Observatório dos Agrotóxicos: apesar das evidências científicas, governo Bolsonaro libera mais 46 agrotóxicos, totalizando 1734 liberações

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Com a publicação do Ato No. 31 de 28 de junho no Diário Oficial da União desta 6a. feira, o governo Bolsonaro liberou mais 46 agrotóxicos. Agora o total liberado desde 01 janeiro de 2019 é 1.734 agrotóxicos, sendo que uma parcela significativa desses venenos agrícolas é proibida na União Europeia, EUA e China.

Como sempre ocorre, o Observatório dos Agrotóxicos do Blog do Pedlowski irá publicizar a lista completa dessa nova rodade de liberação de agrotóxicos nos próximos dias. Mas já foi possível identificar a presença de “velhas novidades” como é o caso da Atrazina, um herbicida que está banido na União Europeia desde 2004 por ter sido relacionada ao desenvolvimento de doenças graves como o câncer. Mas também há liberação do Fipronil, conhecido por ser devastador para as populações de abelhas.

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O que se pode notar é que em nome do lucro das grandes fabricantes de venenos agrícolas e do latifúndio agro-exportador, o governo Bolsonaro continua avançando com a liberação de substâncias altamente prejudiciais ao meio ambiente e à saúde humana.

Estudo realizado no oeste do Paraná confirma relação direta entre incidência de câncer e consumo de água contaminada por agrotóxicos

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Em um artigo que acaba de ser publicado pela revista científica “Environment International“, um grupo binacional de pesquisadores estabeleceu uma relação direta entre o alto nível de uso de agrotóxicos, a contaminação de água usada para consumo humano com a incidência de câncer em municípios produtores de grãos na região Oeste do Paraná (ver imagem abaixo).

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Embora já exista uma ampla literatura disponível sobre o impacto do consumo crônico de resíduos de agrotóxicos, o estudo que teve como autora principal a professora Carolina Panis, do Faculdade de Medicina da Universidade do Oeste do Paraná (Unioeste), traz cálculos importantes que mostram a relação entre o nível de uso de agrotóxicos nas monoculturas, a consequente contaminação dos mananciais hídricos e seu consequente impacto para o desenvolvimento de diferentes tipos de câncer.

Os pesquisadores foram ainda capazes de identificar que dois agrotóxicos Mancozebe e Diurom teriam sido responsáveis pela ocorrência de 80% dos casos de câncer que foram identificados. Além disso, a pesquisa identificou que dos 27 agrotóxicos identificados na água consumida pela população dos municípios estudados, 11 deles são potenciais causadores de câncer.

A principal questão é que na mesma forma que a região foco do estudo existem hoje no Brasil diversas partes do Brasil que estão submetidos ao mesmo nível de emprego de agrotóxicos em função da predominância de grandes áreas de monoculturas (especialmente as de soja), o que pode implicar no fato de que a epidemia de câncer desvelada por esta pesquisa esteja mais disseminada do que havia sido determinado até agora.

Agrotóxicos são a segunda principal causa de contaminação das águas  brasileiras - FNU

E é por isso que eu me somo a quem diz que o “Agro não é pop”, o “Agro é tóxico”.

Quem desejar baixar o artigo publicado por Carolina Panis e colaboradores, basta clicar [Aqui!].

União Europeia estabelece plano para reduzir uso de agrotóxicos pela metade até 2030 para restaurar seus ecossistemas naturais

As propostas – as primeiras em 30 anos para combater a perda catastrófica de vida selvagem na Europa – incluem metas juridicamente vinculativas para terra, rios e mar

Maiores flamingos em zonas húmidas em Málaga, Espanha.  Serão estabelecidas metas para uma série de ecossistemas.

Flamingos ocupam  zonas húmidas em Málaga, Espanha.  Metas de restauração serão estabelecidas para uma série de ecossistemas. Fotografia: Rudolf Ernst/Alamy

Por Phoebe Weston e Patrick Greenfield para o “The Guardian”

As propostas – as primeiras em 30 anos para combater a perda catastrófica de vida selvagem na Europa – incluem metas juridicamente vinculativas para terra, rios e mar

Pela primeira vez em 30 anos, foi apresentada legislação para lidar com a perda catastrófica de vida selvagem na União Europeia. Metas juridicamente vinculativas para todos os estados membros para restaurar a vida selvagem em terra, rios e mar foram anunciadas hoje, juntamente com uma repressão ao uso de agrotóxicos.

Em um impulso para as negociações da ONU para deter e reverter a perda de biodiversidade, as metas divulgadas pela Comissão Europeia incluem reverter o declínio das populações de polinizadores e restaurar 20% da terra e do mar até 2030, com todos os ecossistemas sendo restaurados até 2050. A comissão também propuseram uma meta de reduzir o uso de agrotóxicos pela metade até 2030 e erradicar seu uso perto de escolas, hospitais e playgrounds.

Frans Timmermans, vice-presidente executivo da comissão, disse que as leis são um passo à frente no combate ao “ecocídio iminente” que ameaça o planeta. Cerca de € 100 bilhões (£ 85 bilhões) estarão disponíveis para gastos em biodiversidade, incluindo a restauração de ecossistemas. A meta de 2030 de reduzir o uso de pesticidas dará aos agricultores tempo para encontrar alternativas.

Stella Kyriakides, comissária de saúde e segurança alimentar, disse: “Precisamos reduzir o uso de pesticidas químicos para proteger nosso solo, ar e alimentos e, finalmente, a saúde de nossos cidadãos. Não se trata de agrotóxicos. Trata-se de torná-los uma medida de último recurso.”

As propostas, que os ativistas saudaram como um marco potencial para a natureza, podem se tornar lei em cerca de um ano. A proposta de restauração é a primeira legislação sobre biodiversidade desde o lançamento da Diretiva Habitats em 1992 e é uma parte crucial da estratégia de biodiversidade da UE.

Os estados membros teriam que criar planos de restauração para mostrar à comissão como alcançariam as metas estabelecidas e, se não cumprirem, enfrentariam ações legais.

Metas serão estabelecidas para uma variedade de ecossistemas, incluindo terras agrícolas, florestas, rios, áreas urbanas e marinhas. Ecossistemas prioritários incluem aqueles com maior poder de remoção e armazenamento de carbono, além de amortecer os impactos de desastres naturais.

Alguns países terão muito mais a fazer do que outros: Bélgica, Dinamarca e Suécia estão entre os estados membros da UE cujos ecossistemas estão em pior estado de saúde, enquanto Romênia, Estônia e Grécia estão em um estado comparativamente melhor.

“É um grande marco. Realmente tem o potencial de mudar nosso relacionamento com a natureza”, disse Ariel Brunner, da BirdLife Europe . “Em última análise, a diferença entre uma política eficaz e apenas propaganda é se você pode levar as pessoas ao tribunal por não fazerem o que precisam.

“Precisaremos revisar o texto com um pente fino, porque várias brechas foram feitas no último minuto”, disse ele, acrescentando que houve forte desacordo dentro da comissão sobre os detalhes do relatório, com vários atrasos devido às objecções dos lobbies agrícolas e florestais.

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A redução no uso de agrotóxicos permitirá que mais e diversas espécies floresçam, como neste prado de flores silvestres, Auvergne, França. Fotografia: Michael David Murphy/Alamy

A maior ameaça à produção e segurança de alimentos é a crise climática e a perda de biodiversidade, de modo que a restauração da natureza ajudará a fortalecer a segurança alimentar, disseram funcionários da comissão, com os benefícios da restauração superando os custos em oito para um. “Demonstramos que somos capazes de liderar pelo exemplo”, disse um funcionário. “É uma proposta abrangente.”

Não deve haver perda líquida de espaço verde urbano e cobertura de copas de árvores até 2030, diz a legislação, e até 2050 deve haver um aumento de pelo menos 10% da cobertura de copas de árvores em todas as cidades e vilas. Para os ecossistemas florestais, os estados membros terão que aumentar a conectividade florestal, o número de pássaros e o estoque de carbono orgânico.

Há também metas de restauração de rios, abertura de várzeas e remoção de barragens. Nas áreas marinhas, haverá pressão para fechar as áreas de pesca para que os habitats destruídos pela pesca de arrasto possam começar a se recuperar.

Apesar da legislação da UE existente, cerca de um terço dos habitats listados estão em condições desfavoráveis ​​e em deterioração. Ioannis Agapakis, advogado de vida selvagem e habitats da ClientEarth, disse: “Estabelecer metas concretas e garantir ferramentas nacionais de implementação fortes pode mudar a maré na luta contra essas crises gêmeas, mas somente se forem aplicadas.

“Para que essa lei tenha força, precisamos ver monitoramento, planejamento detalhado e regras para os tipos de medidas adotadas para cumprir as metas da lei – caso contrário, serão apenas números em uma página.”

Alguns ativistas argumentam que as medidas agroambientais no manejo florestal que não contribuem para a restauração do habitat real não devem ser incluídas na meta geral. Há também preocupações de que as metas de restauração marinha correm o risco de não serem implementadas na prática, devido à não gestão dos impactos destrutivos da pesca offshore.

O anúncio ocorre no momento em que as negociações sobre biodiversidade da ONU recomeçam em Nairóbi, antes de um acordo final ser alcançado em Montreal em dezembro . Os governos estão atualmente negociando uma meta de restauração global e Brunner disse que essas leis tornarão a UE muito mais credível nas negociações. “Isso, de certa forma, posicionaria a UE legitimamente como pioneira em biodiversidade, porque muitos dos debates internacionais sobre biodiversidade estão atolados com acusações de países em desenvolvimento ou países menos ricos que tendem a acusar os europeus de pregar conservação e meio ambiente”, disse ele.

As propostas serão discutidas no Parlamento Europeu e no Conselho do Meio Ambiente. Uma vez que haja acordo sobre quaisquer emendas, eles negociarão os compromissos e obterão um texto que o parlamento e o conselho podem votar e aprovar. Os planos nacionais terão de ser apresentados no prazo de dois anos após a implementação da legislação.


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Este texto foi escrito originalmente em inglês e publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

Juventude do MST ocupa sede brasileira da Bayer para protestar contra a venda de agrotóxicos banidos no Brasil

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Na manhã desta sexta (10), a Juventude do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) ocupou a sede da multinacional alemã Bayer em Jacareí (SP). Ali  100 jovens “escracharam” a empresa que é uma das líderes mundiais  na produção de agrotóxicos. Nessa atividade os jovens do MST lembraram que a Bayer exporta para o Brasil substâncias que são proibidas em boa parte do mundo.

Enquanto os lucros da Bayer aumentam, no Brasil,  1 pessoa morre de envenenamento por agrotóxico a cada 2 dias,  e cerca de 20% dessas mortes são de  crianças e adolescentes de 0 a 19 anos. Paralelamente, no último período, o governo Bolsonaro liberou 1.682 agrotóxicos. 

Os jovens presentes nesta ação de protesto também lembraram que segue em trâmite no senado o  PL 6299/2002 que é mais conhecido como o  “Pacote do veneno.”  A medida traz duras alterações na legislação vigente, facilitando a venda e uso de substâncias altamente tóxicas para a vida humana e para a natureza, inclusive que são sabidamente causadoras de câncer.

Às vésperas do Dia do Meio Ambiente, presidente do Senado trai promessas e corre para aprovar o Pacote do Veneno

Rodrigo Pacheco, cedeu às pressões da bancada ruralista e no dia 1º de junho iniciou as movimentações do Pacote do Veneno no Senado Federal.

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Descumprindo as promessas de que teria “cautela” e “trâmite normal” nas comissões, o presidente do Senado Rodrigo Pacheco, deu prosseguimento ao Pacote do Veneno e enviou o projeto para apreciação apenas da Comissão de Agricultura e Reforma Agrária (CRA), sabidamente dominada pelo agronegócio, ignorando assim os requerimentos já apresentados para ser distribuído para as comissões de Meio Ambiente, Direitos Humanos e Comissão de Assuntos Sociais. 

No mês do meio ambiente, o senador Rodrigo Pacheco quer nos presentear com o prato cheio de veneno. Se não voltar atrás nesse requerimento, após apreciação na CRA a matéria está pronta para deliberação do Plenário. Seguindo os mesmos passos acelerados da matéria na Câmara, que apesar de parada por anos, não passou por debates com a sociedade, foi colocada para votação em regime de urgência e aprovada em poucas horas.

Originalmente apresentado no Senado como PL 526/99, a proposta era de alteração em 2 artigos da legislação vigente de agrotóxicos. Em 2002 deu entrada na Câmara dos Deputados e ficou parado até a instalação de uma comissão especial em 2016.  Agora em 2022 volta para o senado como pl 1459/2022 e a proposta de revogar a lei atual  7.802/1989, flexibilizando ainda mais o uso de agrotóxicos no país. A Câmara mal deveria ser considerada como casa revisora em um caso como este e o Senador Rodrigo Pacheco deve prezar pelo amplo debate encaminhando para as demais comissões no senado antes que vá para apreciação no plenário.

Os retrocessos, caso aprovada a mudança na lei, violam diversos artigos da Constituição, acordos e tratados ratificados pelo Brasil; prevê a liberação de agrotóxicos cancerígenos; maior poder ao Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), e desautorização da Anvisa e Ibama; e abre espaço para uma “indústria” de Registros Temporários.

Avançar com o Pacote do Veneno pode significar uma derrota histórica, diante do contexto de crise econômica e de crescimento da fome pelo qual o Brasil atravessa. Mais de 116,8 milhões de brasileiros estão em situação de insegurança alimentar, segundo o Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil, organizado pela Rede PENSSAN.

O dia 5 de junho é lembrado pelo Dia Mundial do Meio Ambiente, mas não há motivos para comemoração: desde o início do mandato, o governo Bolsonaro já liberou 1682 novos agrotóxicos, quase metade do total geral de liberações desses produtos no Brasil e se somam a um desmonte dos órgãos e da legislação ambiental. Os impactos à saúde e ao meio ambiente são evidentes. Se aprovado, o Pacote do veneno afetará profundamente a nossa biodiversidade.

Dossiê Contra o Pacote do Veneno

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Para subsidiar o debate sobre o impacto dos agrotóxicos na saúde da população, organizações construíram o Dossiê contra o Pacote do Veneno e em defesa da vida.

O dossiê é composto por documentos que fazem uma revisão técnica e científica contra o Projeto de Lei do Veneno (PL 6.299/2002) e a favor do Projeto de Lei que institui a Política Nacional de Redução de Agrotóxicos (PNARA) da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (ABRASCO) e da Associação Brasileira de Agroecologia (ABA).

Acesse o Dossiê [Aqui!]

O veneno está na mesa: equivalente a 140 carretas cheias com feijão de corda é apreendido no MT por contaminação com agrotóxico proibido

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Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) e Instituto de Defesa Agropecuária do Estado de MT fizeram apreensão de 4,1 mil toneladas de feijão-caupi por contaminação com agrotóxico proibido— Foto: MAPA

Que o brasileiro está sendo servido com um coquetel de agrotóxicos todos os dias não é novidade. Mas agora surgem mais indícios que a contaminação está chegando com mais intensidade do que se reconhecia até recentemente. Um exemplo disso foi a apreensão de  4,1 mil toneladas de feijão-caupi (ou feijão de corda) em  Campo Novo do Parecis, município localizado a 397 km de Cuiabá, em atacadistas e distribuidoras por conterem um agrotóxico proibido para a cultura.

Para que se tenha ideia da dimensão desta apreensão individual é só pensar que seriam necessárias 140 carretas totalmente cheias para transportar essa quantidade de feijão-caupi contaminada por um agrotóxico que os técnicos do Ministério da Agricultura decidiram manter em sigilo. 

Tal sigilo em relação ao agrotóxico que causou a apreensão em Campo Novo do Parecis indica que muito provavelmente a toxicidade do mesmo é alta, e não ocorreu simplesmente porque o veneno agrícola não era destinado ao uso nas plantações de feijão-caupi.

É que, como demonstrado em um dos artigos em que contribui sobre o uso de agrotóxicos por agricultores familiares em Campos dos Goytacazes,  corriqueiramente há um uso cruzado de substâncias aprovadas para uma determinada cultura em outras que o emprego delas não foi autorizado. Assim, para retirarem essa quantidade de feijão-caupi a chance é que a toxicidade do agrotóxico usado de forma incorreta seja alta.

Baião de dois • Ana Maria Braga

Nem o baião de dois escapou da onda de contaminação por uso de agrotóxicos proibidos

De toda forma, como essa apreensão é como uma gota em um oceano de feijão-caupi produzido com agrotóxicos proibidos, o mais provável é que haja muito gente comendo “baião de dois” temperado com altos níveis de agrotóxicos.

 

“O Veneno mora ao lado” : Podcast investiga o uso de agrotóxicos no Brasil

Em “O veneno mora ao lado”, Giovanna Nader, comunicadora e ativista ambiental, se aprofunda na complexidade do importante tema em diversas regiões do Brasil, contextualizando o público no entendimento sobre o perigo do uso irresponsável dos pesticidas. O projeto é uma parceria entre a Fundação Heinrich Böll Brasil e O tempo virou.

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Às vésperas de dar à luz da sua segunda filha, a preocupação com o mundo que a receberá fez com que Giovanna Nader, sempre preocupada com as questões climáticas e ambientais, se atentasse ainda mais ao que tange à saúde e vida de todos – inclusive do planeta. Neste caminho, a apresentadora, comunicadora e ativista ambiental se lança no streaming dia 23 de maio com o podcast O Veneno Mora ao Ladoem todas as plataformas digitais. Contando com seis episódios, o projeto, que é fruto da parceria entre a Fundação Heinrich Böll Brasil e O Tempo Virou, lança os três primeiros programas de uma só vez, fazendo uma narração investigativa sobre agrotóxicos, assunto cuja discussão é urgente e necessária.

“Quanto mais a gente vai puxando o fio do novelo da crise climática, mais a gente entende que o buraco é muito mais embaixo. E os agrotóxicos são, talvez, uma das maiores expressões dessa crise, porque diz respeito diretamente ao que a gente come, bebe e respira. Isso sem contar os problemas que derivam do uso desse veneno como, por exemplo, o desmatamento, a contaminação do lençol freático e a morte de abelhas. Não bastasse tudo isso, os agrotóxicos ainda estão no centro de uma verdadeira guerra contra camponeses, agricultores familiares e a população no campo em geral. Por isso, o ativismo ambiental que eu tenho no campo da moda, me levou diretamente a essa temática”, pontua Giovanna.

No podcast, o ouvinte encontra uma contextualização histórica dos agrotóxicos do Brasil, que é campeão mundial no uso do produto, e no mundo; uma vasta pesquisa a respeito da degradação ambiental provocada por eles na água, no solo, no ar e na biodiversidade; além de inúmeros relatos de pessoas que enfrentam problemas variados de saúde por causa da ingestão ou da inalação direta ou indireta desse veneno, bem como histórias de pessoas que estão na linha de frente dessa guerra, na luta por alternativas agroecológicas de produção de alimentos.

“Os agrotóxicos são a base do modelo de produção agrícola no Brasil. Sem ele, tudo cai: o latifúndio, a monocultura, e até mesmo o desmatamento…. Por isso, mais do que nunca é importante jogar luz neste problema, desvendando as relações deste sistema e reafirmando o óbvio: é não só possível como, principalmente, urgente e necessário produzir alimentos sem veneno! ”, reforça Giovanna, que lançou no ano passado seu primeiro livro, “Com Que Roupa? ” (Cia das Letras), que convida o leitor a reinventar sua relação com o que veste e consome.

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Equipe do projeto O veneno mora ao lado durante as gravações de um dos episódios do podcast. licence infos

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Giovanna Nader durante as gravações do podcast. licence infos

‘O Veneno Mora ao Lado’ é uma produção da Rádio Flutuante e conta com a colaboração de diversos jornalistas, ambientalistas e pesquisadores do tema. Para sua produção, foram realizadas mais de 25 entrevistas com especialistas, além de uma viagem feita ao Sertão da Paraíba para conhecer de perto quintais produtivos de mulheres agroecológicas que compartilharam suas histórias e estão no front da luta contra os agrotóxicos.

A história sobre como chegamos até aqui, a guerra química que acontece no campo entre os poderosos do agronegócio e as populações camponesas, o impacto sobre os trabalhadores do campo que manejam os agrotóxicos na produção convencional, a luta das mulheres agroecológicas que produzem sem veneno nos seus quintais produtivos, os impactos sobre o meio ambiente (solo, agua, ar, fauna e flora) e as ações no nível individual e coletivo que podem ser tomadas para fazer frente a esse sistema são alguns recortes dos episódios.

O coordenador de Justiça socioambiental da Fundação Heinrich Böll no Brasil, Marcelo Montenegro, destaca que o número de impactados diretamente pelos agrotóxicos tem aumentado drasticamente. “O Atlas dos Agrotóxicos, publicado pela Böll (em alemão), mostra que, anualmente, 385 milhões de pessoas são afetadas por envenenamento por pesticidas. Isso sem contar o impacto na vida animal, sendo os agrotóxicos reconhecidos como uma das principais causas para o declínio das espécies. Para agravar este cenário, quase nenhum país do mundo tem uma estratégia ambiciosa de redução de uso de agrotóxicos”, explica Montenegro.

Para Giovanna, não falta informação sobre o assunto, mas é preciso simplificá-lo para que alcance a todos e gere um engajamento real no assunto. “O nosso objetivo com o podcast é oferecer um verdadeiro dossiê da história, do lobby e dos impactos dos agrotóxicos na vida das pessoas, mas de forma didática, acessível e curiosa. Precisamos aprofundar um tema que é trágico, pesado e muito técnico. E a gente promete até o final da série contar tudo o que as pessoas precisam saber sobre agrotóxicos”, finaliza.

Os três primeiros episódios do podcast já estão disponíveis nas principais plataformas de streaming. Confira abaixo:

Episódio 1 – Revolução Verde

O primeiro episódio da série faz um acerto de contas com o passado e desvenda a história por trás do lobby dos agrotóxicos no Brasil e no mundo.

Episódio 2 – Guerra química

O segundo episódio da série retrata mais uma face da guerra que existe entre ruralistas e camponeses: o uso do agrotóxico como uma arma química.

Aqui falamos de histórias que aconteceram principalmente no Mato Grosso e Mato Grosso do Sul e Maranhão. Contamos também com a entrevista e falas de Larissa Bombardi, principal pesquisadora do tema no país que precisou se exilar na Bélgica por segurança.

Episódio 3 – Profissão Veneno

O terceiro episódio da série traz a realidade de quem está no front dessa guerra, lidando diretamente com todo esse veneno nas lavouras e no campo.

Siga o podcast O Veneno Mora ao Lado em sua plataforma preferida para receber a notificação dos próximos episódios.


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Este texto foi originalmente publicado pela Fundação Heinrich Böll [Aqui!].

Quantidade de frutas com vestígios de agrotóxicos altamente venenosos aumentou 53% em nove anos na Europa, mostra estudo

A análise de quase 100.000 amostras encontrou resíduos em um terço das maçãs e metade das amoras

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Perto de um terço de todas as frutas amostradas no estudo foram contaminadas por substâncias perigosas em 2019, o último ano para o qual havia dados disponíveis. Fotografia: Edward Berthelot/Getty Images

Por Arthur Neslen para o “The Guardian”

A contaminação de frutas frescas pelos agrotóxicos mais perigosos aumentou dramaticamente na Europa na última década, de acordo com um estudo de nove anos de dados oficiais.

Um terço das maçãs e metade de todas as amoras pesquisadas continham resíduos das categorias mais tóxicas de agrotóxicos, alguns dos quais foram associados a doenças como câncer, doenças cardíacas e deformidades de nascimento.

Os resíduos em kiwis aumentaram de 4% em 2011 para 32% em 2019, com a contaminação de cerejas também mais que dobrando de 22% para 50% no mesmo período.

Ao todo, a análise de quase 100.000 amostras de frutas cultivadas na Europa encontrou um aumento de 53% na contaminação pelos agrotóxicos mais perigosos, ao longo de nove anos. O estudo foi realizado pela Pesticide Action Network (PAN) Europe.

A pesquisa não incluiu produtos britânicos, mas o Reino Unido importa mais de 3,2 milhões de toneladas de frutas e vegetais frescos da UE a cada ano, atendendo cerca de 40% da demanda interna, de acordo com o CBI .

A professora Nicole Van Dam, do Centro Alemão de Pesquisa Integrativa em Biodiversidade (iDiv), descreveu o relatório como “chocante”.

“Qual é o sentido de comer saudável se as frutas e vegetais saudáveis ​​​​são pulverizados com toxinas?” ela perguntou.

A porta-voz da PAN Europa, Salomé Roynel, disse: “Os consumidores estão agora em uma posição terrível, instruídos a comer frutas frescas, muitas das quais estão contaminadas com os resíduos de agrotóxicos mais tóxicos ligados a sérios impactos à saúde. Está claro para nós que os governos não têm intenção de banir esses agrotóxicos, independentemente do que a lei diga. Eles têm muito medo do lobby agrícola, que depende de produtos químicos poderosos e um modelo agrícola quebrado.”

Roynel disse que os produtos químicos usados ​​nos agrotóxicos mais tóxicos não têm limites seguros e pediu aos consumidores que comprem frutas orgânicas neste verão “especialmente se estiverem grávidas ou alimentando crianças pequenas”.

A pesquisa descobriu que 87% das peras na Bélgica e 85% das de Portugal foram contaminadas por pelo menos um pesticida tóxico.

Perto de um terço de todas as frutas amostradas estavam contaminadas por substâncias perigosas em 2019, o último ano para o qual os dados estavam disponíveis para os pesquisadores.

As frutas mais contaminadas amostradas foram amoras (51%), pêssegos (45%), morangos (38%), cerejas (35%) e damascos (35%). Já para vegetais, aipo (50%), aipo (45%) e couve (31%) foram os produtos mais contaminados.

Anika Gatt Seretny, porta-voz da associação comercial CropLife Europe, disse: “A presença de vestígios de substâncias não significa que o alimento não seja seguro. A Autoridade Europeia de Segurança Alimentar (Efsa) realizou uma extensa pesquisa sobre este tópico, demonstrando que o risco do consumidor de exposição cumulativa na dieta está abaixo do limite e, portanto, não é um fator de risco”.

Stefan Van De Keersmaecker, porta-voz da Comissão Europeia, acrescentou que: “A Efsa [a Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos] publica todos os anos um relatório sobre resíduos de agrotóxicos em produtos alimentares, que é geralmente reconhecido como o relatório mais abrangente sobre esta questão. Por muitos anos, o relatório mostrou que 98% das amostras coletadas estão em conformidade com a legislação da UE.”

A comissão afirma que o uso de agrotóxicos perigosos caiu 12% em 2019 em comparação com o período de 2015-17 e está propondo um corte adicional de 50% até 2030.

Em contraste, o novo estudo descobriu que os números de contaminação aumentaram “dramaticamente” para frutas como maçãs (117%) e cerejas (152%) desde 2011, ano em que os governos da UE deveriam começar a proibir os agrotóxicos relevantes. No geral, eles descobriram que a proporção de frutas e vegetais contaminados em 2019 aumentou 8,8% na linha de base de 2015-17.

Guy Pe’er, ecologista da iDiv, disse que as quantidades de agrotóxicos usados ​​eram menos importantes do que seus impactos, porque “hoje em dia você pode matar muito mais com muito menos material”.

Ele disse que o novo estudo é extremamente preocupante porque “provavelmente expõe apenas a ponta de um iceberg de agroquímicos” como resultado de seu foco em produtos químicos já provados ser perigosos.

“Nossas preocupações com o uso excessivo de produtos químicos devem ir muito além de apenas se preocupar com as frutas e vegetais específicos que são monitorados – estamos falando de um sistema que literalmente se mata”, disse ele.

Uma reforma da lei de agrotóxicos da UE, que pode conter novas metas de redução, está prevista para 22 de junho , depois de ter sido adiada em março em meio a temores de segurança alimentar relacionados à crise na Ucrânia.

Ambientalistas alertaram sobre o que dizem ser “ataques sistemáticos” à próxima proposta de lobistas do agronegócio.

Em março, a Comissão Europeia anunciou uma suspensão “excepcional” das regras de agricultura verde para permitir que as culturas sejam semeadas em 4 milhões de hectares (10 milhões de acres) de áreas de foco ecológico.

Olivier de Schutter, co-presidente do IPES-Food e relator especial da ONU sobre pobreza extrema e direitos humanos, disse que os tomadores de decisão europeus devem se manter firmes nas regras verdes.

“Infelizmente agora com a crise alimentar que se desenvolveu, temos uma pressão muito forte, particularmente dos sindicatos de agricultores que dizem que precisamos aumentar a produção para compensar a interrupção no fornecimento de trigo, óleo vegetal e milho da Ucrânia e da Rússia”, disse ele.

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“Esse discurso é muito perigoso… mas é um discurso muito tentador para os governos seguirem.”

O sindicato dos agricultores Copa-Cogeca e a fabricante alemã de agrotóxicos Bayer foram contatados para comentar.


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Este texto foi originalmente escrito em inglês e publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

Feijoada envenenada: pesquisa do Ministério da Agricultura mostra alto nível de contaminação de feijão por agrotóxicos

Feijão contaminado: alimento tem agrotóxico proibido ou fora do limite em teste do governo. Em 2019, 89% das amostras de feijão-de-corda e 32% do feijão comum não atendiam aos parâmetros, segundo pesquisa do Ministério da Agricultura

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Por Júlia Rohden para o “Por Trás do Alimento”

Um dos principais alimentos do cotidiano dos brasileiros — o feijão —  tem resíduos de agrotóxicos proibidos ou acima do limite permitido. É o que aponta pesquisa realizada pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa): 89% das amostras de feijão-de-corda e 32% de feijão comum, coletadas em 2019, não estavam em conformidade. O feijão-de-corda, também conhecido como feijão caupi, é usado em saladas e pratos como baião de dois.

Em 2020, os feijões continuaram com problemas: 77% das amostras do feijão-de-corda e 37% do feijão comum apresentavam índices de agrotóxicos fora do padrão.

Ao todo, a última pesquisa do Ministério analisou 37 produtos entre 2019 e 2020. Além do feijão, o pimentão e o morango também apresentaram altos índices de resíduos de agrotóxicos em desconformidade.

O Plano Nacional de Controle de Resíduos e Contaminantes em Produtos de Origem Vegetal (PNCRC/Vegetal) é realizado pelo Mapa desde 2008. Além de monitorar resíduos de agrotóxicos, investiga a presença de contaminantes químicos (como arsênio e chumbo) e biológicos (como salmonella) em vegetais destinados ao mercado interno e à exportação.

O PNCRC é um dos dois programas do Governo Federal que monitoram agrotóxicos nos alimentos. O outro é o Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos (PARA), feito pela Anvisa. Conforme apuração da Agência Pública e Repórter Brasil, esse programa está paralisado há mais de dois anos. Desde 2020, a Anvisa não realizou novos testes em alimentos. O governo divulgou apenas os resultados de amostras coletadas até 2018, que apontou problemas especialmente na laranja, no pimentão e na goiaba.

O PARA pesquisa resíduos de agrotóxicos em frutas e verduras de supermercados e feiras, com foco nos riscos à saúde do consumidor. Já o programa do Mapa realiza coletas em propriedades rurais e centrais de abastecimento. Desde 2019, foram aplicados mais de R$ 4 milhões em multas por irregularidades.

Em resposta à reportagem, a assessoria de imprensa do Ministério da Agricultura disse que os dois programas seriam complementares para a segurança dos alimentos consumidos pela população. Ainda de acordo com a assessoria de imprensa, os resultados das coletas do PNCRC realizadas em 2021 estão sendo avaliados e serão divulgados em breve.

Glifosato é principal agrotóxico encontrado no feijão

O governo divulgou que o resultado das coletas de 2019 e 2020 “confirma segurança para consumo dos vegetais comercializados no país” e destacou que 89% das amostras de todos os alimentos avaliados estavam em conformidade. 

Em relação aos agrotóxicos encontrados nos feijões, o Mapa alegou que “segundo parecer da Anvisa, as irregularidades encontradas nos feijões não apresentam risco agudo no consumo desses alimentos”. 

O risco agudo é quando os efeitos aparecem logo depois do consumo, podem variar de dores de cabeça a crises renais. Também existe o efeito crônico, quando doenças aparecem  após longo período de consumo frequente. Ou seja, segundo o parecer da Anvisa, quem consumir o feijão com resíduos de agrotóxicos não manifesta problemas imediatamente.

No entanto, pesquisadores ouvidos pela reportagem apontam que é fundamental avaliar o risco crônico à saúde. “As consequências crônicas dos agrotóxicos para a saúde são gravíssimas. Afetam órgãos, tecidos, sistemas do nosso organismo, gerando câncer, alterações neurológicas, psíquicas, pulmonares, renais, endócrinas”, avalia Guilherme Cavalcanti de Albuquerque, médico e professor que também coordenou o Observatório do Uso de Agrotóxicos e Consequências para a Saúde Humana e Ambiental da Universidade Federal do Paraná (UFPR).  

A interpretação otimista do governo recebeu críticas dos especialistas que monitoram o setor. “É uma forma de enganar a população”, afirma o engenheiro agrônomo Leonardo Melgarejo, que integra a Associação Brasileira de Agroecologia (ABA) e a Campanha Permanente contra os Agrotóxicos e Pela Vida. “O problema crônico é o envenenamento aos poucos, e é o mais relevante”.

O glifosato, agrotóxico mais vendido no Brasil de acordo com relatório divulgado pelo Ibama, foi o principal encontrado pelo Ministério nos dois tipos de feijão. Entre seus efeitos de longo prazo, estão relacionadas doenças como depressão, Alzheimer e Parkinson. 

Dos 89% de feijão-de-corda testados em 2019 que apresentavam inconformidades, todas as dez amostras coletadas na Paraíba estavam irregulares e apenas duas entre as nove amostras de Pernambuco estavam em conformidade. Já a análise de 2020 apontou que no Tocantins, Mato Grosso do Sul, Distrito Federal e Amazonas nenhuma amostra estava em conformidade. No Maranhão, das oito amostras testadas, apenas uma estava regular.

Em relação ao feijão comum, as coletas realizadas em 2020 no Amazonas apresentaram 67% de irregularidade, seguido pelo Rio Grande do Sul (57%) e Paraná (49%). Na pesquisa de 2019, o feijão no Rio Grande do Sul apontava o maior índice de irregularidade (58%), seguido por Santa Catarina (40%) e São Paulo (36%).


A análise do Ministério da Agricultura também encontrou problemas no feijão comum: 67% dos testados vindos do Amazonas e 57% do Rio Grande do Sul estavam fora dos parâmetros de resíduos de agrotóxicos

Pimentão e morango lideram resíduos de agrotóxicos

Além dos feijões, o pimentão apresentou alto índice de irregularidade. Em 2020, 64% dos pimentões coletados em 13 estados estavam inadequados. No Tocantins e no Paraná nenhuma das amostras atenderam aos parâmetros. No Rio Grande do Sul, 73% dos pimentões estavam em desconformidade, 68% em São Paulo e 67% em Santa Catarina e na Paraíba. Em Alagoas, Distrito Federal, Maranhão, Mato Grosso do Sul e Pernambuco metade das amostras estavam irregulares.

Em 2019, 65% dos pimentões não estavam adequados. Nenhuma das quatro amostras de pimentão coletadas em Goiás estava em conformidade, já em Santa Catarina e Rio Grande do Sul 75% não atendiam aos parâmetros. 


Em 2020, mais da metade dos pimentões coletados e testados pelo Ministério da Agricultura estavam fora dos limites para resíduos de agrotóxicos. Pixabay

Os morangos também apresentaram problemas em mais da metade (57%) das amostras de 2019. Em Minas Gerais, 75% das coletas não atendiam aos critérios e continham, principalmente, acetamiprido e o imidacloprido. Esse último é um neonicotinoides, inseticida derivado da nicotina que tem capacidade de se espalhar por todas as partes da planta e é fatal para as abelhas. No ano seguinte, o Mapa não coletou amostras de morango.

A cenoura, em 2019, foi testada em quatro estados e apresentou 38% de inconformidade, mas a única amostra da Bahia apresentou problemas e em Minas Gerais o índice de irregularidade foi de 67%. Já em 2020, o Mapa coletou amostras de cenoura em 13 estados, a maioria dentro dos parâmetros, com exceção do Mato Grosso do Sul e Rio Grande do Sul, onde a inadequação foi de 34%.

Assim como o morango, a goiaba também apontou irregularidades em 2019, mas não entrou nos testes do Mapa em 2020. Foram 31% de goiabas com resíduos de agrotóxicos irregulares, coletadas nos estados de Minas Gerais e Rio de Janeiro.

Questionado sobre os critérios utilizados para o monitoramento, o Ministério informou que o “desde 2019, o PNCRC/Vegetal utiliza ferramentas de gerenciamento de risco cada vez mais criteriosas a partir de parâmetros como risco associado ao produto, produtos de origem vegetal mais consumidos no Brasil (dados do IBGE), quantidade de ocorrências detectadas em anos anteriores. Tudo isso é aplicado a modelos estatísticos com um nível de confiança de 95%, o que levou a aumentar o número de amostras a serem coletadas de cada produto de origem vegetal. Isso ocasionou uma diminuição no número de culturas monitoradas a cada ano, pois o PNCRC/Vegetal busca trabalhar com ciclos de 3 anos, com o monitoramento de um número maior de produtos amostrais coletados durante o período”.

O tomate, conhecido por seus altos índices de agrotóxicos, apareceu na pesquisa do Mapa de 2019 com apenas 23% de suas amostras em desconformidade. No entanto, os dados detalhados por estado apontam que na Paraíba metade dos tomates apresentavam irregularidades e no Paraná seriam 67%. Já na pesquisa de 2020, foram testados tomates em onze estados. No Mato Grosso do Sul nenhuma amostra atendeu aos parâmetros e em Pernambuco, dos oito testados, cinco apresentaram problemas. Dentre os agrotóxicos encontrados está o acefato, que desde 2013 foi proibido no Brasil para algumas culturas, dentre elas o tomate. O acefato pode levar a alterações no sistema nervoso, levando a casos severos de depressão, entre outros problemas. 


Programa do Ministério da Agricultura que analisa resíduos de agrotóxicos em alimentos é focado na produção de fazendas e centros de distribuição. Programa da Anvisa, que fiscaliza comida em supermercados, está paralisado. Valter Campanato/Agência Brasil

Pesquisadores questionam segurança nos alimentos que apontam 100% de conformidade

Das 2.601 amostras coletadas na última pesquisa do Mapa, 1.777 passaram por monitoramento de resíduos de agrotóxicos, sendo que 256 apresentaram agrotóxicos proibidos para aquela cultura ou acima do limite permitido. 

Há alimentos com 100% de conformidade em relação aos resíduos de agrotóxicos, como arroz, café e maçã. No entanto, Guilherme Albuquerque avalia que isso não significa que não há riscos no consumo. “Os limites aceitos no Brasil são muito diferentes de outros países e os agrotóxicos aqui aceitos frequentemente são proibidos no resto do mundo. Então que segurança é essa?” questiona. 

O Brasil, por exemplo, permite dez vezes mais resíduos do herbicida glifosato no café. É o que mostra o Atlas Geográfico do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia, da professora da Faculdade de Geografia da Universidade de São Paulo Larissa Bombardi que aponta várias discrepâncias nos limites máximos de resíduos de agrotóxicos permitidos no Brasil e na União Europeia. “O Mapa interpreta o resultado como um indicativo de que aquela produção é segura, mas é uma interpretação baseada em uma regra de mensuração que não é universalmente aceita”, ressalta Melgarejo. “Se o Mapa tivesse passado seus resultados para especialistas franceses ou alemães analisarem, a interpretação seria muito diferente do que o Ministério apresenta como sendo adequado”, diz o engenheiro agrônomo.

Yumie Murakami, farmacêutica que também integra o Observatório de Uso de Agrotóxicos e Consequências para Saúde Humana e Ambiental da UFPR, lembra que não foi considerada a interação entre agrotóxicos de diferentes alimentos. “Não interessa só saber o que está acima do limite permitido, mas o que ficou abaixo também. A maçã que você ingere pode estar dentro dos limites de miligramas de acefato, mas ao longo do dia você também ingere o paraquate que tem na banana e o metamidofós do feijão”, exemplifica.  Histórias como essa precisam ser conhecidas e debatidas pela sociedade. A gente investiga para que elas não fiquem escondidas por trás de interesses escusos. Se você acredita que o jornalismo de qualidade é necessário para um mundo mais justo, nos ajude nessa missão. Seja nosso Aliado

Esta reportagem faz parte do projeto Por Trás do Alimento, uma parceria da Agência Pública e Repórter Brasil para investigar o uso de Agrotóxicos no Brasil. A cobertura completa está no site do projeto.


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Este texto foi originalmente publicada pela Agência Pública [Aqui!].

Anvisa: médico ou monstro?

A mesma mão que oferece vacina põe mais veneno em sua comida. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) sofre de dupla personalidade: sua atuação digna de elogios nos piores momentos da pandemia encobre o seu lado assustador. Não fosse pela entidade, teriam morrido bem mais pessoas de Covid-19 no país; por outro lado, ela é corresponsável pela morte causada por agrotóxicos de um brasileiro a cada dois dias, segundo um relatório recém-publicado pela ONG Friends of the Earth Europe. E, de acordo com a pesquisadora Larissa Bombardi, professora do departamento de Geografia da USP, pela intoxicação de 50 bebês por ano no Brasil. É como na história do médico e o monstro.

A Anvisa “tem por finalidade institucional promover a proteção da saúde da população, por intermédio do controle sanitário da produção e consumo de produtos e serviços submetidos à vigilância sanitária”. Seguindo à risca o que diz seu estatuto, aprovou as vacinas que salvaram as vidas de milhares de brasileiros, contra recomendações do governo; ao mesmo tempo, tem cumprido ordens que vêm minando nossa saúde lentamente. Cabe à agência não só dar ou negar seu aval a medicamentos, como também a pesticidas. E nunca tantos agrotóxicos foram liberados no Brasil em tão pouco tempo.

Em 2021, 562 novas substâncias foram aprovadas, um recorde absoluto. Até 25 de fevereiro deste ano, quando o atual governo completou 1.158 dias, este número chegou a 1.629 – o que dá uma a incrível média de 1,4 por dia. E a nossa saúde tem se deteriorado com a mesma rapidez. “Os números me chocaram, pois só aumentaram. Pela média, são 15 pessoas intoxicadas por ano. No antigo levantamento, eram 10. Entre os bebês de 0 a 1 ano, a média de intoxicações passou de 43 para 50. Essa alta tem se mantido para todos os recortes que tenho feito”, diz Larissa Bombardi, que ora prepara a versão atualizada do “Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia”.

A cientista publicou o primeiro relatório em 2017. Nele, constavam dados de 2007 a 2014, compilados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), do Ministério da Saúde. A atualização traz dados de 2010 a 2019. Notificações de intoxicação desse tipo são obrigatórias no Brasil desde 2011; mas como isso nem sempre acontece, é razoável supor que os números devem ser ainda mais assustadores. O texto foi publicado em 2020 na Europa, onde causou escândalo – uma grande rede escandinava de supermercados chegou a boicotar produtos brasileiros. Larissa foi ameaçada e teve que deixar o país.

O lado monstro da Anvisa gosta de vida mansa – e isso o torna ainda mais perigoso. Há quase três anos não sabemos o risco que corremos quando nos sentamos à mesa. O Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos foi criado em 2011. A última vez que um resultado veio à luz, foi em 2019, com análises de amostras recolhidas em 2017 e 2018. Ou seja, desde que começou o atual governo, o recordista em lançamento de pesticidas, não temos a menor ideia da quantidade de veneno que estamos ingerindo. Melhor dizendo, temos uma leve noção: 42% das goiabas, 39% das cenouras, 35% dos tomates e oito a cada dez pimentões analisados na safra 2017-2018 estavam contaminados.

A agência também está empurrando com a barriga a decisão de proibir o uso do carbendazim no país. O agrotóxico foi banido dos Estados Unidos e da Europa; suspeita-se que leve à malformação de fetos e cause câncer. Em 2015, a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer já alertava para os perigos do glifosato, da diazinona e da malationa, usados como água por aqui. O Instituto Nacional de Câncer calcula 625 mil novos casos da doença por ano entre 2020 e 2022 – contra 600 mil em 2018 e 2019. Segundo a Organização Internacional do Trabalho, os agrotóxicos são responsáveis por 70 mil mortes por ano no mundo; e 20% das vítimas no Brasil são crianças e jovens de até 19 anos.

Hoje, o país responde por 20% do mercado mundial de agrotóxicos, com US$ 10 bilhões por ano. Caso a sociedade não reaja, a tendência é piorar. O médico/monstro ainda pode ser obrigado a lavar as mãos. O Projeto de Lei 6.299/2002, mais conhecido como PL do Veneno, que ora tramita ameaçadoramente no Congresso, não só flexibiliza ainda mais as regras de aprovação e comercialização de agrotóxicos: também transfere essa atribuição da Anvisa para o Ministério da Agricultura. Em nome de quê?

Existem opções, não se deixe enganar. Não podemos ser obrigados a escolher entre morrer de fome ou de câncer por causa da ganância alheia. Vamos deixar claro nas urnas que queremos uma vida longa, próspera e saudável para nós e para as próximas gerações.


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Este texto foi inicialmente publicado pelo site “Uma gota no oceano” [Aqui!].