No Direto da Ciência, professor emérito da UNB coloca o dedo na ferida

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Em um artigo publicado hoje no blog “Direto da Ciência” do jornalista Maurício Tuffani, o professor emérito da Universidade Nacional de Brasília (UnB) Nagib Nassar fala de suas expectativas sobre a nova presidência do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e aproveita para colocar o dedo na ferida da ciência nacional (Aqui!).

Apesar de não compartilhar da mesma expectativa positiva, pois penso que os elementos estruturais que o Prof. Nassar aponta corretamente em seu texto independem da pessoa do presidente do CNPq. Entretanto, não há como deixar de observar que as questões apontadas como problemáticas pelo Prof.  Nassar no processo de distribuição de recursos estão corretas. 

Aliás, como já venho observando faz algum tempo, a cultura de priveligiar quantidade versus qualidade na distribuição, por exemplo, das bolsas de produtividade do CNPq geraram uma série de vícios ao permitir, entre outras coisas, o avanço das publicações “trash science” como fontes legítimas de validação de produtividade científica (Aqui!Aqui! e Aqui!).  Esse avanço do “trash science” é inegavelmente um sub-produto da corrupção do processo de “revisão por pares” que é citado pelo Prof. Nassar como um dos sintomas do descontrole que estaria existindo dentro do CNPq no processo de avaliação de projetos de pesquisas submetidos para eventual recebimento de verbas públicas. 

Ainda no tocante à entrega de bolsas de produtividade, penso que se pode ir além nos questionamentos apresentados pelo Prof. Nassar. É que ele aponta a incapacidade de muitos pesquisadores de Nível 1 (A e B) de serem autores principais nos numerosos artigos que incluem em seus currículos na Base Lattes do CNPq. eu vou além e afirmo que muitos pesquisadores 1 que eu conheço não mostram a capacidade de sequer entender a responsabilidade que este tipo de outorga meritocrática implica no desenvolvimento de uma cultura científica dentro de suas instituições. Na verdade, muitos desses pesquisadores ditos do topo da cadeia alimentar da ciência brasileira não raramente se mostram incapazes de demonstrar um mínimo de erudição científica. Este é para mim um sinal ainda pior de que essas bolsas estão sendo distribuídas de acordo com critérios equivocados.

Mas concordo com o Prof. Nassar que um problema adicional grave que foi criado nos últimos anos é de que os que recebem as bolsas de produtividade acabam por concentrar o grosso dos recebimentos de recursos nas diferentes modalidades oferecidas pelo CNPq. Essa situação acaba implicando numa condição permanente de elitização de quadros científicos e inibe a possibilidade de que possamos ter avanços reais na produção científica nacional, o que acaba por reforçar o caráter periférico daquilo que é produzido pela ciência brasileira.

Tenho total concordância com o que o fato de que todo esse processo tem resultado na formação de uma geração de pós-graduados com baixíssima capacidade de liderar futuros cientistas. Como professor de Metodologia da Pesquisa por mais de 18 anos tenho notado a progressiva erosão de conhecimentos básicos acerca dos fundamentos que devem guiar uma pesquisa que possa posteriormente resistir a um processo mais rigoroso de revisão por pares (peer review).  E a causa disso é a pressão vinda do CNPq e também da Capes para que haja mais quantidade de produções, mesmo que sem a necessária qualidade.

Finalmente, voltando ao início deste texto, não possuo muita esperança de que as distorções atuais sejam corrigidas fácil ou rapidamente. Entretanto, a minha expectativa é que mais lideranças da comunidade científica façam como o Prof. Nassar para que comecemos a traçar estratégias que nos permitam sair desse atual estado de coisas, onde poucos têm disposição para tocar nas feridas que ele tão claramente tocou.

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