Tsunami tóxica: consumo de agrotóxicos ultrapassou 1 milhão de toneladas, alcançando 1,6 bilhão de hectares no Brasil em 2020

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Estudo realizada pela empresa Spark Consultoria Estratégica a pedido do  Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal (Sindiveg), a área afetada pelo uso de agrotóxicos cresceu 6,9 no Brasil em 2020, totalizando o emprego do valor estratosférico de 1.052.520 toneladas (ou traduzindo em um número mais compreensível, cerca de 1 milhão de toneladas) que foram usados 1,6 bilhão de hectares, 107 milhões a mais que em 2019 (ver figura abaixo).

Segundo o mesmo relatório, a  soja concentrou 48% do valor em agrotóxicos, representando outro valor estrastoférico, US$ 5,8 bilhões. Em segundo lugar, apareceu o milho, com 13% do total, equivalente a US$ 1,6 bilhão, depois a cana (11% do valor de mercado), o algodão (10%). Assim, juntas essas commodities produzidas primariamente para exportação representaram 82% do consumo total de agrotóxicos no Brasil em 2020!

Em relação ao tipo de agrotóxicos utilizados, mais de 413 milhões de hectares foram afetados pelo uso de inseticidas, cerca de 25% do total. Em seguida, apareceram os herbicidas, com cerca de 401 milhões de hectares (24%). Além disso, os produtores também aplicaram fungicidas em 306 milhões de hectares (19%), enquanto outros 149 milhões de hectares receberam aplicações de produtos para o tratamento de sementes (9%).

Com todos esses números impressionantes, o que temos no Brasil é uma super utilização de agrotóxicos explicitamente para dar conta de quatro commodities (i.e., soja, milho, cana e algodão) que afetam cada vez mais área rurais, e objetivamente contribuem para a poluição ambiental e a contaminação dos habitantes dessas regiões, estejam eles trabalhando direto com agrotóxicos ou não.

Como venho mostrando em seguidas postagens, diversas publicações científicas que estão aparecendo nas melhores revistas científicas do mundo já estão documentando os fortes impactos sobre a saúde dos brasileiros por causa da alta exposição a agrotóxicos altamente perigosos, os quais estão banidos nos países que os produzem. E com isso vem abaixo todo o discurso empregado pelo governo Bolsonaro para facilitar a liberação desses produtos indesejados por outros países no Brasil que lembremos vai no sentido de que mais agrotóxicos traria modernização e segurança.

Esse custo subliminar de um modelo agrícola baseado na exportação de commodities produzidas em grandes áreas de monocultura cedo ou tarde sobrecarregará, tal qual faz a COVID-19 neste momento, um sistema de saúde cada vez mais privatizado e indisponível justamente para aqueles que estão sendo mais diretamente impactados por essa verdadeira tsunami de agrotóxicos que assola o Brasil neste momento.

Finalmente, nunca é demais lembrar que todo esse volume de agrotóxicos já está causando um afastamento de mercados importantes das commodities agrícolas brasileiras. Essa aposta tóxica poderá, mais cedo do que tarde, colocar a produção brasileira em uma espécie de isolamento sanitário por aqueles mesmos países que vendem a lucros fabulosos os venenos agrícolas que estão sendo utilizados no Brasil.

Estudo mostra que uso de agrotóxicos afetou sistema imunológico de agricultores gaúchos

The food scientist checks the potato for chemicals and pesticides. Study quality of soil and crop. Growing organic vegetables. Eco-friendly products. Pomology. Agriculture and farming. GMO test.

The food scientist checks the potato for chemicals and pesticides. Study quality of soil and crop. Growing organic vegetables. Eco-friendly products. Pomology. Agriculture and farming. GMO test.

Um estudo que acaba de ser publicado pela revista Environmental Science and Pollution Research traz resultados preocupantes sobre os impactos trazidos um coquetel de agrotóxicos sobre o sistema imunológico dos agricultores familiares que o utilizam.  Um questionário foi elaborado para coletar dados como informações sociodemográficas dos participantes, hábitos e condições de saúde, dados ocupacionais e de manejo de pesticidas e percepção de risco. Um aspecto inovador da pesquisa foi o uso de biomarcadores para estabelecer potenciais mudanças no sistema imunológico dos agricultores em função da exposição intensiva e continuada a agrotóxicos altamente tóxicos.

O artigo intitulado “Exposição ocupacional de trabalhadores rurais a agrotóxicos em região produtora de hortaliças do Brasil” é de autoria de pesquisadores ligados a três instituições de ensino superior gaúchas conduziram o estudo na principal área de produção de batata do Rio Grande do Sul e detectaram o uso de  agrotóxicos pertencentes a grupos químicos como piretróides (inseticidas), triazóis e etileno-bis-ditiocarbamatos (fungicidas) e bipiridílios (herbicidas) (ver figura abaixo).

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Os agrotóxicos identificados como sendo os mais utilizados na área estudada já foram documentados na literatura científica como estando associados ao surgimento de várias doenças por meio da exposição cumulativa devido à sua neurotoxicidade e sua capacidade de induzir o estresse oxidativo. No caso especíico do herbicida Paraquat, o mesmo pode participar ativamente dos mecanismos de indução do estresse oxidativo por meio do consumo de NADP, o que aumenta consideravelmente a concentração de ROS, precursores de lipoperoxidação e níveis de malondialdeído (MDA), conhecidos por causar distúrbios no metabolismo celular . Outros estudos experimentais também sugeriram que piretróides sintéticos e etileno-bis-ditiocarbamatos podem atuar como desreguladores endócrinos  e os etileno-bis-ditiocarbamatos também podem levar à toxicidade crônica da tireóide. Finalmente, os fungicidas triazólicos têm efeitos de interferência hormonal e, acima de tudo, são altamente tóxicos para os humanos devido à clastogênese (i.e., mutação gênica).

É interessante notar que mais de 100 agrotóxicos (na verdade, o site da ANVISA mostra que o total oficial chega a 124) estão autorizados para uso apenas nessa cultura em todo o território brasileiro.

As mudanças observadas no organismo dos agricultores incluíram o aumento dos níveis de TBARS e da proteína carbonilada, e a diminuição do nível de GSH. Também foi observada uma diminuição da atividade enzimática de BuChE, SOD, CAT, GR e GPx, bem como expressão irregular dos biomarcadores imunológicos IL-8 e IL-10. Os autores apontam que todos esses sinais indicam uma a perda iminente da função dos mecanismos de defesa, tanto antioxidantes quanto imunológicos, que podem desencadear efeitos adversos no sistema imunológico desses indivíduos.

Os autores concluíram que os agricultores familiares estudados estão expostos a múltiplos agrotóxicos e podem apresentar alterações bioquímicas e imunológicas em seus organismos.  Porém,  foi observado a presença de um alto desconhecimento e baixa percepção dos riscos à saúde causados ​​pelos agrotóxicos, bem como a falta de orientação para o manuseio correto dos agrotóxicos e, principalmente, o uso inadequado de EPIs. Tais aspectos indicam que estes agricultores familiares vivem em alto grau de vulnerabilidade, não só pela possibilidade de desenvolver doenças crônicas associadas à intoxicação, mas também pela maior probabilidade de sofrer acidentes de trabalho, como intoxicações agudas.

Preços salgados dos agrotóxicos vão pressionar agronegócio brasileiro

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Desde que o governo Bolsonaro se iniciou,  os controladores do mercado brasileiro de agrotóxicos entrou em euforia em função da verdadeira tsunami de novos produtos sendo aprovados em ritmo para lá de acelerado.  Dentre as promessas feitas pelo presidente Jair Bolsonaro e sua musa do veneno, a ministra Tereza Cristina, essa aprovação massiva de produtos visava introduzir novos substâncias que fossem mais eficientes no combate às ditas pragas agrícolas, e tinham como como outro produto um barateamento dos custos para os produtores que usam venenos agrícolas em suas propriedades.

Ao longo dos últimos dois anos, o Blog do Pedlowski demonstrou a partir da análise dos produtos liberados que a imensa maioria deles é de produtos pós-patente, ou seja, produtos que já estão no mercado há bastante tempo a ponto de terem suas patentes expiradas, liberando-os assim para serem produzidos em países como China e Índia.  

Eis que agora um informe do Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal (Sindiveg) vem jogar um pá de cal dolorosa na promessa de que a política de facilitação de aprovação de agrotóxicos (muitos deles proibidos na União Europeia e na China) iria baixar os custos. Segundo nota divulgada pelo Sindiveg,  o custo dos agrotóxicos para os agricultores brasileiros “sofrerão reajustes imediatos e poderão aumentar ainda mais”.  A razão para esse cenário de encarecimento dos venenos agrícolas seriam “as altas nos preços de matérias-primas, embalagens e transporte internacional, o que provocará reajustes “para absorver os custos, bem como o impacto do câmbio que continua acima do projetado no ano anterior”

Em sua nota, o Sindiveg ainda anuncia que os agrotóxiocos “sofrerão reajustes imediatos e poderão aumentar ainda mais para absorver os custos bem como o impacto do câmbio“.

Trocando em miúdos essa nota dos fabricantes de venenos agrícolas, o aumento no custo dos agrotóxicos será inevitável e os agricultores que dependem deles para viabilizar sua versão envenenada de agricultura terão de internalizar essa alta. Como o preço das commodities não deverá seguir o perfil de alta dos custos, o que deverá acontecer é um encolhimento de margens de lucros que já não são tão grandes para começo de conversa.

A consequência disso deverá ser um esforço pela expansão da área plantada que, por sua vez, deverá pressionar ainda mais as taxas de desmatamento e de uso de venenos agrícolas.  Este círculo vicioso deverá causar ainda a ampliação dos problemas de contaminação ambiental e de problemas para a saúde humana. Em suma, um grande desastre para o Brasil, mas garantia de lucros ainda mais fabulosos para os fabricantes de agrotóxicos.

Feijão com excesso de agrotóxicos é mais um grave risco à saúde dos brasileiros

Embrapa já tem alimentos transgênicos liberadosExcesso de agrotóxicos no cultivo de feijão representa outra grave ameaça à saúde dos brasileiros

Tendo nascido no sul do Brasil no meio de uma família de produtores de itens básicos da dieta brasileiro sou um fã confesso do feijão. Nos anos em que morei fora do Brasil em países em cuja a dieta o feijão era ausente, realizei esforços incríveis para mantê-lo como ingrediente da minha dieta costumeira. Aliás, da minha e de milhões de brasileiros.

Pois bem, eis que lendo o Boletim “Só feijão” produzido pelo Instituto Brasileiro do Feijão e Pulses (Ibrafe), descobri que estamos vivenciando um grave problema com o uso intensivo de agrotóxicos por produtores rurais, e que o problema já chegou a tal gravidade que “cargas de Feijão sendo devolvidas por resíduos excessivos de defensivos (isto é, agrotóxicos). Testes rápidos têm permitido que, antes de descarregar o produto, se tenha um resultado prévio e o empacotador não pode descarregar.

O Boletim do Ibrafe informa ainda que o “Ministério da Agricultura tem lavrado multas contra os empacotadores e, repito, que chegam a R$ 490.000 por uma carreta“.   O autor da nota ainda enfatiza que a razão da multa ser tão alta “certamente não é em busca de gerar receita a partir de multas, mas para que se pare com o uso inadequado de defensivos (isto é, agrotóxicos).

Um detalhe curioso nesse informe se refere à informação de que “as empresas de defensivos (isto é, as mesmas corporações que produzem venenos agrícolas, muito deles proibidos em outras partes do mundo) estão preocupadas e sabem que podem ser corresponsáveis pelo mau uso.” 

É interessante lembrar que no livro publicado em 2017 pela geógrafa e docente do Departamento de Geografia da USP, Larissa Miers Bombardi, o “Atlas Geográfico do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia”, há uma referência específica ao limite de resíduos permitidos no feijão para o inseticida malationa que está entre os mais vendidos no nosso país, e que aqui possui uma tolerância quatrocentas vezes maior do que na União Europeia (ver imagem abaixo).

feijão malationa

 Mas a malationa é apenas um dos muitos agrotóxicos utilizados no cultivo do feijão.  Ao se acessar o site da Ihara, um dos principais fabricantes de venenos agrícolas no Brasil, é possível ver que a empresa vende 25 produtos direcionados diretamente para esta cultura, entre eles os fungicidas Clorotalonil, Cloridrato de Cartape e o inseticida da classe dos neonicotinóides, Dinotefuram, que são proibidos pela União Europeia (EU) por seus danos ao ambiente e à saúde humana.

É interessante notar que, por força de decisão judicial, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) está tendo que reavaliar a autorização para uso de outro fungicida também proibido pela EU amplamente utilizado no cultivo de feijão, o Carbendazim, por causa dos danos à saúde humana, incluindo a infertilidade, malformações fetais e câncer (ver imagem abaixo).

carbendazim globo

O brasileiro, pelo menos aquele que ainda possui dinheiro para comprar comida, está sob mais uma grave ameaça que é a contaminação excessivo de agrotóxicos no feijão. E há que se notar que agrotóxicos como o Clorotalonil e o Cloridrato de Cartape tem sua produção fortemente associada à empresas chinesas, o que novamente explicita toda a hipocrisia que cerca o tratamento dado pelo governo Bolsonaro, a começar pelo próprio presidente Jair Bolsonaro, à vacina Coronavac,  que é produzida pela empresa Sinovac. Como se vê agora, vacina chinesa não pode, mas feijão contaminado com agrotóxico chinês pode.

Observatório dos Agrotóxicos: com mais 32 agrotóxicos, governo Bolsonaro fez de 2020 um ano recorde de aprovações

Nem a pandemia da COVID-19 serviu para brecar o ímpeto pró-venenos agrícolas, e o total liberado em 2020 chegou a 530 agrotóxicos. Em dois anos, a liberação foi de 1033 agrotóxicos, 34% de todos os produtos em circulação no Brasil

tereza cristinaSob a batuta da ministra Tereza Cristina (DEM/Ms), governo Bolsonaro liberou quantidade recorde de agrotóxicos, muitos deles banidos em outras partes do mundo

Ainda que estejamos em meados de janeiro de 2021, o governo Bolsonaro continuou com sua enxurrada de agrotóxicos aprovados em 2020. É que em no dia 14 o Diário Oficial da União trouxe a publicação do Ato No. 71 de 28 de Dezembro onde foram liberados mais 32 agrotóxicos, todos produtos técnicos, o que totaliza para 2020 o valor de 530 agrotóxicos liberados, elevando para 1033 agrotóxicos liberados em dois anos de governo Bolsonaro.

Essa verdadeira tsunami de aprovações acontece em meio à mudanças feitas pelo governo Bolsonaro não apenas para agilizar o processo de aprovação, mas também para relaxar os critérios de definição de risco para a saúde humana, o que se reflete em uma curiosa contradição entre as definições de toxicidade ambiental e sobre a saúde humana, visto que os produtos via de regra tiveram seu risco humano baixado, sendo o de ambiental normalmente mais elevado.

A geopolítica da vacina e dos agrotóxicos

china brasil

Um detalhe que saltas aos olhos quando se analisa a origem dos agrotóxicos aprovados é que China e Índia, justamente os países que estão no cerne das dificuldades para o Brasil produzir vacinas contra a COVID-19, são os principais fornecedores de agrotóxicos com que o latifúndio agroexportador está se refastelando em seu esforço de auferir cada vez mais lucros com a exportação de commodities agrícolas.

O caso dos agrotóxicos produzidos por empresas chinesas em território chinês é o mais gritante, visto que eles representam 61% de todos os agrotóxicos liberados pelo governo Bolsonaro. Já as empresas da Índia participam com 8%, à frente de países tradicionalmente no mercado internacional de agrotóxicos como EUA (6%), Japão (3%) e Alemanha (2%) (ver gráfico abaixo).

agrotoxicos total 2019-2020

Essa mudança de origem dos produtos sendo aprovados pelo governo Bolsonaro reflete um movimento mais geral da indústria de produção de venenos agrícolas, e que curiosamente aparece no Brasil (que participa do “bolo” com 13% dos produtos aprovados) que é a mudança em curso para o combate biológico das ditas pragas agrícolas.

Mas no frigir dos ovos, o que fica claro é que se o governo Bolsonaro fez todo um teatro para frear a aprovação e uso da Coronavac, produzida pela empresa chinesa Sinovac, o tratamento dispensado às empresas chinesas produtoras de agrotóxicos é de um verdadeiro “mar de almirante”.

Por outro lado, o fato que China e Índia continuam vendendo agrotóxicos para o Brasil sem se importarem com as desfeitas do presidente Jair Bolsonaro, seus filhos e o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo. Assim, a alegada “vendetta” que a mídia corporativa vem divulgando em relação ao envio de vacinas e dos insumos básicos para sua produção em solo brasileiro, se real, deve ter outros motivos.

Em vez da modernização prometida, agrotóxicos banidos por serem perigosos demais

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Um dos pontos basilares da política de aprovação de agrotóxicos do governo Bolsonaro seria o abandono de produtos teoricamente ultrapassados por outros mais modernos. Mas um rápido exame dos 1033 agrotóxicos liberados pelo governo Bolsonaro mostra que em média 30% estão banidos na União Europeia por causarem danos ao meio ambiente e a saúde humana.  Dentre os produtos aprovados e banidos pela UE (UE) podem ser citados a Acefato, a Ametrina, a Atrazina, o Fipronil, o Glufosinato e o Tiametoxam, entre tantos outros.

O fato é que esse uso amplo, e que deve se estar se ampliando em face das aprovações, está gerando um desastre sanitário de grandes proporções no Brasil, e que não está sendo identificado em função do desastre corrente que é o da pandemia da COVID-19.

Não há como negar que ao autorizar a ampliação do uso de agrotóxicos com reconhecida capacidade de causar graves danos à saúde humana, e apenas para apoiar o latifúndio agroexportador, o governo Bolsonaro está gerando um legado de envenenamento com o qual o Brasil terá dificuldades de se confrontar em um futuro não muito distante.

A coisa é tão descabido é que segundo “Robotox“, projeto conjunto da Agência Pública e da ONG Repórter Brasil, o mercado brasileiro possui atualmente com 3064 agrotóxicos em circulação, o que torna o governo Bolsonaro responsável por cerca de 34% dos agrotóxicos liberados pelo uso no Brasil, e isto em apenas dois anos de governo.

Acesso às bases de dados do “Observatório dos Agrotóxicos”

Um primeiro elemento das planilhas que o “Observatório dos Agrotóxicos” do Blog do Pedlowski vem divulgando é que todos os dados foram adquiridos a partir da extração manual das informações contidas em cada ato oficial de liberação.  Com isso, pode ser que outras fontes mostrem valores ligeiramente diferentes para o governo Bolsonaro, mas considero que os valores aqui apresentados estão corretos.

Ao longo de 2021, o “Observatório dos Agrotóxicos” continuará fornecendo informações sobre novos atos e apresentando as planilhas respectivas.  Como no caso do Ato No. 71, os interessados em verificar as informações dos agrotóxicos aprovados, basta clicar [Aqui!]. Já os interessados em verificar todos os 1.033 agrotóxicos aprovados pelo governo Bolsonaro em 2019-2020, basta clicar [Aqui!].

A transparência da Anvisa que sobra para as vacinas da COVID-19, falta para os agrotóxicos

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Milhões de brasileiros devem estar passando o início desta tarde de domingo (17/01) com os olhos pregados nas telas da TV para acompanhar o processo de aprovação pela diretoria da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para duas das vacinas (Covishield, da Oxford/Fiocruz, e Coronovac, da Sinovac/Instituto Butantã).  O interessante é que apenas o voto da diretora relatora dos pedidos, Meiruze Freitas, está durando mais de uma hora. Se o mesmo acontecer com os quatro diretores que ainda deverão proferir seus votos, os brasileiros só saberão o placar final da decisão da Anvisa lá pelas 16 horas.

Essa longa reunião deve ser um caso único em todos os países que já estão fazendo o uso das vacinas ora analisadas para futuro emprego no Brasil. É que as explanações da diretoria da Anvisa, as quais estão sendo realizadas via TV, representam um nível de transparência raro quando se trata da aprovação de vacinas, especialmente em um contexto de uma pandemia letal como a da COVID-19.

Curiosamente, quando se trata de aprovar agrotóxicos banidos em outras partes do mundo e que são tão ou mais letais que o coronavírus, não se vê o mínimo de transparência por parte da mesma Anvisa. Esta diferença de postura no tocante à transparência de atos  de liberação para uso no Brasil, especialmente quando atos de liberação afetarão a saúde dos brasileiros, não pode passar despercebida ou naturalizada. Por isso, há que se começar a cobrar da Anvisa que utilize mecanismos de transparência para a aprovação de agrotóxicos. E isso para ontem.

Observatório dos Agrotóxicos disponibiliza a lista completa dos 1001 agrotóxicos liberados nos dois anos do governo Bolsonaro

Agenda tóxica do governo Bolsonaro continua favorecendo a aprovação de agrotóxicos proibidos e altamente perigosos para a saúde humana e o ambiente. Empresas chinesas estão entre as principais fornecedoras

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Com a publicação atrasada do Ato No. 70 de 23 de Dezembro de 2020, o governo Bolsonaro alcançou um novo patamar na verdadeira avalanche de agrotóxicos iniciada desde os primeiros dias da atual administração. É que, ao contrário do que este blog havia divulgado anteriormente, o total de agrotóxicos liberados no biênio 2019-2020 alcançou os quase inacreditáveis 1001 produtos.

A novidade no Ato No. 70 veio por uma participação relativamente alta do Brasil que teve empresas sediadas no próprio país respondendo por 36% dos produtos, muito em parte por causa da liberação de 19 agrotóxicos da modalidade de controle biológico. Entretanto, a China se destacou novamente, com participação superior ao Brasil por causa do controle de empresas sediadas em outros países, como é o caso da Syngenta, que apesar de sediada na Suíça é de propriedade da estatal chinesa ChemChina (ver figura abaixo). 

país origem

O Ato No. 70 trouxe dois casos interessantes: o do “inédito” Tolfenpirade, inseticida do grupo químico Pirazol que, além de proibido em todos os países da União Europeia (EU), jamais foi obteve liberação para uso pela Comissão Europeia.  Outro caso de um agrotóxico proibido em todos os países da EU e que agora começará a ser comercializado no Brasil é o Trifloxissulfuron sódico, herbicida do grupo químico Sulfoniluréias. 

Aliás, o Ato No. 70 traz um total de  18 agrotóxicos químicos proibidos (total ou parcialmente) pela EU, o que apenas confirma a tendência de que o Brasil foi transformado em uma espécie de zona de sacrifício para onde são enviados produtos que não podem mais ser utilizados nos países que originalmente os desenvolveram. 

Quem desejar acessar o arquivo contendo a base de dados contendo apenas os 56 agrotóxicos liberados por meio do Ato No. 70, basta clicar [Aqui!]. Já quem desejar acessar a base de dados completa para o biênio 2019-2020, basta clicar [Aqui!] .

Agenda tóxica: Governo Bolsonaro publica ato e eleva total de agrotóxicos liberados em 2020 a 498

comida agrotóxicos

Andava estranhando a pausa na liberação de novos agrotóxicos pelo governo Bolsonaro, visto que o último ato detectado havia sido o  No.65 de 23 de Novembro de 2020. Entretanto, hoje o Diário Oficial da União trouxe a publicação atrasado do Ato No. 70 de 23 de Dezembro, com a liberação de mais 56 agrotóxicos, o que eleva o total aprovado no ano de 2020 para 498 produtos. Com isso, o “grande total” dos produtos liberados pelo governo Bolsonaro em seus dois primeiros anos de mandato chega a incríveis 1001 agrotóxicos.

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É interessante notar que este último ato de 2020 repete uma forte influência de fabricantes chineses de agrotóxicos que são os produtores primários de um número significativo dos agrotóxicos aprovados. Este fato reforça que toda a oposição mostrada pelo presidente Jair Bolsonaro ao uso da vacina Coronavac da empresa chinesa Sinovac não alcança os agrotóxicos fabricados na China, muitos deles proibidos em outras partes do mundo. 

Além disso, há que se frisar que todo o atraso que está se vendo para o início da vacinação contra a COVID-19 não ocorre com a liberação de agrotóxicos, o que reforça ainda mais a primazia da agenda tóxica sobre a saúde dos brasileiros.

Amanhã o Observatório dos Agrotóxicos do Blogo do Pedlowski irá divulgar a lista completa dos agrotóxicos liberados pelo Ato No. 70, bem como a planilha completa para o ano de 2020.

Crescimento do contrabando de agrotóxicos ilegais desmascara discurso de segurança e modernização do governo Bolsonaro

agrotóxicos ilegais

Crescimento do contrabando de agrotóxicos ilegais desmascara discurso de segurança e modernização usado pelo governo Bolsonaro para aprovação expedita de novos produtos

Em reportagem assinada pelo jornalista Marcelo Toledo, o jornal Folha de São Paulo mostra que as fronteiras entre Brasil e Paraguai estão servindo como via de entrada ilegal de agrotóxicos, produzidos no país vizinho ou na China. Essa rota de tráfico seria a mesma utilizada pelos contrabandistas de armas e drogas, bem como de cigarros ilegais.

A reportagem mostra que para o mercado (ou seja os vendedores legais de agrotóxicos), o aumento do contrabando vindo do Paraguai tem ocorrido em função da “forte produção da agricultura nacional (ou seja do latifúndio agroexportador, bem como pela alta do dólar“. Este segundo aspecto coloca em xeque todo o discurso de que é o agronegócio quem estaria sustentando a balança comercial brasileira, na medida em que os custos dos agrotóxicos tendem a levar para fora uma parcela significativa dos ganhos do setor. E notemos que isso se dá, inclusive, pelo aumento de importações ilegais destes venenos agrícolas.

O jornalista Marcelo Toledo incluiu dados  da Polícia Rodoviária Federal (PRF) indicando que as apreensões de agrotóxicos chegaram a 90 toneladas até outubro, ante as 60 toneladas de todo o ano de 2019.  Além disso, Toledo citou um levantamento do Fórum Nacional Contra a Pirataria e a Ilegalidade (FNCP) que mostra que o prejuízo anual do setor de produção de venenos agrícolas brasileiro tem crescido devido ao avanço do mercado ilegal, que já ocuparia o sexto posto no ranking de contrabandos. Nesse sentido, a reportagem mostra que “enquanto em 2017 a soma das perdas dos fabricantes de agrotóxicos e da evasão fiscal chegou a R$ 3,1 bilhões, o montante alcançou R$ 8,9 bilhões no ano seguinte e R$ 11,23 bilhões, em 2019. Com isso, fica atrás apenas de vestuário, higiene pessoal (perfumaria e cosméticos), combustíveis, bebidas alcoólicas e cigarros.  “A justificativa sempre é preço. O produto legal paga imposto e tem de ter certificação de órgãos reguladores, enquanto o ilegal ignora tudo isso. Dependendo da composição, ele fica mais barato ainda, porque burla inclusive a composição correta”, disse o presidente do FNCP, Edson Vismona.

De acordo com fontes utilizadas na reportagem de Toledo, “o contrabando de agrotóxicos se profissionalizou a partir de 2009, com a entrada de grandes contrabandistas.  E esse crescimento tem sido refletido em operações policiais e de órgãos governamentais nos últimos anos no país“.

Após intensa perseguição, equipe da PRF prende contrabandista de agrotóxicos em Guaíra (PR)

Essa situação coloca completamente a nu o discurso do governo Bolsonaro, e principalmente da ministra Tereza Cristina (DEM/MS) de que a tsunami de aprovação de agrotóxicos a partir de janeiro de 2019 (um total de 945 produtos foram liberados) e a modificação das regras de classificação de toxicidade garantiriam a ampliação do grau de segurança para os produtores rurais e para a população brasileira com um todo.  O fenômeno do contrabando de agrotóxicos mostra que o uso abusivo e intensivo desses produtos é regulado pelos preços praticados, e que tem se tornado escorchantes por causa da politica cambial do próprio governo Bolsonaro.

Um dos problemas especialmente agudos nessa situação é que além de ilegais, muitos desses produtos são falsos, o que torna ainda mais graves os potenciais impactos que os mesmos podem trazer para a saúde humana e para o meio ambiente, o que torna a questão dos agrotóxicos um assunto de primeira ordem. Há que se lembrar ainda que a relação entre esse modelo de agricultura viciada em agrotóxicos nos torna ainda mais expostos ao acontecimento de pandemias como é o caso da causada pelo coronavírus.

Governo Bolsonaro e sua agenda tóxica resultaram na liberação recorde de 945 agrotóxicos no biênio 2019-2021

comida agrotóxicos

Se está patinando em adquirir até insumos básicos para viabilizar a vacinação da população brasileira para debelar a pandemia da COVID-19, em seus dois anos de existência o governo Bolsonaro fez a alegria dos fabricantes de venenos agrícolas. É que fechado o ano de 2020, podemos contabilizar a liberação de 945 agrotóxicos (ver planilha completa Aqui!), muitos deles de alta periculosidade para a saúde humana e o meio ambiente (incluindo águas e solos).

Já ressaltei em postagens anteriores o claro cinismo que marca a atitude do presidente Jair Bolsonaro em face do uso da Coronavac, vacina produzida e comercializada pela empresa chinesa Sinovac. É que todas as vacinas já desenvolvidas por outras empresas dependem de insumos produzidos na China para poderem ser produzidas e vendidas a preços relativamente mais altos do que a da Sinovac.  Além disso, como já demonstrado ao longo de 2020, uma parcela significativa dos agrotóxicos liberados nos dois anos de governo Bolsonaro são produzidos exclusivamente na China, sem que se ouça qualquer menção do presidente ou de algum dos seus filhos sobre o processo de envenenamento dos brasileiros pelos “agrotóxicos chineses”.

Mas é preciso reconhecer que um dos grandes méritos da máquina de propaganda do governo Bolsonaro é desviar a atenção dos assuntos que realmente interessam e inocular elementos paliativos e insignificantes na narrativa que molda a agenda política brasileira. 

Um dos complicadores do debate acerca do debate necessário sobre o grave risco que o uso abusivo e indiscriminado de agrotóxicos altamente tóxicos pelos grandes latifundiários que controlam a pauta de exportação brasileira é que os partidos da esquerda institucional, mormente o PT, aparentemente não veem isso como um problema.  A única exceção significativa nessa situação de aprovação tácita de um modelo de agricultura envenenada é o PSOL cuja atuação resultou em 2016 na apresentação de uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (a ADI 553) que questiona as imorais isenções fiscais dadas aos fabricantes de venenos agrícolas. Mas a falta de uma maior capacidade de mobilização política em torno da questão vem permitindo que a ADI 553 tramite na velocidade de um cágado de pata quebrada, permitindo que o Tsunami de aprovações de agrotóxicos gere bilhões de reais em lucros para as corporações que fabricam agrotóxicos.

O estudo aqui divulgado em que são demonstradas alterações no DNA de trabalhadores rurais expostos a agrotóxicos durante suas atividades profissionais em Goiás é apenas a ponta do iceberg de problemas infringidos à saúde humana no Brasil. Antecipo que apesar de todas as dificuldades de financiamento à pesquisa científica, ainda iremos ver emergindo evidências cientificamente corroboradas de outros distúrbios causados à saúde dos brasileiros por causa da exposição direta ou indireta a agrotóxicos, muitos deles banidos em seus países de origem, incluindo a China que hoje domina o fornecimento de venenos agrícolas no nosso país (um exemplo disso é o herbicida Paraquate que apesar de oficialmente banido continua sendo usado no Brasil em função de estratégias legais usadas pelos representantes do setor produtor de venenos agrícolas e associações que defendem os interesses do latifúndio agroexportador).

Também prevejo que veremos a continuidade da aprovação expedita de agrotóxicos pelo governo Bolsonaro em 2021. Por isso mesmo, a partir do “Observatório dos Agrotóxicos”, o “Blog do Pedlowski” continuará documentado as aprovações e oferecendo as principais informações contidas nos atos oficiais de liberação de mais produtos para um mercado ambicionado pelas grandes corporações multinacionais. Apesar de trabalhoso, essa ação será continuada porque a última coisa que podemos nos permitir enquanto durar o governo Bolsonaro é o direito à ignorância.