Desmatamento sob Bolsonaro afasta investidores e ameaça acordo Mercosul-União Europeia

Diplomatas afirmam que alerta feito por fundos internacionais deve ser levado em conta, se Brasil quiser se aliar com bloco europeu. Em alta, desmatamento na Amazônia bateu recordemadeiraMadeira sendo transportada pelo rio Xingu, na região de Porto de Moz, no Pará.LILO CLARETO

Por Afonso Benites para o El País

A ineficiência apresentada pelo Governo Jair Bolsonaro no combate ao desmatamento da Amazônia já começa a apresentar seus primeiros efeitos e, se os resultados práticos de redução dos índices não aparecerem rapidamente, pode botar em risco o acordo entre a União Europeia e o Mercosul. A avaliação foi feita por cinco de seis fontes diplomáticas europeias consultadas pelo EL PAÍS nesta quarta-feira. A que não concorda com as demais, entende que o acordo sairá independentemente de como o presidente brasileiro agirá. Todas elas concordam, contudo, que a decisão de alocar o vice-presidente Hamilton Mourão na coordenação do Conselho da Amazônia representa um sinal positivo, já que exclui o radical ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, da linha de frente desse processo.

No início de junho, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais constatou que, entre agosto de 2018 e julho de 2019 foram desmatados 10.129 km2 de floresta – a área equivale a quase nove vezes o município do Rio de Janeiro. É o maior índice desde 2008. O número representa um aumento de 34,4% do desmatamento na Amazônia, em comparação com o período entre agosto de 2017 e julho de 2018. Agora, em 2020, o desmatamento segue em alta e o período de seca e consequente temporada de incêndios amazônicos ainda nem começou.

“Queremos ajudar o Brasil. Temos participado de várias reuniões com o vice-presidente e com sua equipe do Conselho Amazônia. Demonstramos nossa preocupação. Agora, depende mais do governo daqui do que de nós para frear esse desmatamento”, afirmou um diplomata ouvido pela reportagem.

Um dos alertas mais contundentes de que o país pode começar a perder dinheiro foi dado nesta semana, quando fundos internacionais de investidores, que gerenciam ativos de cerca de 21 trilhões de reais (4 trilhões de dólares), cobrou maior efetividade do Brasil na área ambiental. Em uma carta aberta entregue em embaixadas do Brasil pela Europa, Ásia e América do Sul, os representantes dos fundos disseram estar preocupados com “o impacto financeiro do desmatamento, bem como as violações dos direitos dos povos indígenas” e que acreditam que, sem a mudança de rumo, seus clientes veem “potenciais consequências para os riscos de reputação, operacionais e regulatórios”.

A maior parte dos fundos que assinou a carta compõem o Investor Initiative for Sustainable Forests (Iniciativa de Investidores pelas Florestas Sustentáveis), da qual participam empresas expostas ao desmatamento por seus investimentos na pecuária bovina e na sojicultura. Entre esses fundos estão a francesa Comgest, a britânica LGPS Central e o KLP, o maior fundo de pensões norueguês.

“Agora, além dos prejuízos ambientais conhecidos, temos a provável perda de investimentos internacionais em todos os segmentos da economia, o que poderia afetar até o programa de privatização que a gestão Bolsonaro pretende implantar”, disse Virgílio Viana, superintendente geral da ONG Fundação Amazônia Sustentável. A organização trabalha com projetos de sustentabilidade e geração de renda na região amazônica.

Outra fonte diplomática ouvida pela reportagem afirmou que a carta dos fundos de investimentos pode gerar um resultado positivo, a médio prazo. “Esse despertador tocado pelos fundos de investimento é o resultado das informações nada animadoras que agora chegam do Brasil. Pode ser bom para seguir nessa linha que, finalmente, o governo começou a tomar, de mudar o rumo no combate ao desmatamento”, declarou o diplomata.

Se não bastassem os sinais que vêm de fora, internamente também houve quem reclamasse da política ambiental e de seu impacto na economia. A cúpula dos dois maiores bancos privados do país, Itaú Unibanco e Bradesco deram declarações nesse sentido nesta semana. “No momento em que a sociedade se percebe frágil, a gente deve olhar para outros perigos. As consequências ambientais podem até vir de uma maneira mais lenta do que as da saúde como a covid-19, mas são mais duradouras e difíceis de reverter”, afirmou o presidente do Itaú Unibanco, Candido Bracher, em um debate promovido pela Federação Brasileira dos Bancos (Febraban).

“Todo mundo falava de sustentabilidade, de problema com o planeta, de aquecimento global, reflorestamento, derrubada, de qualidade do ar, da água. Todo mundo falava sobre isso, mas de fato nós temos de reconhecer que fizemos muito pouco em relação a isso”, ponderou o presidente do Bradesco, Octavio de Lazari Junior, no mesmo evento.

Se não bastassem as possíveis fugas de investimentos, o Brasil já abriu mão de receber recursos que costumava ter na área ambiental. Em 2019, o primeiro da gestão Bolsonaro, o Governo viu 2,2 bilhões de reais (cerca de 400 milhões de dólares) ficarem retidos por conta de uma decisão unilateral do Ministério do Meio Ambiente. No ano passado, outro grupo que representa 230 fundos de investimento já havia enviado alertas à gestão federal. Na ocasião, a cobrança era para que o Poder Executivo intensificasse o combate às queimadas, que devastaram boa parte do território amazônico.

Regras frouxas

Outros fatores que têm preocupado os investidores da área ambiental são propostas do Governo Bolsonaro e de seus aliados no Congresso que devem impactar diretamente no desmatamento. Uma delas prevê a redução de unidades de conservação, como parques nacionais e reservas extrativistas, para a construção de estradas, ferrovias e portos. Há ainda o projeto que pretende autorizar a exploração mineral em territórios indígenas, a medida provisória que faz a regularização fundiária sem muitos critérios e o afrouxamento nas regras de fiscalização de madeiras exportadas pelo Brasil.

Em março, o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente decidiu relaxar a fiscalização de madeiras que são exportadas pelo Brasil. O presidente do órgão, Eduardo Bim, decidiu acabar com a necessidade de o órgão autorizar a exportação de madeiras retiradas de florestas brasileiras. A definição contrariou parecer assinado por cinco técnicos de carreira do instituto. E isso ocorre no período em que o país registrou aumento de 30% nas queimadas na Amazônia.

No governo Bolsonaro, os discursos são distintos. Quando indagado sobre a carta dos fundos de investimentos, o presidente disse que havia muita desinformação nessa área e reclamou que vários dos países que o criticam sequer conseguiram preservar suas matas ciliares. Nesta quarta-feira, o vice-presidente e coordenador do Conselho da Amazônia, tentou apaziguar os ânimos dizendo que a resposta será dada com trabalho. “O Brasil responderá com a verdade e com trabalho responsável em prol da proteção e preservação da Amazônia”, afirmou Mourão ao jornal O Estado de S. Paulo.

A corrida de Mourão agora é contra o relógio. Nesse mês, está sendo editado os termos do acordo do Mercosul com a União Europeia, no qual estão destacados os compromissos ambientais. O próximo passo é levar o texto para os parlamentos de todos os países envolvidos. Até agora, os Congressos da Áustria e da Holanda já aprovaram moções para que o bloco europeu rejeite o compromisso por conta do desmatamento amazônico. Ainda não é uma sentença de morte para o acordo, mas é uma sinalização de que ainda há muito a ser feito para que ele sobreviva.

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Este artigo foi inicialmente publicado pelo jornal El País [Aqui!].

Exército tem a missão de combater o desmatamento, mas os números da destruição só aumentam

desmatamentoDesmatamento de 1.500 hectares ocorrido no município de Lábrea – AM, com alerta do DETER/INPE ocorrido durante a GLO

Por Karen Mota*

São Paulo, 24 de junho de 2020 – Há um mês o governo Bolsonaro enviou as Forças Armadas à Amazônia para combater os altos índices de desmatamento. A operação deflagrada a partir de um decreto de Garantia da Lei e da Ordem (GLO), subordinou Ibama e ICMBio ao Exército, tirando-lhes recursos financeiros e também a autonomia de ação. Na semana passada, o vice-presidente Hamilton Mourão, afirmou que, neste mês de maio o desmatamento teria sido o menor dos últimos anos. No entanto, imagens de satélite mostram a maior taxa de alertas de desmatamento registrada para o mês nos últimos cinco anos, comprovando que a operação tem sido ineficaz em fiscalizar e conter a destruição da floresta.

[Veja imagens]

Como é possível constatar nas imagens de satélite, entre janeiro e maio deste ano, enormes clareiras seguem rasgando a floresta em áreas de 700, 1.000 e até 1.700 hectares, em regiões do Amazonas, Pará e Mato Grosso. Esses foram os maiores desmatamentos identificados dentro do período de execução da GLO. “Essa destruição teria sido facilmente interrompida se desde o início tivessem sido usados inteligência e real interesse do governo no combate aos crimes ambientais”, afirma Rômulo Batista, porta-voz da campanha de Amazônia do Greenpeace.

Ao custo mensal de 60 milhões de reais, o equivalente a quase 80% do orçamento anual de fiscalização do IBAMA, essas operações teriam como objetivo principal combater o desmatamento nos meses que antecedem a temporada de queimadas criminosas na floresta amazônica. Porém com o início da seca chegando e o fogo batendo à porta da floresta, o quadro que vem se desenhando não é apenas catastrófico para a quantidade de árvores que vão tombar por conta dos incêndios, mas também pelo agravamento da vulnerabilidade das populações da Amazônia à COVID-19.

Com a aproximação da época mais seca na Amazônia o quadro fica ainda mais dramático quando o assunto é saúde pública. No ano passado, quando o Brasil bateu recordes de alertas de incêndio, o número de crianças internadas com problemas respiratórios dobrou nas áreas mais afetadas pelo fogo. Foram cerca de 2,5 mil internações a mais, por mês, em maio e junho de 2019, em aproximadamente 100 municípios da Amazônia Legal, segundo estudo da Fiocruz. A tragédia está em curso. Hospitais em toda região norte estão lotados. Na primeira semana de maio, já houve aumento de 38,8% de queimadas em comparação com o mesmo período de 2019.

“É difícil nutrir muita esperança de que a catástrofe ambiental que vimos no ano passado seja menor em 2020. Afinal, a contenção do colapso está nas mãos de um governo muito bom de discurso, mas que, na prática, se mostra completamente incapaz de combater a destruição do maior patrimônio de todos os brasileiros – a Amazônia”, completa Rômulo.

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*Karen Mota, imprensa.br@greenpeace.org Assessora de Imprensa Greenpeace

A carta dos fundos bilionários ao governo Bolsonaro: ou para o desmatamento na Amazônia ou caímos fora do Brasil

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Ontem informei aqui mesmo neste espaço que fundos bilionários enviaram uma carta a embaixadores brasileiros pedindo reuniões para debaterem mecanismos para impedir o avanço da franja de desmatamento na Amazônia brasileira, de forma a conter ameaças a biodiversidade ali existente e para discutir mecanismos para conter ações ilegais que estão colocando em risco os esforços globais para controlar o ritmo e os impactos das mudanças climáticas globais.

Pois bem, hoje a íntegra em inglês deste documento foi tornada pública, e desde já  ele aponta para a necessidade de mudanças de rumo no que está ocorrendo na Amazônia brasileira, pois este documento é assinado por controladores de mega fortunas no valor total aproximado de R$ 21 trilhões.

Carta aberta de instituições financeiras para deter o desmatamento no Brasil

Sua Excelência Sr. George Monteira Prata [Embaixador do Brasil]

É com profunda preocupação que seguimos a tendência do aumento do desmatamento no Brasil.

Como instituições financeiras, que têm o dever fiduciário de atuar no melhor interesse de longo prazo de nossos beneficiários, reconhecemos o papel crucial que as florestas tropicais desempenham no combate às mudanças climáticas, na proteção da biodiversidade e na garantia de serviços ecossistêmicos.

O Brasil tem um bom histórico de combate ao desmatamento, ao mesmo tempo em que oferece condições favoráveis ​​para negócios e investimentos.

No entanto, a escalada do desmatamento nos últimos anos, combinada com relatos de um desmantelamento de políticas ambientais e de direitos humanos e órgãos de fiscalização, estão criando uma incerteza generalizada sobre as condições para investir ou fornecer serviços financeiros ao Brasil.

Estamos profundamente preocupados com a Medida Provisória 910 (agora alterada para PL 2633/2020), que foi submetida a votação no congresso brasileiro e que legalizaria a ocupação privada de terras públicas no passado, principalmente concentrada na Amazônia.

Caso a medida seja aprovada, encorajará a ocupação ilegal de terras públicas e o desmatamento generalizado, que colocariam em risco a sobrevivência da Amazônia e o cumprimento das metas do Acordo de Mudança Climática de Paris e prejudicariam os direitos das comunidades indígenas e tradicionais.

Declarações recentes do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, usando a crise COVID 19 para promover a desregulamentação ambiental e as controversas propostas legislativas para legalizar a ocupação de terras e florestas públicas, abrir os territórios dos povos indígenas para a mineração e reduzir os requisitos de licenciamento ambiental são alguns dos exemplos relatados pela mídia sobre a ameaça de desregulamentação das políticas ambientais e de direitos humanos no Brasil.

Estamos preocupados com o impacto financeiro que o desmatamento e a violação dos direitos dos povos indígenas podem ter sobre nossos clientes e empresas investidas, aumentando potencialmente os riscos de reputação, operacionais e regulatórios.

Considerando o aumento das taxas de desmatamento no Brasil, estamos preocupados com o fato de as empresas expostas a desmatamento potencial em suas operações e cadeias de suprimentos no Brasil enfrentarem uma dificuldade crescente de acessar mercados internacionais.

Também é provável que os títulos soberanos brasileiros sejam considerados de alto risco se o desmatamento continuar.

Queremos continuar investindo no Brasil e ajudar a mostrar que o desenvolvimento econômico e a proteção do meio ambiente não precisam ser mutuamente exclusivos.

Portanto, exortamos o governo do Brasil a demonstrar um compromisso claro com a eliminação do desmatamento e a proteção dos direitos dos povos indígenas.

A maioria dos investidores abaixo assinados é membro da Iniciativa do Investidor para Florestas Sustentáveis, uma iniciativa dos Princípios de Investimento Responsável [PRI, apoiados pelas Nações Unidas] executada em colaboração com a Ceres, que envolve empresas que exposição ao desmatamento originário da produção de soja e gado, além de abordar outras questões ambientais, sociais e de governança.

Como instituições financeiras, vemos o desmatamento e os impactos associados à biodiversidade e às mudanças climáticas como riscos sistêmicos para nossas carteiras.

A maioria dos signatários desta carta também se uniu a uma ação corporativa contra o desmatamento devido aos incêndios devastadores na Amazônia no ano passado, representando 251 instituições financeiras com mais de US$ 17 trilhões em ativos sob gestão.

Embora exortemos as empresas a agir, consideramos igualmente importante que o ambiente regulatório incentive práticas corporativas sustentáveis.

Políticas robustas para a redução do desmatamento e a proteção dos direitos humanos são soluções essenciais para gerenciar esses riscos e contribuir para mercados financeiros eficientes e sustentáveis ​​a longo prazo.

Dada a seriedade desse assunto, gostaríamos de solicitar uma video-chamada com o senhor ou seu representante designado e entraremos em contato com a Embaixada para agendar um horário adequado.

Com garantias de nossa mais alta consideração,

  1. Storebrand Asset Management
  2. KLP
  3. Gjensidige
  4. Sparebank 1 Forsikring
  5. MP Pension
  6. Nordea Asset Management
  7. AP Pension
  8. SEB Investment Management
  9. AP2 Second Swedish National Pension Fund
  10. AP4 Fourth Swedish National Pension Fund
  11. Handelsbanken Asset Management
  12. Robeco
  13. ACTIAM
  14. NN Investment Partners
  15. A.s.r.
  16. Church Commissioners for England
  17. LGPS Central
  18. Legal and General Investment Management
  19. Brunel Pension Partnership
  20. Boarder to Coast Pension Partnership
  21. BlueBay Asset Management
  22. Surrey Pension Fund
  23. Northern LGPS
  24. The Local Authority Pension Fund Forum
  25. Comgest
  26. Indep’AM
  27. Domini Impact Investment
  28. Pax World Funds
  29. Sumitomo Mitsui Trust Asset Management
  30. Fram Capital

Compra de terras em larga escala eleva desmatamento em zonas tropicais, diz estudo

Investimento estrangeiro representa 76% dos contratos em quase duas décadas

Amazon deforestation: EU firms linked to illegal logging in Brazil ...

Aquisições de terras em larga escala — que cobrem pelo menos 200 hectares — contribuem para a destruição das florestas tropicais. É o que indica um estudo publicado pela revista Nature Geosciences, que analisou as consequências de mais de 80 mil acordos de compra e venda feitos entre 2000 e 2018 em 15 países da América do Sul, África Subsaariana e Sudeste Asiático. Cerca de 76% dessas aquisições foram feitas por investidores estrangeiros, indica o levantamento.

aquisição de terras

A distribuição de aquisições públicas de terras em larga escala no México (canto superior esquerdo), América do Sul (canto inferior esquerdo), África subsaariana (canto superior direito) e sudeste da Ásia (canto inferior direito). As atividades de aquisição incluem extração de madeira (laranja), mineração (verde), óleo de palma (roxo), novas plantações (azul), plantações estabelecidas (amarelo) e fibra de madeira (preta). Crédito: Davis et al. (2020)

A pesquisa comparou registros públicos de compra de terras com dados de satélite sobre alterações na cobertura vegetal. A mineração em larga escala em toda a Amazônia foi mais frequentemente associada à destruição de florestas nas últimas duas décadas. Nas demais regiões, óleo de palma e madeira foram os insumos mais consistentemente ligados ao aumento do desmatamento tropical. De 2000 a 2018, Brasil, Camboja, Indonésia, Libéria, Malásia e Moçambique perderam em média 10% de suas florestas.

Em comparação com zonas semelhantes que não tiveram investimento privado, áreas com aquisições de terras em larga escala tiveram aumento do desmatamento em 52% dos casos, mas essa taxa variou entre os países. Em muitas partes da África Subsaariana houve menos desmatamento em terras compradas por particulares do que em áreas públicas. Isso ocorre porque “os investimentos na África geralmente são concedidos em locais onde o desmatamento já está ocorrendo”, explica Kyle Davis, principal autor do artigo.

“Os governos do sul global freqüentemente acolhem esses investimentos como um meio de facilitar potencialmente as transferências de tecnologia e a entrada de capital, além de promover o desenvolvimento rural e a criação de empregos locais”, escrevem os autores do estudo.

Davis, que é cientista ambiental da Universidade de Delaware, Newark, e da Columbia University, Nova York, alerta os formuladores de políticas para que tomem medidas que evitem que esses investimentos levem a “grandes concessões para seus países, inclusive para florestas, comunidades e ecossistemas que dependem deles”.

Ele também alerta para o impacto climático que a compra de grande propriedades em regiões florestais pode significar. Quase um quarto de todo o carbono armazenado na terra estão nas florestas tropicais, e o desmatamento causa a liberação desse carbono na atmosfera. Atualmente, o desflorestamento tropical representa cerca de 8% de todas as emissões de CO2 promovidas pelo homem.

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A distribuição das aquisições de terras observando aumentos significativos nas taxas de perda de florestas quando comparadas às áreas de não investimento (amarelo para vermelho) e reduções significativas nas taxas de perda, quando comparadas às áreas de não investimento (azul). Crédito: Davis et al. (2020)

Mineração na Amazônia

A pesquisa também constata que na maioria dos países as terras em regiões de floresta foram mais adquiridas do que propriedades rurais ou áreas com menos vegetação, como prados. Essa descoberta sugere que atualmente as empresas são incentivadas a investir em atividades que exigem a derrubada de florestas primárias, avalia Charlotte Wheeler, pesquisadora de desmatamento tropical da Universidade de Edimburgo, que não participou do estudo.

Segundo Weeler, muitas partes da Amazônia viram aumentos na mineração de ouro nos últimos anos. Essa modalidade de mineração pode ser mais prejudicial à paisagem porque, segundo a pesquisadora, ela exige que grandes áreas de floresta sejam arrasadas para extração dos depósitos de ouro profundamente arraigados.

No México, no entanto, a mineração foi associada a reduções no desmatamento, quando comparadas às áreas sem investimento. “Isso é devido ao que está sendo minerado [em cada região]”, diz Wheeler.

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Link para o Estudo → Davis, K. F. et al. (2020) Tropical forest loss enhanced by large-scale land acquisitions, Nature Geosciences, http://www.nature.com/articles/s41561-020-0592-3

Mapas produzidos pelo estudo, podem ser acessados no informe da ONG Carbon Brief em http://www.carbonbrief.org/land-purchases-by-private-companies-accelerate-tropical-deforestation-data-shows

Investidores globais exigem reuniões com diplomatas brasileiros para discutir avanço do desmatamento na Amazônia

amazon deforestationVista aérea de um trecho desmatado da floresta amazônica por agricultores em Itaituba, Pará, Brasil, em 26 de setembro de 2019. REUTERS / Ricardo Moraes

Por Jake Spring para a agência Reuters

BRASÍLIA (Reuters) – Um grupo de 29 empresas globais de investimento que administram US $ 3,7 trilhões estão exigindo reuniões com diplomatas brasileiros em todo o mundo para pedir ao governo de direita do presidente Jair Bolsonaro que pare o avanço do desmatamento na floresta amazônica.

Os investidores, liderados pela empresa norueguesa de seguros e pensões Storebrand Asset Management, enviaram cartas às embaixadas brasileiras em sete países, convocando reuniões e expressando preocupação de que o Brasil esteja revertendo as proteções ambientais, de acordo com um comunicado que incluía uma cópia da carta.

“A escalada do desmatamento nos últimos anos, combinada com relatos de um desmantelamento de políticas ambientais e de direitos humanos e órgãos de fiscalização, estão criando uma incerteza generalizada sobre as condições para investir ou fornecer serviços financeiros ao Brasil”, diz a carta.

Defensores ambientais culpam Bolsonaro por enfraquecer as proteções e causar um aumento no desmatamento e incêndios florestais desde que assumiu o cargo em 2019.

Bolsonaro argumentou que o Brasil é um modelo de conservação, ao exigir mais mineração e agricultura na região amazônica.

O Ministério das Relações Exteriores do Brasil não respondeu a um pedido de comentário.

O CEO da Storebrand Asset Management, Jan Erik Saugestad, disse em entrevista que, embora as iniciativas anteriores se concentrassem em pressionar as empresas brasileiras, esse novo esforço é direcionado diretamente ao governo.

As 25 firmas européias que aderiram incluem a Nordea Asset Management da Noruega e a Igreja da Inglaterra, que possui um fundo de pensão de 2,8 bilhões de libras (US $ 3,5 bilhões). A Legal & General Investment Management (LGIM) do Reino Unido está entre os maiores investidores com 1,2 trilhão de libras sob gestão.

As empresas norte-americanas Domini Impact Investment e Pax World Funds também assinaram a carta, enquanto a Fram Capital, com sede em São Paulo, é o único signatário brasileiro.

Embora a Europa tenha sido tradicionalmente a crítica mais importante do desmatamento da Amazônia, a Sumitomo Mitsui Trust Asset Management do Japão assinou a carta, e o diretor sênior de sustentabilidade Seiji Kawazoe disse que espera que mais empresas japonesas enfrentem problemas com o desmatamento no futuro.

A carta não indica conseqüências se o governo do Brasil não agir, mas sete empresas financeiras europeias disseram à Reuters na semana passada que poderiam se desfazer de participações ligadas ao Brasil se a destruição ambiental continuar. Muitas dessas empresas também assinaram a carta para embaixadas.

Reportagem de Jake Spring; edição por Richard Pullin

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Este artigo foi escrito originalmente em inglês e publicado pela Reuters [Aqui!].

Carta do governo brasileiro a europeus contém falácias e erros

Dados falsos e exageros vão de paternidade do Conselho da Amazônia a área de pastagens, passando por metas do clima

PARLAMENTOParlamento Europeu em Estrasburgo

Documento é tentativa de tranquilizar UE sobre ambiente e indígenas enquanto acordo com Mercosul entra em ratificação

Na segunda semana de junho, parlamentares europeus receberam do governo brasileiro uma carta contendo uma série de informações sobre a política ambiental do país. O movimento foi uma tentativa de tranquilizar os interlocutores na UE sobre preservação ambiental e direitos indígenas num momento em que o acordo comercial entre Mercosul e União Europeia entra na fase de ratificação pelos países do bloco – e há pressões na sociedade europeia pela sua rejeição.

O governo brasileiro considera que há “falhas de comunicação” no tocante à política ambiental e diz que a Europa é vítima de desinformação perpetrada por ONGs. Em mais de uma ocasião vários representantes do primeiro escalão da administração Bolsonaro culparam a sociedade civil por uma suposta campanha difamatória, movida por interesses inconfessáveis.

A carta enviada aos eurodeputados é uma tentativa do governo de expor sua versão. No entanto, ela contém uma série de informações falsas, dados distorcidos, seleção de observações (cherry-picking) e omissões, que vão da atribuição da paternidade do Conselho da Amazônia ao presidente Jair Bolsonaro (o conselho foi criado por Itamar Franco) até a alegação extraordinária de que o Brasil estava a ponto de cumprir sua meta no Acordo de Paris no ano em que ela foi adotada.

A equipe de Fakebook.eco verificou alguns dos principais pontos do documento. O trecho original, em inglês, será reproduzido antes, acompanhado de sua tradução. Leia abaixo.

Procurado para comentar o documento, o Itamaraty não havia se pronunciado até o fechamento deste post.


The creation of the National Council of the Legal Amazon was announced by president Jair Bolsonaro on January 21st, 2020, with the objective that it coordinate the various actions, in each ministry.
A criação do Conselho Nacional da Amazônia Legal foi anunciada pelo presidente Jair Bolsonaro em 21 de janeiro de 2020, com o objetivo de coordenar as várias ações em cada ministério.

FALSO

O Conselho da Amazônia foi criado no governo Itamar Franco, pelo Decreto nº 964/1993, como órgão de assessoramento da Presidência da República. Depois, foi movido para o Ministério do Meio Ambiente (MMA), em 1995, no governo Fernando Henrique Cardoso, pelo Decreto nº 1.541/1995. O que Jair Bolsonaro fez foi transferi-lo do MMA para a Vice-Presidência, por meio do Decreto nº 10.231/2020.

Em 2013, o governo Dilma Rousseff já havia criado, pelo Decreto nº 7.957/2013, o Gabinete Permanente de Gestão Integrada para a Proteção do Meio Ambiente, regulamentando a atuação das Forças Armadas na proteção ambiental. Esse colegiado era composto por Ministério do Meio Ambiente, que o coordenava; Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República; Ministério da Defesa; Ministério da Justiça; Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam); Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe); Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama); Agência Brasileira de Inteligência (Abin); e Força Nacional de Segurança Pública, entre outras instituições convidadas.

Na ocasião, foi realizada a Operação Hileia Pátria para combater o desmatamento na Amazônia, com participação do Exército e de outras instituições, semelhante à Operação Verde Brasil, anunciada pelo governo Bolsonaro após a crise das queimadas de agosto do ano passado e retomada a partir de 11 de maio. No fim de 2019, o Gabinete Permanente de Gestão Integrada para a Proteção do Meio Ambiente foi esvaziado pelo Decreto nº 10.179/2019.

The president also determined the creation of a National Environmental Force, composed of personnel from various States…
O presidente também determinou a criação de uma Força Nacional Ambiental, composta de pessoal de vários Estados…

EXAGERADO

Embora o anúncio tenha sido feito, até junho de 2020 nenhum ato formal de criação da guarda, designação de pessoal ou de orçamento havia sido publicado. Isso porque a Força Nacional de Segurança Pública foi criada em 2004 pelo Decreto nº 5.289/2004. Esse órgão de segurança pública já atuava em apoio aos órgãos ambientais e, em 2013, o governo criou uma unidade especializada em meio ambiente, a Companhia de Operações Ambientais da Força Nacional de Segurança Pública, por meio do Decreto nº 7.957/2013. Para estruturar a nova unidade foi aprovado um projeto no Fundo Amazônia de mais de R$ 30 milhões, com participação do Ibama na capacitação de policiais. Depois, o Ibama assinou um acordo com a Secretaria Nacional de Segurança Pública e repassou recursos de seu orçamento à Força Nacional para receber apoio no combate ao desmatamento na Amazônia.

There has been a significant reduction in annual deforestation rates in the Amazon region: from 27,772 km2 in 2004 to 10,129 km2 in 2019 (a 63,5% reduction)…
Houve uma redução significativa nas taxas anuais de desmatamento na região amazônica: de 27.772 km2 em 2004 para 10.129 km2 em 2019 (uma redução de 63,5%)…

FALACIOSO

Embora tenha havido uma queda significativa do desmatamento a partir de 2005, essa redução se interrompeu em 2012. Desde então, a tendência é de alta, exacerbada no governo Bolsonaro. A taxa de desmatamento em 2019 foi a mais alta desde 2008 e teve a maior elevação percentual neste século. De 2012 a 2019 houve aumento de 122% do desmatamento na Amazônia. Os dados de alertas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais para 2020 indicam que o desmatamento deverá ser ainda maior neste ano do que em 2019.
                       
Amongst the ten largest countries in the world, Brazil is the most environmentally friendly in terms of protected areas (24.2% of total land surface). The average of the total protected areas in this group of countries (excluding Brazil) is only 10.9%. Furthermore, protected areas in large countries correspond, to a great extent, to unpopulated deserts or to polar or mountainous regions, unsuitable for agricultural use or even for human habitation. In Brazil, almost without exception, protected areas are inhabitable and rich in biodiversity.
Entre os dez maiores países do mundo, o Brasil é o mais ambientalmente correto em termos de áreas protegidas (24,2% da superfície total). A média das áreas protegidas nesse grupo de países é de apenas 10,9%. Além disso, áreas protegidas em países grandes correspondem, em grande medida, a desertos ou regiões montanhosas ou polares, imprestáveis para a agricultura ou inabitáveis. No Brasil, quase sem exceção, as áreas protegidas são habitáveis e ricas em biodiversidade. 

VERDADE, MAS

O Brasil é o país com maior biodiversidade terrestre do mundo e assumiu o compromisso de proteger por meio de Unidades de Conservação pelo menos 17% das áreas terrestres e de águas continentais e 10% de áreas marinhas e costeiras, principalmente aquelas de especial importância para a biodiversidade e serviços ecossistêmicos. Esse compromisso integra as Metas de Aichi, firmadas junto à Convenção da Diversidade Biológica (CBD), da Organização das Nações Unidas. Dizer que outros países protegem porque têm deserto é falacioso, já que países menores que o Brasil, como a Alemanha, abrem mão de “áreas habitáveis” para conservar a biodiversidade.           

Brazil is the only country in the world with conservation requirements whereby farmers are responsible for the conservation of a great deal of the territory, without receiving any financial compensation in exchange.
O Brasil é o único país do mundo que tem exigências legais de conservação pelas quais os fazendeiros são os responsáveis pela conservação de grande parte do território sem receber nenhuma compensação financeira.

FALSO

Um estudo de 2011 do Imazon e Proforest mostra que pelo menos outros 11 países têm requisitos legais rigorosos para que os agricultores mantenham florestas dentro de suas propriedades. Esse requisito é conhecido no Brasil como “reserva legal”. Outros países, como a África do Sul, exigem que matas ciliares sejam preservadas às custas do proprietário para proteger as bacias hidrográficas. O novo Código Florestal estabelece um esquema para o comércio de cotas florestais entre agricultores com déficits florestais e agricultores com excedentes florestais, conhecido com Cota de Reserva Ambiental. O código também prevê que agricultores possam receber incentivos econômicos e financeiros por conservar ou recuperar a vegetação nativa. A lei nunca foi aplicada por uma série de razões, incluindo a pressão da bancada ruralista para alterá-la ainda mais, a fim de eliminar completamente a reserva legal. Uma proposta de lei para acabar com a reserva legal foi apresentada pelo filho senador de Jair Bolsonaro, Flávio Bolsonaro. Em 2018, o MMA elaborou projeto para pagar a agricultores, povos indígenas e comunidades tradicionais por conservar e recuperar a floresta amazônica. O Floresta+ captou US$ 96,5 milhões do Fundo Verde do Clima, e só neste ano a documentação foi assinada para sua implementação, por resistência do governo Bolsonaro.
                       
In the Amazon, the main challenge is combatting illegal practices. 70% of deforestation takes place outside rural estates, that is, in public and vacant areas. And not because of farming, but rather through illegal activities, such as land-grabbing or wood theft, among others.
Na Amazônia, o principal desafio é combater práticas ilegais. 70% do desmatamento ocorre fora de propriedades rurais, ou seja, em áreas públicas e devolutas. E não por causa da agropecuária, mas por conta de atividades ilegais, como a grilagem e o roubo de madeira, entre outras.

FALSO

A maior parte do desmatamento ocorre em áreas privadas, como demonstrado em análises realizadas pelo próprio Ministério do Meio Ambiente para elaboração do Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (4ª Fase). Embora o valor possa variar de um ano para outro, mais de 30% do desmatamento ocorre em áreas privadas e pouco menos de 30% ocorre em assentamentos, que também são áreas privadas. Portanto, chega-se a mais da metade, cerca de 60%, nessas áreas.

The Brazilian government is interested in reactivating cooperation through the Amazon Fund, and other forms of financing are also being sought.
O governo brasileiro está interessado em reativar a cooperação por meio do Fundo Amazônia, e outras formas de financiamento também estão sendo buscadas.

DUVIDOSO

O governo brasileiro está sendo processado no STF por ter deixado o Fundo Amazônia parado por mais de um ano sem nenhuma justificativa técnica.
                       
The country has been intensively controlling and restricting irregular activities involving loggers, land grabbers and gold miners, in order to reduce the rate of deforestation and encroachment on indigenous lands.
O país tem controlado e restringido intensamente atividades irregulares envolvendo madeireiros, grileiros e garimpeiros, de forma a reduzir a taxa de desmatamento e as ocupações de terras indígenas.

FALSO

O desmatamento em Terras Indígenas aumentou 90% em 2019 na comparação com o ano anterior, segundo dados oficiais do sistema Prodes, do Inpe. As invasões de terras indígenas no primeiro ano do governo de Jair Bolsonaro também tiveram um salto: foram 160 apenas de janeiro a setembro de 2019, contra 109 em todo o ano de 2018, segundo o Conselho Indigenista Missionário. O presidente apresentou um projeto de lei para liberar o plantio de soja transgênica, o garimpo e outras atividades de exploração econômica nessas áreas. Já afirmou repetidas vezes que há “muita terra para pouco índio” e que não vai demarcar “um centímetro” de terras indígenas em seu governo. Em abril, a cúpula da fiscalização do Ibama foi exonerada após uma reportagem ter mostrado os resultados de operação contra a invasão de terras indígenas no Pará, entre elas a Ituna-Itatá, a mais desmatada em 2019. Após a exoneração dos servidores, as ações de combate ao desmatamento na Amazônia ficaram subordinadas ao Ministério da Defesa.
   
Brazil’s Nationally Determined Contribution (NDC) provides for a 37% reduction in greenhouse gas emissions by 2025, and a subsequent 43% reduction in 2030 based on 2005. In 2015, Brazil achieved a 35% reduction in emissions compared to 2005.
A Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC) do Brasil determina uma redução das emissões de gases de efeito estufa de 37% em 2025 e uma redução subsequente de 43% em 2030 em relação a 2005. Em 2015, o Brasil atingiu uma redução de 35% nas emissões em comparação a 2005.

FALACIOSO

Por razões óbvias, o nível de emissões no ano da adoção da meta não deve ser contado como atingimento de parte alguma da meta – afinal, por definição as políticas e medidas visando ao cumprimento da meta não estavam implementadas no ano de sua adoção. O Brasil até hoje não apenas não apresentou nenhum plano de implementação de sua NDC, que deveria começar a ser implementada em 2020, como tem números de emissão no sentido oposto: em 2018 foram emitidas 1,932 bilhão de toneladas brutas de CO2 equivalente, número que poderá crescer de 10% a 20% em 2020, quando a NDC preconiza chegar a 2025 com 1,3 bilhão de toneladas.
           
Regarding Nationally Appropriate Mitigation Actions (NAMAs) within the UNFCCC, Brazil has been making a concrete contribution to mitigating climate change in the pre-2020 period. The national voluntary commitment is to reduce its projected emissions by 36.1% to 38.9% by 2020. In 2015, Brazil achieved a 58% reduction in emissions compared to the 2020 projection.
No que diz respeito às Ações de Mitigação Nacionalmente Apropriadas (Namas), depositadas junto à UNFCCC, o Brasil tem dado uma contribuição concreta à mitigação da mudança do clima no período pré-2020. O compromisso nacional voluntário é reduzir suas emissões projetadas entre 31,1% e 38,9% até 2020. Em 2015 o Brasil havia atingido uma redução de 58% nas emissões comparada à projeção para 2020.

FALSO

Desde a adoção das metas em 2009, convertidas naquele mesmo ano em Política Nacional de Mudança do Clima e registradas no começo de 2010 como Namas, as emissões brutas do Brasil não caíram. Elas têm flutuado em torno de 1,7 bilhão a 1,8 bilhão de toneladas, considerando a mesma métrica usada nas Namas (GWP AR2), que é diferente da métrica usada na NDC (GWP AR5). Portanto, não é possível afirmar que o país está dando “contribuição concreta” de mitigação. Ao contrário: a principal meta das Namas, a redução de 80% na taxa de desmatamento da Amazônia em 2020 em relação à média verificada entre 1995 e 2005, já não foi cumprida: o desmatamento precisaria ser de no máximo 3.925 km2 no fim deste ano. Somente os alertas de desmatamento, que são uma subestimativa, apontam 6.564 km2, dois meses antes do fim do período de cômputo.

O dado de 58% de redução em 2015 em relação ao projetado para 2020 (3,2 bilhões de toneladas), extraído possivelmente de um dos Biennial Update Reports do Brasil junto à UNFCCC, contém dois erros conceituais: primeiro, assumir uma “antecipação” de cinco anos no cumprimento de uma meta que é para 2020. Segundo, fiar-se em emissões líquidas (que dariam 1,3 bilhão de toneladas, em vez do 1,6 bilhão em emissões brutas estimado para 2015 pelo governo). Quando as Namas foram adotadas, o Brasil ainda não estimava o carbono supostamente removido por áreas protegidas, que perfaz a maior parte da diferença entre emissões brutas e líquidas. Para efeito de verificação de cumprimento, portanto, seria preciso não descontar essas remoções.
                      
Brazil’s NDC is more ambitious than those of several developed G20 member countries. According to UNEP’ Emissions Gap Report 2018, only three G20 countries are on track to comply with their respective NDCs: Brazil, Japan and China.
A NDC do Brasil é mais ambiciosa do que a de vários países desenvolvidos do G20. De acordo com o Emissions Gap Report 2018, do Pnuma, apenas três países do G20 estão no rumo de cumprir suas respectivas NDCs: Brasil, Japão e China.

TENDENCIOSO

O governo optou, em 2020, por usar dados de um relatório antigo, de 2018, que reflete políticas passadas. O Emissions Gap Report 2019, lançado em novembro do ano passado, mostra uma situação distinta do país, afirmando que “sete membros do G20 precisam de mais ações, em graus variados, para cumprir suas NDCs: Austrália, Brasil, Canadá, Japão, Coreia, África do Sul e Estados Unidos”.                        

The expansion of Brazilian agricultural production was due not to increased land use or to deforestation, but to greater productivity in the countryside, which, according to a productivity study carried out by the Ministry of Agriculture, Livestock and Supply, averaged 3.36% per year in the period from 1975 to 2018. In the same period, grain production increased fivefold, while the area occupied by plantations remained practically stable. In the most recent period, from 1999 to 2018, productivity growth reached 3.5% per year.
A expansão da produção agrícola brasileira se deveu não ao aumento do uso da terra ou ao desmatamento, mas sim à maior produtividade no campo, que, de acordo com um estudo feito pelo Ministério da Agricultura, teve uma média (sic) de 3,36% por ano entre 1975 e 2018. No mesmo período, a produção de grãos cresceu cinco vezes, enquanto a área plantada permaneceu praticamente estável. No período mais recente, de 1999 a 2018, a produtividade cresceu 3,5% ao ano.                     

FALACIOSO

Essa alegação deve ser dividida em vários pontos. Primeiro, é verdade que a produtividade superou o desmatamento na produção brasileira de grãos (a palavra-chave é “grão”). De acordo com a Embrapa, a produção de grãos cresceu seis vezes, de 38 milhões de toneladas em 1975 para 236 milhões de toneladas em 2017, enquanto a área de cultivo “apenas” dobrou –de 37 milhões para 61 milhões de hectares (o que definitivamente não significa “praticamente estável”).

Segundo: a produção de grãos não é a principal forma de uso da terra no Brasil. De cerca de 30% do território ocupado pela agropecuária, dois terços são pastagens. A produção de carne bovina ocupava em 2018 183 milhões de hectares, ou cerca de 20% do território brasileiro, segundo o MapBiomas. A pecuária ainda é uma indústria altamente ineficiente: na Amazônia, 63% de toda a área desmatada está ocupada com pastagens que, na média, suportam uma cabeça de gado por hectare ou menos, segundo a Embrapa e o Inpe.

Terceiro: dizer que a expansão da produção “não ocorreu como resultado do desmatamento” é claramente falso. Segundo o MapBiomas, desde 1985 os biomas brasileiros perderam 89 milhões de hectares de cobertura nativa, enquanto a agricultura, incluindo a pecuária, ganhou 86 milhões de hectares. A Amazônia encolheu 19%, enquanto o Cerrado, onde está a maior parte da agricultura, teve 55% de sua área transformada em terras agrícolas nos últimos 50 anos.

Soybean production in Brazil is not directly correlated to the outbreaks of fire and illegal deforestation in the Amazon.
A produção de soja no Brasil não está diretamente correlacionada com queimadas e desmatamento ilegal na Amazônia.

NÃO É BEM ASSIM

Embora o grosso do desmatamento esteja relacionado à pecuária, um estudo do ICV, do Imaflora, do SEI e da Trase mostrou que 95% do desmatamento em fazendas de soja em Mato Grosso, principal produtor do país, é ilegal. Isso está em linha com os dados do MapBiomas Alerta, que mostraram que 99% dos alertas de desmatamento em 2019 ocorreram em locais sem autorização.
                           
Regarding beef production in Brazil, over the past two decades, there have been gains in productivity with an overall reduction of pastures areas. According to data produced by IBGE and INPE, from 1990 to 2018, livestock production in Brazil increased by 139%, while the total area used for pasture decreased by 15%.
No tocante à produção de carne no Brasil, nas duas últimas décadas houve ganhos de produtividade com uma redução geral de áreas de pastagem. De acordo com dados fornecidos pelo IBGE e pelo Inpe, de 1990 a 2018 a produção de gado no Brasil cresceu 139%, enquanto a área de pastagens caiu 15%.

FALSO

Os dados de pastagem usados na comunicação do governo são originados de uma consultoria agropecuária, a Athena Agro, e baseiam-se no Censo Agropecuário do IBGE, que por sua vez é baseado em autodeclarações e cobre apenas 41% do território nacional. Os dados de mapeamento via satélite do projeto MapBiomas, que cobre 100% do Brasil, tem metodologia aberta e é validado por um comitê científico independente, mostram que a área de pastagens cresceu 24% nesse período, de 147 milhões de hectares para 183 milhões de hectares. O aumento da área de pastagens do Brasil também se verifica quando se consulta os dados do IBGE de mapeamento da cobertura e uso da terra de todo o país lançados em 2020 – um aumento de 12% a 27% apenas entre 2000 e 2018. A produtividade da pecuária (ou seja, a quantidade de carne produzida por hectare) cresceu desde 1990, mas em cerca de 92%, e não 180%, como implicado no documento do governo.

Land tenure regularization is a process that aims to solve a historical problem in Brazil of formalizing the occupation of the national territory. Among other benefits, it is important to facilitate the identification and accountability of those who commit crimes against the environment, thus enabling the State to act in command and control.
A regularização fundiária é um processo que visa a resolver um problema histórico do Brasil, o de formalizar a ocupação do território nacional. Entre outros benefícios, é importante para facilitar a identificação e a responsabilização daqueles que cometem crimes contra o ambiente, permitindo ao Estado agir no comando e controle.

FALACIOSO

Segundo dados do MapBiomas Alerta, dois terços do desmatamento em 2019 ocorreram em áreas que cruzavam pelo menos um Cadastro Ambiental Rural (CAR). Ou seja, não é por falta de identificação do responsável que o desmatamento acontece. O outro lado da moeda também é verdadeiro: entre 2005 e 2012 o Brasil reduziu o desmatamento em 83%, mesmo sem mexer na lei fundiária antes de 2009 e regularizando muito lentamente as posses desde então.

fecho

Esta postagem foi originalmente publicada pelo Fakebook.eco [Aqui!].

Desmatamento aumenta por 14 meses seguidos na Amazônia brasileira

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  • O desmatamento na maior floresta tropical da Terra aumentou pelo décimo quarto mês consecutivo, de acordo com dados divulgados hoje pelo governo brasileiro.
  • Atualmente, o desmatamento na Amazônia brasileira está 83% à frente de um ano atrás.
  • O alto nível de desmatamento nos primeiros meses de 2020 significa que o ano está se preparando para uma estação de incêndio ruim.
  • O aumento do desmatamento incomoda os cientistas que temem que a combinação da perda de florestas e os efeitos das mudanças climáticas possam levar a floresta amazônica a se inclinar para um ecossistema mais seco.

Por Rhett A. Butler para a Mongabay

O desmatamento na maior floresta tropical da Terra aumentou pelo décimo quarto mês consecutivo, de acordo com dados divulgados hoje pelo governo brasileiro. Atualmente, o desmatamento na Amazônia brasileira está 83% à frente de um ano atrás.

mong 22Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais  (Inpe) mostram que 830 km de floresta tropical foram desmatados na “Amazônia Legal” durante o mês de maio, elevando o desmatamento total desde 1 de agosto para 6.437 quilômetros quadrados, uma área maior que Delaware ou Palestina. O Brasil acompanha o desmatamento com base no ano que vai de 1º de agosto a 31 de julho.

mong 3Desde 1º de janeiro, o desmatamento na região atingiu 2.033 km2, em comparação com 1.454 kmnos primeiros cinco meses de 2019, um aumento de 40%.

A análise independente da Imazon, uma ONG brasileira, acompanha aproximadamente o que está sendo relatado oficialmente pelo governo.

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Os novos dados foram divulgados dois dias depois que o INPE revisou sua estimativa oficial de 2019 para o desmatamento da Amazônia para cima para 10.129 km2 , marcando a primeira vez que o desmatamento na região ultrapassou 10.000 km² desde 2008. O desmatamento também está subindo em outros países da Amazônia , de acordo com dados da Universidade de Maryland (UMD) e do World Resources Institute (WRI).

mong 5O aumento do desmatamento perturba os cientistas que temem que a combinação de perda de floresta e os efeitos das mudanças climáticas possam levar a floresta amazônica a se inclinar para um ecossistema mais seco, mais propenso ao fogo, que gera menos chuvas locais e regionais, retira menos carbono da floresta. atmosfera e é menos hospitaleiro para espécies adaptadas às densas e úmidas florestas da planície amazônica. Os impactos nas economias locais e regionais que dependem da precipitação da Amazônia podem ser devastadores, privando áreas agrícolas, represas hidrelétricas e cidades da América do Sul da água. Já existem sinais de tendências de secagem sustentadas na Amazônia, anunciando o que pode estar por vir.

A curto prazo, o alto nível de desmatamento nos primeiros meses de 2020 significa que o ano está se preparando para uma estação de incêndio ruim. Normalmente, as árvores são cortadas após a estação das chuvas desaparecer em abril ou maio. A queima normalmente atinge o pico máximo durante a estação seca de julho a outubro, mas este ano já está em andamento: no início desta semana, os pesquisadores do Projeto Monitoramento da Amazônia Andina (MAAP) relataram o primeiro grande incêndio na Amazônia em 2020 . Os dados sugerem que 2020 poderia ser um ano particularmente terrível para a Amazônia.

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Este texto foi originalmente publicado em inglês pela Mongabay News and Inspiration from Nature´s Frontline [Aqui!].

Europa aperta o cerco contra produtos brasileiros

Grupos varejistas, ativistas e até a UE vêm defendendo a retirada de itens do Brasil das prateleiras em resposta à política ambiental do governo Bolsonaro. Há 14 anos, boicote semelhante desencadeou a moratória da soja.

desmata 1Área devastada na Amazônia: grupos que pedem boicotes tem que aprovação do “PL da grilagem” acelere desmatamento

Diante de medidas recentes do governo do presidente Jair Bolsonaro, organizações não governamentais e redes varejistas europeias vêm endurecendo o discurso a favor do boicote a produtos agroalimentares brasileiros. De um mês para cá, movimentos do tipo têm ocorrido na Alemanha e no Reino Unido. No ano passado, houve boicote também na Suécia. Fora da Europa, uma organização nos Estados Unidos pede medidas semelhantes.

Nesta sexta-feira (19/06), a Comissão Europeia, órgão executivo da União Europeia (UE), anunciou querer uma estratégia mais incisiva para evitar que produtos oriundos de áreas de desmatamento na Amazônia cheguem a prateleiras dos supermercados de países do bloco.

Veja o Especial da DW Brasil sobre a Amazônia

A situação preocupa o governo brasileiro. Em junho do ano passado, no contexto da comoção internacional decorrente das queimadas na Amazônia, o Itamaraty enviou circular às embaixadas solicitando informações a respeito de eventuais boicotes sendo observados em outros países.

Pouco antes, em 27 de maio de 2019, a Embaixada do Brasil em Estocolmo, na Suécia, havia reportado ao governo Bolsonaro que a rede de supermercados Paradiset tinha decidido retirar os produtos de origem brasileira de suas prateleiras em decorrência da aprovação, nos cinco primeiros meses da gestão Jair Bolsonaro, de 169 novos pesticidas pelo Ministério da Agricultura – um recorde desde 2005.

Neste ano, entre 20 e 25 de maio, o tema voltou à tona nos telegramas de embaixadas brasileiras. Mensagens emitidas pelos postos de Roma, na Itália, e Londres, na Inglaterra, observaram o surgimento de novos movimentos de boicote a produtos nacionais. Uma dessas cartas afirmava que o veto a produtos brasileiros por redes britânicas de supermercados – e filiais de empresas alemãs no Reino Unido – estava condicionado à aprovação do Projeto de Lei 2633 (antiga Medida Provisória 910), o chamado “PL da grilagem”, que prevê regularização fundiária de terras ocupadas da União.

Outro telegrama citava um estudo realizado pelo Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), que prevê que a medida, se aprovada, aceleraria o desmatamento de 11 mil a 16 mil quilômetros quadrados da Floresta Amazônica. A mesma carta informava que as redes inglesas de supermercados podem se sentir compelidas a aderir a um boicote, se o Brasil aprovar uma legislação que propicie o aumento do desmatamento.

Os documentos enviados ao Itamaraty citavam uma carta, publicada em 19 de maio e assinada por 47 empresas, grupos e associações empresariais com operações do Reino Unido – entre os signatários, companhias como Burger King e Tesco. Direcionada aos deputados e senadores brasileiros, o texto citava os incêndios florestais recordes do ano passado e informava estarem os empresários “profundamente preocupados” com o “PL da grilagem”.

A carta encerrava com uma ameaça velada de boicote. “Queremos continuar a buscar e investir no Brasil […] Instamos o governo brasileiro a reconsiderar sua posição e esperamos continuar trabalhando com parceiros no Brasil para demonstrar que o desenvolvimento econômico e a proteção ambiental podem caminhar juntos.” Conforme telegrama enviado ao Itamaraty, os signatários da carta representam 96,8% dos varejistas britânicos.

Em 9 de junho, o cenário ganhou novo episódio. A ONG alemã Campact lançou uma petição online pedindo que redes de supermercados boicotem produtos brasileiros se o “PL da grilagem” for aprovado. Conforme afirmou à DW Brasil a ativista Svenja Koch, da organização, até a manhã desta sexta-feira, 360 mil assinaturas foram coletadas para a petição.

“Duas redes de supermercados alemãs já assinaram: Aldi Süd e Rewe”, relata. “Pedimos que as diretorias das grandes redes de supermercados alemãs sigam o exemplo de muitos varejistas do Reino Unido e assinem uma carta aberta ameaçando boicotar produtos do Brasil se o PL for em frente.”

Ela vislumbra que as cinco grandes redes de supermercados da Alemanha participem, o que significaria 70% do mercado. “Eles são poderosos, e a decisão deles influencia o comércio internacional”, comenta.

Rejeição por parte de consumidores

Mikael Linder, especialista em marketing agroalimentar e desenvolvimento rural e pesquisador da Universidade Livre de Bolzano, na Itália, afirma que tem se deparado com uma rejeição, tanto entre consumidores italianos como franceses, a produtos de origem brasileira.

“São pessoas que afirmam não desejar comprar, por exemplo, carne bovina brasileira, justificando que com isso estariam fomentando a destruição da Amazônia e outros prejuízos ao meio ambiente”, afirma ele, à DW Brasil.

Segundo informações obtidas por ele, vários supermercados europeus, atentos a esse fenômeno, estão reduzindo o espaço nas gôndolas para mercadorias brasileiras. “A médio prazo, isso pode afetar muito as vendas. A imagem do produto brasileiro está prejudicada”, diz o pesquisador.

Após questionamento da DW Brasil sobre o impacto que tais movimentos podem representar para o comércio agroalimentar brasileiro, João Adrien, assessor para assuntos socioambientais do Ministério da Agricultura, afirmou que boicotes do tipo “somente prejudicam os produtores rurais que produzem com sustentabilidade e acessam o mercado internacional.”

“Afinal de contas, o desmatamento na região ocorre principalmente de atividades ilegais e não pela agricultura brasileira”, afirma, apontando que a deflorestação decorre de “problemas de regularização fundiária e ordenamento territorial”. “Tais embargos somente prejudicam a renda do produtor rural e a capacidade de investir em tecnologias ainda mais sustentáveis”, diz.

Em evento do Ministério ocorrido nesta quarta-feira, Bolsonaro afirmou que, apesar do aumento do desmatamento na Amazônia, o país é um sucesso em termos de preservação. “Nós somos um exemplo na questão ambiental. Nos criticam lá fora de forma cruel e de forma não verdadeira”, afirmou.

Para o pesquisador Tiago Reis, que estuda ações de combate ao desmatamento e de uso do solo na Universidade Católica de Louvain, na Bélgica, os movimentos contra produtos brasileiros refletem a consciência do consumidor e vêm na esteira de outros ocorridos anteriormente.

“Veja por exemplo os movimentos de boicote a empresas que testavam produtos em animais, os boicotes a marcas famosas de chocolate por estarem ligadas à destruição de habitats de orangotangos para produção de óleo de palma, empresas de café que usavam trabalho escravo, entre outros”, enumera ele, à DW Brasil.

No ano passado, Reis foi um dos idealizadores de uma carta aberta publicada na revista Science propondo que a importação pela União Europeia de produtos possivelmente ligados a desmatamento no Brasil fosse usada como alavanca para negociar medidas “de proteção aos direitos humanos, participação de povos indígenas nas negociações e a implementação de instrumentos de verificação do desmatamento”.

Em tramitação na Câmara dos Deputados, o “PL da grilagem” é alvo de criticas porque pode permitir a regularização de áreas ocupadas ilegalmente pertencentes à União. No mês passado, a revista Nature Sustainability publicou um estudo – um dos autores é Tiago Reis – demonstrando que a regularização fundiária descolada de medidas e políticas socioambientais pode promover um aumento do desmatamento. “Em pequenas e médias invasões, porque permite a integração delas a mercados formais”, explica Reis. “Em grandes invasões, porque oferece um incentivo e uma recompensa à grilagem.”

Moratória da soja

Um exemplo histórico de movimento de boicote que funcionou foi o ocorrido na década de 2000 – e que acabou resultando na criação da chamada moratória da soja, pacto instituído em 2006. Pelo acordo, firmado entre governos, agroindústria e organização de defesa ambiental, ninguém compraria soja produzida em região de desmatamento da Amazônia. Dados divulgados pelo Ministério do Meio Ambiente em 2018 mostram que deu resultados: a média anual de desmatamento nos 89 municípios que integram o grupo caiu 85% depois de firmado compromisso.

“A moratória da soja previne que a floresta amazônica seja desmatada diretamente para soja. Não resolve todo o problema porque a floresta continua sendo desmatada para outros usos, e também porque nem todas as empresas de soja são signatárias do acordo, portanto, há ainda mercado para soja com desmatamento e formas indiretas de contornar a verificação”, avalia Reis. “Mas com certeza a moratória oferece um exemplo e um sinal que desestimulou muito o desmatamento para soja.”

Para atrair a pressão popular, o Greenpeace liderou um movimento, entre 2004 e 2006, para que os consumidores boicotassem a rede de fast food McDonald’s. “Eles diziam, basicamente, que ‘se você come no McDonald’s, você come a Amazônia'”, lembra Reis. “Foi um sucesso, e a empresa cobrou ação imediata de seus fornecedores, que responderam.”

Além da Europa, também há movimentos populares nos Estados Unidos. Criado em 2018, o Boycott Brazil afirma que “está focado em todos os produtos brasileiros não certificados como sustentáveis”, principalmente “a carne bovina, pois as pastagens são responsáveis por dois terços do desmatamento atual”.

Conforme relatou uma das ativistas do movimento à DW Brasil, as críticas são as políticas dos governos de Bolsonaro e de Donald Trump. Presente nas redes sociais, o grupo pretende lançar um site até o fim do ano para intensificar suas ações.

“Estamos educando os consumidores sobre quais produtos comprar, em vez de tentar um boicote a certos varejistas, o que provavelmente não seria bem-sucedido”, explica ela, que pede para não ser identificada por temer retaliações.

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Este artigo foi originalmente publicado pela Deutsche Welle [Aqui!].

Por que a ciência e as universidades públicas incomodam tanto o governo Bolsonaro? Fatos e previsões

No dia 11 de dezembro de 2018, 19 dias antes da posse do presidente Jair Bolsonaro, dei uma palestra em Helsinki (Finlândia) a convite do meu colega Markus Kroger, professor da Faculdade de Ciências da Universidade de Helsinki sob o título “The Brazilian Amazon and the prospects o explosive deforestation after the 2018 presidential elections” (ou em português “A Amazônia brasileira e as perspectivas de desmatamento explosivo após as eleições presidenciais de 2018”  (ver imagem abaixo).

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Naquele dia coloquei para a plateia presente, as minhas projeções do que deveria acontecer na Amazônia brasileira em termos de avanço do desmatamento, degradação via extração ilegal de madeira e garimpos clandestinos, bem como sobre os inevitáveis riscos que estariam colocados sobre as populações tradicionais, principalmente os povos indígenas. Obviamente as projeções deixaram a plateia formada por professores, estudantes e intelectuais de fora da universidade um tanto chocados com o que eu apresentei.

Passados 18 meses daquela palestra na fria capital finlandesa, estamos diante de uma situação catastrófica na Amazônia em função de todo o desmanche que foi feito em tempo recorde pelo governo Bolsonaro, sob a batuta inconfundível do improbo ministro (ou seria anti-ministro?) do Meio Ambiente, o improbo Ricardo Salles. 

A situação criada pelo ataque sistemático aos mecanismos de governança ambiental e às estruturas de comando e controle que antes continham, ainda que precariamente, o ataque desenfreado de atores que agem ilegalmente para retirar das florestas amazônicos o máximo que puderem no menor tempo possível, nem que para isso tenham que causar o maior dano possível.

Mas é importante notar que nada disso acontece sem que possa medir e prever até onde chegaremos em termos de destruição ambiental e genocídio dos povos indígenas, pois o conhecimento científico sobre medir os processos que causam esses processos continua avançando, permitindo que previsões como as que eu fiz em Helsinki, sejam posteriormente confirmadas por dados científicos irrefutáveis.

E é justamente por isso que a ciência e, por extensão, as universidades públicas brasileiras incomodam tanto o governo Bolsonaro.  Esses ataques não são porque a ciência e as universidades brasileiras não geram conhecimento robusto. É justamente pelo contrário!

Voltando à palestra em Helsinki, me foi perguntado como é que seria possível impedir o cenário devastador que eu acabara de prever. Dividi minha resposta em 3 componentes: a) a ciência deveria continuar ocupada em gerar dados robustos sobre a destruição que viria, b) haveria que se organizar a resistência política interna à destruição que estava planejada pelos vencedores das eleições presidenciais de 2018, e 3) a solidariedade internacional ativa aos que resistiriam dentro do Brasil seria fundamental para que a resistência tivesse a mínima chance de ser vitoriosa. 

Pensando bem, aquele meu receituário simples parece mais necessário do que nunca. E os amplos sinais de que há uma solidariedade internacional em prol da preservação da Amazônia e dos seus povos originários,  demandam que continuemos trabalhando internamente nos outros dois itens.

Reuters: investidores europeus ameaçam desinvestimento no Brasil por desmatamento

fogo Um trecho em chamas da selva amazônica é visto enquanto é desmatado por madeireiros e agricultores em Porto Velho, Brasil, 23 de agosto de 2019. REUTERS / Ueslei Marcelino

reuters

BRASÍLIA (Reuters) – Sete grandes empresas de investimento europeias disseram à Reuters que vão se desfazer de produtores de carne bovina, comerciantes de grãos e até títulos do governo no Brasil, caso não vejam progresso na resolução da crescente destruição da floresta amazônica.

As crescentes ameaças de investidores com mais de US $ 2 trilhões em ativos sob gestão, incluindo a Nordea, com sede na Finlândia, e o Legal & General Investment Management (LGIM) do Reino Unido, mostram como o setor privado está adotando ações globais para proteger a maior floresta tropical do mundo.

O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, diminuiu a pressão diplomática sobre o assunto.

O desmatamento da Amazônia brasileira subiu para uma alta de 11 anos em 2019, primeiro ano de Bolsonaro, e aumentou 34% nos primeiros cinco meses de 2020, de acordo com dados preliminares da agência de pesquisa espacial do governo INPE. O populista de direita enfraqueceu as proteções ambientais e pediu mais mineração e agricultura na região amazônica.

“As tendências que vimos no Brasil são muito preocupantes”, disse Daniela da Costa-Bulthuis, gerente de portfólio do Brasil para o gerente de ativos da Holanda, Robeco. “Você tem um desmantelamento dos mecanismos regulatórios de controle ambiental desde o ano passado.”

A assessoria de imprensa de Bolsonaro se recusou a comentar as preocupações dos investidores. Ele defendeu o histórico ambiental do Brasil contra críticas de líderes mundiais no ano passado, com incêndios destrutivos na Amazônia provocando protestos globais. Até o momento, a pressão corporativa se mostrou mais eficaz em desviar a atenção de Brasília para o meio ambiente.

Um projeto de lei proposto originalmente por Bolsonaro para conceder ações de propriedade de terras públicas irregularmente estabelecidas, uma medida vista como incentivadora do desmatamento, não conseguiu ser votado em maio e agora está atrasado indefinidamente depois que mais de 40 empresas européias ameaçaram boicotar as exportações brasileiras.

Sob escrutínio

Em setembro, 230 investidores institucionais assinaram uma carta pedindo ações urgentes para combater os incêndios na floresta amazônica, capturando a atenção global.

No entanto, as sete empresas de gestão de ativos que conversaram com a Reuters – Storebrand, AP7, KLP, DNB Asset Management, Robeco, Nordea Asset Management e LGIM – foram mais longe ao expor a ameaça de desinvestimento, se não houver progresso. As empresas detêm mais de US $ 5 bilhões em investimentos vinculados ao Brasil, incluindo traders globais de grãos com grandes operações no país.

Maior fundo de pensão da Noruega KLP disse que estava envolvido com empresas de comércio Archer Daniels Midland (ADM) ( ADM.N ), Cargill e Bunge (BG.N ) e julgar se as suas políticas ambientais são adequados.

“Se a nossa conclusão for negativa, o desinvestimento pode ser o resultado provável, potencialmente já neste ano, e esperamos que essa ação faça com que outros investidores maiores sigam nossa liderança”, disse Jeanett Bergan, chefe de investimentos responsáveis ​​da KLP, via o email.

Em resposta a perguntas sobre desinvestimento, a Bunge e a Cargill descreveram uma série de esforços para erradicar o desmatamento de suas cadeias de suprimentos, citando sua adesão à “Moratória da Soja Amazônica”.

Nesse acordo voluntário, grandes empresas comerciais, como Cargill, Bunge e ADM, se comprometeram a não comprar soja de partes da Amazônia desmatadas desde 2008.

A ADM não respondeu ao pedido de comentário.

O fornecedor norueguês de seguros e pensões Storebrand e o maior fundo nacional de pensão da Suécia, AP7, também disseram que poderiam se desfazer da ADM e da Bunge se as empresas não adotarem medidas adequadas para combater o desmatamento.

O DNB Asset Management AS da Noruega disse que os fundos de índice que administra, que incluem participações na Bunge, podem excluir empresas que não cumpram seus padrões de sustentabilidade.

Outras empresas de investimento mencionaram preocupações relacionadas aos frigoríficos brasileiros, que no passado haviam examinado minuciosamente o fornecimento de carne bovina de áreas desmatadas da Amazônia.

A LGIM está pressionando as empresas brasileiras, incluindo o maior frigorífico do mundo, a JBS (JBSS3.SA ) e as rivais menores Marfrig ( MRFG3.SA ) e Minerva (BEEF3.SA ) por “metas climáticas robustas e políticas de uso da terra, com inação potencialmente líder sanções de votação e desinvestimentos direcionados ”, disse Yasmine Svan, analista sênior de sustentabilidade da LGIM, em comunicado por e-mail.

JBS, Minerva e Marfrig disseram em declarações separadas que estão comprometidos com a eliminação do desmatamento da Amazônia de suas cadeias de suprimentos e detalham seus esforços.

Depois da “quarentena”

O braço de gerenciamento de ativos do Nordea NDAFI.HE ), um dos maiores bancos dos países nórdicos, interrompeu a compra da dívida soberana brasileira no ano passado, depois que os incêndios florestais explodiram, colocando seus aproximadamente 100 milhões de euros (US $ 112 milhões) em títulos do governo brasileiro em ” quarentena.”

Thede Ruest, chefe de dívida de mercados emergentes da Nordea Asset Management, disse que a empresa poderia ir mais longe.

“O próximo nível de escalada da quarentena na verdade significa vender nossos títulos do governo do Brasil, o que poderia desencadear outros fundos após o processo”, disse Ruest. “Estamos desapontados com a falta de progresso do atual governo, com as taxas de desmatamento continuando a subir antes de outra grande temporada de incêndios.”

Da Costa-Bulthuis, da Robeco, que administra pelo menos 3 bilhões de euros em ações brasileiras e até 5 bilhões de euros ao incluir dívida e outros ativos, se recusou a comentar sobre participações específicas.

Mas ela disse que a empresa pode reduzir sua exposição ao Brasil se seu registro ambiental se deteriorar ainda mais.

Da Costa-Bulthuis, junto com Svan, da LGIM, e Ruest, da Nordea, expressaram preocupação com o recente vídeo de uma reunião do gabinete brasileiro, divulgada devido a uma investigação federal.

Na gravação, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, sugeriu a Bolsonaro e outros ministros que o governo acelere a desregulação ambiental enquanto o público se distrai com a atual pandemia de coronavírus.

“Ele está trabalhando contra o meio ambiente. O que ele disse foi inaceitável ”, disse Costa-Bulthuis. “Se eles (o governo) forem sensatos ou não, acho que uma maneira de começar seria mudar o ministro do Meio Ambiente, porque esse cara não tem credibilidade.”

Salles e sua assessoria de imprensa não responderam aos pedidos de comentários sobre a declaração. Na época, o ministro disse que estava apenas pedindo o corte da burocracia inútil que dificulta o investimento.

Bolsonaro despachou os militares no mês passado para combater a destruição da Amazônia, embora o desmatamento tenha aumentado novamente em maio em comparação com o ano anterior pelo 13º mês consecutivo.

Da Costa-Bulthuis disse que a implantação foi “o mínimo” que o governo poderia fazer e não um substituto adequado para o fortalecimento de agências especializadas em fiscalização ambiental.

“Não achamos que eles estejam fazendo o suficiente.”

Reportagem de Jake Spring; Edição por Brad Haynes

fecho

Este texto foi originalmente em inglês pela agência Reuters [Aqui!].