Levantamento mostra quem financia a pesquisa no Brasil e na USP

Estudos patrocinados por subsídios alcançaram impacto, em termos de classificação de periódicos e contagem de citações

Por  – Editorias: CiênciasUniversidade

O texto a seguir integra uma série de quatro artigos produzidos pelo Sistema Integrado de Bibliotecas (Sibi) da USP  sobre a produção científica da USP. Para ler o texto completo, com as citações, acesse este link.

Levantamento realizado na Plataforma InCites revela 1.032 entidades de financiamento ativas no mundo – Foto: Pixabay – CC

Estudo realizado a partir de dados obtidos na Plataforma InCites (Thomson Reuters/Clarivate Analytics) revela quais são as entidades de financiamento que mais investem na pesquisa brasileira e na USP. O levantamento foi feito entre os dias 3 e 19 de julho, a partir de conteúdos da Web of Science indexados até 29 de abril e dados atualizados no InCites em 16 de junho.

Utilizando o módulo Funding Agencies, do InCites, foi possível levantar por localização geográfica e por nome da organização os dados de financiamento coletados da seção de agradecimentos ou rodapé dos artigos publicados e indexados na base Web of Science (veja aqui um exemplo).

Ainda que as atribuições de concessão com base em texto apresentem falsos positivos e falsos negativos – a taxa de atribuições imprecisas é de pelo menos 25% – e que as atribuições imprecisas possam ter, elas próprias, vieses de redação e interpretação, insights significativos podem ser obtidos a partir da análise desses dados. Os resultados aqui apresentados não têm a pretensão de serem exaustivos. Buscam apenas evidenciar o potencial de uso da Plataforma InCites.

A maior produtividade está associada às áreas de Ciências Naturais, Engenharias e Tecnologias, e Ciências Médicas. Há indícios também da presença de múltiplos fundos correlacionando-os positivamente com o desempenho geral de citações. Publicações de projetos financiados por órgãos internacionais alcançaram desempenho superior em termos de coautorias internacionais e percentual de documentos citados.

Em geral, solicitar financiamento a órgãos externos ao País aumenta as chances de ser citado e de publicar em revistas científicas de prestígio e alto impacto. Isso significa também que é necessário associar-se a equipes científicas destacadas e grandes grupos de pesquisa, além de manter-se conectado a pesquisadores produtivos, para produzir mais e melhor.

A proporção de publicações em acesso aberto ainda é pequena em relação ao total de publicações associadas a projetos financiados com recursos públicos, mas vem aumentando nos últimos anos.

Quem financia a pesquisa no mundo?

Um dos trabalhos mais abrangentes em termos de identificação digital de financiadores de pesquisa tem sido realizado pela Crossref, agência internacional conhecida pela atribuição do Digital Object Identifier (DOI) a documentos. O banco de dados de registro de financiadores mantido pela Crossref – FundRefcongrega, atualmente, 18.067 entidades ativas de financiamento da pesquisa conectadas a 2.188.220 trabalhos publicados.

É possível buscar informações sobre financiadores e publicações na plataforma por meio do link. O objetivo é fornecer informações claras, transparentes e mensuráveis ​​sobre quem financiou a pesquisa e onde ela foi publicada, ligando os financiamentos aos documentos e conteúdos produzidos.

Muito dinheiro tem sido aplicado na chamada Big Science (grande ciência), fenômeno da ciência da segunda metade do século 20 relacionado a projetos de grande porte, geralmente, financiados por governos ou grupos governamentais, algumas vezes, em detrimento da Small Science.

O projeto de 100.000 Genomas vai ter custado 300 milhões de libras quando os pesquisadores, que sequenciam o projeto genético de muitos seres humanos, tiverem concluído seus estudos. Estima-se que o Bóson de Higgs (física de partículas), ligado ao Cern (em inglês, European Organization for Nuclear Research), já tenha custado oito bilhões de libras.

O International Fusion Experiment (Iter) é outro projeto mundial orçado em 12,8 bilhões de dólares. A iniciativa European Spallation Source (ESS) está avaliada em 1.843 milhões de euros. À medida que a Big Science se torna ainda maior, sua escala reflete-se nas imensas listas de autores em artigos científicos e aportes financeiros gigantescos.

Em termos mundiais, o levantamento realizado na Plataforma InCites revela 1.032 entidades de financiamento ativas no mundo (2011-2018), mencionadas nos textos dos documentos indexados na base Web of Science.

A maior agência de financiamento de pesquisa é a National Natural Science Foundation of China (NSFC), entidade destacada pela produtividade. No momento analisado é a entidade com maior número de trabalhos publicados e indexados na base Web of Science: foram 1.201.687 documentos produzidos a partir de projetos financiados entre 2011 e 2018.

Em seguida, vem o National Institutes of Health (NIH) com 588.762 documentos eNational Science Foundation (NSF), com 387.801 documentos produzidos no período. A figura abaixo apresenta os dez maiores financiadores de pesquisa no mundo por número de documentos publicados (2011-2018).

Top 10 financiadores da pesquisa mundial por número de documentos (2011-2018)

A seguir,  os principais financiadores por número de citações e documentos (2011-2018). Os resultados indicam uma correlação positiva entre financiamento e impacto. Todavia, é preciso ter cautela com análises superficiais, porque podem levar a equívocos.

Principais financiadores mundiais por número de citações e documentos (2011-2018)  

Quem financia a pesquisa brasileira?

O financiamento da pesquisa no Brasil se dá por meio de diferentes sistemas e instituições de fomento, que estão ligadas direta ou indiretamente aos ministérios brasileiros e são: CNPq, Finep, Capes, FNDCT, BNDES, além das agências estaduais que constituem as FAPs – Fundações Estaduais de Amparo a Pesquisa agrupadas no Confap. Há também leis de incentivo fiscal e fomento à inovação, financiamentos empresariais e institucionais. Saiba mais consultando a página de Agências e Oportunidades de Financiamento no website Apoio ao Pesquisador.

Em meio à crise econômica, muitos entendem que o pesquisador brasileiro deve preparar-se melhor para pleitear insumos financeiros internacionais e deve ser mais competitivo, para atenuar o impacto dos cortes do orçamento governamental. Nesse sentido, conhecer a situação atual de financiamento no Brasil do ponto de vista dos financiadores é importante. O Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) apresenta dados de recursos investidos na pesquisa no Brasil e algumas informações chegam aos pesquisadores e instituições por meio de divulgação à imprensa ou websites.

As principais agências de financiamento da pesquisa – CNPq e Capes – enfrentam problemas com a redução de orçamento. A escassez de recursos afetou o CNPq, órgão vinculado ao MCTIC, em todas as metas na concessão de bolsas e apoios, como demonstra o gráfico a seguir:

Painel de investimentos do CNPq (2001-2018) 

A Capes também foi afetada pelos recentes cortes. Vinculada ao Ministério da Educação e Cultura (MEC), de 2015 a 2017 teve uma perda anual de R$ 1 bilhão. A última atualização do painel de investimentos da Capes sobre concessão de bolsas mostra uma diminuição desde 2014, quando existiam 105.791 beneficiários nas pós-graduações pelo País.

Em 2016, o número baixou para 100.433, um corte de 5,3 mil. Em julho de 2018, o MEC anunciou a liberação de R$ 160 milhões para a Capes. Os recursos destinam-se ao pagamento de bolsas, auxílios e fomento às ações de graduação, pós-graduação, ensino, pesquisa e extensão.

O levantamento realizado na Plataforma InCites revela como está o financiamento da pesquisa nos Estados brasileiros, contabilizada a partir do número de documentos publicados. O Estado brasileiro com maior produtividade e financiamento é São Paulo, seguido do Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paraná.

Veja a seguir a distribuição percentual de documentos financiados por Estado. Note-se que é possível haver sobreposições de dados em decorrência das coautorias entre pesquisadores de diferentes Estados:

Distribuição percentual de documentos publicados por estado de projetos financiados (2011-2018)

Os três órgãos que mais financiaram pesquisa no Brasil de 2011 a 2018, de acordo com o número de documentos publicados, foram o CNPq (122.967), Capes (70.048) e Fapesp (56.667).

A figura a seguir apresenta o ranking de financiadores da pesquisa brasileira por número de documentos (2011-2018):

Ranking de financiadores da pesquisa brasileira por nº de documentos (2011-2018)

Percentual de documentos citados também variou de acordo com o órgão financiador, como demonstra o gráfico a seguir. Embora os números sejam positivos, observa-se que artigos de projetos subsidiados por entidades estrangeiras apresentaram maior percentual de citação.

Percentual de documentos citados de acordo com o financiador (2011-2018)

O financiamento também varia de área para área de pesquisa. Utilizando os campos de conhecimento das revistas científicas como um intermediário das áreas de pesquisa, é possível observar que certas áreas se destacam mais que outras.

Considerando as vinte principais entidades financiadoras da pesquisa no Brasil, no período de 2011 a 2018, as áreas de mais destaque são Biologia Molecular e Bioquímica (8.873 documentos), Ciências das Plantas/Biologia Vegetal (6.444 documentos), Ciência dos Materiais (6.259), Farmácia e Farmacologia (6.201 documentos).

A figura abaixo exibe o mapa com as vinte principais áreas de pesquisa (classificação Web of Science) financiadas e respectivo número de documentos produzidos no período.

Top 20 principais áreas de pesquisa financiadas no Brasil por nº de documentos (2011-2018)

Os gráficos a seguir apresentam o número de documentos de projetos financiados pelo CNPq e Capes no período de 2011 a 2018 por área de pesquisa (classificação FOS).

dataset referente a esses dados pode ser consultado no Repositório Zenodo.

Número de documentos de projetos financiados pela Capes e CNPq (2011-2018) por área

Financiamento da pesquisa na USP

A USP é uma instituição pública de ensino superior e de pesquisa que, desde sua fundação, mantém um papel de liderança na produção científica e acadêmica brasileira. Seus 270 programas de pós-graduação atraem estudantes de diferentes partes do Brasil, da América Latina e de mais de 50 países ao redor do mundo.

São quase seis mil docentes e cerca de 82 mil alunos.  Há muitos anos, ocupa posição de destaque nos principais rankings internacionais de universidadesAcademic Ranking of World Universities (ARWU) [151-200],Times Higher Education World University Rankings [251-300],QS World University Rankings [118]eWebometrics Ranking of World Universities [72].

Além dos órgãos de financiamento citados, na USP, dois órgãos institucionais estão relacionados ao financiamento: a Aucania (Agência de Cooperação Nacional e Internacional), que divulga oportunidades de intercâmbio e bolsas, e a Pró-Reitoria de Pesquisa (PRP), que apoia pesquisas, noticia editais e chamadas. As unidades e institutos também mantêm serviços que apoiam e divulgam oportunidades de financiamento.

A partir do levantamento realizado na plataforma InCites, foi possível ranquear os 20 principais financiadores de pesquisa da USP (2011-2018) a partir do número de documentos publicados no período de 2011 a 2018, conforme apresentado abaixo.

Observa-se uma correlação positiva entre financiamento estrangeiro e percentual de colaboração internacional, com respectiva elevação do impacto de citação normalizado pela categoria (Category Normalized Citation Impact) e percentual de documentos citados. No total, 518 entidades de financiamento concederam subsídios a pesquisadores da USP no período.

Top 20 financiadores da pesquisa USP por nº de documentos (2011-2018)

As três principais entidades financiadoras da pesquisa da USP nos períodos de 1980 a 1999, 2000 a 2010, e 2011 a 2018 foram Fapesp, CNPq e Capes, como demonstra o gráfico a seguir.

Observa-se que, ao longo das décadas, houve um significativo aumento do financiamento de pesquisas (ou das menções de financiamento) nos documentos indexados.

Top 3 financiadores da produção USP pelo número de documentos (1980-2018)

Relacionando os top 10 maiores financiadores de acordo com percentual de coautorias internacionais, observa-se que a pesquisa financiada por entidades externas ao País apresenta um nível mais elevado de percentual de colaborações internacionais, conforme apresentado na a seguir:

Top 10 financiadores da pesquisa USP e percentual de colaborações internacionais

Por meio do levantamento, foi possível determinar também o percentual de artigos publicados por autores USP e respectivos quartis das revistas: Q1, Q2, Q3 e Q4, com números positivos e consistentes.

A tabela a seguir mostra também como os artigos de projetos patrocinados apresentam significativos percentuais de alta citação (% Highly Cited Papers) e percentual de artigos “quentes” (% Hot Papers), índices que aumentam sempre quando há financiamento de entidades externas ao Brasil. Clique na figura para melhor visualização:

Top 20 principais financiadores pelo nº de documentos publicados de projetos financiados e respectivos indicadores de posicionamento nos quartis das revistas (2011-2018)

Com relação ao acesso aberto, o levantamento revelou que a proporção de documentos gerados a partir de projetos realizados com financiamento público, embora tenha evoluído ao longo das décadas, ainda é baixa. A figura abaixo apresenta esses dados a partir dos três maiores financiadores da pesquisa da USP: Capes, CNPq e Fapesp, de 1980 a 2018. Em azul estão representados os documentos publicados em acesso aberto. Clique na Figura para melhor visualização.

Considerações finais

Poucos estudos se concentram nos órgãos de financiamento como unidades de avaliação, mas isso pode mudar, à medida que os sistemas de informação se tornem mais integrados e as informações estejam mais acessíveis. Iniciativas como o FunRef da Crossref sinalizam avanços nesse sentido.

Não se ignoram as limitações associadas ao uso de dados de financiamento recuperados dos textos de agradecimentos ou de rodapés de artigos: podem produzir falsos positivos e falsos negativos, a taxa de atribuições imprecisas é pelo menos 25%, as atribuições imprecisas podem ter, elas próprias, vieses no nível de campo.

Maior transparência nas definições estratégicas de apoio à pesquisa e relatórios de recursos financeiros investidos, assim como estudos sobre o impacto social da pesquisa financiada podem reduzir gastos e aumentar a equidade e o acesso a financiamentos.

Elizabeth Dudziak / Sistema Integrado de Bibliotecas da USP

FONTE: https://jornal.usp.br/ciencias/levantamento-mostra-quem-financia-a-pesquisa-no-brasil-e-na-usp/

O desmanche da ciência e tecnologia como passo para a recolonização do Brasil

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Uma das marcas, dentre muitas, do governo “de facto” de Michel Temer tem sido o ataque ao sistema nacional de ciência e tecnologia. Esse ataque começou com o desmantelamento do Ministério da Ciência e Tecnologia e Inovação, passou pelo rebaixamento dos principais órgãos de fomento da ciência brasileira (i.e., CNPq e CAPES) que foram colocados literalmente no porão do ministério comandado por Gilberto Kassab, e chegou até as universidades federais onde foi imposta uma forte asfixia financeira. 

O ataque feito por Michel Temer ao sistema de ciência e tecnologia nacional foi justificado, como de costume, pela necessidade de se conter o déficit público. Essa justificativa teve como base o discurso surrado de que o controle do déficit é uma condição básica para que o Brasil volte a experimentar níveis aceitáveis de crescimento econômico.

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O hoje infame relatório do Banco Mundial intitulado “Um Ajuste Justo – Análise da Eficiência e Equidade do Gasto Público no Brasil” serviu como um verniz adicional para o desmanche dos principais centros produtores de pesquisa no Brasil que são as universidades públicas [1]. Nesse relatório, a cobrança de mensalidades foi o aspecto que ganhou maior destaque, mas a mensagem mais importante foi a de que se gasta mal no setor público, a qual abre caminho para os cortes ainda maiores que serão feitos nos investimentos em ciência e tecnologia já em 2018.

Por mais contraditório que o desinvestimento em ciência possa parecer numa fase do capitalismo em que tecnologias de ponta são apresentadas como o principal diferencial na competição intra-capitalista, as ações feitas pelo governo Temer, e ecoado pela maioria dos governos estaduais que agiram para também reduzir os investimentos na área, o movimento que coloca a capacidade cientifica brasileira faz sentido para o que parece ser a aposta macroeconômica da elite capitalista que domina o país.

E qual seria essa aposta macroeconômica e o que ela nos reserva?  Começando pela aposta ela parece estar diretamente associada a uma combinação entre a dependência na renda com a exportação de commodities agrícolas e minerais com um aumento ainda maior da subordinação aos interesses das grandes corporações financeiras que hoje controlam o fluxo de capitais especulativos. Tal aposta nos coloca numa trajetória pró recolonização do Brasil, com o alijamento da maioria da nossa população aos benefícios gerados pelo comportamento da economia, com massas de desempregados e subempregados.

O interessante é que, ainda que este processo esteja claramente delineado e parte dos efeitos já esteja sendo sentido,  a comunidade científica brasileira ainda esteja basicamente silente e se comportando como se a desgraça ainda não estivesse batendo às suas portas. Ainda existem aqueles elementos que percebendo o naufrágio próximo já estejam fazendo suas malas para embarcarem rapidamente para o exterior.  Esse comportamento da comunidade científica brasileira não chega a ser diferente do que tem sido visto em outros segmentos da sociedade brasileira frente ao desmanche do estado pelas políticas ultraneoliberais impostas por Michel Temer. Entretanto, a inércia da maioria dos cientistas brasileiros é particularmente danosa, na medida em que poucos fora dela terão a capacidade de articular o processo de defesa do sistema cientifico nacional.

No meio desse imbróglio todo em que a ciência nacional está posta como um dos alvos preferenciais de desmanche nos próximos anos, a questão que fica é se vamos começar a reagir ou vamos deixar que o ritmo das coisas continue sendo tocado por Michel Temer e por um punhado de governadores que já fizeram todas as suas apostas na recolonização do Brasil.

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[1] http://documents.worldbank.org/curated/en/884871511196609355/pdf/121480-REVISED-PORTUGUESE-Brazil-Public-Expenditure-Review-Overview-Portuguese-Final-revised.pdf.

Pesquisadores denunciam situação crítica em 2ª Marcha Pela Ciência no Brasil

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“O orçamento para ciência, tecnologia e educação que está delineado para o ano que vem é dramático. Agora, mais do que nunca, temos que nos mobilizar”, declarou o presidente da SBPC, Ildeu de Castro Moreira

Por Daniela Klebis – Jornal da Ciência

Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília, São Luís (MA) e Porto Alegre (RS) realizaram no sábado, 2 de setembro, a 2ª Marcha Pela Ciência no Brasil.  O evento, organizado pela Campanha Conhecimento Sem Cortes para acontecer inicialmente na capital carioca e depois ganhou adesão de mais cidades, teve como objetivo alertar a população sobre a gravidade dos cortes orçamentários que vêm impossibilitando o desenvolvimento de pesquisas vitais para o desenvolvimento do País e poderão comprometer a formação dos futuros cientistas.

Com apoio da SBPC, as marchas marcam o início de um grande movimento nacional em defesa da ciência, da tecnologia e da educação diante dos graves contingenciamentos neste ano e da previsão de cortes ainda mais impactantes para as áreas na Proposta de Lei Orçamentária de 2018 (PLOA 2018). Exemplo disso é que na proposta apresentada pelo governo na última quinta-feira, 31, as dotações de CT&I relacionadas ao Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) foram eliminadas, o que deixa projetos como o Sirius, do CNPEM, e o Reator Multipropósito, sem garantia nenhuma de recursos.

O presidente das SBPC, Ildeu de Castro Moreira, afirma que os movimentos terão continuidade nas próximas semanas, com ações junto ao Congresso Nacional, na expectativa de reverter os cortes previstos para 2018 e recuperar o que foi contingenciado em 2017.

“O orçamento para ciência, tecnologia e educação que está delineado para o ano que vem é dramático: estão desenhando valores extremamente baixos, que não mantêm a ciência brasileira. Houve cortes muito significativos, já tivemos esse ano um contingenciamento brutal, da ordem de 45%, e estamos fazendo uma campanha muito grande para repor esses recursos”, disse ele, durante a Marcha no Rio de Janeiro, realizada em frente ao Museu do Amanhã.

Moreira alerta que os cortes terão impactos profundos nas atividades do CNPq, da Capes, da Finep, bem como em todos os projetos e bolsas de pesquisa, na formação dos jovens e no funcionamento das universidades públicas. Ele destaca que a SBPC e suas mais de 130 associações científicas afiliadas, organizações de CT&I, a Academia Brasileira de Ciências (ABC), vêm fazendo uma grande campanha nacional, juntamente à população e ao governo, com manifestos constantemente encaminhados ao presidente da República, aos ministros, deputados e senadores. “Agora, mais do que nunca, temos que nos mobilizar mais e mais, para atuarmos com força e conseguirmos reverter esse cenário”, disse.

Alerta à população

Reunidos em frente ao Museu do Amanhã, pesquisadores, alunos e professores das Universidades Estadual e Federal do Rio de Janeiro – UERJ, UFRJ -, de institutos,  representantes de associações e deputados mobilizaram cerca de mil pessoas entre os participantes da Marcha e a população que passava por ali e parava para participar das atividades. Haviam estandes das instituições, música e discursos para informar a população sobre a gravidade da situação de penúria que a ciência brasileira enfrenta hoje por consequência das políticas de cortes do governo.

“Estamos aqui para denunciar os 40 bilhões cortados da ciência. Uma situação gravíssima para quem pensa o Brasil do presente e o Brasil do futuro. Não sei se teremos esse futuro com esse governo”, disse a deputada Jandira Feghali, em divulgação ao vivo da Marcha em seu Facebook.

Ela entrevistou o deputado Celso Pansera, que também participou da manifestação no Rio de Janeiro: “O governo precisa entender que tem que apartar o orçamento da ciência e da educação, porque sem isso não tem como sair da recessão”, declarou Pansera.

A presidente da Associação Nacional de Pós-graduandos, Tamara Naiz, discursou no palanque levantado na Praça Mauá, em frente ao Museu do Amanhã e ressaltou a importância da participação dos pesquisadores brasileiros na manifestação.

“Hoje sentimos uma grande sensação de insegurança com o nosso futuro. A gente sente como se tivesse vivendo uma desconstrução do nosso futuro. E é por isso que é importante que a gente esteja atento e forte pensando qual vai ser o amanhã. O amanhã da ciência brasileira, mas, também, o amanhã do nosso país. A bolsa de pesquisa é uma necessidade para o país que precisa se desenvolver em novos patamares, que precisa atrair muita gente para desenvolver sua ciência”, disse, ressaltando a insegurança dos pesquisadores que vivem agora em constante ameaça de cortes no financiamento de seus trabalhos.

Naiz foi enfática ao destacar à plateia a necessidade de todos se envolverem na luta em defesa da ciência brasileira. “A gente sabe que a ciência e a educação têm muito potencial para desenvolver o País. Elas geram conhecimento, riqueza, geram oportunidades, e devem estar a serviço do bem estar do nosso povo”.

Sem ciência, sem avanço

Em São Paulo, a Marcha Pela Ciência se concentrou em frente ao MASP e, com apoio da Polícia Militar, que se prontificou a parar o trânsito e escoltar os manifestantes, a Marcha seguiu pela Avenida Paulista, por cerca de 1km, até o prédio do escritório da Presidência da República na cidade.  Os cartazes e o coro que entoava “Se para a ciência não avança o Brasil” chamaram a atenção dos carros e pedestres, que paravam para assistir à manifestação.

Ao final, o grupo de cerca de 200 manifestantes bradou em uníssono o manifesto da Marcha: “Nós, pesquisadores brasileiros, estamos na rua, pela ciência brasileira. Estamos aqui para denunciar o desmonte da ciência que vem acontecendo por falta de verbas. Estamos aqui para dizer que sem ciência, o Brasil não avança. Sem ciência, não há remédio, não há alimentação, não há transporte público. A ciência não pode ser considerada gasto. Ciência é investimento. Investimento para retomada do desenvolvimento brasileiro. Sem ciência não há amanhã”.

A tesoureira da SBPC, Lucile Floeter Winter, destacou a importância desse tipo de manifestação de conscientizar toda a sociedade para o papel que a ciência tem no cotidiano das pessoas e no desenvolvimento do País. “É um movimento que é importante. Estamos lutando por liberdade, por independência, por soberania nacional e para conscientizar todo mundo que todo dia a ciência está na vida de cada um”, afirmou.

Uma das organizadoras do evento, a bióloga da USP, Nathalie Cella, falou da importância dos cientistas se juntarem às manifestações. “Estamos nesse ano com ¼ dos recursos que tínhamos em 2010, a expectativa é que isso caia e que a gente não tenha nem bolsas para os nossos estudantes, e que mais laboratórios se fechem. Precisamos agora sair dos nossos laboratórios para tentar continuar a ter ciência. Precisamos começar a pensar em política científica, criar coragem e investir nosso tempo nisso”, alertou.

Apesar da participação pequena, considerando o tamanho da população de pesquisadores e universitários em São Paulo, o divulgador científico Roberto Takata, que também atuou na organização do evento, acredita que esta segunda Marcha teve um impacto maior do que o esperado.  “Considerando que organizamos em quatro dias, conseguimos, somente na base do gogó, ter mais impacto com a caminhada pela Avenida Paulista. Mesmo sem esperar muito impacto dessa vez, acabou saindo bem maior do que esperado”, disse.

“É um movimento que tem demonstrado resistência em defesa da ciência brasileira”, descreveu Vinícius Soares, secretário-geral da ANPG, em São Paulo. “O que está acontecendo no País é realmente um desmonte de tudo aquilo que a gente conquistou a duras penas. Sem ciência, teríamos uma epidemia descontrolada de zika vírus. Se o Brasil não olhar a ciência como investimento, ficar olhando sempre como gasto e cortar sempre que tem crise, não vamos conseguir avançar para nenhum lugar. A ciência é o que nos dará o norte para retomarmos o crescimento do País”, disse.

A Marcha paulista contou com grande participação dos pesquisadores dos Institutos de Pesquisa do Estado de São Paulo. “O sucateamento está acontecendo com a ciência, nos institutos do governo e nas universidades. Pertenço a um dos 18 institutos do Estado de São Paulo, e todos nós estamos brigando para que a ciência tenha uma postura de engrandecimento, porque sem ciência, a gente não vive”,  declarou Maria Margarida de Melo, pesquisadora aposentada do Instituto de Botânica. Segundo ela, a situação é crítica nos três institutos da Secretaria do Meio Ambiente de São Paulo.

Elaine Viana Martins, assistente técnica de pesquisa do Instituto Geológico, disse que a participação na Marcha é a luta para garantir o futuro dos filhos e netos desta geração. “Vim para mostrar a importância da pesquisa científica, não só para o Estado do São Paulo, como para o País. Sem pesquisa séria, nada se faz. É importante que os pesquisadores pensem na carreira, na pesquisa. Estamos aqui lutando por todos. Sem nos manifestarmos, não teremos chances”, afirmou.

Processo de engajamento

Segundo o secretário regional da SBPC no Rio Grande do Sul, José Vicente Tavares, essa segunda Marcha Pela Ciência é parte de um processo de engajamento de toda a comunidade científica e sociedade com a política científica nacional que deve continuar e tomar corpo, especialmente pelas redes sociais. “O momento político é crítico. Por isso, além do número de participantes presentes à manifestação, foi importante ver a repercussão. Há um processo de comunicação que continua pelas redes sociais e nas instituições”, afirmou. Em Porto Alegre, a Marcha foi realizada no Parque da Redenção, com concentração no Monumento do Expedicionário e reuniu cerca de 100 pessoas, entre representantes da SBPC, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), do sindicato dos professores municipais, entre outros, além de deputados. Os participantes fizeram pronunciamentos, divulgando a situação grave que os cortes deixaram sobre as instituições.

“Esse tipo de manifestação é fundamental nesse momento para esclarecer a sociedade do tanto que a juventude será afetada. É preciso mostrar para a população que sem verbas não teremos universidades”, comentou Luiz Alves Ferreira, secretário regional da SBPC no Maranhão. Em São Luís, uma van levou alunos, pesquisadores e professores da UFMA à Praça da Lagoa, onde foi montado um telescópio, músicos se apresentaram e os organizadores distribuíram um manifesto público pela ciência à população que passava pela praça no sábado.  “Imprimimos 400 manifestos, e todos foram entregues”, comemorou Ferreira. O documento, produzido pela SBPC-MA junto com o Laboratório de Divulgação Científica Ilha da Ciência, em parceria com a Associação dos Professores da Universidade Federal do Maranhão (Apruma) e o Centro de Cultura Negra do Maranhão (CCN/MA), alerta que os cortes para CT&I comprometem a educação, ciência e tecnologia e inovação, saúde e outras políticas públicas (leia o manifesto aqui).

“No sábado, essa manifestação em São Luís atingiu cerca de mil pessoas. Nosso objetivo é continuar com essas manifestações”, confirmou Ferreira.

Em Brasília, a Marcha foi convocada pela Secretaria Regional da SBPC no Distrito Federal  e contou com a participação de cerca de 60 pessoas, conforme conta a conselheira da SBPC, Fernanda Sobral. A manifestação teve participação da ANPG, de funcionários do CNPq, da reitoria e pesquisadores da UnB, entre outros. “Falamos sobre os cortes e as previsões ainda piores para 2018. Como início, foi bom. O papel dessa primeira fase de manifestações foi demonstrar a gravidade da situação. Os pesquisadores falaram sobre os impactos sociais que a interrupção de seus projetos pode causar, foi muito informativo”, comentou, acrescentando que o movimento foi o início de uma série de mobilizações que devem ser realizadas daqui para frente.

FONTE: http://jcnoticias.jornaldaciencia.org.br/1-pesquisadores-denunciam-situacao-critica-em-2a-marcha-pela-ciencia-no-brasil/

 

Em defesa do sistema nacional de pós-graduação, pesquisadores fazem abraço simbólico da Capes

Na manhã desta 5a. feira (27/07), um grupo formado por cerca de 300 pesquisadores de todas as partes do Brasil realizou uma abraço simbólico no edíficio sede da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) em Brasília ( ver imagens abaixo).

 

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Esta manifestação é especialmente significativa porque ocorreu num momento em que boa parte dos comitês assessores da Capes realizam o processo de avaliação do sistema nacional de pós-graduação, os quais estão diretamente ameaçados pelos contínuos e profundos cortes que estão sendo realizados  no orçamento do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações.

O fato é que  somente entre 2015 e 2017, a Capes perdeu em torno de R$ 3 bilhões no seu orçamento e estão previstos apenas para 2018 cerca de R$ 4,2 bilhões, o que significa um encolhimento de R$ 2,8 bilhões em relação a 2015.

Com isso tudo, o que está em jogo é o futuro dos programas de mestrado e doutorado formados a duras penas em todo o território nacional e, por extensão, a capacidade do Brasil de ser um centro importante de geração de conhecimento científico em nível mundial.

Por isso, o ato desta manhã é tão relevante já que os seus participantes estão entre os mais respeitados pesquisadores brasileiros em todas as áreas de conhecimento.

Abaixo vídeo que mostra  o momento deste momento de defesa da ciência e tecnologia brasileira.

Brasil de Temer & Meirelles no ritmo da “fuga de cérebros”

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Enquanto a atenção da maioria dos brasileiros está corretamente colocada sobre os devastadores efeitos das anti-reformas que estão sendo realizadas pelo governo “de facto” de Michel Temer na previdência social e nos direitos trabalhistas, outro desmanche está ocorrendo de forma mais silenciosa, mas que poderá efeitos igualmente devastadores sobre o futuro do Brasil.

Falo aqui dos efeitos devastadores que os cortes orçamentários na área de Ciência e Tecnologia já estão tendo no interior das universidades e centros de pesquisas brasileiros (ver figura abaixo).

financiamento

De maneira objetiva, os números mostram que o governo Temer, sob os auspícios do ministro/banqueiro Henrique Meirelles, está impondo um recuo de financiamento que joga a ciência brasileira para trás em pelo menos uma década, justamente em um momento em que estávamos dando passos importantes na consolidação de várias áreas de pesquisa, incluindo a biotecnologia e das doenças tropicais.

Uma consequência dessa escassez de verbas é que o Brasil está se tornando um centro dispersor de pesquisadores qualificados, o que por si só representa uma perda gigantesca de investimentos e de recursos humanos estratégicos que foram realizados nas últimas décadas.

Para que se tenha uma ideia da diferença de tratamento que está sendo dado ao investimento em ciência e tecnologia, a China está trilhando o caminho totalmente oposto ao escolhido pelo governo Temer e recebendo pesquisadores de todas as partes do mundo para fortalecer suas instituições de pesquisa. Mas obviamente muitos países vão querer atrair pesquisadores brasileiros e suas habilidades, a começar pelos EUA e os membros da União Europeia.

A situação está se tornando tão alarmante que o Valor Econômico publicou hoje um artigo da autoria da jornalista Lígia Guimarães que mostra de forma bem cuidadosa o cenário desastroso que está se desenhando no horizonte da ciência nacional (Aqui!).

Se confirmado esse cenário de desmanche da ciência nacional, o efeito mais direto será uma profunda regressão da capacidade brasileira de formular saídas estratégicas para problemas sociais, econômicos e ambientais que estão se avolumando no horizonte. E com isso estará assegurada a nossa dependência científica e tecnológica em face dos países do capitalismo central.

Ciência brasileiro em risco

O professor da Universidade Federal de Juiz de Fora e biólogo formado pela Uenf, Fabrício Alvim Carvalho, escreveu um artigo bastante crítico sobre a situação por que passa atualmente a ciência brasileira que merece ser lido em detalhe por todos os que se preocupam com o processo de desmanche em curso sobre nosso sistema nacional de ciência e tecnologia.

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Um aspecto que julgo particularmente importante que o prof. Fabrício Alvim levanta é sobre as posturas opostas que estão sendo tomadas por países como China e Estados Unidos da América que estão respondendo à crise da economia global com aumentos de investimentos em pesquisa e a adotada pelo governo “de facto” de Michel Temer que decidiu diminuir a níveis abissais os orçamentos de nossas universidades federais e agências de fomento à pesquisa.

Do jeito que está não nos resta outra opção a não ser resistir e denunciar a trilha adotada pelo governo Temer e seus parceiros estaduais como é o caso de Luiz Fernando Pezão no Rio de Janeiro.

Extinção do MCTI e sucateamento das FAPs colocam em risco o sistema nacional de ciência e tecnologia

Uma das principais características de um país que procura alcançar novos níveis de desenvolvimento é o investimento sustentado em ciência e tecnologia.  A China, por exemplo, optou por um aumento consistente no orçamento do seu ministério de Ciências para o próximo quinquênio como uma forma de responder à crise econômica que está se abatendo sobre a economia mundial  (Aqui!).

No caso do Brasil, o que estamos assistindo é um processo totalmente oposto ao caminho adotado pela China. O fato é que estamos presenciando um ataque duro e direto às estruturas que foram desenvolvidas nos planos federal e estadual para providenciar recursos e estabelecer políticas voltadas para orientar o desenvolvimento científico e tecnológico. O principal exemplo disso foi a extinção do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) como um dos primeiros atos do governo “de facto” de Michel Temer. 

Há que se ressaltar que a desvalorização estratégica do sistema nacional de ciência não parou na extinção do MCTI. O fato é que os principais órgãos responsáveis pelo desenvolvimento científico brasileiro foram virtualmente colocados no limbo no novo ministério comandado por Gilberto Kassab. E não se fala apenas dos brutais cortes anunciados nos orçamentos do CNPq, da CAPES, e da FINEP . A questão da desvalorização está no tratamento de órgãos de segunda ou terceira categoria que os novos chefetes do tal Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC). Aliás, a única coisa notável que brotou do MCTIC até agora foi a tentativa de dar um presente bilionário para as empresas de telecomunicação e que só não se concretizou ainda porque a presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministra Carmen Lúcia, resolveu pedir informações sobre mais essa bandalheira com o dinheiro público (Aqui!).

Agora, se a coisa está ruim no plano federal, a situação não é nada melhor na maioria dos estados. As chamadas “fundações de amparo à pesquisa” que são as responsáveis no plano estadual por apoiar o desenvolvimento científico e tecnológico, se encontram em sua maioria em situação falimentar. Basta ver os casos de estados como o Rio de Janeiro, Bahia, Pernambuco e Maranhão onde a falta de recursos impede qualquer suporte real num momento de encurtamento do aporte de verbas federais. Já no caso do Rio Grande do Sul, apesar de ter escapado da extinção que atingiu outras nove fundações, a  Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul (Fapergs) deverá ser mantida na mesma situação de penúria que outras FAPs estão enfrentando.

A única exceção a este processo de sucateamento das FAPs ainda é a Fundação de Amparo à Pesquisa do estado de São Paulo (Fapesp) que possui verbas próprias e um patrimônio invejável. Com isso, a Fapesp deverá continuar sendo capaz de financiar ações estratégicas como os do Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCTs), o que deverá contribuir para a criação de uma espécie de colonialismo científico interno  com as universidades e institutos de pesquisa paulistas se tornando os únicos com nível de interagir com grandes centros científicos mundiais.

A repercussão desse processo de degradação dos órgãos federais e das FAPS foge a um análise de curto prazo. A verdade é que esta estratégia de fragilização do nossos sistema nacional de ciência e tecnologia terá implicações graves para o desenvolvimento econômico brasileiro. E como os chineses já explicaram ao anunciar  a sua transição de um modelo econômico baseado na exportação de manufaturas para outro baseado na venda de alta tecnologia, os países que ficarem para trás na corrida tecnológica certamente  enfrentaram desafios sociais e ambientais duríssimos no futuro.

O problema é que no Brasil estamos enfrentando uma verdadeira onda de ódio ao conhecimento científico, e que está sendo comandada pelos setores que dependem de algo ainda pior e mais atrasado do que a exportação de manufaturados, e que estão fortemente associados ao interesses das grandes mineradoras e o latifúndio agroexportador.  Para esses setores, o conhecimento científico é um entrave para suas aspirações de recolonização total do Brasil.

E será contra este tipo de interesse anti científico que teremos nos debater em 2017 para impedir a completa destruição do nosso sistema nacional de ciência e tecnologia. Simples assim!

 

No Direto da Ciência, professor emérito da UNB coloca o dedo na ferida

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Em um artigo publicado hoje no blog “Direto da Ciência” do jornalista Maurício Tuffani, o professor emérito da Universidade Nacional de Brasília (UnB) Nagib Nassar fala de suas expectativas sobre a nova presidência do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e aproveita para colocar o dedo na ferida da ciência nacional (Aqui!).

Apesar de não compartilhar da mesma expectativa positiva, pois penso que os elementos estruturais que o Prof. Nassar aponta corretamente em seu texto independem da pessoa do presidente do CNPq. Entretanto, não há como deixar de observar que as questões apontadas como problemáticas pelo Prof.  Nassar no processo de distribuição de recursos estão corretas. 

Aliás, como já venho observando faz algum tempo, a cultura de priveligiar quantidade versus qualidade na distribuição, por exemplo, das bolsas de produtividade do CNPq geraram uma série de vícios ao permitir, entre outras coisas, o avanço das publicações “trash science” como fontes legítimas de validação de produtividade científica (Aqui!Aqui! e Aqui!).  Esse avanço do “trash science” é inegavelmente um sub-produto da corrupção do processo de “revisão por pares” que é citado pelo Prof. Nassar como um dos sintomas do descontrole que estaria existindo dentro do CNPq no processo de avaliação de projetos de pesquisas submetidos para eventual recebimento de verbas públicas. 

Ainda no tocante à entrega de bolsas de produtividade, penso que se pode ir além nos questionamentos apresentados pelo Prof. Nassar. É que ele aponta a incapacidade de muitos pesquisadores de Nível 1 (A e B) de serem autores principais nos numerosos artigos que incluem em seus currículos na Base Lattes do CNPq. eu vou além e afirmo que muitos pesquisadores 1 que eu conheço não mostram a capacidade de sequer entender a responsabilidade que este tipo de outorga meritocrática implica no desenvolvimento de uma cultura científica dentro de suas instituições. Na verdade, muitos desses pesquisadores ditos do topo da cadeia alimentar da ciência brasileira não raramente se mostram incapazes de demonstrar um mínimo de erudição científica. Este é para mim um sinal ainda pior de que essas bolsas estão sendo distribuídas de acordo com critérios equivocados.

Mas concordo com o Prof. Nassar que um problema adicional grave que foi criado nos últimos anos é de que os que recebem as bolsas de produtividade acabam por concentrar o grosso dos recebimentos de recursos nas diferentes modalidades oferecidas pelo CNPq. Essa situação acaba implicando numa condição permanente de elitização de quadros científicos e inibe a possibilidade de que possamos ter avanços reais na produção científica nacional, o que acaba por reforçar o caráter periférico daquilo que é produzido pela ciência brasileira.

Tenho total concordância com o que o fato de que todo esse processo tem resultado na formação de uma geração de pós-graduados com baixíssima capacidade de liderar futuros cientistas. Como professor de Metodologia da Pesquisa por mais de 18 anos tenho notado a progressiva erosão de conhecimentos básicos acerca dos fundamentos que devem guiar uma pesquisa que possa posteriormente resistir a um processo mais rigoroso de revisão por pares (peer review).  E a causa disso é a pressão vinda do CNPq e também da Capes para que haja mais quantidade de produções, mesmo que sem a necessária qualidade.

Finalmente, voltando ao início deste texto, não possuo muita esperança de que as distorções atuais sejam corrigidas fácil ou rapidamente. Entretanto, a minha expectativa é que mais lideranças da comunidade científica façam como o Prof. Nassar para que comecemos a traçar estratégias que nos permitam sair desse atual estado de coisas, onde poucos têm disposição para tocar nas feridas que ele tão claramente tocou.

China e Brasil estão em crise, mas oferecem respostas completamente opostas na área do desenvolvimento científico

Um dos mantras preferidos atualmente entre governantes e opositores no Brasil é o corte de investimentos (que eles acham que são gastos) em áreas estratégicas para “equilibrar as contas públicas”. Dois locais que já sentiram o ferrão neoliberal foram a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) que tiveram seus orçamentos fortemente drenados. Na Capes, como informa o jornalista Maurício Tuffani no seu blog “Direto da Ciência” (Aqui!), houve um corte de 9% no total de bolsas de pós-graduação oferecidos pela agência. J

Essa tendência de cortar em áreas estratégicas como a ciência sequer é explicada pelos que seguram a tesoura em Brasília, provavelmente porque não há qualquer explicação justifique a opção por atrasar ainda mais o desenvolvimento científico nacional..

Mas um paralelo curioso em relação ao percentual de 9,0% vem da China (como mostra a ilustração abaixo tirada do sítio da revista Science (Aqui!)). É que para responder à desaquecimento da economia chinesa, o governo chinês decidiu aumentar o orçamento do ministério da Ciência em exatos 9,1% para o ano de 2016.

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Além disso, o governo se comprometeu a diminuir as amarras burocráticas que têm dificultado o uso dos recursos governamentais pelos cientistas chineses.  E este é outra diferença marcante  em relação às políticas aplicadas no Brasil, onde os pesquisadores são obrigados a explicar cada centavo gasto e perder horas em relatórios científicos que sabidamente são apenas rotinas burocráticas que pouca gente lê e nenhuma utilidade têm para o avanço do conhecimento.

Mas a matéria da Science ainda traz as áreas em que a ciência chinesa deverá receber mais aportes nos próximos cinco anos, e sua leitura revela a amplitude estratégica com que o governo chinês trata o desenvolvimento científico e tecnológico do país.

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Uma coisa que me chamou a atenção quando visitei a China em 2010 foi a preocupação dos líderes de governo com a questão da poluição ambiental.  E não é que nessa mesma matéria da Science que o governo chinês está reorganizando o Ministério do Ambiente para tratar dos problemas relacionados à poluição (do ar, solos e água) ambiental.

Enquanto isso, aqui no Brasil ficamos assistindo o desmanche das nossas universidades em prol do financiamento de cervejarias e montadoras de automóveis.  E, sim, tolerando incidentes como o da Mineradora Samarco (Vale+ BHP Billiton) que após cinco meses ainda continua jogando seus rejeitos no Rio Doce.

Ciência brasileira na encruzilhada: grandes desafios, orçamentos dilapidados

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Algo que vem passando despercebido na cobertura caolha que a mídia corporativa faz da crise econômica e política que grassa nos diferentes níveis da federação brasileira é o profundo corte de verbas públicas para as universidades e centros de pesquisas nacionais.  Se a coisa já foi tenebrosa em 2015, os cortes orçamentários projetados pelo governo federal e por governos estaduais colocam a maioria dos grupos de pesquisas em um estado de comatose profunda. É que sem recursos mínimos, a maioria das pesquisas que requerem um mínimo de insumos para fluírem são efetivamente inviabilizadas.

O mais impressionante é que neste momento a sociedade brasileira está sendo assolada por um grande número de problemas que demandam respostas científicas precisas que impulsionem a adoção de soluções. Vejamos, por exemplo, a recente disseminação do vírus zika e e a febre chikungunya (lê-se chicungunha), cujos efeitos sobre a saúde humana deixam pálidos aqueles causados pela dengue (Aqui!). A ausência de recursos para pesquisar essas doenças certamente causará mortes e deformações e, de quebra, aumentará ainda mais a sobrecarga da rede pública de saúde, a qual já se encontra totalmente sobrecarregada.

Eu poderia ainda mencionar a falta de qualquer resposta institucional do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) à hecatombe socioambiental iniciada pelo rompimento da barragem do Fundão da Mineradora Samarco em Mariana (MG). Em um país minimamente organizado para atender as demandas reais que emergem na sociedade, uma agência como o CNPq já teria convocado pesquisadores a se associarem em redes para pesquisarem os diferentes compartimentos ambientais que foram devastados pelo TsuLama. Mas até agora a única iniciativa de que se tem é da Fundação de Amparo  à Pesquisa de Minas Gerais (Fapemig) que lançou um edital para pesquisadores interessados em investigar o TsuLama da Samarco e as medidas necessárias para sua mitigação no âmbito do Rio Doce (Aqui!). O problema é que premida pelo encurtamento de recursos, a capacidade de financiamento da Fapemig é consideravelmente menor, e não deverá aportar os recursos minimamente necessários para que pesquisas de grande fôlego sejam realizadas, de modo a estabelecer os limiares de ações de mitigação para este incidente ambiental de proporções apocalípticas.  Tanto isto é verdade que o edital para a recuperação do Rio Doce é de magros R$ 4 milhões, o que se mostra claramente insuficiente para pesquisar uma tragédia de dimensões ainda incalculáveis. 

Mas o que me incomoda mesmo é notar que apesar da magreza do aporte financeiro, continuamos imersos numa cultura institucional que obriga a comunidade científica brasileira a continuar sua rotina de privilegiar a quantidade em detrimento da qualidade.  E isto se traduz na pressão para continuarmos a publicar em quantidades que justifiquem ranqueamentos e premiações. E como já abordei de forma repetida aqui neste blog, tal pressão cria um terreno fértil para a legitimação do “trash science” como forma de qualificar a comunidade científica nacional.  O fato é que não se ouve no plano da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) qualquer ajuste na forma de se avaliar os programas de pós-graduação, em que pesem as evidências de que estamos profundamente contaminados com a cultura do “trash science” onde quantidade é o que importa.

A somatória desses problemas acaba colocando a comunidade científica brasileira diante de um grande dilema. Como evoluir a ciência e atender as demandas emergentes num ambiente de cobertor curta e critérios que privilegiam a quantidade? Algumas respostas estão surgindo e apontam não apenas para formas alternativas de financiamento (como é o caso do mecanismo do “crowdfunding”), mas também para o estabelecimento de redes de cooperação que ultrapassem os limiares do personalismo imposto pelo “trash science”. Ainda que embrionárias, muitas iniciativas no caso do TsuLama da Samarco apontam para a adoção de uma tomada de posição que privilegia a cooperação científica em detrimento do egotismo que grassa atualmente na maioria da comunidade cientifica brasileira.

Essas redes de cooperação são para mim a principal esperança de que possamos superar a encruzilhada em que se encontra a ciência brasileira neste momento. É que formas genuínas de cooperação em rede poderá se mostrar como a única forma de vencermos ao mesmo tempo a falta de recursos e a pressão para que nos submetamos todos à lógica do “trash science”. E como nenhum país se desenvolveu até hoje sem comunidades científicas efetivamente qualificadas, a superação dessa encruzilhada tem tudo a ver com o destino do Brasil enquanto nação independente.