Financial Times produz matéria exemplar sobre o Tsulama da Vale em Brumadinho

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Vale, dona da mina do Córrego do Feijão, em Brumadinho, “não vê responsabilidade” sobre o rompimento da barragem (Washington Alves/Reuters)

Dando continuidade ao que eu considero mais um baile de jornalismo na cobertura da maioria dos veículos de mídia brasileiros, o jornal britânico Financial Times publicou um artigo assinado pelo jornalista Andres Schipani que considero correto, ponderado, mais incisivamente direto ao ponto (ver imagens abaixo).

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E qual é o direto ao ponto de que falo? Trata-se do espaço dado à fala do dirigente do Greenpeace Brasil, Nilo D´Ávila, que afirmou que “casos como este (o de Brumadinho) são crimes ambientais que devem ser investigados, punidos e reparados.

Essa fala deveria ser trivial e o lugar comum da cobertura da mídia brasileira, mas lamentavelmente não é.  Essa falta de matérias jornalísticas que ecoem o mínimo de bom senso frente a uma situação de clara irresponsabilidade dos operadores de uma das maiores mineradoras do mundo frente não apenas ao meio ambiente, a população da região de Brumadinho e, principalmente e acima de tudo, seus próprios empregados.

Note-se que o Financial Times é um veículo de mídia que mormente expressa preocupações antenadas com os interesses das grandes corporações financeiras.  Isto na prática significa que o chamado “mercado” expressa por meio da Financial Times uma preocupação de qualidade jornalística que os proprietários da mídia brasileira optam por ignorar. 

E, isso entre tantas outras coisas, explica muito bem o estado de coisas que está estabelecido no Brasil neste momento. É que se nem o que está ocorrendo em Brumadinho serve para acionar algum tipo de limite para com a barbárie, fica dificíl saber o que irá.

AGB e ANPEGE emitem nota sobre o Tsulama da Vale em Brumadinho

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A Associação dos Geógrafos Brasileiros (AGB), reunida na 136ª Reunião de Gestão Coletiva (RGC), e a Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Geografia (ANPEGE), vêm por meio desta manifestar à sociedade brasileira nosso posicionamento contra o já anunciado assassinato dos seres humanos e do seu ambiente ocorrido na barragem do Feijão, de propriedade da Vale S.A., situada no município de Brumadinho (MG), no dia 25 de janeiro de 2019.

Este crime ambiental de responsabilidade da Empresa Vale S.A. – e compactuado por um Estado brasileiro subserviente à lógica do capitalismo neoliberal/neoextrativista – é mais uma violação provocada pela destrutiva submissão dos bens naturais pertencentes à toda sociedade aos interesses empresariais. A ofensiva neoliberal, sob a égide da atual conjuntura geopolítica de desconstrução da regulação/legislação ambiental, consolida um modelo predatório desumanizado de concentração e apropriação das riquezas sociais e naturais que resultou no assassinato de trabalhadores e trabalhadoras do campo e da cidade, de populações ribeirinhas e demais cidadãos de Brumadinho e Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH).

NÃO FOI ACIDENTE. Acidentes são provocados por tsunamis, erupções vulcânicas, terremotos, vendavais, tufões etc. Rompimento de barragem(s) é crime ambiental, é ganância, é negligência, é certeza de impunidade.

A AGB e a ANPEGE se solidarizam com os familiares das vítimas e exigem que a Vale S.A. seja responsabilizada por este crime, além de arcar com o auxílio emergencial a todos os atingidos, com a reparação ambiental da área atingida e reestruturação imediata da segurança de todas as barragens administradas pela empresa.

Convidamos a sociedade a pôr um fim nesse perverso modelo socioambiental de exploração mineral que faz parecer acidente natural um conjunto de crimes e catástrofes.

Convocamos, ainda, toda a comunidade geográfica para o acompanhamento das questões relacionadas ao crime, e a intervenção conjuntamente aos movimentos sociais e outras entidades e organizações da sociedade civil.

Fortaleza, 27 de janeiro de 2019.

ASSOCIAÇÃO DOS GEÓGRAFOS BRASILEIROS
ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE PESQUISA E PÓS-GRADUAÇÃO EM GEOGRAFIA

Façam suas apostas: onde e quando ocorrerá o próximo Tsulama em Minas Gerais?

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Há quem se incomode com a presença de correspondentes de jornais estrangeiros no Brasil, pois eles tendem a dar uma cobertura que foge do lugar comum que marca a maioria dos veículos da mídia corporativa brasileira que hoje possuem pouquíssimos jornalistas de campo, se resumindo a serem replicadores de materiais que são produzidos por agências de notícias.

Eu já considero a presença dos correspondentes de veículos internacionais uma das poucas garantias de que possamos acessar abordagens mais qualificadas sobre uma série de assuntos, especialmente aqueles que incomodam as autoridades brasileiras, incluindo principalmente aquelas de natureza ambiental.

Um caso mais do que atual é o caso do Tsulama da mineradora Vale no município de Brumadinho onde a mídia estrangeira está dando um show de cobertura, indo além do lugar comum que serve apenas para criar um ambiente seguro para os causadores de mais este grotesco incidente ambiental.  

Como exemplo dessa cobertura cito a matéria assinada pela jornalista Joana Oliveira para o jornal espanhol “El País”.  Esta matéria revela que o estado de Minas Gerais possui o estratosférico número de 450 barragens,  e que pelo menos 22 delas não têm garantia de estabilidade

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Por si só, este número já seria preocupante, mas várias das pessoas entrevistas por Joana Oliveira adicionam um claro grau de preocupação ao revelar o caminho livre que as mineradoras operando em Minas Gerais possuem para atuar e guardar seus rejeitos utilizando tipos de barragens ultrapassadas e que após serem construídas são precariamente acompanhadas pelos órgãos de fiscalização.

Assim, não apenas Minas Gerais possui uma série de “Tsulamas” esperando para acontecer, mas como há pouca ou nenhuma preparação para socorrer as regiões que serão afetadas por derrames de rejeitos que poderão ter gravidade idêntica ao que já se viu em Brumadinho e Mariana. 

Após ler esta reportagem, fica reforçada em mim a impressão de que não se trata de se perguntar se outros Tsulamas ocorrerão em Minas Gerais, mas de quando e onde eles ocorrerão.  De quebra, vários leitores do blog têm me enviado casos de barragens que estariam em condição crítica em várias cidades em Minas Gerais, e que são as  candidatas mais fortes a serem palco do próximo Tsulama.  E entre as candidatas temos várias cidades importantes e com grande valor histórico.

E imaginar que no meio deste cenário caótico, ainda temos o governo Bolsonaro disposto a fragilizar de forma aguda o processo de licenciamento ambiental em todo o território nacional.

Tsulama da Vale: mídia confirma previsão de leitor sobre iminente ruptura de mais uma barragem em Brumadinho

A previsão de um leitor deste blog sobre o grave risco de mais uma barragem da mineradora Vale em Brumadinho (MG) está sendo confirmada pela mídia imprensa e eletrônica (ver imagens abaixo).

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Mas enquanto a mídia utiliza palavras como “risco”, “iminente” e “novo” (ou uma combinação destas palavras), eu adiciono a palavra “quase inevitável novo rompimento”. É que, segundo o prognóstico feito pelo leitor deste blog, as estruturas da barragem em “risco” estão comprometidas, tornando praticamente certo que haverá o seu rompimento. Se isto se confirmar, a devastação que já foi produzida pelo Tsulama da Vale em Brumadinho, vai subir um degrau a mais.

Curiosamente em todas as matérias feitas sobre a barragem que ameaça se desmanchar na área já em condição de desastre estão ausentes imagens que mostra o tamanho da mesma. Por isso, republico logo abaixo a imagem da barragem para que se tenha uma ideia do tamanho do problema.

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Esperemos que haja tempo e capacidade de coordenação por parte da Defesa Civil de Minas Gerais para evacuar os habitantes de todas as localidades que se encontram sob o risco iminente de inundação por causa da possível ruptura desta barragem.

Fico imaginando também o embaraço em que está metido o governador Romeu Zema que manteve em seu governo o secretário do Meio Ambiente da gestão de Fernando Pimentel (PT), Germano Luiz Gomes Vieira, que trabalhou para “flexibilizar” as regras de licenciamento ambiental da mineração em Minas Gerais, o que permitiu a ampliação das atividades de mineração da Vale em Brumadinho. É que Romeu Zema, como tantos outros eleitos em 2018, prometeu flexibilizar os processos de licenciamento ambiental, e agora se vê diante das consequências das “flexibilizações” feitas em governos anteriores.

Incidente da Vale em Brumadinho pode ter outro capítulo catastrófico

Como todo órgão de mídia (imprensa ou virtual), blogs dependem de fontes para ampliar o grau de informação que se oferece aos seus eventuais leitores. Pois bem, um leitor deste blog que é engenheiro civil, me enviou a sequência de imagens abaixo para alertar para o risco de que aquilo que ser um grande reservatório de água logo acima dos reservatórios que romperam na Mina do Feijão em Brumadinho (MG) pode estar com sua estrutura seriamente comprometida, e com grande potencial para também romper se nada emergencial for feito para impedir isso.

Vejamos então a sequência de imagens que me foram enviadas por este leitor.

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Nesta imagem tomada durante o sobrevoo do presidente Jair Bolsonaro na região do Tsulama de Brumadinho, aparece apenas um pequeno pedação da barragem.  Já na segunda imagem (ver abaixo) dá para se ver que a mesma está posicionada exatamente acima dos reservatórios que já romperam. Note ainda que há claramente infiltração de água aparecendo na base da mesma.

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Mas a dimensão do problema aparece realmente na terceira imagem, pois é nela que se pode ver o tamanho exato e sua localização em relação à área que já foi atingida pelo Tsulama da Vale em Brumadinho.

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Dado o volume de água que está contido, que não parece ser desprezível, uma eventual ruputura desta barragem não apenas ampliaria a região espacial por onde o Tsulama da Vale poderá avançar, mas poderia atingir diretamente todos os que estão enfiados na lama tentando resgatar vítimas ainda vivas e os corpos daqueles que já estão mortos.

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Pelo tamanho da barragem que ainda resiste em Brumadinho é possível verificar que a estimativa inicial da Vale de que algo em torno de 1 milhão de metros cúbicos de rejeitos havia escapado não tinha como ser verdadeira. Resta saber o que mais a empresa não está informando de forma correta, inclusive o número atualizado de 12,7 milhões de metros cúbicos.

 

Ao contrário de Mariana, o Tsulama da Vale em Brumadinho já era esperado

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Bombeiros trabalham na área destruída pelo derramamento de rejeitos da Vale em Brumadinho (MG).

Até onde se sabe, o rompimento da barragem do Fundão da Mineradora Samarco (Vale +BHP)pegou mais ou menos de surpresa a população de Bento Rodrigues.  Entretanto, o mesmo não pode ser dito no caso dos reservatórios de rejeitos da Vale que romperam ontem (25/01) em Brumafinho (MG).

É que o jornal “Em Tempo” publicou hoje uma matéria mostrando que no dia 10 de janeiro de 2019, a presidente de uma associação comunitária protocolou junto ao Ministério Público um pedido de cancelamento da licença de operação da chamada Mina do Córrego do Feijão (ver documento abaixo).

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Em outro documento disponibilizado pelo “The Intercept”, fica demonstrada a tentativa dos representantes do FÓRUM NACIONAL DA SOCIEDADE CIVIL NA GESTÃO DE BACIAS HIDROGRÁFICAS de retirar da pauta do Câmara de Atividades Minerárias – CMI/Copam    do estado de Minas Gerais o processo de licenciamento que acabaria autorizando a ampliação das atividades da Vale nas minas de Brumadinho. 

Como já postei aqui o depoimento da professora da Escola de Saúde Pública da Universidade Federal de Minas Gerais, Ana Flávia Quintão, reunião do Conselho Estadual de Política Ambiental (Copam) que ampliou as atividades de mineração da Vale e de outras mineradoras em Minas Gerais, fica impedida qualquer alegação de que o ocorrido em Brumadinho não havia como ser antecipado.

Agora que o evitável ocorreu transbordando uma quantidade ainda indeterminada de rejeitos da mineração de ferro nos corpos aquáticos da região de Brumadinho e que a própria Vale reconhece que desconhce o paradeiro de 300 de seus empregados, há se evitar a dramatização deste incidente, pois esta é uma estratégia manjada que visa apenas livrar a Vale e seus controladores das suas responsabilidades civis e criminais. É que está mais do que comprovado que o que ocorreu em Brumadinho não teve nada de acidental, mas decorreu pura e simplesmente da avidez corporativa da Vale por ampliar ainda mais seus lucros já bilionários.

No tocante aos governos de Romeu Zema e Jair Bolsonaro, há que se cobrar a ampliação dos controles sobre o processo de licenciamento ambiental das atividades das mineradores em território mineiro e em todo o Brasil. É que já é sabido que está em curso um processo de extermínio das políticas de licenciamento ambiental no Brasil, em articulação direta com o Ministério do Meio Ambiente. A hora agora é de se mobilizar não apenas para cobrar a punição rigorosa dos culpados, mas também para impedir a precarização das políticas de defesa do meio ambiente  no Brasil. Só assim poderemos honrar os que morreram em Brumadinho e os que morreram há 3 anos em Mariana.

Um relato sobre a reunião que aprovou, em dezembro, a ampliação da mineração em MG

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Rompimento da barragem em Brumadinho deixou rastro de destruição em localidades do entorno. (Foto: Maria Júlia Andrade/BF)

Ana Flávia Quintão (*)

Terminei esse texto alguns dias depois da reunião do Copam (Conselho Estadual de Política Ambiental), em 11 de dezembro de 2018. Foi a forma que tive para expressar os sentimentos causados por aquele show de horrores. Não ia publicar, mas acho que agora se faz necessário.

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Escrevo essas linhas para compartilhar o turbilhão de sentimentos que tive durante a reunião do Conselho Estadual de Política Ambiental (Copam) de Minas Gerais, com relação à Licença de Operação da Etapa 3 para o projeto Minas-Rio, da empresa Anglo American Minério de Ferro Brasil S.A. em Conceição do Mato Dentro e Alvorada de Minas/MG, além de projetos de ampliação e continuidade até 2032 da minas da Jangada (Minerações Brasileiras Reunidas S.A.) e do Córrego do Feijão (Vale S.A.).

Diante da minha pequena trajetória no ativismo contra a mineração predatória em Minas Gerais, não me assustei ao ver algumas trabalhadoras e trabalhadores da Vale, uniformizados, presentes na reunião, certamente em seus horários de trabalho, muito provavelmente presentes para uma atividade laboral da empresa que os contrata. Isso, as empresas de mineração levam seus funcionários para as reuniões e audiências públicas relacionadas aos licenciamentos. O clima de disputa e raiva se acirra em um contexto assim.

A reunião foi majoritariamente pautada pelos argumentos em defesa da ampliação dos empreendimentos destrutivos, tendo, por muitas horas, apenas uma ativista, a Teca, como representante dos argumentos em defesa da vida e dos territórios. A plateia parecia bastante equilibrada com relação ao número de representantes dos dois principais interesses em jogo: a ampliação dos projetos destrutivos de mineração, com o imperativo do argumento econômico e a preservação do que restou das águas e serras dos territórios já gravemente explorados pela mineração.

Quando os questionamentos da Teca, representando o Fonasc (Fórum Nacional da Sociedade Civil nos Comitês de Bacias Hidrográficas) as populações atingidas, foram apresentados pela retirada de pauta da ampliação dos projetos de mineração, seguiu-se um show de horrores. Uma torcida se demarcou, comunidades atingidas e ambientalistas de um lado e alguns trabalhadores da empresa e dos órgãos governamentais, ligados aos processos de licenciamento ambiental, de outro. As comunidades atingidas e ambientalistas nos manifestamos algumas vezes, aos gritos, diante de informações equivocadas que eram apresentadas na reunião e da absoluta dominação do discurso por parte dos interessados pela autorização dos empreendimentos. A emoção, ansiedade, angústia nos olhos e expressões dos representantes das comunidades era transparente. Gritos desesperados eram emitidos, de tempos em tempos, diante disso, ocorreram ameaças por parte de alguns representantes da reunião, que soaram como opressão e intimidação. A polícia chegou ao recinto. Uma batalha de argumentações e contra argumentações se empreendeu contra a Teca, a única representante da sanidade do discurso naquele show de horrores.

Digo sanidade de discurso, porque algumas falas emocionadas como a de um trabalhador da Semad foram no sentido de que todos ali, desfavoráveis à ampliação dos empreendimentos, seriam levianos ao questionar os laudos e relatórios “ambientais”. Citou com ênfase a importância do seu trabalho e de sua equipe nos processos de licenciamentos ambientais e a precariedade de trabalho dos servidores públicos estaduais, como se estivessem sendo penalizados por fazer um belo trabalho de “apoio ao desenvolvimento” do estado. Uma fala completamente auto centrada e desconectada do interesse comum, que ele, como servidor público, deveria representar. Falou como se fossemos insanos por lutar pela preservação das serras e águas de Minas, pela segurança hídrica e alimentar de milhares de pessoas em nosso estado.

Os que estavam defendendo a preservação do pouco que restou das nossas serras e águas, depois de séculos de insaciável e contínua extração minerária e exploração, foram colocados como entrave ao desenvolvimento, mais uma vez. O mesmo modo de agir das empresas e governos, desde que os movimentos ambientalistas e de resistência socioambiental começaram a se estruturar e atuar, no mundo, a partir da década de 70. Desde esse período, uma estratégia bem comum tem sido ridicularizar ambientalistas, povos tradicionais, pesquisadores contra hegemônicos e qualquer pessoa que faça a discussão da importância da preservação ambiental, com os argumentos de um ciência à serviço da indústria e do desenvolvimentismo predatório. A “ciência normal” e seus argumentos técnicos tem, historicamente, dado o respaldo à atuação dessas atividades no mundo.

Gente chique e bem vestida, alguns com ternos e roupas elegantes, saltos altos eram os representantes de um modelo de desenvolvimento que alimenta esse sistema de produção cego e alienado, que só consegue ver o lucro e o poder. Muita agressão simbólica e verbal se deu nesse contexto.

E o que eu conseguia enxergar era somente um grupo de pessoas defendendo seus salários e empregos, por meio da defesa de projetos econômicos de mineração. Olhares de raiva, disputa se cruzavam durante e depois de cada fala. Ao lado dessas pessoas, representantes das comunidades atingidas, sendo intimidados ao silêncio, inúmeras vezes, mesmo diante de muitas inverdades sobre os impactos e a sustentabilidade socioambiental ligados aos empreendimentos de mineração em pauta.

Não consegui ver apenas maldade naquelas pessoas, era mais como uma cegueira doentia. Entendem que suas vidas pessoais são mais importantes do que uma grande coletividade em risco, não percebem que as destruições locais, somadas, tem impactos globais. No final, somos todos atingidos pela destruição que estamos causando em nosso meio de vida e sobrevivência, nosso planeta, nossa casa comum. As atitudes pareciam justificar apenas a manutenção de empregos e salários de alguns, poucos, diante dos milhares de atingidos pela mineração, aqui e no mundo. Os gritos das comunidades atingidas cortavam como faca.

Às 12h30 ainda não havia sido aberta a fala para os inscritos, como não consegui falar o que tanto me angustiou naquele cenário trágico, trago para esse texto os comentários que gostaria de ter feito lá e saí com eles entalados na garganta, chorando.

Estamos na segunda semana da Conferência das Partes das nações Unidas, a COP 24. Essa conferência é o espaço de discussão e compromissos dos países membros, com relação à redução de gases de efeito estufa na atmosfera. Essa discussão é importante para garantir tomadas de decisão governamentais, em todo o mundo, que não nos coloquem em maior risco climático do que já estamos vivendo. Vivemos em uma nova época geológica, o Antropoceno, onde somos capazes de alterar sistemas globais, a partir das alterações ambientais causadas pelos dos modos de produção industriais, ao longo de séculos, com muita emissão de gases de efeito estufa e destruição ecossistêmica. Vivemos também a sexta extinção em massa do planeta Terra, de acordo com bastante evidência científica…

Então, como é que nós, que insistimos na defesa da vida e de modelos de desenvolvimento local e comunitário, o cuidado dos bens comuns para a manutenção de toda a vida na terra, somos os equivocados, radicais, extremistas, que impedem o “desenvolvimento”?

A promoção desse “desenvolvimento” pautado pela atuação de grandes empresas de capital internacional, poluidoras, violadoras de direitos e destruidoras, às custas da nossa saúde e qualidade de vida não é justa, nem ética. Insano, irracional, irrealista é quem defende esse modelo de servidão minerária, numa lógica de crescimento econômico infinito! Sim, porque o limite está posto, é a garantia de água para milhares de pessoas, ou milhares de dólares de lucro para empresas mineradoras, com poucos e muitas vezes precários empregos diretos destinados às pessoas contratadas para esse tipo de atividade.

Como as reservas minerais são finitas e não podemos permitir que extraiam tudo, com toda a destruição dos territórios que isso significaria, estratégias de transição econômica dos municípios são urgentes.

Grandes empresas extrativistas e de produção deveriam agora tratar de reciclar todo metal já extraído e disponível no planeta, além de todos os outros resíduos que têm causado graves contaminações de solos e corpos hídricos, em aterros sanitários, lixões, ou mesmo nos oceanos. O argumento de que reciclar não é economicamente viável só se sustenta porque as empresas extrativistas não pagam por toda vida destruída, pela degradação de biomas, rios cachoeiras, habitats, degradação da saúde humana e ecossistêmica, dos territórios e seus povos, suas histórias e culturas… Não pagam pelo adoecimento das comunidades atingidas direta ou indiretamente pela escassez hídrica, contaminação de corpos d’água, veiculação de doenças relacionados à água, diante do imenso desequilíbrio ambiental e ecossistêmico que promovem, do adoecimento mental e da alma. A sociedade paga, o SUS paga, com a perda da nossa qualidade de vida. Empresas, governos, pessoas corruptas ficam com os lucros exorbitantes da infinita destruição que causam, das riquezas que levam e dos bens comuns que destroem para sempre. Para nós restam empregos temporários, inviabilidade de vida nos territórios, adoecimento, pobreza e falta de água.

Além disso, grande parte dos metais extraídos dos nossos territórios, com muita destruição, são destinados à exportação. E uma atividade que consome muito minério é indústria bélica. Promovem a destruição aqui, pra gerar mais destruição em outros lugares do mundo, por meio das armas de guerra.

Criam barragens de rejeito inseguras, como se fossem durar para sempre, mas são construídas sem responsabilidade socioambiental, efetiva fiscalização e verdadeiro investimento em medidas de segurança.

Governos e empresas não podem garantir a segurança dessas barragens em um contexto de intensificação da frequência e intensidade de fenômenos climáticos extremos. Não podem garantir a segurança hídrica de milhares de pessoas, em um contexto de redução da precipitação e aumento de temperaturas para todo o sudeste brasileiro, de acordo com as projeções climáticas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). Será que vão negar o aquecimento global? Essa seria uma estratégia muito lógica para representantes do setor extrativista, porém não é mais viável, já que estamos vivenciando o colapso do sistema climático do planeta. Não podem negar as imagens da Nasa sobre o planeta terra em chamas, em várias regiões do globo. Não podem negar os recordes históricos de intensidade e frequência de diversos eventos climáticos extremos como tufões, ciclones, tempestades e secas, nos últimos anos.

Ao fim e ao cabo, fui informada de que aprovaram tudo na reunião, nenhuma argumentação é suficiente para barrar a ganância e a insanidade humanas.

Perde a Mãe Terra, perdemos nós… Mas não estamos vencidos, outras estratégias são possíveis, como geração de renda para as comunidades locais, cuidando dos territórios e seus povos com a agricultura agroecológica, agrofloresta, que promove o aumento da cobertura vegetal e absorção de CO2, o turismo sustentável, a arte, o artesanato, a cultura.

Não somos escravos da mineração, podemos superar essa atividade medieval com a reciclagem, novas tecnologias, novos materiais e o fim da exportação de minério como commodities, além de investimentos reais em sustentabilidade. Água vale mais que minério!

(*) Conselheira do Fórum Nacional da Sociedade Civil nos Comitês de Bacias Hidrográficas. Texto publicado originalmente na página da autora no Facebook.

Este texto foi reproduzido inicialmente pelo site Sul 21 [ Aqui!]

Tsulama da Vale em Brumadinho: para não deixar cair na impunidade

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O vídeo abaixo mostra o momento em que a onda de rejeitos que escapavam os reservatórios da Vale em Brumadinho (MG) atingiu as instalações da empresa e de uma comunidade próxima.  As cenas que aparecem no vídeo mostram a corrida desesperada de trabalhadores da empresa,  e o reconhecimento deles de que aqueles não conseguiram alcançar um lugar seguro em tempo de se salvarem simplesmente morreram.  

Estou postando este vídeo para que fique marcada a responsabilidade da Vale e de seus controladores na tragédia ambiental e especialmente humana que ocorreu hoje em Brumadinho.

Tivesse a Vale adotado novas posturas e protocolos de segurança para impedir a  repetição do Tsulama da Samarco (Vale + BHP)  que destruiu Bento Rodrigues em 2015, hoje o Brasil e o mundo não estariam presenciando as cenas de destruição do Tsulama da Vale em Brumadinho. 

Agora o que deve se cobrar é a apuração das responsabilidades e a punição exemplar dos responsáveis. E essa punição envolverá o estabelecimeto de ritos jurídicos que impeçam a repetição das mesmas estratégias de procrastinação que foram adotadas no caso de Bento Rodrigues.

O Tsulama de Brumadinho expõe o ministro do Meio Ambiente condenado por favorecer mineradoras

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O  presidente Jair Bolsonaro manteve Ricardo Salles no cargo de ministro do Meio Ambiente, apesar de sua condenação por favorecer mineradoras. O Tsulama da Vale em Brumadinho poderá mudar a situação.

Tanto o presidente da república Jair Bolsonaro e seu vice, o general Hamilton Mourão, estão tentando se desvencilhar das responsabilidades do Tsulama da Vale que irrompeu hoje no município de Brumadinho levando algo em torno de 13 milhões de metros cúbicos de rejeitos da mineração de ferro no sentido do Rio Paraopeba, um afluente do Rio São Francisco.

Em declaração à imprensa, o general Hamilton Mourão teria dito que o governo não pode ser culpado pelo rompimento da barragem em Brumadinho (MG). Segundo, a Folha de São Filho, o vice-presidente teria dito que “Essa conta não pode vir para a gente, porque nós assumimos há 30 dias“.  De quebra, Mourão teria dito que a Vale é uma empresa privada.

Mas voltando a Jair Bolsonaro, segundo informa o site UOL, ele teria criado dois gabinetes de crise para responder às consequências do Tsulama da Vale em Brumadinho, e ter ainda determinado que os ministros do Desenvolvimento Regional, Gustavo Canuto, e Minas e Energia, almirante Bento Albuquerque, e o secretário Nacional de Proteção e Defesa Civil, Alexandre Alves, se deslocassem para a região.

Ainda segundo o UOL, Jair Bolsonaro teria informado que  ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, também está a caminho de Minas Gerais para acompanhar “in loco” os desdobramentos do Tsulama da Vale em Brumadinho. E é justamente no ministro de Meio Ambiente que a porca torce o rabo.  É que Ricardo Salles foi condenado na justiça por improbidade administrativa, por ter sido considerado culpado de favorecer empresas de mineração ao alterar ilegalmente mapas de zoneamento do plano de manejo da Área de Proteção Ambiental (APA) do Rio Tietê, que envolve 12 municípios da região metropolitana de São Paulo, inclusive a capital.

Assim, além de ser irônico de ter um condenado por improbidade administrativa na condição de ministro do Meio Ambiente,  Jair Bolsonaro agora é obrigado a mandá-lo para, digamos, o “battle front” criado por um grave incidente ambiental causado pela maior mineradora brasileira.

Eu não me surpreenderia se Ricardo Salles acabar sendo sacrificado para tentar melhorar uma imagem que já apresenta sérios arranhões com menos de 30 dias de governo.

The Guardian dá a conta inicial de 50 mortos em Brumadinho. Mas este número deve aumentar

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O jornal britânico “The Guardian” acaba de publicar no início desta noite uma matéria sobre o incidente ambiental causado pelo rompimento de diques de rejeitos da mineradora Vale no município de Brumadinho (MG).

Segundo informa o jornalista Dom Phillips, o prefeito de Brumadinho, Avimar de Melo, informou que pelo menos 50 pessoas morreram soterradas pelos rejeitos da Vale. A matéria confirma ainda que pelo menos 200 pessoas estão desaparecidas sob massa de rejeitos que escapou dos 3 reservatórios que a Vale possui em Brumadinho.

Os números de mortos e desaparecidos em Brumadinho já superam os números oficiais relacionados ao caso do Tsulama da Mineradora Samarco em Bento Rodrigues, empresa que é uma joint venture entre a própria Vale e a mineradora australiana BHP. 

Agora vamos o que farão o governador Romeu Zema e o presidente Jair Bolsonaro em relação às suas promessas eleitorais de afrouxar o processo de licenciamento ambiental para atividades de mineração. Mas uma coisa é certa: a fábula contada por Bolsonaro no Fórum Econômico Mundial de Davos de que o Brasil é o país que mais protege o meio ambiente no mundo acaba de ser solenemente estraçalhada por mais um incidente causado pela Vale.