Depois do Carbendazim, neonicotinoides e Fipronil entram na mira da justiça

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Por Leonardo Gottems para o Agrolink

A Justiça brasileira fixou prazo para o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) concluir os processos de reavaliação de toxicidade dos ingredientes ativos Tiametoxam, Clotianidina e Fipronil. De acordo com decisão da juíza Clarides Rahmeier, da 9ª Vara Federal, Tiametoxam e Clotianidina devem ser reavaliados em seis meses, enquanto o Fipronil deve ter uma decisão em doze meses.

A procuradoria federal (MPF) ingressou com a ação alegando a demora do trâmite administrativo do Ibama em concluir as análises dos ingredientes ativos. De acordo com a promotoria, há indicativos de que as substâncias causam efeitos danosos às abelhas, conduzindo à mortandade massiva destes insetos polinizadores.

Confira no AGROLINKFITO os produtos que contém esses ingrediente ativos.

Ao analisar o caso, a juíza Clarides Rahmeier justificou o prazo para a conclusão alegando que o procedimento de reavaliação dos ingredientes Tiametoxam e Clotianidina começou em 2014 e do Fipronil ainda nem iniciou.

A magistrada entendeu que este procedimento é de “extrema complexidade, envolvendo a manifestação de órgãos diversos e a realização de diligências, que conduzem a concessão não só de prazos legais para tais manifestações, mas também prazos razoáveis e consentâneos para a perfectibilização das diligências”. 

Mesmo reconhecendo “as dificuldades técnicas, físicas, funcionais ou materiais encontradas pela autarquia ré, há que se considerar que tais circunstâncias não podem ser suscitadas para justificar a violação a mandamento fundamental, sobretudo diante da incidência ao caso do princípio da razoável duração do processo, inclusive em procedimentos administrativos”.

Segundo ela, “a demora excessiva no impulsionamento do processo administrativo causa evidentes prejuízos e insegurança para a tutela do meio ambiente ecologicamente equilibrado, além de violar diversos princípios aplicáveis à Administração Pública, em especial o princípio da razoável duração do processo administrativo”.

A juíza determinou ainda que o Ibama deverá apresentar, em 30 dias, um cronograma de tramitação para cumprir os prazos fixados. Desta decisão cabe recurso no Tribunal Regional Federal da 4ª Região.


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Este texto foi inicialmente publicado pelo Agrolink [Aqui!].

Infertilidade e aborto espontâneo: como a exposição a agrotóxicos afeta jovens agricultores

Pesquisas brasileiras mostram que a exposição aos agrotóxicos pode atingir tanto a saúde reprodutiva dos homens que atuam nas lavouras quanto das suas companheiras, que acabam sendo contaminadas pela convivência  

Reproductive Health | Pesticide Action Network

Schirlei Alves, especial para O Joio e O Trigo e De Olho nos Ruralistas

Rachel*, 32 anos, mora em uma região de grande produção agrícola no interior do Mato Grosso. O marido é agrônomo e tem contato direto com a lavoura. A identidade deles será preservada para evitar represálias. O casal sonha em ter filhos, mas as gestações não vinham sendo bem-sucedidas. A mulher passou por três abortos espontâneos de repetição, ou seja, interrupções gestacionais que ocorrem antes dos três meses, em um período de três anos. Até então não havia nenhuma causa aparente que justificasse a dificuldade em levar a gestação adiante. Na quarta tentativa, inundada de frustrações, a obstetra a encaminhou para a nutricionista clínica Gabrieli Comachio, que atua em outro município da região, Sorriso, conhecido como a Capital Nacional do Agronegócio.

Atenta à realidade da população local, a nutricionista solicitou exames para verificar o grau de exposição a produtos tóxicos. O teste laboratorial de colinesterase é um deles. Se o nível da enzima, que é responsável por controlar os impulsos nervosos para os músculos, estiver alterado, indica possível exposição prolongada a agrotóxicos, uma vez que as substâncias químicas podem inibir a atividade dessa enzima. De acordo com a nutricionista, como os níveis basais de colinesterase sofrem variação de uma pessoa para outra, recomenda-se o uso de um valor de referência da atividade enzimática, obtido de uma população não exposta.

Exames adicionais também são recomendados para investigar a relação com outros fatores de saúde. Comachio afirma que encontra resistência de pacientes em se submeter ao exame. Muitos, porém, se surpreendem com os resultados. A falta de orientação e consciência sobre o uso de equipamentos de proteção é uma realidade observada na sua prática clínica.

“Desde 2019, quando direcionei meus atendimentos para a área materno-infantil, tenho presenciado um número muito grande de abortos de repetição, de casais jovens com problemas de fertilidade e que precisam de um tratamento específico para melhorar os seus exames de saúde. Tenho como praxe, desde que participei do Fórum Mato Grossense de Combate aos Impactos dos Agrotóxicos na Saúde, solicitar alguns exames, principalmente o de colinesterase”, contou Comachio.

Os resultados dos exames de Rachel e do seu marido apresentaram alterações expressivas. Embora não tivesse contato direto com a aplicação dos produtos químicos na lavoura, a mulher costumava caminhar no meio da plantação e lavar as roupas contaminadas do marido. Comachio sugeriu que os dois fizessem algumas alterações nos hábitos de vida e alimentares. O homem foi orientado a usar todos os equipamentos de proteção durante o seu trabalho de campo, como luvas e máscaras. Rachel foi instruída a evitar contato com a plantação e a fazer uso dos equipamentos de segurança ao lavar as roupas contaminadas. Além disso, a nutricionista recomendou o uso de alguns suplementos alimentares, a prática de exercícios físicos e o consumo de alimentos preferencialmente orgânicos (sem uso de agrotóxicos).

Rachel já chegou ao terceiro trimestre da gestação sem nenhum problema de saúde. Os exames indicam que ela e o bebê estão saudáveis e fora de perigo. “A paciente me contou que não havia tomado todos esses cuidados nas gestações anteriores. Então, pode ter havido impacto [com os novos hábitos]. Agora que ela está prestando mais atenção no que está comendo e cuidando com essa questão de não se expor tanto, a gente acredita que essas mudanças podem ter sido de muita valia para os resultados de sucesso na quarta gestação”, avaliou a nutricionista.

Taxa de abortos no Mato Grosso está acima da média nacional

Um estudo publicado no livro Desastres Sócio-Sanitário-Ambientais do Agronegócio e Resistências Agroecológicas no Brasil, produzido por pesquisadores do Núcleo de Estudos Ambientais, em Saúde e Trabalho, da Universidade Federal do Mato Grosso (Neast/UFMT), identificou, com base em dados públicos, que nas regiões com maior uso de agrotóxicos e área plantada, as taxas de internação por aborto espontâneo são maiores.

Uma das pesquisadoras, Mariana Soares, que é sanitarista e mestre em saúde coletiva, explica que esse é um estudo epidemiológico, do tipo ecológico, que analisa um grupo de indivíduos de determinadas áreas geográficas. “Pelo fato de ela [a personagem de nossa história] residir nesse local, com um dos maiores índices de exposição a agrotóxicos; e pelo fato de a literatura demonstrar que os agrotóxicos são mutagênicos e teratogênicos, o que possibilita alterar o óvulo e o espermatozóide; a exposição pode ser um fator associado ao abortamento espontâneo”, avalia a pesquisadora.

Glifosato está entre os produtos analisados nos estudos. (Foto: Mike Mozart/Flickr)

Quando Soares fala que o agrotóxico tem potencial mutagênico e teratogênico, significa que o produto químico é um agente capaz de causar dano ao DNA e provocar doenças como o câncer ou afetar o desenvolvimento pré-natal.

Segundo o estudo, baseado em dados populacionais do IBGE, internações por aborto do SUS e de produção agrícola do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea), o Mato Grosso registrou 10.073 internações hospitalares por aborto, sendo 2.700 por abortos espontâneos, com média anual de 900 abortos. Quase metade das mulheres que foram internadas por sofrerem aborto espontâneo (47,5%) tinha entre 20 a 29 anos. A taxa média de aborto variou de 0,8 a 36,2 abortos/10.000 mulheres em idade fértil, com a maior taxa correspondente ao município de Nova Lacerda. A coleta das informações ocorreu entre 2016 e 2018.

Os dados mostram que houve aumento de 5,3% entre o primeiro e último ano da análise, sendo que em 2018, a taxa foi de 9,4 a cada 10 mil mulheres. Os números poderiam ser maiores se todos os casos fossem notificados ao sistema de saúde.

“Nós temos um coeficiente bastante alto [para o Mato Grosso]. Se no Brasil a taxa de abortos espontâneos é de 4 ou 5 [a cada 10 mil mulheres], no Mato Grosso é 9. E ainda há locais no estado que chegam a 36, então, estamos falando que a nossa taxa é duas vezes [maior] do que a do Brasil e, em algumas regiões, quatro vezes maior”, avaliou o médico especialista em saúde pública e pesquisador Wanderlei Pignati.

A pesquisa também apresenta o contexto em que essas mulheres estão inseridas e levanta os dados sobre o uso de agrotóxicos nas regiões de estudo. Levando em conta as 21 culturas analisadas, os pesquisadores identificaram que a média de área plantada foi de 15,1 milhões de hectares e o consumo de agrotóxicos foi de aproximadamente 220,6 milhões de litros.

Os dez municípios com os maiores coeficientes de aborto foram: Nova Lacerda, Nova Olímpia, Pontes e Lacerda, Alto Taquari, Campo Verde, Nova Santa Helena, Alta Floresta, Barra do Garças, Rondonópolis e Matupá. Apenas Alta Floresta não é considerado um município de grande produção agrícola.

Outro estudo publicado em 2016 pelo Neast/UFMT apontou que a exposição paterna a agrotóxicos, principalmente quando associada à baixa escolaridade materna, pode estar relacionada a maiores taxas de malformação fetal em Mato Grosso. A explicação para a relação com a baixa escolaridade está na falta de orientação sobre os cuidados na hora de lavar a roupa contaminada, como ocorreu com Rachel*. O estudo de caso-controle foi feito a partir de prontuários de todos os hospitais de referência públicos, privados e planos de saúde que atendem gestantes em Cuiabá. Os dados foram coletados entre março e outubro de 2011. A base de casos foi formada por crianças menores de 5 anos com malformações congênitas, e o grupo “controle” foi formado por crianças da mesma faixa etária, sem malformações.

As pesquisas levam em conta o contexto social, possíveis variáveis de interferência, como hábitos alimentares e consumo de álcool e drogas e o meio ambiente. No livro, por exemplo, os pesquisadores destacam que os resíduos dos agrotóxicos têm como destino a contaminação do ar, das águas das chuvas, dos rios, mananciais e solo. “Os alimentos de consumo imediato também são afetados, como demonstram as pesquisas anteriores realizadas no estado, onde foram detectados agrotóxicos nos exames de sangue e urina de trabalhadores e no leite materno”, destaca o artigo.

Glifosato preocupa pesquisadores

O glifosato é apontado no estudo sobre abortos espontâneos como um dos agrotóxicos mais usados nas lavouras de Mato Grosso. Não por coincidência, a substância ocupa a primeira posição no ranking dos ingredientes ativos mais vendidos no país. O levantamento consta no último boletim anual publicado pelo Ibama, de 2020, quando foram vendidas mais de 246 toneladas do produto. O boletim revela ainda que Mato Grosso foi o estado que mais comercializou agrotóxicos naquele ano. A venda foi de 133.291 toneladas. O boletim de Produção, Importação, Exportação e Vendas de Agrotóxicos no Brasil, publicado pelo Ibama, é elaborado a partir de documentos autodeclaratórios preenchidos pelas empresas importadoras, exportadoras, produtoras e formuladores dos agrotóxicos.

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A primeira resolução da Anvisa que cita o glifosato é de setembro de 2010, segundo histórico de documentos da agência, disponíveis desde 2008. Hoje, há cinco ingredientes ativos de glifosato liberados para uso como herbicidas em 67 culturas diferentes, entre elas arroz, feijão, café, banana e batata-doce. A substância já foi apontada como provavelmente cancerígena pela Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC).

A Anvisa, no entanto, defende que as evidências científicas disponíveis até o momento “não indicam que o glifosato cause efeitos à saúde humana que sejam considerados proibitivos” para manter seu registro no Brasil. O processo de reavaliação da substância, segundo a Anvisa, contou com 19 pareceres técnicos do órgão, três pareceres externos e duas notas técnicas. Apesar do posicionamento, a Anvisa admitiu que “o ingrediente apresenta maior risco para os trabalhadores que atuam nas lavouras” e para pessoas “que vivem próximas a estas áreas”. Como solução para amenizar os problemas de saúde das pessoas mais expostas, a Anvisa propôs “medidas voltadas para o manejo do produto durante a sua aplicação e a sua dispersão”, o que inclui “ajustes e definições de limites de exposição dietética e ocupacional”.

O procurador do Ministério Público do Trabalho, Leomar Daroncho, que atuou entre 2012 e 2015 no Mato Grosso e colaborou com a criação do Fórum Mato Grossense de Combate aos Impactos dos Agrotóxicos, pondera que as orientações da Anvisa não são suficientes para proteger os agricultores, seus familiares e moradores das regiões onde há intensa produção agrícola.

“Dados do governo do Mato Grosso indicavam que o analfabetismo funcional no meio rural chegava a 80%. No Brasil, quando a Anvisa reavaliou o glifosato, o relatório registrou que 60% dos trabalhadores do campo não têm o ensino fundamental completo. Daí ela faz uma recomendação que alerta para os riscos aos trabalhadores que manuseiam as substâncias tóxicas e que deveria ser melhorada a capacitação e a conscientização, enquanto ela mesma admitiu que quem manuseia isso tem um nível muito baixo [de escolaridade]”, advertiu o procurador, que hoje está lotado no Distrito Federal.

Para Daroncho, outro fator que agrava a situação é a complexidade que envolve o uso de equipamentos de segurança e roupas impermeáveis, por vezes quentes e pesadas para agricultores que trabalham debaixo de temperaturas elevadas. Além disso, as exigências climáticas para aplicação dos produtos, descritas nas embalagens, também são complicadas: elas vão desde a temperatura adequada, até a velocidade do vento e a umidade do ar. “Na prática, essas orientações são improváveis de serem cumpridas, como a temperatura máxima de 28ºC para o glifosato. Existem regiões no Brasil que só terão essa temperatura durante a madrugada”, alertou ele.

Segundo o procurador, o Fórum, que também envolve o Ministério Público Estadual e o Ministério Público Federal, além de entidades da sociedade civil, foi criado para possibilitar o desenvolvimento de pesquisas e, a partir daí, obter e compartilhar informações e discutir possíveis ações de combate aos impactos danosos dos agrotóxicos, tanto para a saúde quanto para o meio ambiente.

Um dos desdobramentos, por exemplo, foi uma ação movida pelo MPF em 2014 contra o Estado de Mato Grosso e o Instituto de Defesa Agropecuária (Indea) para impedir o uso de agrotóxicos que contenham a substância benzoato de emamectina em sua composição. Na época, o MPF afirmou que a própria Anvisa não indicava o uso da substância por ser “altamente tóxica à saúde humana”.

Na ocasião, o Indea havia recebido pedidos para utilização de 63 toneladas do produto em lavouras mato-grossenses. O ingrediente foi suspenso pela Justiça. Três anos depois, porém, durante o governo de Michel Temer, a substância foi liberada e hoje é usada nas culturas de amendoim, algodão, café, ervilha, quatro tipos de feijão, grão de bico, lentilha, milho, soja e tomate. 


Exposição a agrotóxicos afeta trabalhadores e suas famílias no Mato Grosso. (Foto: Reprodução)

Exposição a Agrotóxicos pode afetar qualidade do esperma

Um estudo transversal realizado com homens jovens, de 18 a 23 anos, em Farroupilha, no Rio Grande do Sul, apontou que os homens rurais têm morfologia espermática mais pobre em relação aos indivíduos urbanos. O artigo foi publicado em 2017, na Revista Científica Reproductive Toxicology, cujo foco é o sistema reprodutivo. Os pesquisadores são ligados à Escola Nacional de Saúde Pública, da Fundação Oswaldo Cruz; Universidade da Serra Gaúcha; Universidade de Caxias do Sul; Universidade Estadual do Rio de Janeiro; Universidade de Granada e Rede de Centros de Pesquisa Biomédica para Epidemiologia e Saúde Pública (Ciberesp), ambas na Espanha.

As informações sobre o uso de agrotóxicos e a prática da atividade agrícola, demografia, ocupação, estilo de vida e histórico médico foram obtidas por meio de questionário e amostras de sangue e sêmen foram coletadas para as análises laboratoriais. Ao menos 99 homens da área rural e 36 da área urbana participaram da pesquisa. Os participantes foram escolhidos aleatoriamente. A coleta de informações e de material genético ocorreu entre 2012 e 2013.

“Considerando uma população de cerca de 800 homens na faixa etária de 18 a 23 anos residentes na zona rural de Farroupilha, uma prevalência de exposição intensa a agrotóxicos na população rural de 7%, um nível de confiança de 95%, e uma margem de erro de 5%, o tamanho mínimo da amostra para o estudo foi estimado em 90 homens jovens do setor rural”, diz o estudo.

Um dos pesquisadores, que hoje é professor da Universidade Federal da Bahia, Cleber Cremonese, explicou que os jovens da área rural tiveram produção média de espermatozóide até maior do que os jovens da área urbana, mas com pior mobilidade e formação. “Não adianta produzir espermatozóides se eles não são móveis e bem formados. O espermatozóide tem que sair com o flagelo dele se movimentando até chegar nas trompas e encontrar o óvulo. Essa é a função”, explicou Cremonese. 

Sociedade brasileira luta contra os impactos dos agrotóxicos. (Foto: Campanha Contra os Agrotóxicos)

A conclusão foi de que os agrotóxicos possivelmente não interferem na produção de espermatozóides, mas podem interferir na parte genética, uma vez que os jovens do campo apresentaram pior qualidade do esperma. “A motilidade média foi de 56% em homens da área rural, comparado a 64% naqueles avaliados da área urbana”, detalhou o pesquisador.

Para avançar nos estudos, porém, seria necessário um grande investimento, inacessível para pesquisadores brasileiros. “Eu teria que pegar o espermatozóide e avaliar a cadeia genética. Tem outros estudos no mundo que fazem isso, que têm milhões de reais para poder fazer. A gente só conseguiu avaliar características microscópicas [concentração, motilidade e morfologia], e custou muito caro mesmo assim”, completou.

Com relação à morfologia, o professor explica que a Organização Mundial da Saúde preconiza que a cada 100 espermatozóides produzidos por um homem saudável, cerca de 4% sejam bem estruturados. O estudo constatou que a morfologia dos jovens da área rural foi de 1%, enquanto que a dos jovens da área urbana foi de 2,5%.

A pesquisa também serviu de base para a tese de doutorado de Cremonese na Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz. Os resultados foram apresentados aos agricultores de Farroupilha em um evento em 2014, organizado em parceria com a Secretaria Municipal de Saúde.

*O nome da personagem, cuja identidade foi preservada, é fictício e foi escolhido em referência à bióloga e escritora Rachel Louise Carson. O seu livro Primavera Silenciosa, lançado em 1962, descreveu como os inseticidas alteravam os processos celulares das plantas, animais e seres humanos. O título é uma referência ao silêncio dos pássaros mortos pela contaminação.

Imagem em destaque (Denise Matsumoto): projeto Brasil Sem Veneno mapeia resistências contra os agrotóxicos em todo o país


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Este texto foi inicialmente publicado pelo “De olho nos ruralistas” [Aqui!].

Mais veneno na nossa mesa: com custo astronômico, uso de agrotóxicos continua aumentando no Brasil

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Em uma nota publicada com o simpático título de “Desafios fitossanitários aumentam e área tratada com defensivos agrícolas cresce 1,6 milhão de hectares no primeiro semestre” (de 2022), o  Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal (Sindiveg) ofereceu algumas informações preciosas para que possamos entender o avanço no uso de agrotóxicos na agricultura brasileira no primeiro semestre de 2022.

Uma das informações interessantes é que apesar de todo o veneno despejado nas áreas agrícolas brasileiras, há uma necessidade crescente para que se use ainda mais produtos, na medida em que os alvos estão desenvolvendo resistência, ocasionando a necessidade de mais agrotóxicos. O problema aqui é que dada a conjuntura internacional, o custo dos produtos saltou de US$ 5,468 bilhões para US$ 6,560 bilhões entre o primeiro semestre de 2021 e o de 2022 (algo em torno de R$ 34 bilhões). Em outras palavras, um custo astronômico que não foi necessariamente compensado pelas vendas, ainda que os preços tenham oscilado positivamente, principalmente por causa do conflito bélico na Ucrânia.

Outro detalhe é que apesar de todo o discurso que o latifúndio agro-exportador está “matando” a fome dos brasileiros, 86% dos agrotóxicos utilizados no Brasil estão sendo utilizados em culturas de exportação, tais como soja, milho e algodão (ver imagem abaixo).

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Fonte: Sindveg

Área maior, risco maior

A expansão da área aspergida significa mais riscos para os brasileiros, na medida em que a maioria dos “campeões de venda” está proibida em outras partes do mundo, a começar pela União Europeia. Assim, a informação de que  área que recebeu aplicação de agrotóxicos chegou a 741,278 milhões de ha– ante 739,615 milhões de ha entre janeiro e junho do ano passado (1,663 milhão de ha a mais) não é prova de avanço de uma agricultura sustentável como sugere o Sindveg, mas justamente o contrário.

O fato é que a crescente dependência do modelo agro-exportador de venenos agrícolas altamente perigosos sinaliza que haverá um avanço não apenas do nível de contaminação dos recursos hídricos e solos, mas também da contaminação direta e indireta de seres humanos, transformando os agrotóxicos em um dos principais riscos sanitários que o Brasil já enfrentou.

Taxar os agrotóxicos e exigir um novo modelo agrícola

Algo que é pouco sabido é que a indústria dos venenos agrícolas, que reúne algumas das principais corporações do planeta (incluindo a ChemChina/Sygenta, Bayer/Monsanto, Basf, DowDupont), é altamente beneficiada no Brasil com uma generosa política de isenções fiscais, propiciando lucros fabulosos aos fabricantes, enquanto um rastro destruição e adoecimento é deixado para os brasileiros.

Assim, uma primeira necessidade que temos de enfrentar é o fim dos benefícios fiscais para os fabricantes de agrotóxicos. Além disso, há que se aumentar a pressão para que haja uma mudança radical na forma de produção agrícola no Brasil, com a adoção de medidas que diminuem a dependência desses venenos agrícolas. 

Aliás, como já disse aqui antes, a questão dos agrotóxicos precisa ser item estratégico no debate eleitoral de 2022, na medida em que o Brasil já vive uma epidemia de doenças associadas ao uso e ingestão de água e comida contaminadas por resíduos de agrotóxicos altamente venenosos.

Formigas podem ser melhores do que agrotóxicos para o cultivo de culturas saudáveis, segundo estudo

Aproveitar o poder natural dos insetos pode, com manejo adequado, ter maior eficácia do que recorrer a produtos químicos nocivos

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Uma formiga Ectatomma tropical, uma das 14.000 espécies do mundo, muitas das quais podem fazer o trabalho de produtos químicos matando pragas que prejudicam as plantações. Fotografia: José Pezzonia/Proceedings of Royal Society

Por Phoebe Weston para o “The Guardian”

As formigas podem ser mais eficazes do que os agrotóxicos para ajudar os agricultores a produzir alimentos, de acordo com uma nova pesquisa. Eles são melhores para matar pragas, reduzir danos às plantas e aumentar o rendimento das colheitas, de acordo com a primeira revisão sistemática das contribuições das formigas para a produção agrícola.

As formigas são predadores generalistas e caçam pragas que danificam frutos, sementes e folhas, levando a uma queda na produtividade das culturas. Uma maior diversidade de formigas geralmente oferece mais proteção contra uma variedade maior de pragas, segundo o estudo.

A análise analisou 17 culturas, incluindo cítricos, manga, maçã e soja em países como EUA, Austrália, Reino Unido e Brasil. “Em geral, com o manejo adequado, as formigas podem ser úteis no controle de pragas e aumentar o rendimento das culturas ao longo do tempo. Algumas espécies de formigas têm eficácia semelhante ou superior aos agrotóxicos, a custos mais baixos”, escreveram os pesquisadores no artigo publicado na revista Proceedings of Royal Society B.

A equipe brasileira analisou 26 espécies, a maioria delas formigas arborícolas, que nidificam em plantas ou no chão, mas geralmente escalam plantas. Eles descobriram que as formigas se saem melhor em sistemas agrícolas diversificados, como agrossilvicultura (onde árvores e culturas são cultivadas na mesma terra) e culturas cultivadas à sombra, porque há mais locais de nidificação e recursos alimentares para elas.

O pesquisador-chefe Diego Anjos, da Universidade Federal de Uberlândia, disse: “Nosso estudo incentiva os agricultores a usar práticas mais sustentáveis, como o controle biológico fornecido por formigas e práticas de cultivos sombreados como forma de promover naturalmente as formigas nos sistemas de cultivo”.

O papel das formigas na agricultura ainda não está completamente claro porque elas também podem ser um problema. Pragas como cochonilhas, pulgões e moscas brancas, que produzem uma água açucarada chamada melada, são geralmente mais comuns quando as formigas estão por perto. Isso ocorre porque as formigas se alimentam de melada e, portanto, essencialmente “cultivam” pulgões como gado, protegendo-os de predadores em troca.

Pesquisadores dizem que práticas de manejo amigas da natureza, como fornecer uma fonte alternativa de açúcares (no chão, perto do tronco de uma árvore ou em seus galhos) podem interromper essa relação. As formigas se distraem e podem continuar a reduzir o número de outras pragas, como lagartas e besouros, que não produzem melada.

Cientistas da ilha de Fiji descobriram um tipo de formiga que planta, fertiliza e guarda sua própria plantação de café.Cientistas da ilha de Fiji descobriram um tipo de formiga que planta, fertiliza e guarda sua própria plantação de café. Fotografia: Suzanne Renner/Ludwig Maximilians Universitat Munchen

O artigo analisou a maioria das espécies de insetos consideradas pragas em todo o mundo, abrangendo 30 espécies em 52 estudos. Os dados vieram de estudos comparando grupos de plantas com formigas contra plantas onde as formigas foram removidas (mecanicamente ou quimicamente), o que indica fortemente que as formigas foram responsáveis ​​pelas mudanças observadas.

Existem mais formigas do que qualquer outro inseto, representando metade da biomassa de insetos do planeta. Existem pelo menos 14.000 espécies conhecidas de formigas, com muitas mais probabilidades de permanecerem desconhecidas. Os produtores de citrinos na China usam formigas na agricultura há séculos, e os insetos também têm sido usados ​​para ajudar a controlar pragas florestais no Canadá, pragas de cacau em Gana e pragas de colheitas na Nigéria.

As formigas encontradas nas ilhas do Pacífico de Fiji podem cultivar e cultivar pelo menos seis espécies de plantas, como parte de uma relação mutuamente benéfica que remonta a 3 milhões de anos, de acordo com pesquisa publicada na Nature.

Patrick Milligan, do Laboratório Pringle da Universidade de Nevada, não esteve envolvido no estudo, mas disse que os resultados foram “animadores e nada surpreendentes”. Ele acrescentou: “Eles oferecem uma descrição clara e organizada dos benefícios derivados das formigas que são onipresentes em sistemas ecológicos e agrícolas.

“Esta é essencialmente outra opção em nosso conjunto de ferramentas agrícolas que pode permitir que a agricultura se afaste dos agrotóxicos– que realmente danificam as comunidades vizinhas de insetos – mas ainda melhoram os rendimentos das colheitas.”

O professor Adam Hart, da Universidade de Gloucestershire, também não envolvido na pesquisa, disse que era uma confirmação do importante papel que as formigas têm como controladores de pragas. “Muitos de nós temos falado sobre formigas como controladores naturais de pragas. Mas, como com qualquer coisa, geralmente é mais complexo do que pensamos quando começamos a cavar mais fundo.

“A pesquisa sugere que pode ser lucrativo mover colônias de formigas para áreas de cultivo e fazer coisas para incentivar a presença de formigas. No entanto, precisamos ser cautelosos – nem todas as formigas, ou todos os sistemas de cultivo, podem ter um custo. Trata-se de desenvolver uma maior compreensão de como as formigas interagem com pragas de culturas e outros organismos.

“Uma grande mensagem para mim é que precisamos entender ainda mais sobre interações em escala fina se quisermos cultivar melhor. Em outras palavras, precisamos de mais ecologistas”.

Encontre mais cobertura sobre a idade da extinção aqui e siga os repórteres de biodiversidade Phoebe Weston e Patrick Greenfield no Twitter para obter as últimas notícias e recursos


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

Relatório técnico documento processo de contaminação por agrotóxicos nas águas do Pantanal

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O estado de Mato Grosso registrou o uso de 142.738,855 kg de princípios ativos de agrotóxicos e é o estado brasileiro que mais utiliza substâncias tóxicas na agropecuária. Os municípios de Poconé, Cáceres e Mirassol D’Oeste foram afetados com importante quantidade de substâncias que contaminam o solo e principalmente os recursos hídricos levando assim doença e destruição dos bens comuns.

Essas e outras conclusões alarmantes estão reunidas no Relatório Técnico: “Agrotóxicos no Pantanal”, realizado pela educadora da FASE, mestre em Saúde Pública, Fran Paula; com a colaboração da professora Marcia Montanari, do Instituto de Saúde Coletiva da UFMT; Naiara Andreoli Bittencourt, advogada da Terra de Direitos e Lucinéia Freitas do MST e com revisão de Maria Emília Pacheco, assessora do Grupo Nacional da FASE.

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Para baixar a íntegra do relatório, basta clicar [Aqui!]

Seca histórica na Europa coloca em xeque modelo agrícola perdulário da Revolução Verde

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Como pesquisador que atua em uma região com forte sazonalidade no aporte de chuvas, venho há muitos anos falando que um dos aspectos mais perigosos do modelo agrícola gerado pela Revolução Verde é o uso perdulário de recursos hídricos que vem levando a um crescente esgotamento das fontes facilmente acessíveis. 

Aliás, como professor de uma disciplina introdutória de Geografia Geral sempre gosto de lembrar de mencionar o fato de que apenas 2,5% da água existente na Terra é utilizável para consumo humano e práticas agrícolas, fato esse que é agravado pelo fato de que desse montante, apenas 0,3% está facilmente acessível.

Mas impulsionados pelos conceitos da Revolução Verde, as grandes corporações que controlam a produção de alimentos no mundo têm usado esses parcos recursos hídricos como isso tudo não fosse chegar a um limite, esquecendo-se ainda que as modificações causadas pelo sistema econômico no clima global tornaria mais frequentes as oscilações entre “chuvas em excesso” com “nenhuma chuva”.

Entretanto, agora países como Inglaterra, França e Alemanha vivem uma seca histórica que coloca diretamente em xeque a lógica do desperdício hídrica para tocar um modelo agrícola que, ao final e ao cabo de, gera excedentes tão estupendos que em torno de 30% de todos os alimentos colhidos são simplesmente jogados no lixo todos os anos.

O ressurgimento das pedras da fome são um sinal sinistro do que está acontecendo

Em países como Alemanha e República Tcheca está ocorrendo o reaparecimento das chamadas “pedras da fome” que são uma espécie de testemunho histórico de outras secas históricas que resultaram em crises colossais na capacidade de se produzir alimentos, pois trazem inscrições que refletem os impactos da falta de água para consumo humano em dados períodos históricos.

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Inscrição em uma “pedra da fome” diz  que”se você me ver, chore”

O problema é que em nenhum tempo anterior o tamanho da população humana gerava tanta demanda seja pelo consumo de alimentos como pelo uso de recursos hídricos. Em outras palavras, algo que já está sendo visto como um péssimo sinal pode ser a sinalização de que tempos muitos difíceis estão começando para os europeus. É que além de haver pouca água, o continente europeu sofre outra consequência do modelo agrícola da Revolução Verde que é a contaminação de seus recursos hídricos por resíduos de fertilizantes e agrotóxicos.

Mas se engana que o ressecamento das fontes de água causado pela Revolução Verde é apenas um problema dos europeus. É que já existem evidências que o desmatamento explosivo na Amazônia (outro componente diretamente relacionado ao modelo perdulário em termos de usos de recursos naturais pela Revolução Verde) já está causando uma perda no montante de chuvas no Brasil, o que deverá também se refletir em diminuição da água disponível para os brasileiros.

A verdade é que o que está ocorrendo em diferentes partes da Terra em termos de diminuição dos recursos hídricos e de forte poluição das reservas remanescentes gera a necessidade de que o modelo perdulário da Revolução Verde seja substituído por um modelo que leve em consideração a necessidade de levar em conta os limites ecológicos dos sistemas naturais. Sem isso, as próximas décadas serão dramáticas, pois veremos sucessivas crises na disponibilidade de água que, por sua vez, causaram graves crises de oferta de alimentos.

 

Morte Silenciosa – o problema da Europa com os agrotóxicos e a crise de biodiversidade que eles causam

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“Estamos em uma crise de biodiversidade. Espécies estão se extinguindo mais rápido do que há 65 milhões de anos, desde que o meteoro eliminou os dinossauros. E está acelerando”, alerta Dave Goulson, professor de biologia da Universidade de Sussex, na Inglaterra. Os insetos são sua principal especialidade. Eles não apenas representam dois terços de todas as espécies conhecidas, mas são os que possibilitam outros organismos vivos, inclusive pela polinização. 

A agricultura em escala industrial e as monoculturas estão alimentando o mundo, mas com enormes custos para o meio ambiente. Uma mistura tóxica de agrotóxicos e fertilizantes continua a ser pulverizada em vastas áreas, enquanto faixas de terra natural são arrasadas para plantações, causando uma erosão generalizada dos ecossistemas e da biodiversidade. A química e o agronegócio não são os únicos culpados. A mudança climática é outro fator importante, de acordo com os cientistas. Juntos, eles formam um desastre iminente.

A ciência analisada pelo IE durante nossa pesquisa de meses é clara ao mostrar como os agrotóxicos prejudicam a vida selvagem, as plantas e os seres humanos – eles podem causar câncer, mutações e dificuldades reprodutivas. Mas a Europa ainda não despertou para seu problema profundamente enraizado com os agrotóxicos . Hoje, mais de 400 diferentes substâncias agrotóxicas ativas são aprovadas na União Europeia (UE). As vendas globais de pesticidas duplicaram nos últimos 20 anos, para cerca de € 52 bilhões em 2019. O mercado europeu de agrotóxicos agrícolas é um dos maiores do mundo, com vendas de cerca de € 12 bilhões em 2019.

A UE é também o líder mundial nas exportações de agrotóxicos. Desde 2018, apenas a China exportou mais agrotóxicos do que a Alemanha. Em seguida, vêm a França, os EUA, a Bélgica, a Espanha e o Reino Unido como os maiores distribuidores de venenos agrícolas

Enquanto muitos permanecem em silêncio sobre a crise da biodiversidade em meio a esse comércio em expansão, os cidadãos comuns perceberam que as coisas devem mudar. Mais de um milhão de europeus assinaram o “Salve as abelhas e os agricultores!” iniciativa, que pedia a eliminação de agrotóxicos químicos até 2035. Muitas comunidades locais na Europa, várias visitadas pelo IE, estão tentando transformar a forma como a agricultura é feita em suas regiões. E agricultores entrevistados por repórteres do IE, da Grécia à Noruega e de Portugal à Polônia, dizem que gostariam de reduzir o uso de pesticidas – se alternativas fossem acessíveis.

A Comissão da UE está finalmente abordando a degradação da biodiversidade à sua porta. Há dois anos, a política Farm to Fork, a principal estratégia da UE para tornar a agricultura europeia verde e sustentável, estabeleceu uma meta para reduzir o uso de pesticidas em 50% até 2030. O Regulamento do uso sustentável de agrotóxicos (SUR), atualmente em discussão em Bruxelas, é fundamental para este objetivo e será a primeira lei vinculativa da UE a resolver o problema. Resta saber se o regulamento será bem-sucedido no terreno.

A estratégia, no entanto, é contra uma contra-aliança de empresas químicas e grupos de lobby do agronegócio, pesquisa Investigate Europe e divulgações de ONGs e outros programas de mídia. Juntamente com políticos conservadores e outros interesses estabelecidos, eles estão pressionando para defender o status quo. A guerra na Ucrânia deu aos oponentes à regulamentação outro argumento: não reduzir o uso de pesticidas e arriscar menores rendimentos agrícolas em um momento em que a segurança alimentar global está em jogo.

Outros insistem que a hora de agir sobre agrotóxicos e biodiversidade é agora. O entomologista Josef Settele prevê que, ao continuar com o atual sistema agrícola, estamos “colocando em risco a segurança alimentar de toda a raça humana”.

Quem desejar ler a série completa de reportagens da Investigate Europe, basta clicar [Aqui!].


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pela Investigate Europe [Aqui!].

Após censura, cientista faz levantamento inédito de pesquisas brasileiras que expõem impacto dos agrotóxicos na saúde

Pesquisadora foi perseguida após experimento que contestou dose segura de agrotóxicos. Levantamento reúne 51 estudos brasileiros dos últimos seis anos que trazem evidências sobre os impactos dos agrotóxicos na saúde humana

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Por Schirlei Alves, especial para O Joio e O Trigo e De Olho nos Ruralistas

Quando foi convidada, em 2019, a colaborar em uma pesquisa de um colega da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), a imunologista e pesquisadora científica do Instituto Butantan Mônica Lopes Ferreira não fazia ideia das barreiras que seriam impostas à divulgação da descoberta feita em seu experimento: a de que não há dose segura de agrotóxicos

Conhecida pela sua expertise em trabalhar com zebrafish – espécie de peixe cujo DNA é 70% similar ao material genético do ser humano –, ela foi contatada por um pesquisador da Fiocruz para submeter embriões de peixes à exposição de 10 tipos de agrotóxicos. “Quando ele me procurou, encarei, naquele momento, como sendo mais uma amostra que eu ia testar”.

Porém, o resultado não foi exatamente o esperado pelo colega. Segundo Ferreira, ele não quis dar publicidade ao achado, e também não autorizou a submissão dos dados para publicação. O que aconteceu foi que a dose considerada “segura” pelos órgãos de controle, causou mortalidade nos embriões de peixes. Quando diluída até mil vezes em água, os embriões apresentaram anomalias.

As substâncias submetidas ao teste foram glifosato, malationa, abamectina, acefato, alfacipermetrina, bendiocarb, carbofurano, diazinon, etofenprox e piriproxifem. Por serem usadas em larga escala no país, o resultado do experimento causou alvoroço.

Essa história coincidiu com o momento em que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) estava fazendo alterações na classificação dos agrotóxicos, também em 2019. Muitos dos produtos antes considerados como “extremamente tóxicos” pela agência foram rebaixados para categorias menos rigorosas. O então diretor da Anvisa, Renato Porto, e a então ministra da Agricultura, Tereza Cristina, chegaram a dar entrevistas contestando o experimento da imunologista.   

O herbicida glifosato foi um dos agrotóxicos que teve a classificação de toxicidade reduzida pela Anvisa, embora àquela altura fosse um dos produtos classificados pela Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC) como substância provavelmente carcinogênica para humanos; ou seja, capaz de provocar câncer. O Glifosato 480 Agripec, por exemplo, que até então era considerado pela Anvisa “extremamente tóxico” foi reclassificado para “produto improvável de causar dano”. Outra resolução, de 2020, reforçou a manutenção do uso de glifosato em agrotóxicos no país. 

De acordo com o painel de monografias de agrotóxicos da Anvisa – ferramenta que permite acesso a informações atualizadas sobre os ingredientes ativos de agrotóxicos em uso no Brasil –,  a aplicação de produtos à base de glifosato é permitida em 67 culturas, entre elas arroz, feijão, batata doce e mandioca. A mesma situação ocorre com o inseticida malationa e outros produtos.    

A própria Anvisa havia publicado, em 2015, ainda no governo de Dilma Rousseff, uma nota alertando sobre a classificação carcinogênica de cinco substâncias, entre elas a malationa, a diaziona e o glifosato. Na época, a agência havia se comprometido a verificar os resultados dos estudos e a fazer novas avaliações sobre o uso desses ingredientes. 

A Bayer, gigante alemã responsável pela produção do Roundup, principal herbicida fabricado à base de glifosato, é alvo de uma ação movida por um casal em São Francisco, na Califórnia, que afirma ter desenvolvido câncer do sistema linfático depois de ter usado o produto por anos. A Monsanto, que criou a formulação do herbicida e o lançou mundialmente em 1974, foi condenada a pagar R$ 289 milhões ao zelador de uma escola, também na Califórnia. O homem desenvolveu câncer após entrar em contato com a substância. O veredito saiu em 2018 – ano em que a Monsanto foi comprada pela Bayer.   

Censura é respondida com ciência

Menos de um mês após divulgar o resultado do seu experimento, Mônica Lopes Ferreira recebeu um comunicado do Comitê de Ética Animal do Butantan dando conta de que ela estaria suspensa por seis meses sem direito de defesa – o que implicaria em não tocar mais os seus projetos. A justificativa foi a de que a cientista não teria submetido o experimento ao comitê, o que seria proibido. 

Segundo Ferreira, porém, não havia necessidade de submissão naquele caso porque o trabalho não havia envolvido animais, mas, sim, embriões com até 96 horas após a fertilização. “Só pode ser considerado animal a partir de 120 horas após a fertilização”, explica. 

A cientista conseguiu reverter a decisão do comitê por meio de uma liminar na Justiça. Mas outros fatos ocorreram na sequência, como o cancelamento de convites para determinados eventos, a perda do cargo de diretora do Laboratório Especial de Toxicologia Aplicada do Butantan e a abertura de um procedimento administrativo pelo instituto,  vinculado à secretaria estadual da Saúde de São Paulo.

Trecho da liminar.

A pesquisadora afirma que “a única forma que conhece de se manifestar é produzindo ciência”. Por isso, decidiu fazer, com a colaboração de oito colegas do Butantan, uma revisão sistemática de dezenas de estudos publicados por cientistas e produzidos a partir de 27 instituições públicas brasileiras que revelam os impactos dos agrotóxicos na saúde humana. O trabalho, intitulado “Os impactos dos agrotóxicos na saúde humana nos últimos seis anos no Brasil” foi publicado em março deste ano no International Journal of Environmental Research and Public Health – uma revista científica de pesquisa ambiental e saúde pública, de acesso aberto e revisada por pares. O artigo se debruça sobre 51 estudos que foram publicados em revistas científicas.

“A revisão é para dizer que é possível trabalhar com agrotóxicos dentro das instituições brasileiras, não há problema nisso. Nós não podemos ser perseguidos, precisamos ter liberdade para trabalhar com temas tão importantes para o Brasil”, explica Ferreira.

A cientista e seus colegas identificaram inicialmente 4.141 artigos produzidos no Brasil. Mas alguns critérios de corte foram estabelecidos para reduzir o número de pesquisas que seriam revisadas. Um deles foi o tempo de publicação, de 2015 a 2021. “Escolhi publicações dos últimos seis anos, quando houve uma avalanche de agrotóxicos sendo liberados.” 

Os artigos foram coletados das bases de dados PubMed, Scopus, Scielo e Web of Science. As buscas foram feitas por meio de palavras-chave como “pesticidas”, “humanos” e “Brasil”. No primeiro filtro, 381 artigos duplicados foram excluídos. Na sequência, dois revisores fizeram um estudo duplo-cego (quando os autores não sabem quem são os revisores) e selecionaram, de forma independente, títulos, termos de indexação e resumos para identificar artigos relevantes para possível inclusão. As discrepâncias foram resolvidas por um terceiro revisor. 

Em uma segunda rodada de seleção, os artigos foram lidos de forma independente por dois revisores que usaram como critérios de inclusão pesquisas desenvolvidas no Brasil envolvendo agrotóxicos, artigos em inglês ou português e pesquisas envolvendo estudos diretos em humanos ou células humanas expostas a pesticidas, incluindo relatos de casos. Os artigos que não se enquadraram nesses critérios foram excluídos.

A partir daí, foram revisados estudos de caso e dados transversais e experimentais de relatos de intoxicação em humanos em decorrência de causas ocupacionais, ambientais e acidentais. Os estudos experimentais correspondem a 76,5% dos trabalhos revisados. Além de Ferreira, assinam a revisão Adolfo Luis Almeida Maleski, Leticia Balan Lima, Jefferson Thiago Gonçalves Bernardo, Lucas Marques Hipolito, Ana Carolina Seni-Silva, João Batista-Filho, Maria Alice Pimentel Falcão e Carla Lima.

A maior parte dos estudos selecionados pela revisão são de áreas que concentram a produção de commodities agrícolas, sendo quase metade deles do Sul (46%) e 28% do Sudeste. 

Um dos apontamentos feitos pela revisão é de que os agrotóxicos não são usados apenas em culturas como a soja, o milho e o tabaco, mas estão presentes em várias outras como laranja, café, flores, banana, uva, ameixa, tomate, caqui, maçã, pêssego, morango, kiwi e vegetais.

Os agrotóxicos mais citados nos estudos foram inseticidas, herbicidas e fungicidas. Os artigos revelam mais de 20 efeitos decorrentes da exposição aos agroquímicos

Os agrotóxicos mais citados nos estudos foram inseticidas, herbicidas e fungicidas. Os artigos revelam mais de 20 efeitos decorrentes da exposição aos agroquímicos, indo desde reações agudas na pele e no sistema respiratório até doenças crônicas, incluindo anormalidades hematológicas (fatores de coagulação), infertilidade, abortos espontâneos, malformações fetais, doenças neurológicas e câncer. Mecanismos subjacentes a esses efeitos, como ações genotóxicas (alteração do DNA), neurotóxicas (nas terminações nervosas) e desreguladoras do sistema endócrino também foram detectados pelos cientistas brasileiros.

Além de apontar que o uso de agrotóxicos na agricultura está diretamente ligado à saúde humana, Mônica Ferreira e seus colegas esperam que os resultados dos artigos possam ajudar a “direcionar políticas de redução do uso dos produtos químicos e de proteção à saúde da população”. 

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Este texto foi originalmente publicado pelo “O Joio e o Trigo” [Aqui!].

De Olho nos Ruralistas lança dossiê sobre financiamento da bancada ruralista

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Relatório inédito revela participação direta de multinacionais no lobby ruralista; além de atuar em associações que financiam o Instituto Pensar Agro, empresas como Bayer, Basf, Syngenta, JBS, Cargill e Nestlé mantiveram 278 reuniões com o alto escalão do governo Bolsonaro

Por Alceu Luís Castilho e Bruno Stankevicius Bassi

Por trás da boiada estão as multinacionais. Os projetos de lei que constituem o Pacote da Destruição” — PL da Grilagem, PL do Veneno, PL do Licenciamento Ambiental, PL da Mineração em Terras Indígenas — não têm como origem a mente inspirada dos deputados e senadores da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), a faceta mais organizada da bancada ruralista no Congresso. O financiamento é nacional e internacional.

Existe um cérebro pensante por trás da FPA. E um mecanismo. Um conjunto de lobistas e executivos de entidades de classe e empresas, organizados através do Instituto Pensar Agro (IPA), que formula as pautas legislativas e define o posicionamento político da frente.

Em 2019, De Olho nos Ruralistas revelou a ponta desse iceberg, mostrando algumas das multinacionais que integravam associações mantenedoras do IPA: gigantes como as produtoras de agrotóxicos e sementes transgênicas Bayer, Basf e Syngenta, as processadoras de soja Cargill, Bunge, ADM e Louis Dreyfus; os frigoríficos JBS e Marfrig e indústrias do setor alimentício como Nestlé e Danone.

Essas corporações não são atores passivos no lobby ruralista em Brasília. É o que mostra o novo dossiê do observatório sobre o tema, publicado hoje (18): “Os Financiadores da Boiada: como as multinacionais do agronegócio sustentam a bancada ruralista e patrocinam o desmonte socioambiental“.

Ele mostra que, durante o governo de Jair Bolsonaro, empresas do setor se reuniram pelo menos 278 vezes com membros do alto escalão do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). Em pauta, temas como a flexibilização de regras para agrotóxicos, a autorização de testes de novas substâncias químicas direto em campo (ao invés de laboratórios) e a autofiscalização sanitária.

Com capa ilustrada pelo premiado cartunista Renato Aroeira, o dossiê aponta a Syngenta como campeã na interlocução com o governo, com 81 reuniões; seguida por JBS, com 75; Bayer, 60; Basf, 26; Nestlé, 23; e Cargill, 13.

O relatório também pode ser acessado em inglês aqui.

Bayer foi recebida por servidores fora da agenda oficial

O levantamento de reuniões levou em consideração os encontros registrados na agenda oficial de autoridades do Ministério da Agricultura entre janeiro de 2019 e junho de 2022. No entanto, os registros de entrada no Mapa, obtidos via Lei de Acesso à Informação (LAI), contam outra história.

Durante esse período, a ex-chefe de Assuntos Públicos da Bayer, Silvia Menicucci, esteve presencialmente 25 vezes na sede do ministério. Destas, 16 não foram registradas em agenda oficial. Na Câmara a executiva esteve 14 vezes, entre 2018 e 2019.

Bolsonaro recebe Werner Baumann, CEO da Bayer, em 2019. (Foto: Reprodução/Pr)

O caso da empresa alemã é um dos destaques do dossiê, uma vez que demonstra a facilidade com que os conglomerados do agronegócio conseguem acesso ao alto escalão do governo. Em outubro de 2019, o então CEO global da companhia, Werner Baumann, se reuniu pessoalmente com Bolsonaro, em evento promovido pela agência de fomento às exportações Apex-Brasil, onde Menicucci havia atuado como servidora.

Em 2022, foi a vez da ex-ministra Tereza Cristina prestigiar a empresa ao participar de um vídeo produzido pela Bayer, postado em um dos canais oficiais da companhia, para falar sobre seguro rural. Também participou do vídeo o diretor do Departamento de Política Agrícola e Seguro Rural do Mapa, Pedro Loyola.

Em resposta aos dados do relatório, a empresa afirmou que as reuniões com agentes de órgãos públicos são “normatizadas pela legislação federal e por políticas internas da própria companhia” e que estas foram “formalmente solicitadas aos órgãos com quem a empresa mantém interações”. Procurado, o Mapa classificou a participação da então ministra no vídeo institucional como uma “entrevista”, tendo como objetivo “prestar informações sobre as políticas públicas realizadas por este Ministério, especialmente sobre o Programa de Seguro Rural”. O órgão não se pronunciou sobre as reuniões fora da agenda.

Confira a íntegra das respostas aqui.

Sob Bolsonaro, Instituto Pensar Agro e ministério se misturam 

Desde a publicação da primeira série de reportagens sobre a cadeia de financiamento do Instituto Pensar Agro, em 2019, o think tank ruralista cresceu e prosperou. Hoje, o IPA conta com 48 associações participantes. Com o aumento de verbas, o instituto multiplicou sua equipe, avançando não só na atuação legislativa como na elaboração de campanhas pró-agronegócio.

Bolsonaro e Tereza Cristina em reunião com presidente da FPA. (Foto: Agência FPA)

A atuação publicitária do IPA não se limita a promover o setor. Por meio dos canais da Frente Parlamentar da Agropecuária, a organização ruralista iniciou em 2021 uma campanha contra este observatório, insinuando que matérias críticas aos seus interesses são “fake news“.

Esse fortalecimento é fruto também do poder que IPA e FPA passaram a ter no governo federal desde a posse de Bolsonaro. Além das reuniões com empresas, o dossiê “Os Financiadores da Boiada” mostra que lobistas e líderes ruralistas se reuniram 160 vezes com servidores do Mapa. Destas, 20 contaram com a presença da então ministra Tereza Cristina, ex-presidente da FPA.

Além da pasta de Agricultura, eles foram recebidos nos ministérios da Economia (33), do Meio Ambiente (4), da Justiça e Segurança Pública (1) e da Educação (1), esta última para falar sobre a versão rural do “Escola Sem Partido”: “Lobby do agronegócio se organiza para “fiscalizar” material escolar“.

A aliança com o Mapa fica explícita até mesmo nas respostas aos dados levantados do relatório. Poucas horas após enviar pedido de informações ao Ministério, a equipe do De Olho nos Ruralistas foi contatada pela assessora de imprensa do IPA, que informou ter “ficado sabendo” sobre as perguntas direcionadas ao governo sobre a relação com o instituto e exigindo ter acesso aos dados.

Procurados oficialmente para se posicionar sobre as informações do dossiê, nem IPA nem FPA enviaram resposta.

Dossiê abre série de reportagens sobre lobby ruralista

A publicação do dossiê “Os Financiadores da Boiada: como as multinacionais do agronegócio sustentam a bancada ruralista e patrocinam o desmonte socioambiental” abre a cobertura eleitoral do observatório sobre a atuação da FPA e do IPA junto ao governo Bolsonaro. Até outubro, serão publicados novos relatórios e reportagens explorando o papel de empresas, associações e lobistas no ecossistema do lobby ruralista em Brasília.

É preciso mudar também o Congresso, não somente a Presidência da República. (Imagem: De Olho nos Ruralistas)

Parte dos dados foi apresentada de forma inédita na última quinta-feira (14), em reunião com eurodeputados em São Paulo: “De Olho nos Ruralistas apresenta dossiê sobre lobby a membros do Parlamento Europeu“. Os resultados preliminares do levantamento de reuniões de multinacionais dos agrotóxicos já haviam baseado um dos capítulos do estudo Comércio Tóxico, a ofensiva do lobby dos agrotóxicos, lançado em abril pela rede ambientalista Friends of the Earth Europe, sob coordenação das pesquisadoras Audrey Changoe e Larissa Bombardi.

De Olho nos Ruralistas iniciou em junho uma cobertura especial e inédita, com o objetivo de esmiuçar as políticas agrárias e ambientais dos últimos anos, as candidaturas do agronegócio e o funcionamento da FPA. Até outubro, lançaremos novos dossiês e multiplicaremos as reportagens e os vídeos, com uma equipe ampliada.

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Imagem principal (Aroeira/De Olho nos Ruralistas): relatório expõe as multinacionais que patrocinam a boiada

Alceu Luís Castilho é diretor de redação do De Olho nos Ruralistas. |

|| Bruno Stankevicius Bassi é coordenador de projetos do observatório. ||


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Este texto foi originalmente publicado pelo site “De olho nos ruralistas” [Aqui!] .

Pacote do Veneno entra na pauta de comissão controlada por ruralistas no Senado Federal e pode ser votado na semana que vem

Presidente da Comissão de Agricultura e Reforma Agrária no Senado Federal, insere o Pacote do Veneno como extrapauta nesta manhã (7)

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Máquina pulveriza agrotóxicos sobre plantação de soja, no Mato Grosso.

Foto: Daniel Beltrá/ Greenpeace Brasil

São Paulo, 7 de julho de 2022 – O senador Acir Gurgacz (PDT/RO), presidente da Comissão de Agricultura e Reforma Agrária (CRA) no Senado Federal, se aproveitou de uma reunião esvaziada na comissão nesta manhã (7) para inserir o Pacote do Veneno como extrapauta, simbolizando um verdadeiro golpe à oposição e à sociedade.

Nos dias 22 e 23 de junho, Acir ouviu de diversos especialistas em audiência os inúmeros prejuízos que essa medida pode causar. Na ocasião, a Organização das Nações Unidas (ONU) publicou uma nova nota contrária à aprovação desse Projeto de Lei, pelos danos sem iguais que ele trará para as pessoas, violando brutalmente os direitos humanos. Ele mesmo sinalizou então entender que esse debate não poderia continuar ocorrendo de forma atropelada, havendo necessidade de ampliá-lo, chamando uma audiência pública com representantes do Ibama, Anvisa e do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA). Mas Acir, que é presidente da Comissão e autointitulado relator do PL, retirou seu próprio requerimento de audiência e, num piscar de olhos, leu seu relatório, para que o PL seja votado na próxima semana, última semana legislativa antes do recesso.

O Pacote retira o poder do Ibama e da Anvisa do processo de registro e aprovação de novos agrotóxicos, deixando sob responsabilidade do Mapa o poder de decisão, incluindo a aprovação de substâncias cancerígenas, expressamente proibida pela Lei atual.

Em função do despacho do presidente do senado, Rodrigo Pacheco, um PL desta complexidade e perigo está tramitando apenas em uma comissão, a CRA, que debate exclusivamente temas agrícolas e que tem como maioria parlamentares membros da Frente Parlamentar Agropecuária, também conhecida como bancada ruralista. Isso sem passar por outras comissões técnicas que debatem os temas mais importantes dessa tragédia anunciada que são saúde e meio ambiente. Se for aprovado na Comissão, poderá ir a plenário ainda na próxima semana, em desacordo com a promessa de Pacheco de garantia do pleno debate.

Para a assessora de políticas públicas do Greenpeace Brasil, Luiza Lima, tal manobra política é uma afronta à sociedade brasileira, e do direito de ter pleno conhecimento sobre os impactos dos projetos que seus representantes estão aprovando: “Não podemos permitir, em hipótese alguma, que as comissões que tratam de meio ambiente e saúde fiquem de fora desse debate, e que os os órgãos diretamente envolvidos, como a Anvisa e o Ibama não sejam ouvidos. Pacheco prometeu o devido debate e tramitação cadenciadas, mas até o momento, infelizmente, não é isso que estamos perplexamente observando”.