Professora da USP destroça mito do uso seguro de agrotóxicos no Brasil

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A professora do Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo  Larissa Mies Bombardi é hoje uma das maiores conhecedoras dos problemas envolvendo o uso de venenos agrícolas nas grandes monculturas plantadas para exportação no Brasil.  Em função disso, ela vem sendo atacada por entidades ligadas ao latifúndio agro-exportador (o chamado agrobusiness).

No vídeo abaixo ela fala de forma bastante esclarecedora sobre as graves consequências do uso descontrolado de venenos agrícolas em altas quantidades e sem qualquer fiscalização efetiva no cotidiano das áreas onde os mesmos são estudados.

Abaixo uma entrevista conduzida pelo jornalista Bob Fernandes onde a professora Larissa Bombardi discorre de forma esclarecedora sobre um dos maiores mitos criados para justificar o uso dos agrotóxicos na agricultura, qual seja, de que é possível fazer uso seguro dessas substâncias de forma segura.

A verdade inescapável que emerge dessa brilhante entrevista é de que estamos sendo envenenados em nome dos interesses econômicos dos grandes latifundiários brasileiros. E aqui, mais uma vez, é preciso defender a reputação científica da professora Larissa Bombardi que está sendo vilipendiada por causa de estudos rigorosos que ela vem conduzindo e que são de completo interesse público.

Johannes Cullberg se dirige aos brasileiros para explicar sua campanha de boicote a produtos nacionais contaminados por agrotóxicos e desmatamento

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Johannes Cullberg, fundador e CEO da rede de supermercados orgânicos sueca Paradiset, está aumentando seus esforços para ampliar os participantes do boicote a produtos agrícolas brasileiros não orgânicos por causa de alta utilização de agrotóxicos e da associação direta com o desmatamento na Amazônia.

Para isto, Johannes Cullberg organizou um grupo de apoiadores na rede social Facebook, o #BoycottBrazilianFood, e também está utilizando a sua página oficial no Instagram para disseminar sua mensagem contra a aprovação em ritmo alucinado de agrotóxicos pelo governo Bolsonaro e contra o desmatamento na Amazônia.

Johannes Cullberg também acaba de produzir um vídeo direcionado ao público brasileiro onde ele explica as razões do boicote que ele impôs dentro da rede Paradiset contra produtos contaminados por agrotóxicos vindos do Brasil.

No vídeo mostra acima, Cullberg informa sobre suas razões e conclama aos brasileiros para que se juntem ao boicote contra alimentos contaminados por agrotóxicos, dizendo que:

” Sou Johannes Cullberg, fundador da Paradiset, uma cadeia de supermercados de alimentos naturais e orgânicos na Suécia. Eu comecei minha empresa para que meus filhos e todos na Suécia pudessem obter comida que fosse boa para as pessoas e boa para o planeta. Quando vi o que Bolsonaro estava fazendo com vocês, o povo brasileiro e também o resto do mundo, usando pesticidas para produção de alimentos tão venenosos que não permitiam na Europa e também aumentando o desmatamento da Amazônia, fiquei muito zangado e chateado! Então decidi boicotar todos os produtos alimentícios não orgânicos do Brasil para mostrar que não podemos aceitar esse desenvolvimento. Em 2019, precisamos cuidar melhor do nosso planeta, não matá-lo. Nós já produzimos mais alimentos no mundo do que podemos comer e 1/3 de toda a comida é desperdiçada. Então não precisamos de mais comida. E nós não precisamos de mais comida venenosa. Precisamos de comida melhor para todos, não apenas para os ricos! A embaixada brasileira na Suécia me disse para parar a campanha, mas eu não vou. Em vez disso, vou me esforçar mais. Com a ajuda do povo da Suécia e da Europa, espero poder mostrar ao governo Bolsonoro que precisamos parar de envenenar o Brasil e o resto do mundo e começar a cuidar dele. Por favor, junte-se a mim neste boicote. Juntos podemos mover montanhas. E governos. Muito Obrigado!”

Dentre as informações importantes oferecidas por Johannes Cullberg no vídeo dirigido aos brasileiros está a que nos diz que a Embaixada do Brasil pediu para que ele suspendesse a sua campanha de boicote aos produtos contaminados por agrotóxicos e associados ao desmatamento da Amazônia. Esse é um gesto típico de quem não entende como os países democráticos realmente funcionam, além de demonstrar um parco entendimento do tipo de efeito colateral que esse tipo de cobrança indevida acabaria gerando.

De toda forma, o gesto de Johannes Cullberg de se dirigir diretamente aos brasilei, ros demonstra que ele vai continuar mobilizando esforços para ampliar o boicote à produção agrícola brasileira que não siga os padrões de sustentabilidade que ele almeja. Essa informação é fundamental para dinamizar os esforços contra a política de aprovação “fast track” de agrotóxicos altamente tóxicos pelo governo Bolsonaro.

E uma coisa é certa, aos se dirigir diretamente aos brasileiros e conclamar que eles se juntem ao boicote contra produtos contaminados por agrotóxicos e associados ao desmatamento na Amazônia, Johannes Cullberg mostra mais preocupação com a saúde brasileira do que todos os ministros do governo Bolsonaro juntos.

Estudo alerta para relação entre agrotóxicos e alteração no sangue de agricultores

Pesquisa realizada pela Ensp em Farroupilha (RS) sugere que a exposição crônica a pesticidas poderia reduzir o número de diferentes glóbulos brancos

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Por Agência Fiocruz

O Brasil é campeão mundial de uso de agrotóxicos, sendo que, em 2019, sua liberação foi significativa. Uma pesquisa da Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp/Fiocruz) sugere que a exposição crônica a pesticidas de organoclorados (CO) e certos pesticidas não persistentes poderia levar à redução no número de diferentes glóbulos brancos de população agrícola de Farroupilha-RS.

Segundo a pesquisa, cerca da metade da população em foco relata mais de vinte e cinco anos de trabalho agrícola, 55% tinham misturado ou aplicado pesticidas há mais de dez anos, e 37% tinham pesticidas mistos / aplicados com uma frequência média maior ou igual a 60 dias por ano. “As classes de pesticidas mais usadas pelos agricultores, na época da entrevista, eram herbicidas e fungicidas, e um terço dos entrevistados estava usando dois ou mais pesticidas, simultaneamente.

Os autores do estudo Camila Piccoli, Rosalina Koifman e Sérgio Koifman (in memoriam), da Ensp, Cleber Cremonese, do Centro Universitário da Serra Gaúcha, e Carmen Freire, do Institute of Biomedical Research of Granada, Espanha, relatam que 56% dos participantes do estudo eram do sexo masculino, sendo a idade média dos participantes de 42 anos, e 87% deles (92% dos homens e 81% das mulheres) estavam diretamente envolvidos nas atividades agrícolas. Os participantes que não faziam parte dessas atividades eram parentes de fazendeiros que viviam em fazendas (filhos, filhas, esposas e outros não diretamente envolvidos em atividades de campo). Quase todos os participantes eram brancos (99,3%). Em relação à história médica, apenas um indivíduo relatou história de doença hematológica, enquanto 4 homens e 2 mulheres tinham história familiar de doença hematológica em primeiro grau.

Conforme o estudo, o herbicida glifosato e paraquat são os mais comuns já utilizados pelos agricultores, enquanto o mancozebe (um fungicida ditiocarbamato) e o sulfato de cobre são os fungicidas mais utilizados. “Fungicidas e ditiocarbamatos são as classes de pesticidas que apresentam o maior número de anos de exposição ao longo da vida, ou seja, utilizados por mais de vinte anos em mais de 40% dos indivíduos do estudo.”

A pesquisa menciona que a exposição humana a pesticidas tem sido associada a vários efeitos prejudiciais à saúde, incluindo desordens endócrinas, defeitos congênitos, efeitos neurológicos, hepáticos, respiratórios, imunológicos e câncer. “Essa ampla gama de resultados adversos sugere que os pesticidas exercem efeitos tóxicos sobre a saúde humana por meio de vários mecanismos de ação.” A esse respeito, completa o estudo, dados experimentais disponíveis indicam que muitos pesticidas também podem possuir propriedades hematotóxicas, levando à hematopoiese deprimida.

Também foi descrito, pelos pesquisadores, que as populações agrícolas nos países em desenvolvimento estão expostas a quantidades crescentes de misturas de pesticidas em altas concentrações e frequência, incluindo pesticidas severamente restringidos e proibidos nos países industrializados.

Eles citam uma pesquisa realizada entre 2012 e 2013 em trabalhadores rurais e suas famílias em Farroupilha, cidade com 69 mil habitantes, localizada na Serra Gaúcha, no Estado do Rio Grande do Sul. De acordo com ela, ocorreram associações de exposição cumulativa a pesticidas, especialmente herbicidas e fungicidas ditiocarbamatos, com efeitos semelhantes aos do hipotireoidismo e pior qualidade espermática em trabalhadores agrícolas do sexo masculino na Serra Gaúcha, uma região agrícola familiar no sul do Brasil.

Com base na hipótese de que tanto os agrotóxicos persistentes como os não persistentes possam ter a capacidade de causar distúrbios hematológicos em humanos, os pesquisadores buscaram avaliar a relação das práticas de trabalho agrícola, uso de agrotóxicos não persistentes e níveis séricos de agrotóxicos com parâmetros hematológicos em residentes da fazenda na região.

A população agrícola da região está envolvida em atividades relacionadas ao plantio, poda e colheita de ameixas, pêssegos, uvas e kiwis. Assumindo uma taxa de participação de cerca de 90% e pelo menos três adultos por domicílio, 90 residências foram selecionadas, aleatoriamente, da lista de domicílios rurais do Secretaria Municipal de Agricultura para atingir o tamanho amostral estimado. Todas as pessoas com idade entre 18 e 69 anos morando nos domicílios selecionados foram convidadas a participar do estudo, representando o total de 301 pessoas.

Acesse o artigo , publicado na revista Ciência & Saúde Coletiva, de junho de 2019.

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Este artigo foi publicado originalmente pela Agência Fiocruz [Aqui!].

 

Lançado na Europa mapa do envenenamento de alimentos no Brasil

Em exposição crônica aos agrotóxicos, brasileiro corre mais risco de morte e desenvolvimento de doenças

Por Ivanir Ferreira

 

larissa 1O atlas de envenenamento foi lançado em Berlim, Alemanha, país que sedia as maiores empresas agroquímicas do mundo: a Bayer/Monsanto (incorporada pelo grupo Bayer) e a Basf, que dominam a produção de toda a cadeia alimentar – sementes, fertilizantes e agrotóxicos – Fotomontagem: Moisés Dorado

Um ousado trabalho de geografia que mapeou o nível de envenenamento dos alimentos produzidos no Brasil foi lançado em maio, em Berlim, na Alemanha, país que contraditoriamente sedia as maiores empresas agroquímicas do mundo. Quem estava presente no lançamento do atlas Geografia do uso de agrotóxicos no Brasil e conexões com a União Europeia ficou perplexo com a informação sobre o elevado índice de resíduos agrotóxicos permitidos em alimentos, na água potável, e que, potencialmente, contamina o solo, provoca doenças e mata pessoas. A obra, que já foi publicada no Brasil, é de autoria da geógrafa Larissa Mies Bombardi, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP.

O Brasil é campeão mundial no uso de pesticidas na agricultura, alternando a posição dependendo da ocasião apenas com os Estados Unidos. O feijão, a base da alimentação brasileira, tem um nível permitido de resíduo de malationa (inseticida) que é 400 vezes maior do que aquele permitido pela União Europeia; na água potável brasileira permite-se 5 mil vezes mais resíduo de glifosato (herbicida); na soja, 200 vezes mais resíduos de glifosato, de acordo com o estudo, que é rico em imagens, gráficos e infográficos. “E como se não bastasse o Brasil liderar este perverso ranking, tramita no Congresso nacional leis que flexibilizam as atuais regras para registro, produção, comercialização e utilização de agrotóxicos”, relata Larissa.

A pesquisadora explica que o lançamento do atlas na Europa se deu pelo fato de a Alemanha sediar a Bayer/Monsanto e a Basf, indústrias agroquímicas que respondem por cerca de 34% do mercado mundial de agrotóxicos. A Monsanto, recentemente incorporada ao grupo Bayer, é a líder mundial de vendas do glifosato, cujos subprodutos têm sido associados a inúmeras doenças, incluindo o câncer e o Alzheimer. “Queríamos promover discussão sobre a contradição de sediarem indústrias que controlam toda a cadeia alimentar agrícola – das sementes, agrotóxicos e fertilizantes – e serem rigorosos quanto ao uso de mais de um terço dos pesticidas que são permitidos no Brasil. Eles são corresponsáveis pelos problemas gerados à população porque vendem e exportam substâncias sabidamente perigosas, porém, proibidas em seu território”, diz.

larissa bombardiGeógrafa Larissa Bombardi, autora da pesquisa que deu origem ao atlas da Geografia do uso de agrotóxicos no Brasil – Foto: Cecília Bastos / USP Imagens

Intoxicação e suicídios

Segundo a geógrafa, as perdas não se limitam à contaminação de alimentos e dos cursos d’água. O atlas traz informações de que, depois de extensa exposição aos agrotóxicos, ocorrem também casos de mortes e suicídios associados ao contato ou à ingestão dessas substâncias.

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Atlas: Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia, de Larissa Mies Bombardi – Laboratório de Geografia Agrária da FFLCH – USP, São Paulo, 2017

Entre 2007 e 2014, o Ministério da Saúde teve cerca de 25 mil ocorrências de intoxicações por agrotóxicos. O atlas mapeia as regiões mais afetadas: dos Estados brasileiros, durante o período da pesquisa, o Paraná ficou em primeiro lugar, com mais de 3.700 casos de intoxicação. São Paulo e Minas Gerais ficaram na segunda colocação, com 2 mil. Das 3.723 intoxicações registradas no Paraná, 1.631 casos eram de tentativas de suicídio, ou seja, 40% do total. Em São Paulo e Minas gerais o porcentual foi o mesmo. No Ceará, houve 1.086 casos notificados, dos quais 861 correspondiam a tentativas de suicídio, cerca de 79,2%. Os mapas de faixa etária mostram que 20% da população afetada era composta de crianças e jovens com idade até 19 anos. Segundo Larissa, no Brasil, há relação direta entre o uso de agrotóxicos e o agronegócio. Em 2015, soja, milho e cana de açúcar consumiram 72% dos pesticidas comercializados no País.

O atlas Geografia do uso de agrotóxicos no Brasil e conexões com a União Europeia, em português, foi lançado no Brasil em 2017 e traz um conjunto de mais de 150 imagens entre mapas, gráficos e infográficos que abordam a realidade do uso de agrotóxicos no Brasil e os impactos diretos deste uso no País. A pesquisa que deu origem à publicação teve o financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

Em Berlim, o lançamento aconteceu na sede do ENSSER (European Network of Scientists for Social and Environmental Responsability), rede europeia sem fins lucrativos que reúne cientistas ativistas responsáveis ambiental e socialmente, em Glasgow, Escócia. O suporte financeiro para o lançamento do atlas na Europa foi da FFLCH e da Pró-Reitoria de Pesquisa da USP.

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Entre 2000 e 2010, o Brasil aumentou em 200% o consumo de agrotóxicos. A soja foi a cultura que mais consumiu pesticidas

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Mapa de intoxicação por agrotóxicos de uso agrícola (2007-2014)

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Uso de malationa (inseticida) na cultura do feijão – Limite máximo de resíduos permitido no Brasil e nos países da comunidade europeia

Mais informações: Larissa Mies Bombardi, larissab@usp.br ou pelo telefone (11) 3091-3769. Atlas versão em português – Atlas versão inglês

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Este artigo foi iniciado publicado pelo Jornal da USP [Aqui!].

Larissa Bombardi e a comparação do uso de agrotóxicos entre Brasil e a União Europeia

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Série de entrevistas com a professora Larissa Mies Bombardi esclarece a grave situação dos agrotóxicos no Brasil.

A professora da Universidade de São Paulo (USP) Larissa Mies Bombardi é hoje uma das principais experts na questão do uso de agrotóxicos, muitos deles banidos em outras partes do planeta, na agricultura brasileira. É dela a obra “Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia” que compara a situação comparada entre o uso de agrotóxicos do Brasil e na União Europeia.

Abaixo posto o primeiro vídeo de uma série produzida pelo jornalista Bob Fernandes com a professora Larissa Bombardi sobre a crítica situação que está ocorrendo no Brasil em função do vício da agricultura brasileira, principalmente naquelas propriedades destinadas às monoculturas de exportação, por compostos altamente tóxicos.

Não nos enganemos, como bem diz a professora Larissa Miers Bombardi a situação causada pelos agrotóxicos no Brasil é gravíssima. E é preciso tratar a situação pelo que ela é em função dos graves danos ambientais e sociais que a dependência da agricultura brasileira em relação a essas substâncias altamente perigosas que hoje contaminam águas, solos e os alimentos que os brasileiros e as populações dos parceiros comerciais do Brasil consomem.

Cláusula de precaução do Acordo EU-Mercosul instala pânico e insatisfação no agronegócio brasileiro

clausula 4Cláusula da precaução incluída pela União Europeia deverá atingir em cheio as exportações da soja brasileira que é geneticamente modificada, rica em resíduos de agrotóxicos e produzida em áreas desmatadas.

O acordo de livre comércio que agora de ser concluído pela União Europeia e pelo Mercosul certamente deve ter servido como motivos para celebração dentro do poderoso agronegócio brasileiro dado o volume potencial de negócios em que as commodities agrícolas brasileiras estarão envolvidas nas próximas décadas.

Mas o que em um primeiro instante foi motivo de júbilo rapidamente passou para o rol das preocupações por causa da chamada “Cláusula de Precaução” (que mais uma espécie de cláusla da preocupação) que a União Europeia (EU) inseriu no acordo com o Mercosul para impedir que os consumidores europeus sejam expostos a produtos contaminados por agrotóxicos que já foram banidos ou que estejam acima dos níveis de resíduos permitidos pela Europa. Outro componente significativo dessa cláusula é a restrição a produtos originados de áreas desmatadas.

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Com base na “cláusula da precaução” a EU poderá recusar a compra de produção originada de áreas desmatadas.

Como já abordei neste blog, esta cláusula traz em si o risco de ser “para inglês ver” na medida em que apenas com pressão social organizada no Brasil e na Europa ela terá algum efeito prático efetivo.  O problema, para o latifúndio agro-exportador brasileiro, é que seus líderes sabem que há o risco real de que pressionada pelos seus habitantes, a EU passe a efetivamente cobrar das exportações vindas do Mercosul o mesmo tipo de restrição sanitária que cobra dos agricultores europeus. E aí é  que o bicho pega, pois o chamado agronegócio brasileiro vem tomando o sentido contrário de qualquer preocupação ambiental ao conseguir apenas nos primeiros 6 meses do governo Bolsonaro a liberação recorde de 239 agrotóxicos (30% deles banidos na União Europa) e o aumento explosivo do desmatamento na Amazônia e no Cerrado.

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O interessante é que já venho alertando há algum tempo sobre o risco real de que o Brasil passasse a sofrer uma espécie de isolamento sanitário por causa do uso excessivo de agrotóxicos em suas exportações. Agora, com esse acordo com a EU, o risco não só aumenta como o Brasil explicitamente aceitou para si a tarefa de aplicar as regras sanitárias vigentes na Europa.

Como de bobos nada tem, os representantes do agronegócio já estão sendo citados como preocupados com a inclusão do princípio de precaução do capítulo sanitário, que é visto como sendo “um absurdo” e com potencial de causar  “dano enorme” ao Brasil. 

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Mas as preocupações com a inclusão das preocupações ambientais não deverão ficar apenas no seio dos latifundiários, visto que neste momento o governo Bolsonaro está envolvido num virtual desmanche da governança ambiental criada a partir da década de 1970, e o ministro (ou seria antiministro?) do Meio Ambiente, Ricardo Salles, estaria se preparando para alterar ou extinguir dezenas de unidades de conservação e alterar o Sistema Nacional de Unidade de Conservação (SNUC).  O problema aqui é que a EU certamente já sabe disso e terá nesse desmanche um ótimo motivo para apertar o garrote nas exportações brasileiras.

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Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente, e Tereza Cristina, o da Agricultura, durante visita à terra indígena no estado do Mato Grosso onde soja é cultivada ilegalmente.

Como já disse, a efetiva aplicação da “cláusula da precaução” só se dará com a ação organizada no Brasil e nos países que compõe a União Europeia.  Mas, mesmo assim, não deixa de ser divertido ver o latifúndio agro-exportador esperneando. Mais engraçado será acompanhar as explicações dadas pelo presidente Jair Bolsonaro para ceder em um item tão cara a um dos segmentos que o apoiaram eleitoralmente para tomar o caminho justamente o contrário do que está agora acordado com a EU.

Finalmente, para quem desejar ler uma avaliação crítica da capacidade (ou disposição) da EU  de aplicar a cláusula de precaução, sugiro a leitura do relatório preparado pela rede “Bilaterals” [Aqui!].

O Acordo EU-Mercosul e seus compromissos socioambientais para inglês ver

 

Comissão Europeia promete impor parâmetros de proteção ambiental e segurança alimentar no seu acordo com Mercosul, mas vai fazê-lo com o governo Bolsonaro?

A Comissão Europeia emitiu ontem (28/06) um comunicado oficial onde informa que se finalmente chegou a um acordo de comércio com o Mercosul onde são apontados os vários aspectos potencialmente positivos que o mesmo deverá trazer para os dois blocos comerciais que juntos reunem um Produto Doméstico Bruto de R$ 90 trilhões.

eu comunicado

Mas olhando para além das amenidades que este tipo de comunicado traz, me deti em dois aspectos básicos: 1) as proteções sociais, ambientais e trabalhistas, e 2) a imposição das normas de segurança alimentar da União Europeia (EU) sobre os produtos vindos do Mercosul.

No tocante ao primeiro item, o comunicado da Comissão Europeia traz a informação de que a EU e o Mercosul se comprometem a implementar efetivamente o Acordo Climático de Paris , e que “um capítulo do acordo com o Mercosul será dedicado ao desenvolvimento sustentável, o qual abrangerá questões como o manejo sustentável e a conservação das florestas, o respeito aos direitos trabalhistas e a promoção de uma conduta empresarial responsável“.  Este capítulo deverá “oferecer às organizações da sociedade civil um papel ativo para avaliar a implementação do acordo, incluindo quaisquer preocupações com direitos humanos, sociais ou ambientais“. 

Além disso, a Comissão Europeia informa que acordo também “estabelecerá um novo fórum para trabalhar em conjunto em uma abordagem mais sustentável da agricultura e, como parte do diálogo político sob o Acordo de Associação, abordará os direitos das comunidades indígenas“.  

Em relação a esta primeira questão, fico apenas me perguntando se alguém na Comissão Europeia realmente acredita que será possível executar essas diretivas em um Brasil sob o governo Bolsonaro ou todas essas colocações são apenas para inglês ver (o que é explicável porque brevemente o Reino Unido estará fora da EU e apenas olhando para esse comunicado com a devida indiferença).  O mais provável é que essas garantias todas tenham sido colocadas e já se informou ao representantes do governo Bolsonaro que ninguém realmente pretende levá-las a sério.

Já em relação àss normas de segurança alimentar da EU, o comunicado informa que “as mesmas permanecerão inalteradas e todas as importações terão de cumprir os rigorosos padrões da UE, como é o caso hoje”. Além disso, o comunicado informa ainda que “as disposições sobre segurança alimentar e saúde animal e vegetal acordadas reforçarão a cooperação com as autoridades dos países parceiros e acelerarão o fluxo de informação sobre quaisquer riscos potenciais através de um sistema de informação e notificação mais directo e eficiente“.  

Aqui a coisa mais interessante a se perguntar é se alguém na EU tem noção de que mesmo hoje os alimentos que chegam na Europa vindos do Brasil estão com limites muito acima dos tolerados por suas próprias diretrizes. O mais provável é que  este item seja também para inglês ver, e que neste quesito haverá pouca ou nenhuma preocipação com a segurança alimentar dos europeus. É que se houvesse, a EU começaria por exigir o banimento de todos os agrotóxicos que já baniu nos países europeus e continuam a ser abundamente usados no Brasil, a começar pela Atrazina, pelo Acefato e pelo Paraquat.

A verdade é que somente a pressão política organizada vai impedir que este acordo sirva apenas para tornar os ultrarricos ainda mais ricos, enquanto o meio ambiente e a saúde humana são tratados como externalidades negativas e, portanto, plenamente ignoráveis.

Vídeo do “Robotox” explica em detalhes os 239 agrotóxicos aprovados pelo governo Bolsonaro

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Lançado em Dezembro de 2018 em associação pelas organizações jornalísticas Agência Pública e Repórter Brasil, o site “Por detrás do alimento” vem fornecendo informações valiosas sobre o processo de incorporação de agrotóxicos na produção agrícola brasileira. Além disso, essa iniciativa lançou uma ferramenta, o “Robotox“, que fornece informações praticamente automáticas sobre as aprovações de agrotóxicos pelo governo Bolsonaro, fornecendo ainda detalhes importantes sobre esses compostos e seus potenciais impactos sobre o ambiente e a saúde humana.

Abaixo um vídeo produzido pelos editores do “Por detrás do alimento” e veiculado na página do “Robotox” na rede social Twitter. O vídeo é bastante didático, não apenas em relação aos produtos aprovados, mas também no tocante à desmistificar o discurso do governo Bolsonaro que agora é de buscar um suposto barateamento do custo dos agrotóxicos, e não mais de introduzir agrotóxicos que sejam mais modernos e menos tóxicos do que os que estavam disponíveis no mercado antes do início do governo Bolsonaro.

A divulgação deste vídeo é essencial para que um número maior de pessoas possa ter acesso a informações diretas e explicadas de forma compreensível para que o processo de pressão social possa aumentar. 

O fato é que no atual ritmo a população do Brasil e as de outros países que consomem alimentos produzidos a partir do uso de substâncias que sabidamente afetam o meio ambiente e os seres humanos de forma altamente negativa.

Pesquisa determina que agrotóxicos estão alterando biodiversidade em grande rio da América do Norte

Os agrotóxicos estão em todo o rio St. Lawrence – muitos em níveis que prejudicam peixes e invertebrados

Os cientistas testaram o sistema fluvial e descobriram que quase um terço das amostras tinham pesticidas neonicotinóides em níveis mais altos que o limiar para proteger as criaturas aquáticas. O glifosato e a atrazina estavam em mais de 80% das amostras.

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Por Brian Bienkowski para o “Environmental Health News”

Agrotóxicos nocivos como o glifosato, atrazina e neonicotinóides foram encontrados em quase todas as amostras de água do rio Saint Lawrence e seus afluentes, com muitas amostras contendo níveis mais elevados do que a diretriz para proteger a vida aquática, de acordo com novas pesquisas.

O Rio Saint Lawarence é um dos principais sistemas de água da América do Norte – drenando uma bacia hidrográfica de 300.000 km2 que onde estão inseridos os Grandes Lagos.

“Os insumos de água doce do St. Lawrence fornecem uma fonte de produção de água potável para mais da metade da população da província de Quebec”, escreveram os autores.

O estudo, publicado na Environmental Pollution, descobriu que 99% das 68 amostras de água coletadas do grande sistema de água continham pelo menos um dos 10 pesquisadores testados e 31% das amostras continham neonicotinóides em níveis mais altos do que o permitido pelo Canadá.

“Eu não fiquei tão surpreso ao descobrir que [os agrotóxicos] são onipresentes, é difícil encontrar água que não os contenha”, Sébastien Sauvé, autor sênior do estudo, pesquisador e vice-reitor da Faculdade de Artes e Ciências no Université de Montréal, contou à EHN. “O que me surpreendeu foi o número de vezes que as diretrizes ambientais foram ultrapassadas”.

Os neonicotinóides – amplamente usados ​​em milho, algodão, sorgo, soja e algumas outras frutas e vegetais – parecem estar, pelo menos parcialmente, por trás dos declínios de abelhas nos últimos anos e também estão ligados a impactos generalizados sobre insetos e invertebrados aquáticos.

Cientistas em 2016 concluíram que “o declínio de muitas populações de invertebrados, devido principalmente à presença generalizada de resíduos aquosos e à extrema toxicidade crônica dos neonicotinóides, está afetando a estrutura e a função dos ecossistemas aquáticos”.

As substâncias químicas estão “realmente afetando a biodiversidade nesses rios e cursos de água”, disse Sauvé.

Esta nova pesquisa reforça a evidência de que os neonicotinóides, juntamente com o glifosato e a atrazina, estão contaminando cada vez mais a água doce – e a água potável das pessoas – em regiões agrícolas.

No novo estudo, os pesquisadores testaram o glifosato, a atrazina e um conjunto de neonicotinóides. O glifosato foi encontrado em 84 por cento das amostras e a atrazina foi encontrada em 82 por cento.

No entanto, as concentrações de ambos os compostos estavam “bem abaixo das diretrizes canadenses de qualidade de água para a proteção da vida aquática”, escreveram os autores.

Em um documento complementar ao novo estudo, os cientistas descobriram que a atrazina e um de seus metabólitos em todas as 450 amostras de água coletadas de 2015 a 2018 da água potável em Quebec.

“Isso sinaliza a exposição potencial de uma grande parcela da população de Quebec a níveis baixos e crônicos desses herbicidas na água potável produzida no rio”, escreveram os autores.

Sauvé disse que viu dois picos nos pesticidas – um no início do verão e outro no outono.

Nos Estados Unidos, a atrazina, outro herbicida amplamente utilizado na maioria das águas do Centro-Oeste, contamina cerca de 7,6 milhões de americanos de água encanada, de acordo com um relatório de 2017 do Environmental Working Group, uma organização sem fins lucrativos.

Não é apenas a atrazina aparecendo na água das pessoas: nos últimos anos, cientistas relataram neonicotinóides em vários locais da região dos Grandes Lagos, incluindo sul a água potável de Ontário, Canadá; riachos de Nova York e Pensilvânia e águas subterrâneas da região central de Wisconsin.

Outro estudo encontrou o glifosato em cerca de 60% das águas superficiais amostradas, embora a maioria fosse inferior aos limites de vida humana e aquática dos EUA e Canadá.

O glifosato é o principal ingrediente do herbicida Roundup da Monsanto. A Monsanto é agora uma unidade da Bayer AG, que sofreu uma das suas piores perdas em 16 anos depois que um tribunal condenou o Roundup ao câncer de um homem. O herbicida, que é um dos mais amplamente usados ​​na história, é o foco atual de mais de dez mil ações judiciais de pessoas que alegam que o Roundup e outros produtos do glifosato fizeram com que desenvolvessem linfoma não-Hodgkin.

O glifosato, apesar de ser considerado seguro para a vida selvagem, tem sido associado a mudanças no metabolismo, crescimento, comportamento e reprodução de certos peixes, moluscos e insetos.

A atrazina também é classificada como um possível carcinógeno para humanos pela Health Canada, e também tem sido associada a impactos no sistema endócrino humano.

Uma avaliação feita no ano passado pela EPA dos EUA no ano passado mostrou que a atrazina provavelmente não causaria câncer, uma determinação amplamente criticada por pesquisadores e defensores da saúde, já que a avaliação se baseou fortemente em estudos da indústria.

Não está claro o que a exposição consistente a esses produtos químicos através da água potável pode estar fazendo para as pessoas. Sauvé disse que não encontrou nenhum pesticida em níveis mais altos do que o permitido na água potável. “Mas as diretrizes para a proteção da água potável são suficientes? Essa é outra conversa”, disse ele.

À medida que os países examinam, proíbem ou limitam neonicotinóides, Sauvé e seus colegas estão examinando algumas das alternativas propostas.

Ele disse que é preciso haver pesquisas mais independentes sobre as alternativas – quando eles fizeram uma revisão de literatura, descobriram que a maioria dos estudos até agora está ligada à indústria.

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Este artigo foi originalmente publicado em inglês pelo site Environmental Health News [Aqui!].