Novas queimadas na floresta detectadas antes do Dia da Amazônia alcançam número assustador

Números alarmantes de novas queimadas foram detectadas na Amazônia brasileira, aponta a Anistia Internacional. As autoridades públicas seguem omissas na proteção da terra e dos direitos humanos dos povos da floresta amazônica.

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Antes do Dia da Amazônia, celebrado neste 5 de setembro, cerca de 63 mil focos de incêndios foram identificados este ano, até 31 de agosto, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). O Exército brasileiro está posicionado na Amazônia, desde maio, ostensivamente para combater o desmatamento e os incêndios ilegais.

A Anistia Internacional também destacou que o desmatamento aumentou em 43,5% entre agosto de 2019 e julho de 2020, comparado com o mesmo período de 2018 a 2019, destruindo um total de 9.205 km² de floresta. A destruição recente pode, na realidade, ser muito maior, depois que os dados forem corrigidos para levar em conta um erro de satélite que afetou a captura de alguns focos de incêndio desde 16 de agosto.

“Com os incêndios novamente se multiplicando rapidamente nesta estação de queimadas, está mais do que claro que as forças armadas brasileiras não possuem a experiência ou habilidade técnica necessária para barrar a ação daqueles que ateiam fogo na floresta e promovem invasões ilegais de terras protegidas”, disse Richard Pearshouse, diretor de Meio Ambiente e Crises da Anistia Internacional.

Richard continua: “O envio de forças do Exército encobre a estratégia do governo brasileiro de intencionalmente enfraquecer a capacidade operacional de seus próprios órgãos ambientais, com a finalidade de abrir a Amazônia para a exploração comercial”.

“O governo deveria devolver o controle da fiscalização ambiental e implementação das leis ambientais às autoridades civis apropriadas. A única maneira de proteger a maior floresta tropical do mundo é o governo demonstrar apoio político inequívoco à proteção ambiental civil na Amazônia, começando por restabelecer as verbas e outros recursos e apoiar as agências governamentais para que implementem a legislação ambiental”, explica ele. 

Ao todo 74% dos focos de incêndios detectados pelo INPE foram registrados depois do governo brasileiro ter proibido queimadas, em meados de julho de 2020. Os incêndios muitas vezes são iniciados intencionalmente por grileiros, indivíduos que desmatam áreas de floresta e invadem as terras para convertê-las, posteriormente, em pastagem. Essa atividade ilegal sustenta a multibilionária indústria pecuarista brasileira.

Imagens de satélite captadas nos últimos dois meses também revelaram a existência de novos incêndios nas três áreas protegidas que a Anistia Internacional visitou recentemente no Estado de Rondônia: o território indígena Uru-Eu-Wau-Wau e as reservas extrativistas do Rio Jacy-Paraná e Rio Ouro Preto.

Fazendas de gado ilegais alimentam a destruição da Amazônia

A pecuária bovina é o principal fator causador das invasões e ocupações ilegais de terras em reservas extrativistas e territórios indígenas da Amazônia brasileira, alimentando o desmatamento e pisoteando os direitos dos povos indígenas e moradores tradicionais dessas áreas.

A região amazônica é palco do maior crescimento da lucrativa indústria pecuarista no Brasil. Desde 1988, o número de gado criado na região quase quadruplicou, chegando a 86 milhões de animais em 2018, ou seja, 40% do rebanho nacional total. Parte dessa expansão vem destruindo grandes áreas de floresta protegida em territórios indígenas e reservas extrativistas.

Ao todo 63% da área desmatada entre 1988 e 2014 tornou-se pastagem de gado – uma área cinco vezes maior que a superfície de Portugal. A Anistia Internacional documentou esse processo em detalhes em um relatório publicado , em novembro de 2019.

De acordo com dados governamentais, os territórios indígenas da Amazônia brasileira perderam 497km² de floresta entre agosto de 2018 e julho de 2019 – um aumento de 91% em relação ao período correspondente de um ano antes.

Gado criado ilegalmente em áreas protegidas é encontrado na cadeia de fornecimento da JBS

Em investigação recente , a Anistia Internacional constatou que gado criado ilegalmente em áreas protegidas da Amazônia brasileira foi identificado na cadeia de fornecimento da JBS, a maior empresa de processamento de carnes.

A Anistia Internacional não encontrou evidências que indicassem envolvimento direto da JBS com violações dos direitos humanos, mas a organização está pedindo à JBS que implemente um sistema de fiscalização efetivo, incluindo de seus fornecedores indiretos, até o final de 2020, para assegurar que nenhum bovino criado ilegalmente em áreas protegidas ingresse em sua cadeia de fornecimento.

A Anistia Internacional lançou uma petição online, “Diga não ao gado criado ilegalmente na Amazônia”, que pode ser assinada aqui.

Sobre a Anistia Internacional

A Anistia Internacional é um movimento global de mais de 7 milhões de pessoas que encaram a injustiça como algo pessoal. A organização realiza campanhas para que direitos humanos internacionalmente reconhecidos sejam respeitados e protegidos no Brasil e no mundo. Criada em 1961, pelo advogado britânico Peter Benenson, teve sua sede inaugurada no Brasil em 2012.

Observatório do Legislativo Brasileiro mapeia influência da bancada ruralista no congresso nacional

No senado, bancada ruralista tem maior controle sobre a pauta e sobre comissões importantes para a agenda ambiental

Plenário do Congresso

 

Desde o início da gestão do presidente Bolsonaro, os temas “Meio Ambiente” e “Amazônia” têm ocupado grande espaço nos debates políticos e nas mídias nacional e internacional, não apenas porque ações assertivas de preservação ambiental são cada vez mais urgentes mundo afora, mas também porque o governo brasileiro tem sistematicamente emitido sinais contrários às agendas ambiental e climática. Em favor de uma suposta maximização dos ganhos do agronegócio brasileiro, o governo desconsidera que a questão ambiental é hoje fator determinante para a própria estabilidade e crescimento do setor.

Em agosto de 2019, as queimadas na Amazônia levaram o Brasil ao centro do debate internacional. Em junho de 2020, houve novo crescimento das queimadas – 20% a mais com relação ao mesmo mês do ano anterior. Internamente, contudo, a questão ambiental tem estado na pauta desde o início do governo de Jair Bolsonaro. Especialistas, ativistas e
organizações não governamentais, logo no início do mandato, enfrentaram tentativas de extinção do Ministério do Meio Ambiente, cortes orçamentários no ICMBio e no IBAMA, redução de unidades de conservação ambiental, bloqueio de verbas destinadas a políticas de combate a mudanças climáticas, dentre outras ações do gênero. Em janeiro de 2020, Bolsonaro reativou o Conselho da Amazônia e transferiu sua gestão do Ministério do Meio Ambiente para a Vice-Presidência, sem muitos resultados concretos do órgão, a não ser a proibição das queimadas no bioma amazônico por 120 dias a partir de meados de julho. Recentemente, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, considerou a pandemia de COVID-19 uma oportunidade para avanço do projeto de desregulamentação e simplificação de regras infralegais da área.

Os problemas dessa agenda, entretanto, não se resumem às decisões do Executivo. O setor ruralista tem representação historicamente forte no legislativo brasileiro e avessa à legislação ambiental. Ao mesmo tempo, há poucas informações sistematizadas sobre o Congresso que permitam identificar o interesse individual, a agenda e o posicionamento de cada parlamentar sobre o assunto. Com o objetivo de contribuir para diminuir essa lacuna, o Observatório do Legislativo Brasileiro fez um mapeamento inicial do agronegócio na Câmara dos Deputados e no Senado Federal.

Este boletim prioriza os seguintes aspectos: a) patrimônio e ocupação; b) participação de proprietários rurais em comissões e frentes; c) produção legislativa e ativismo parlamentar sobre o tema.

1. Proprietários rurais concentrados no Senado e em partidos de centro-direita

Identificar parlamentares vinculados direta ou indiretamente ao agronegócio não é tarefa simples, e detectar a propriedade de terras por deputados e senadores cumpre um primeiro papel essencial nessa direção. Para isso optamos por três caminhos: a) identificar o exercício de atividades relacionadas ao agronegócio por meio das autodeclarações de ocupação realizadas no momento do registro das candidaturas junto ao TSE; b) identificar a existência e o tamanho de propriedades rurais em nome dos parlamentares nas declarações patrimoniais constantes do mesmo órgão; e c) identificar propriedades rurais em nome de parlamentares na base fornecida pelo Incra. Nos três casos, há problemas. Nas autodeclarações de ocupação, é muito comum que deputados e senadores se autoidentifiquem como políticos em exercício do cargo x ou y, sem que haja referência a sua atividade pregressa à vida política. Já nas declarações patrimoniais, extraídas das estatísticas dos pleitos de 2014 e 2018, há imprecisões e lacunas que subestimam a magnitude do vínculo com o setor e a intensidade da defesa de seus interesses. Na base da Incra, os proprietários são identificados por nome e não CPFs, o que torna mais difícil a tarefa de excluir homônimos. Ainda assim, os dados revelam informações instigantes. Somente 7 dos 513 deputados federais se autodeclararam no exercício de atividades relacionadas à agropecuária. No Senado, esse número é de apenas 1. No que se refere às propriedades no campo, no entanto, de 10% a 16% dos deputados têm propriedades rurais declararam, quando observados os dados do TSE e do Incra, respectivamente. Segundo levantamento feito pelo Ruralômetro em 2014, esse percentual era de 55% no início da última legislatura, não estando claro se o cenário atual retrata queda significativa da representação desse perfil ou se há aumento importante na subnotificação. No Senado, para o qual não há dados comparativos na ferramenta do Ruralômetro, esse percentual é hoje de 25%, ou seja, 1 a cada 4 senadores possui bens rurais. Se incluídos os dados do Incra, essa proporção sobe para 35%.

Além disso, o Senado supera a Câmara no que se refere ao valor das propriedades listadas. O valor médio no Senado é R$ 1.98 milhões, enquanto na Câmara é quase 3,5 vezes menor, R$ 0.57 milhões. Nas duas casas, boa parte dos proprietários possui mais de uma propriedade rural.

No que se refere à distribuição partidária, utilizados os dados do TSE, obtidos por CPF do parlamentar, cinco partidos de centro e centro-direita reúnem sozinhos 60% dos proprietários rurais do Congresso – MDB, PSD, PP, PL e DEM. Quando observado o percentual de proprietários por partido, observamos novamente a prevalência desses partidos. No MDB e no DEM, inclusive, o percentual de proprietários supera 20% de suas bancadas no Congresso.

2. A bancada ruralista nas comissões: Senado novamente se destaca

A propriedade de bens rurais não implica necessariamente defesa formal de interesses do agronegócio e a defesa de tais interesses não é monopólio dos congressistas que possuem propriedades rurais. Uma primeira forma de avaliar a atuação política dos parlamentares sobre o tema é identificar quais comissões e frentes impactam o setor, nas duas casas legislativas, em virtude dos temas de que tratam; se congressistas com propriedades rurais ocupam predominantemente esses espaços; e qual o perfil dos deputados não proprietários que coabitam esses órgãos/associações.

Na Câmara dos Deputados, observamos a composição das comissões de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural (CAPADR) e de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (CMADS). Nelas, não há sobrerrepresentação dos proprietários rurais, apenas 6 de 69 parlamentares do total dessas comissões são proprietários (8,6%), em contraste com os parlamentares proprietários na casa, cerca de 11% (TSE). Já no Senado, o papel dos proprietários rurais é bastante relevante nas duas comissões mais importantes para o setor – a Comissão do Meio Ambiente (CMA) e a Comissão de Agricultura e Reforma Agrária (CRA). Quase 50% dos senadores proprietários ruralistas ocupam cadeiras nesses órgãos, o que é indício de que a posse de propriedade rural entre senadores pode estar relacionada com atuação mais propositiva e influência maior dos ruralistas na legislação sobre o setor e assuntos correlatos.

3. O tamanho e a importância da FPA na produção de informação e tomada de decisão

Tão importantes, nesse caso, quanto as próprias comissões são as frentes parlamentares constituídas para tratar do tema. As frentes não têm papel estruturalmente definido na avaliação das proposições, mas cumprem ao menos duas tarefas interdependentes de suma importância: garantem visibilidade ao tema que lhes dá origem e ajudam a organizar em coalizões os apoiadores das posições defendidas.

No primeiro ano da atual legislatura, o número de frentes criadas (mais de 300) foi 4 vezes maior que a média das frentes instituídas no primeiro ano das legislaturas coincidentes com Lula I, Lula II, Dilma I e Dilma II. A Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), no entanto, que aqui nos interessa, não é nova. Data da Constituinte (entre 1987 e 1988) a criação desse grupo de parlamentares dedicado à defesa dos interesses do setor, que, desde então, tornou-se uma das principais frentes temáticas no Congresso. É a maior frente parlamentar mista atualmente existente, reunindo quase 50% dos membros de cada casa – 246 deputados e 39 senadores. O tamanho é suficiente para fazer avançar proposições de interesse e barrar iniciativas contrárias ao setor.

Como membros da FPA, destacam-se partidos como PP e MDB, que, conforme dito anteriormente, abrigam boa parte dos proprietários rurais. PSL e Novo, no entanto, que reúnem poucos proprietários rurais, também se destacam na composição da frente. A força da FPA parece advir, portanto, em boa medida, de sua grande capacidade de atrair parlamentares não proprietários, ao menos se considerado exclusivamente o perfil de seu patrimônio declarado, conforme gráfico a seguir.

Outro dado relevante é a presença de membros da FPA nas comissões que impactam o setor, aquelas relacionadas à agropecuária e meio ambiente anteriormente citadas. Na Câmara, onde cada parlamentar pode integrar no máximo até duas comissões permanentes, a sobrerrepresentação de membros da FPA nos órgãos que legislam sobre agronegócio é evidente. Dos deputados que ocupam vagas nas duas comissões, 43 pertencem à frente e 26 não. Dito de outro modo, 62% dos membros das comissões pertencem à FPA. No Senado, há equiparação na proporção de vagas ocupadas por membros e não membros da FPA nas duas comissões correlatas, mas 40% dos membros da FPA ocupam cadeira em uma delas. Ou seja, a despeito do fato de que as regras de funcionamento do Senado facultam aos senadores integrar até seis comissões permanentes simultaneamente, o que reduz a necessidade de priorização de um único tema sobre o qual atuar, senadores da FPA mantêm forte atuação nas duas comissões.

4. O impacto da FPA na produção legislativa em temas afeitos ao agronegócio

Para investigar o impacto da atuação de grupos potencialmente ligados ao agronegócio na produção legislativa, analisamos, inicialmente, a autoria de proposições apresentadas nas áreas de agropecuária e meio ambiente, nas duas casas legislativas, considerados os seus tipos mais relevantes – Projetos de Lei, Proposta de Emenda Constitucional e Projetos de Lei Complementar. Dado que há lacunas nas informações sobre ocupação profissional e propriedades rurais, optamos pela identificação da incidência dos parlamentares da FPA, comparativamente aos demais, na autoria de propostas sobre os temas, não importando, para esta fase da pesquisa, se as propostas foram ou não transformadas em norma jurídica.

O resultado é revelador. Na Câmara, 48% das proposições relativas à agropecuária e ao meio ambiente são de autoria de membros da FPA – proporção idêntica ao percentual de deputados que participam da Frente. No Senado, no entanto, o impacto da Frente na definição de propostas sobre os temas é muito mais expressivo. 70% das propostas nas duas áreas foi apresentada por senadores da FPA, o que significa potencial impacto da frente na agenda ambiental indicativa que circula no Casa.

5. Índice de ativismo de tribuna

Por fim, buscamos analisar o esforço empreendido pelos congressistas para formação de opinião e construção de consensos nos temas Meio Ambiente e Uso do Solo. A tribuna é, nesse sentido, elemento fundamental, motivo pelo qual o OLB criou um índice novo, chamado Índice de Ativismo na Tribuna (IAT). O indicador varia entre 0 (nenhum ativismo na tribuna sobre o tema) e 10 (máximo de ativismo na tribuna sobre o tema). Sua metodologia baseia-se na análise de discursos parlamentares, procurando neles palavras-chave relativos ao tema2*. É importante frisar, entretanto, que a análise de engajamento não tem qualquer valor de valência. O que o índice revela não é a posição de determinado parlamentar, se favorável ou contrária à agenda em questão, mas o quanto ele se engaja no tema a despeito de seu posicionamento.

Na Câmara, 207 parlamentares (40%) tiveram alguma pontuação no índice, a maior parte deles (66%) com menos de 5 pontos, o que denota um engajamento baixo do conjunto da casa. Apesar disso, 23 parlamentares obtiveram nota acima de 7 (de médio a alto engajamento), destacando-se a presença significativa, nesse conjunto, de membros da FPA (13), mas também de filiados a partidos de esquerda (principalmente do PT), com posição provavelmente contrária à do primeiro grupo.

2* As palavras usadas na busca e análise foram: propriedade agrícola, reserva indígena, fundiário, fundiária, desmatamento, reserva ambiental, fronteira agrícola, inca, proteção ambiental, fazenda, gleba, imóvel rural, lote rural, área rural, loteamento, terreno agrícola, propriedade rural, agropecuária, pecuária, extrativismo, agricultura deputados com nota acima de 7 fazem parte das duas principais comissões que discutem o tema. Ou seja, lideranças mais engajadas na tribuna não tomam decisões no âmbito das comissões.

No Senado, 20% dos parlamentares têm nota acima de 7. Há maior presença de parlamentares com propriedade de terra nesse conjunto e participação mais ativa desse senadores e senadores nas comissões que discutem Meio Ambiente e Agropecuária.

Nas duas casas, há clara predominância de parlamentares bem posicionados no IAT oriundos de estados com forte relação com o tema da agricultura ou pertencentes à Amazônia legal.

Conclusão: Mensurar o quanto os interesses do agronegócio brasileiro estão representados no Congresso e refletidos na sua agenda requer análise conjugada de uma série de variáveis relativas ao perfil político-partidário do parlamentar e às suas atividades legislativas. Neste estudo do tema na atual legislatura, o OLB fez um primeiro mapeamento de algumasdessas variáveis. A despeito dos limites observados nos dados consultados, há alguns achados importantes. A pequena parcela de deputados e senadores que declaram possuir propriedades rurais concentra filiados a partidos de centro-direita. O Senado é a instituição que tem maior proporção dos proprietários, ¼ da casa, garantindo sobrerrepresentação dos mesmos em comissões permanentes dedicadas a temas relativos à agropecuária e ao meio ambiente.

São os dados de composição e atuação da FPA, contudo, que mais revelam o possível impacto do agronegócio no Congresso. Cerca de 50% dos deputados e senadores da atual legislatura compõem a Frente, que controla as comissões sobre o tema na Câmara e tem participação importante em comissões correlatas no Senado. Os membros da FPA também possuem índice de ativismo de tribuna mais elevado nos temas Meio Ambiente e Uso do Solo comparativamente aos demais congressistas. Os mais engajados no levantamento desses temas em seus discursos são parlamentares oriundos de estados em que agropecuária tem peso relevante.

Outros dados serão agregados a este primeiro mapeamento sobre o peso do agronegócio no Congresso, mas, até então, pode-se afirmar que o setor tem capilaridade suficiente nas duas casas legislativas, especialmente, no Senado, para pender a balança da agenda ambiental do Legislativo em seu favor.

Metodologia

As análises apresentadas neste boletim foram feitas a partir de dados coletados de diferentes fontes oficiais. Do Repositório de Dados Abertos da Câmara dos Deputados e do Senado Federal , extraímos as seguintes informações:

● lista de Deputados titulares na Câmara;

● lista de Senadores titulares no Senado;

● filiação partidária atualizada dos congressistas;

● lista de ocupantes de comissões permanentes nas duas casas legislativas;

● discursos proferidos em Plenário;

● proposições (PL, PEC, MPV e PLP) apresentadas e tramitadas na Câmara dos Deputados desde 2019;

● classificação das proposições por tema, realizada pelo Setor de Informação da Câmara, e por autoria.

Como forma de identificar parlamentares com propriedades rurais, recorremos às declarações de bens realizadas pelos congressistas no momento do registro de suas candidaturas junto ao TSE em 2018 (e em 2014 para senadores cujos mandatos terminam em 2022). Organizamos essas informações de forma a manter apenas ocorrências que diziam respeito aos seguintes tipos de propriedades declaradas: fazendas, glebas, imóveis rurais, áreas rurais, áreas de loteamento, terrenos agrícolas e propriedades rurais. Feito isso, contabilizamos as ocorrências de propriedades por congressista e deflacionamos os valores declarados de cada uma pelo IPCA de maio de 2020 (usando os indexadores fornecidos pelo Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada ). Do TSE, também extraímos informações como escolaridade, sexo e ocupação profissional declarada de cada congressista.

As proposições legislativas consideradas em nossas análises foram Projetos de Lei, Medidas Provisórias, Projetos de Lei Complementar e Propostas de Emenda à Constituição. Coletamos dados de proposições como essas apresentadas desde 2019 até o final de maio de 2020. Para agrupá-las nas áreas de interesse do agronegócio, utilizamos as classificações desenvolvidas pelos setores de documentação da Câmara e do Senado: no primeiro caso, consideramos os temas Agricultura, pecuária, pesca e extrativismo, meio ambiente e desenvolvimento sustentável e estrutura fundiária; já na câmara alta, consideramos os temas agricultura, pecuária e abastecimento, política fundiária e reforma agrária, meio ambiente. Como informações sobre a tramitação das proposições são disponibilizadas em estruturas e formatos diferentes em cada casa, o banco de dados final foi sistematizado para permitir a análise da produção legal do Congresso.

Finalmente, para realização dos cruzamentos entre bases de dados, utilizamos IDs únicos para cada parlamentar extraídos do TSE (no caso, o código sequencial de candidatura), da Câmara dos Deputados e do Senado Federal; e também número de CPF dos parlamentares, disponível tanto nos repositórios do TSE quanto da Câmara. Na ausência de  dados atualizados sobre a frente mista pela agropecuária, extraímos a composição da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) a partir do website do grupo na internet,utilizando os nomes dos parlamentares para identificar os pertencentes à frente. A base final foi consistida para checar a validade das informações.

Sobre o OLB

O Observatório do Legislativo Brasileiro (OLB), núcleo de pesquisas ligado ao IESP-UERJ combina expertise acadêmica e ferramentas de análise de dados para acompanhar e avaliar o comportamento dos parlamentares no Congresso Nacional. Produzimos informações substantivas para organizações da sociedade civil e cidadãos sobre a tramitação e aprovação de políticas públicas, promovendo a transparência da atividade legislativa.

Greenpeace projeta queimadas na Amazônia no Ministério do Exterior da Alemanha

Com ato em Berlim, organização se manifestou contra o acordo UE-Mercosul. Ativistas afirmam que o pacto comercial contribuiria para a destruição da Floresta Amazônica.

green 1“Parem a destruição da Amazônia!”, projetou o Greenpeace na fachada do Ministério do Exterior da Alemanha

Ativistas do Greenpeace projetaram imagens de incêndios na Amazônia e mensagens pedindo a proteção da floresta na fachada do Ministério das Relações Exteriores da Alemanha, em Berlim, nas primeiras horas da manhã desta quinta-feira (03/09). Com o ato, a ONG se manifestou contra o acordo comercial entre a União Europeia (UE) e o Mercosul, considerado prejudicial ao meio ambiente pelos ativistas.

“Com o acordo comercial UE-Mercosul, a destruição maciça da floresta tropical ameaça se espalhar ainda mais. A política precisa finalmente agir! O ministro do Exterior, Heiko Maas, deve se opor ao acordo para proteger o coração verde do planeta”, escreveu a organização numa publicação em sua conta no Facebook.

Os ativistas projetaram imagens de árvores em chamas e as frases “Acordo UE-Mercosul: perigoso para a Amazônia” e “Parem a destruição da Amazônia”. O ato também visava atrair a atenção para o Dia Internacional da Amazônia, comemorado em 5 setembro.

No último dia 21 de agosto, a chanceler federal da Alemanha, Angela Merkel, afirmou ter “sérias dúvidas sobre a implementação do acordo entre a União Europeia e o bloco sul-americano devido ao aumento do desmatamento na Amazônia.

No início desta semana, a ministra da Agricultura da Alemanha, Julia Klöckner, posicionou-se contra o acordo e afirmou que os colegas de pasta europeus estão céticos em relação ao pacto comercial. O presidente do Comitê de Comércio do Parlamento Europeu, o alemão Bernd Lange, também defendeu a suspensão do acordo.

green 2“Acordo UE-Mercosul: perigoso para a Amazônia”, diz projeção

Nesta quarta-feira, Merkel voltou a colocar em dúvida ratificação do acordo. Segundo ela, sob as atuais circunstâncias, a assinatura do acordo não enviaria um bom sinal. Merkel garantiu que compartilha do espírito ed a intenção do acordo, mas que regulamentações climáticas precisam ser negociadas e acertadas.

Carsten Lindemann, vice-presidente da bancada parlamentar da União Democrata Cristã (CDU), o partido de Merkel, enfatizou que o acordo não deve ser questionado. Em entrevista ao jornal alemão Frankfurter Allgemeine, ele afirmou que se a UE não seguir adiante com o acordo, os países do Mercosul iriam se direcionar cada vez mais para a China. Alertas semelhantes foram emitidos por diversos setores da economia alemã.

Em junho do ano passado, após 20 anos de negociações, a UE e os países que compõem o Mercosul – Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai – chegaram a um acordo comercial abrangente para a criação da maior zona de livre comércio do mundo. Antes de entrar em vigor, o pacto precisa, porém, ser ratificado por todos os Estados-membros do bloco europeu.

Os parlamentos da Áustria, da Holanda e da região francófona da Bélgica já rejeitaram o acordo negociado. A ratificação do pacto também encontra resistência na França, Irlanda e Luxemburgo.

Segundo o Greenpeace, o acordo entre a UE e os países do Mercosul prevê maiores cotas de importação de produtos agrícolas e de carne bovina e de frango, e a Europa, portanto, importaria significativamente mais produtos para os quais grandes áreas de florestas precisam ser destruídas. Segundo a organização, muitos dos incêndios atuais são causados deliberadamente para preparar terras para a agricultura industrial.

Ainda de acordo com o Greenpeace, uma pesquisa realizada em agosto na Alemanha apontou que 85% dos entrevistados são a favor que um acordo comercial entre a UE e o Mercosul fortaleça os direitos humanos e os padrões sociais. E para 84% dos entrevistados, a consolidação da proteção ambiental deveria ser um ponto central do acordo.

Em junho, Maas enfatizou a importância de relações comerciais fortes com o Mercosul e se pronunciou favorável ao acordo.

“É claro que o Ministério do exterior tem que enfrentar crises com cooperações internacionais”, disse a especialista em florestas do Greenpeace, Gesche Jürgens. “Acordos comerciais sustentáveis devem, no entanto, focar na proteção do clima e na justiça social. Estes acordos não devem promover indústrias que violam os direitos humanos e destroem o meio ambiente.”

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Este texto foi originalmente publicado pela Deutsche Welle [Aqui!].

Fogo! Reuters revela que dados de queimadas na Amazônia estão errados e catástrofe é maior do que o divulgado até aqui

EXCLUSIVO-Dados de queimadas na Amazônia precisam ser corrigidos; provavelmente foi pior mês de agosto em 10 anos

fogoQueimada em área de floresta próxima de Humaitá (AM). Reuters/Ueslei Marcelino

Por Jake Springs para a agência Reuters

BRASÍLIA (Reuters) – Os dados oficiais de agosto sobre focos de incêndio na Amazônia precisam ser corrigidos e provavelmente vão mostrar uma alta na comparação com o ano passado, o que significará o pior mês de agosto em uma década, disse à Reuters nesta quarta-feira um dos pesquisadores responsáveis pelos números.

Segundo o pesquisador Alberto Setzer, não estão corretos dados que apontam que os incêndios  na Amazônia caíram 5% em agosto, conforme informação disponível atualmente no sistema do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

O pesquisador do Inpe, que trabalha na produção dos dados oficiais sobre focos de incêndios, disse que o registro de dados finalizados sofreu um atraso por um erro em uma satélite da Nasa. 

Quando a questão for resolvida, afirmou, agosto deste ano provavelmente registrará um aumento de 1% a 2% na comparação com o mesmo mês do ano passado. Isso significa que seria o pior mês de agosto em números de incêndios desde 2010.

A assessoria de imprensa do Inpe encaminhou um pedido de comentário para Setzer, que deu mais detalhes sobre seus cálculos e alertou que uma variação de 1% a 2% ficaria dentro da margem de erro.

O Ministério da Ciência e Tecnologia, ao qual o Inpe é vinculado, não respondeu a um pedido de comentário.

Já a assessoria do presidente Jair Bolsonaro não quis comentar, direcionando perguntas ao gabinete do vice-presidente da República Hamilton Mourão, que coordena o Conselho Nacional da Amazônia Legal. O gabinete de Mourão não respondeu de imediato a um pedido de comentário. Uma porta-voz do Ministério do Meio Ambiente não quis comentar.

Uma onda de focos de incêndios na Amazônia, em agosto de 2019, que levou a um pico das queimadas em nove anos, provocou protestos pelo mundo e no Brasil, com críticas à política de proteção da maior floresta tropical do mundo. O presidente francês, Emmanuel Macron, chegou a trocar farpas com Bolsonaro à época.

Setzer disse que o Inpe tem procurado fontes alternativas para corrigir o problema, estimando que pode demorar de uma a duas semanas para que os dados finais sejam publicados.

Uma vez corrigidos os dados, com falhas para a Amazônia a partir de 16 de agosto, juntamente com diferenças menores produzidas por dados ausentes para o norte da Amazônia desde então, o número final deve mostrar um ligeiro aumento, afirmou Setzer. 

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Este artigo foi inicialmente publicado pela agência Reuters [Aqui!].

Amazônia ‘condenada à destruição’ com a proliferação de incêndios

 O fogo e o desmatamento marcam a reserva florestal nacional do Iriri, perto de Novo Progresso, na Amazônia brasileira. ‘Essa história de que a Amazônia está pegando fogo é uma mentira’, disse o presidente Jair Bolsonaro. Fotografia: Lucas Landau / The Guardian

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A vasta floresta tropical está experimentando uma repetição das chamas devastadoras do ano passado e os críticos dizem que Bolsonaro tem a responsabilidade final

Por Lucas Landau em Novo Progresso e Tom Phillips para o The Guardian

Jair Bolsonaro sorri de um outdoor de propaganda na entrada desse posto avançado da Amazônia, dando as boas-vindas aos viajantes em sua “rota para o desenvolvimento”.

Mas 20 meses após a presidência de Bolsonaro – e um ano após a eclosão devastadora de incêndios na Amazônia causou indignação global – os incêndios estão de volta, e muitos temem que o líder do Brasil esteja conduzindo seu país para a ruína ambiental.

novo progressoA entrada de Novo Progresso. Fotografia: Lucas Landau / The Guardian

Durante um voo de monitoramento de duas horas pelos céus ao redor de Novo Progresso, o Guardião viu colunas gigantes de fumaça branca e cinza subindo das florestas supostamente protegidas abaixo.

Em outros lugares, minas de ouro ilegais podiam ser vistas dentro do território indígena Baú – uma tapeçaria caótica de poças lamacentas e acampamentos improvisados ​​onde antes existia uma floresta intocada. Áreas recentemente desmatadas de árvores caídas e carbonizadas eram visíveis dentro da reserva florestal de Iriri.

“A Amazônia está condenada à destruição”, desesperou-se um ex-alto funcionário do enfraquecido órgão ambiental brasileiro , o Ibama, acusando o populista de extrema direita de supervisionar uma “demolição” por atacado dos esforços de proteção.

“Sob este governo não haverá combate [à destruição da floresta]”, disse o ex-funcionário. “O futuro parece sombrio.”

Em 2020 já ocorreu o mesmo número de queimadas ocorridas em 2019

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Sob pressão de investidores estrangeiros, governos e líderes empresariais brasileiros para evitar uma repetição do escândalo do ano passado – quando celebridades e líderes mundiais como Leonardo DiCaprio e Emmanuel Macron condenaram o tratamento que Bolsonaro deu à Amazônia – o governo brasileiro partiu para a ofensiva.

“Essa história de que a Amazônia está pegando fogo é uma mentira”, Bolsonaro insistiu no início deste mês, apesar das evidências crescentes em contrário.

Em maio, milhares de soldados foram enviados à Amazônia como parte de uma missão militar supostamente projetada para reduzir o crime ambiental – mas que alguns afirmam estar piorando as coisas .

Em julho, com o aumento da pressão de investidores internacionais , o Brasil anunciou a proibição de queimar por quatro meses, com o objetivo de tranquilizar o mundo de que algo estava sendo feito.

Mas imagens de satélite recolhidas pela própria agência espacial brasileira, Inpe, sugerem que esses esforços estão aquém. Em agosto, foram detectados mais de 7.600 incêndios no Amazonas – um dos nove estados que compõem a Amazônia brasileira – o maior número desde 1998 e quase 1.000 a mais que no ano passado. Na terça-feira, o Inpe anunciou que em toda a região amazônica foram detectados mais de 29.307 incêndios em agosto – o segundo maior número em uma década e apenas um pouco menos que o número do ano passado de 30.900.

guardian 4Uma área de garimpo ilegal chamada Coringa, localizada na terra indígena Baú, Fotografia: Lucas Landau / The Guardian

O Greenpeace calculou que, apesar da mobilização militar e da proibição das queimadas, houve apenas uma redução de 8% nos incêndios entre meados de julho e meados de agosto, em comparação com o ano passado.

“Estamos vendo a tragédia do ano passado se repetir”, disse Rômulo Batista, ativista do Greenpeace em Manaus, capital do Amazonas.

Durante um recente vôo de vigilância sobre quatro estados da Amazônia – Amazonas, Mato Grosso, Rondônia e Pará – Batista também testemunhou cenas chocantes de devastação.

“Vimos pastagens que estavam queimando, áreas desmatadas que estavam queimando, áreas de floresta que estavam queimando. E era óbvio que lá embaixo na floresta abaixo de nós ninguém estava ficando em casa [por causa do coronavírus] ”, disse ele.

“Todos – madeireiros ilegais, grileiros, mineiros ilegais – estão todos trabalhando e, ainda mais do que o normal, seguros de que as inspeções do governo foram reduzidas por causa da pandemia .”

Um monitor da ONG indígena Instituto Kabu, que organizou o voo monomotor do Guardian sobre o estado do Pará, disse: “Houve um aumento flagrante da mineração ilegal e da extração de madeira nos últimos dois anos. A falta de fiscalização do Ibama e da Polícia Federal nessa região acabou incentivando crimes ambientais em terras indígenas ”.

Bep Protti Mekrãgnoti Re, um cacique do povo indígena Kayapó, disse que suas comunidades estão pagando um alto preço pela postura anti-ambiental do governo.

guardian 5Protesto de indígenas Kayapó  que bloqueou a rodovia BR-163 próximo a Novo Progresso, no Pará, no dia 17 de agosto. Fotografia: Lucas Landau / The Guardian

“O que o desenvolvimento de Bolsonaro significa é a destruição dentro de nossa reserva”, disse Bep Protti, que recentemente liderou um bloqueio de uma semana da rodovia Amazônica cortando Novo Progresso para exigir proteção.

Ele pediu uma ação urgente para monitorar e proteger as florestas da região e a vida selvagem em seu interior: “É com a floresta e os rios que eu me alimento”.

O cacique disse que dois modelos de desenvolvimento se enfrentam atualmente na Amazônia: “o desenvolvimento da destruição” e o “desenvolvimento sustentável da construção e do conhecimento”.

Os ambientalistas têm certeza de qual modelo Bolsonaro – que assumiu o cargo em janeiro de 2019 prometendo abrir a Amazônia e suas reservas indígenas ao desenvolvimento – está buscando.

“Este é sem dúvida o pior momento em mais de 30 anos que vivemos no Brasil. E infelizmente era totalmente esperado porque o presidente foi eleito graças à sua retórica anti-ambiental – e agora ele está cumprindo essas promessas ”, disse Carlos Rittl, um ambientalista brasileiro que trabalha no Instituto de Estudos Avançados de Sustentabilidade da Alemanha.

“O sentimento é de desolação”, disse Rittl, acrescentando: “2020 vai ser um ano terrível”.

guardian 6 Incêndio em fazenda na região de Novo Progresso, no Pará, no dia 25 de agosto. Fotografia: Lucas Landau / The Guardian

Batista comparou a abordagem de Bolsonaro aos incêndios florestais ao seu manejo negador do coronavírus , que já matou mais de 120.000 brasileiros. O populista de extrema direita esperava negar as imagens de satélite e a ciência e projetar “um ar de normalidade” para o mundo “assim como fez com a COVID-19”. “Infelizmente, isso simplesmente não é verdade.”

O ex-funcionário do Ibama foi igualmente pessimista, alegando que suas operações estavam “completamente paralisadas” e as políticas ambientais do Brasil em frangalhos. A organização, sofrendo com anos de cortes, tinha apenas seis helicópteros para policiar os 2,1 milhões de quilômetros quadrados da Amazônia, com planos de tirar mais dois deles fora de serviço. “Se você me perguntar, para combater o desmatamento precisaríamos de pelo menos 12.”

Na semana passada, o ministro do meio ambiente do Brasil anunciou que todas as operações anti-desmatamento deveriam ser interrompidas, embora isso tenha sido revertido após um protesto.

Rittl chamou os últimos incêndios – que devem continuar até outubro – de “uma tragédia prevista” e a consequência de “um governo absolutamente sem compromisso com o meio ambiente”.

“Sob Bolsonaro, o Brasil está se tornando talvez o maior inimigo global do meio ambiente. É tão triste ver ”, disse ele. “Um pequeno número de pessoas enriquece muito com isso – e todos nós perdemos.”

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Este artigo foi escrito originalmente em inglês e publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

A floresta tropical do Brasil está queimando como não fazia há muito tempo: 7766 íncêndios só no estado do Amazonas

O governo Bolsonaro anunciou que trabalharia para proteger a floresta tropical. Mas, aparentemente, isso foi apenas conversa fiada. Dados de satélite mostram que o número de incêndios na Amazônia continua aumentando.

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Fogo na região amazônica no município de Novo Progresso, estado brasileiro do Pará. Foto: Andre Penner / dpa

O estado brasileiro do Amazonas tem quase metade do tamanho da Alemanha. Nele encontra-se grande parte da floresta tropical da região, a vasta área é monitorada do espaço há anos. Dados confiáveis ​​sobre o estado dos pulmões verdes do planeta são importantes. Agências espaciais como a NASA ficam de olho na área, mas o inventário do espaço é do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). E , finalmente, os relatórios dos especialistas não foram nada encorajadores : já havia relatórios dramáticos em junho e julho sobre o alto número de incêndios na região.

Também neste mês, os dados de satélite comprovam uma tragédia: as imagens do Inpe mostram nada menos que 7.766 incêndios no estado do Amazonas entre 1º e 30 de agosto. Este é o valor mais alto para este mês desde o início da pesquisa em 1998.

A estação seca nesta região vai de julho a novembro. Agosto é geralmente considerado um dos meses mais secos. No entanto, a floresta amazônica não pega fogo sozinha. De acordo com especialistas, a maioria dos incêndios é iniciada para fornecer terras para agricultura e pecuária.

Muitas queimadas ocorrem ao longo das estradas da área. Os produtos feitos com o auxílio das áreas desmatadas são exportados para diversos países, inclusive para a Europa. Assim, um estudo recentemente mostrou que nas exportações brasileiras de carne bovina cerca de 17 por cento para alimentar os animais relacionados à soja da ex-floresta tropical e savana se originam em áreas desmatadas ilegalmente.

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Este artigo foi escrito originalmente em alemão e publicado pela revista Die Spiegel [Aqui!].

Ministra alemã da Agricultura se posiciona contra acordo UE-Mercosul

Klöckner cita desmatamento da Amazônia para criticar pacto que, segundo ela, geraria “distorção da concorrência”. Ministra afirma também que seus colegas de pasta europeus estão céticos em relação ao acordo.

min da agricultura“Nós, ministros da Agricultura, estamos muito, muito céticos”, disse Klöckner

A ministra alemã da Agricultura, Julia Klöckner, se posicionou nesta terça-feira (01/09) contra o acordo comercial entre a União Europeia (UE) e o Mercosul e citou o desmatamento da Floresta Amazônica para alertar que, com o pacto, agricultores europeus iriam competir com alimentos produzidos de forma prejudicial para o meio ambiente.

A declaração de Klöckner foi dada durante um encontro de ministros da Agricultura dos Estados-membros da União Europeia (UE). Segundo a política da União Democrata-Cristã (CDU), o partido da chanceler federal alemã, Angela Merkel, todos os seus colegas de pasta europeus têm dúvidas em relação ao acordo.

“Nós, ministros da Agricultura, estamos muito, muito céticos”, disse Klöckner, antes de uma reunião com os seus homólogos europeus em Koblenz, na Alemanha. “Não vejo a ratificação do acordo com o Mercosul.”

De acordo com Klöckner, os ministros da Agricultura de quase todos os países da UE são contra a ratificação do acordo em sua forma atual. A ministra destacou ainda que o desmatamento da Amazônia no Brasil para acelerar a criação de terras aráveis e produzir ração e alimento de forma prejudicial para o meio ambiente representa “uma distorção da concorrência”.

As declarações de Klöckner vão contra a postura defendida pelo novo embaixador da Alemanha no Brasil, Heiko Thoms. Em entrevista à DW Brasil, Thoms garantiu que o acordo de livre comércio está no topo de sua agenda e afirmou que a Alemanha “ainda tem a ambição” de assiná-lo no Conselho da União Europeia até o final do ano, mas que “há muita sensibilidade em todo o espectro político alemão sobre temas relativos a clima e meio ambiente”.

“A Alemanha quer o acordo EU-Mercosul, mas precisa ver queda no desmatamento”, disse Thoms. “A Alemanha está totalmente comprometida. Mas precisamos ver progressos concretos. Não promessas ou palavras, mas progresso real.”

Em junho do ano passado, após 20 anos de negociações, a União Europeia e os países que compõem o Mercosul – Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai – chegaram a um acordo comercial abrangente para a criação da maior zona de livre comércio do mundo. Antes de entrar em vigor, o pacto precisa, porém, ser ratificado por todos os Estados-membros do bloco europeu.

Os parlamentos da Áustria, da Holanda e da região francófona da Bélgica já rejeitaram o acordo negociado. A ratificação do pacto também encontra resistência na França, Irlanda e Luxemburgo. A explosão do desmatamento da Amazônia no ano passado é um dos fatores que levou europeus a se posicionarem contra a proposta.

Recentemente, o acordo também perdeu o apoio de uma de suas principais defensoras, a chanceler federal alemã. Merkel afirmou ter “sérias dúvidas” sobre o pacto. O porta-voz do governo alemão disse que Berlim observa “com grande preocupação” o desmatamento e as queimadas na Amazônia.

PV/dpa/afp/dw

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Este texto foi originalmente publicado pela Deutsche Welle [Aqui!  ].

Sinos dobram por Ricardo Salles, mas não celebre: no governo Bolsonaro o ruim sempre pode piorar

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Se aceitarmos como verdade as análises do jornalista Ricardo Noblat, o ministro (ou seriam anti-ministro) do Meio Ambiente, o improbo Ricardo Salles, é uma espécie de “morto-vivo” no governo Bolsonaro. As razões para esta situação, onde já estiveram Gustavo Bebbiano, Henrique Mandetta, Sérgio Moro e Abraham Weintraub, seria a nota da Assessoria de Comunicação do Meio Ambiente dando conta que as operações de combate ao desmatamento e às queimadas seriam suspensas por causa do corte de verbas determinado pelo Ministério da Fazenda.

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Quem acompanha este blog sabe que considero Ricardo Salles a pessoa errada no lugar errado, visto, entre outras coisas, a condenação por improbidade administrativa por causa da sua interferência na elaboração do Plano de Manejo da Área de Proteção Ambiental do Rio Tietê em 2016. Nesse processo, Salles foi condenado, inclusive, à perda de seus direitos políticos por 3 anos. 

Já no governo Bolsonaro, Ricardo Salles agiu para inviabilizar a governança ambiental e os instrumentos de comando e controle, forçando uma militarização dos postos de comando de agências ambientais. Além disso, Salles efetivamente “passou a boiada” na área ambiental com a regressão da legislação ambiental. Tudo isso combinado resultou em índices altíssimos de desmatamento e queimadas na Amazônia, mas também na Mata Atlântica.

Imagem de capaRicardo Salles e seu sorriso sardônico ao sobrevoar as áreas de garimpo ilegal na Terra Indígena Munduruku no estado do Pará

Desta forma, uma possível queda de Ricardo Salles deverá ser celebrada por aqueles que o enxergam como o arauto do caos ambiental instalado pelo governo Bolsonaro. Mesmo que eu não vá derrubar uma mísera lágrima se Salles for realmente defenestrado, tampouco irei celebrar. É que no governo Bolsonaro, ministros que perdem seu prazo de validade estão sendo substituídos por figuras que aprofundam ainda mais a aplicação do projeto “anti-Nação” que as elites que colocaram Jair Bolsonaro no poder querem fazer avançar.

A minha aposta é que se Salles realmente cair, a maior chance é de que haja uma militarização do MMA com a colocação de mais um general na cadeira de ministro. Ou se colocará alguém ainda mais retrógrado e ainda mais comprometido com a destruição da governança ambiental e dos instrumentos de comando e controle. Em qualquer uma dessas hipóteses, a ordem certamente será a volta ao passado onde inexistiam leis ambientais e órgãos de proteção ambiental, no melhor estilo “wild west” (oeste selvagem).

A construção de alternativas ao projeto “arrasa quarteirão” da área ambiental passa por entender as questões estratégicas que guiam as ações do governo Bolsonaro, independente dos personagens que as executam. Afinal,  é sempre bom lembrar que a norma é sempre piorar.

Nota de Ricardo Salles causa briga de canivetes no governo Bolsonaro

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O vice-presidente, general Hamilton Mourão, saiu a campo para desmentir a nota de Ricardo Salles sobre a suspensão do combate ao desmatamento e às queimadas na Amazônia

A nota do ministro (ou seria anti-ministro) do Meio Ambiente, o improbo Ricardo Salles, suspendendo o combate ao desmatamento e às queimadas na Amazônia acabou causando o que pode ser equivaler a uma briga de canivetes. 

É que, confrontado com o teor absurdo da nota de Salles, o vice-presidente, general Hamilton Mourão, saiu à campo para desmentir a nota de Ricardo Salles, apontando que o ministro do Meio Ambiente teria sido “precipitado“, pois o corte orçamentário nunca teria ocorrido na forma que ele publicizou em sua nota.

Confrontando com o desmentido do vice-presidente, Ricardo Salles afirmou que o corte denunciado em sua nota só teria sido revertido após a repercussão negativa que se seguiu à divulgação da mesma.

Resta saber agora o que de fato está acontecendo com os recursos do MMA, e se de fato as operações do IBAMA e do ICMBio serão mantidas. É que em se tratando do governo Bolsonaro, nunca se sabe onde a verdade e a mentira começam ou terminam.

Ricardo Salles formaliza em nota que não haverá mais combate ao desmatamento e às queimadas na Amazônia

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Pode-se falar o que se quiser do ministro (ou seria anti-ministro?) do Meio Ambiente, o improbo Ricardo Salles, mas ele não é uma pessoa de esconder suas motivações e ações. Acusado, com inteira justiça, de ter desarticulado a governança ambiental e ter inviabilizado os mecanismos de comando e controle que precariamente protegiam a Amazônia, Salles resolveu dar hoje um passo ainda mais ousado e notificou o mundo, em nota assinada pela Assessoria de Comunicação do Ministério de Meio Ambiente e não por ele como deveria ser, que irá parar de combater o desmatamento e as queimadas na Amazônia (ver nota abaixo).

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Segundo informa a nota de Salles, a suspensão das atividades contra o desmatamento e queimadas na Amazônia decorrem do “bloqueio financeiro efetivado pela SOF – Secretaria de Orçamento Federal na data de hoje, da ordem de R$ 20.972.195,00 em verbas do IBAMA e R$ 39.787.964,00 em verbas do ICMBio, serão interrompidas a partir da zero hora de 2.feira (31/agosto) todas as operações de combate ao desmatamento ilegal na Amazônia Legal, bem como todas as operações de combate às queimadas no Pantanal e demais regiões do País“.

A nota informa ainda que o bloqueio dos recursos do MMA teria sido decidido “pela Secretaria de Governo/SEGOV e pela Casa Civil da Presidência da República e vem a se somar à redução de outros R$ 120 milhões já previstos como corte do orçamento na área de meio ambiente para o exercício de 2021“.

Como resultado deste bloqueio financeiro, Ricardo Salles informou que “no âmbito do combate às queimadas no IBAMA, a desmobilização de 1.346 brigadistas, 86 caminhonetes, 10 caminhões e 4 helicópteros.”  Salles informou ainda que “nas atividades do IBAMA relativas ao combate ao desmatamento ilegal serão desmobilizados 77 fiscais, 48 viaturas e 2 helicópteros.”  Já no tocante ao ICMBIO, nas operações de combate ao desmatamento ilegal serão “desmobilizados 324 fiscais, além de 459 brigadistas e 10 aeronaves Air Tractor que atuam no combate às queimadas“.

Trocando em miúdos, o governo Bolsonaro fez cortes tão drásticos que não há mais recursos financeiros para combate ao desmatamento e às queimadas em 2020, e tampouco haverá em 2021. Isso equivale ao que na trágica reunião ministerial de 22 abril, o próprio Ricardo Salles equiparou à “passar a boiada, e de baciada“.  Esta situação, é preciso que se diga, equivale ao governo Bolsonaro estar dando um libera geral para desmatadores e todos os tipos de saqueadores ilegais das riquezas amazônicas. As consequências para a suspensão das ações de controle do IBAMA e do ICMBio serão certamente devastadoras.

Em minha opinião esta postura do governo Bolsonaro parte do pressuposto que os principais parceiros comerciais do Brasil vão aceitar calados essa ação anti-Amazônia em nome do fluxo contínuo de commodities baratas que o Brasil fornece às custas da destruição do nosso principal bioma. Resta saber se essa aposta será vencedora como parecem crer que serão os formuladores das políticas anti-ambientais do governo Bolsonaro.

Em sua página oficial na rede social Twitter, o Observatório do Clima apresentou as seguintes observações sobre a nota do Ministério do Meio Ambiente:

“1. É mentira que não haja dinheiro: o Ibama só gastou 20% do que tinha em caixa para fiscalização entre janeiro e julho. O ministério tem R$ 63 milhões EM CAIXA do Fundo Amazônia para o Ibama e mais R$ 37 mi da Lava Jato,

2.  Parece jogo combinado com o Palácio do Planalto   para dar a Jair Bolsonaro desculpa perfeita para furar o teto de gastos e, ao mesmo tempo, isentar o ministro de responsabilidade pela explosão do desmatamento , e

3. Isso tudo SE FOR VERDADE,  Estamos falando do governo Bolsonaro, que nega coisas publicadas no Diário Oficial e assinadas pelo presidente da República. Ja já tiram a nota do ar, negam tudo e Salles solta o clássico “não é bem assim”.